sexta-feira, 24 de setembro de 2004
"Mas uns mais iguais que os outros..."
No sábado, mais que em outros dias de culto, parecemos mesmo todos iguais. Isso é maravilhoso! Ainda mais se além de iguais, estivermos unidos. Se a nossa semelhança implicar também na sensibilidade para as diferenças. Pois eu posso facilmente ter ao meu lado um irmão muito parecido comigo religiosamente, mas com uma vida emocional, financeira, familiar ou espiritual bem diferente da minha. Pode ser que eu tenha que ir além do sorriso no rosto dele para perceber que ele precisa de bem mais que o meu cumprimento sorridente.
Você já deve ter lido na Bíblia a passagem de Mateus 25: 34 – 40 em que Jesus fala de um grupo de pessoas que perguntará por ocasião de Sua vinda: “Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? Ou com sede, e te demos de beber? Quando te vimos forasteiro, e te acolhemos? ou nu, e te vestimos? Quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos visitar-te?”, e Jesus responderá: “Em verdade vos digo que, sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a mim o fizestes”. A fome, a sede, a necessidade de acolhimento, cuidado, proteção e esperança não estão somente “lá fora”. Entre nossos irmãos, mesmo aqueles que nos parecem estar vestindo tão bem a capa da semelhança, existem muitos precisando que alguém se importe em ajudar, em pelo menos chegar junto.
Eu fico muito triste observando como por vezes sentamos ao lado de alguém na igreja, e nem olhamos para o lado para ver quem é o nosso irmão que está ali. Mesmo que você não o conheça, não se trata de um desconhecido, é seu irmão! E enquanto você abre sua Bíblia indiferente pode ser que ele esteja precisando de uma manifestação de amor sincero. Eu fui batizada e freqüentei durante muito tempo igrejas pequenas, onde normalmente as pessoas vivem um sentimento familiar mais forte, e por vezes, em igrejas maiores, fui olhada com espanto pelo simples gesto de cumprimentar alguém do meu lado a quem eu não conhecia. Confesso que às vezes fico com medo de invadir o papel religioso-individual de alguém: chegar, sentar e olhar para o pregador, saudar os conhecidos com um cumprimento ir para casa. Mas isso me incomoda! E meu marido, que tem o hábito de cumprimentar todo mundo que vê pelas ruas (não, não é candidato a vereador), tem me ensinado mais do prazer de se importar com as pessoas.
É triste que numa comunidade religiosa que professa crer num Deus uno, aconteçam episódios como o que nos contou certo amigo. Num determinado congresso de jovens, o pregador pediu que todos virassem para o lado e cumprimentassem seus irmãos. Como nosso amigo era de outro estado, ele disse que ficou olhando para os lados, vendo os grupos de amigos e conhecidos se abraçarem enquanto ele permanecia esquecido no meio do auditório, sem que ninguém ali lhe estendesse a mão. “Eu nunca senti um senso de deslocamento tão forte”, desabafou. Então ele não era um irmão também só porque era desconhecido?
E isso não é o mais triste. Há mesmo muitos irmãos que nos são conhecidos por um sorriso de feliz sábado, mas cujas necessidades nos são totalmente ignoradas. Não creio que devamos catalogar a vida pessoal das pessoas da nossa igreja, mas podemos nos aproximar com gestos de amor sincero e desinteressado, nos mostrarmos dispostos a compreender, ajudar, ouvir, praticarmos a sensibilidade de Cristo para as necessidades do espírito humano, ou ao menos orarmos fervorosamente para alcançarmos esse dom. Para que no meio de iguais consigamos ser também unidos. Para que, iguais a Cristo, enxerguemos o caminho especial para cada alma, tenhamos algo de Cristo a dar àqueles a que chamamos de irmãos.
Então, feliz sábado!
Luciana
quarta-feira, 22 de setembro de 2004
Doce ignorancia (Ana Karenina)
Eu lembrei desse episódio enquanto lia um trecho de Ana Karenine, de Tolstoi, onde o personagem Levine compreende a extensão da fé em Deus ao lembrar de uma cena semelhante, em que crianças brincavam de fazer doce e jogavam comida fora, ficando zangadas ao serem interrompidas por sua mãe, a qual tentava explicar-lhes porque não deviam fazer aquilo. As crianças permaneciam chateadas e céticas porque não entendiam que estavam destruindo a própria subsistência. “Tudo isso é muito bonito e bom, mas o que nos dão é assim tão precioso? É sempre o mesmo, hoje, como ontem, enquanto que é divertido fazer doces à vela e atirar leite na cara; é uma brincadeira nova e de nossa invenção”. E ele conclui:
“Não foi assim que nós fizemos, que eu também por meu turno fiz, querendo penetrar pelo raciocínio os segredos da natureza e da vida humana? Não é o que fazem os filósofos com suas teorias? Que se deixe as crianças procurarem por si próprias o seu sustento, e em lugar de fazerem brincadeiras morreriam de fome... que nos deixem, a nós, entregues às nossas idéias e às nossas paixões, sem o conhecimento do nosso Criador, sem o sentimento do bem e do mal moral!... Que resultados se obterão?Eu, cristão, educado na fé, cumulado de benefícios do cristianismo, vivendo desses benefícios sem ter consciência disso, e, como essas crianças, procurei destruir a essência da minha própria vida... Sim, a razão nada me ensinou; o que eu sei, foi-me dado, revelado...”
Comparo o pensamento de Levine, para quem o ensino da razão só pode levar a deduções lógicas, mas não ao sentido da vida, ao pensamento de muitos cristãos que tentam espremer Deus dentro de uma lógica. Alguns desses desenvolveram teorias que lhes satisfazem o intelecto enquanto os obriga a ignorar um ingrediente vital para o espírito: o conhecimento de Deus (Filipenses 3:8 – 11). Não o conhecimento que se adquire pela mera reflexão lógica, pois que lógica pode haver no amor? Como achar razão em viver para Deus ao invés de viver para a satisfação das próprias necessidades? Que Deus razoável é esse que entrega um Filho para morrer por pecadores que, em seu natural, ocupam-se de destruir aquilo que lhes é dado? E principalmente, que felicidade é essa que se acha em se submeter à Lei dEsse Deus?
