domingo, 6 de maio de 2001

Autógrafo

Toda a linguagem escrita, corporal e artística se rende à força mágica dele. A Sacha, filha da Xuxa, já descobriu isso e desenha formidáveis bolinhas quando reconhecida por seus fãs. Um autógrafo é algo tão pessoal, que quem o recebe tem a firme impressão que capturou as qualidades e a presença de quem o deu. Uma simples
assinatura pode multiplicar consideravelmente o valor de um documento, uma partitura, uma tela, uma roupa, um perfume, entre outras coisas. Hoje certas assinaturas valem mais do que os objetos em questão e não raro, bem mais que o talento de quem assinou...

Nem mesmo os cristãos primitivos escaparam ao uso do autógrafo, e consta que uns mais fervorosos tatuavam a forma de um peixe no corpo. Eu, na época que cantei num grupo vocal de relativa fama local, treinei até o meu, que conseguiu fundir ao meu nome uma linda pombinha com um ramo singelo no bico. Por favor, sejam benevolentes na gozação, era uma bonita pombinha.

Hoje queria que você meditasse no autógrafo que você está dando através de suas atitudes. Sim, em cada gesto, palavra ou decisão sua, está implícita a marca de um autógrafo que personaliza essas ações. É isso que distingue o seu modo de ser dos outros bilhões de habitantes da Terra, é essa assinatura que expressa suas qualidades e dá aos outros a medida do que você é. E o que você é? Alguma vez decidiu-se pelo adjetivo "cristão"? Se esse for seu caso, e você esteja vivendo realmente seu cristianismo, então já sou capaz de reconhecer seu autógrafo. E como ele é valioso! "Porque... o Alto e o Excelso..." Nome que você professa seguir, "...habita na eternidade..." do seu autógrafo (Isaías 57:15).

No mundo moderno há excesso de coisas fúteis, fugazes, passageiras. É nos recomendado desde sempre que gozemos o momento presente, pois ele se esvai com tudo que o acompanha: as pessoas mudam, as comidas
estragam, as luzes se apagam, o prazer é volátil, a alegria escorrega entre os dedos, vivemos sob o império da transitoriedade. Qual a diferença marcante entre os móveis, casamentos e músicas do século XVIII e os de hoje? É que hoje, ao contrário daquela época, ninguém mais os faz pensando em durarem para sempre. A modernidade traz como alternativa a substituição constante, até à exaustão - enquanto houver o que se exaurir...

Mas Deus "pôs na mente do homem a idéia da eternidade" (Eclesiastes 3:11), para que nós puséssemos essa idéia em cada atitude, como um autógrafo que as acompanha. É a eternidade implícita nos seus atos que lhes dará um valor especial, que dirá algo íntimo e pessoal sobre quem você é como filho de Deus. Qualquer um consegue fazer as coisas pensando em si, em dinheiro, prosperidade, amor, satisfação, recompensa. Difícil, amigo, é assinar os próprios atos pensando em eternidade. Nas consequências eternas desta nossa vidinha aqui.

Deus habita na eternidade que há no pensar, agir, falar e decidir do cristão. E se for para sentir e chamar de amor, então tem que ser para sempre: somos seres feitos para a eternidade. Que nessa semana mostremos o nosso Deus de atitude em atitude. E "Bendito" seja o Senhor Deus de Israel de eternidade a eternidade. Amém e amém". Salmo
41:13

domingo, 29 de abril de 2001

Sobre o besouro do p.s,

Cheguei a pensar que não iria acabar nunca, mas o período de provas da primeira unidade na faculdade teve fim. Depois de noites mal dormidas e horas infindas sofridas na leitura exaustiva de livros enormes, eu cheguei ao fim desta semana me abstendo de ler até outdoor. Estava disposta a passar um bom tempo em estado de desinformação total: jogar banco imobiliário, assistir um vídeo de comédia, andar pelo shopping, talvez chegar ao cúmulo de ver TV no domingo... . Mas como esse roteiro me deixasse com a estranha sensação de morte iminente por tédio, eu fiz uma trégua com a leitura e despenquei numa rede, com um pote de sorvete de coco de um lado, e do outro um livrinho simples, sem pretensões intelectuais, fininho e próprio para ser folheado aleatória e despreocupadamente.

Trata-se de "P.S.: eu te amo", do escritor H. Jackson Bronw Jr. Eu o ganhei de presente há muito tempo, mas ainda não tinha me detido para o ler na íntegra. Trata-se de uma compilação que o autor fez de todos os "post scriptum" das cartas que sua mãe lhe enviou ao longo da vida. Segundo as palavras dele, ela sempre deixava o melhor para o final, e neste pequenino espaço escrevia grandes conselhos e observações inteligentes, sempre acompanhados da afirmação do amor materno.

Acho que isso é que faz este modesto livrinho se destacar entre os livros de pensamentos do gênero: o "post scriptum", via de regra, tem um conteúdo intrigante, e costuma ser a parte mais significativa dos e-mails que recebo. Isso faz parte de uma regra geral infalível: você deve tomar nota cuidadosa de tudo que lhe for dito de passagem... o que importa só é dito depois da primeira conjunção adversativa (mas... porém...) e um discurso inteiro não vale a sua conclusão.
Um dos "P.S.s" da senhora Brown que me chamou atenção, dizia: " Pelas leis da aerodinâmica o besouro não pode voar. Esqueceram de dizer isso para ele!"

E é apenas sobre isso que eu queria que você meditasse no início desta semana: quais são os limites que você tem se imposto? Os limites forjados pela voz de quem te deprecia, e diz que você não pode, que não vai conseguir, que deve tentar outro caminho, que já não há chances, que você é incapaz e seu caso, sinto muito, não tem solução? Pior: terá você feito dessa, a sua própria voz? Ou seus limites são ditados pela voz da vontade divina? Se for assim, não tenha dúvidas que Deus sempre estabelecerá o melhor alvo para você. Isso mesmo, inclusive aquele ali, que você tem medo de ir buscar.

Eu estou certa de que há momentos na vida em que nos sentimos fracos, e por uma razão ou outra somos levados a crer nessa voz castradora aí de cima. Mas por que se acorrentar à incapacidade, se você tem aos seu dispôr um Espírito Santo e Poderoso para te transformar num ser vitorioso em todos os sentidos? Se você reconhecer isso, seus problemas não vão desaparecer, mas você vai lidar com eles de forma diferente. Muitas vozes continuarão falando de nossas fraquezas e limitações "...mas o povo que conhece ao seu Deus se tornará forte, e fará proezas." Daniel 11:32.

