Outro dia li em alguma crônica por aí, uma pergunta perturbadora: Você já presenciou um inseto morrendo de morte natural? Já viu uma mosca, barata ou pernilongo morrendo solenemente de velhice? E as borboletas, passarinhos e joaninhas? Sabemos que eles morrem, e até contribuímos deveras veementemente para o extermínio do primeiro grupo, mas não costumamos cruzar com um desses bichinhos morrendo sem nenhum motivo aparente, simplesmente pousando e expirando poeticamente, do mais profundo de suas entranhas intactas.
Pois esta semana tive o privilégio de presenciar – pela segunda vez! –a morte natural de um desses misteriosos animaizinhos. Eu esperava o leite ferver quando vi a pequena abelha pousar sobre a pia e, cambaleante, cair de lado mexendo sofregamente as patinhas. Me aproximei com uma cara que deve ter tirado a paz do seu derradeiro momento, e investiguei se ela estava machucada. Mas a abelha estava intacta, toda a sua anatomia no mais perfeito estado. No entanto, ela morria a olhos vistos. Então lembrei que não era a primeira vez que isso acontecia...
Há vários anos atrás, eu e minha irmã presenciamos a mesma cena, onde uma outra abelha moribunda protagonizava uma morte agonizante. Nós assistíamos desesperadas o modo como se contorcia, caía, tornava a equilibra-se, para voltar a cair. As patas, inquietas, mexiam como que pedindo ajuda, mas nós não conseguíamos ver nada que pudesse ser remediado. Nenhuma asa faltando, os meigos olhos sãos, o corpo peludo incólume. Foi quando nos demos conta que a abelha poderia estar morrendo de... fome!! Como não nos demos conta antes!! Corremos até o jardim que minha mãe regava carinhosamente todas as manhãs, e arrancamos meia dúzia de suas margaridas preferidas. Colocamos as flores em volta da abelhinha, e empurramos as corolas em sua direção.
Ora, qualquer abelha do Walt Disney acharia aquele pólen suculento, e se fartaria, sorrindo logo em seguida em nossa direção. Mas a abelha se esquivava, arrastava-se com dificuldade contra as flores, recusava o bálsamo que lhe dávamos, o que nos levou a concluir que aquela abelha sofrera uma desilusão amorosa e queria mesmo morrer! Jamais aceitaríamos que ela poderia morrer de morte natural. As flores, com efeito, serviram de coroa ao seu breve e estranho óbito.
Depois de algum tempo, eu entendi que o ser humano não aceita a morte. Há teorias e correntes filosóficas contrárias a esta idéia, mas o fato é que instintivamente buscamos a vida. Nosso corpo e mente estão condicionados para isto. Por isso sempre reagimos em presença da possibilidade de um óbito, não importa o quanto o noticiário das seis a banalize. Quando conhecemos a Cristo, a Fonte de toda a Vida Verdadeira, é instintivo querermos levar todos os seres a viverem também. Nós, que um dia padecemos sob o jugo do pecado e da morte, sabemos e desejamos que outros saibam como é maravilhoso viver em função de uma Eternidade onde haja vida em abundância.
Mas tenho reparado que por vezes agimos como crianças que, sem reconhecer a real necessidade do ser humano, buscam oferecer-lhe aquilo que, acham em si mesmas, dará salvação a quem beira a morte. Podemos até achar que um corpo de doutrinas perfeito, argumentos racionalmente sólidos, e provas de que pertencemos a religião que prega a Verdade, sejam o que haja de melhor para oferecermos aos nossos semelhantes que morrem por falta de cuidados espirituais. Mas embora todas essas coisas sejam importantes, não são a prioridade em nossos dias, onde tantas pessoas perecem por falta de uma única certeza que lhes dê Esperança. Todas essas coisas serão procuradas espontânea e pessoalmente por aquela pessoa que já teve sua vida salva num Nome Renovador: Jesus Cristo.
Não quero contestar a beleza e perfume das flores que temos oferecido como testemunho da nossa fé. Apenas espero que meditemos se elas têm servido às necessidades mais profundas do ser humano, ou apenas enfeitado sepulturas. Vale a pena pensar que, enquanto dois terços da humanidade tenta disputar com quem está a verdade, e se divide, e dissente, e reclama para si a razão de sua crença, um terço inteiro desta mesma humanidade nunca ouviu o nome de Jesus Cristo.
Neste momentos há pessoas morrendo sem que nós digamos a elas Quem é a Vida. Quando elas descobrirem onde está a Vida – pode ficar tranqüilo – elas também descobrirão o Caminho e a Verdade (João 14:6). E plantarão flores sobre a Rocha.
domingo, 19 de agosto de 2001
domingo, 12 de agosto de 2001
Na casa do feirante Josimar
Moro numa cidade linda, cuja beleza morena não ouso descrever, já que outros poetas e cantores o fizeram bem melhor antes de mim. E qualquer descrição não vale uma visita a carinhosa Cidade do Sol.
No entanto, apesar de ser filha desta linda cidade – o que justifica qualquer postura esnobe – eu não fui agraciada com a oportunidade de ter por vizinho qualquer um de seus pontos turísticos mais famosos, como praias de beleza estonteante, dunas de encantadora grandeza ou magníficos coqueirais paradisíacos. Na urbanidade provinciana de Natal, restou-me por atração turística, a ver da minha janela, a antiquíssima e tradicional "Feira do Carrasco", do bairro do Alecrim.
Certamente não é a atração mais elegante, tampouco a mais interessante ao contigente de turistas consumidoidos. Mas eu mesma não me animo a promover nenhum "tour" que lhe diga respeito, visto que não me agrada nem um pouco a idéia de visitar-lhe as bancas históricas.
A "Feira do Carrasco" (até pesquisei, mas ninguém parece fazer idéia de onde tenha vindo esse nome), é apenas uma enorme feira, que nos remete fielmente às origens desse costume arraigado na cultura dos povos, retratando com originalidade histórica, os burgos que brotavam marginais aos grandes feudos, inclusive com a sordidez de detalhes medievais. Mas se você dispensa apresentações turísticas, basta saber que tudo isso significa uma balbúrdia incompreensível de gritos, tomates, galinhas, "trombadinhas" e toda sorte de artigos comerciáveis, desde fechaduras até móveis para cozinha. Dizem que você encontra de tudo. Eu nunca consegui andar um terço dela para conferir a validade da afirmação...
Mas todo esse intróito é para tentar justificar um fato que me ocorreu por esses dias. O que mais faria uma mulher de salto alto (!)* e taileur estar andando na "Feira do Carrasco", desesperada, às dezessete horas de uma quarta-feira, e entrar ofegante na casa do feirante Josimar? Bem, eu tentei fazer crer que poderia ser o amor ao turismo histórico da minha cidade, mas desconfio que você já imagine um motivo mais feminino típico, como, uma meia-calça desfiada, por exemplo. Mas eu tinha um compromisso urgente, e... bem, deixemos para lá: isto há de ser uma meditação.
A casa do feirante Josimar é um dos lugares mais requisitados da Feira do Carrasco. Como o próprio nome do estabelecimento sugere, não é apenas uma banca na feira, mas um pequeno comércio em sua própria casa. Toda a família trabalha junta, e o motivo de honra é vender tudo com o preço da Feira de Caruaru.
Me chamou atenção em especial, o filho do senhor Josimar. Enquanto eu procurava uma meia-calça, ouvi um som sofrível de teclado acompanhando uma voz fina e, diga-se tudo, desafinada. Como não gosto de perder uma oportunidade de observar o ser humano, fingi-me compenetrada olhando umas blusas vermelhas, enquanto ouvia atentamente a conversa de duas mulheres ao meu lado, uma das quais dizia:
- E ele agora gravou um CD, o filho do feirante Josimar, tá sabendo?
Pois é! Ele vai se apresentar na igreja amanhã, é lindo ele tocando, todo mundo vai lá.
Foi a vez do pai ouvir e acrescentar seus adendos. Falou com um orgulho tão grande do filho, que faria o Luciano Pavarotti se morder de inveja. Desfilou todos os adjetivos bonitos que conhecia, ao ponto de dar gosto a gente ouvir mais o pai que o filho. O menino tem uns doze anos, e tecnicamente ainda tem que melhorar um bocado. Mas quem se importa? É o filho do feirante Josimar! Ele canta na igreja, todo mundo vai lá ver ele tocando e até cantando. Não precisa nem ouvir. O feirante Josimar tem sorte de ter um filho tão espetacular assim, e não há quem não se convença disso quando sente o amor que aquele pai –e empresário para contatos – transpira por todos os poros.
Neste dia dos pais, eu achei que o feirante Josimar seria a figura perfeita para apontar um Pai que também sente grande orgulho de o ser. "Vede que grande amor nos tem concedido o Pai: que fôssemos chamados filhos de Deus; e nós o somos" I Jo 3:1.
Não importa se você não é tão talentoso assim. Se não tem tantos atributos como gostaria de ter. Não há nenhum problema em você não ter dado muitos motivos para esse Pai se orgulhar de você, se tem andado distante dEle. Não importa nem mesmo se você não acredita nEle: Deus te ama e acredita em você! Ele tem grandes planos a dois, e quer sonhar junto com você, participar da sua vida. Não é porque você ou eu mereçamos, não tem a ver com qualquer coisa que tenhamos feito. Ele simplesmente nos ama porque é nosso Pai. Tem orgulho de nós e fica feliz de estar por perto.
Acredite, quando Deus olha para você, sente amor. E é o amor dEle quem nos faz santos, justos e dignos perante todo o Universo. Não deixe de estar com Ele em cada momento desta semana: "Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes com temor, mas recebestes o espírito de adoção, pelo qual clamamos:
Paizinho!" (Romanos 8:15)
*Meus amigos entenderão a exclamação...
No entanto, apesar de ser filha desta linda cidade – o que justifica qualquer postura esnobe – eu não fui agraciada com a oportunidade de ter por vizinho qualquer um de seus pontos turísticos mais famosos, como praias de beleza estonteante, dunas de encantadora grandeza ou magníficos coqueirais paradisíacos. Na urbanidade provinciana de Natal, restou-me por atração turística, a ver da minha janela, a antiquíssima e tradicional "Feira do Carrasco", do bairro do Alecrim.
Certamente não é a atração mais elegante, tampouco a mais interessante ao contigente de turistas consumidoidos. Mas eu mesma não me animo a promover nenhum "tour" que lhe diga respeito, visto que não me agrada nem um pouco a idéia de visitar-lhe as bancas históricas.
A "Feira do Carrasco" (até pesquisei, mas ninguém parece fazer idéia de onde tenha vindo esse nome), é apenas uma enorme feira, que nos remete fielmente às origens desse costume arraigado na cultura dos povos, retratando com originalidade histórica, os burgos que brotavam marginais aos grandes feudos, inclusive com a sordidez de detalhes medievais. Mas se você dispensa apresentações turísticas, basta saber que tudo isso significa uma balbúrdia incompreensível de gritos, tomates, galinhas, "trombadinhas" e toda sorte de artigos comerciáveis, desde fechaduras até móveis para cozinha. Dizem que você encontra de tudo. Eu nunca consegui andar um terço dela para conferir a validade da afirmação...
Mas todo esse intróito é para tentar justificar um fato que me ocorreu por esses dias. O que mais faria uma mulher de salto alto (!)* e taileur estar andando na "Feira do Carrasco", desesperada, às dezessete horas de uma quarta-feira, e entrar ofegante na casa do feirante Josimar? Bem, eu tentei fazer crer que poderia ser o amor ao turismo histórico da minha cidade, mas desconfio que você já imagine um motivo mais feminino típico, como, uma meia-calça desfiada, por exemplo. Mas eu tinha um compromisso urgente, e... bem, deixemos para lá: isto há de ser uma meditação.
A casa do feirante Josimar é um dos lugares mais requisitados da Feira do Carrasco. Como o próprio nome do estabelecimento sugere, não é apenas uma banca na feira, mas um pequeno comércio em sua própria casa. Toda a família trabalha junta, e o motivo de honra é vender tudo com o preço da Feira de Caruaru.
Me chamou atenção em especial, o filho do senhor Josimar. Enquanto eu procurava uma meia-calça, ouvi um som sofrível de teclado acompanhando uma voz fina e, diga-se tudo, desafinada. Como não gosto de perder uma oportunidade de observar o ser humano, fingi-me compenetrada olhando umas blusas vermelhas, enquanto ouvia atentamente a conversa de duas mulheres ao meu lado, uma das quais dizia:
- E ele agora gravou um CD, o filho do feirante Josimar, tá sabendo?
Pois é! Ele vai se apresentar na igreja amanhã, é lindo ele tocando, todo mundo vai lá.