Como percebeu o personagem de Tolstoi, a compreensão da fé e da felicidade em Deus não é para quem raciocina em busca de uma resposta, mas é para quem procura a paz. A partir disso, pode-se compreender a necessidade que temos dEsse Deus e de viver o cristianismo tal como Ele requer. Se assim não for, caímos inevitavelmente na tentação de raciocinar Deus com nossa mente finita em busca de uma espécie de glória própria: “mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o Senhor...” (Jeremias 9:24). Uma das teorias que resultam desse esforço vão é o antinomismo, que nega a necessidade da Lei de Deus na vida dos cristãos. É uma teoria já antiga, surgida com o gnosticismo na igreja cristã primitiva, e combatida pelos apóstolos, mas que perdura até hoje. prega que a “intenção” de amor basta para salvar o espírito, e que a salvação prescinde regras de conduta. Assumindo outras ramificações, como o dispensacionalismo, negam a necessidade da Lei de Deus.
Mas quanto mais eu ouço teorias de uma liberdade sem a Vontade expressa de Deus, mais eu lembro do meu doce de folhas de goiaba em calda. A Bíblia em diversas passagens nos apresenta a Lei de Deus como reflexo de seu caráter, e demonstração prática da tal “intenção” de amor (Mateus 5:17; Romanos 3:8-10; Romanos 3:31; I Jo 6:9-11; I Jo 1:8; Salmo 119). Mas além do conhecimento intelectual e moral de Deus, é preciso um conhecimento volitivo, que vem somente pela fé em Jesus Cristo. E é conhecendo-o que compreenderemos na totalidade a alegria de obedecer a Lei de Deus. Veremos o modo maravilhoso como a Lei “desmascara a falsidade do amor que não aceita suas responsabilidades para com Deus e o próximo”¹. Nos descobriremos dEle, tal como Ele nos sabe Seus. E só então deixaremos de querer ter razão para querer mais do melhor conhecimento.
Durante esta semana desejo que compreendamos a amplitude da graça, da paz e do bem que há na Lei de Deus e no conhecimento de Cristo Jesus. Não é maravilhoso? O Gnosticismo (do grego, gnosis = conhecimento) pregava um conhecimento reservado a poucos, alcançado somente por senhas místicas, pelo ascetismo, por um caminho de esforço humano. O Cristianismo são prega um conhecimento que nos é dado a todos de Graça, que transforma-nos para a felicidade e para o amor em sua plenitude. Oremos, pois, como Moisés: “Rogo-te para que me faças saber neste momento o Teu caminho, para que eu Te conheça e ache graça aos Teus olhos” (Êxodo 33: 13)
Uma semana iluminada,
Luciana
¹Comentário da Bíblia de Genebra. Ver. Antinomismo. I João 3:7
sexta-feira, 17 de setembro de 2004
Duas palavrinhas
E sua história tragicômica (que me salvou de contar uma das minhas) me fez lembrar a parábola dos dois filhos, que está em Mateus 21: 28 – 32. Jesus estava ensinando no Templo quando alguns sacerdotes e religiosos de altos cargos achegaram-se para questionar com que autoridade ele ousava desafiar o sistema religioso de então com idéias, palavras e atitudes que mudavam completamente a noção de Deus que vigorava naquela época. Jesus não respondeu de pronto a pergunta deles, mas contou antes uma parábola, que o livraria de uma vazia discussão teológica e ensinaria aos mais humildes que o escutavam uma lição superior sobre o amor – sempre a ênfase da pregação de Cristo.
A parábola conta que um pai chamou seus dois filhos para trabalharem na vinha. Aqui, Cristo nos remete ao capítulo cinco de Isaías – quem sabe não era sobre o profeta que Jesus falava ao ser interrompido pelos sacerdotes? A vinha representa o próprio povo de Deus, separado, escolhido e cuidado para dar bons frutos, mas que acabou por se afastar bruscamente dos propósitos divinos, até tornar-se deserto. Pois bem, um dos filhos disse sim ao pai, no entanto não foi trabalhar. O outro filho disse que não queria ir. A Bíblia não diz que o Pai questionou os motivos do filho - um dia de sol que convidava a tomar banho no rio Jordão, um compromisso com os amigos, uma aula de técnica vocal –, diz somente que ele não queria ir à vinha, foi sincero e disse “não”. Até aí os dois filhos estavam em pé de igualdade, nenhum deles havia feito a vontade de seu pai. Mas aquele que disse não se arrependeu em seguida e foi trabalhar conforme seu pai havia pedido.
Numa pequena história, duas mensagens igualmente importantes. A primeira é que um “não” é insuficiente para afastar um filho da vontade de seu Pai. A maravilhosa graça de Deus espera que compreendamos a sua vontade e aguarda o nosso arrependimento sincero. Deus ama a sinceridade de coração. Não força, não questiona, não briga. Ele apenas pede e espera. Não quer um sim medroso, cheio de dúvidas ou contradições. Quanto mais O conhecemos, mais Seu amor nos impele a servi-lO com alegria, e é essa a resposta que Ele deseja de nós. Mas de vez em quando nossa natureza humana, maculada de egoísmo, vai negar-Lhe uma entrega. E Ele vai estar lá, esperando que o amor que nós conhecemos nEle nos leve a arrepender e voltar atrás.
Depois, a segunda mensagem: um “sim” hipócrita sempre afasta o filho da vontade do Pai. A Bíblia não diz qual motivo fez o filho voltar atrás no seu sim. Pode até ter sido um motivo que os sacerdotes do templo diriam “nobre” ou “aceitável”. Jesus queria dizer a esses homens é que o povo de Deus não é aquele que uma vez disse “sim” à religião para vivê-la de forma nominal e hipócrita; povo de Deus é todo aquele que faz a Sua vontade, e renova o seu “sim” continuamente perante Deus, e não perante ritos e formas vazios. A religião que, de fato, nos liga ao céu é aquela onde se entrevê o Caminho, a Verdade e a Vida, onde o amor não fica estagnado na palavra, mas se manifesta com a pureza do Verbo. Jesus afirmou que a crença aceitável é estar aberto para os caminhos da Justiça Divina, e não da justiça própria “Pois, tantas quantas forem as promessas de Deus, nele está o sim; portanto é por ele o amém, para glória de Deus por nosso intermédio” (II Coríntios 1:20)
Durante este sábado eu gostaria que ouvíssemos o que o Pai nos pede, e disséssemos sim. Ele sabe dos possíveis motivos que temos para lhe dar um “não” sincero, mas não há sentido em confiar em atalhos entre nós e Ele quando temos tão pouco domínio sobre nosso futuro: quem garante que o tempo nos permitirá retificar nossas respostas? Mas se for para dizer sim, que o façamos em sinceridade de coração, dispostos a levar adiante a fé que professamos, fazer eterno o breve instante afirmativo corroborando-o em cada detalhe da nossa religião. Lembre que um “não” pode vir a te entristecer, e que um “sim” falso pode entristecer o Ser que mais te ama no universo.