Uma semana iluminada!

Luna

domingo, 22 de abril de 2001

Possibilidades

Olá amigos,

Os que convivem comigo hão de concordar: em se tratando deimaginação, a minha só é superada pelo vôo do condor. Essacaracterística foi alimentada principalmente em minha infância,quando a ausência de um monte de coisas foi terreno fértil para estamente alada. A escassez de livros me fez escrever os meus próprios, afalta de brinquedos industrializados me fez inventar jogos ebrincadeiras, a dificuldade financeira me fazia aproveitar tudo queeu tinha ao meu alcance como matéria-prima de sonho. Afinal, serfeliz era uma urgência. Curiosidade, criatividade, lápis, papel emais umas bugigangas eram o suficiente para eu construir reinos eaventuras em meu quintal.

Por isso olho com certa tristeza essa tendência moderna de tornartudo muito óbvio, prático, real. São poucos os brinquedos e a culturaque estimulam a imaginação das crianças, as quais ficam adultas cada vez mais precocemente – tem coisa mais triste que uma criança de cinco anos tecendo discursos sobre sexo, pena de morte (uma malufista!!) e germes, como se a realidade dos telejornais fosse amais óbvia e única verdade? Outro dia, num consultório médico, vi uma cena dessas e enquanto a mãe sorria orgulhosa eu controlava minha vontade vomitar (e o médico nem era um gastroenterologista).Talvez por nos acostumarmos com o óbvio, desconheçamos as nossas possibilidades. Vejam por exemplo aquele grupo numeroso reunido ali,ao pé do monte. Por alto dá para contar umas quinze mil pessoas entre homens, mulheres e crianças, muitos cansados e todos com fome ,reunidos em torno de um único Homem. Este povo o seguia em busca deconforto espiritual, porque tinham ouvido falar de como Ele curava e pregava pelo poder de Deus. Mas também precisavam fartar sua fome física.

Simples, tragam a comida!. "Mas não há comida.", você responde.Olhe de novo, tenha mais cuidado dessa vez. Tem certeza que não hácomo alimentar essa multidão?"Bem, pode-se fazer uma vaquinha e comprar algo, mas mesmo assim vai ser preciso juntar um monte de dinheiro!!"Pois eu acho que há outra solução. Fuja do óbvio e use a imaginação,amigo! Olhe aquele rapaz ali adiante. Você não prestou atençãonele.

"Tá bom. Tou vendo. Ele tem cinco pães e dois peixes, agora o quevocê sugere? Nem distribuindo só o cheiro ia dar para tanta gente.Faça o favor de ser prático e dar uma solução mais real, porque não temos muito tempo para ficar brincando, o problema está aí!"Não acho. Você olha para cinco pães e dois peixes e vê um problema.Eu olho para os mesmo cinco pães e dois peixes e vejo possibilidades.Vejo gente com a fome saciada e comida sobrando para outra refeição.Consegue enxergar agora? Leia João 6: 1 – 14.

Uma das qualidades que mais admiro em Deus é Sua criatividade. Como bom artista, ele ousa fugir do óbvio para agir em nosso favor. Se temos fé para permitir isso, é outra história.Seja um entusiasta do poder divino. Durante esta nova semana, olhe com mais atenção o que você tem em mãos e se pergunte o que você e Deus podem fazer com isso. Não se espante em descobrir que, onde antes você via um problema, apareçam possibilidades estimulantes,soluções surpreendentes e até aquela tão sonhada paz. Aí sua semana será realmente iluminada ;-)

Luna

domingo, 15 de abril de 2001

Uma ovelha em três vozes (Handel)

Olá amigos iluminados!

Eu já falei para vocês o quanto gosto de Handel? Só não afirmo que ele é meu compositor favorito porque também sou fascinada pela exuberância de Bach, a expressividade de Vivaldi, e a "mediocridade" de Mozart (o garante minha querida e saudosa amiga Renata). Se a minha vida pudesse ter trilha musical (tenho esta neurose), George Frideric Handel fulguraria em destaque nos créditos, tanto me identifico com sua música.

Eu estava aqui prestando atenção numa das muitas belas árias compostas por ele, que também é uma obra-prima teológica pelo simples ajuntar de dois versículos. A voz de uma contralto (as contraltos são formidáveis) desabrocha no meio de violinos e canta: "Como pastor ele apascentará o seu rebanho; entre os seus braços recolherá os cordeirinhos, e os levará junto ao peito; as que amamentam, ele as guiará mansamente." (Isaías 40:11). Chegue mais perto e repare: o pastor agora está sozinho, e tem o olhar fixo no horizonte, onde busca uma ovelha. Por um momento ele interrompe a caminhada, para e suspira. A voz soprano que estava agachada a contemplar a flor da voz contralto, toma-a nas mãos, levanta-se três tons acima e diz: "Ide a Ele, todos os que estais cansados e oprimidos, e Ele vos aliviará.. Tomai sobre vós o Seu jugo, e aprendei dEle, que é manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas." (ver Mateus 11:28, 29).

E agora eu ouso ir além, fazendo um arranjo nessa harmonia tocante. Quero ver a ovelha que o pastor procura. E sabe o que vejo? A ovelha de Lucas 3:4 – 6, aquela famosa ovelhinha perdida.
Quero que você imagine-se no lugar daquele pastor. Ele amava suas ovelhas, e tanto cuidava, dava carinho e atenção que estas já lhe conheciam pela voz. Mas uma dessas ovelhas sumiu, deixando-o preocupado, temeroso e decepcionado. Imagino esse pastor andando pelo deserto, fazendo sua voz ecoar nas montanhas pedregosas em busca de sua preciosa ovelha perdida. Mas parece que quanto mais a busca, mais a ovelha se distancia dele. O sol lhe queima a face ansiosa... ele começa a sentir sede e fome. Seus pés doem, mas ele continua a andar e – estranho – seu semblante transmite ânimo inabalável, sua voz firme não deixa de ser doce enquanto diz: "Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei... e achareis descanso para as vossas almas"

Consegue perceber que enquanto procura a sua ovelha perdida, o pastor chama para si não só ela, mas todos os que estão cansados e oprimidos? Pode imaginar que, naqueles vales desérticos talvez hajam outra ovelhas perdidas precisando dos braços amoráveis do pastor, onde possam descansar junto ao seu peito? Nota que mesmo fatigado da busca, decepcionado com a perda de sua querida ovelhinha, e sem certezas de que tornará a vê-la, ele persiste em ser pastor acolhedor a toda criatura que cruze seu caminho? Você enxerga que este pastor não se ocupa das próprias lágrimas, mas persegue com teimosia um alvo, sem jamais duvidar de sua capacidade de amar, sem questionar se vale a pena tamanha jornada pedregosa por causa de uma simples ovelha?

