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quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Adveniat - Notícias

Já faz algum tempo que a televisão perdeu seu último atrativo para mim: os telejornais. Comecei a perceber que me fazia mal ver tantas notícias ruins no final da noite, e passei a usar a internet para me manter informada, porque posso ao menos selecionar aquilo que não agridirá meu espírito. Acredito que violência e maldade sempre existiram na Terra desde que o pecado se instalou por aqui, mas um homem do tempo de Jesus não era tão atormentado pela maldade humana quanto nós hoje, expostos pela mídia aos detalhes sórdidos do Mal em nível global. Eu sempre imagino como ficaria a cabeça desse homem hipotético se ele fosse trazido para nosso século sem passar pelo processo de banalização da miséria que os jornais fizeram conosco. Não à toa, hoje o medo virou doença, e a solidão – esse sintoma de desesperança – um mal característico de nosso tempo. São tristes as notícias que estão contando.

Mas não basta desligar a TV para escapar das notícias ruins. A sabedoria popular já diz que elas voam, e sempre nos alcançam, afinal, estamos vivendo num mundo corrupto, sofrendo as consequências de milênios de pecado. Não importa o quanto façamos para nos sentir seguros, uma hora a notícia trise chegará à nossa porta. Nem Jesus escapou disso. Um dia, estando Ele em retiro além do rio Jordão, alguém lhe comunicou que Lázaro, um amigo amado, estava bastante enfermo. Com uma notícia dessas costumamos nos desestruturar. Planos são alterados, preocupações tomam conta de nossa mente, não conseguimos nos centrar muito bem nos afazeres diários, parece que, de repente, somos transportados para um mundo de insegurança onde o pior horizonte está sempre apontando na direção de nossos olhos.

Mas Jesus, que ao contrário de nós tinha uma pecepção espiritual muito refinada, qe uma proximidade muito forte com o Pai, disse algo que acho ser a frase dos sonhos para todos os milhões de doentes que neste instante padecem nos hospitais. A frase desejada por todos os familiares destes, pelas mães que não sabem mais o que fazer para aliviar o sofrimento de seus filhos, pelos pais que receberam um diagnóstico terrível quando estavam vivendo uma gravidez sonhada e feliz. Jesus disse: “Esta enfermidade não é para morte, e sim para a glória de Deus, a fim de que o Filho de Deus seja por ela glorificado.” (João 11:4)

Em muitas outras passagens bíblicas, pessoas que estão sendo atormentadas por doenças físicas, mentais ou espirituais foram retiradas do plano da miséria, uma vez que suas enfermidades eram vistas pelos judeus como fruto direto ou indireto do pecado, para o plano de honra: o motivo de seu sofrimento era testemunhar o poder de Deus. Foi assim com o paralítico de Capernaum (Marcos 2:12), com a mulher paralítica (Lucas 13:13), com os dez leprosos (Lucas 17:18), com a mulher samaritana (João 4:39), com o jovem endemoniado (Lucas 9:43), e com o próprio Lázaro (João 11:40).

A Bíblia não utiliza esse argumento para explicar a causa de todo sofrimento humano, de todas as desgraças que acontecem aos filhos e criaturas de Deus. Em muitos casos simplesmente não parece haver uma explicação, porque nossa mente não está apta a entender como se processam os desígnios espirituais em relação ao nosso mundo. Creio que um dia isso nos será revelado, mas até lá, muitos pais, mães e família ainda hão de chorar seus mortos.

Mas Cristo nos dá uma esperança a que podemos nos apegar: não existem apenas más notícias. O Evangelho é a boa nova de que a lógica do pecado gerando a morte pode ser diferente, e sofrimento, tenha motivo ou não para acontecer, terá fim. Eu posso crer no poder de um Deus que me escolheu para mostrar ao mundo que Ele tem poder de curar e salvar. Quero que esta crença me faça viver de modo levar esperança a outros também. Que me faça sorrir e viver serena o bastante para sentir que há um bom propósito em eu estar aqui. Mesmo sem saber os motivos de Deus. Quero apenas sabê-lO. Respostas ou soluções podem não ser tão importantes quanto ter uma Fortaleza onde me abrigar até aquele esperado dia... (Salmo 62: 5 – 7; Apocalipse 21).

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Adveniat - Buscai

A Bíblia insiste em nos orientar quanto a certas atitudes que os seres humanos temos o costume de esquecer: lembrai, fazei, buscai. São imperativos justamente porque tendemos a negligenciá-los em nossa vida espiritual. Jesus mesmo quando esteve aqui como Homem, alertou aos discípulos quanto a necessidade de buscarem a Deus, fazendo ecoar as palavras do profeta Isaías: “Buscai ao SENHOR enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto” (Isaías 55:6; João 7:33, 34; Mateus 7:7)

Mas como o mesmo Cristo que disse “buscai e achareis”, assseverou que chegaria o momento em que seus discípulos O buscariam sem sucesso? E como entender que em dado momento Deus pode se “esconder” de nós, ir “para longe”, e por isso temos que buscá-lo agora? A mesma Bíblia não contém tantas promessas relativas à presença contínua de Deus para aqueles que O amam? Não é justamente a idéia de um Deus onipresente, com quem podemos contar sempre, que se constitui a maior segurança do cristão? Por que então o alerta para buscá-lO se Ele estará conosco perpetuamente?

Acredito que biblicamente Deus já demonstrou que sempre esteve e sempre estará a procura do Homem – este é o próprio plano de Salvação: “Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido” (Lucas 19:10). Somos nós quem nos afastamos de Deus por causa da nossa natureza pecaminosa, e por isso precisamos ser lembrados de buscá-lO. Refiro-me àquela natureza pecaminosa que nos faz cometer delitos e pecados muito maus, nos fazendo sentir indignos da face de Cristo, mas que também é a mesma natureza pecaminosa que nos faz achar que, ao praticarmos atos de bondade e justiça, não precisamos mais da presença de Deus para nos ajudar – é só cumprir as regras e estaremos salvos. As igrejas lotadas são aquelas onde alguém está pregando que você pode fazer tudo que quiser sem que haja consequências espirituais, ou onde alguém está fazendo listas de coisas que você precisa fazer para ser salvo - ambos os enganos, métodos fáceis para tapear o espírito e desviá-lo de uma busca verdadeira, mas muito mais complexa, rumo a Deus.

“Buscai ao SENHOR e a sua força; buscai a sua face continuamente” (Salmos 105:4). Força para vencer nossa tendência para o mal e para a auto-suficiência. Continuamente, porque não basta buscá-lO quando nos sentimos maus, perdidos, doentes, necessitados, arrependidos. É preciso permanecer buscando a Deus quando achamos que tudo está sob o nosso controle, quando forjamos maneiras de nos sentirmos bons e justos, quando criamos nossas próprias formas de assepsia espiritual que não passem pelo sangue do Cordeiro, quando nossos atos de justiça própria nos embriagam e viciam a ponto de não sentirmos mais necessidade nem prazer de chamar pelo nome de Deus, de nos humilharmos, orar, buscar sua face, nos convertermos dos caminhos maus que nem enxergamos mais, ouvi-lO, sentir Seu perdão, gozar Sua cura (2 Crônicas 7:14).

Somos tão miseráveis, pobres, cegos e nus que nossa natureza se deixa perverter facilmente tanto pelo que é mau quanto pelo que parece bom. E quando buscamos a Deus é sempre por necessidade, por interesse, e tem mesmo que ser assim, porque somente cônscios do quanto somos vis é que poderemos entender plenamente a grandeza e misericórdia de Cristo. “Na verdade, na verdade vos digo que me buscais, não pelos sinais que vistes, mas porque comestes do pão e vos saciastes” (João 6:26); não O buscamos porque somos bons, mas porque Ele é bom. E a justiça que encontramos ao buscá-lo está em desviarmos os olhos de qualquer bem ou mal, orgulho ou culpa que haja em nós, e contemplar a “rocha de onde fomos cortados, e a caverna do poço de onde fomos cavados” (Isaías 51:1)

Buscar a Cristo exige mais de nós que ir ao templo, que se ajoelhar ou fazer nossas leituras devocionais. Essa é uma busca para se fazer como quem procura tesouros escondidos por trás de nossa suposta sapiência (Provérbios 2:4), uma busca para se fazer com diligência de um ser humilde (Provérbios 7:15), com TODO o coração e inteireza de alma (Deuteronômio 4:29, Jeremias 29:13), com prioridade, e isso pode envolver sacrifício (Mateus 6:33), com a ansiedade genuína de um espírito sedento - sede gerada pelo próprio Espírito de Deus, e um espanto renovado a cada encontro com a Fonte da surpreendente Graça (João 4: 1 – 30).

E ainda é preciso lembrar que buscar a Deus já é se colocar na presença dEle, já é ser agraciado com a necessidade de estar com Ele, mesmo que isso nem sempre seja percebido como um presente. Essa busca não parecerá nunca estar perto de terminar. Por vezes parecerá até mesmo inútil, porque o humano que há em nós não consegue ver facilmente as evidências espirituais da presença de Deus. Portanto alem de buscá-lO, temos que compreender que a vida é a própria busca: “Buscai-me e vivei” (Amós 5:4), diz o Senhor àqueles que o procuram.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Adveniat - O clamor

Um vento forte agitava as águas e ondas furiosas chocavam-se contra o pequeno barco dos discípulos. Assustados que já estavam, eles viram com medo ainda maior a cena improvável: Jesus vinha a seu encontro andando por sobre o mar (Mateus 14: 22 – 33). Gritos. E Jesus fez o que um pai faria para acalmar os filhos: “Não temam! Sou eu!”. Quando Pedro o reconheceu teve um ímpeto de fé e se dispôs a ir em direção a Jesus andando sobre as águas como o Mestre. Jesus disse: “Vem”. Mas bastou desviar os olhos de Cristo para o vento forte, por um pequeno momento, para a fé vacilar, e Pedro começou a submergir.

Mesmo sendo um pescador, o que indicava que ele provavelmente era um bom nadador, Pedro não pensou em apelar para as próprias forças; conhecia bem aquele mar para saber que nenhum homem poderia dominá-lo em tais condições. Não havia tempo também para prolixas orações, discussões teológicas a respeito da natureza de Cristo, argumentações sobre Pedro merecer ou não a salvação. Pedro estava afundando rapidamente em meio ao mar revolto, e só havia tempo para um pedido de socorro desesperado.

Você já se sentiu assim? Quando nos convencemos que não podemos fazer mais nada a respeito de uma situação – qualquer situação, de desagradável a desesperadora –, e quando não há muito tempo para forjar soluções alternativas, os cristãos costumam lembrar que há um Cristo capaz de resolver essa situação. Quanto mais conhecemos a natureza de um pecado que nos oprime, ou o fruto dele, mais nos damos conta de nossa incapacidade de vencê-lo sozinhos. Um rompante de fé nos faz dar o primeiro passo em direção a Jesus por sobre as águas: clamamos por ajuda, sabemos que Ele pode nos ajudar, muito provavelmente só Ele.

