sábado, 25 de julho de 2009

Adveniat - Você é feliz?

Estou com dificuldades para escrever. Os dois textos passados foram reedições de textos de 2005. Este é inédito, mas fiquei uma boa meia hora na frente do computador antes de começá-lo. Tiha a idéia mas não conseguia desenvolvê-la. Isso nunca foi um grande problema para mim, mas agora tenho me sentido assim. O que pode ser? Um clínico geral diria (como dizem de tudo): é estresse. Pode ser. Mas isso me deixa mais estressada, hehehhe.

-----------------------------------------------------------------

Era exatamente o que dizia a frase pichada num muro sujo da cidade. Entre outros tantos grafites e pichações, ela não passou despercebida a mim e, acredito, nem a tantos outros que a leram. Porque essa indagação inquieta. Evoca situações de conflito, mágoa, dor e até – por que não? – de felicidade. Mas sempre faz estalar algo no peito, algo que diz respeito a nossa relação com a vida e realização como seres humanos. Por trás da frase outras perguntas se escondem: “O que você tem feito a respeito da sua própria felicidade?”, “Quanto da sua rotina realmente lhe agrada e quanto lhe é imposto contra sua vontade de ser feliz?”, “Se já foi feliz algum dia, por que não é mais?”, “De quem é a culpa por isso?”, e tantas outras, que vão ocupando a mente até a hora dela se concentrar em algo “sério”, como o trabalho, por exemplo.

Penso que a constatação da infelicidade é algo que mexe tanto conosco porque ser feliz é algo irrenunciável. Mesmo o mais miserável dos homens deseja ou ao menos aprecia a felicidade. Você pode desistir de um plano, de um alvo, de um prazo, até de um sonho. Mas o homem médio, aquele que se encaixa dentro dos padrões da normalidade emocional, não consegue desistir de ser feliz, ainda que não faça nada a respeito disso. Aliás, o “não fazer nada a respeito disso” é uma das mais freqüentes causas de infelicidade. Num século onde tanto de nosso tempo é ocupado pela necessidade de sobreviver e acumular – bens, dinheiro, status – há pouco lugar para meditar sobre os valores que conduzem à felicidade. Há mesmo quem prefira chamar felicidade ao ato de sobreviver e acumular. Mas surgirá um momento em que os sentidos não estarão tão sobrecarregados, e nesse momento surge a falta de algo indizível... o que mesmo? Falta de ser feliz. Mais que isso: falta de sentir-se feliz.

“O que tenho feito a respeito da minha felicidade?” Essa pode não ser a pergunta ideal. Estamos sempre muito preocupados em fazer algo por nós mesmos – quando muito, pelos outros. Mas precisamos fazer. O verbo nos assedia em busca da felicidade: sair, passear, descansar, orar, ler, beber, divertir, comer, dar, procurar, amar, fazer, fazer, fazer. Já a infelicidade prefere a voz passiva: fui injustiçado, fui traído, sou maltratado. No entanto os momentos mais felizes parecem ser aqueles em que recebemos a felicidade passivamente, sem necessariamente ter feito algo para merecê-la, em meio a situações de vulnerabilidade extrema. Estou falando de Graça.

Veja o que aconteceu ao profeta Elias. Em I Reis 19 lemos o relato de um homem que se sente bastante infeliz a ponto de desejar a morte. E quando indagado por Deus a esse respeito – “Que fazes aqui, fugindo da vida?” – o profeta começa respondendo: “Tenho sido zeloso pelo Senhor...”, e mais adiante acrescenta com ênfase: “Tenho sido em extremo zeloso pelo Senhor”. Elias estava infeliz porque, apesar de fazer tudo para agradar a Deus, não se sentia feliz, mas perseguido e injustiçado. Cada um de nós tem seus próprios motivos para se sentir infeliz, mas uma causa é comum a todos: “Nada do que faço me faz sentir mais feliz!”.

Interessante observar que Deus não elogia Elias por seu zelo e merecimento, não diz que vai lhe recompensar por ele ter feito tudo direitinho. Deus simplesmente esclarece que está cuidando dele, embora ele não veja isso. “Vai, volta ao teu caminho”, Deus ordena, e lhe diz que não está só, que o Senhor está e sempre esteve no controle da situação.