Olhe para sua vida e pense nas coisas que você perdeu. Talvez você saiba exatamente o que faz falta, a saudade precisa do que um dia foi tão seu, tão você, a dor de uma ausência bem conhecida: algo que se perdeu de dentro de você. Talvez você nem tenha parado para se dar conta das perdas que carrega como fardo vida afora. Algumas pessoas preferem não pensar muito na forma como perderam a pureza ingênua, a esperança de melhorar as coisas erradas ao redor ou em si mesmo, a capacidade de amar e confiar sinceramente no ser humano, até mesmo a crença num Deus presente e amoroso e num novo mundo transformado, muito embora essas perdas se acumulem formando rugas no espírito de quem as leva.

O que eu desejo para mim e para todos aqueles que sofreram grandes perdas e decepções, é que assumam a postura daquele pastor. Não desistir de ir atrás do que se perdeu. Se isso lhe pertencia, era parte de você, então é extremamente precioso e deve voltar ao seu verdadeiro lugar. Não podemos nos sentir felizes se estamos incompletos, portanto continue procurando o amor, a amizade, a confiança, a fé, a crença. Se você fizer isso, vai estar você mesmo voltando para o seu verdadeiro lugar, pois o caminho pedregoso dos que lutam por reconquistar a felicidade, vai dar na Nova Terra, onde finalmente encontraremos tudo que um dia fomos, e que se perdeu nesses milênios de pecado.

Continue buscando. E não siga cabisbaixo e murmurante, não se isole no vale de sua dor; vá oferecendo amor e sorrisos a todos que cruzarem seu caminho. Enquanto procura sua ovelha perdida, dê o abrigo de seus braços aos que seguem cansados e oprimidos, seja alívio e descanso para os outros que estão perdidos. Você estará recuperando muitas ovelhas preciosas que a humanidade perdeu. Seja manso e humilde de coração, e você já terá achado algo muito importante: companhia para dividir o peso do jugo, e ajuda para buscar e comemorar a volta da sua ovelhinha.

Uma semana cheia dessa melodia luminosa,

Luna

Ps.: Tuca, esse é o tipo de verdade que a gente sabe mas insiste em esquecer na primeira lágrima. Alguns nos oferecem um lenço para enxugá-la; e nosso olhar só fica mais encoberto e detido na dor. Outros, sem perguntas, nos tomam pela mão e andam conosco até o melhor caminho, deixando que a lágrima seque ao vento; e nosso olhar se abre para horizontes cheios de vida. Obrigada, você é um grande amigo.

Ps2.:Ária do oratório "O Messias" de Handel.

segunda-feira, 9 de abril de 2001

Hora do banho

Ele me fala do que anda fazendo, dos planos em que tem investido,pergunta se eu já reconheci que ele sempre teve razão. A princípio euolhava enfastiada aquela pessoa que eu transformei num ilustredesconhecido, mas que ainda insistia em ser estranhamente conhecedorde mim. Nós namoramos quase quatro anos, brigamos dois terços dessetempo, o outro terço passei desenhando a planta da nossa casa quenunca veio a existir. Terminamos nosso relacionamento por um monte deporquês vagos, e agora, enquanto ele falava eu ficava ali avaliando oque sobrou depois de tanto tempo. Percebi que o que ficou de maisbonito, foram as mesmas coisas que desaprendemos a cultivar: nossasconversas. Eu adorava quando ele se permitia tirar a capa de "machão"e falar dos seus sentimentos... e por gostar de vê-lo assimvulnerável, sempre me emocionava quando ele falava do pai. Era quandoeu sentia mais prazer em chamá-lo de "meu lindinho".

Quando criança ele costumava sair para brincar com os amigos na rua,e como todo garoto de subúrbio, o prazer estava na molecagem dessasbrincadeiras. Sua casa fica próximo ao Rio Potengi, e a aventura maisemocionante naquela época era ir fazer estripulias na lama domanguezal. Ali, naquela selva inóspita, eles exploravam fauna e florasem compromisso ecológico... ao fim da tarde estavam completamentecobertos com a lama escura, só os olhinhos lembrando um ser humano.Mas havia um problema... o pai dele era muito severo, e já o proibirapor diversas vezes de ir brincar no mangue. Era perigoso, e caso aordem fosse desobedecida... bem, aqueles olhinhos ficavam maisarregalados ao pensarem nisso. A solução encontrada pelos meninos erasair do mangue e correr para o campinho de futebol. Lá eles deitavamno barro e se espojavam na terra até que ela aderisse completamente àlama e tirasse o odor característico dela. Chegando em casa, ponta depés, ele entrava de fininho. Quando (quase sempre) o pai via aquelacoisinha barrenta, chegava perto, cheirava-o e perguntava por queestava sujo daquele jeito. Ele respondia que estivera jogando nocampo de futebol... e o pai, com o olfato confundido, o mandava tomarum banho bem tomado senão... e os olhinhos tornavam a se arregalar...

Lembrei de alguém na Bíblia que também gostava de lama. Naamã era orei da Síria: poderoso, grande estrategista militar e conquistador demuitas terras e povos. Mas apesar da aparente glória em que vivia,Naamã se revolvia na lama de seus próprios pecados, e saboreava issocom imensurável prazer. Mas havia ali um cheiro que o incomodava, umtriste cheiro de lepra. E quanto mais Naamã tentava esconder adesgraça por debaixo daquela aparência de glória, pior era. Ele punhaum sorriso nos lábios e dava festas em comemoração àquela vida cheiade prazeres, se cobria de honras humanas e satisfações materiais, mastudo isso era como espojar-se no barro... podia-se até esconder aignomínia da lama embaixo daquela camada superficial de felicidade.Mas tudo que ele conseguia era ficar mais e mais sujo. Quandoconfrontado com a gravidade de seus pecados, Naamã se cobria com maisbarro das glórias humanas e achava que ninguém iria reparar. Ninguémia sentir o cheiro da podridão que o consumia lentamente. Mas chegouum tempo em que suas deformidades estavam ficando impossíveis de serescondidas.