Foi a vez do pai ouvir e acrescentar seus adendos. Falou com um orgulho tão grande do filho, que faria o Luciano Pavarotti se morder de inveja. Desfilou todos os adjetivos bonitos que conhecia, ao ponto de dar gosto a gente ouvir mais o pai que o filho. O menino tem uns doze anos, e tecnicamente ainda tem que melhorar um bocado. Mas quem se importa? É o filho do feirante Josimar! Ele canta na igreja, todo mundo vai lá ver ele tocando e até cantando. Não precisa nem ouvir. O feirante Josimar tem sorte de ter um filho tão espetacular assim, e não há quem não se convença disso quando sente o amor que aquele pai –e empresário para contatos – transpira por todos os poros.
Neste dia dos pais, eu achei que o feirante Josimar seria a figura perfeita para apontar um Pai que também sente grande orgulho de o ser. "Vede que grande amor nos tem concedido o Pai: que fôssemos chamados filhos de Deus; e nós o somos" I Jo 3:1.
Não importa se você não é tão talentoso assim. Se não tem tantos atributos como gostaria de ter. Não há nenhum problema em você não ter dado muitos motivos para esse Pai se orgulhar de você, se tem andado distante dEle. Não importa nem mesmo se você não acredita nEle: Deus te ama e acredita em você! Ele tem grandes planos a dois, e quer sonhar junto com você, participar da sua vida. Não é porque você ou eu mereçamos, não tem a ver com qualquer coisa que tenhamos feito. Ele simplesmente nos ama porque é nosso Pai. Tem orgulho de nós e fica feliz de estar por perto.
Acredite, quando Deus olha para você, sente amor. E é o amor dEle quem nos faz santos, justos e dignos perante todo o Universo. Não deixe de estar com Ele em cada momento desta semana: "Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes com temor, mas recebestes o espírito de adoção, pelo qual clamamos:
Paizinho!" (Romanos 8:15)
*Meus amigos entenderão a exclamação...
domingo, 5 de agosto de 2001
Teopoesia - Como águias
"...Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
(...) Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada."
Reinvenção - Cecília Meireles
Nada mais espantava seus olhos. Eles já haviam visto muito, conhecido além da sua vontade, e agora lhe pesava sobre as pálpebras a sabedoria do bem e do mal. Até achava que não lhe caía bem a postura de "ancião de dias", mas não podia deixar de se sentir assim. Muitos lhe tinham respeito, alguns, estima. Para todos os efeitos ele era apenas uma águia velha.
Leonardo sacudiu as penas com alguma dificuldade e tentou se firmar melhor na pedra onde pousara. Diante de si via os vales que percorrera, e tudo que vivera até aquela momento, o cenho franzido com a ansiedade solene que antecede grandes decisões.
Ele precisava de discernimento e força. Nasceu águia, e como tal, destinado para as alturas. Nunca se conformou com a mediocridade, perseguiu seus objetivos com segurança, determinação e coragem. Não obstante, aprendeu muito cedo que tudo o que viesse a ter, seria dado pelas mãos de Deus. Lutava, deixando que esta vontade imperasse. E obteve muitas vitórias.
Enquanto jovem, conheceu o verdadeiro amor em sua plenitude, por isso era fácil sonhar e acreditar. Tinha fé na verdade e a defendia sinceramente. Assim disposto, deu os melhores anos e talentos de sua vida pelas causas que acreditava, realizou grandes conquistas pessoais, que ao mesmo tempo ajudaram a construir muitos outros que vieram após ele e seguiam-lhe o exemplo. Até queria sentir uma pontinha de orgulho por certas glórias que sua fé persistente lhe proporcionara, mas novamente lembrava que fora Deus quem lhe dera tudo, e simplesmente sorria satisfeito.
Mas vieram também as decepções. Foi traído, atacado injustamente, enganado, ludibriado por semelhantes seus, que muitas vezes professaram compartilhar os mesmos ideais. O perdão passou a ser muito mais uma forma de suportá-los. Enfrentou também tempestades e toda sorte de mal tempo: conseguiu vencê-los, é verdade, mas machucou-se bastante, e a cada nova luta, perdia um pouco mais do seu vigor. Com o tempo percebeu que estava mais sozinho, seus velhos e leais companheiros iam escasseando. Nunca tivera medo de parecer incômodo para defender os princípios em que cria, mas quando jovem isso era encarado como intrepidez, agora, como rabugice...
O cansaço falava tão alto, que ele sentiu ser hora de decidir. Deixar-se morrer, abandonando-se numa derrota plácida? Ceder ao peso dos anos, mágoas, solidão, da sua plumagem obsoleta? Deixar-se conduzir pela mão do tempo, agora seu algoz, e acomodar-se vendo tudo pelo que lutou sendo gradativamente destruído, seus sonhos enterrados, seus ideais pisados, objetivos esquecidos, e as crenças, a verdade que defendera e ajudara a construir, esmagadas aos pés daqueles que, sorrindo-lhe num aceno irônico, decretavam o seu passamento?
Leonardo arremeteu o bico contra a rocha. Sentiu uma dor profunda. Bateu de novo, uma vez mais, e o sangue espirrou. Seguiram-se outras violentas pancadas contra a rocha até que seu bico gasto estivesse completamente estilhaçado. Semanas se passaram e agora um novo bico nascera-lhe. Foi a vez então de arrancar, uma a uma, as suas garras velhas, as quais já estava inutilizadas por não terem corte nem tamanho apropriado. A dor era quase insuportável, mas Leonardo pensava que outras águias já haviam passado pelo mesmo processo de renovação, e assim venceram a morte, vivendo mais vários anos. Ele não queria morrer. Não queria aposentar seus ideais - era uma águia! Nascera para as alturas! E nem tempo, nem decepções, nem qualquer oposição lhe tirariam a ânsia de voar! Enquanto houvesse esperança de viver e lutar, não desistiria.
Para continuar, Leonardo precisou se livrar da parte que havia envelhecido nele. Que estavam gastas e apenas lhe faziam sentir-se incapaz de continuar. Foi difícil e doloroso arrancar de sua própria carne aquela aparência de velhice. Mas valeria a pena. Poderia ser que alguns anos a mais de vida não lhe permitissem ver seus ideais triunfarem, mas ele não se entregaria tão facilmente. Se acomodar era fazer parte do erro que sempre combatera, morrer agora, quando tinha chance de continuar, era envergonhar as crenças que defendera.
E eu confesso-lhe que quero aprender a amar como Leonardo. O que mais explicaria a coragem de renovar-se? Se muitos o traíram, ele jamais traiu seus ideais. Se outros tinham medo, ele continuou a sonhar. Ousou ser ele mesmo, ainda sendo o único a fazê-lo. Nenhum ser sob o céu o viu cair dele, nem abandonar a montanha. Eu, e você também, temos bons motivos para desejar amar assim. Temos um Deus que "faz forte o cansado e multiplica as forças de quem não tem nenhum vigor. Os jovens se cansam e se fatigam, e os moços caem de exaustos, mas os que esperam no Senhor..."¹
Uma semana iluminada!
Luna
¹ Isaías 40: 29-31
as algemas dos meus braços.
(...) Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada."
Reinvenção - Cecília Meireles
Nada mais espantava seus olhos. Eles já haviam visto muito, conhecido além da sua vontade, e agora lhe pesava sobre as pálpebras a sabedoria do bem e do mal. Até achava que não lhe caía bem a postura de "ancião de dias", mas não podia deixar de se sentir assim. Muitos lhe tinham respeito, alguns, estima. Para todos os efeitos ele era apenas uma águia velha.
Leonardo sacudiu as penas com alguma dificuldade e tentou se firmar melhor na pedra onde pousara. Diante de si via os vales que percorrera, e tudo que vivera até aquela momento, o cenho franzido com a ansiedade solene que antecede grandes decisões.
Ele precisava de discernimento e força. Nasceu águia, e como tal, destinado para as alturas. Nunca se conformou com a mediocridade, perseguiu seus objetivos com segurança, determinação e coragem. Não obstante, aprendeu muito cedo que tudo o que viesse a ter, seria dado pelas mãos de Deus. Lutava, deixando que esta vontade imperasse. E obteve muitas vitórias.
Enquanto jovem, conheceu o verdadeiro amor em sua plenitude, por isso era fácil sonhar e acreditar. Tinha fé na verdade e a defendia sinceramente. Assim disposto, deu os melhores anos e talentos de sua vida pelas causas que acreditava, realizou grandes conquistas pessoais, que ao mesmo tempo ajudaram a construir muitos outros que vieram após ele e seguiam-lhe o exemplo. Até queria sentir uma pontinha de orgulho por certas glórias que sua fé persistente lhe proporcionara, mas novamente lembrava que fora Deus quem lhe dera tudo, e simplesmente sorria satisfeito.
Mas vieram também as decepções. Foi traído, atacado injustamente, enganado, ludibriado por semelhantes seus, que muitas vezes professaram compartilhar os mesmos ideais. O perdão passou a ser muito mais uma forma de suportá-los. Enfrentou também tempestades e toda sorte de mal tempo: conseguiu vencê-los, é verdade, mas machucou-se bastante, e a cada nova luta, perdia um pouco mais do seu vigor. Com o tempo percebeu que estava mais sozinho, seus velhos e leais companheiros iam escasseando. Nunca tivera medo de parecer incômodo para defender os princípios em que cria, mas quando jovem isso era encarado como intrepidez, agora, como rabugice...
O cansaço falava tão alto, que ele sentiu ser hora de decidir. Deixar-se morrer, abandonando-se numa derrota plácida? Ceder ao peso dos anos, mágoas, solidão, da sua plumagem obsoleta? Deixar-se conduzir pela mão do tempo, agora seu algoz, e acomodar-se vendo tudo pelo que lutou sendo gradativamente destruído, seus sonhos enterrados, seus ideais pisados, objetivos esquecidos, e as crenças, a verdade que defendera e ajudara a construir, esmagadas aos pés daqueles que, sorrindo-lhe num aceno irônico, decretavam o seu passamento?
Leonardo arremeteu o bico contra a rocha. Sentiu uma dor profunda. Bateu de novo, uma vez mais, e o sangue espirrou. Seguiram-se outras violentas pancadas contra a rocha até que seu bico gasto estivesse completamente estilhaçado. Semanas se passaram e agora um novo bico nascera-lhe. Foi a vez então de arrancar, uma a uma, as suas garras velhas, as quais já estava inutilizadas por não terem corte nem tamanho apropriado. A dor era quase insuportável, mas Leonardo pensava que outras águias já haviam passado pelo mesmo processo de renovação, e assim venceram a morte, vivendo mais vários anos. Ele não queria morrer. Não queria aposentar seus ideais - era uma águia! Nascera para as alturas! E nem tempo, nem decepções, nem qualquer oposição lhe tirariam a ânsia de voar! Enquanto houvesse esperança de viver e lutar, não desistiria.
Para continuar, Leonardo precisou se livrar da parte que havia envelhecido nele. Que estavam gastas e apenas lhe faziam sentir-se incapaz de continuar. Foi difícil e doloroso arrancar de sua própria carne aquela aparência de velhice. Mas valeria a pena. Poderia ser que alguns anos a mais de vida não lhe permitissem ver seus ideais triunfarem, mas ele não se entregaria tão facilmente. Se acomodar era fazer parte do erro que sempre combatera, morrer agora, quando tinha chance de continuar, era envergonhar as crenças que defendera.
E eu confesso-lhe que quero aprender a amar como Leonardo. O que mais explicaria a coragem de renovar-se? Se muitos o traíram, ele jamais traiu seus ideais. Se outros tinham medo, ele continuou a sonhar. Ousou ser ele mesmo, ainda sendo o único a fazê-lo. Nenhum ser sob o céu o viu cair dele, nem abandonar a montanha. Eu, e você também, temos bons motivos para desejar amar assim. Temos um Deus que "faz forte o cansado e multiplica as forças de quem não tem nenhum vigor. Os jovens se cansam e se fatigam, e os moços caem de exaustos, mas os que esperam no Senhor..."¹
Uma semana iluminada!
Luna
¹ Isaías 40: 29-31
segunda-feira, 30 de julho de 2001
Teopoesia - A quem não bateu à tua porta
"Se alguém bater um dia à tua porta,
Dizendo que é um emissário meu,
Não acredites, nem que seja eu;
Que o meu vaidoso orgulho não comporta,
Bater sequer à porta irreal do céu.
Mas se, naturalmente, e sem ouvir
Alguém bater, fores a porta abrir,
E encontrares alguém como que à espera
De ousar bater, medita um pouco. Esse era
Meu emissário e eu e o que comporta
O meu orgulho do que desespera.
Abre a quem não bater à tua porta!"
(Fernando Pessoa)
Ela sentava, olhava para a janela e esperava.