Deus no controle? Por vezes só percebemos isso quando algo nos foge ao controle. Essas situações dão a Deus a chance de mostrar Sua presença atuando em nossas vidas, ainda que seja num cicio tranqüilo e suave (verso 12), o que denota capacidade de percebê-lo nas sutilezas. Acostumados que estamos a ter de fazer, não é com facilidade que aceitamos que a nossa felicidade pode ser uma dádiva, não algo conquistado. Portanto quando nos virmos diante da sensação de infelicidade, perguntemo-nos: “Será mesmo infelicidade, ou sou eu que não consigo ver que Deus está cuidando de mim?” “Será que sou mesmo infeliz, ou apenas não gostaria de dar a Deus os méritos pelo bem que me alcançará?” A Bíblia nos prova que a felicidade não tem que ver com sermos bons ou poderosos. Mas em reconhecemos a Fonte da bondade e do poder.

sábado, 11 de julho de 2009

Adveniat - A volta

A mensagem de hoje foi construída sobre o texto que está em Jeremias 46: 27 – 28: "Mas não temas tu, servo meu, Jacó, nem te espantes, ó Israel; pois eis que te livrarei mesmo de longe, e a tua descendência da terra do seu cativeiro; e Jacó voltará, e ficará tranqüilo e sossegado, e não haverá quem o atemorize. Tu não temas, servo meu, Jacó, diz o senhor; porque estou contigo."

Este texto me fez lembrar um amigo que me perguntou: "Mas por que tem que ser tão difícil se livrar do pecado? Deus não tem poder para acabar com essa tendência pecaminosa num instante se Ele quiser? Ele não sabe o quanto dói ter que lutar para fazer a coisa certa?". O texto bíblico responde maravilhosamente a essa indagação. Ele fala de Deus olhando para um filho que se afastou para longe, e lá longe sentiu como sua vida estava ruim longe de Deus.

Deus poderia olhar para esse filho e dizer: "Bem, você escolheu ir embora, agora sofra as conseqüências dos seus atos." Se fosse assim, Deus estaria sendo justo. Mas Deus não é justo conforme nosso conceito de justiça. Com Seu amor Ele diz: "Eu sei que você está sofrendo. Eu não quero que seja assim, por isso não tenha medo nem se apavore, que tudo vai ficar bem".Deus promete que vai nos libertar da escravidão e que voltaremos até o lugar do qual nunca deveríamos ter saído, o lugar e modo de viver excelentes que Ele preparou para nós. Mas Ele diz também: "Você foi embora com suas próprias pernas, agora terá de voltar com suas próprias pernas". Repare que as palavras "tranqüilo", "sossegado" e "não haverá quem o atemorize", são usadas para quando o filho chegar a esse lugar excelente. Não são usadas em relação ao caminho que ele vai ter que passar até chegar lá. Porque o caminho de volta é longo, penoso, espinhoso, cansativo, tem a propriedade de enfatizar a distância que o filho está de Deus.

“Por que tem que ser assim?”, o filho pode perguntar esperando um pouco mais de misericórdia. Mas é a resposta é: porque, para que o filho entenda exatamente o tamanho da graça de Deus, ele precisa entender antes o tamanho da sua desgraça. Se a caminhada do pecado para a santidade fosse fácil, nós não saberíamos a diferença entre os dois. Cristo nem precisaria ter morrido por nossos pecados, pois bastaria a Deus tirar o pecado de cada um e tudo estaria bem, não é? Claro que não! Isso sim é injustiça. Cada vez que reclamamos com Deus de que Ele não está nos ajudando a vencer o pecado estamos desmerecendo o sacrifício de Cristo que sofreu mais que qualquer um de nós, mesmo sendo o Filho Unigênito de Deus.

É duro ouvir isso, mas não há outro modo de voltar para casa senão andando. O papel de Deus nessa caminhada é providenciar um atalho para que não soframos mais do que podemos suportar, e seguir passo a passo ao nosso lado, nos segurando quando estamos prestes a cair sem forças. Aquela história que Jesus te pega nos braços e te leva pelo caminho é ótima mensagem para cartão de natal, mas não condiz com a verdade bíblica a respeito da santificação. Jesus nos ampara em Seus braços, cuida de nós, nos alimenta, nos dá água da vida, sara nossas feridas, depois nos põe de pé e diz: "É hora de voltar a andar, vamos lá?". E você tem que andar novamente.

Deus repete quantas vezes for preciso: "Não temas, que estou contigo". É a promessa que temos de nos apegar todos os dias. Mesmo que não sejamos capazes de vê-lO, ou de sentí-lO. Quando não estivermos sentido mais do que um enorme vazio e uma solidão aterradora, ainda assim precisamos confiar nessa promessa, pois a fé não está condicionada aos nossos sentidos; a fé é uma atitude que transcende qualquer lógica ou sentimento humano. Se você não consegue sentir Jesus ao Seu lado, apenas repita: "Tu estás comigo!" e dê mais um passo. Logo você terá a percepção de que, à medida que caminha, aquele pecado que te incomodava tanto e te fazia contorcer de dor agora já não perturba da mesma maneira. Não se engane achando que chegou ao fim! Satanás também segue o filho que quer voltar, e a sensação de que um pecado está suplantado é uma das armadilhas que ele põe no caminho. É preciso caminhar no mesmo sentido sempre: Bíblia, oração, testemunho!