Pensando no que poderia ser seu fim e vendo que ele se aproximava,Naamã sentiu-se desesperado. E cedeu a uma esperança mínima, saídados lábios de uma pequena garota israelita que ele fizeraprisioneira. Agora chegara o momento de Naamã encarar o Deus Pai TodoPoderoso.

A primeira coisa que Deus fez foi colocar aquele filho teimoso em seudevido lugar. Eliseu, o profeta do Senhor, sequer o recebeu, mandouapenas um recado, e o recado de Deus era: "Naamã, enquanto vocêinsistir em viver na lama que tanto te apraz, eu não poderei fazernada por você, a própria podridão te devorará aos poucos. Que realmente se livrar do cheiro da lama? Abandone então o barro de suaspróprias vontades e limpe-se! Lave-se para tirar toda essa crosta desujeira que se acumulou no seu espírito! Vai ao Rio Jordão e mergulhalá sete vezes!"

"Sete vezes?", pensou Naamã, "Ora, que desaforo. Venho de longe embusca deste Deus, e Seu profeta nem me recebe, nem me falapessoalmente, só me manda o recado. E depois me manda ao rio dosisraelitas, quando há rios bem melhores e mais bonitos na minhaterra. Não poderia eu lavar-me neles e ficar limpo? Tem que ser nesserio de... Israel?!" e fez uma cara de nojo. "No mais, por que tem queser sete mergulhos? Esse Deus não tem poder para me tornar limpo sócom um mergulho??"É Naamã... mas as coisas estão em desvantagem para você. É você quemestá sujo. É você quem precisa de cura e agora, pois pode perder seuespírito. São seus os sofrimentos a amargar por causa dos seus enormes pecados. Por isso reconheça sua impotência e faça o que Deuslhe pede. "Por que Ele não desce do Céu para me falar pessoalmente?Se eu sou mesmo importante para Ele, por que não Ele não me recebefrente a frente e diz exatamente o que devo fazer, de maneira clara?"Bem Naamã, Ele mandou o recado, está nessa Bíblia aí do seu lado. "Mas eu tenho ir mesmo a essa Igreja cheia de homens imperfeitos, cujos membros já me decepcionaram, onde muitos pastorese membros fazem coisas erradas, e há um monte de pecados e falhas portodos os lados?"

É Naamã, é aí mesmo que você tem de ir! Sei que vocêdeve ter em mente rios de água mais cristalina, mas é nesse rio deIsrael que você deve banhar-se. "E tem que ser todos os mandamentos?Cumprir um por um, todos os preceitos bíblicos? Não poderia apenas resumir isso em duas ou três regras, e mais uma porção de frasesfeitas para estar limpo?" Sinto muito Naamã. Quem tropeça num sóponto é culpado de tudo, se Deus quer que você siga todos osmandamentos, são todos.

Naamã decidiu ir ao Rio Jordão e deu sete mergulhos. A medida que iamergulhando, deixava ali cada um de seus pecados: o orgulho do bravoguerreiro, a idolatria ao seu deus Rimom, o preconceito para com osoutros povos, a arrogância de sentir-se o único sábio e rei de simesmo, a injustiça de seus procedimentos, o egoísmo... e no sétimomergulho, Naamã afogou o próprio Naamã. Com o Eu submergido naquelaságuas, aquele homem pode renascer, liberto do pecado e curado de suasenfermidades físicas e espirituais. Naamã agora vivia, sabe o que éisso? Agora sim ele era feliz de verdade. Sem ter de cobrir-se dobarro das aparências e inúteis tentativas humanas, ele sorria porcompleto e cheirava a novo. E você sabe como é bom cheirinho de coisanova! Por que não experimentamos agora sermos o que Deus sempresonhou sermos? O que conseguiremos sustentando nossa lepra escondida?Até quando lama e barro vão nos encobrir a glória de sermos chamadosfilhos de Deus?

Uma semana iluminada!

Luna

domingo, 1 de abril de 2001

Enquanto eu achava que tinha perdido a lente de contato... de novo.

Alguns seres humanos convivem inexplicavelmente bem com a adrenalina. Correm perigo, vão aos limites de sua capacidade. Por isso, uns escalam montanhas, outros saltam de pára-quedas, outros ainda esquiam de alturas vertiginosas, pulam de cima de prédios amarrados por cordas elásticas... e eu, uso lentes de contato.

Se você acha que esse é um hábito desproporcional em relação aos demais citados, meça o nível de adrenalina em alguém que tem de enfiar um corpo estranho de flúor-carbonato nos olhos todos os dias. Depois observe como esse pobre ser passa o dia inteiro se precavendo de perigosos grãos de areia que ninguém liga, tenebrosos ventos capazes de lhe arrancar as coisinhas dos olhos, onde os outros só sentem uma leve brisa, e aterrorizantes ar condicionados, que todos insistem em aumentar a potência, enquanto a pobre alma tem seus globos oculares ressecados até expulsarem as lentes.

Incompreendida é a sina de quem usa essas torturas oftalmológicas por obrigação, como é meu caso. Mas nada se compara a observar a estranha e inexplicável tendência que as lentes de contato têm para alçarem vôo quando eu as tento colocar nos meus olhos. Isso que faz a experiência de usar lentes, ser uma fonte de tensão constante: a possibilidade de ver R$ 300,00 indo parar no obscuro e insondável ralo da pia; a versão do "underground" de Hamlet para lentes de contato, o lugar de onde não há volta.

Ano passado eu descrevi para vocês um desses vôos desesperadores, que ocorreu exatamente no meio de um black-out. Esta semana, me deparei com a mesma sensação. A lente já estava quase no olho, quando minha pálpebra piscou bem em cima dela. No segundo que se seguiu, um gelo percorreu toda minha espinha... ouvi nitidamente o barulhinho da lente batendo duas vezes, uma na pia, e outra no chão.

E logo em seguida, estavam eu e minha irmã naquela cena antológica: tateando cada centímetro cúbico do piso do banheiro, sem achar nada. Como já estava atrasada, fui para o estágio e deixei minha irmã naquela missão nada agradável. Passei a tarde diante do computador digitando números e orando... já havia passado por situações idênticas antes, e sabia que só um milagre poderia fazer aquela lente ser achada. E eu esperava por isso, embora também me preparasse para enfrentar mais uma temporada de enxaquecas e visão anuviada (ainda estou pagando as prestações desta última lente suicida).