Havia um sentimento de tristeza íntima, uma certa ansiedade borboleteando seus olhos castanhos, mas as tardes mornas de Domingo eram tão azuis, que resistiam à melancolia. De vez em quando ela levantava, ia até o velho teclado e ensaiava um compasso de alguma valsa de Chopin. Fazia isso tão distraidamente, que só descobria ao
fundo da melodia, que ela era uma maneira de evocar o objeto de sua espera. Então suas mãos paravam frias sobre o teclado, e ela voltava a sentar-se em frente a janela, esperando e procurando-o em algum lugar daquele azul tépido.
Por que ele não vinha? A mesa estava posta. Seu coração transbordante de amor. As flores no vaso, sobre a escrivaninha. Os lápis tinham as pontas feitas. Papéis em branco ao lado. Tudo ao redor estava tão pronto quanto ela, e às vezes o vento parava de agitar as cortinas, como que anunciando sua chegada, mas... ele não vinha.
Seu amor era um mar agitado, batendo nas mesmas rochas... tão grande – mas que força estranha... – batendo nas mesmas rochas.
Olhou a porta e conteve-se: alguém precisava abrí-la. A porta também estava pronta. Ela o desejou mais fortemente e foi para perto do azul que a janela lhe dava. Mas admirou-se com o que viu: daquele ângulo ela via muito mais que o céu. Percebeu que havia tanta vida lá fora! E à medida em que inclinava o olhar para baixo da abóbada celeste, ela descobria que naquele momento a terra era mais urgente que o céu.
Perscrutou os detalhes para comprovar essa primeira impressão, e o que viu a fez tremer. Havia pessoas passando diante da sua porta! Bem embaixo da sua janela! Pessoas, pessoas, aqui e até a linha do horizonte! Em todas uma necessidade urgente. Elas deviam estar procurando alguma porta também, pois tinham a mesma expressão de ansiedade que os olhos dele possuíam. Mas não era só ansiedade. Ela tentou desvendar o nome preciso, mas tudo que conseguiu foi cumular uma lista de necessidades: confiança, atenção, perdão, compreensão, bondade, perdão, compaixão, doçura, perdão, perdão!...
Pessoas passando diante da sua porta! Bem embaixo da sua janela! Pessoas necessitando! Mas por que ela estava ali tão alheia? Ela tinha uma mesa posta! Flores no vaso, alguém poderia estar buscando flores! Lápis com pontas feitas, papéis em branco! Meu Deus, ela tinha um coração transbordante de amor! Por que ela estava ali dentro? Ah, porque ela esperava. Ela sentava e esperava. Mas as pessoas continuavam passando, todas elas necessitavam! E ela tinha uma porta pronta! Poderiam estar buscando uma porta...
Sentiu que precisava sair. A calma que o céu azul lhe transmitia fora trocada pela extrema urgência da contemplação terrena. A porta estava pronta, por que as pessoas não abriam? A resposta veio áspera, de si mesma:. porque ele, e todas as outras pessoas não buscavam portas, apenas o amor que elas aprisionavam.
Aquela porta estava pronta para ser aberta por ela e mais ninguém. Tola espera... ela nunca estivera pronta! E se ele chegasse? Se ela partisse e não estivesse mais presente quando ele fosse procurá-la? Como ele reagiria se encontrasse a porta aberta, e nenhum vaso, nenhum lápis ou papel em branco?
Ela sorriu, sorriu alegre como a mais dançante valsa de Chopin. Era tão simples... Ele não iria buscá-la ali. Ele estava também na urgência da Terra, caminhando ao lado de outras pessoas que necessitavam Então era preciso partir, e quando ele chegasse, iria encontrá-la em pé, vivendo de nunca chegar, amando sem reter.
Mais que contemplar o azul: doar-se na urgência da Terra e possuir o céu. Esperar com uma fidelidade ativa, pois o amor que tinha para ele não lhe pertenceria menos se semeado no vento. Havia tanto o que fazer, e ser: abrir-se a um mundo que não bateu a sua porta. E quando ele chegasse, iria tomar posse de um amor que era um lago tranquilo, fluindo sempre na mesma intensidade... tão grande – mas que força estranha... – fluindo na mesma intensidade.
Dizendo que é um emissário meu,
Não acredites, nem que seja eu;
Que o meu vaidoso orgulho não comporta,
Bater sequer à porta irreal do céu.
Mas se, naturalmente, e sem ouvir
Alguém bater, fores a porta abrir,
E encontrares alguém como que à espera
De ousar bater, medita um pouco. Esse era
Meu emissário e eu e o que comporta
O meu orgulho do que desespera.
Abre a quem não bater à tua porta!"
(Fernando Pessoa)
Ela sentava, olhava para a janela e esperava.
Havia um sentimento de tristeza íntima, uma certa ansiedade borboleteando seus olhos castanhos, mas as tardes mornas de Domingo eram tão azuis, que resistiam à melancolia. De vez em quando ela levantava, ia até o velho teclado e ensaiava um compasso de alguma valsa de Chopin. Fazia isso tão distraidamente, que só descobria ao
fundo da melodia, que ela era uma maneira de evocar o objeto de sua espera. Então suas mãos paravam frias sobre o teclado, e ela voltava a sentar-se em frente a janela, esperando e procurando-o em algum lugar daquele azul tépido.
Por que ele não vinha? A mesa estava posta. Seu coração transbordante de amor. As flores no vaso, sobre a escrivaninha. Os lápis tinham as pontas feitas. Papéis em branco ao lado. Tudo ao redor estava tão pronto quanto ela, e às vezes o vento parava de agitar as cortinas, como que anunciando sua chegada, mas... ele não vinha.
Seu amor era um mar agitado, batendo nas mesmas rochas... tão grande – mas que força estranha... – batendo nas mesmas rochas.
Olhou a porta e conteve-se: alguém precisava abrí-la. A porta também estava pronta. Ela o desejou mais fortemente e foi para perto do azul que a janela lhe dava. Mas admirou-se com o que viu: daquele ângulo ela via muito mais que o céu. Percebeu que havia tanta vida lá fora! E à medida em que inclinava o olhar para baixo da abóbada celeste, ela descobria que naquele momento a terra era mais urgente que o céu.
Perscrutou os detalhes para comprovar essa primeira impressão, e o que viu a fez tremer. Havia pessoas passando diante da sua porta! Bem embaixo da sua janela! Pessoas, pessoas, aqui e até a linha do horizonte! Em todas uma necessidade urgente. Elas deviam estar procurando alguma porta também, pois tinham a mesma expressão de ansiedade que os olhos dele possuíam. Mas não era só ansiedade. Ela tentou desvendar o nome preciso, mas tudo que conseguiu foi cumular uma lista de necessidades: confiança, atenção, perdão, compreensão, bondade, perdão, compaixão, doçura, perdão, perdão!...
Pessoas passando diante da sua porta! Bem embaixo da sua janela! Pessoas necessitando! Mas por que ela estava ali tão alheia? Ela tinha uma mesa posta! Flores no vaso, alguém poderia estar buscando flores! Lápis com pontas feitas, papéis em branco! Meu Deus, ela tinha um coração transbordante de amor! Por que ela estava ali dentro? Ah, porque ela esperava. Ela sentava e esperava. Mas as pessoas continuavam passando, todas elas necessitavam! E ela tinha uma porta pronta! Poderiam estar buscando uma porta...
Sentiu que precisava sair. A calma que o céu azul lhe transmitia fora trocada pela extrema urgência da contemplação terrena. A porta estava pronta, por que as pessoas não abriam? A resposta veio áspera, de si mesma:. porque ele, e todas as outras pessoas não buscavam portas, apenas o amor que elas aprisionavam.
Aquela porta estava pronta para ser aberta por ela e mais ninguém. Tola espera... ela nunca estivera pronta! E se ele chegasse? Se ela partisse e não estivesse mais presente quando ele fosse procurá-la? Como ele reagiria se encontrasse a porta aberta, e nenhum vaso, nenhum lápis ou papel em branco?
Ela sorriu, sorriu alegre como a mais dançante valsa de Chopin. Era tão simples... Ele não iria buscá-la ali. Ele estava também na urgência da Terra, caminhando ao lado de outras pessoas que necessitavam Então era preciso partir, e quando ele chegasse, iria encontrá-la em pé, vivendo de nunca chegar, amando sem reter.
Mais que contemplar o azul: doar-se na urgência da Terra e possuir o céu. Esperar com uma fidelidade ativa, pois o amor que tinha para ele não lhe pertenceria menos se semeado no vento. Havia tanto o que fazer, e ser: abrir-se a um mundo que não bateu a sua porta. E quando ele chegasse, iria tomar posse de um amor que era um lago tranquilo, fluindo sempre na mesma intensidade... tão grande – mas que força estranha... – fluindo na mesma intensidade.
domingo, 22 de julho de 2001
Teopoesia - Alberto
"...E o que ele, o coração, aspira, almeja
É o sonho que de lágrimas delira.
É sempre sonho e também é piedade,
Doçura, compaixão e suavidade
E graça e bem, misericórdia pura".
(Cruz e Souza – O coração)
Eu olhei uma vez mais e pisquei meus olhos com força, tornando a encará-los. Eram tão puros aqueles rios, que a água parecia feita de luz e cristal. Ao longe, eu ouvia o grasnar de pássaros, e ao meu redor tudo era verde, de uma paz quase tangível. Mas algo me disse que aquilo não poderia ser verdade, que era um sonho, e a consciência me tomou pela mão levando-me para longe, em direção aos sons estridentes dos pássaros, que ficavam cada vez mais fortes, e pareciam querer pronunciar algumas palavras:
- Tem alguém em casa?!! Abra, abra, por favor!!
Abri os olhos e não deixei de lamentar profundamente a ausência do cenário que contemplava no sonho, enquanto olhava meu quarto pedindo uma faxina. Cocei a cabeça tentando voltar em definitivo à realidade, e reconheci que os sons dos pássaros agora tomavam a forma de vozes agudas e afetadas vindas do portão. Levantei-me, vesti algo às pressas e quando cheguei lá fora, minha mãe já conversava com um
deles: Alberto.
Eu parei na porta, um pouco distante, e ouvi ele falando para minha mãe que meu primo foi encontrado por eles num matagal, violentamente espancado, com vários ferimentos graves na cabeça, inclusive uma fratura craniana, causados por armas típicas de lutadores de artes marciais, enfim, tentativa de homicídio. Alberto e seu amigo, que conheciam bem a vítima, o levaram a casa da avó materna, com quem meu
primo vive, mas a senhora teve um grande choque emocional e nada pôde fazer. Chamaram então a polícia, que o levou até o hospital público estadual, e procuraram minha mãe, que sabiam ser o familiar mais próximo.
De longe o desespero de Alberto parecia esdrúxulo. Suas lágrimas desfiguravam ainda mais o rosto maquiado grotescamente, e deslizando por um vinco junto ao nariz, vinham a cair nos lábios besuntados de batom vermelho. As mãos de Alberto se contorciam pregadas uma a outra enquanto ele falava, se abandonando apenas quando a mão direita saía ao encontro da sua mini-blusa branca, manchada de sangue, onde uma
fina alça insistia em cair-lhe dos ombros magros. Seus joelhos emanavam um ligeiro tremor que se propagava até sua saia vermelha e curta. Olhando assim, de longe, não era difícil de reparar que a história de Alberto era muito parecida à do meu primo, pois ambos viviam num mesmo submundo. Viviam? Pessoas como Alberto não vivem, atuam. Não têm outra alternativa diante da maldade que exala dos mais baixos níveis humanos, único lugar onde eles acham abrigo todas as noites. Maquiam o rosto e o espírito; quando podem, com drogas, quando não, com a ilusão de que são livres e alegres.
O choque da notícia não me fez recuar, antes me atraiu para ainda mais perto de Alberto, sem que ele reparasse em mim. Agora seu desespero parecia mais humano, pois pude observar outros vincos no seu rosto, algumas marcas no seu corpo, expressões . Em cada um desses sinais estava escrito um pecado, marcados ali com fogo e dor. Cada um reclamava para si e para aquele mundo miserável, a alma de Alberto, que já devia crer, como meu primo, que aquele era seu lugar, a prisão que lhe cabia como prêmio por ter buscado uma tal "liberdade". Involuntariamente passei as mãos pelo rosto, certificando-me das minhas próprias marcas. Há pessoas que optam por escondê-las mais a fundo, onde olhos humanos não possam chegar. Alberto as trazia estampadas...por quê? Talvez fosse sua maneira de pedir socorro. Ele vivia sorrindo e contrariando valores, mas era apenas alguém ousando pedindo socorro. Saberá ele disso?
Aquelas mãos nervosas haviam há pouco prestado socorro a um membro de minha família, que agora agonizava. Aquela mancha de sangue na blusa de Alberto, me fazia interrogar por uma humanidade inteira que agoniza, sangrando junto com o Filho de Deus. Jesus Cristo sente a dor, e espera – até quando? – o momento de estancar com Suas próprias mãos, essa ferida aberta que se tornou nossas vidas aqui, neste mundinho. Ele sabe o valor que tem sangue derramado.