No caminho de volta compreenderemos um a um o preço dos nossos pecados. Mas devemos ter em mente o alvo: um lugar tranqüilo, sossegado, sem medo, onde haveremos de chegar na companhia de Cristo, que nos acompanhará em todas as dificuldades, e, a cada vitória diária, nos fará mais fortes para vencer amanhã, e depois, e depois...

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Adventiat - Prova

"Examinai-vos a vós mesmos se permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não sabeis quanto a vós mesmos, que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados”. (II Coríntios 13: 5)

Uma das maiores lições que aprendi na última universidade onde estudei não foi aprendida dentro de uma sala de aula, mas num certo dia em que, estando lá, precisei ir a uma agência bancária. A mais próxima ficava na reitoria, que é fora do campus, bastante afastada. Não valia a pena pegar um ônibus, mas renderia uma boa caminhada a pé, que eu nunca tinha feito porque o percurso me parecia muito grande. Resolvi o problema outras vezes deixando a pendência para o outro dia ou indo a uma agência próxima a minha casa, o que eu não podia fazer naquele momento. O jeito foi colocar o pé na estrada a contragosto e ir em frente.

Mas é assim, a contragosto, andando por caminhos desconhecidos, fora do nosso mundinho cotidiano, que nos colocamos à prova e descobrimos as coisas mais interessantes sobre nós mesmos e sobre a vida. Se não colocamos nosso conhecimento, nossos limites, nossa força à prova, não crescemos. E, no plano espiritual, não conhecemos a Deus. Pois se não sabemos do que somos incapazes, não saberemos do que Deus é capaz. Na prova, aquilo nos desestrutura e desafia, também constrói nossa identidade: "Ou não sabeis quanto a vós mesmos, que Jesus Cristo está em vós?"

No caminho até a agência bancária descobri algo interessante sobre a minha universidade: ela é muito bonita! Vi-me no meio de trilhas arborizadas, ladeadas por riachos, lagos, flores, canteiros primorosamente esculpidos, pássaros simpáticos, cores alegres, tudo encimado por um céu que se comprazia em combinar com a paisagem. A imagem da agência bancária chegou antes do que eu esperava. Na verdade eu não me importaria que o caminho até lá fosse um pouco mais longo; a beleza acabou com minha pressa.

Acredito que a vida também pode ser assim: um caminho desconhecido, mas belo. Depende daquilo em que você vai fixar os olhos. Se olhar para os próprios pés, pensando na distância até seus objetivos, o caminho se tornará bem penoso. Se, no entanto, se permitir olhar ao redor, colhendo motivos para ser grato a Deus, o caminho se tornará uma fonte de bênçãos. Sempre há algo pelo que agradecer, nem que seja o próprio caminhar. Mesmo nos trechos onde não se consegue ver tanta beleza assim, o som dos próprios passos pode criar música. Mas Deus nunca deixará que um cristão aberto à Sua bondade chegue ao fim da jornada de alma vazia.

Portanto, não meça distâncias, não tema o desconhecido: prove a si mesmo e descubra as bênçãos que estão à sua espreita no caminho.

domingo, 24 de maio de 2009

Adveniat - Vinde

“Vinde a mim, todos...” (Mateus 11: 28), foi o convite de Cristo. Mas quanto do eco desse chamado ainda pode ser ouvido na vida de seus seguidores? Como resolvemos o problema de ser luz acolhedora para um mundo que é vendaval furioso? Talvez a resposta aponte para uma confiança que se deposita aos pés de Cristo, e não em nossa própria percepção do mundo.

Pois foi o que concluí outro dia olhando para o passarinho engaiolado na casa da minha vizinha. Sempre abominei enjaular esses animais. E nunca me convenci que o mais carinhoso e dedicado dos criadores de pássaros poderia substituir um vôo livre pelo céu e o ambiente que o Criador fez para ser o lar deles. Uma opinião pessoal, é certo. Por isso mesmo quando vi a gaiola pendurada na casa da minha vizinha, bem em frente à porta da minha cozinha, fiquei incomodada. Mas tive que me acostumar a sua presença ali, enjaulado e expondo sua solidão para mim todos os dias.