Bem, deixe-me aí na frente do computador no escritório e venha até ouitro computador, no meu quarto. Não se preocupe, fique a vontade e pode bisbilhotar. Ligue o computador e abra, despretensiosamente (acidentalmente para os mais pudicos), minha caixa de e-mails. Você encontrará uma pasta chamada "interessantes", que é onde guardo os e-mails que acho mais significativos, para serem salvos e catalogados posteriormente... é uma versão virtual de bolsa de mulher. Entre poemas, textos jurídicos e teológicos, você verá alguns e-mails pessoais. Veja o que diz este, de um certo amigo, depois de meu desfile de lamúrias: "...Mas não esqueça que a cada instante há um milagre acontecendo. Você só precisa abrir o olho para ver".

Nunca senti tanta paz em menos de vinte palavras do que quando li essas palavras. Eu vivia uma daquelas situações em que você sente que só um milagre divino pode intervir a seu favor. Que sua dor é muito grande e ninguém pode entender a dimensão de seu sofrimento. Que seu problema é o mais importante agora, e até os conflitos no Oriente Médio não são tão trágicos quanto ele. Você sabe os motivos para estar desanimado, e não minimiza a grandiosidade da solução: precisa de um milagre, de uma saída específica, clara e eficaz. Mas não tem como buscá-la, precisa ser conduzido por Deus até lá, e essa impotência lhe cansa ainda mais.
Os olhos ficam tão fixos na própria angústia que deixam passar despercebidos os pequenos milagres que Deus está fazendo neste momento. Enquanto Ele está providenciando a melhor solução, continua cuidando de você, que está muito desolado para percebê-lo. E muitas vezes, tão convicto de seu problema, você acaba deixando passar o milagre que tanto queria, que pode estar bem aí, na sua frente, do seu lado, esperando que você o perceba e o acolha em sua vida.
Acho melhor você sair da frente do computador do meu quarto porque tem alguém abrindo a porta e acho que sou eu que acabei de chegar...

Meu semblante abatido se deve ao fato de minha irmã ter acabado de me dizer que não encontrou a lente de contato, como eu tanto desejava. E dos cálculos orçamentais para os próximos meses, que se me afiguram bem mais "apertados" do que eu havia previsto. Sento-me na frente do computador onde você estava ainda há pouco (sem notar que você o deixou ligado na ânsia de se esconder atrás da porta), e começo a responder meus e-mails. Já está tarde, e vem o primeiro bocejo anunciando o sono...sinto as pálpebras cansadas e esfrego os olhos, quando de repente...ei, o que é isso arranhando no meu olho esquerdo???? Sim, minha lente está lá, no meu olho, esteve o tempo todo lá!!! Mas espere, então o que foi o barulhinho que ouvi no banheiro quando pensei que ela tivesse caído? Por que não senti o olho arder e lacrimejar como sempre sinto quando ela adere à minha córnea? Por que não senti o vento e o ar-condicionado incomodarem este olho como normalmente o fazem? Eu não perceberia que estava enxergando melhor durante o dia, se a lente estivesse mesmo o tempo todo ali?

Não é minha intenção aqui tecer discursos fanatizados sobre milagres. Muito menos quero destilar polêmicas: sei que existem tantas explicações para este fato quanto há ciências no mundo, e não é preciso pertencer a comissão de canonização do Vaticano para também elaborar as mais diferentes teses para o acontecido...

Minha intenção é apenas reafirmar o que disse acima: o milagre que você espera tanto pode estar acontecendo agora, pode estar diante de você sem que você ainda não tenha conseguido senti-lo, não permitindo portanto vivê-lo. Não espere por luzes incandescentes descendo do Céu em sua direção, anjos luminosos com a resposta exata e uma varinha (espada?) de condão, grandes prodígios, um aperto comovente no coração seguido de visão miraculosa... Deus tem caminhos diferentes e sábios para atuar em nossas vidas, alguns incompreensíveis, outros com aparente lógica, milagres são apenas mais um modo de Deus nos falar, coisas simples, tão simples quanto a paz que vem da certeza que Ele está agindo em seu favor exatamente agora. Você é capaz de aceitar isso?

Continue orando, confiando na vontade de Deus para você. "...Mas não esqueça que a cada instante há um milagre acontecendo. Você só precisa abrir o olho para ver".

Uma semana iluminada!

Luna

domingo, 25 de março de 2001

Complexo de Gilliatt? (Victor Hugo)

Há alguns dias, dando minhas navegadas, encontrei um site que entre outras coisas interessantes, disponibiliza vários e-books (http://ebooks.imn.com.br/). Acho de uma tristeza desmedida ler livros no computador, devido à sensação lamentável de não ter o contato orgânico do folhear de páginas. Mas ainda assim, os títulos que encontrei no site eram tão bons que não resisti a fazer uns "downloads". Não me arrependi, e contrariando minhas inclinações, "devorei" em pouco tempo as 1406 páginas virtuais (pequenininhas) de "Os trabalhadores do mar", de Victor Hugo, traduzido por Machado de Assis.

Não dá para resumir um livro tão profundo e minucioso como este. O autor enriquece o enredo com detalhes dos costumes, pessoas, lugares, objetos e sentimentos, a ponto de nos sentirmos diante de uma tela de cinema, e ainda nos leva a refletir nas suas assertivas sobre o ser humano e a natureza. De modo que não é sem receio que eu me atrevo a comentar parte da narrativa, e dividir minhas impressões – mais poéticas que filosóficas - com vocês.

O personagem principal do livro é um homem chamado Gilliatt, pescador rude, porém nobre que mora na pequena ilha de Guernesey, numa típica aldeia normandia do século XIX. Ele é o único personagem que se mostra inteiramente assim: nobre. Todos os outros têm desde uma mácula até a podridão completa no caráter. No entanto, justamente por ser um homem bom e simples, Gilliatt é renegado à solidão. As pessoas, longe de estimá-lo, o desprezam, lhe são ásperas e o insultam chamando-no feiticeiro, feio, e todo um cortejo de adjetivos repulsivos, que era a forma de disfarçar o quanto o temiam. Ele, alheio a tudo isso, desde pequeno aprendeu a conviver com o preconceito e desprezo através do isolamento. Tornou-se um homem com aversão ao contato humano e fez da natureza seu refúgio.