Enquanto eu pensava nisso, cheguei tão perto de Alberto que os olhos dele vieram com força em minha direção. Agora, tão próximo dele, seu desespero era também o meu e de todos que simplesmente não agüentam mais. Naqueles olhos eu vi refletido o desejo comum a todo ser humano: "doçura, compaixão e suavidade, e graça, e bem, misericórdia
pura", o anseio universal pela felicidade completa. Me dei conta que esses olhos são a parte do ser humano onde estão fixos o olhos de Jesus, e Ele está assim, perto o suficiente para ver além de nosso invólucro deficiente de humanidade.
Nos olhos de Alberto que eu vi a maior de todas as nossas Esperanças...saberá ele disso? Voltando a sonhar, olhei uma vez mais e pisquei meus olhos com força, tornando a encará-los. Eram tão puros aqueles rios que a água parecia feita de luz e cristal.
Uma semana iluminada,
Luna
É o sonho que de lágrimas delira.
É sempre sonho e também é piedade,
Doçura, compaixão e suavidade
E graça e bem, misericórdia pura".
(Cruz e Souza – O coração)
Eu olhei uma vez mais e pisquei meus olhos com força, tornando a encará-los. Eram tão puros aqueles rios, que a água parecia feita de luz e cristal. Ao longe, eu ouvia o grasnar de pássaros, e ao meu redor tudo era verde, de uma paz quase tangível. Mas algo me disse que aquilo não poderia ser verdade, que era um sonho, e a consciência me tomou pela mão levando-me para longe, em direção aos sons estridentes dos pássaros, que ficavam cada vez mais fortes, e pareciam querer pronunciar algumas palavras:
- Tem alguém em casa?!! Abra, abra, por favor!!
Abri os olhos e não deixei de lamentar profundamente a ausência do cenário que contemplava no sonho, enquanto olhava meu quarto pedindo uma faxina. Cocei a cabeça tentando voltar em definitivo à realidade, e reconheci que os sons dos pássaros agora tomavam a forma de vozes agudas e afetadas vindas do portão. Levantei-me, vesti algo às pressas e quando cheguei lá fora, minha mãe já conversava com um
deles: Alberto.
Eu parei na porta, um pouco distante, e ouvi ele falando para minha mãe que meu primo foi encontrado por eles num matagal, violentamente espancado, com vários ferimentos graves na cabeça, inclusive uma fratura craniana, causados por armas típicas de lutadores de artes marciais, enfim, tentativa de homicídio. Alberto e seu amigo, que conheciam bem a vítima, o levaram a casa da avó materna, com quem meu
primo vive, mas a senhora teve um grande choque emocional e nada pôde fazer. Chamaram então a polícia, que o levou até o hospital público estadual, e procuraram minha mãe, que sabiam ser o familiar mais próximo.
De longe o desespero de Alberto parecia esdrúxulo. Suas lágrimas desfiguravam ainda mais o rosto maquiado grotescamente, e deslizando por um vinco junto ao nariz, vinham a cair nos lábios besuntados de batom vermelho. As mãos de Alberto se contorciam pregadas uma a outra enquanto ele falava, se abandonando apenas quando a mão direita saía ao encontro da sua mini-blusa branca, manchada de sangue, onde uma
fina alça insistia em cair-lhe dos ombros magros. Seus joelhos emanavam um ligeiro tremor que se propagava até sua saia vermelha e curta. Olhando assim, de longe, não era difícil de reparar que a história de Alberto era muito parecida à do meu primo, pois ambos viviam num mesmo submundo. Viviam? Pessoas como Alberto não vivem, atuam. Não têm outra alternativa diante da maldade que exala dos mais baixos níveis humanos, único lugar onde eles acham abrigo todas as noites. Maquiam o rosto e o espírito; quando podem, com drogas, quando não, com a ilusão de que são livres e alegres.
O choque da notícia não me fez recuar, antes me atraiu para ainda mais perto de Alberto, sem que ele reparasse em mim. Agora seu desespero parecia mais humano, pois pude observar outros vincos no seu rosto, algumas marcas no seu corpo, expressões . Em cada um desses sinais estava escrito um pecado, marcados ali com fogo e dor. Cada um reclamava para si e para aquele mundo miserável, a alma de Alberto, que já devia crer, como meu primo, que aquele era seu lugar, a prisão que lhe cabia como prêmio por ter buscado uma tal "liberdade". Involuntariamente passei as mãos pelo rosto, certificando-me das minhas próprias marcas. Há pessoas que optam por escondê-las mais a fundo, onde olhos humanos não possam chegar. Alberto as trazia estampadas...por quê? Talvez fosse sua maneira de pedir socorro. Ele vivia sorrindo e contrariando valores, mas era apenas alguém ousando pedindo socorro. Saberá ele disso?
Aquelas mãos nervosas haviam há pouco prestado socorro a um membro de minha família, que agora agonizava. Aquela mancha de sangue na blusa de Alberto, me fazia interrogar por uma humanidade inteira que agoniza, sangrando junto com o Filho de Deus. Jesus Cristo sente a dor, e espera – até quando? – o momento de estancar com Suas próprias mãos, essa ferida aberta que se tornou nossas vidas aqui, neste mundinho. Ele sabe o valor que tem sangue derramado.
Enquanto eu pensava nisso, cheguei tão perto de Alberto que os olhos dele vieram com força em minha direção. Agora, tão próximo dele, seu desespero era também o meu e de todos que simplesmente não agüentam mais. Naqueles olhos eu vi refletido o desejo comum a todo ser humano: "doçura, compaixão e suavidade, e graça, e bem, misericórdia
pura", o anseio universal pela felicidade completa. Me dei conta que esses olhos são a parte do ser humano onde estão fixos o olhos de Jesus, e Ele está assim, perto o suficiente para ver além de nosso invólucro deficiente de humanidade.
Nos olhos de Alberto que eu vi a maior de todas as nossas Esperanças...saberá ele disso? Voltando a sonhar, olhei uma vez mais e pisquei meus olhos com força, tornando a encará-los. Eram tão puros aqueles rios que a água parecia feita de luz e cristal.
Uma semana iluminada,
Luna
segunda-feira, 16 de julho de 2001
Teopoesia - O amor inocente
Chegaram as esperadas férias de julho, e com elas uma promessa: este mês só vou ler poesias e escutar Chopin. Resolvi dar uma pausa com o Direito e outros assuntos mais graves, porque minha alma está sedenta de brandura. Como em uns versos que escrevi há
muito tempo (e nem tive o pudor de revisar):
"Não há mínima pressa em meu viver;
Quero senti-lo até meu passamento.
Vou amar sem cautela e não entristecer,
Por ter a certeza de alçar o momento.
E não me importam sombra ou amargura,
Que venham ter comigo em meu pesar.
Hei de provar do mel toda doçura,
Todas canções, amando, irei cantar.
Lenta, tempestuarei em mares de ternura,
Junto à sandice irei bailar no vento,
Na minha vida acentuar a brandura,
Pois mesmo sendo prazer e tormento,
Que junto à vida, dores transfigura,
O amor encobre todo sofrimento."
Eu ainda cria em pequenas verdades, que eram tolas, mas eram só minhas. Perde-se muito nas buscas fora de si mesmo. Agora quero tudo que houver de doce e terno. Reaprender rimas pobres para combinar "pesar" com "cantar". Dar asas ao pensamento como quem plana na brisa e, como no tempo em que escrevi este sofrível soneto, não me preocupar com nada além da minha felicidade e a de tudo mais que estiver num raio de duas vezes o diâmetro da Terra. As quatro meditações que seguirão este mês, frutos do ócio criativo, terão como tempero uma cheiro de poesia, que é a minha própria essência. São histórias reais, nem mais nem menos que a luta de pessoas que descrevem a palavra humanidade. Dou-me a liberdade de "tempestuar" em mares de ternura com a mesma energia pueril de outrora, mas agora com versos que conhecem além: o poder que o Amor – o Verdadeiro Amor – tem para encobrir todo sofrimento. Deixem-me ousar falar de Deus assim..
Luna
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
O amor inocente
"Última flor do Lácio, inculta e bela,
És a um tempo, esplendor e sepultura..."
Flor era inculta e bela. Não nascera no Lácio, mas sem o saber, era lasciva. Naquele momento ela se achava a última, a pior de todas as mulheres. Tinha consciência do esplendor de sua beleza, mas se sentia sepultura: "um sepulcro caiado" diria a mãe. A mãe é quem tinha razão.
Puxou a saia um pouco mais para baixo e releu os primeiros versos daquele poema, tentando se concentrar, mas não conseguia deixar de pensar no olhos do professor de literatura percorrendo-a despudoradamente. "Droga de saia de lycra que não se ajeita!". Ela sabia que não precisava fazer a prova. Como em todos os bimestres anteriores, bastaria assinar seu nome, entregar o exame em branco e esperar o professor em frente ao carro dele. Lembrou dos olhos monstruosos daquele homem vindo em sua direção, o sorriso malicioso com um fio de saliva se destacando enquanto dizia: "boa menina...você vai tirar dez, meu amor". O estômago da garota se contraiu. "Meu amor?"
Inclinou-se um pouco mais sobre a carteira, segurando firme o lápis. Haveria de entender os próximos versos.
"... Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio da ventura e o amor sem brilho!"¹
Flor percorreu as questões que se seguiam com olhos cada vez mais desesperados, intimamente revoltada. Ela sabia que era inteligente, tinha valor. A mãe sempre lhe dissera isso: "nunca deixe que duvidem dos seus valores", mas ela não sabe em que momento ao certo deixou de acreditar em si mesma. Talvez quando percebeu que ser dotada de beleza poderia lhe trazer muitas vantagens. Ganhar cada vez mais através do seu corpo tornou-se um desafio e logo ela se acostumou com isso, todos faziam – essa parecia a lei. Foi desacreditando na beleza que havia dentro dela, em sua capacidade de amar, em sua inteligência; esses era lugares onde ninguém nunca demorava um olhar. Foi começando a duvidar de Deus e Sua justiça, porque seu mundo foi sendo invadido por maldade, interesse e corrupção. Já não conseguia se libertar de seus vícios, nem dizer não aos seus erros, e o tempo, cínico, foi fazendo ser cada vez mais fácil deixar de pensar nas coisas certas. Agora não queria mais pensar nelas. Tudo que tinha de fazer era conseguir mais prazer e diversão, enquanto a beleza ainda fosse sua aliada.
Mas agora ela se sentia estranhamente envergonhada. Lembrou dos olhares odiosos que as garotas da escola lhe lançavam, e das expressões maldosas que os meninos lhe dirigiam. Sempre conviveu com aquilo como se merecesse, como se tivesse nascido para o opróbrio – essa também parecia a lei. E sua saia parecia cada vez mais curta.
"...em que Camões chorou, no exílio amargo..."
A garota fechou os olhos tentando lembrar do significado da palavra exílio. Nada lhe vinha à mente, e as palavras se misturavam confusas: amargo, rude, doloroso – isso ela conhecia bem... "amor, a voz materna..." lembrou dos versículos que a mãe obrigava-a a memorizar quando estudavam a Bíblia juntas. Fazia muito tempo, mas as palavras ainda ecoavam em seu coração. Havia também as histórias que as professoras contavam na classe de estudos bíblicos da igreja, e houve até uma vez em que ela ganhara um prêmio, uma Bíblia azul, porque conseguira decorar um capítulo inteiro do livro de provérbios... um dos versículos dizia: "O que faz com que os retos se desviem para um mau caminho, ele mesmo cairá na cova que abriu; mas os inocentes herdarão o bem". (Provérbios 28:10). Onde estaria agora a Bíblia azul?
Mas ela tinha que lembrar o significado da palavra exílio e apertou mais os olhos; amargo, rude, doloroso, amor, a voz materna... amor... inocentes... amor sem brilho... amor sem inocência. Onde estaria agora a inocência?Haveria alguém tão inocente a ponto de amar? Tudo que ela conhecera sobre o amor foi sem brilho, vazio, egoísta e doloroso. "Olá Camões, eu também conheço o amor sem brilho". Flor não sabia quem era Camões, mas como ele, também chorou, de olhos menos apertados que seu coração. Queria ser capaz de amar de novo, com a mesma entrega inocente e completa de que foi capaz algum dia, mas como fazer isso sem se machucar? Valeria a pena, afinal? Aqui, todos só haviam procurado-a para satisfazer seus próprios interesses, para usá-la e abandoná-la quando fosse conveniente, e sempre que acreditou ter encontrado sinceridade, veio a decepção logo em seguida. Com o tempo ela aprendera também a usar as pessoas e amar coisas: era mais seguro assim... o que fazer para voltar a crer? Se a mãe estivesse ali ela lhe diria; a mãe sempre tinha razão. Mesmo quando se vestia tão mal com aquelas saias de "crente"; saias de lycra não se ajeitam.