A princípio fechava a porta para não vê-lo e assim minimizar a sensação de incômodo. Depois meu filho o descobriu e encantou-se por ele. Todos os dias me pedia para ver o “piu-piu”. E eu tentava desviar sua atenção, tentava mostrar os outros passarinhos no céu, nas árvores... não houve acordo, ele queria ver aquele passarinho. E os dois começaram a interagir. Quando via meu filho na porta da cozinha o passarinho começava a cantar. Meu filho respondia com balbucios e gritinhos de alegria.

Foi preciso que se passasse algum tempo até eu perceber o tamanho de minha ignorância. Sim, ignorância no sentido mais triste do termo, de ignorar, desprezar. Eu tentava resolver o problema dos passarinhos enjaulados fugindo da visão deles. E daquele em particular, o da minha vizinha, eu fugia fechando-me em meu mundo onde todos os passarinhos deveriam ser livres, como se não existisse um preso ali, ao meu lado. Foi preciso que meu filho de um ano apontasse que ali também havia uma vida, e que ao invés de evitá-la – visando tão somente meu próprio conforto existencial – eu poderia contribuir para torná-la um pouco mais feliz, nem que fosse “conversando” com o pequenino um pouquinho, já que não podia libertá-lo.

Gostaria muito que esta história se aplicasse apenas a seres irracionais, mas ela também repercute nas esquinas dos semáforos onde crianças ficam na ponta dos pés e encostam o nariz no vidro fechado do meu carro. São crianças presas na pobreza. Alguém nos diz: “Não dê esmolas! Você estará estimulando a mendicância!”, mas ninguém nos mostra uma alternativa para essa atitude, e chegamos a pensar que com a atitude negativa de “não dar” estamos contribuindo significativamente para o bem estar da sociedade. É, pode ser que, se ninguém der esmolas, elas sumam dos sinais, sumam da minha visão, mas continuarão existindo em algum beco sujo. E o que estou fazendo a respeito?

Gostaria que essa história não tivesse nada a ver com a forma como nossa sociedade trata os que não são confortáveis à nossa existência, e assim joga idosos num asilo, espreme criminosos numa cela, interna bem longe “menores delinqüentes” (falando assim nem lembramos que são crianças) e os “menores abandonados” (por nós também?), separa os deficientes, os que têm problemas mentais, os alunos que não aprendem, os jovens que não se encaixam, o joio - que era a árdua tarefa de Deus, e não nosso passatempo arbitrário, separar. Até que as conseqüências desses absurdos nos atinjam, achamos que está tudo bem porque o problema some de diante dos nossos olhos para continuar existindo longe de nós.

Não posso num texto tão curto discorrer sobre as formas de atuar sobre essas vidas sem segregá-las. Nem mesmo considerar questões sobre segurança e confiabilidade no fazer-o-bem-sem-olhar-a-quem. Gostaria até de falar sobre a dificuldade que é, simplesmente, ter a iniciativa de fazer o bem quando todos estão se fechando dentro de suas casas, instituições, empresas e politizando o processo – simples – de amar como Cristo amou. Resta-me terminar apontando para a própria figura do Cristo, que não fechou os olhos para os seres mais desprezíveis em seu tempo: prostitutas, leprosos, publicanos, ladrões... Em nosso tempo onde os desprezados aumentam vertiginosamente (Mateus 24), eu apelo que procuremos o eco daquele convite do Mestre: “Vinde!”. “E quem ouve diga: Vem. E quem tem sede, venha; e quem quiser, receba de graça a água da vida”. Recuperando a imagem de Deus em suas criaturas, digamos uma vez mais: “Ora, vem, Senhor Jesus”(Apocalipse 22:17 e 21).

domingo, 10 de maio de 2009

Adveniat - Sobre a vida

O teólogo Agostinho escreveu há alguns séculos: "Usamos mal da imortalidade e isso nos fez morrer. Cristo usou bem da mortalidade e isso nos faz viver." E hoje? Lidamos bem com a idéia da imortalidade? E da mortalidade?

Eu pensava sobre isso enquanto observava os jambos se acumulando no chão do meu jardim. Nosso pé de jambo foi plantado por minha sogra quando ela ainda era viva. Ela o fez para amenizar o calor, uma vez que a copa dessa árvore é realmente um abrigo refrescante nos dias quentes de Recife. O que talvez ela não imaginasse é que eu e meu marido não iríamos desfrutar de mais que a sombra dessa árvore, uma vez que não gostamos de jambo, e toda vez que os vemos assim, às centenas, no chão do jardim, gostamos menos ainda.