Feliz sábado,
Luciana
segunda-feira, 13 de setembro de 2004
Algo mais
O pai de Acsa resolveu dá-la em casamento ao guerreiro que conseguisse conquistar uma certa região ao sul da Palestina chamada então Quiriate-Sefer. Embora esse tipo de arranjo matrimonial nos pareça esquisito à primeira vista, é preciso analisar o contexto histórico para observar que nessa época a conquista de terras era o maior interesse dos povos, pois da posse da terra dependia toda a estabilidade deles. Portanto o pai de Acsa estava preocupado em lhe dar um marido que demonstrasse ter vontade suficiente de conquistar uma terra que daria uma lar seguro e próspero para sua filha. Depois, na mente de seu pai, um marido guerreiro, corajoso, era o melhor que ele poderia dar a Acsa, que devia valer muito a ponto do pagamento do seu dote ser a vitória de uma importante batalha.
Otoniel, primo de Acsa, conseguiu essa proeza, e conseqüentemente a terra que conquistara. Se a história terminasse aqui todos os méritos pareceriam devidos a Otoniel, mas este fizera apenas a sua parte no trato, conseguiu apenas aquilo que lhe era por direito humanamente. Acsa foi mais além. Ela percebeu que as terras do seu marido eram boas, mas não seriam produtivas sem água, que existia franca nas nascentes próximas, em terras de seu pai . E embora seu quinhão já fosse muito bom, esse não era tudo de que precisava: o clã de seu marido, agora o seu, precisava de mais, do melhor. Não entendo sua atitude como ganância, mas como uma visão clara das vantagens a que tinha direito. Acsa daria uma boa advogada! Pois não se contentou em perceber suas necessidades, lembrou o marido que Deus havia prometido bênçãos completas a seu povo, e pediu ao pai aquilo que ele não poderia negar: um presente, como sinal de bênção sobre aquele casamento. Assim, os queneus conseguiram se estabelecer sobre ótimas terras – e abundantes águas, sem o que as terras e todo o esforço do valente guerreiro Otoniel pouco teriam valido.
O que Acsa tem a nos dizer? Acredito que as nossas melhores conquistas são o fruto de uma parceria entre nós e Deus. Ele nos aponta as oportunidades – e é preciso conseguirmos distingui-las daquelas empreitadas que são meramente nossa vontade – , nós nos lançamos na batalha com determinação até alcançar o alvo. Mas a história não deve parar por aqui, como a de Acsa não parou. Qualquer livro de auto-ajuda aconselharia a ter coragem de vencer as batalhas e se apossar do prêmio. Mas a Bíblia indica que os cristãos devemos reclamar a bênção completa que Deus tem para nós. E para isso é preciso perceber o que é que nos faz completos, depois ir até Ele, pedir que nos oriente a chegar até onde Ele quer que realmente cheguemos. Sem a água da vida que corre dos mananciais celestes (João 4:14), nossas conquistas serão tão efêmeras quanto o bocado deste mundo que conquistamos.
Uma vitória é sempre algo bom. Uma vitória com Deus é algo eterno. É preciso ter visão ampla para compreender aquilo de mais amplo que nós mais precisamos, e ir busca-lo humildemente, mas com segurança, nas mãos dAquele que nos pode dar (Mateus 7:7), dAquele que, como nosso Pai amável, não nos pode negar uma bênção completa e abundante. Qual deve ser o tamanho de sua bênção esta semana? O que Deus pode ajuntar aos seus esforços? O que Ele deseja fazer que pode suprir por completo suas necessidades? Deixe que Ele lhe fale agora mesmo!
Uma semana iluminada,
Luciana
sábado, 11 de setembro de 2004
Por outros olhos
As lembranças vieram em turbilhão: alguns destes textos nunca saíram do meu computador. Muitos ficaram incompletos, suspensos numa intenção que provavelmente eu nunca vou conseguir resgatar. Outros, mais ousados, freqüentaram concursos literários, e uns pouquinhos me deram a felicidade de ganhar dois livros de presente (eram os prêmios dos concursos), e um belo “certificado de honra ao mérito por conseguir a classificação entre os sessenta finalistas”. Nada que me mova a criar um novo movimento literário, mas o suficiente para eu mostrar aos meus netos enternecidos, que Deus há de querer bem generosos, a fim de se importarem com isso.
Todo esse reencontro comigo mesma me fez pensar que já tive muitos olhos, os quais tomei emprestado de muita gente especial que passou por meu caminho. Antes de todos, a minha mãe, que guardava com carinho os livros que eu escrevia e ilustrava lá pelos nove, dez anos. Mas os olhos dela eram ternos demais e se comoviam mesmo diante de títulos como “Flipinho, o peixinho”. Dada a benesse materna, eu me animei a começar a fazer poesias e mostrar para minhas professoras. Elas pareciam gostar também! Então lá pela quarta série eu me arrisquei a fazer algumas redações de cunho político-social que deixou em polvorosa a pacata Escola Vovó Libânia, e tia Roseane correu para mostra-las às outras tias, inclusive tia Graça, que colocou uma observação bem bonita e elogiosa no meu caderno. Um elogio de tia Graça, para mim, era toda a glória que qualquer escritor jamais poderia sonhar. E eu tomei os olhos de tia Graça para criar.
Um dia conheci Machado de Assis e tive meu encontro definitivo com a literatura. Mas que olhos assustadores! E à medida que eu procurava por mais autores, mais olhos assustadores me cercavam, todos muito grandes para caber em minhas órbitas oculares... por isso pedi emprestados olhos de amigos mais letrados, professores, até mesmo namorados, para quem dirigi boa parte de minha “produção”. Prestava bastante atenção na mágica que havia nos textos dos mestres, o que exatamente eles colocavam ali que me manipulava tão bem. Estudava embevecida causa e efeito, letra e sensação, tentava aplicar aquilo ao meu modo, e colhia o singelo resultado no semblante e na opinião de gente que, como eu, também gostava de ler ou escrever.
Ao longo do tempo essas pessoas foram mudando, e eu mesma mudei, me permitindo deixar-me um olho para analisar minhas crias, e tomar outro emprestado para garantir que não seria complacente demais comigo. Assim, por outros olhos, eu já tornei meus textos mais objetivos, mais impessoais, mais sentimentais, mais espirituais, mais humanos, mais sociais, dependendo sempre do olhar que eu escolhia como meu parâmetro. E não dava o texto por terminado enquanto não imaginasse como determinada pessoa (eu mesma, às vezes, por que não?) reagiria aqui e ali, e cortava, e emendava, e acrescentava, e o mais importante é que escrever continuou sendo um momento feliz.