Agora percebamos o que um pedido de socorro pode dizer sobre a qualidade de nossa fé. Em duas traduções bíblicas, a Almeida Corrigida e Revisada e a versão católica, percebemos que a passagem de Mateus 14:30 registra o pedido: “Senhor, salva-me!”. Em outras duas traduções, a Almeida Revista e Revisada e a versão da Sociedade Bíblica Britânica lemos no mesmo texto: “Salva-me, Senhor!”. É possível que Pedro tenha se expressado de uma ou outra maneira, mas que diferença isso faz?

Nas primeiras versões, a ênfase está no Senhor do milagre, aquele por quem se chama primeiro e depois se diz o que deseja dEle, pois o maior desejo é estar com Ele. Nas versões seguintes, a ênfase está, ao contrário, no ato, naquilo que o Senhor pode fazer primeiro, para depois ser proclamado Senhor. E embora seja um detalhe muito sutil, na prática, uma ou outra postura pode fazer bastante diferença na percepção – e até mesmo na recepção – da graça almejada.

Desejo que em situações de provação como a que Pedro enfrentou, eu possa estar pronta a sempre clamar primeiro por Cristo, e com isso demonstrar que Ele é Senhor da minha vida. Que embora eu tenha várias sugestões do que Ele pode fazer para me salvar, estou pronta a fazer a Sua vontade acima da minha, e receber a salvação pelos caminhos que Ele traçar para mim, seja por cima das águas ou por baixo delas. Mesmo sabendo que Deus é onipotente, não quero cair na tentação de dizer a Ele o que fazer.

“Se és tu, Senhor, manda-me ir ter contigo, por sobre as águas” (verso 28). Nem sempre Deus responderá ao nosso anseio por salvação da forma como queremos. Algumas vezes permitirá isso. Mas Ele sabe como reagiremos, passo a passo, à fúria do vento em que nos lançamos. Por isso mesmo, seja durante nosso rompante de fé ao descer do barco, seja durante nossa falta de fé tendo medo das ondas, Ele estará sempre disponível, prontamente, estendendo ao mão. Isso é maior do que qualquer coisa que o peçamos. Isso é salvação.

sábado, 25 de julho de 2009

Adveniat - Você é feliz?

Estou com dificuldades para escrever. Os dois textos passados foram reedições de textos de 2005. Este é inédito, mas fiquei uma boa meia hora na frente do computador antes de começá-lo. Tinha a idéia mas não conseguia desenvolvê-la. Isso nunca foi um grande problema para mim, mas agora tenho me sentido assim. O que pode ser? Um clínico geral diria (como dizem de tudo): é estresse. Pode ser. Mas isso me deixa mais estressada, hehehhe.

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Era exatamente o que dizia a frase pichada num muro sujo da cidade. Entre outros tantos grafites e pichações, ela não passou despercebida a mim e, acredito, nem a tantos outros que a leram. Porque essa indagação inquieta. Evoca situações de conflito, mágoa, dor e até – por que não? – de felicidade. Mas sempre faz estalar algo no peito, algo que diz respeito a nossa relação com a vida e realização como seres humanos. Por trás da frase outras perguntas se escondem: “O que você tem feito a respeito da sua própria felicidade?”, “Quanto da sua rotina realmente lhe agrada e quanto lhe é imposto contra sua vontade de ser feliz?”, “Se já foi feliz algum dia, por que não é mais?”, “De quem é a culpa por isso?”, e tantas outras, que vão ocupando a mente até a hora dela se concentrar em algo “sério”, como o trabalho, por exemplo.

Penso que a constatação da infelicidade é algo que mexe tanto conosco porque ser feliz é algo irrenunciável. Mesmo o mais miserável dos homens deseja ou ao menos aprecia a felicidade. Você pode desistir de um plano, de um alvo, de um prazo, até de um sonho. Mas o homem médio, aquele que se encaixa dentro dos padrões da normalidade emocional, não consegue desistir de ser feliz, ainda que não faça nada a respeito disso. Aliás, o “não fazer nada a respeito disso” é uma das mais freqüentes causas de infelicidade. Num século onde tanto de nosso tempo é ocupado pela necessidade de sobreviver e acumular – bens, dinheiro, status – há pouco lugar para meditar sobre os valores que conduzem à felicidade. Há mesmo quem prefira chamar felicidade ao ato de sobreviver e acumular. Mas surgirá um momento em que os sentidos não estarão tão sobrecarregados, e nesse momento surge a falta de algo indizível... o que mesmo? Falta de ser feliz. Mais que isso: falta de sentir-se feliz.

“O que tenho feito a respeito da minha felicidade?” Essa pode não ser a pergunta ideal. Estamos sempre muito preocupados em fazer algo por nós mesmos – quando muito, pelos outros. Mas precisamos fazer. O verbo nos assedia em busca da felicidade: sair, passear, descansar, orar, ler, beber, divertir, comer, dar, procurar, amar, fazer, fazer, fazer. Já a infelicidade prefere a voz passiva: fui injustiçado, fui traído, sou maltratado. No entanto os momentos mais felizes parecem ser aqueles em que recebemos a felicidade passivamente, sem necessariamente ter feito algo para merecê-la, em meio a situações de vulnerabilidade extrema. Estou falando de Graça.

Veja o que aconteceu ao profeta Elias. Em I Reis 19 lemos o relato de um homem que se sente bastante infeliz a ponto de desejar a morte. E quando indagado por Deus a esse respeito – “Que fazes aqui, fugindo da vida?” – o profeta começa respondendo: “Tenho sido zeloso pelo Senhor...”, e mais adiante acrescenta com ênfase: “Tenho sido em extremo zeloso pelo Senhor”. Elias estava infeliz porque, apesar de fazer tudo para agradar a Deus, não se sentia feliz, mas perseguido e injustiçado. Cada um de nós tem seus próprios motivos para se sentir infeliz, mas uma causa é comum a todos: “Nada do que faço me faz sentir mais feliz!”.

Interessante observar que Deus não elogia Elias por seu zelo e merecimento, não diz que vai lhe recompensar por ele ter feito tudo direitinho. Deus simplesmente esclarece que está cuidando dele, embora ele não veja isso. “Vai, volta ao teu caminho”, Deus ordena, e lhe diz que não está só, que o Senhor está e sempre esteve no controle da situação.

Deus no controle? Por vezes só percebemos isso quando algo nos foge ao controle. Essas situações dão a Deus a chance de mostrar Sua presença atuando em nossas vidas, ainda que seja num cicio tranqüilo e suave (verso 12), o que denota capacidade de percebê-lo nas sutilezas. Acostumados que estamos a ter de fazer, não é com facilidade que aceitamos que a nossa felicidade pode ser uma dádiva, não algo conquistado. Portanto quando nos virmos diante da sensação de infelicidade, perguntemo-nos: “Será mesmo infelicidade, ou sou eu que não consigo ver que Deus está cuidando de mim?” “Será que sou mesmo infeliz, ou apenas não gostaria de dar a Deus os méritos pelo bem que me alcançará?” A Bíblia nos prova que a felicidade não tem que ver com sermos bons ou poderosos. Mas em reconhecemos a Fonte da bondade e do poder.

sábado, 11 de julho de 2009

Adveniat - A volta

A mensagem de hoje foi construída sobre o texto que está em Jeremias 46: 27 – 28: "Mas não temas tu, servo meu, Jacó, nem te espantes, ó Israel; pois eis que te livrarei mesmo de longe, e a tua descendência da terra do seu cativeiro; e Jacó voltará, e ficará tranqüilo e sossegado, e não haverá quem o atemorize. Tu não temas, servo meu, Jacó, diz o senhor; porque estou contigo."

Este texto me fez lembrar um amigo que me perguntou: "Mas por que tem que ser tão difícil se livrar do pecado? Deus não tem poder para acabar com essa tendência pecaminosa num instante se Ele quiser? Ele não sabe o quanto dói ter que lutar para fazer a coisa certa?". O texto bíblico responde maravilhosamente a essa indagação. Ele fala de Deus olhando para um filho que se afastou para longe, e lá longe sentiu como sua vida estava ruim longe de Deus.

Deus poderia olhar para esse filho e dizer: "Bem, você escolheu ir embora, agora sofra as conseqüências dos seus atos." Se fosse assim, Deus estaria sendo justo. Mas Deus não é justo conforme nosso conceito de justiça. Com Seu amor Ele diz: "Eu sei que você está sofrendo. Eu não quero que seja assim, por isso não tenha medo nem se apavore, que tudo vai ficar bem".Deus promete que vai nos libertar da escravidão e que voltaremos até o lugar do qual nunca deveríamos ter saído, o lugar e modo de viver excelentes que Ele preparou para nós. Mas Ele diz também: "Você foi embora com suas próprias pernas, agora terá de voltar com suas próprias pernas". Repare que as palavras "tranqüilo", "sossegado" e "não haverá quem o atemorize", são usadas para quando o filho chegar a esse lugar excelente. Não são usadas em relação ao caminho que ele vai ter que passar até chegar lá. Porque o caminho de volta é longo, penoso, espinhoso, cansativo, tem a propriedade de enfatizar a distância que o filho está de Deus.

“Por que tem que ser assim?”, o filho pode perguntar esperando um pouco mais de misericórdia. Mas é a resposta é: porque, para que o filho entenda exatamente o tamanho da graça de Deus, ele precisa entender antes o tamanho da sua desgraça. Se a caminhada do pecado para a santidade fosse fácil, nós não saberíamos a diferença entre os dois. Cristo nem precisaria ter morrido por nossos pecados, pois bastaria a Deus tirar o pecado de cada um e tudo estaria bem, não é? Claro que não! Isso sim é injustiça. Cada vez que reclamamos com Deus de que Ele não está nos ajudando a vencer o pecado estamos desmerecendo o sacrifício de Cristo que sofreu mais que qualquer um de nós, mesmo sendo o Filho Unigênito de Deus.

É duro ouvir isso, mas não há outro modo de voltar para casa senão andando. O papel de Deus nessa caminhada é providenciar um atalho para que não soframos mais do que podemos suportar, e seguir passo a passo ao nosso lado, nos segurando quando estamos prestes a cair sem forças. Aquela história que Jesus te pega nos braços e te leva pelo caminho é ótima mensagem para cartão de natal, mas não condiz com a verdade bíblica a respeito da santificação. Jesus nos ampara em Seus braços, cuida de nós, nos alimenta, nos dá água da vida, sara nossas feridas, depois nos põe de pé e diz: "É hora de voltar a andar, vamos lá?". E você tem que andar novamente.

Deus repete quantas vezes for preciso: "Não temas, que estou contigo". É a promessa que temos de nos apegar todos os dias. Mesmo que não sejamos capazes de vê-lO, ou de sentí-lO. Quando não estivermos sentido mais do que um enorme vazio e uma solidão aterradora, ainda assim precisamos confiar nessa promessa, pois a fé não está condicionada aos nossos sentidos; a fé é uma atitude que transcende qualquer lógica ou sentimento humano. Se você não consegue sentir Jesus ao Seu lado, apenas repita: "Tu estás comigo!" e dê mais um passo. Logo você terá a percepção de que, à medida que caminha, aquele pecado que te incomodava tanto e te fazia contorcer de dor agora já não perturba da mesma maneira. Não se engane achando que chegou ao fim! Satanás também segue o filho que quer voltar, e a sensação de que um pecado está suplantado é uma das armadilhas que ele põe no caminho. É preciso caminhar no mesmo sentido sempre: Bíblia, oração, testemunho!