Alguns amigos e familiares que nos visitam ficam com dó. Tantos jambos e tão vermelhos, tão grandes e suculentos, mas que apodrecem até serem recolhidos por uma vassoura impiedosa que os manda todos para um enorme saco de lixo. Como a árvore já está muito alta, os que caem se partem de maduros, e os de cima estão muito altos para serem pegos com facilidade. Só os meninos da rua que às vezes entram para roubá-los – com meu total assentimento – é que conseguem tirá-los inteirinhos depois da deliciosa trabalheira de escalar quase até o topo.

E o que isso tem a ver com Agostinho, além dele também ter roubado algumas frutas na infância? É que o desperdício dos jambos me fez pensar em como desperdiçamos também a imortalidade que Deus oferta da frondosa árvore da vida. Não só isso: nem mesmo a nossa volátil mortalidade escapa de ser mal aproveitada, muitas vezes.

O fato é que se não amamos a Vida, que é a Pessoa de Jesus Cristo (João 14:6), não poderemos saboreá-la. Não teremos ânimo de enfrentar a escalada íngreme até o topo dos princípios cristãos, para nos apoderarmos de algo que nos é na boca tão insípido e sem graça quanto um jambo o é para mim – é também Cristo que dá sabor ao Fruto do Espírito (Gálatas 5:22). Ele é o maior argumento contra aqueles que vivem como se a vida fosse algo que pertence ao além, pois a forma como Ele viveu nos lembra que vida é agora, porque agora é chegado o Reino de Deus (Mateus 10:7). E a despeito da morte que nos espreita, cada cristão tem aqui um dever, que é mostrar o amor de Deus àqueles que precisam de Vida em abundância. Se não nos dermos conta de que precisamos morrer um pouco a cada dia em abnegação e conversão (João 17:3), pereceremos como fruta que não encontrou seu propósito: ser alimento para a vida (João 12: 24; 15:8). Fruta que não alimenta, seca e morre.

Por outro lado, a imortalidade também precisa ser um anseio do cristão. Mas essa imortalidade almejada não é simplesmente a vitória sobre a morte. Ela representa a vitória sobre o pecado, sobre a pequenez, sobre a amargura, sobre a mesquinhez, representa a vontade de transcender a carne e chegar até a perfeição que Deus pode nos prover (Romanos 6:22). Significa também esperança, segurança, coisas que não se encontram facilmente num mundo em crise de confiança (II Cor. 5:1). Se não cremos no imperecível e não buscamos aqui, dentre todas as coisas, aquilo que pode nos remeter ao Eterno (João 6:27), seremos como a semente que apodrece antes de descobrir nas mãos do Semeador o germe de uma nova vida. O fruto da árvore da Vida que nos acena da copa frondosa não cairá ao chão. Quanto a nós, é nossa escolha viver para a Eternidade – e os altos ideais que ela representa - ou voltar ao pó, como fruta que podendo ser transformada para a Vida, prefere o cimento lapidar do chão do jardim.

domingo, 26 de abril de 2009

Adveniat - Uma nova claridade

Os telejornais estão falando de chuvas fortes por todo o Brasil. Num dia desses, enquanto eu via a imagem de um senhor atravessando sua rua num barco, divaguei nas minhas lembranças até o ano de 2002, quando presenciei as chuvas mais torrenciais que já vi na vida. Eu morava então em Natal, mas no mês de janeiro daquele ano, parecia que a capital potiguar iria se transformar na Macondo de Gabriel Garcia Marquez.

Tanta chuva nos causou grande estranheza. Natal tem o título de “Cidade do Sol” por causa dos seus 300 dias de sol por ano, em média. Segundo alguns estudiosos ela é também a cidade que tem a maior claridade natural do Brasil. Isso ocorre devido a sua posição geográfica, na esquina do Atlântico, que lhe serve como espelho d’água. O resultado disso é que as cores em Natal ganham uma tonalidade característica, confundindo os pintores estrangeiros que por ali passam.

Nesse contexto, um mês inteiro de chuvas fortes e constantes era algo penoso para nós. Lembro de um desses dias chuvosos em que acordei bem cedo, e ao sair de casa vi que o céu estava límpido. Durou pouco, mas naquelas duas horas as nuvens deram uma trégua para deixar o azul celeste nos dizer “olá” novamente. E as retinas já acostumadas aos dias de chuva sempre escuros, ficaram em festa, matando a saudade das cores que não viam há semanas.

No pouco tempo em que o sol ficou à vista, pude perceber uma vasta nuance de cores e tons que antes passavam diante de mim banalizados. Vi azuis refletidos nos paralelepípedos do calçamento e amarelos brilhando nas folhas das árvores. Verdes alegres pontuando o asfalto e cor-de-rosa sorridentes em fachadas de casinhas humildes. Aquele vislumbre de cores festivas, que são a marca da minha cidade, nunca me pareceu tão belo como naquelas duas horas entre o cinza atípico de um verão chuvoso. Percebi que talvez eu nunca tivesse reparado nisso se não tivesse conhecido a ausência da claridade e convivido com a predominância do cinza-chumbo no céu.