Agora Flor estaria completamente só... não fosse a força da voz materna, vindo clara e segura em sua lembrança: "...Pois que com amor eterno te amei"... Jeremias 31:3 Flor abriu os olhos e sorriu. Sim, havia Alguém que ainda era capaz de amar, de derramar Seu sangue inocente por isso. Haveria de existir na cruz de Cristo, uma gota de sangue que lhe pertencia, lhe dando direito a uma vida melhor, a um amor como sempre quis ter junto de si. Havia Jesus, sempre tão rejeitado do seu coração rebelde, mas agora aparecendo como o único ser capaz de amar e se entregar de forma completa e inocente, como ela e ninguém mais seria capaz de fazer. Havia Deus acreditando até o último instante na beleza e importância da sua alma por inteira.
Pela primeira vez, Flor se sentiu acolhida, num mundo que só se importava em colher. E decidiu também amar e se entregar Àquele que estava esperando ansioso para transformá-la. O único interesse daquele Amor era salvá-la, e não dava mais para adiar o momento de ser feliz de verdade.
Andando em passos firmes, Flor enxugou as lágrimas e dirigiu-se até o professor. Ele tinha uma grande interrogação nos olhos e esperava dos lábios trêmulos da garota, uma palavra que demorou, demorou e não veio. Flor rasgou a prova num silêncio que dizia ao professor: "vou recomeçar". Deu as costas àquilo tudo, e seu sorriso tornou-se mais amplo. Como acontece a quem descobre que um Amor Inocente lhe salvou.
¹Língua Portuguesa, poesia de Olavo Bilac.
muito tempo (e nem tive o pudor de revisar):
"Não há mínima pressa em meu viver;
Quero senti-lo até meu passamento.
Vou amar sem cautela e não entristecer,
Por ter a certeza de alçar o momento.
E não me importam sombra ou amargura,
Que venham ter comigo em meu pesar.
Hei de provar do mel toda doçura,
Todas canções, amando, irei cantar.
Lenta, tempestuarei em mares de ternura,
Junto à sandice irei bailar no vento,
Na minha vida acentuar a brandura,
Pois mesmo sendo prazer e tormento,
Que junto à vida, dores transfigura,
O amor encobre todo sofrimento."
Eu ainda cria em pequenas verdades, que eram tolas, mas eram só minhas. Perde-se muito nas buscas fora de si mesmo. Agora quero tudo que houver de doce e terno. Reaprender rimas pobres para combinar "pesar" com "cantar". Dar asas ao pensamento como quem plana na brisa e, como no tempo em que escrevi este sofrível soneto, não me preocupar com nada além da minha felicidade e a de tudo mais que estiver num raio de duas vezes o diâmetro da Terra. As quatro meditações que seguirão este mês, frutos do ócio criativo, terão como tempero uma cheiro de poesia, que é a minha própria essência. São histórias reais, nem mais nem menos que a luta de pessoas que descrevem a palavra humanidade. Dou-me a liberdade de "tempestuar" em mares de ternura com a mesma energia pueril de outrora, mas agora com versos que conhecem além: o poder que o Amor – o Verdadeiro Amor – tem para encobrir todo sofrimento. Deixem-me ousar falar de Deus assim..
Luna
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
O amor inocente
"Última flor do Lácio, inculta e bela,
És a um tempo, esplendor e sepultura..."
Flor era inculta e bela. Não nascera no Lácio, mas sem o saber, era lasciva. Naquele momento ela se achava a última, a pior de todas as mulheres. Tinha consciência do esplendor de sua beleza, mas se sentia sepultura: "um sepulcro caiado" diria a mãe. A mãe é quem tinha razão.
Puxou a saia um pouco mais para baixo e releu os primeiros versos daquele poema, tentando se concentrar, mas não conseguia deixar de pensar no olhos do professor de literatura percorrendo-a despudoradamente. "Droga de saia de lycra que não se ajeita!". Ela sabia que não precisava fazer a prova. Como em todos os bimestres anteriores, bastaria assinar seu nome, entregar o exame em branco e esperar o professor em frente ao carro dele. Lembrou dos olhos monstruosos daquele homem vindo em sua direção, o sorriso malicioso com um fio de saliva se destacando enquanto dizia: "boa menina...você vai tirar dez, meu amor". O estômago da garota se contraiu. "Meu amor?"
Inclinou-se um pouco mais sobre a carteira, segurando firme o lápis. Haveria de entender os próximos versos.
"... Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio da ventura e o amor sem brilho!"¹
Flor percorreu as questões que se seguiam com olhos cada vez mais desesperados, intimamente revoltada. Ela sabia que era inteligente, tinha valor. A mãe sempre lhe dissera isso: "nunca deixe que duvidem dos seus valores", mas ela não sabe em que momento ao certo deixou de acreditar em si mesma. Talvez quando percebeu que ser dotada de beleza poderia lhe trazer muitas vantagens. Ganhar cada vez mais através do seu corpo tornou-se um desafio e logo ela se acostumou com isso, todos faziam – essa parecia a lei. Foi desacreditando na beleza que havia dentro dela, em sua capacidade de amar, em sua inteligência; esses era lugares onde ninguém nunca demorava um olhar. Foi começando a duvidar de Deus e Sua justiça, porque seu mundo foi sendo invadido por maldade, interesse e corrupção. Já não conseguia se libertar de seus vícios, nem dizer não aos seus erros, e o tempo, cínico, foi fazendo ser cada vez mais fácil deixar de pensar nas coisas certas. Agora não queria mais pensar nelas. Tudo que tinha de fazer era conseguir mais prazer e diversão, enquanto a beleza ainda fosse sua aliada.
Mas agora ela se sentia estranhamente envergonhada. Lembrou dos olhares odiosos que as garotas da escola lhe lançavam, e das expressões maldosas que os meninos lhe dirigiam. Sempre conviveu com aquilo como se merecesse, como se tivesse nascido para o opróbrio – essa também parecia a lei. E sua saia parecia cada vez mais curta.
"...em que Camões chorou, no exílio amargo..."
A garota fechou os olhos tentando lembrar do significado da palavra exílio. Nada lhe vinha à mente, e as palavras se misturavam confusas: amargo, rude, doloroso – isso ela conhecia bem... "amor, a voz materna..." lembrou dos versículos que a mãe obrigava-a a memorizar quando estudavam a Bíblia juntas. Fazia muito tempo, mas as palavras ainda ecoavam em seu coração. Havia também as histórias que as professoras contavam na classe de estudos bíblicos da igreja, e houve até uma vez em que ela ganhara um prêmio, uma Bíblia azul, porque conseguira decorar um capítulo inteiro do livro de provérbios... um dos versículos dizia: "O que faz com que os retos se desviem para um mau caminho, ele mesmo cairá na cova que abriu; mas os inocentes herdarão o bem". (Provérbios 28:10). Onde estaria agora a Bíblia azul?
Mas ela tinha que lembrar o significado da palavra exílio e apertou mais os olhos; amargo, rude, doloroso, amor, a voz materna... amor... inocentes... amor sem brilho... amor sem inocência. Onde estaria agora a inocência?Haveria alguém tão inocente a ponto de amar? Tudo que ela conhecera sobre o amor foi sem brilho, vazio, egoísta e doloroso. "Olá Camões, eu também conheço o amor sem brilho". Flor não sabia quem era Camões, mas como ele, também chorou, de olhos menos apertados que seu coração. Queria ser capaz de amar de novo, com a mesma entrega inocente e completa de que foi capaz algum dia, mas como fazer isso sem se machucar? Valeria a pena, afinal? Aqui, todos só haviam procurado-a para satisfazer seus próprios interesses, para usá-la e abandoná-la quando fosse conveniente, e sempre que acreditou ter encontrado sinceridade, veio a decepção logo em seguida. Com o tempo ela aprendera também a usar as pessoas e amar coisas: era mais seguro assim... o que fazer para voltar a crer? Se a mãe estivesse ali ela lhe diria; a mãe sempre tinha razão. Mesmo quando se vestia tão mal com aquelas saias de "crente"; saias de lycra não se ajeitam.
Agora Flor estaria completamente só... não fosse a força da voz materna, vindo clara e segura em sua lembrança: "...Pois que com amor eterno te amei"... Jeremias 31:3 Flor abriu os olhos e sorriu. Sim, havia Alguém que ainda era capaz de amar, de derramar Seu sangue inocente por isso. Haveria de existir na cruz de Cristo, uma gota de sangue que lhe pertencia, lhe dando direito a uma vida melhor, a um amor como sempre quis ter junto de si. Havia Jesus, sempre tão rejeitado do seu coração rebelde, mas agora aparecendo como o único ser capaz de amar e se entregar de forma completa e inocente, como ela e ninguém mais seria capaz de fazer. Havia Deus acreditando até o último instante na beleza e importância da sua alma por inteira.
Pela primeira vez, Flor se sentiu acolhida, num mundo que só se importava em colher. E decidiu também amar e se entregar Àquele que estava esperando ansioso para transformá-la. O único interesse daquele Amor era salvá-la, e não dava mais para adiar o momento de ser feliz de verdade.
Andando em passos firmes, Flor enxugou as lágrimas e dirigiu-se até o professor. Ele tinha uma grande interrogação nos olhos e esperava dos lábios trêmulos da garota, uma palavra que demorou, demorou e não veio. Flor rasgou a prova num silêncio que dizia ao professor: "vou recomeçar". Deu as costas àquilo tudo, e seu sorriso tornou-se mais amplo. Como acontece a quem descobre que um Amor Inocente lhe salvou.
¹Língua Portuguesa, poesia de Olavo Bilac.
sábado, 7 de julho de 2001
Canil
Chegara enfim o grande momento. Ela esperou durante meses uma oportunidade, a melhor ocasião, mas agora tomara a decisão: era hora de criar um cachorrinho. A vontade já existia há tanto tempo quanto imperava a solidão (que mundo frio esse nosso), e a companhia dócil, amável e fiel de um animal lhe parecia muito mais atraente que uma consulta nos nomes masculinos em sua agenda telefônica.
Como toda grande decisão feminina, mister foi divulgá-la a todas as amigas, para ouvir sugestões, críticas e deliciar-se com os olhares tomados de uma inveja espantada: "Ela vai criar um cachorro! Ela pode fazer isso!". Lojas de animais foram sugeridas, algumas razoáveis, outras em que ela nunca ousaria entrar, todas deprimentes com suas jaulas minúsculas. Com a testa franzida, ela pensou na maldade que é fazer comércio de vidas , e com o contracheque na mão decidiu que não incentivaria tal prática. Até que lhe veio a idéia iluminada, resplandecente nestes tempos de apagão: escolheria seu cachorrinho num canil.
Ao deparar-se com o centro de controle do zoonoses relutou se uma loja de animais não seria uma visão menos terrível, mas respirou fundo e um pensamento lhe fez continuar: "Não importa o que eu veja, o importante é que estou aqui hoje para salvar um deles" – o sentimento salvador era a propulsão que precisava para sair do carro e ir em frente.
Um funcionário a interpelou na recepção, olhar sonolento, mas muito prestativo. Ela contou-lhe sua decisão, já não mais tão sorridente como o fizera às amigas, mas ele pareceu se empolgar mais que elas. Levou-a até uma ala de paredes brancas cobertas de musgo e com o reboco cheio de falhas, onde havia um portão enegrecido ostentando um cadeado gasto. Os sons que vinham lá de dentro fizeram o coração dela disparar de ansiedade e horror. De repente se viu diante de um corredor, com pequenas celas de ambos os lados, por trás das quais pequenos seres peludos lhe atiravam olhares e latidos comoventes. Alheio a seu nó na garganta, o funcionário caminhava atrás dela falando detalhes do trabalho que era feito com os animais, a importância para o controle de doenças, e - a parte que ela mais temia ouvir – que todos aqueles animais seriam sacrificados caso não aparecesse alguém disposto a "adotá-los". Usam gás; é rápido e indolor. Ela caminhou mais lentamente e reparou que o corredor da morte lhe parecia maior agora. "Poderia ser menor..."
Ficou algum tempo contemplando aqueles olhinhos caninos, alguns dóceis e meigos sem desconfiar de seu destino, outros ríspidos como que prevendo a sorte funesta, e ainda outros brincalhões, serelepes, violentos, tristonhos, cansados, doentes. Mas tinha que escolher só um??? Pensou na cara da mãe vendo ela chegar em casa com quinze vira-latas embaixo do braço. É, tinha que ser só um. Quando limpou a lágrima furtiva que lhe caía do olho esquerdo (como era bom ser mulher nesse momento e não ter que dar motivos para chorar:
cisco, conjutivite, a morte da tia), reparou num gesto de impaciência do funcionário e resolveu fazer tudo rapidamente, sem escolher demais.
Parou em frente a uma cela onde uma cauda de pequinês se agitava freneticamente e decidiu que seria aquele. Ela se abaixou e chegou bem perto dele cochichando: "parabéns, você ganhou a salvação". A pequena bola de pêlos levantou as orelhas, inclinou a cabeça para a direita e piscou.