No caminho de volta compreenderemos um a um o preço dos nossos pecados. Mas devemos ter em mente o alvo: um lugar tranqüilo, sossegado, sem medo, onde haveremos de chegar na companhia de Cristo, que nos acompanhará em todas as dificuldades, e, a cada vitória diária, nos fará mais fortes para vencer amanhã, e depois, e depois...

domingo, 24 de maio de 2009

Adveniat - Vinde

“Vinde a mim, todos...” (Mateus 11: 28), foi o convite de Cristo. Mas quanto do eco desse chamado ainda pode ser ouvido na vida de seus seguidores? Como resolvemos o problema de ser luz acolhedora para um mundo que é vendaval furioso? Talvez a resposta aponte para uma confiança que se deposita aos pés de Cristo, e não em nossa própria percepção do mundo.

Pois foi o que concluí outro dia olhando para o passarinho engaiolado na casa da minha vizinha. Sempre abominei enjaular esses animais. E nunca me convenci que o mais carinhoso e dedicado dos criadores de pássaros poderia substituir um vôo livre pelo céu e o ambiente que o Criador fez para ser o lar deles. Uma opinião pessoal, é certo. Por isso mesmo quando vi a gaiola pendurada na casa da minha vizinha, bem em frente à porta da minha cozinha, fiquei incomodada. Mas tive que me acostumar a sua presença ali, enjaulado e expondo sua solidão para mim todos os dias.

A princípio fechava a porta para não vê-lo e assim minimizar a sensação de incômodo. Depois meu filho o descobriu e encantou-se por ele. Todos os dias me pedia para ver o “piu-piu”. E eu tentava desviar sua atenção, tentava mostrar os outros passarinhos no céu, nas árvores... não houve acordo, ele queria ver aquele passarinho. E os dois começaram a interagir. Quando via meu filho na porta da cozinha o passarinho começava a cantar. Meu filho respondia com balbucios e gritinhos de alegria.

Foi preciso que se passasse algum tempo até eu perceber o tamanho de minha ignorância. Sim, ignorância no sentido mais triste do termo, de ignorar, desprezar. Eu tentava resolver o problema dos passarinhos enjaulados fugindo da visão deles. E daquele em particular, o da minha vizinha, eu fugia fechando-me em meu mundo onde todos os passarinhos deveriam ser livres, como se não existisse um preso ali, ao meu lado. Foi preciso que meu filho de um ano apontasse que ali também havia uma vida, e que ao invés de evitá-la – visando tão somente meu próprio conforto existencial – eu poderia contribuir para torná-la um pouco mais feliz, nem que fosse “conversando” com o pequenino um pouquinho, já que não podia libertá-lo.

Gostaria muito que esta história se aplicasse apenas a seres irracionais, mas ela também repercute nas esquinas dos semáforos onde crianças ficam na ponta dos pés e encostam o nariz no vidro fechado do meu carro. São crianças presas na pobreza. Alguém nos diz: “Não dê esmolas! Você estará estimulando a mendicância!”, mas ninguém nos mostra uma alternativa para essa atitude, e chegamos a pensar que com a atitude negativa de “não dar” estamos contribuindo significativamente para o bem estar da sociedade. É, pode ser que, se ninguém der esmolas, elas sumam dos sinais, sumam da minha visão, mas continuarão existindo em algum beco sujo. E o que estou fazendo a respeito?

Gostaria que essa história não tivesse nada a ver com a forma como nossa sociedade trata os que não são confortáveis à nossa existência, e assim joga idosos num asilo, espreme criminosos numa cela, interna bem longe “menores delinqüentes” (falando assim nem lembramos que são crianças) e os “menores abandonados” (por nós também?), separa os deficientes, os que têm problemas mentais, os alunos que não aprendem, os jovens que não se encaixam, o joio - que era a árdua tarefa de Deus, e não nosso passatempo arbitrário, separar. Até que as conseqüências desses absurdos nos atinjam, achamos que está tudo bem porque o problema some de diante dos nossos olhos para continuar existindo longe de nós.

Não posso num texto tão curto discorrer sobre as formas de atuar sobre essas vidas sem segregá-las. Nem mesmo considerar questões sobre segurança e confiabilidade no fazer-o-bem-sem-olhar-a-quem. Gostaria até de falar sobre a dificuldade que é, simplesmente, ter a iniciativa de fazer o bem quando todos estão se fechando dentro de suas casas, instituições, empresas e politizando o processo – simples – de amar como Cristo amou. Resta-me terminar apontando para a própria figura do Cristo, que não fechou os olhos para os seres mais desprezíveis em seu tempo: prostitutas, leprosos, publicanos, ladrões... Em nosso tempo onde os desprezados aumentam vertiginosamente (Mateus 24), eu apelo que procuremos o eco daquele convite do Mestre: “Vinde!”. “E quem ouve diga: Vem. E quem tem sede, venha; e quem quiser, receba de graça a água da vida”. Recuperando a imagem de Deus em suas criaturas, digamos uma vez mais: “Ora, vem, Senhor Jesus”(Apocalipse 22:17 e 21).

domingo, 10 de maio de 2009

Adveniat - Sobre a vida

O teólogo Agostinho escreveu há alguns séculos: "Usamos mal da imortalidade e isso nos fez morrer. Cristo usou bem da mortalidade e isso nos faz viver." E hoje? Lidamos bem com a idéia da imortalidade? E da mortalidade?

Eu pensava sobre isso enquanto observava os jambos se acumulando no chão do meu jardim. Nosso pé de jambo foi plantado por minha sogra quando ela ainda era viva. Ela o fez para amenizar o calor, uma vez que a copa dessa árvore é realmente um abrigo refrescante nos dias quentes de Recife. O que talvez ela não imaginasse é que eu e meu marido não iríamos desfrutar de mais que a sombra dessa árvore, uma vez que não gostamos de jambo, e toda vez que os vemos assim, às centenas, no chão do jardim, gostamos menos ainda.

Alguns amigos e familiares que nos visitam ficam com dó. Tantos jambos e tão vermelhos, tão grandes e suculentos, mas que apodrecem até serem recolhidos por uma vassoura impiedosa que os manda todos para um enorme saco de lixo. Como a árvore já está muito alta, os que caem se partem de maduros, e os de cima estão muito altos para serem pegos com facilidade. Só os meninos da rua que às vezes entram para roubá-los – com meu total assentimento – é que conseguem tirá-los inteirinhos depois da deliciosa trabalheira de escalar quase até o topo.

E o que isso tem a ver com Agostinho, além dele também ter roubado algumas frutas na infância? É que o desperdício dos jambos me fez pensar em como desperdiçamos também a imortalidade que Deus oferta da frondosa árvore da vida. Não só isso: nem mesmo a nossa volátil mortalidade escapa de ser mal aproveitada, muitas vezes.

O fato é que se não amamos a Vida, que é a Pessoa de Jesus Cristo (João 14:6), não poderemos saboreá-la. Não teremos ânimo de enfrentar a escalada íngreme até o topo dos princípios cristãos, para nos apoderarmos de algo que nos é na boca tão insípido e sem graça quanto um jambo o é para mim – é também Cristo que dá sabor ao Fruto do Espírito (Gálatas 5:22). Ele é o maior argumento contra aqueles que vivem como se a vida fosse algo que pertence ao além, pois a forma como Ele viveu nos lembra que vida é agora, porque agora é chegado o Reino de Deus (Mateus 10:7). E a despeito da morte que nos espreita, cada cristão tem aqui um dever, que é mostrar o amor de Deus àqueles que precisam de Vida em abundância. Se não nos dermos conta de que precisamos morrer um pouco a cada dia em abnegação e conversão (João 17:3), pereceremos como fruta que não encontrou seu propósito: ser alimento para a vida (João 12: 24; 15:8). Fruta que não alimenta, seca e morre.

Por outro lado, a imortalidade também precisa ser um anseio do cristão. Mas essa imortalidade almejada não é simplesmente a vitória sobre a morte. Ela representa a vitória sobre o pecado, sobre a pequenez, sobre a amargura, sobre a mesquinhez, representa a vontade de transcender a carne e chegar até a perfeição que Deus pode nos prover (Romanos 6:22). Significa também esperança, segurança, coisas que não se encontram facilmente num mundo em crise de confiança (II Cor. 5:1). Se não cremos no imperecível e não buscamos aqui, dentre todas as coisas, aquilo que pode nos remeter ao Eterno (João 6:27), seremos como a semente que apodrece antes de descobrir nas mãos do Semeador o germe de uma nova vida. O fruto da árvore da Vida que nos acena da copa frondosa não cairá ao chão. Quanto a nós, é nossa escolha viver para a Eternidade – e os altos ideais que ela representa - ou voltar ao pó, como fruta que podendo ser transformada para a Vida, prefere o cimento lapidar do chão do jardim.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Converte o meu intelecto

Quando eu sei que minha religião está intelectualizada? Um dos primeiros sintomas é julgar um sermão, por exemplo, conforme sua construção literária, linguística, meramente teológica e não deixá-lo entrar entre a alma e o espírito como uma espada de dois gumes (Hebreus 4:12). Começamos a selecionar as igrejas que frequetamos pela habilidade dos líderes, cantores e oradores. E ao sair de um culto que julgamos "bom", permanecemos vazios espiritualmente, mas intelectualmente satisfeitos: "Viu como o pregador conseguiu prender a platéia do começo ao fim do sermão?"

Pessoalmente eu tenho grande admiração pela oratória jesuíta. Gosto de ouvir sermões bem elaborados, e não é pecado admirar o esmero com que um pregador constrói e expõe uma mensagem, vibrar quando uma escola sabatina é bem dirigida ou alegrar-se com uma música que parece ter sido entoada por um anjo. O problema é quando nosso aproveitamento da mensagem se restringe ao campo intelectual. Esta impressão pode ser causada por qualquer música de Bach ou quadro de Da Vinci. Mas onde fica o componente espiritual da religião intelecutalizada? Ele inexiste tanto quanto nas mentes mais ignorantes. Uma bela mensagem que não é recebida espiritualmente é apenas uma bela mensagem sem poder. E se não há necessidade de poder divino, o que nos leva a professar uma religião? A necessidade de poder temporal? Hábito ou tradição? Qualquer outro motivo que não seja a necessidade de Deus nos afasta do verdadeiro religare.

Pior que viver uma vazia religião intelectualizada é orgulhar-se dela. Se pudermos admitir que um bom orador cristão exerce seu dom com arte, teremos de admitir que, para toda arte há sempre um crítico literário. E em especial o mal crítico, aquele que geralmente é um artista frustrado com muito conhecimento inutilizado pela ausência de prática louvável na arte em questão. Há, assim, dentro da Religião, aqueles que se especializam em criticar os métodos, modos, técnicas e ferramentas dos que estão ocupados fazendo algo dentro da igreja. Esses críticos se dirigem a líderes, oradores, cantores e todos os demais obreiros,e normalmente não poupam apontamentos vastos em relatórios suscintos do que podia ser melhorado. "Para a causa de Deus", complementam. Será? Uma religião intelectulizada e desespiritualizada trabalha sempre para idolatrar o Eu.