Curioso, não? Mas algumas das coisas que mais gosto – música, escrita, pintura – aprendi por outros olhos. Maquiavel, certa vez, sentenciou: “O homem prudente deve seguir sempre as vias traçadas pelas grandes personagens e imitar aqueles que forem muito excelentes, para que, se o seu talento não lhe permitir igualá-los, consiga ao menos alguma semelhança”. E olhar por outros olhos nada mais é que se colocar no lugar de alguém e imitá-lo naquilo que você acha que ele tem de melhor.
Acredito que nossa amizade com Cristo exige muito dessa “técnica”, por assim dizer. Não se trata de anularmos nossa personalidade idealizando um ser abstrato, mas aprimorar nosso caráter segundo o que consideramos mais perfeito no exemplo concreto que está registrado em Sua Palavra e na memória do nosso relacionamento com Ele. Os meus olhos não conhecem de todo a bondade, a misericórdia, a paz, a sinceridade, o amor. Mas sei que pelos olhos de Cristo eu tenho o melhor parâmetro para trabalhar todos os meus atos, palavras e pensamentos, de modo a refletir “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor...” (Filipenses 4:8)
Perguntar-se “O que Jesus faria em meu lugar”, não é uma frase aplicável só às crianças da escola bíblica na igreja. Antes, ter a preocupação em olhar pelos olhos de Cristo serve “para que não mais sejamos meninos, inconstantes, levados ao redor por todo vento de doutrina, pela fraudulência dos homens, pela astúcia tendente à maquinação do erro, antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo” (Efésios 4:14 e 15). Se há algo que aprendi olhando o desenrolar da minha mania de escrever, é que somos felizes fazendo aquilo para o que nos sentimos particularmente chamados, dando nisso nosso melhor, e nos descobrindo únicos e especiais pelos olhos de quem sabe o que é especial. Desejo que todos os dias, encontremos a felicidade de andarmos na nossa soberana vocação, “não segundo as nossas obras, mas segundo o Seu próprio propósito e a graça que nos foi dada em Cristo Jesus...” (II Timóteo 1:9)
Bom sábado!
Luciana
terça-feira, 7 de setembro de 2004
Pelo mundo
- É curioso como eu penso agora nestas coisas. Antigamente só pensava em mim mesmo. Vivia como cego. Foi Olívia quem me fez enxergar claro. Ela me fez ver que a felicidade não é sucesso, o conforto. Uma simples frase me deixou pensando: `Considerai os lírios do campo. Eles não fiam nem tecem e no entanto nem Salomão em toda a sua glória se cobriu como um deles.´”
O diálogo acima ocorre entre Seixas e Eugênio, dois personagens do livro “Olhai os Lírios do Campo”, de Érico Veríssimo. O primeiro contato que travei com este livro foi quando eu tinha por volta de onze anos, e folheava um livro antigo de Educação, Moral e Cívica, disciplina modorrenta que atormentou alunos da década de setenta e oitenta. O que eu gostava no livro eram uns quadrinhos enfeitados com flores e folhas, onde o autor colocava frases de efeitos, pequenas histórias bonitinhas, fábulas e anedotas de efeito moral. Algo correspondente aos modernos sites de mensagens enlatadas, aquelas cheias de figuras bonitinhas e efeitos audiovisuais que até nos fazem perdoar a mania deles atribuírem textos sofríveis a grandes poetas. Pois bem, eu recortava impiedosamente os quadrinhos enfeitados e colava-os em meu diário, escrevendo textos melancólicos ao seu lado. Por essa época eu achava que para escrever bem se tinha que ser melancólico. Por isso fiquei atônita quando li um quadrinho do citado livro. Ele não trazia nenhuma historinha ou frase, mas uma citação que dizia:
“Estive pensando muito na fúria cega com que os homens se atiram à caça do dinheiro. É essa a causa principal dos dramas, das injustiças, da incompreensão da nossa época. Eles esquecem o que têm de mais humano e sacrificam o que a vida lhes oferece de melhor: as relações de criatura para criatura.”
E continuava, me prendendo a cada palavra, até terminar com a referência enigmática: Olhai os Lírios do Campo – Érico Veríssimo. O texto me impressionou tanto que não tive coragem de cortá-lo. Intui pela primeira vez que isso seria uma forma de profanação, e sem saber exatamente o que sentia, guardei-o na mente por muito tempo, admirando-o e fugindo dele. Tanto que sempre que tinha oportunidade de ler o livro, adiava, e foi assim até algumas semanas atrás, quando amanheci pensando no Sermão do Monte, exatamente no versículo citado acima que dá nome ao livro. Escrevi a um amigo e não resisti: enviei-lhe o versículo em latim. Depois, escolhendo aleatoriamente algo para ler no fim de semana, tomei o livro sem perceber a associação e levei-o junto com um Fernando Sabino e uma Lygia Fagundes Telles. Li-o por último, em desespero: como pude adiar tanto tempo aquela leitura? O impacto que ele causou em mim foi parecido com o causado por Crime e Castigo, de Dostoiévsky, sendo que o de Veríssimo mostra mais que a transição ocorrida no espírito de um homem perturbado, e percorre também o desenrolar de sua nova vida, com um realismo tocante. Nenhuma promessa, nenhum cenário brusco: apenas uma vida e suas lutas em busca de paz.
Não vou além porque não quero fazer uma sinopse dele, nem ficar divagando ao seu redor, que serei tentada a fazer dezenas de citações, terminando por cansar absolutamente que já teve a paciência de ler esta exaustiva introdução. Não quero cometer o mesmo erro do livro de Educação, Moral e Cívica, e usar uma literatura tal para forjar lições e conselhos. Mas preciso – é-me visceral – dizer que Olhai os Lírios do Campo me pôs a olhar demoradamente o mundo. E amá-lo um pouco mais.
Pois é, amá-lo não obstante o mundo esteja entre os chavões preferidos das religiões cristãs. O mundo é sempre citado como um lugar perverso, cheio de enganos, de maldade, o lugar dominado pelo Príncipe do Mal. Um lugar de onde os cristãos precisam sair e se manter bem longe a fim de alcançarem a salvação. “Você está no mundo, mas não pertence a ele”, nos advertem, e não sei porque só se nos grava a segunda parte da frase.