Quando saía do corredor com o cachorrinho, novo tumulto de latidos e gemidos ecoou fazendo ela cair no choro de uma vez. Agradeceu ao funcionário, entrou no carro com o pequinês no colo e ficou ali um tempo fazendo planos de divulgar ao máximo de pessoas que aqueles cachorrinhos precisavam de outros salvadores. Imaginou a alegria da cachorrada toda saindo dali em bando, para gozar a liberdade num lugar tranquilo, amplo, com bastante comida e carinho.
E por causa de uma paixão incurável pelas coisas do alto, dirigiu seus pensamentos até Deus, num instinto de prece.Ela pensou no privilégio que Jesus teve em ser o Salvador de uma raça inteira que estava condenada à morte. Na alegria com que se dispôs a dar a vida por essa raça inferior, tal qual eu não acho provável que nenhum ser humano se animasse a dar em prol dos cães.
Nos planos que fez para levar toda a humanidade até um lugar de paz, tranquilidade e carinho: o Seu próprio Lar Celestial, onde haveria vida e gozo em abundância. Mas de repente ela pensou no que é a frustração de um Salvador. Imaginou como ela se sentira se abrisse as ortas daquele canil convidando todos os cachorros a virem após ela, para obterem vida eterna e descanso para suas almas, e alguns deles permanecessem e suas celas por acharem aquele malcheiroso antro o melhor lugar para um cachorro se viver. E que alguns deles ladrariam em sua direção: "ora, saia daqui, não acredito em você, você é criação de mentes de cães fracos. Deixe-me com minha ração e minha vida de cachorro porque a morte é uma consequência natural da nossa raça, só nos resta aproveitar o que temos agora", ela não saberia reagir diante desses cães epicuristas! E que dizer dos "caneístas",
que lhe lançariam um olhar de respeito mas murmurariam: "acredito em sua força superior, mas não convém que você interfira em nossa vida de cão". Pior seria se alguns deles, crentes na verdade do convite feito, dissessem que iriam depois, assim que tivessem tempo, pois agora estavam de olho naquele gato em cima do muro, e um cachorro neste mundo precisa sobreviver, e só alcança dignidade se perseguir um gato. Menos mal diante dos que poderiam se arremeter contra ela dispostos a despedaçar-lhe, em violento ataque contra quem só desejava dar-lhe a Salvação...
Ela sorriu interrogando a si mesma quem no mundo daria crédito àquela teologia canina. Ora, era apenas uma divagação, e difícil crer que alguém no mundo além dela tivesse tais delírios. O olhar doce do pequinês parecia querer compreender-lhe. Ela alisou os tufos marrons da cabeça dele, ligou o carro e partiu.
Como toda grande decisão feminina, mister foi divulgá-la a todas as amigas, para ouvir sugestões, críticas e deliciar-se com os olhares tomados de uma inveja espantada: "Ela vai criar um cachorro! Ela pode fazer isso!". Lojas de animais foram sugeridas, algumas razoáveis, outras em que ela nunca ousaria entrar, todas deprimentes com suas jaulas minúsculas. Com a testa franzida, ela pensou na maldade que é fazer comércio de vidas , e com o contracheque na mão decidiu que não incentivaria tal prática. Até que lhe veio a idéia iluminada, resplandecente nestes tempos de apagão: escolheria seu cachorrinho num canil.
Ao deparar-se com o centro de controle do zoonoses relutou se uma loja de animais não seria uma visão menos terrível, mas respirou fundo e um pensamento lhe fez continuar: "Não importa o que eu veja, o importante é que estou aqui hoje para salvar um deles" – o sentimento salvador era a propulsão que precisava para sair do carro e ir em frente.
Um funcionário a interpelou na recepção, olhar sonolento, mas muito prestativo. Ela contou-lhe sua decisão, já não mais tão sorridente como o fizera às amigas, mas ele pareceu se empolgar mais que elas. Levou-a até uma ala de paredes brancas cobertas de musgo e com o reboco cheio de falhas, onde havia um portão enegrecido ostentando um cadeado gasto. Os sons que vinham lá de dentro fizeram o coração dela disparar de ansiedade e horror. De repente se viu diante de um corredor, com pequenas celas de ambos os lados, por trás das quais pequenos seres peludos lhe atiravam olhares e latidos comoventes. Alheio a seu nó na garganta, o funcionário caminhava atrás dela falando detalhes do trabalho que era feito com os animais, a importância para o controle de doenças, e - a parte que ela mais temia ouvir – que todos aqueles animais seriam sacrificados caso não aparecesse alguém disposto a "adotá-los". Usam gás; é rápido e indolor. Ela caminhou mais lentamente e reparou que o corredor da morte lhe parecia maior agora. "Poderia ser menor..."
Ficou algum tempo contemplando aqueles olhinhos caninos, alguns dóceis e meigos sem desconfiar de seu destino, outros ríspidos como que prevendo a sorte funesta, e ainda outros brincalhões, serelepes, violentos, tristonhos, cansados, doentes. Mas tinha que escolher só um??? Pensou na cara da mãe vendo ela chegar em casa com quinze vira-latas embaixo do braço. É, tinha que ser só um. Quando limpou a lágrima furtiva que lhe caía do olho esquerdo (como era bom ser mulher nesse momento e não ter que dar motivos para chorar:
cisco, conjutivite, a morte da tia), reparou num gesto de impaciência do funcionário e resolveu fazer tudo rapidamente, sem escolher demais.
Parou em frente a uma cela onde uma cauda de pequinês se agitava freneticamente e decidiu que seria aquele. Ela se abaixou e chegou bem perto dele cochichando: "parabéns, você ganhou a salvação". A pequena bola de pêlos levantou as orelhas, inclinou a cabeça para a direita e piscou.
Quando saía do corredor com o cachorrinho, novo tumulto de latidos e gemidos ecoou fazendo ela cair no choro de uma vez. Agradeceu ao funcionário, entrou no carro com o pequinês no colo e ficou ali um tempo fazendo planos de divulgar ao máximo de pessoas que aqueles cachorrinhos precisavam de outros salvadores. Imaginou a alegria da cachorrada toda saindo dali em bando, para gozar a liberdade num lugar tranquilo, amplo, com bastante comida e carinho.
E por causa de uma paixão incurável pelas coisas do alto, dirigiu seus pensamentos até Deus, num instinto de prece.Ela pensou no privilégio que Jesus teve em ser o Salvador de uma raça inteira que estava condenada à morte. Na alegria com que se dispôs a dar a vida por essa raça inferior, tal qual eu não acho provável que nenhum ser humano se animasse a dar em prol dos cães.
Nos planos que fez para levar toda a humanidade até um lugar de paz, tranquilidade e carinho: o Seu próprio Lar Celestial, onde haveria vida e gozo em abundância. Mas de repente ela pensou no que é a frustração de um Salvador. Imaginou como ela se sentira se abrisse as ortas daquele canil convidando todos os cachorros a virem após ela, para obterem vida eterna e descanso para suas almas, e alguns deles permanecessem e suas celas por acharem aquele malcheiroso antro o melhor lugar para um cachorro se viver. E que alguns deles ladrariam em sua direção: "ora, saia daqui, não acredito em você, você é criação de mentes de cães fracos. Deixe-me com minha ração e minha vida de cachorro porque a morte é uma consequência natural da nossa raça, só nos resta aproveitar o que temos agora", ela não saberia reagir diante desses cães epicuristas! E que dizer dos "caneístas",
que lhe lançariam um olhar de respeito mas murmurariam: "acredito em sua força superior, mas não convém que você interfira em nossa vida de cão". Pior seria se alguns deles, crentes na verdade do convite feito, dissessem que iriam depois, assim que tivessem tempo, pois agora estavam de olho naquele gato em cima do muro, e um cachorro neste mundo precisa sobreviver, e só alcança dignidade se perseguir um gato. Menos mal diante dos que poderiam se arremeter contra ela dispostos a despedaçar-lhe, em violento ataque contra quem só desejava dar-lhe a Salvação...
Ela sorriu interrogando a si mesma quem no mundo daria crédito àquela teologia canina. Ora, era apenas uma divagação, e difícil crer que alguém no mundo além dela tivesse tais delírios. O olhar doce do pequinês parecia querer compreender-lhe. Ela alisou os tufos marrons da cabeça dele, ligou o carro e partiu.
domingo, 24 de junho de 2001
O plano
Há quem deteste o carnaval, eu abomino as festas juninas. Nunca entendi esse fascínio por soltar bombinhas ensurdecedoras, dançar quadrilha, e comer canjica que não tenha sido feita por minha avó. Tá, eu sou chata, isso não é novidade, mas tenho lá meus traumas com festa de São João.
Naquele ano eu havia encontrado um motivo muito forte para crer que minha família não gostava de mim. Desses pensamentos monstruosos que nos invadem quando temos oito anos. E já estava cansada de sempre apelar para uma terrível dor de cabeça, uma lacerante dor de barriga, ou outra dor qualquer que chamasse atenção dos meus pais para sua filhinha à beira da morte. Suspirei pensando que eles também já estavam cansados do meu cardápio de dores imaginárias... então era hora de uma decisão drástica.
Arrumei minhas roupas em dois sacos plásticos de supermercado. Peguei uma maçã escondida na geladeira, os olhos brilhando por pegar uma maçã interinha só para mim, quando a regra era dividí-la em três com minhas irmãs. Cruzei o portão da minha casa e olhei para os lados, indecisa: e agora, para onde ir? Cogitei algumas possibilidades, mas tudo parecia assustador demais naquela noite de fogueiras crepitantes. Sentei sobre minhas mochilas em frente ao muro, para pensar, e olhava a quadrilha que dançava animadamente na rua embaixo.
Como acontece até hoje, logo após eu ceder aos meus impulsos, me senti ridícula. omeçou a fazer frio, e a alegria daquele povo dançando alheio a minha dor, me irritava profundamente. Decidi que o melhor era ficar ali e esperar mais um pouco. Em breve eles sentiriam minha falta, eu ouviria gritos me chamando, vozes alteradas, portas batendo... sorri. Aí sim eu apareceria, e todos me olhariam consternados, me abraçando, chorando e pedindo perdão por terem me magoado.
Um menino passou e soltou uma bombinha bem perto de mim. O susto e o frio me faziam suar e tremer... talvez já tivessem passado várias horas, por que eu ainda não ouvia os gritos aflitos a minha procura? Olhei mais uma vez a quadrilha e peguei a maçã, disposta a saborear ela toda, como nunca dantes, superior a minhas pobres irmãs... minhas irmãs... o que elas estariam fazendo agora? Comecei a sentir saudade, e não consegui comer mais que uma terça parte da fruta. Era como cometer um crime me apossar da parte delas. "Cadê os gritos???" e eu decidi voltar, porque com a barulheira daquela quadrilha lá embaixo, eu não iria escutar o choro aflito de todos a minha procura.
Cruzei o portão da minha casa e entrei vagarosamente, os sentidos aguçados. Vozes tranqüilas e alguns sorrisos pareciam vir da cozinha e eu me dirigi até lá. Meu pai brincava com minhas irmãs enquanto minha mãe lavava a louça, no mais perfeito e feliz cenário de família "american style life". Soltei as mochilas, minha mãe olhou para mim.
- Ahn, você está aí. Venha enxugar a louça.
E eu comecei a sentir uma dor insuportável e mortífera no pé...
O ser humano, mesmo as crianças mais crescidas, têm uma propensão a resolver as coisas com aquela saída estratégica pela direita. É orgânico: por natureza nosso sistema nervoso nos condiciona a lutar ou fugir, portanto temos cinquenta por cento de chance de escolher debandar. Mas em se tratando de nossa mente, coração e espírito, a fuga nunca é a melhor solução. Não importa quão longe você vá, os problemas continuarão existindo até que você decida encará-los. Não adianta querer que sintam dó de você e te deixem em paz, ou que caia
das nuvens uma resposta certa. É mais fácil a gente cair das nuvens, e uhh , como dói essa queda do céu da ilusão, como dói se dar conta que apesar de todas as mentirinhas inventadas para si mesmo, o problema ainda está lá, rindo da sua cara...
Também não é o caso de querer virar super herói e sair voando. As coisas são bem mais difíceis de resolver se tentamos fazer isso sozinhos. Antes de mais nada, troque seu plano de fuga, por um plano mais eficaz: o plano de Deus. Experimente, ao invés de fugir e protelar, tomar decisões auxiliado pelo Seu Grande Amigo Estrategista. Ele então mostrará as ferramentas e o apoio preciso – humano e divino – para te ver vencer. As coisas podem até não sair como você esperava, mas com certeza só acontecerá o que for melhor para você a longo prazo.
Nesta semana, convide Jesus para pôr um ponto final naquele (s) problema (s) mal resolvido (s), que você vive adiando. E se parecer que não há saída, resista ao plano de fuga; confie no plano D. De Deus.