Essas lembranças me levaram a divagar mais. Já ouvi muitas pessoas questionando a bondade e o amor de Deus diante de um mundo cheio de tanta miséria, dor, desigualdade, morte e injustiça. Não teria sido mais fácil e justo Deus ter dado fim ao pecado desde seu início, eliminando Satanás, e com ele todas a mazelas da Terra? Por que não o fez?

Acontece que os seres puros do Universo não conheciam qualquer névoa de maldade antes de Satanás. Como natalenses diante de tempestades infindáveis, estavam confusos quando o mal surgiu pois não conheciam suas consequências. Somente quando viram o próprio Filho de Deus agonizando numa cruz em terrível dor, enquanto Satanás e seus anjos rejubilavam julgando ter vencido a batalha, é que o Universo pôde contemplar toda a monstruosidade do pecado. Os anjos fecharam os olhos e choraram diante de tão terrível cena. Compreenderam o que eram as trevas.

Mas o Plano de Salvação arquitetado por Deus era perfeito, e surpreendeu nosso inimigo: três dias depois Cristo ressuscitou dando a resposta de Deus ao Universo e a vitória a todos que O seguem. Por Cristo foi nos dado poder para viver de maneira elevada e santa, a fim de um dia estarmos juntos ao nosso Redentor numa Nova Terra completamente renovada e livre do mal.

Depois de vivermos tanto tempo nas trevas do pecado poderemos contemplar com novos olhos toda a claridade da luz. Conheceremos como somos conhecidos. Amaremos com também somos amados. Louvaremos, não somente porque fomos criados, mas porque fomos resgatados da escravidão e da morte. Embora nos custe viver nesse ambiente obscuro em que vivemos hoje, é ele quem nos dará um dia a noção exata da nossa necessidade do Sol da Justiça. Quando tudo isso passar, compreenderemos melhor a luz, e por isso “não se levantará por duas vezes a iniqüidade” (Naum 1:9). Se pela fé crermos nessa doutrina, poderemos aguardar com esperança o tempo em que andaremos eternamente na luz (Apocalipse 21:24).

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Monólogos acompanhados - Ekklesia

Inaugurando mais um tag no blog, pensamentos esparsos, incompletos e crus que não chegaram a virar reflexões maduras.
--------------------------------------------------
(1)
Você percebe que ninguém sentiu a sua falta.
E isso é triste.
Mas percebe também, e isso sim importa,
que a questão, de fato,
é o quanto você sentiu a falta de Deus.

(2)
Mal comparando, a igreja para mim é como uma prova acadêmica. Se você fez sua lição de casa, se está feliz porque conseguiu exercitar o conteúdo com que teve contato, se aprendeu de fato, vai fazer a prova contente e satisfeito porque sente que não só aproveitou os novos conhecimentos como tem o suficiente para dar. Na Igreja então, em contato com outras pessoas, você vai falar entusiasticamente sobre aquela matéria que você estudou a ponto de gostar dela (não costumamos gostar daquilo que não conhecemos). A ponto de desejar repassá-la de modo que outros possam aproveitar esse conhecimento também.
Se por infelicidade eu esquecer de fazer minhas lições de casa e aparecer na prova só para parecer que estudei ou que sei algo, meu semblante logo denunciará que estou oca. Que tenho medo e vontade de ir embora. E virá a apatia porque não consigo "acompanhar" aquele conteúdo, o isolamento porque não me identifico com aquele ambiente, a amargura porque a prova se tornou um instrumento para me pressionar a dar algo que não tenho.
E ainda que eu me esforce muito para não deixar transparecer isso tudo, e mantenha os olhos em outros objetos durante o tempo da prova (na roupa de um, nos vícios de linguagem de outro), uma hora os olhos do Mestre encontrarão os meus e...

(3)
A diferença entre o mandamento AMEM
e o cumprimento AMÉM
é um acento tônico
inclinado para o palpável
sobre uma vontade aguda de amar.

Recebi de graça - Solução para remédios amargos

Deviam inventar algo análogo para o ser humano, embora nós, ao contrário dos animais, tenhamos aprendido a nos acostumar com tudo, mesmo ao pior dos sabores, se julgamos que isso nos trará um benefício ou evitará um mal.