Durante a narrativa, o que me impressionou é que todos os elementos sobre a face da Terra pareciam expulsar Gilliatt dela. Todos os homens aparecem maus, ignorantes, ou simplesmente ignóbeis, de espírito corrompido pelas paixões ou futilidades. Parece ser impossível haver lugar entre eles que Gilliatt possa se acomodar. A própria natureza, de onde ele tira o sustento e sua única companheira, por vezes submissa e domada, mostra uma face monstruosa quando decide investir contra ele e arrasar-lhe as forças, tentando por todos os meios acabar com sua vida e empreendimentos. Tudo conspira contra Gilliatt, e até mesmo o amor, que o faz enfrentar a fúria de todos esses elementos, acaba por abandoná-lo também. Gilliatt sai do enredo como alguém que ousou entrar na história errada. Ele não possuía lugar entre as coisas humanas, porque parecia bom demais para estar entre elas. Desistiu de tentar, e entrega-se por fim ao mar, contra quem houvera tão bravamente lutado.

Há muito que se extrair da leitura desse livro fascinante. Mesmo quem não é dado a demoradas reflexões, não tem como sair ileso às frases de efeito ou, ao menos, um pouco mais entendido de assuntos navais.

Mas o que eu quero abordar aqui é apenas um aspecto das minhas conclusões literárias: o forte senso de desajustamento que atinge aqueles que decidem ser bons. Não pela glória da virtude nem pela recompensa do feito, apenas pela decisão de imitar a Jesus Cristo.

Quando decidimos fazer a coisa certa, mais precisamente quando nos tornamos cristãos autênticos, sempre encontramos a oposição, o escárnio, a falta de incentivo, o desânimo, a descrença, o riso. Dá aquela sensação que tudo ao redor nos expulsa. A que se deve esse sentimento? Complexo de Gilliatt? Jesus previu que seus seguidores passariam perseguições, injúrias, mentiras, aflições para todos os gostos e desgostos (relembrar Mateus 5:11 e 12, João16:33 entre outros). A Bíblia está cheia de histórias assim vividas pelos servos do Senhor. Eu, você e todos que um dia decidiram ser cristãos, também as têm.

Já vi muitos fazendo grandes esforços para tentarem adequar o fato de estarem no mundo e não serem do mundo, mas as tentativas nesse aspecto sempre resultam vãs. Há também quem desista porque não suporta enfrentar a fúria de um mundo inteiro contra as suas fraquezas humanas. A pressão da maioria é discreta mas intensa! Talvez seja melhor encarar tudo ao redor como normal e sobreviver! É tão mais fácil ser apenas "humano"...

Mas eu continuo achando que não temos que nos adequar aqui, porque este não é nosso lugar. Nosso planeta está muito contaminado pela maldade, e isso faz com que Satanás o controle facilmente. Por isso não é para se espantar que tudo se arremeta contra quem ouse ser bom e acredite no amor. Não é para se admirar que as pessoas nos machuquem, que os planos sejam frustrados sem explicação, que as conquistas sejam tão árduas e as vitórias tão sofridas. Se nós desanimamos com coisas como esta, é porque esquecemos que é à Pátria Celestial que devemos nos adequar; lá se dará a vitória que nos interessa. Não deixe que os sofrimentos aqui te preocupem ao ponto de fazer-te triste, de te levarem a desistir como Gilliatt fez.

A sensação de estar alheio a este mundo deve ser encarada como um lembrete de que pertencemos a um mundo muito superior. E quando rirem e pisarem nos nossos valores, sonhos e crenças, olhemos para o sorriso promissor de Jesus que nos espera mais além...

sábado, 17 de março de 2001

Exibindo

Olá amigos iluminados!

Não é mentira, está lá, para quem quiser ver. Eu estava deitada numa rede, sorvendo em preguiçosos goles meus últimos dias de férias, e procurando alguma coisa para ler na "Veja" que não fosse propaganda nem matéria para "Caras", quando me deparo com a criatura. Esposa de um cirurgião plástico, a...(custa-me dizer com convicção) mulher exibia seus mais recentes atributos. Em dois anos ela implantou cabelo, colocou 225 ml de silicone nos seios, mais silicone nos lábios e panturrilhas, fez lipoescultura na cintura, abdome e culotes, clareou os dentes, fez plástica no queixo para fazer uma covinha, tomou injeções químicas na testa para "suavizar" rugas, tudo isso arrematado com unhas postiças de porcelana e lentes de contato verdes, para destacar a beleza da tez bronzeada - artificialmente, claro. Para os que ensaiam uma interjeição indignada, é bom levar em conta os interesses artísticos da mulher: ela quer posar na playboy e participar de uma novela na Globo.

Eu ainda investigava a foto insólita, quando minha prima pulou na rede e me assaltou com uma proposta bem anti-estética: "vamos brincar de contar cicatrizes??" Invenção dos dias tediosos, essa é uma brincadeira interessante mas difícil: você tem que apontar uma cicatriz que tenha no corpo e dizer exatamente onde ou como a adquiriu. Se não lembrar, perde.

- Eu começo! - disse ela - essa aqui foi minha gata Chiquita que fez.

- Tá. Essa aqui na coxa, foi um ferro de passar que caiu quando eu tinha 7 anos.

- Essa no pé, foi um caco de vidro.

- Hmmm... espere. Essa na cabeça, foi passando numa cerca de arame farpado, quando tinha a sua idade.

- Essa aqui no tornozelo ó, foi semana passada, na sela do cavalo que eu montei.

- Ah, não lembro mais. Não faça essa cara, você está trapaceando, todo dia consegue uma nova. Eu não lembro mais de todas que tenho...

- Ganheeeeeiii!! E nem falei dessa na perna, quando levei uma queda, essa na testa quando bati no tronco de uma árvore, essa do dedo, que foi um bicho de pé, e essa daqui - falou ela aboreando a glória suprema - essa enooorme, quando esfolei meu joelho numa xícara quebrada.

Que contraste enorme entre a criatura da revista e aquela que me sorria dentro da rede. A primeira, utilizou-se de todos os artifícios para esconder seus defeitos, para encobrir de modismos suas imperfeições. Não a condeno: para os objetivos que ela tem em mente, está no caminho certo. E minha prima, toda feliz do meu lado, tirava a alegria de mostrar justamente todas as imperfeições que possui no seu corpinho, apontando detalhada e enfaticamente cada cicatriz, ficando tanto mais alegre, quanto mais feia ela fosse. Compreendo-a perfeitamente: aquelas cicatrizes são importantes porque contam a história dela, são as lembranças das aventuras saboreadas.

Cada um exibe o atributo que traduz seu conceito de felicidade. A Bíblia fala de alguém que também gostava de contar e exibir cicatrizes. O apóstolo Paulo não perdia a oportunidade de enumerá-las detalhadamente: "essa foi nos açoites e varas dos judeus, essas nos naufrágios, essas num abismo, essas quando fui apedrejado, essas de ladrões, essas aqui no deserto, etc, etc" (II Coríntios 11: 24 - 28) e arrematava com orgulho: "...trago no meu corpo as marcas de Jesus" Gálatas 6: 17. O que explicava esse orgulho feliz de Paulo? Masoquismo?