Naquele ano eu havia encontrado um motivo muito forte para crer que minha família não gostava de mim. Desses pensamentos monstruosos que nos invadem quando temos oito anos. E já estava cansada de sempre apelar para uma terrível dor de cabeça, uma lacerante dor de barriga, ou outra dor qualquer que chamasse atenção dos meus pais para sua filhinha à beira da morte. Suspirei pensando que eles também já estavam cansados do meu cardápio de dores imaginárias... então era hora de uma decisão drástica.
Arrumei minhas roupas em dois sacos plásticos de supermercado. Peguei uma maçã escondida na geladeira, os olhos brilhando por pegar uma maçã interinha só para mim, quando a regra era dividí-la em três com minhas irmãs. Cruzei o portão da minha casa e olhei para os lados, indecisa: e agora, para onde ir? Cogitei algumas possibilidades, mas tudo parecia assustador demais naquela noite de fogueiras crepitantes. Sentei sobre minhas mochilas em frente ao muro, para pensar, e olhava a quadrilha que dançava animadamente na rua embaixo.
Como acontece até hoje, logo após eu ceder aos meus impulsos, me senti ridícula. omeçou a fazer frio, e a alegria daquele povo dançando alheio a minha dor, me irritava profundamente. Decidi que o melhor era ficar ali e esperar mais um pouco. Em breve eles sentiriam minha falta, eu ouviria gritos me chamando, vozes alteradas, portas batendo... sorri. Aí sim eu apareceria, e todos me olhariam consternados, me abraçando, chorando e pedindo perdão por terem me magoado.
Um menino passou e soltou uma bombinha bem perto de mim. O susto e o frio me faziam suar e tremer... talvez já tivessem passado várias horas, por que eu ainda não ouvia os gritos aflitos a minha procura? Olhei mais uma vez a quadrilha e peguei a maçã, disposta a saborear ela toda, como nunca dantes, superior a minhas pobres irmãs... minhas irmãs... o que elas estariam fazendo agora? Comecei a sentir saudade, e não consegui comer mais que uma terça parte da fruta. Era como cometer um crime me apossar da parte delas. "Cadê os gritos???" e eu decidi voltar, porque com a barulheira daquela quadrilha lá embaixo, eu não iria escutar o choro aflito de todos a minha procura.
Cruzei o portão da minha casa e entrei vagarosamente, os sentidos aguçados. Vozes tranqüilas e alguns sorrisos pareciam vir da cozinha e eu me dirigi até lá. Meu pai brincava com minhas irmãs enquanto minha mãe lavava a louça, no mais perfeito e feliz cenário de família "american style life". Soltei as mochilas, minha mãe olhou para mim.
- Ahn, você está aí. Venha enxugar a louça.
E eu comecei a sentir uma dor insuportável e mortífera no pé...
O ser humano, mesmo as crianças mais crescidas, têm uma propensão a resolver as coisas com aquela saída estratégica pela direita. É orgânico: por natureza nosso sistema nervoso nos condiciona a lutar ou fugir, portanto temos cinquenta por cento de chance de escolher debandar. Mas em se tratando de nossa mente, coração e espírito, a fuga nunca é a melhor solução. Não importa quão longe você vá, os problemas continuarão existindo até que você decida encará-los. Não adianta querer que sintam dó de você e te deixem em paz, ou que caia
das nuvens uma resposta certa. É mais fácil a gente cair das nuvens, e uhh , como dói essa queda do céu da ilusão, como dói se dar conta que apesar de todas as mentirinhas inventadas para si mesmo, o problema ainda está lá, rindo da sua cara...
Também não é o caso de querer virar super herói e sair voando. As coisas são bem mais difíceis de resolver se tentamos fazer isso sozinhos. Antes de mais nada, troque seu plano de fuga, por um plano mais eficaz: o plano de Deus. Experimente, ao invés de fugir e protelar, tomar decisões auxiliado pelo Seu Grande Amigo Estrategista. Ele então mostrará as ferramentas e o apoio preciso – humano e divino – para te ver vencer. As coisas podem até não sair como você esperava, mas com certeza só acontecerá o que for melhor para você a longo prazo.
Nesta semana, convide Jesus para pôr um ponto final naquele (s) problema (s) mal resolvido (s), que você vive adiando. E se parecer que não há saída, resista ao plano de fuga; confie no plano D. De Deus.
sábado, 16 de junho de 2001
Magistrais
Um amontoado de estudantes que haviam acabado de sair das salas de aula, disputavam um lugar sob a sombra do ponto de ônibus. Eu me comprimia num canto, com aquela placidez conformada de quem espera o prenúncio de um pará-choque na linha do horizonte. Foi quando reparei na voz tímida e aguda ao meu lado. Olhei, e me causou
admiração como a atitude dela se esforçava para dar força àquela voz miúda: - Serei juíza!
Seu Manual de Direito impecável, um fichário grosso e o estojo transparente deixando ver suas canetas organizadas, acabavam de compor o estereótipo perfeito de uma aluna de Direito deleitando seu primeiro semestre na faculdade. Apesar do calor e do ônibus não chegar, eu sorri enternecida, pensand nessa vocação para a magistratura que todo o ser humano tem, e que o acadêmicos de Direito aspiram com delícia.
Por causa do pecado, o ser humano entende as leis como meio de satisfazer sua ânsia de poder. Por isso todo mundo que tem suasnormas, por mais simples que sejam – normas de conduta, religiosas, morais – sente coceiras de citá-las, para sentir o gozo de sujeitar o vizinho a elas. Das leis que nos são dadas, abstraímos uma autoridade de cobrá-las a todos os demais, como se isso nos aproximasse da
glória de quem as criou. Se submeter a todas as regras (e quanto mais duras, melhor) vale a pena ao paladar pecador, quando este se depara com alguém que ousa não fazer o mesmo: é então que degusta-se o perseguido momento de se tornar juiz do semelhante.
O que a Bíblia fala sobre essa nossa tendência inata para julgar? Oapóstolo Paulo, em suas cartas, nos dá duas visões do tema. A primeira, está em I Cor. 4:5: "Portanto nada julgueis antes do tempo, até que venha o Senhor, o qual não só trará à luz as coisas ocultas das trevas, mas também manifestará os desígnios dos corações; e então cada um receberá de Deus o seu louvor". Jesus já advertira sobre isso, como lemos em Lucas 6:37; "Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados." Qual o motivo desse conselho? Ora, no nosso ordenamento jurídico, um dos motivos que impede o juiz de julgar determinada causa, é fazer parte dela. Espiritualmente falando, todos partilhamos da mesma culpa, o pecado em suas mais execráveis formas, e só Deus, o Supremo Juiz, tem competência para nos julgar a todos. Só Ele tem acesso aos desígnios do coração, e conhece as coisas ocultas que nossa débil visão não é capaz de enxergar. Quando ignoramos esse impedimento e, do alto de nossa injustiça presunçosa, persistimos em sentir o sabor do domínio, transformamos o ato de julgar numa forma insidiosa de acusar.
Esse tema me lembrou o filósofo e escritor Kafka, que em seu livro "O Processo", conta a narrativa da vida de um homem o qual, ao acordar certo dia, descobre que está sendo processado, embora não tenha conhecimento do crime que cometeu. A estória, com os típicos absurdos de Kafka, toma ares de loucura à medida em que se desenrola (ou enrola ainda mais!): uma justiça paralela, decadente, infundada, comandada pela vontade de homens inacessíveis, onde não há o menor senso de equidade, nem o réu pode se defender, apenas aguardar o favor dos juizes se estes simpatizarem com o infeliz. No fim, o personagem é condenado à morte sem ter tido chance de provar sua inocência, sequer saber qual fora seu grande crime. É nesse ponto que nos damos conta que nós mesmos representamos essa justiça mesquinha e obscura, alojada nas trevas pecaminosas do nosso ser, e Joseph K. representa as pessoas que, por nossos métodos mais covardes, condenamos ao degredo, à margem dos nossos conceitos (forjados) de conduta correta ou cristã. Esse tipo de julgamento condena, antes de tudo, a quem o faz. A sentença, sem que se aperceba disso, recai sobre quem a profere. Comprovaremos isso num breve e verdadeiro Juízo...
Mas Paulo ainda nos fala algo sobre julgamentos: "Ou não sabeis vós que os santos hão de julgar o mundo? ... Não sabeis vós que havemos de julgar os anjos?" I cor 6:2,3. Paulo se refere à profecia de que trata Apocalipse 20:4, quando após a Vinda de Cristo, os filhos de Deus considerados justos, e tendo sua natureza corruptível já
transformada à semelhança da perfeição com que foram criados, receberão poder para julgar todos os atos dos ímpios, inclusive Satanás e seus anjos. Não é interessante reparar que, para que venhamos a ser dignos de julgar, precisamos enquanto pecadores, nos abster disso? Enquanto carregamos a mácula do pecado, não estamos habilitados para discernir conforme a Justiça Divina. Somente Ele, depois de nos tornar inteiramente santos e livres da nossa natureza contaminada, é quem nos dará poder para exercer a função de juizes das almas.
E quando uma posição administrativa na igreja parece sugerir o encargo de julgar as pessoas? Quando eu precisar, de fato, formar um juízo de valor sobre a atitude ou vida de alguém visando solucionar problemas ou tomar decisões quanto a vida desse alguém? Creio que ainda assim prevalece a assertiva: não julgueis. Enquanto aguardamos o tempo em que Deus nos capacitará para perscrutar corações, temos uma missão a cumprir, que tem sido bastante negligenciada: amar as pessoas, ouvi-las, orar com elas, chorar com suas angústias, ajudá- las a ver o Cristo Vivo que habita em nós. Ele mesmo nos deu o exemplo de como agir quando falou: "E, se alguém ouvir as minhas palavras, e não as guardar, eu não o julgo; pois eu vim, não para julgar o mundo, mas para salvar o mundo"(Lucas 12: 47). Se o próprio Deus feito Homem levava a Verdade e exercia seu ministério sem se preocupar em julgar os que a ouviam, que diremos de nós, míseros pecadores? Não é impondo a minha verdade e capacidade de cumprir normas aos outros, que estarei executando a missão que Ele designou. Nosso dever é amar e deixar que o Espírito Santo faça a parte que lhe cabe. Hoje há urgência de se imitar Jesus: devemos nos preocupar em salvar ao invés de julgar, esse deve ser o parâmetro de qualquer decisão que envolva outra vida que não a minha. Líderes e membros de igreja, devem rogar a Deus sabedoria para julgar questões
administrativas, e inteligência para, ao considerarem a situação de um pecador como eles, buscarem modos de salvá-lo, ao invés de estratagemas para julgá-lo.
Julgar é colocar um jugo sobre as almas. Especialidade dos fariseus hipócritas, "Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; mas eles mesmos nem com o dedo querem movê-los" (Mateus 23:4). Salvar, é oferecer o fardo leve da paz – que só pode ser dada por quem conhece bem Sua Fonte (Mateus 11:30).
Uma semana iluminada!
Luna
admiração como a atitude dela se esforçava para dar força àquela voz miúda: - Serei juíza!
Seu Manual de Direito impecável, um fichário grosso e o estojo transparente deixando ver suas canetas organizadas, acabavam de compor o estereótipo perfeito de uma aluna de Direito deleitando seu primeiro semestre na faculdade. Apesar do calor e do ônibus não chegar, eu sorri enternecida, pensand nessa vocação para a magistratura que todo o ser humano tem, e que o acadêmicos de Direito aspiram com delícia.
Por causa do pecado, o ser humano entende as leis como meio de satisfazer sua ânsia de poder. Por isso todo mundo que tem suasnormas, por mais simples que sejam – normas de conduta, religiosas, morais – sente coceiras de citá-las, para sentir o gozo de sujeitar o vizinho a elas. Das leis que nos são dadas, abstraímos uma autoridade de cobrá-las a todos os demais, como se isso nos aproximasse da
glória de quem as criou. Se submeter a todas as regras (e quanto mais duras, melhor) vale a pena ao paladar pecador, quando este se depara com alguém que ousa não fazer o mesmo: é então que degusta-se o perseguido momento de se tornar juiz do semelhante.
O que a Bíblia fala sobre essa nossa tendência inata para julgar? Oapóstolo Paulo, em suas cartas, nos dá duas visões do tema. A primeira, está em I Cor. 4:5: "Portanto nada julgueis antes do tempo, até que venha o Senhor, o qual não só trará à luz as coisas ocultas das trevas, mas também manifestará os desígnios dos corações; e então cada um receberá de Deus o seu louvor". Jesus já advertira sobre isso, como lemos em Lucas 6:37; "Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados." Qual o motivo desse conselho? Ora, no nosso ordenamento jurídico, um dos motivos que impede o juiz de julgar determinada causa, é fazer parte dela. Espiritualmente falando, todos partilhamos da mesma culpa, o pecado em suas mais execráveis formas, e só Deus, o Supremo Juiz, tem competência para nos julgar a todos. Só Ele tem acesso aos desígnios do coração, e conhece as coisas ocultas que nossa débil visão não é capaz de enxergar. Quando ignoramos esse impedimento e, do alto de nossa injustiça presunçosa, persistimos em sentir o sabor do domínio, transformamos o ato de julgar numa forma insidiosa de acusar.