Neste sentido está todo o desapontamento de Cristo ao se dirigir a esta classe de pessoas como "sepulcros caiados", "raça de víboras", "serpentes", "assassinos" (Mateus 23). Ainda que os fariseus de hoje em dia não sejam necessariamente radicais, pelo contrário, ostentem até muita liberalidade, eles também se ocupam de matar a fé das pessoas, depois de se suicidarem espiritualmente. A questão não está tanto nas filosofias e técnicas que defendem - podem até ser conhecimentos bons em si - , mas no uso que fazem deles, para julgar e destruir ao invés de elevar, para sentir-se superior ao invés de buscar o Altíssimo.

O Pr. Rubens Lessa, num dos melhores livros que já li (daqueles que não importa quanto tempo passe estão sempre atuais), "Diagnóstico e Remédio*", cita Manuel Bernardes com uma frase contundente mas acertada: "Há uma conversação que é parte da alma; e há outra de que a alma é pasto." O intelecto sem Deus é tão impregnado de morte quanto qualquer corpo embelezado, esculpido, mas destinado ao pó. No mesmo livro, o Pr. Lessa cita também Ellen White, que também não alivia: "Quantas famílias não temperam suas refeições diárias com dúvidas e cavilações! Dissecam o caráter de seus amigos e o servem como delicada sobremesa. Um precioso bocado de maledicência é passado ao redor da mesa, para ser comentado não só por adultos mas também por crianças. Nisto Deus é desonrado"; "Enquanto isto fazem a mente não está em Deus, nem no Céu, ou na verdade; mas simplesmente onde Satanás quer que esteja - noutros. Sua alma é negligenciada"(Testemunhos seletos I p. 490, 43 e 44)

"O senhor Deus me deu língua erudita para que eu saiba dizer boa palavra ao cansado" (Isaías 50:4). Homens de Deus em todos os tempos alertam de diversas maneiras: um intelecto não convertido é uma arma contra Deus. Uma mente que só se ocupa do que é carnal, é naturalmente aversa ao Espírito. Uma religião que não tem em sua essência a busca humilde do que é Divino, torna-se apenas mais um desatino humano.

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* Fica aqui meu humilde pedido para que a CASA reedite o livro. Hoje é impossível encontrá-lo, até em sebo, porque quem o lê não quer se desfazer dele. Só achei um exemplar, que coloco aqui para o caso de algum afortunado se interessar. Embora esteja na estante de "saúde" (por causa do título, bobviamente), trata de assuntos espirituais com a verve única do Pr. Lessa.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Erros

Os críticos literários - e em especial aqueles que criticam os autores cristãos - costumam buscar e apontar as contradições na obra dos escritores como um erro crasso. Pessoalmente acho que isso é uma prova de que o escritor está vivo e ativo. No caso de um escritor cristão, demosntra que ele está renovando sua experiência com Deus. Tudo aquilo que aprendemos na vida espiritual esta passível de ser reelaborado e aperfeiçoado. Isso Às vezes demanda tempo, uma vida inteira. E pode acabar por contradizer, em parte ou de todo, aquilo que julgávamos uma verdade completa tempos atrás. O texto que se segue é fruto de uma reflexão nova, e vem emendar um texto que fiz dias atrás sobre as consequências do pecado.
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O primeiro erro do cristão é achar que pode cuidar de tudo sozinho. Depois de tantos sermões, palestras, cursos, congressos, escolas dominicais ou sabatinas, leituras devocionais e estudos bíblicos, ele chega a conclusão que tem um know-how considerável, que pode deixar Deus descansar um pouquinho e tomar as próprias decisões conforme seu conceito aprendido de certo e errado, bom e mau. Creio num Deus que preza o uso da inteligência e discernimento de seus filhos, mas todo conhecimento espiritual deve nos levar a depender mais de Deus, não o contrário. Quando paramos de nos questionar sobre a opinião de Deus, fazendo-a coincidir com nossa vontade, há um erro à vista, prestes a acontecer.

O segundo erro é achar que podemos concertar o primeiro erro sozinhos. Então esquematizamos nossos próprios paliativos, que julgamos eficazes porque parecem sanar o problema sem causar grandes transtornos ao nosso modus vivendi. Sabemos que o pecado tem que ser confessado, mas às vezes preferimos carregaro fardo do silêncio pela vida inteira. Sabemos que o pedido de perdão também tem que ser dirigido a quem ofendemos, mas às vezes preferimos simplesmente nos esconder. Sabemos que temos que perdoar, mas preferimos racionalizar que Deus conhece nosso coração a ponto de nos dar algum tempo para remoer nossa mágoa. E Deus sabe tanto de nossa imperícia para resolver problemas que, por Sua graça, costuma nos mostrar o caminho quando, ao abrir os olhos, percebemos que do nosso jeito não deu certo.

O terceiro erro é achar que, ou por mérito de nossas ações e palavras bem planejadas, ou por misericórida divina, tudo está bem porque acabou bem, ou seja, porque aparentemente nosso problema foi rsolvido sem maiores consequências. Não houve dor, suspiros, gritos ou gemidos de dor, ninguém morreu, nem matou, nem tentou o suicídio. Nenhuma testemunha de nossos erros, ninguém ferido para nos cobrar promessas ou indenizações por danos morais. Então tudo certo, ok? É o terceiro erro, eu dizia. O fato de não sermos capazes de ver consequências em nossos atos não quer dizer que elas não existam e sejam terríveis. Mesmo que não tenha havido dor da sua parte, ou da parte contra quem você pecou, um Ser nos céus sentiu sua ofensa.

Para o mais "perfeito" dos pecados, há sempre uma consequência espiritual. Talvez você não possa ver, mas se uma fotografia pudesse lhe mostrar envolto no mundo sob qual influência você está, o que você veria? O mesmo que Jeazir, que viu-se cercado de exércitos celestiais quando Eliseu pediu ao Senhor que lhe abrisse os olhos (2 Reis 6: 17)? Ou a dura (e muitas vezes esquecida) realidade de que fala Efésios 6:12; "Pois não é contra carne e sangue que temos que lutar, mas sim contra os principados, contra as potestades, conta os príncipes do mundo destas trevas, contra as hostes espirituais da iniqüidade nas regiões celestes."? Nossas palavras e ações de âmbito espiritual se conectam com anjos do bem ou do mal, e debaixo de sua influência nos colocamos mesmo quando não exergamos nenhuma consequência palpável na nossa realidade meramente carnal. Um pecado não está resolvido quando deixa de imprimir dor visível. Todo pecado só é apagado por completo por meio do sangue de Cristo, suplicado com arrependimento e desejo de não mais pecar. Só a partir da jsutificação em Cristo pode-se não temer o pecado cometido. Antes disso ele sempre será mais um dardo - muitas vezes escondido - nas mãos de Satanás.

Errar e errar sequencialmente faz parte de nossa natureza carnal, decaída. Mas errando conhecemos mais uma face da maravilhosa graça que nos alcança. É Deus quem cuida para que nossos passos não se desviem. É Deus quem nos toma pela mão e nos ajuda a reencontrar o caminho quando nos desviamos. É Deus que extermina a influência do pecado sobre nossa vida. E é Ele quem nos concede o desejo de não tornar a pecar. Não há mérito algum nas nossas ações ou palavras bem intencionadas, é nele que está o nosso querer e o relizar (Romanos 7:18). Todo bem que fazemos, queremos, recebemos vem de Suas mãos. Por isso mesmo, nada feito por nós podemos Lhe dar. Nenhuma prova de como aprendemos bem as lições bíblicas, os sermões, as palestras... quando usamos de nossa melhor capacidade de discernir, escolher e decidir, resolvemos Lhe dar não menos que toda a nossa vida. Só nessa entrega absoluta encontramos existência plena, só nessa dependência completa nossa vida cumpre seu significado aqui na Terra e afirma o melhor que há em sua humanidade.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Adveniat - Centro

O cartaz no ônibus informava objetivamente a respeito das mudanças no trânsito do centro da cidade por ocasião do carnaval. Não pedia desculpas pelos transtornos, não dava alternativas satisfatórias, não dava número de telefone para sugestões e críticas. Apenas comunicava secamente as mudanças que haveriam de alterar por uma semana a rotina e o humor de todos os recifenses que precisassem passar por ali. Fiquei pensando sobre a mensagem nas entrelinhas daquele cartaz: “Você está em Recife, uma cidade carnavalesca que por estes dias estará toda voltada para o comércio festivo. Não nos preocupamos com o que você pensa, se gosta ou não das mudanças para o carnaval ou do próprio carnaval, porque você não é o foco de nosso interesse. Portanto, se se sentir incomodado procure a BR 101 e siga seu rumo para longe daqui.”

Diante de um “Ame-o ou deixe-o” nós sempre deixamos Recife por essa época e nos escondemos nas paisagens potiguares. Lá podemos meditar com mais calma e inspiração no amor de um Deus que se preocupa em detalhes com Seus filhos. Se não fora assim, por que teria colocado na obra da Sua criação cores, sabores, texturas, odores e sons tão diversos e tão agradáveis em sua amplidão? Nas várias matizes de uma flor, pessoas de diferentes gostos visuais podem se sentir tocadas por uma mesma beleza que remete ao sublime. Aos diferentes cheiros do campo, boas memórias vão se associar em tipos humanos diversos, e em cada um vai virar um alento futuro, uma saudade afável. Entre as digitais de bilhões de seres espalhados pelo planeta, você certamente encontrará pelo menos um par de mãos que lhe será tão doce ao toque que você desejará tê-las por perto o resto da vida. Em toda a obra feita pelas mãos de Deus há uma manifestação de graça escondida, pronta a alcançar cada um de Seus filhos.

Por que é assim? Porque entre todas as criaturas da Terra estamos no centro do interesse divino. Há filósofos que criticam essa característica cristã, que de tão afirmada ao longo da História, queria até fazer da Terra o centro do sistema solar. No entanto o cristão que conhece a seu Deus não faz essa afirmação por esnobismo ou egocentrismo, mas por reconhecimento de um amor demonstrado de maneira incontestável na Revelação de Sua Palavra e Sua criação. Tenho um Deus que diz ser capaz de entregar reinos por Seu povo (Isaías 43:4). E que me oferece incontáveis provas de aceitação, desde o gosto da minha fruta preferida até um som vespertino que ninguém mais percebeu, mas que falou ao meu coração dizendo “Vinde a Mim”.