O que Eugênio e Olívia me fizeram pensar enquanto eu lia “Olhais os Lírios do Campo”, é que deveríamos meditar mais sobre o fato de estarmos no mundo. E que existem muitos outros nessa condição. O mundo é um lugar ruim? É o que nos dizem todos os jornais. Um mundo escuro, cheio de problemas. Mas é neste mundinho ruim que se opera nossas mais preciosas oportunidades de salvação. Salvar o mundo? Não, esse discurso nós já conhecemos bem e creio ser o caminho mais difícil sem que antes se realize o milagre de sermos salvos... pelo mundo. Pode parecer estranho dizer isso, quando se foi tanto educado a começar pelo processo inverso. Mas basta aprofundar a visão do que foi o ministério de Cristo para vermos dissipada qualquer dúvida. O mundo é um dos pregadores mais eloqüentes que pode haver, um dos instrumentos mais eficazes para a salvação em Cristo Jesus.
A igreja não é apenas um lugar onde devemos nos abrigar dos problemas, fugir da escuridão, ficarmos enclausurados pensando “claro que Deus quer seus filhos seguros aqui, perto dEle”. Esse pensamento é agradável porque cômodo. Mas a verdade é que esse Deus, quando se fez Homem, levou tudo aquilo que ele conheceu junto do Pai para o mundo, mesmo em seus lugares mais obscuros, e é justo aí que se opera a salvação: no lugar onde mais se carece dela, onde mais se precisa de demonstrações concretas de amor.
Pode ser que ao me encontrar no meio do mundo, enfrentando-o ao invés de fugir dele, eu descubra que sou eu, muito mais do que o mundo, que necessita de salvação. Foi isso que aconteceu com Eugênio, por exemplo. Só em contato direto com um mundo real, com as pessoas reais desse mundo, seus problemas e necessidades, é que ele pôde alcançar a paz, conhecer Deus e sentir a necessidade de um mundo melhor, superior. No conforto entorpecente dos nossos lares, igrejas e demais instituições, nesse conforto que parece ser mesmo o alvo insano de muitas vidas, os nossos sentidos tendem a se embotar e desligar do Deus verdadeiro, do Deus que nos ensinou que não somos como o mundo, mas podemos amá-lo profundamente, e transforma-lo, e sermos transformados através ele, à medida que nos aproximamos mais do caráter de Jesus.
O mundo é um lugar perigoso apenas para aqueles cristãos incapazes de viver em coerência com aquilo que pregam. Não conheceríamos o poder da luz se não a levássemos à escuridão, não entregaríamos o nosso coração a Deus se não nos deparássemos com corações endurecidos, não teríamos esperança se não percebêssemos a descrença. Cristo ainda passeia por entre a multidão de famintos que segue errante fora das paredes da nossa igreja. E digo-lhes com sinceridade: se Cristo deu sua vida para salvar o mundo, eu quero estar no mundo quando ele voltar. Quero que me encontre fazendo aquilo para o que Ele me chamou: “assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai, que está nos céus.” (Mateus 5:16). Acho que só vou saber mesmo o que significa a tão sonhada nova Terra, se eu aprender a viver como cristã nesta Terra aqui.
No mundo vamos encontrar muitos erros, e muita gente dizendo que errar é humano, muita gente dizendo muita coisa – como eu. Mas temos a Bíblia, maior fonte de força e inspiração, nos fazendo um convite a sermos semelhante ao Verbo, e agirmos. “Porque”, como dizia Olívia, “só valem as experiências que fazemos com a nossa própria carne. Pode ser que tudo isso seja apenas um grande sonho. Mas sonhar também é humano.”
Uma semana iluminada,
Luciana
sexta-feira, 5 de dezembro de 2003
Para um cartao de natal
Tentei passar de largo as lojas enfeitadas com luzes, papais noéis (cada vez mais moderninhos, dançantes e em trajes esquisitos), penduricalhos multicoloridos. Tentei não prestar atenção nas propagandas apelando para o décimo terceiro salário. Mas ontem recebi um cartão de natal, e o que era intimamente ignorado ficou patente: é findo o ano! E agora me ataca a velha frustração, repetida antes de todos os natais, de que o ano vai embora sem que eu tenha conseguido realizar tudo que queria. O tempo passou mais rapidamente que no ano passado (e nesse, mais rápido que no anterior), de modo que boa parte dos meus planos continuaram presas ao mundo das idéias... e será que eu fiz tudo que deveria ter feito? Será que dei tudo de mim mesmo? Será que não poderia, nesse breve intervalo que nos separa do ano novo, correr atrás daquilo que protelei por tantos meses? Enche-me então uma repentina coragem, mas logo desvanece: hora de ir trabalhar...
Melancolia de quem queria ter certeza de que viveu do jeito certo. E olha que foi apenas o primeiro cartão de natal. Eu mesma tomarei tempo para fazer alguns, que ainda é um dos meus prazeres preferidos, mesmo que a modernidade o tenha incluído em sua ampla lista dos costumes obsoletos (portanto faço cartões como quem ama: sem esperar resposta). E saltando a praticidade dos computadores, dos cartões pré-pagos, dos telefonemas cordiais, eu gosto de fazer – ao menos para alguns, e os outros ficarão par ao próximo ano – cartões personalizados, com tesoura, cola, fitas, papéis e mensagens escolhidos por mim. Afinal são as mensagens a parte que mais toca ou mais perturba, o que não pode é uma mensagem natalina causar indiferença. Há que se atentar bem no que ela diz e para quem diz. Portanto pense duas vezes antes de escrever a velha frase: “que neste no ano que se inicia, todos os seus sonhos se realizem”, que tal desejo pode ser o que de pior podemos desejar a alguém querido.
Nós temos uma mania feia de enxergar a vida de forma muito pontual: deu certo, não deu certo e ponto final. Mas quando parece que um sonho não deu certo, pode ser que esteja se iniciando o começo de um sonho mais perfeito, mais acertado, com maiores chances de nos conduzir a um bom lugar, e que no entanto, nós ainda não sonhamos, e só iremos reconhecê-lo (que se reconheça, ora pois!) muito adiante, quando o futuro nos colocar num patamar privilegiado para ver todas as coisas passadas com seu fim alcançado. E então compreenderemos que o ser humano precisa aprender a sonhar, não com os olhos fixos no presente e suas dádivas imediatas, mas perceber nos sonhos algo de atemporal, que por vezes escapará à nossa posse, à nossa auto-suficiência, ao nosso entendimento míope e limitado, que teima em se apegar ao agora, ao aqui e em caso contrário, ao lamentar ignorante.