Esse tema me lembrou o filósofo e escritor Kafka, que em seu livro "O Processo", conta a narrativa da vida de um homem o qual, ao acordar certo dia, descobre que está sendo processado, embora não tenha conhecimento do crime que cometeu. A estória, com os típicos absurdos de Kafka, toma ares de loucura à medida em que se desenrola (ou enrola ainda mais!): uma justiça paralela, decadente, infundada, comandada pela vontade de homens inacessíveis, onde não há o menor senso de equidade, nem o réu pode se defender, apenas aguardar o favor dos juizes se estes simpatizarem com o infeliz. No fim, o personagem é condenado à morte sem ter tido chance de provar sua inocência, sequer saber qual fora seu grande crime. É nesse ponto que nos damos conta que nós mesmos representamos essa justiça mesquinha e obscura, alojada nas trevas pecaminosas do nosso ser, e Joseph K. representa as pessoas que, por nossos métodos mais covardes, condenamos ao degredo, à margem dos nossos conceitos (forjados) de conduta correta ou cristã. Esse tipo de julgamento condena, antes de tudo, a quem o faz. A sentença, sem que se aperceba disso, recai sobre quem a profere. Comprovaremos isso num breve e verdadeiro Juízo...
Mas Paulo ainda nos fala algo sobre julgamentos: "Ou não sabeis vós que os santos hão de julgar o mundo? ... Não sabeis vós que havemos de julgar os anjos?" I cor 6:2,3. Paulo se refere à profecia de que trata Apocalipse 20:4, quando após a Vinda de Cristo, os filhos de Deus considerados justos, e tendo sua natureza corruptível já
transformada à semelhança da perfeição com que foram criados, receberão poder para julgar todos os atos dos ímpios, inclusive Satanás e seus anjos. Não é interessante reparar que, para que venhamos a ser dignos de julgar, precisamos enquanto pecadores, nos abster disso? Enquanto carregamos a mácula do pecado, não estamos habilitados para discernir conforme a Justiça Divina. Somente Ele, depois de nos tornar inteiramente santos e livres da nossa natureza contaminada, é quem nos dará poder para exercer a função de juizes das almas.
E quando uma posição administrativa na igreja parece sugerir o encargo de julgar as pessoas? Quando eu precisar, de fato, formar um juízo de valor sobre a atitude ou vida de alguém visando solucionar problemas ou tomar decisões quanto a vida desse alguém? Creio que ainda assim prevalece a assertiva: não julgueis. Enquanto aguardamos o tempo em que Deus nos capacitará para perscrutar corações, temos uma missão a cumprir, que tem sido bastante negligenciada: amar as pessoas, ouvi-las, orar com elas, chorar com suas angústias, ajudá- las a ver o Cristo Vivo que habita em nós. Ele mesmo nos deu o exemplo de como agir quando falou: "E, se alguém ouvir as minhas palavras, e não as guardar, eu não o julgo; pois eu vim, não para julgar o mundo, mas para salvar o mundo"(Lucas 12: 47). Se o próprio Deus feito Homem levava a Verdade e exercia seu ministério sem se preocupar em julgar os que a ouviam, que diremos de nós, míseros pecadores? Não é impondo a minha verdade e capacidade de cumprir normas aos outros, que estarei executando a missão que Ele designou. Nosso dever é amar e deixar que o Espírito Santo faça a parte que lhe cabe. Hoje há urgência de se imitar Jesus: devemos nos preocupar em salvar ao invés de julgar, esse deve ser o parâmetro de qualquer decisão que envolva outra vida que não a minha. Líderes e membros de igreja, devem rogar a Deus sabedoria para julgar questões
administrativas, e inteligência para, ao considerarem a situação de um pecador como eles, buscarem modos de salvá-lo, ao invés de estratagemas para julgá-lo.
Julgar é colocar um jugo sobre as almas. Especialidade dos fariseus hipócritas, "Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; mas eles mesmos nem com o dedo querem movê-los" (Mateus 23:4). Salvar, é oferecer o fardo leve da paz – que só pode ser dada por quem conhece bem Sua Fonte (Mateus 11:30).
Uma semana iluminada!
Luna
sábado, 9 de junho de 2001
Não lhe quebrei as mãos
Considere as estatísticas: é tão raro um brasileiro comprar um livro novo, sem ser movido necessariamente por obrigação ou vínculo com alguma instituição educacional, que naquele dia eu me sentia verdadeiramente uma privilegiada. Com computador num país de desnutridos, com acesso a internet num país cuja maior prestadora é a Embratel (mas presta mesmo, hein?), com dentes no país do "INAMPS", viva num país de alta taxa de mortalidade infantil e com a ousadia de um livro novinho debaixo do braço, no país do carnaval-e-futebol! Comovente.
Me refiro ao dia em que comprei "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século". O tema era tentador demais para esperar chegar ao sebo. Juntando minhas minguadas economias eu cometi esta pequena loucura orçamentária e resolvi ler o livro sem pressa, saboreando cada centavo que valeu suas páginas. Somente ontem, depois de uns 6 meses foi que o terminei. É verdade que ali há conteúdo humano (em excepcional forma literária) suficiente para tecer diversas reflexões, mas um conto em especial me chamou atenção.
Não vou cometer a insanidade de resumir uma obra de Érico Veríssimo, mas apenas para economizar espaço e a sua paciência, me permito traçar um esboço da estória. Esta fala de pais presenciando o concerto que consagra seu filho como um pianista célebre. Pai e mãe num camarote, estranhos àquele elitista mundo artístico, mas completamente absortos na contemplação da glória de seu virtuose rebento. Antes, tão seu menino, seu filho, agora revelado para um mundo desconhecido, rico, culto, superior, onde se tem o privilégio de ser mais. E sabe, nem os pais escapam a um olhar cobiçoso sobre a glória (tudo bem, eles merecem)... . Ali, ocultos na sombra do teatro, eles reclamavam para si parte dela, isto é, ao menos buscavam justificativas para sorver uma terça parte que fosse daqueles aplausos.
A mãe orgulhava-se do seu quinhão: sempre fora dedicada, trabalhando noite e dia para permitir ao seu filho chegar até onde ele estava. Ouve cada nota saboreando a sensação de mãe e mecenas, superior ao superiores que agora estavam completamente dominados pelas mãos de seu filho. O pai, porém, não compartilhava deste orgulho. A vida toda estivera alheio à função paterna, vencido pelo vício da bebida, humilhado pela incapacidade de deixá-lo e reconstruir sua moral. Cada nota que ouvia lhe lembrava o filho que ele nunca amparou. Chorou, por fim, vencido pelo fracasso.
Mas uma lembrança iluminou-lhe o semblante: uma noite mal dormida, em companhia da mulher e do filho, dividindo com eles uma cama pobre e estreita. Nesta noite ele sentiu que as mãos do bebê lhe roçavam as costas, e com medo de deitar sobre elas, ficou acordado até a manhã, desconfortável, apreensivo. "Se eu tivesse esmagado as mãos do Betinho, hoje ele não estava aí tocando essas músicas difíceis... não podia ser o artista que é". E sorri satisfeito com sua partícula de glória.
Fiquei pensando com que facilidade nós nos acomodamos à idéia de que nos tornamos bons por condutas negativas. Quando uma voz ousa perguntar o que fizemos por nosso semelhante, automatizamos um: "Não matei, não roubei, não feri, nem interferi - eu não lhe quebrei as mãos", e o deixar de fazer nos satisfaz a consciência. Mas a omissão pode ser uma forma cruel de pecar, tanto que Jesus, ao falar sobre o juízo, a condenou veementemente em Mateus 25:41 – 45: " Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o Diabo e seus anjos; porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; era forasteiro, e não me acolhestes; estava nu, e não me vestistes; enfermo, e na prisão, e não me visitastes. Então também estes perguntarão: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou forasteiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos? Ao que lhes responderá: Em verdade vos digo que, sempre que o deixaste de fazer a um destes mais pequeninos, deixastes de o fazer a mim."
Podemos confiar nosso cristianismo ao simples "deixar de fazer"? Se deixamos de fazer o bem, estamos pecando por omissão. Se deixamos de fazer o mal, estaremos sendo melhores que as ostras, esquilos e nematelmintos? Como seremos mais racionais que eles, se não percebermos que a vitória do livre arbítrio não é deixar de cometer a injustiça, mas decidir fazer o bem?
Oro para que nesta nova semana consigamos fazer mais por nosso próximo que não lhe quebrar as mãos. Que as mãos que não se intrometem, aprendam a se comprometer. Que as mãos que não apedrejam, aprendam a afagar.
Me refiro ao dia em que comprei "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século". O tema era tentador demais para esperar chegar ao sebo. Juntando minhas minguadas economias eu cometi esta pequena loucura orçamentária e resolvi ler o livro sem pressa, saboreando cada centavo que valeu suas páginas. Somente ontem, depois de uns 6 meses foi que o terminei. É verdade que ali há conteúdo humano (em excepcional forma literária) suficiente para tecer diversas reflexões, mas um conto em especial me chamou atenção.
Não vou cometer a insanidade de resumir uma obra de Érico Veríssimo, mas apenas para economizar espaço e a sua paciência, me permito traçar um esboço da estória. Esta fala de pais presenciando o concerto que consagra seu filho como um pianista célebre. Pai e mãe num camarote, estranhos àquele elitista mundo artístico, mas completamente absortos na contemplação da glória de seu virtuose rebento. Antes, tão seu menino, seu filho, agora revelado para um mundo desconhecido, rico, culto, superior, onde se tem o privilégio de ser mais. E sabe, nem os pais escapam a um olhar cobiçoso sobre a glória (tudo bem, eles merecem)... . Ali, ocultos na sombra do teatro, eles reclamavam para si parte dela, isto é, ao menos buscavam justificativas para sorver uma terça parte que fosse daqueles aplausos.
A mãe orgulhava-se do seu quinhão: sempre fora dedicada, trabalhando noite e dia para permitir ao seu filho chegar até onde ele estava. Ouve cada nota saboreando a sensação de mãe e mecenas, superior ao superiores que agora estavam completamente dominados pelas mãos de seu filho. O pai, porém, não compartilhava deste orgulho. A vida toda estivera alheio à função paterna, vencido pelo vício da bebida, humilhado pela incapacidade de deixá-lo e reconstruir sua moral. Cada nota que ouvia lhe lembrava o filho que ele nunca amparou. Chorou, por fim, vencido pelo fracasso.
Mas uma lembrança iluminou-lhe o semblante: uma noite mal dormida, em companhia da mulher e do filho, dividindo com eles uma cama pobre e estreita. Nesta noite ele sentiu que as mãos do bebê lhe roçavam as costas, e com medo de deitar sobre elas, ficou acordado até a manhã, desconfortável, apreensivo. "Se eu tivesse esmagado as mãos do Betinho, hoje ele não estava aí tocando essas músicas difíceis... não podia ser o artista que é". E sorri satisfeito com sua partícula de glória.
Fiquei pensando com que facilidade nós nos acomodamos à idéia de que nos tornamos bons por condutas negativas. Quando uma voz ousa perguntar o que fizemos por nosso semelhante, automatizamos um: "Não matei, não roubei, não feri, nem interferi - eu não lhe quebrei as mãos", e o deixar de fazer nos satisfaz a consciência. Mas a omissão pode ser uma forma cruel de pecar, tanto que Jesus, ao falar sobre o juízo, a condenou veementemente em Mateus 25:41 – 45: " Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o Diabo e seus anjos; porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; era forasteiro, e não me acolhestes; estava nu, e não me vestistes; enfermo, e na prisão, e não me visitastes. Então também estes perguntarão: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou forasteiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos? Ao que lhes responderá: Em verdade vos digo que, sempre que o deixaste de fazer a um destes mais pequeninos, deixastes de o fazer a mim."
Podemos confiar nosso cristianismo ao simples "deixar de fazer"? Se deixamos de fazer o bem, estamos pecando por omissão. Se deixamos de fazer o mal, estaremos sendo melhores que as ostras, esquilos e nematelmintos? Como seremos mais racionais que eles, se não percebermos que a vitória do livre arbítrio não é deixar de cometer a injustiça, mas decidir fazer o bem?
Oro para que nesta nova semana consigamos fazer mais por nosso próximo que não lhe quebrar as mãos. Que as mãos que não se intrometem, aprendam a se comprometer. Que as mãos que não apedrejam, aprendam a afagar.
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