Entre os muitos caminhos que Cristo tem para chegar ao nosso coração, um há de lhe alcançar e fazer você sentir-se amado, respeitado, de forma única, tal como o ser que você é. Mesmo que a humanidade prefira entorpecer os sentidos para festejar a carne, há um prazer espiritual guardado em muitos detalhes cotidianos (ou fora dele), esperando para ser contemplado e vivido. Um prazer que não pode nos ser tirado, pois traz os ecos da Eternidade. Muitos pedacinhos do céu são plantados em nossos caminhos, mas só somos capazes de desfrutá-los quanto não passamos com pressa por cima deles: “A Terra está cheia da bondade do Senhor” (Salmo 33:5); “Quem é sábio observe estas coisas e considere atentamente as bondades do Senhor.” (Salmo 107:43)

“Acaso não tendes tido quadros luminosos em vossa vida? Não haveis experimentado preciosos momentos, em que vosso coração pulsou de alegria à influência do Espírito de Deus? Volvendo o olhar aos capítulos de vossa passada existência, não encontrais algumas páginas aprazíveis? Acaso as promessas de Deus, quais flores fragrantes, não medram a cada passo na vereda que trilhais? E não permitireis que sua beleza e suavidade vos encham de gozo o coração? (...) Graças a Deus pelos quadros luminosos que nos tem apresentado! Enfeixemos todas as benditas promessas de Seu amor, a fim de sobre elas poder deter continuamente o olhar.” (Ellen G. White, Caminho a Cristo, p. 117 e 118)

Que ao contemplar a luz que incide nesses feixes de amor Divino, possamos nós, que somos o centro de Seu amor aqui na Terra, torná-Lo o centro de nossas vidas também.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Quantas coisas você não consegue fazer ao mesmo tempo?

Não escrevi neste fim-de-semana porque estava em um congresso para evangelistas que aconteceu no ENA. Foi um belo congresso, num lindo lugar, com pessoas amadas e comida maravilhsoa, heheheh. E tudo dado de presente pelo pastor. Amazing Grace!
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Ao contrário do que incentiva nosso século de velocidade, eu não consigo fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Logo que conheci a internet achei que era apenas imperícia de minha parte, mas hoje, dez anos depois, cheguei a conclusão que é total incapacidade mesmo. Acho fantástico observar como amigos meus conseguem conversar com quinze pessoas ao mesmo tempo num Messenger, e, ainda ao mesmo tempo, checar os e-mails, olhar uma home page, fazer uma pesquisa no google, baixar um arquivo, responder a uma pergunta do chefe (sem que este veja o bate-papo), atualizar o blog e ainda comer um sanduíche sem derrubar uma migalha sobre o teclado. Eu não consigo sequer esse último item enquanto estou na frente do computador!

E não é assim apenas no mundo virtual. Não sei o que seria da minha missão de mãe sem minha boa babá por perto, me ajudando a coordenar os mil afazeres que um bebê demanda. Na cozinha tenho que fazer uma coisa de cada vez, se não algo vai ficar sem sal, queimado ou cru. O resultado é que enquanto minha mãe gasta uma hora e três panelas para preparar um almoço eu gasto quatro horas e todas as panelas do armário. As vezes em que quis me meter à besta de fazer algo fora da cozinha enquanto o fogão estava ligado renderam desde miojo queimado até panelas com fundo derretido. Certa vez consegui queimar a pipoca enquanto conversava com um amigo em frente ao fogão...

Não obstante meus problemas mentais característicos, acho que o nosso século exalta demais quem consegue se virar sozinho para fazer tudo, e quem consegue fazer tudo ao mesmo tempo. Embora busquemos nos especializar cada vez mais, somos cobrados para dar conta de um milhão de problemas diferentes, e somos considerados “bons” quando conseguimos realizar o máximo de tarefas num tempo mínimo e sem a ajuda de ninguém. É engraçado mas hoje tem se tornado absurdo deixar que outras pessoas ajudem. É como se isso tirasse os méritos, colocasse sombra sobre as conquistas. Por isso mesmo é cada vez mais difícil para o ser humano contemporâneo lidar com a sensação de impotência. Ele, que é cobrado para ser capaz de resolver tudo sozinho, rápida e simultaneamente, amarga com tristeza extrema quando se depara como instransponível. Mas nessa hora, até para Deus chegar junto está difícil. Apelar para Deus seria confessar-se fracassado, e o auxílio divino tiraria o brilho da vitória. O homem desafiado pelo problema cairia para o lugar de salvo ao invés de fulgurar no lugar do salvador. E há quem prefira constar como fracassado a ser flagrado, frágil e pequenino, nos braços de Deus.

Mas a onipotência ainda é um atributo que só a Deus pertence. E a impotência pode ser uma boa oportunidade para questionar o valor das coisas que queremos transpor. Eu já acho que pensar, escrever e respirar ao mesmo tempo seja algo incrível para mim. Ter o controle de todo o presente e futuro na minha vida seria um desatino. Pelo contrário; alguns dos meus planos mais benevolentes não funcionam apesar de muito bem estruturados, e algumas maldades que maquino fazer quando estou com raiva de Deus falham antes de eu me sentir uma menina má. Há sempre fatores que estão além do meu alcance e que vez ou outra impedem meus planos de se concretizarem, quer sejam bons, quer sejam maus. E eu até já ousei reclamar com Deus dessas intervenções que seriam coincidência demais para acontecerem com tanta freqüência e eficácia, tirando-me a humana capacidade de querer e realizar (Filipenses 2:12 e 13).

A sensação de impotência para manejar o próprio destino é algo que mexe com os brios do ser humano. Mas é algo com o que os filhos de Deus precisam aprender a lidar, porque se por um lado Deus lhes deu livre arbítrio, Ele os ama demais para os deixar sozinhos em sua caminhada. Mesmo quando merecemos sofrer as conseqüências de nossos atos errados e amargar decepções vindas dos mais bem intencionados - mas imprudentes - planos, Deus não permite a seus filhos sofrimento desnecessário. Este é o princípio da graça que está expresso no verso: “Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar.” (I Coríntios 10:13). O versículo no entanto não diz que Deus nos consultará sobre a conveniência de suas decisões em nosso favor. Deixar Deus nos ajudar pode ser um processo de doloroso aprendizado, em que nem se enxergue o auxílio de pronto, e em que a dependência nos ensine a nos desprendermos mais e mais das mesquinharias humanas, do egoísmo, da incapacidade de dar e receber. E nos faça começar a listar quantas coisas não conseguimos fazer ao mesmo tempo.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Adveniat - Caminhos

Certa vez um amigo me magoou. E como acontece com todos os amigos que notam que magoaram a quem querem bem, ele tentou justificar sua atitude. Disse: "É que do lugar de onde venho as pessoas valorizam mais a aparência que o caráter. Às vezes acabo fazendo da mesma forma que elas." Eu o perdoei e entendi. Mesmo sem usar as mesmas palavras, diante de um erro cometido eu mesma já pensei assim algumas vezes. Não somos só nos que deixamos marcas no caminho pelo qual andamos: ele também nos modifica, imprime em nós algo da sua própria paisagem, cobre-nos com a poeira levantada em cada pegada.

Jesus contou a história de um caminho e quatro homens. Alguém lhe perguntou sobre salvação sem estar interessado de verdade em saber sobre a salvação (queria testar Jesus), e Ele respondeu com uma parábola sobre uma necessidade real do interlocutor: saber quem era seu semelhante e como tratá-lo. Está em Lucas 10: 25-37. O caminho era a estrada traiçoeira entre Jericó e Jerusalém, que apresentava uma descida de cerca de 900 metros. Lá, um homem foi assaltado e espancado com bastante violência a ponto de ficar desacordado no chão. Mesmo que nunca tenhamos passado por situação semelhante somos capazes de reconhecer a dor de estar ferido, física ou emocionalmente, e ao mesmo tempo desamparado, sem condições de se fazer algo por si mesmo.

A parábola continua dizendo que um sacerdote passou pelo mesmo caminho, viu o homem semimorto e passou de largo. Pode ter pensado: "Do lugar de onde venho os justos não se contaminam com cadáveres. Este aí se ainda não morreu deve estar perto." Depois veio um levita e passou de largo também. Pode ter pensado: "Do lugar de onde venho, o templo, há ainda muita coisa para ser feita, tenho muitas responsabilidades e não posso me arriscar a faltar com elas porque fiquei impuro ao tocar num possível cadáver." O terceiro homem, um samaritano, compadeceu-se da pobre vítima, cuidou, levou consigo, tratou e pagou os suficiente para que o homem ferido ficasse bem hospedado por vários dias até se recuperar. Pode ter pensado: "Do lugar de onde venho as pessoas são consideradas más. Tanto que, futuramente, quando se referirem a esta história me chamarão de 'bom' samaritano, como se todos os outros samaritanos fossem necessariamente maus. Do lugar de onde venho ninguém acredita que eu seja capaz de demonstrar compaixão por um homem que não conheço e que provavelmente pensa como os outros do lugar de onde venho. Mas ele ainda precisa de mim." E ajudou o moribundo logo que constatou que este não estava morto (ele, como os judeus, também sabia que corria o risco de ficar impuro).

Jesus terminou a história com um "Vai e procede tu de igual modo", sugerindo que em nossos caminhos usemos de compaixão e amor para quem precisa de nós ainda que isso seja uma tarefa incômoda e até nos custe algo. Isso pode ser socorrer um semimorto ou deixar de magoar um amigo desnecessariamente. Para tanto, Jesus fez saber também que um mesmo caminho tem duas direções: o lugar de onde se vem e o lugar para onde se vai. E muito mais importante que saber como é o lugar de onde se vem, é saber exatamente como é o lugar para o qual se quer ir. Como é lugar para onde estamos indo? Que nesta semana possamos agir com as pessoas de modo a mostrar algo da paisagem que aguarda no fim do nosso caminho.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Dentes e dádivas

Até eu engravidar nunca tinha tido cáries. Adorava ver a cara surpresa dos dentistas e mais ainda a cara invejosa de minhas irmãs que me viam sair serelepe da temida cadeira após uma rápida aplicação de flúor, e deixá-las lá ao som de um motorzinho aterrorizante, enquanto dava tchauzinho com uma barra de chocolate na mão.

Uma vez uma dentista me falou: "É um tipo de bactéria que protege seus dentes. Quando começar a beijar na boca você com certeza vai conhecer o que é cárie." Mas a profecia - ou praga, simplesmente - não se cumpriu. Minhas bactérias deviam ser mais fortes que as dos meus namorados de modo que meus dentes permaneciam pefeitos. Minha higiene bucal sempre foi apenas regular, nunca um exemplo a ser seguido ou filmado para comerciais de creme dental. Para desespero das minhas irmãs, elas se esforçavam bem mais nesse sentido que eu, mas era eu quem ria do motorzinho.

Aí veio Vinícius. Com quatro meses de gravidez fiz minha primeira restauração dentária e arranquei um siso. O bebê já era guloso desde o ventre: me roubava o cálcio com a avidez de quem anunciava que iria mamar freneticamente por mais de um ano. E não me digam que não tem nada a ver, que ele não retira o cálcio dos dentes e outras coisas do gênero que li de especialistas por aí. Só quem engravidou sabe o estrago que uma placenta ávida pode fazer no corpo de uma mãe que tem que se manter bem nutrida e com IMC normal. Comer, comer, comer: dentes a menos, pança a mais. O dentista me alertou: "Você está cheia de cáries! Volte aqui após o parto para fazermos um tratamento!"