É possível que eu não consiga, embora quisesse muito, fazer um cartão de natal para cada pessoa que receberá este texto. Além de anacrônica, eu tenho pouca prática com as artes manuais... mas desde já deixo com todos a minha mensagem preferida, que a todos serve em qualquer ocasião: no ano que há de se iniciar em breve, desejo que todos os sonhos de Deus para você se realizem. Até lá desejo fé para chegar ao fim do ano sem fardos de frustrações ou lamentos, sem a sensação pesarosa de que poderia ter feito ou deixado de fazer. “Porque agora vemos como em espelho, obscuramente; mas [quando vier o que é perfeito] veremos face a face. Agora, conheço em parte; mas [quando vier o que é perfeito] conhecerei como também sou conhecido” (I Cor. 13:12). Desejo, sobretudo, que aprendamos a olhar a vida como quem olha o céu ou o mar: sem assombro, sem uma visão pontual, com uma noção mais acertada das nossas perspectivas.
Um sábado iluminado,
Luciana Dantas Teixeira
domingo, 30 de novembro de 2003
Aos amigos dos noivos
Tudo pronto, preparava-se para ir à floricultura quando recebeu a ligação dela: “Não há passagens para hoje... então só vou poder ir amanhã cedo, tudo bem?”. Ele disse “tudo bem” mas o chão fugiu sob seus pés. É claro que não estava tudo bem. Ele entendia a situação mas custou a aceitá-la. Voltou para casa, olhou os pratos...sentiu mais fortemente a frustração de não tê-la ali (e sempre se surpreendia ao constatar que essa sensação podia ser mais forte).
Há exatos setes meses eles deram seu primeiro beijo. Encontraram-se quase acidentalmente: ele trocara o carro e de última hora resolveu viajar até Natal. Lá chegando foi ver uns amigos, que não via há algum tempo. Aquelas decisões que se tomam sem planejar, sem pensar muito. E ela estava lá num vestidinho preto, o olhar meio triste mesmo embaixo daquele sorriso (ahhh...), como que carregando uma dor secreta. Trocaram umas poucas palavras e ele se foi. Os amigos porém, que conheciam bem a ambos, insistiram que eles combinavam direitinho, que dariam um par perfeito. Mesmos gostos, valores, mesma forma de encarar a vida, mesmo padrão na busca da companhia ideal. A partir daí os amigos tiveram uma importância fundamental: como conselheiros, secretários (e-mails, telefones), relatores da vida alheia (e tinham que repetir mil vezes com todos os detalhes possíveis e inimagináveis as características um do outro), incentivadores (como é dura a timidez!) e torcedores exaltados (com mil coisas afins que não caberiam em dez mil parênteses). De tanto investirem propaganda, empenho e paciência, acabaram por testemunhar o dia em que, finalmente, eles começaram a namorar. E tudo que ele queria – se aquele ônibus importuno tivesse deixado - era dizer-lhes que não eram mais amigos de um casal de namorados; eram amigos dos noivos!
Por certo eles se sentiriam felizes e privilegiados. Talvez até dissessem como João Batista: “o amigo do noivo, que está presente e o ouve, alegra-se muito com a voz do noivo. Assim esta alegria já se cumpriu em mim.” (João 3:29). Interessante perceber que a figura do amigo do noivo já existia há muito tempo, porém num contexto mais específico. À época de Jesus, a maior missão da vida de um pai hebreu era casar seu filho. Para tanto, ele escolhia o servo de maior confiança de sua casa para essa missão: encontrar uma noiva ideal para o herdeiro de todos os bens da família, transformando-se, portanto, em seu depositário. O servo encarregado dessa delicada missão era chamado “o amigo do noivo”, e a partir de então deixava todos os seus afazeres ordinários, domésticos ou rurais, para dedicar-se tão somente a sua missão: achar uma jovem adequada, “apaixoná-la” por alguém que na maioria das vezes ela nunca tinha visto em sua vida, e obter seu consentimento e o da sua família para levá-la até a casa ou o país onde morava o filho do seu senhor.
No texto do evangelho, flagramos João Batista num momento de crise de popularidade. Pouco tempo antes, pessoas dos lugares mais distantes, dos mais altos cargos políoticos ou religiosos, do mais rico ao mais pobre procuravam-no para ouvir sua pregação e serem batizados por ele. Até que um dia apareceu Jesus e “roubou o foco da câmera”, transformando-se na principal figura do cenário religioso de Israel. Os seguidores de João, chateados com aquele repentino fracasso, foram até ele dizendo que Jesus, aquele a quem João havia batizado (e frisaram bem essa parte para deixar subentendido que Jesus devia submissão à João Batista), estava atraindo a atenção de todos os seguidores que antes “pertenciam” a João, e batizando-os, sendo que isso não era justo, pois aos seus olhos, João era o Mestre. Mas João respondeu usando a figura de linguagem que todos à época entederam muito bem: “Quem tem a noiva é o noivo, eu sou simplesmente o amigo do noivo, e minha alegria é cumprir minha missão”. Com isso João queria dizer que, justamente naquele momento de aparente fracasso, é que ele estava mais feliz, pois tinha conseguido conduzir a noiva, Israel, ao noivo, Cristo. Portanto chegado era o tempo em que o amigo do noivo diminuiria, e Cristo apareceria cada vez mais.
Um dos amigos do noivo mais famosos e importantes da história de Israel, tem sua missão relatada em Gênesis 24. A forma como Eliezer conduziu Rebeca a Isaque tem muito a nos ensinar; cada pequeno detalhe aponta para uma missão que nós mesmos temos, ao passo em que nos colocamos como amigos de Jesus. Reconhecendo a Cristo como o noivo e a humanidade como sua amada pretendida, entendemos que ele nos confiou esta missão porque somos considerados por Ele servos de sua maior confiança e competência. E se olharmos para o modo como Eliezer se portou, notaremos que ele saiu da casa de Abraão com tudo de melhor que havia ali – ouro, prata,. Marfim, seda, alabastro – mas não confiando só na riqueza que carregava, pediu ajuda a Deus. A Bíblia diz que estando ainda em oração, Deus lhe respondeu enviando Rebeca cumprindo o sinal que Eliezer havia pedido. Portanto observemos que ao falar de Jesus para as pessoas, devemos mostrar o que de melhor conhecemos em sua casa. Levar para o mundo paz, alegria, fé, coragem, esperança, amor, todo esse rico tesouro que está à disposição para impressionar a noiva, e quando as pessoas disserem: “quanta coisa boa você transpira!”, que nós possamos arrematar: “você não viu nada: na casa do meu Senhor, que é a minha fonte, há muito mais! E Ele próprio é a maior riqueza, que nenhuma expressão humana é capaz de descrever”. Depois lembremos que trabalhamos para o Senhor e com o Senhor: a Sua ajuda é imprescindível a cada passo. Aprendamos também com a história de Eliezer, que esse amigo do noivo elaborou um rito pausado, sem pressa, sem fórmulas prontas ou palavras mágicas. Eliezer estudou com carinho o caminho para chegar ao coração de Rebeca, e uma vez tendo-o encontrado, foi tão feliz que ela não pensou duas vezes em deixar a família, a pátria e tudo o mais para ir ao encontro da felicidade. Assim como aconteceu com Rebeca e Isaque, há um final feliz garantido para o noivo Jesus e sua noiva, a humanidade. Basta usar o que há de melhor em nós para dizer isso às pessoas, e elas naturalmente se apaixonarão por Cristo, sem temor de deixar pra trás as coisas pequenas que as prendem a este mundo.