Em outro lugar Paulo fala de uma carreira que nos está proposta: o caminho do cristianismo (Hebreus 12:1). Acontece que esta carreira é longa, o caminho pedregoso, e ele sabia que podemos até levar uns tombos, arranharmos o joelho da alma, levarmos um corte na testa do espírito. E daí? O importante é levantar, limpar o pó, pôr um band-aid bíblico e sorrir feliz.

Paulo não via suas feridas como machucado, mas como um atributo que mostrava por QUEM e PORQUÊ ele vivia. Suas cicatrizes, eram exibidas com aquele gostinho alegre que antecede a vitória. O motivo desse estranho senso estético é um Ser que, vivendo num lugar cheio de seres perfeitos em todas as dimensões, é o único que exibe feias cicatrizes. "E se alguém lhe perguntar: Que feridas são essas nas tuas mãos? Dirá ele: São as feridas com que fui ferido em casa dos meus amigos" (Zacarias 13:6). Não pense que Jesus dirá isso com tristeza. Ele apontará para a cicatriz, abrirá um sorriso largo de satisfação e pronunciará o seu nome. E o meu. E o nome de cada pessoa por quem ele deu a vida na cruz.

As nossas cicatrizes espirituais, querido (a) amigo (a), são a forma de lembrar para fazer valer essas cicatrizes de Jesus. Os arranhões que porventura adquirirmos por causa de nossa fé, são uma maneira demonstrar nosso "sim" ao sacrifício supremo dEle. Tenha certeza que a mão de Deus te acompanhará durante toda a carreira para te livrar do mal e te levantar nas quedas. Mas se você sair com cicatrizes das batalhas, sorria e se exiba. Você está levando no corpo os atributos de uma guerra cuja vitória se aproxima, as insígnias do exército divino, as marcas do Senhor Jesus.

Uma semana iluminada!

Luna

domingo, 11 de março de 2001

Surpresa

Oi amigos!
Alguns aqui já sabem que há algum tempo eu resolvi me meter a regente e formar um grupo vocal na pequena Igreja do Alecrim. Ao contrário da atual tendência para esse tipo de formação, temos por objetivo primeiro louvar a Deus e depois, promover o senso de agregação entre os jovens que participam dele, procurando também desenvolver técnicas de educação vocal e espiritual, para um louvor sadio. A proposta é interessantíssima, o trabalho é exaustivo.

Eu fiz uma campanha intensa de incentivo para que toda a igreja participasse, e o resultado esperado é que, a grande maioria do grupo é formado por leigos e inexperientes em música, pessoas que não sabem o que é uma clave do sol, ou que só cantavam no banheiro, que nunca seguraram um microfone nem jamais ouviram falar de técnicas de respiração, impostação ou dicção. Chamam o relaxamento de "ginástica" e fazem as caretas mais sórdidas para aprenderem a usar o diafragma corretamente.
Como vocês podem imaginar, os primeiros ensaios foram bastante, digamos... trabalhosos. Eles cometiam erros primários, alguns não conseguiam cantar em uníssono. Não que eu saiba lá grande coisa de música, sou uma amadora em todos os sentidos da palavra, mas confesso que por vezes beirei ao desespero, me contendo num sorriso e em doses cavalares de paciência e bom-humor. A vantagem - também esperada - é que eles não têm vícios de cantar errado por anos a fio, são humildes para aceitarem seus erros, não sentem necessidade de sobressair, e se aplicam com afinco aos exercícios e ensaios. Estão todos lá, pontuais, ativos, participando em tudo, desde as meditações bíblicas até as vocalizes.

E o que a princípio era quase um desespero, passou a ser um trabalho compensador. Depois de muito esforço conjunto, oração, treino e um clima de amizade e estímulo, conseguimos harmonizar razoavelmente a primeira música. Algum entendido em música que nos ouvisse poderia julgar o som hediondo, mas enquanto eu ouvia todas as vozes em seus lugares, soando firmes e se harmonizando, fui ao êxtase, quase beijei todo mundo de tanta felicidade.

Surgiu então o problema. Como eles não estão acostumados às luzes e microfones, são tímidos e inseguros se forem colocados perante um público. Quando sugeri que iríamos cantar na igreja em breve, alguns quase desmaiaram, outros já começaram a ter crises de garganta. Mas ficou dado o recado, e embora eu não contasse com o apoio da maioria, os adverti que a qualquer momento poderíamos cantar, pois era para isso que estávamos nos esforçando tanto.

Procurei uma oportunidade por algum tempo. Não queria fazer isso num culto porque eles ficariam muito nervosos e acabariam não cantando nada mesmo, além de correrem o risco de se sentirem humilhados devido a presença de muitas pessoas. Mas eis que uma irmã da igreja resolve fazer aniversário...

Eu estava lá, com uma coxinha numa mão e o playback dos ensaios na outra. Quando vi que todos do grupo já haviam chegado na casa da irmã, levantei. Dirigi-lhe uma pequena homenagem, li um texto bíblico condizente com o tema da música ensaiada e anunciei que o nosso grupo iria cantar naquele momento em homenagem ao natalício daquela pessoa tão especial.

Dava para ouvir o coração de alguns batendo em ritmo de escola de samba. Eles se entreolharam medrosos, visivelmente assustados, mas incapacitados de reagirem porque a irmã realmente nos é especial, e ficou tão comovida com a iniciativa que não deixou espaço para ninguém voltar atrás. Sem um pingo de piedade, pedi para que todos ficassem de pé, se ajuntassem e soltei o playback com a melodia conhecida. Eles precisavam dar esse passo, quebrar a barreira do medo, terem uma primeira experiência como cantores. E tinha de ser ali, onde quer cantassem bem ou horrivelmente, todos achariam sublime, porque não entendiam muito de música.
Amigo, eu bem que gostaria , mas esta não é uma história sobre os milagres que Deus é capaz de fazer, ou anjos que se juntam aos cantores para dar uma harmonia perfeita e celestial...

Um dos tenores tentava engolir os cinco salgadinhos que, nervoso, colocou na boca de uma vez só. A contralto à minha direita teve um acesso de tosse. A soprano mais segura acabara de beber um copão de guaraná borbulhante e não conseguia mais que miar as notas. As calças dos baixos balançavam convulsivamente no ar, e a luta para unir as vozes lembrava a batalha de Waterlloo...