Um ano depois eu voltei e... meus dentes estão perfeitos. Que bactéria que nada. O dentista explicou que a boa saúde de meu oganismo aliada a um forte componente genético fez com que os dentes fossem mineralizados novamente antes das cáries se desenvolverem. De modo que não será preciso fazer nenhuma intervenção. Ele elogiou minha oclusão (expliquei que nunca usei aparelho ortodôntico) e minha higiene bucal, ao que eu modestamente repliquei que era mais sorte que diligência, e despediu-me, profissionalmente feliz que meus genes não sejam dominantes.

Tenho problemas bem chatos que não são muito comuns: meu olho esquerdo tem mais de nove graus de miopia, minha rinite alégica abrange uma gama infindável de elementos respiráveis, meu nervo ciático incomoda desde os 28 anos. Mas o fato de ter dentes fortes e benevolentes supera todos eles. Muito interessante como a ausência de cáries me faz sentir uma pessoa especial, destacada dentre a multidão, divinamente agraciada. Não lembro de nenhuma outra característica física, intelectual ou emocional que me faça sentir algo parecido.

E este post, que não é mais uma reflexão biológica que teológica, não está aqui só para deixar para a posteridade o registro áureo de minha super arcada dentária. Também quer dizer que mesmos os estragos que a vida faz (na verdade, que nós fazemos na vida) e que julgamos muitas vezes irreparáveis, podem se mostrar surpreedentemente... sanáveis. Uma cárie diagnosticada pode levar a mente a divagar insone por vingativos barulhos de motorzinhos, gargalhadas de irmãs, relatos de cirurgias dentárias que remetem a torturas medievais. Um pecado também pode deixar a sensação de que teremos que amargar consequências terríveis, que machucaremos pessoas inocentes, que feriremos pessoas que amamos, que o mundo nos verá cobertos de lama a desfilar pelas ruas da cidade, que nunca mais seremos a mesma pessoa outra vez.

Bem, isso de fato pode ocorrer. O pecado pode trazer males indizíveis. Mas já vi olhares de pessoas que denunciavam sentir tudo isso mesmo sem ter passado por tudo isso. Pessoas que carregavam em seu olhar triste o cinza púmbleo de um culpa punitiva. De tão púmbleo, o cinza faz decair o olhar: "Sou miserável, pequei e vou sofrer." Sem levantar o olhar a pessoa cria em sua mente um cenário de acusação e medo para cercá-lo. Sem enxergar as faces e vozes que se aproximam dele, pinta-lhes com capuz de carrasco, muito mais interessado em purgar sua culpa que ver a realidade. Sim, somos miseráveis, sim, somos pecadores, mas não temos necessariamente que sofrer. Um pecado pode ser sanado sem dor? Como assim? Pode? Pode. "Verdadeiramente Ele tomou sobre si as nossas fraquezas, e carregou as nossas dores." (Isaias 53:4). Cristo pagou na cruz as dores de todos os pecados passados e futuros. Não aceitar isso é não entender o plano de salvação. O pecado deve causar no coração converso o arrependimento, não a auto-flagelação. Se a solução fosse impingir a si sofrimento, Judas não teria tido um fim tão triste.

Nem sempre podemos apagar o rastro de um ato pecaminoso, seja pela simples lei da ação e reação, seja pela malignidade de Satanás, que faz realmente de tudo para que o pecado tenha o maior alcance possível. Mas também não podemos apagar a força do sangue de Jesus sobre nossas vidas. É o poder de Deus, e não o poder do pecado, que deve ditar nossa atitude perante a vida, as pessoas e os nossos atos subsequentes ao erro. Cavar mais fundo o poço não vai nos redimir porque o auxílio só pode vir de cima. Revolver-se no lamaçal do pecado e o expor a todos os passantes é inútil quando o sangue do Cordeiro espera para nos limpar.

Eu não tenho a mínima idéia do mecanismo pelo qual um organismo refaz um dente onde certa vez se instalou uma cárie. Também não consigo entender a forma pela qual um Deus justo se faz amor e nos perdoa, sana e reintegra à perfeição sem que para isso tenhamos necessariamente que sofrer longamente, penar, machucar a nós mesmos ou a outras pessoas. Mas desconfio que isso não é mesmo para ser entendido. Isso, meus seis leitores, é Graça.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Um Deus belo

Já que faltei o ensaio do coro hoje à tarde vou me permitir escrever outro texto longo, sem pressa de acabar, hehehe... passei a semana numa secura terrível para escrever, então quero muito escrever e escrever muito. Meus seis leitores hão de me perdoar. Em nome de Proust, eu vos peço. Há tempos venho precisando expressar tudo vai abaixo.


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Por estes dias terminei de ler um livro de Alain de Botton sobre Allan Proust. O segundo é afamado escritor francês que esculpiu a obra "Em busca do Tempo perdido" e que é também venerado por oito em cada dez escritores ou aspirantes a tal. Mesmo que só dois em dez tenham conseguido chegar ao final do sétimo livro. E entre os aspirantes que penduraram as sandálias, eu me incluo. Já no primeiro livro achei a escrita de Proust fascinante, mas muito densa, ´difícil de digerir, o que me fazia ficar dias em única página, refletindo sobre o que o autor quis dizer com aquele pensamento, que sentimento pôs por trás da descrição daquela personagem ou daquele bolinho, ou como ficaria aquela frase de dezenove linhas se dividida em períodos curtos e sem hipérbatos. E Alain de Botton é um escritor que, sem escrever nem uma biografia, nem uma crítica literária, nem um compêndio de auto-ajuda, conseguiu trazer Proust para mais perto de nós, e analisar algumas caraterísticas de sua vida e escrita sob um ponto de vista prático: como isso pode me ajudar a viver melhor?

A grande sacada de Alain de Botton é justamente não vincular o "viver melhor" com a ausência de sofrimento. Tanto que um dos capítulos do livro chama-se "como sofrer com sucesso". O que gostei no livro foi essa riqueza de perspectivas, que, por sua vez, ele aponta em Proust. No capítulo "Como abrir seus olhos", observamos ele sugere que a leitura que Proust fazia do mundo e repassava em seus livros era a de um detalhista que sabia apreciar a beleza real de todas as coisas, seja a de um palácio, seja a de uma fruta comum sobre a mesa. E não havia hierarquia nessa beleza, cada uma era bela ao seu modo, e seu valor estético particular não era par aser comprado, apenas percebido. Se alguém conseguisse, no entanto, perceber a beleza de uma maçã sobre a mesa, seria dotado de uma capacidade muito mais apurada para admirar a beleza do palácio, não com frases feitas como "que lindo!", ou "tão grandioso!", que só denotam uma idéia pobre e pré-concebida de beleza, baseada muito mais no valor material que estético. Só alguém que conseguisse olhar com espanto para a descoberta da beleza numa cena comum cotidiana poderia encontrar a verdadeira beleza numa lua cheia, tão evidente, mas tão desgastada por poemas e adjetivos óbvios.

Esta reflexão me fez pensar em Deus porque, acredito, a procura por Deus é também uma procura pelo Belo. Não à toa a li no blog Outra Música uma citação de Jonathan Safran Foer que dizia "Nada é bonito e verdadeiro." Aqui entre humanos os momentos de beleza são raros e fugidios. A busca por Deus é, também, uma busca para perpetuar o extraordinário. A perfeição absoluta, caraterística que cremos ser somenteo divina, tem muito a ver com a beleza absoluta, uma vez que Belo e Bem são sempre postos juntos em nossas concepções. Tanto que demoramos a perceber o Mal quanto este se recobre de beleza. O Belo nos encanta, portanto consegue alterar nossa capacidade de julgamento. E é bem aqui neste ponto que eu fiquei matutando sobre uma contradição que, volta e meia, volta à baila no meio cristão.

O conceito de beleza tem algo de intuitivo e universal. Mas também é construído, recebe influência da educação, cultura, preconceitos e experiências pessoais que vivenciamos. E muito embora nem sempre sejamos capazes de dizer - ou interessados em descobrir - o porquê de algo nos parecer belo, utilizamos alguns critérios objetivos para aferir essa beleza. Gosto de música barroca, admiro homens de voz grave, aprecio pintura simbolista . Dentro dessas categorias ainda posso restringir-me mais e dizer que amo a beleza da música de Handel, da voz do meu marido e dos quadros de Gustav Klimt. No entanto, certo dia, durante uma aula de Fundamentos da Construção Musical na faculdade, ouvi uma música dodecafônica de Ernest Krenek, que me tocou profundamente. Em outra época eu teria ficado indiferente, como normalmente sou indiferente a qualquer música atonal. Mas naquele momento da minha vida em especial, aquela música pareceu traduzir tão bem o que eu sentia que me pareceu... confortadora. E bela. Por outro lado, embora a voz de Cid Moreira seja o ícone de todas as vozes graves e másculas, eu me dinto uto incomodada ao ouví-lo. E mesmo sem serem exatamente simbolistas, os rascunhos que meu filho faz com giz de cera me parecem obras de uma beleza comparável a qualquer quadro do Louvre. É por ser construída que a beleza não se restringe, porque ela se comunica com a experiência, e a sensibilidade para ela cresce à medida que nos permitimos reconhecê-la fora dos padrões que traçamos objetivamente.

Acontece que quando Beleza e Religião se misturam, a experiência com o Belo fica comprometida. Na história humana SEMPRE existiu alguém numa posição dominante, imposta ou delegada, que ditou o quanto de Bem pode haver no Belo e vice-versa. Por isso de vez em quando um mesmo discurso se este de roupagem nova e reaparece no círculo religioso: esses são os sons que devemos ouvir, essas são as coisas que nossos olhos devem ver. Embora a beleza possa ser apreendida com todos os sentidos, são olhos e ouvidos os sentidos mais focados. E aprisionados. É como se Deus, de repente, pudesse ser objetivado em critérios facilmente consultáveis a partir da experiência de um único ser humano, tomado como padrão de julgamento para toda uma massa que se sente mais segura em seguí-lo que pensar, criticar e escolher a partir de suas próprias experiências vividas ou percebidas.

Digo percebidas porque não temos necessariamente que errar para aprender, mas mesmo a percepção do exemplo a ser seguido deve ser uma experiência pessoal, caso contrário não será significativa. A grande falha do discurso de quem quer "preservar" nossos sentidos, é que ele é contraditório. Tem a boa intenção de querer nos alertar para a pureza dos sentidos como meio de achegarmo-nos a Deus, mas impõe sua própria concepção do que é puro e bom a qualquer outra experiência, e com isso restringe os meios pelos quais Deus pode se comunicar com sus criaturas. Sentidos que não são utilizados com sabedoria - esse deveria ser o foco de nossas preocupações - atrofiam como músculos que permanecem numa única posição a vida toda. Nenhum cordeiro atrofiado seria oferecido a Deus como sacrifício santo e agradável, já dizia o levítico.