No texto anterior falamos sobre o quanto suportar com fé certas amarguras desta vida pode ser compensador. Mas explicar isso para os cachorros é mais difícil. Por isso a solução criativa abaixo, que recebi hoje (essa demorou meses!) e já vou repassar para minha irmã porque a minha cadelinha costuma engolir resignadamente seus remédios (melhor até que alguns humanos).
Trata-se de "bolsinhas" de ração para esconder os comprimidos e cápsulas que você tenha que dar para seu cachorro. Nos sabores carne e frango. Clique AQUI e preencha o formulário colocando Brazil e o seu CEP no campo "City", e o restante do endereço nos campos "Address" 1 e 2.

Adveniat - Ressureição

Mais uma reedição de um texto de 2002 (um ano literariamente falando). Esta foi a pedido de Mário Jorge Lima, pois ele achou que o texto tinha a ver com a páscoa. Não era o que tinha em mente quando escrevi mas de fato, o tema remete à reflexão própria do período. É tão fácil - e tão bom - escrever sobre música!
---------------------------------------------------

Uma das mais belas sinfonias de Gustav Mahler é, sem dúvida, a Segunda, denominada "Ressureição". Mahler, músico dado a composições grandiosas, conseguiu dar a essa sinfonia um tamanho descomunal, tanto em se tratando da mensagem como da execução da música. Para ter noção dessa grandeza, junte aí um conjunto enorme de instrumentos de cordas, com mais 70 instrumentos diversos, alguns deles fora do palco, incluindo dois sinos, e um coro de vozes imenso – a idéia era essa!

Os três primeiros movimentos da Segunda Sinfonia são instrumentais, e de acordo com indicação do próprio Mahler, o primeiro deles lança uma pergunta: "Com que finalidade viveu você?", a qual será respondida somente ao fim. A dúvida alterna momentos de uma atmosfera dramática, tensa, com passagens singelas e suaves. Quem já não meditou sobre esse tema alguma vez?

No penúltimo movimento, aparece uma voz doce, um solo de contralto, cantando a "Luz Primordial", onde o tema da dúvida se desenvolve. Mahler deixa ver um ser humano em conflito, que vem de uma vida de sofrimentos e necessidades, querendo se manter no caminho da Luz, mas, sendo constantemente tentado a se desviar dele. Seria tão melhor estar no Céu ao invés de viver as amarguras da vida terrena... é tão cansativo travar essa luta constante contra a carne e contra anjos maus. Sua convicção, porém, não vacila, e repete contrito: "Eu sou de Deus e para Deus devo retornar.”

Essa é a primeira faceta de uma ressurreição que por vezes passa despercebida: a morte do velho homem, e a ressurreição de uma nova criatura em Cristo Jesus . Estar longe do caminho que conduz a Deus é estar, de certo modo, morto, posto que perece qualquer esperança para além desta vida fugaz. Quando nascemos de novo já não nos conformamos em viver aqui só para comer, beber, apaixonar-se e morrer. É para isso, sofrimentos, futilidades e desilusões que vivemos nesta terra? Depois de satisfazer esta carne, o que nos resta? Não. Descobrimos um sentido maior, mais elevado, para o qual caminhamos ainda que em luta constante contra nossa natureza, que teima em se apegar às coisas vãs desta vida. A pergunta permanece suspensa: Qual a razão de estarmos aqui? O lindíssimo solo de contralto, que começou apontando para Cristo, a Rosa de Saron, termina com uma única certeza: Deus iluminará o caminho daqueles que decidirem seguí-lO.

Então começa o último movimento, o mais longo de uma sinfonia até então. Aqui, Mahler explora a força de todos os elementos musicais para expressar as passagens bíblicas que vão da Volta de Jesus à Ressurreição. E o faz com maestria, colocando aquele imenso coral de que falei para cantar uma das mais poéticas visões da Ressurreição através dos versos de Friedich Klopstock. A ressurreição dos justos é representada como está em Apocalipse 14:14-16; a ceifa, onde os que morreram justificados em Cristo ressurgirão, assim como a semente que depois de um curto sono torna à vida no mesmo lugar em que foi semeada, agora em aparência de glória.