Aceito todas as críticas das ONGs protetoras de cantores amadores. Também assinto na reprovação dos psicólogos, regentes, assistentes sociais, ouço as mais duras censuras de todos os cantores aqui. O fato é que, depois que saímos de lá e convencidos a me pouparem o pescoço, demos boas risadas e chegamos à conclusão que a segunda vez será bem melhor que a primeira. Pelo menos pior, vai ser impossível ser. E eles vão se dedicar mais ainda a fim de estarem prontos para cantarem a qualquer instante necessário. A lembrança deste fato vai deixá-los tão atentos quanto preparados.

Sabem, Jesus é um regente que decidiu nos fazer surpresa análoga. Ele poderia ter escolhido anjos perfeitos e poderosos para terminar a maior obra desde a criação: levar o evangelho a toda criatura, e anunciar que Ele está voltando em breve e quer salvar a todos. Mas ao invés disso escolheu a nós, pobres coristas limitados, cheios de defeitos, falhas e pecados. E prometeu que muito em breve se dará o dia glorioso em que nos apresentaremos face ao Universo, com essa obra terminada – quer por nossas mãos, quer não. Temos à nossa disposição tempo, material e estímulo suficientes para estarmos preparados para esse grande dia, mas será que temos dedicado esforço bastante para não sermos pegos completamente desafinados com a música divina? Quando o Rei e Regente do Universo vier, achará em mim uma voz melodiosa por proclamar as verdades do Reino, e segura por firmar-se na Rocha? Ou apenas um par de pernas tremendo por saber-se nota dissonante da Bíblia, desesperando em gritar para fugir da face do Cordeiro?

Quero convidá-lo a, junto comigo, preparar-se com dedicação para tomar parte no coro celestial. É agora que devemos afinar nossas vidas de acordo com a música que Deus compôs para a humanidade, fugindo dos ritmos e dissonâncias que Satanás insiste em tentar inserir entre nós. A partitura é a Palavra de Deus. Unidos, orientando e confortando uns aos outros, ficará mais fácil conseguir a harmonia necessária. "Quando, pois vier o Filho do homem na sua glória, e todos os anjos com ele" (Mt25:31), nós nos uniremos a eles num perfeito louvor, em grandioso coro celestial.

Uma semana iluminada!

Luna

sábado, 3 de março de 2001

Biografia não-autorizada de um urubu

Seguindo a tradição milenar do calendário brasileiro, é passado o carnaval e começa oficialmente o ano. As férias se foram, deixando apenas a lembrança de umas boas histórias para contar; que eu, enfocando espiritualmente, me proponho a dividir com vocês.

A maior parte do meu ócio de verão foi passado na praia de Muriú, onde minha família possui uma pequena casa cercada por um paraíso tropical. Esse tipo de cenário costuma atrair os mais variados tipos de pentelhos de verão: cunhados, amigos do primário de quem você nem lembra mais, a vizinha do tio da namorada do amigo do seu primo em terceiro grau. Mas o que não esperávamos, é que um veranista muito mais bizarro nos viesse fazer companhia.

Aproveitando a onda atual de exaltação aos animais, que fez a secretária de defesa dos animais do Rio de Janeiro empregar um cão em cargo público de bastante reputação, e uma Universidade do Paraná emitir diplomas para uma cadelinha poodle e uma égua, resolvi também fazer minha homenagem. Quero registrar aqui uma biografia e dar meu viva à alimária!

Ele já chegou bastante bronzeado e recebeu o nome de Tiazinha. Segundo consta, era macho, mas não escapou à alcunha humilhante. Parece que o viram pela primeira vez, andando com as galinhas da minha tia, mas como todo bicho que chega a Muriú, acabou indo parar na nossa casa. As reações à chegada dele foram as mais diversas, mas todos estava unânimes numa coisa: o urubu era feio. Asqueroso. Tinha um olho torto e uma pata manca que o fazia ainda mais medonho, e seu bico parecia ter sido fabricado por um produtor de filme de terror trash. De alguma forma se afeiçoou ao nosso alpendre e insistia em passear por lá, assombrando os cachorros e traseuntes mais desavisados. Minha irmã mais nova, que a princípio morria de repugnância por ele, passou a lhe dar restos de comida, sobre os quais Tiazinha avançava com avidez, dando um nó no estômago dos que presenciavam o espetáculo.

Certo dia, um primo nosso levou o urubu para a Beira da Lagoa, e ninguém nunca mais o viu. Alguns desconfiam que ele foi morto, outros, como eu, preferem achar que agora Tiazinha voa pelos prados e campinas, com aquele vôo sublime que só os urubus têm. Quando em terra esses animais assustam, parecem-nos horríveis, nojentos, monstros comedores de carniça. Mas não há como ficar pasmo diante do belíssimo vôo deles, quando planam num balé majestoso pelos ares. Nisso eles são tão bons e bonitos quanto qualquer águia americana. Chego a achar até que os urubus deveriam viver sempre planando, lá em cima parece ser o lugar ideal para eles ficarem, não acha? Não é a opinião da minha irmã mais nova, que agora anseia a oportunidade de ter de novo um urubu de estimação.

Pois se afirmam que somos parente do macaco, e temos um tiquinho mais de genes que os vermes, eu lanço essa: nós temos algo em comum com os urubus.

Deus nos criou para as alturas. Quando os anjos nos vêem aqui na terra, acho que custam a acreditar que foi por essa raça medonha, horrível, desfigurada, que o Filho de Deus deu a vida. E se nós nos acostumarmos as coisas desse mundo, tranquilos em passear pela vida terrestre nos alimentando dos restos de prazer que ela tem a nos oferecer, não passaremos nunca de feios comedores de carniça espiritual. Porque tudo que há de bom aqui, é resto degradado por seis mil anos de pecado. Se nos conformarmos só com a felicidade que a humanidade busca na satisfação carnal, intelectual, social, financeira, espiritualmente seremos sempre a mais rasteira e repugnante criatura.

Mas experimente planar sobre tudo isso. Decida ir até o céu e você encontrará seu verdadeiro lugar. É buscando os objetivos mais elevados, os padrões celestiais, que nos transformaremos em lindo espetáculo a todo o universo. Alçaremos vôo belíssimo, que nos levará além de toda a pequenez dos limites humanos. Descobriremos nossa vocação para seres celestes, e mergulhando na atmosfera desse céu, ficaremos cada vez mais lindos, à medida em que chegarmos mais perto de Deus.