É sábido que na nossa literatura eclesiástica já houve até a muito bem intencionada iniciativa de dizer quais os padrões rítmicos, fórmulas de compassos ou andamentos que caracterizariam a música própria para adorar a Deus. Mas será que a experiência desse autor com o Belo digno de ser ofertado a Deus invalida a experiência de um adorador que encontrou verdadeiramente a beleza da voz de Deus numa música sincopada? Se objetivarmos experiências como essa e a tomarmos como padrão, não estaremos afastando a possibilidade de alguém que cresceu, por exemplo, em meio a uma cultura onde a música segue padrões rítmicos bem diferentes dos europeus-luteranos, possa ter sua própria experiência bela e verdadeira com Deus? Sendo que a beleza divina que alguém experimentou em sua religiosidade é capaz de alterar seu julgamento racional, seria justo diminuir a experiência do outro porque ela não partiu de elementos racionais, mas emocionais? Impor nossa experiência a essa pessoa como o melhor caminho para chegar a Deus não seria tirar de Deus a prerrogativa de ser O caminho?

Tomando ainda a música como exemplo (que é com o que estou mais familiarizada), não é preciso ter nenhuma formação em psicologia para descobrir logo que muitas pessoas que defendem que na música sacra não deve predominar o elemento ritmico, têm suas dificuldades pessoais com esse elemento. Não há nada na Bíblia que diga que o ritmo é um elemento musical demoníaco, e que os instrumentos musicais que o exploram foram criados por Satanás. Muito embora muito se tenha argumentado para diminuir a relevância da experiênia rítmica na adoração, o que de fato o faz ser alvo de tantas críticas é a forma como ele mexe com nossos instintos. O ritmo, por estar organicamente associado a nossas experiências mais primitivas (desde o bater do coração no ventre da mãe), tem certo poder para tirar nossa mente de controle e deixar fluir emoções. Acontece que nem todo mundo gosta dessa sensação. Há pessoas que gostam de ter o total controle sobre suas emoções e se julgam mesmo pessoas adultas e equilibradas pela capacidade de manter bem represadas quaisquer expressões de sentimento. Elas têm medo de sentir. E isso tem a ver com suas experiências de vida. Podem ter sido (des)educadas assim. E acham, sinceramente, que a beleza a ser direcionada a Deus tem que ser uma beleza cartesiana, racional. Citam Paulo (Romanos 12: 1) para que apresentemos nossos corpos em sacrifício como culto racional (cordeiros atrofiados?), falam de ordem e decência como se o sentimento humano fossem indecente e necessariamente desordenado. Crêem que na razão está a pureza dos sentidos. E não estão erradas sob seu ponto-de-vista, ainda que Paulo não tenha em momento algum desaconselhado a expressão das emoções, antes até a recomendado (Romanos 12: 10 - 15). O medo das emoções quase sempre tem a ver com incapacidade de entrega, e como podemos ter uma relação saudável com Deus sem entrega? Como podemos experimentar Sua Beleza apenas por critérios racionais, sem ter contato como extraodinário? Eu prefiro pensar que essas pessoas, tanto as que se postam como porta-vozes da vontade de Deus como as que as seguem, querem que seus padrões sejam imitados porque elas acham que assim estarão proporcionando aos seus irmãos a mesma experiência com Deus que vivenciaram em suas vidas.

O problema é que nem sempre dessa boa-vontade decorre bênção. Às vezes decorre pura s imples presunção. E para outras pessoas, que não conseguem se encaixar nas fôrmas apertadas que foram moldadas noutra experiência de vida, decorre frustração e afastamento de Deus. Quantos jovens eu vi se auto-flagelando com penúria medieval para tentar caber nessas fôrmas. Quanto sentimento de culpa eu e tantos outros carregamos tanto tempo por nao conseguirmos entrar na capa de bom cristão que foi costurada num modelo de perfeição que jamais conseguiríamos ser. No entanto "Jesus procurava um caminho para cada coração" (Ellen G. White, Parábolas de Jesus, p. 21), e falou de maneiras diferentes a pessoas diferentes, respeitando a experiência de cada uma. Ainda hoje Jesus busca muitos caminhos para chegar-se a nós, mas - eis de novo a contradição - nossos sentidos que deveriam estar preservados, encontram-se muitas vezes atrofiados. E deixamos de escutá-lo tantas vezes por puro preconceito. Mais que isso, podemos perturbar a adoração de alguém ao invés de incentivá-la, quando ditamos as formas e ritos para ela chegar-se ao Grande "Vinde a Mim". Eu lembro das perguntas que Deus fez a Jó quando este, em seu desespero, tentava compreender as atitudes de Deus através de sua minúscula experiência humana: "Onde estava tu quando eu fundava a Terra? Dize-me se tens inteligência! Quem lhe pôs as medidas, se tu o sabes?" (Jó 38:4 e 5). Quando eu vejo alguém deixando de adorar a Deus por não conseguir ouvi-lo pelos critérios dos outros sinto-me tentada a perguntar aos que ditaram esses critérios: "Onde você estava quando Deus criou a música? Quem lhe pôs as medidas, se tu o sabes?"

Sei que os bem intencionados não conseguem ver assim porque acreditam que seus critérios estão fundados na Bíblia, e a verdade seria uma só, então todos os outros que não concordam com eles estariam enganados. Mas mais uma vez roubamos de Cristo uma prerrogativa: a de Ele ser A Verdade. As pessoas que perderam a capacidade de renovar sua experiência com Deus só conseguem entrevê-lo em reviver experiências passadas. Assim, essas pessoas até se emocionam, mas dentro do terreno seguro do que já é conhecido. São capazes de demosntrar grande euforia quando encontram alguém que ratifica, sob nova roupagem, os mesmos caminhos já pisados onde uma vez encontraram a Deus - e onde tentaram O aprisionar. Seria esmagador para essas pessoas pensar que Deus pode habitar fora dos seus limites controláveis. A presunção decorre justamente do medo de acreditar que alguém pode encontrar a Deus de outra forma senão aquela, sacra por excelência, devidamente fundamentada em padrões bíblicos convenientes. Dessa forma, a religião engessada em critérios objetivos não eleva no sentido de não proporcionar experiências confrontadoras, apenas confortadoras. E no conforto não há transformação, fundamento da conversão. Mesmo a mais bem intencionadas das pessoas que foca o seu discurso no controle dos sentidos está sujeita a ver seu discurso ser mal interpretado e aplicado como mais uma fôrma ao invés de um estímulo para chegar mais perto de Deus. E isso ocorre porque muitas pessoas que o ouvem não querem se dar ao trabalho (e isso posso durar uma vida inteira) de chegar-se por si próprio perto de Deus, então tentam se apoderar da experiência já vivida pelo dono do discurso, da espiritualidade do outro, da religião do outro, e para tanto utiliza os elementos objetivos do dicurso como um check list, um guia fácil para sentir-se tão espiritual quanto quem proferiu seu testemunho. Não há transformação pela experiência alheia, no máximo uma indicação a ser considerada enquanto se trilha o próprio caminho. SE eu for para o deserto coberta de peles de animais e passar a comer gafanhotos e mel isso não fará de mim uma pessoa com a espiritualidade de João Batista. Da experiência dEle eu só posso aproveitar em minha conversão os elementos que me levem para mais perto do Seu Deus ( e essa era sua clara intenção). Quando Paulo disse "Sê-de meus imitadores", completou a frase com um "como eu sou de Cristo"(I Cor. 11:1), mostrando que não pretendia criar um grupo de evangelistas fazedores de tendas, mas fazer as pessoas focarem no ponto-chave de seu discurso: Jesus, o único modelo digno de ser imitado. Regras que foquem no comportamento humano e não sejam fortemente iluminadas pelos princípios que as fundamentam, são como mel e gafanhotos nas mãos de atores interessados em uma boa atuação. E os pés dos cristãos são aqueles que se ferem e calejam ao andar sobre a Rocha, não os pés que desfilam graciosos sobre palcos. E para levar-nos à Rocha, Deus pode falar a seus filhos de maneiras muito mais abrangentes que por um punhado de formas institucionalizadas.

Alguma dessas pessoas pode refutar: "Bem, Deus pode usar tudo mesmo como meio de falar aos corações. Pode usar pedras. Isso não significa que vamos utilizar nossos dízimos para comprar pedras e enviá-las às nações a fim de anunciar o evangelho." É uma típica atitude de medo ridicularizar a experiência alheia. Um jovem que se sentiu tocado por Cristo enquanto vomitava na sarjeta após uma noite de bebedeira não pode ser encorajado a ter mais noites de bebedeira para tornar a encontrar a Cristo. Mas nós também não podemos dizer que daquele dia em diante Cristo só estará disponível para ele na igreja X, a partir das X horas, se eles estiver vestido de X maneira e cantando o hino X. O caminho da conversão passa por muitas experiências com a beleza e graça divina, mas não consigo reconhecer, nem na minha nem na de outros cristãos, um padrão estritamente objetivo que possa emoldurar a experiência de todos os cristãos. Se Deus usou uma sarjeta para falar a alguém, porque ele não pode usar um livro de literatura, um pôr-do-sol, um sorriso, a frase despretensiosa de um cobrador no ônibus, uma música muito feia e muito pobre mas que naquele momento falou exatamente o que eu precisava ouvir para me voltar para Deus?

Vejam só que paradoxo: eu que sou capaz de admirar tão bem o palácio de uma cantata de Bach ricamente construída, posso ainda me comover com a beleza simples mas igualente verdadeira de uma música tola? Ou guardei Deus só para as coisas grandes, deixando de apreciar sua revelação em tudo o mais ao meu redor? Se sim, cresci com isso ou apenas utilizei meu intelecto desenvolvido para empobrecer meu espírito? Ao ler a Bíblia consigo ver um Deus pedindo algo a seus filhos, mas o que Ele pede me parece ser masi algo direcionado aos outros que a nós mesmos. Ele nos pede serviço, missão. E ao cobrador de impostos que vivia de regular por leis humanas a vida alheia ele disse simplesmente: "Segue-me!"

Não quero parecer anarquista. Meu questionamento às regras não diminui a grandeza dos princípios. Não é isso que ensinamos nos estudos bíblicos quando vamos falar sobre a Lei de Deus? Dizemos que é uma lei moral. E o que é uma Lei Moral? É uma Lei atemporal, regida por princípios aplicáveis a qualquer tempo e em qualquer lugar, jamais se restringindo a parâmetros humanos, mas atravesando séculos por seu poder imutavelmente transformador. A Lei é, por isso, a revelação do caráter de Deus (EGW, O Grande Conflito, p. 467). Um Deus que se revela por princípios não pode ser aprisonado em regras quase sempre feitas para dar mais segurança - ou comodidade - aos homens. Se somos um povo que defende a validade do decálogo como Lei Moral, deveríamos ser um povo que falasse menos sobre regras e mais sobre princípios. Mais que isso, um povo que vivesse por princípios. Que soubesse utilizar-se desses princípios para ver tudo e reter o que fosse bom. Para estar aberto a revelação de Deus nas coisas elaboradas e simples, naquelas que são do nosso gosto e que o contrariam, nas praxes eclesiásticas e nos elementos do dia-a-dia.