Mas ainda há uma história para retomar! Como terminou a historio do noivo cheio de expectativa que mencionei no primeiro parágrafo? Não terminou. Se a vontade e bênção divinas permitirem, não haverá fim para essa história. Necessário apenas dizer que dois dias depois eles foram jantar num restaurante japonês e lá ele descobriu duas coisas muito significativas: a primeira é que ela detestou sushi; a segunda, que eles ficam muito bem de aliança.
Uma semana iluminada!
Luciana Dantas Teixeira
domingo, 16 de novembro de 2003
Porque ele disse que vai ficar tudo bem
- Tô com medo...
Eu me inclinei para ele, segurei suas mãos pequeninas e disse que eu entendia que ele estivesse com medo, mas que ele agüentasse firme pois eu estava ali e não ia deixar ninguém lhe fazer mal. Ele sorriu e aconchegou-se junto a mim. Quando eu pensei que estava tudo bem ele tornou a me encarar:
- E você, tem medo?
- Eu tenho. Um monte deles: tenho medo de escuro, de lugares pequenos fechados, de lugares grandes cheios de gente, tenho medo de bonecas de porcelana...
-Ha ha!
- É! Quando eu era do seu tamanho – eu já fui do seu tamanzinho – eu achava que as bonecas de porcelana iriam me pegar quando eu dormisse e dar nós nos meus cabelos.
- Que medo bobo!
- Ah, quase todo medo é bobo para quem não sente aquele medo. Por exemplo, você gosta de galinhas, né? Eu tenho medo de galinhas. Minha irmã mais nova corria com a cabeça de uma galinha morta atrás de mim e eu quase fazia xixi de tanto medo. Mas você deve achar isso muito bobo! Tem outros medos que não são tão bobos. Como o seu agora. Fazer uma cirurgia não é um medo bobo, é mede de gente grande!
- É? Falou estufando o peito.
- É! Mas como eu te disse, estou aqui e não vou deixar que te façam nenhum mal.
- E você não está com medo?
- Hmm... é.... bem, Lucas, eu também estou.
- Então como sabe que não vão me fazer nenhum mal?
- É que seu pai está ali, está vendo? E ele me disse que te ama muito, e me ama muito, e não vai deixar que ninguém faça mal pra nós dois. Porque se fizerem mal pra você, estarão fazendo mal pra mim também.
- E o papai não está com medo?
-...
- Está?
- Está, Luquinhas.
- E como ele sabe que não vão fazer mal pra mim e para você?
- É que... Você viu quando o seu papai estava de olhos fechados? Ele estava orando para o Papai do Céu, dizendo a ele que tem muito medo de ver seu filhinho numa operação delicada, que não quer que nada dê errado com você, e Deus garantiu que vai ficar tudo bem, que ele não precisa ter medo, porque Deus ama muito o papai, você e eu, e não vai deixar que nada aconteça para o nosso mal, pois seria como se fizessem mal para Ele.
- E Deus...
- Não, Lucas, Deus não sente medo.
- Eu acho que Ele sente sim! Acho que Deus tem medo que a gente tenha medo.
- É mesmo, né?
- É “óbivo”! Se o papai ficar com medo, você também vai ficar com medo e eu também vou ficar com medo, daí eu não vou fazer a cirurgia e Deus não vai poder curar meu olhinho doente, né? E Ele tem medo de que a gente não deixe Ele me curar...
- (nó na garganta) – é...
- Mas... e quando Deus fica com medo quem é que diz para Ele que vai ficar tudo bem?
- Ora, é você, Luquinhas! E não acabou de dizer? Quando você acredita que não precisa mais sentir medo, porque tem muita gente que te ama protegendo e cuidando de você, aí Deus não fica mais com medo e pode fazer o trabalho dele sossegado porque Ele sabe que a gente acredita que vai ficar tudo bem, então não vamos atrapalhá-lO. Vou contar um segredo. Eu e o papai não queremos que você se machuque, não queremos que nada de mal lhe aconteça, mas só temos uma vaga idéia do que é realmente bom ou ruim para você. O papai por exemplo não gosta da idéia do médico cortar seu olhinho, mas o médico vai fazer isso apenas para te fazer um bem maior, e você ficar curado. Se o papai pudesse não te largaria nunca, porque ele acha que bom pra você é você ficar sempre perto dele, ele acha que sabe tudo sobre te proteger. E eu então? Você acha que uma pessoa que tem medo de galinha sabe o que é bom para Luquinhas? Mas a gente não sabe, só pode acreditar para deixar Deus fazer o trabalho dEle em você. Se Ele te trouxe até aqui para você ter o que precisa para ser feliz, eu e o papai vamos ter que deixar você ir e sem medo, pra que dÊ tudo certo como a gente quer.
Os médicos vieram, e começaram a levar Lucas para fora da sala numa maca. Seu pai ainda o segurou um instante (como assusta o desconhecido!), mas Lucas sorriu para o pai e disse:
- Papai, deixa eu ir! Pode acreditar em Deus que já falei para Ele que vai ficar tudo bem...
Uma semana iluminada, amigos!
Luciana Dantas Teixeira
ps.: Dedico este texto a Anderson. Meu amado amigo, siga tranqüilo. Nada de mal vai acontecer com você. E a essa altura você já sabe porquê...
terça-feira, 11 de novembro de 2003
Tratamento natural
Meu frágil limiar para a dor me fez ser, durante muito tempo, uma entusiasta assumida da praticidade alopática. Qualquer dor, febre, cólica ou machucado, eu corria para um remédio rápido, local, eficiente e se possível sem gosto ruim nem ardência. “Ora”, eu raciocinava, “se Deus nos permitiu ter a ciência de ir direto ao ponto com uma aspirina, nada como agradecer-Lhe fazendo uso da dádiva.” E que parto humanizado que nada! Desde que, aos doze anos, eu compreendi exatamente como os bebês vinham ao mundo, decidi: “quero um parto com drogas, muitas drogas, dopping absoluto”.