E o homem angustiado, chega ao fim de suas dúvidas: “Você não nasceu em vão. Você não viveu e sofreu em vão.” A Ressurreição é a resposta a todos os sofrimentos que foram suportados e vencidos. “Oh, sofrimento todo-poderoso, agora eu escapei de você, Oh, morte sempre vitoriosa, agora você foi vencida!”. De repente tudo parece claro como a própria luz que emana do trono de Deus. Todas as renúncias que foram feitas, todas as dolorosas decisões em favor do bem, todos os pecados a que se resistiu, mesmo que atormentassem a carne, toda fidelidade guardada a Deus a despeito de nossa dor, agora parecem tão pouco. O crente repete a si mesmo em júbilo: “Acredite, meu coração, acredite! Você não perdeu nada! Você receberá tudo que amou e desejou”. Os que amaram os pecados e desejaram só as coisas deste mundo terão aqui seus prazeres e também sua destruição. Mas – não é lindo isso? - os que passaram suas vidas amando e desejando estar junto de Jesus receberão no final a recompensa suprema: o próprio Cristo. “Com as asas que eu ganhei, no ardor do amor, eu voarei para a luz que nenhum olho jamais viu.” E por fim, o próprio Mahler conclui: “A dor que você levou, levará você a Deus.”

Que a contemplação de uma Nova Terra onde veremos Jesus face a face, onde “não haverá nem luto, nem pranto, nem dor”, onde “nunca mais haverá qualquer maldição”, (Apocalipse 21: 4, 22: 3,4), possa nos impressionar uma vez mais no início desta semana. E que a “Luz Primordial” dê força à nossa fé, e sentido a nossa breve existência neste mundo.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Acreditar (ou não)

Eu não conhecia, encontrei hoje por acaso. A música se chama "O Adventista", composição do Camisa de Vênus (Marcelo Nova/ Franz Hummel)

"Eu acredito no bem e no mal
Eu acredito no imposto predial
Eu acredito, eu acredito
Eu acredito nos livros da estante
Eu acredito em Flávio Cavalcante
Eu acredito, eu acredito
Não vai haver amor neste mundo nunca mais
Eu acredito no seu ponto de vista
Eu acredito no partido trabalhista
Eu acredito, eu acredito
Eu acredito em toda essa cascata
Eu acredito no beijo do papa
Eu acredito, eu acredito
Não vai haver amor neste mundo nunca mais
eu acredito em quem anda com fé
Eu acredito em Xuxa e em Pelé
Eu acredito, eu acredito
Eu acredito na escada pro sucesso
Eu acredito na ordem e no progresso
Eu acredito, eu acredito
Não vai haver amor neste mundo nunca mais
Eu acredito que o amor atrai
Eu acredito em mamãe e papai
Eu acredito, eu acredito
Eu acredito no Cristo que padece
Eu acredito no INPS
Eu acredito, eu acredito
Não vai haver amor neste mundo nunca mais
Eu acredito no milagre que não vem
Eu acredito nos homens de bem
Eu acredito, eu acredito
Eu acredito nas boas intenções
Mais este papo ja encheu os meus culhões
Eu não acredito, eu não acredito"

Vi no YouTube o vídeo dessa música com um comentário abaixo que falava de uma entrevista que o Marcelo deu na MTV dizendo que, em certo show (o do vídeo), parou, viu aquele monte de garotos de 16, 17 gritando "Não vai haver amor nessa P. nunca mais" e começou a improvisar um pai nosso.
Esta outra música abaixo eu já conheço de longas datas. Chama-se "Escolhi acreditar". Música de Lineu Soares e letra de Mario Jorge Lima.

"Modernas Teorias, novas formas de pensar
Existem por aí nos meios intelectuais
Que vão do ateísmo mais profundo e radical
Até o humanismo com tinturas sociais
E hoje mesmo a crença tenta se modificar
E quer que o homem seja o fim da sua pregação
Senhor dos seus problemas, dos seus sonhos e ideais
Buscando aqui e agora a total libertação
No entanto eu escolhi acreditar
Que existe um plano para a salvação
E que há um Deus no céu a governar o meu viver
Mas que me dá poder até pra aceitá-lo ou não
O seu reino é liberdade é amor
Espera sem forçar a decisão
Ele é descomplicado, não confunde o pecador
E fala tanto a minha mente como fala ao coração
O ser humano hoje só volta para si
Buscando atender necessidades essenciais
Mas sem levar em conta que há uma vida superior
Que poderá suprir os seus anseios mais reais
E há os que procuram tudo racionalizar
Só crendo no que a ciência e a cultura podem ver
Querendo um milagre pela lógica explicar
Se fecham para as coisas do espírito e da fé
No entanto eu escolhi acreditar
E esperar assim em meu Jesus
Filósofos e mestres nunca irão avaliar
Aquilo que o amor de Deus mostrou na cruz
O meu Deus é poderoso é real
Só nEle eu encontrei enfim perdão
Prefiro depender de sua força sem igual
E quero ter, então, por Ele transformado o coração."

Nem todo ser humano quer o mesmo para si. Embora todos precisem do mesmo.
Impressionante como a crença faz diferença entre essas duas músicas.
Pode fazer diferença na vida da gente também.