Mas tive a chance de convier algum tempo com um casal muito amável que me fez ver o processo doença/cura por outra ótica. Enquanto as estadas na casa deles se resumiam a degustar deliciosas refeições vegetarianas, estava tudo às mil maravilhas. Até um dia em que, logo após o almoço, me atacou uma das minhas insuportáveis enxaquecas. “Como assim não tem aspirina?”, eu perguntei incrédula à senhora sorridente. E ela me explicou mais uma vez que não tinha, que eles não faziam uso de nenhum tipo de tratamento alopático, não gastavam um só centavo na farmácia. Na minha bolsa, dezenas de cartelas vazias de anador aumentavam meu desespero. Ela, percebendo-o, recomendou que eu tomasse um banho frio, depois fizesse um escalda-pés, e por fim me faria uma massagem nas têmporas. Fiquei ainda uns minutos olhando boquiaberta para aquela gente que, em pleno século XXI, não possuía uma aspirinazinha salvadora em casa. Como eles conseguiam sobreviver? “E quando está no trabalho, oq eu a senhora faz? Pede licença pra ir em casa tomar banho e fazer escalda-pés?”. Ela respondeu, mais sorridente, que eles não tinha dor de cabeça. “Ah, tá”, eu murmurei ainda boquiaberta, me dirigindo para o banho.
Já com os pés numa bacia de água quente, ela massageando minhas têmporas, me ocorreu uma vaga lembrança que foi ficando mais e mais viva na medida em que eu me concentrava nela. Lembrei que quando eu tinha por volta de sete anos, já tinha crises fortíssimas de enxaqueca que não diminuíam com nenhum tipo de analgésico. Eram tão violentas que eu gritava, chorava desesperada e por fim quedava-me semiconsciente. Mas havia um tratamento infalível: era quando minha mãe ou meu pai deitava minha cabeça em seu colo, colocava as mãos em minha testa, e enquanto oravam ou cantavam alguma prece, acariciavam-na ternamente. Então eu dormia tranqüila, e ao acordar já não sentia nada.
Como quando ela parou de massagear minhas têmporas. Eu estava bem. E refletindo sobre o episódio apreendi algumas coisas do tratamento natural, que listo abaixo sem intenção terapêutica, mas – acredite – com um interessante fundo teológico:
1 – Somos todo, devemos ser tratados como todo – “De maneira que, se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele.”(I Cor 12:26). A alopatia é objetiva, vai direto ao ponto se concentra lá, crendo que tratando o mal no local em que ele se manifesta, resolverá o problema. O tratamento natural considera o universo. Não vê uma cabeça com vasos dilatados e doendo, mas uma criança que chora com dor, medo e desespero. Vai tratar da segunda. Acalmá-la, acariciá-la, falar ao seu corpo e espírito por entendê-la completa. Não somos pedacinhos. Desde o mito das almas gêmeas de Aristófanes, muitos insistem em acreditar que são metade, parte quebrada que dói. Mas somos como Deus nos vê: um todo (embora nem sempre bem concatenado). Por isso Ele não acabou com o mal pontualmente quando esse se manifestou. Bastaria uma palavra e o lugar onde o mal primeiro apareceu seria fulminado. Mas isso traria efeitos colaterais profundos para a história da humanidade atingida pela chaga, e o homem jamais teria certeza da justiça de Deus, tal como, no início, não tinha certeza da natureza do mal. Por isso Ele foi além para resolver o problema no todo, na humanidade, mesmo que essa nem sempre O entenda e às vezes O culpe pelo mal que Ele está derrotando (só os olhos da fé podem ver vitória iminente entre tantas feridas). Enquanto isso, no todo de cada homem, nas histórias que formam a História, Deus vai prescrevendo a cura, manifestando Seu amor de forma ao mesmo tempo pessoal e universal.
2 – Os semelhantes foram feitos para os semelhantes – o lema da homeopatia, um dos tratamentos naturais mais difundidos, é “os semelhantes são curados pelos semelhantes”. A alopatia introduz elementos contrários ao mal, com o fim de forçar o órgão a encontrar sua solução. O tratamento natural emprega elementos comuns ao meio em que o homem vive para envolvê-lo a partir daquilo que seu organismo conhece, mas sente falta. Tal como Deus que, para resolver o problema da humanidade, desceu até ela com tudo em comum. “Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si” (Isaías 53:4). Resolver as coisas lá de cima, objetivamente, como Deus, seria fácil, rápido mas impessoal. Então ele veio aqui, assemelhar-se. E, inocente, sofrer num corpo frágil as dores e tentações da humanidade inteira... foi difícil. Mas necessário, tanto quanto a cura para nós.
3 – Os semelhantes se unem - Um médico alopata, quando vai tratar do doente de estômago, olha o estômago. Examina o órgão por dentro, por fora, dos lados e dá seu parecer. Médico e paciente continuam a uma distância segura. No tratamento natural, o olhar examina inteiro e comedido, sem pressa e com curiosidade. Há contato (nosso século tem medo disso!) para que haja unidade, e na justa inteireza, a cura. As mãos espalham o ungüento, tocam a pele, os pés tocam a água, os sentidos tocam cheiros, gostos verdadeiros, até o som da voz materna, de uma oração ou música (como eu que hoje administro Mozart para minhas enxaquecas). Os semelhantes se abraçam, sem medo. Tocam-se; no toque se reconhecem. E ao se conhecerem de novo se unem. Tal como eu, que depois de conhecer o amor de Cristo revelado em Seu sacrifício e na intercessão cotidiana do seu sangue purificador, não posso seguir em outra direção que não seja Seus braços, Seu olhar, Sua resposta às minhas dores.
Não pretendo defender a superioridade absoluta do tratamento natural sobre o alopático. Nem que eu tivesse condições técnicas para isso, poderia deixar de admitir que esse último também é importante para solucionar nossos males. Mas ainda que tenha de amadurecer a idéia do parto humanizado, sigo divagando uma vez mais, que este meu frágil limiar para a dor me conduz incontinenti a pensar sobre como Deus revela de tantas formas Seus mistérios de salvação.
Uma semana iluminada,
Luciana Dantas Teixeira