Este texto não é um manifesto contra todas as regras sobre louvor, adoração e vida eclesiástica. Há regras boas, que edificam, que nos aproximam dos princípios. Mas só fazem isso quando são pensadas, não só por quem as fez, mas por quem as pratica. E se elas não cabem dentro da minha experiência de vida não têm que ser vestidas com o sufoco de uma roupa cinco números menor só para eu parecer igual a todos os demais. Roupas apertadas não vão preservar meu corpo. A consciência do meu corpo sim, vai me permitir experimentar o que lhe convém ou não. Creio ser assim com o espírito também. Utilizar-me das bem intencionadas regras de vida de alguém que encontrou a Deus por certo caminho pode não ser, para mim, uma experiência que também me aproxime de Deus. Para que isso ocorra tenho que estar atenta e aberta a Sua voz, que às vezes virá suave, às vezes desafiadora.

Regras podem me dar a sensação que estou fazendo tudo ceto por isso mereço a benevolência divina. Princípios nos obrigam a (re)pensar, a sentir, e com isso reconhecer a manifestação da Graça em nossas vidas. O exercício de procurar a beleza divina no improvável pode nos fazer aprender muito sobre o método de Cristo para chegar aos corações e deixar que Ele mesmo entre nos nossos. Este texto, é, portanto, um pedido a todos os nossos bem intencionados irmãos que querem nos fazer viver em maravilhosos palácios de sacralidade: a despeito de terem encontrado Deus no lugar onde estão, não desvalorizem a experiência daqueles que O encontraram numa maçã sobre a mesa. Não há experiências menores quando se trata de experiências com Deus, todas elas são grandiosas. Observar como as sementes da maçã germinam e se erguem em ramos por todos os lados, mas sempre para cima, em busca de um sol onipresente pode ser um bom começo para ver, além da sua velha experiência com a beleza, a manifestação de um Deus belo.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Adveniat - Tu me amas?

Cito Alberoni outra vez porque seu livro é mesmo instigante. Pretendo ler outros títulos dele, mas "Enamoramento e Amor" já dá muito pano pra manga.
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“Pela terceira vez Jesus lhe perguntou: Simão filho de João,tu me amas? Pedro entristeceu-se por ele lhe ter dito, pela terceira vez: tu me amas? E respondeu-lhe Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo. Jesus lhe disse: Apascenta as minhas ovelhas."(João21:17)

Quem é ou foi amado já ouviu essa pergunta. “Você me ama?” é uma pergunta comum entre homem e mulher, mãe e filho, amigos. Ainda que não seja verbalizada ela ecoa através de sutilezas nos gestos, no olhar, nas entrelinhas de um diálogo corriqueiro. Mas quando o amor é correspondido nós não cansamos de respondê-la, ainda que pela ducentésima primeira vez, porque intimamente sabemos: aquele que questiona o amor é quem também oferece dádivas. Por que então Pedro se entristeceu?

Há uma corrente de eruditos que acredita que a resposta é filológica. Dizem que a palavra amor nas duas primeiras perguntas de Jesus era o amor agapáo, um amor mais elevado, do tipo que Deus tem por nós, ao que Pedro respondia que amava a Jesus com amor filéo, que seria amor inferior, mais humano, do tipo que temos aos nossos amigos. Pedro então se entristecera porque mesmo tendo dito certa vez que morreria por Cristo, depois de sua negação sabia que ainda não amava a Jesus como era amado por Ele.

Há outra corrente teológica que não crê na inferioridade de um tipo de amor em relação ao outro nem no uso intencional dos dois verbos, especialmente porque Jesus e Pedro teriam conversado não em grego, mas em aramaico, língua em que não haveria distinção no amor mencionado por Jesus e por Pedro. A tristeza deste seria, então, por lembrar-se, após as três perguntas de Cristo, que O negara três vezes.

Quando amamos reorganizamos ao redor da pessoa amada os planos para a nossa vida. E aquilo que será integrado ao novo amor depende do quanto este o permitirá, pois nem sempre os projetos de quem ama e de quem é amado coincidem. O sociólogo Franceso Alberoni elabora bem esse diálogo: “‘Você me ama?’ significa também ‘você aceita entrar no meu projeto?’(...) ‘Amo você’ significa ‘Mudo o meu projeto, venho ficar ao seu lado, aceito seu pedido, renuncio ao que queria, quero, junto com você, o que você quiser’. O ‘Você me ama?’ é, por isso, sempre um pedir alguma coisa que eu desejo, uma renúncia a alguma coisa que você deseja.”

Em qualquer relacionamento esta pergunta é sempre um choque. Às vezes as pessoas constroem suas relações sobre um equilíbrio delicado e protegido. Talvez necessitem de calma e tempo para organizar as coisas, mudar de trabalho, arrumar-se economicamente antes de afirmar seu amor tão plenamente. Pouco a pouco, se o amado souber esperar, ficarão livres e seguros. Mas Jesus pede a Pedro “um ato decisivo, um rompimento brusco com o passado, um mergulho profundo no novo, com o risco de perder tudo o que ama e que deseja organizar ao redor do novo centro de sua vida – seu amor [a Cristo]”. Se abandonar todas as coisas, também terá que se tornar um outro homem. Mas Jesus é enfático: “Apascenta minhas ovelhas”.

O que entristeceu a Pedro, nem eu nem todos os eruditos saberemos ao certo antes de perguntarmos ao próprio apóstolo futuramente. Mas e nós? Quando Cristo põe diante de nós uma prova que pergunta “tu me amas?”, o que sentimos? Pense em Pedro. E como ele, lance fora o medo (I João 4:18) para abraçar o projeto de Cristo em sua vida.

Demas e o amor

Este texto é, na realidade, uma continuação do anterior. Cortei para ficar mais fácil de ler, mas a temática é a mesma.

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Gosto daqueles personagens bíblicos que não costumam aparecer muito em sermões. Aqueles cujos nomes são praticamente o que consta a seu respeito na Bíblia, mas que estão num contexto que tem sempre muito a nos ensinar. Por isso gosto da história de Demas. Em II Timóteo 4:10, Paulo escreveu: "Porque Demas me desamparou, amando o presente século...". Isso torna a história de Demas - antes disso um cooperador de Paulo na evangelização - algo bem próximo da história de muitos cristãos contemporâneos.

É possível que Demas tivesse ouvido a advertência de Paulo: "Não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus." (Romanos 12:2). É possível que tenha lutado contra a sensação de que já não sentia prazer em ir à igreja, em participar dos eventos evangelísticos. Talvez tenha escondido a tristeza e até algumas lágrimas depois de voltar vazio de uma grande reunião cristã de onde todos os outros pareciam sair exultantes. Amar a Deus é uma experiência tão marcante que o deixar de amar a Deus só pode acontecer vagarosamente, por um processo contínuo de afastamento. Ninguém abandona a fé porque, um certo dia, decidiu que não queria mais amar a Deus. Mas porque decidiu isso ao longo de muitos dias, mesmo que não tenha elaborado claramente essa afirmativa, muitas vezes só com gestos sem palavras.
O sociólogo Francesco Alberoni, em seu livro "Enamoramento e Amor", considera a fé uma experiência de "apaixonar-se", mas como "paixão" já adquiriu uma conotação muito sexual e vulgar, utiliza o termo "estado nascente" para descrever a força de um enamoramento que é capaz de levar a vida a um plano superor em intensidade e qualidade, não mais direcionada a si mesmo mas a um Ser que lhe ocupa a alma completamente. "O ente amado se converte naquele que não pode ser senão ele - o absolutamente especial", afirma, "a experiência é de libertação, de plenitude de vida, de felicidade". E é por causa da natureza deste sentimento que ele não pode ser dividido e entra em conflito com outros interesses. Enquanto encarado como um local de refúgio, permancerá sendo "estado nascente". Mas quando quer ser domando, controlado, integrado a interesses divergentes, descartando para isso o que não convém [na fé], o enamoramento se extingue.

Alberoni diz também que para podermos separar-nos saímos à procura de motivos. "No comportamento do outro buscamos tudo aquilo que justifique nosso afastmento: sinais de que ele não nos ama de verdade, de que e não nos ama como o amamos, razões para crermos que não nos possa amar no futuro. O sentido de tudo isso é o medo de nos entregarmos." "E os filhos de Israel disseram-lhes: Quem dera tivéssemos morrido por mão do SENHOR na terra do Egito, quando estávamos sentados junto às panelas de carne, quando comíamos pão até fartar! Porque nos tendes trazido a este deserto, para matardes de fome a toda esta multidão." (Êxodo 16:3). Quando estamos muito satisfeitos com o nosso mundo não podemos nos enamorar de Deus. Quando amamos a Deus os interesses mesquinhos e egoístas não nos parecem tão importantes. Nem Demas nem nenhum de nós poderia conciliar o amor do dinheiro, do status, do Ter, da aparência, do ventre, com o amor de Deus, para o qual nada disso vale. “Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele” (1 João 2:15).
O amor do mundo exige que nos concentremos em nós mesmos, trabalhemos só por nós mesmos e gastemos a vida sem considerar o que podemos fazer pelo outro. Dá a comodidade de não exigir mudanças, enquanto o amor de Deus nos constrange a isso. Por isso que quem tem o amor do mundo tão pode entregar-se a Deus. Tem com Ele apenas a fantasia da saciedade: obter o máximo possível e depois renunciar para não ceder ao risco exsitencial de se colocar completamente nas mãos do outro. Não pode viver um amor apenas de lembrar como ele foi no passado, nem pode suportar a tensão do enamoramento pois quer sua vitalidade contida e a isso se segue o que Alberoni chama de "petrificação". Mas felizmente cremos ser esse um processo reversível, Deus anseia por isso: "“Darei a eles um coração não dividido e porei um novo espírito dentro deles; retirarei deles o coração de pedra e lhes darei um coração de carne.”. Ez. 11:19.
"Ter novas experiências juntos: essa é a chave do prolongamento do enamoramento ativo. As energias extraordinárias do estado nascente dão, nesse caso, aos dois enamorados uma força muito grande para enfrentarem o desconhecido e o diferente, para superarem juntos as dificuldades. (...) Viagem feita em conjunto, ombro a ombro, depois de duras provas, descoberta e confronto, contínua reinterpreetação do mundo, contínuo reexame do passado histórico. Para alguns pode ser luta, poesia; para outros, simplesmente a capacidade de se maravilharem continuamente consigo mesmos e com o mundo, procurando sem cessar, não o que dá segurança ou o que já é conhecido, mas o que é desafio, beleza, criação. (...) O estado nascente renasce." E a alegria desse amor é tanta que faz a nós, que renunciamos o amor do mundo, amarmos o mundo todo.

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"O enamoramento é o abrir-se a uma existência diferente sem qualquer garantia de que esta se realize. É um canto altíssimo sem a certeza de uma resposta. A grandeza do enamoramento é deseperadamente humana pois oferece momentos de felicidade e eternidade, cria um desejo ardente, mas não pode oferecer certezas. E quando vem a resposta do outro, do amado, aparece como algo imerecido, uma dádiva maravilhosa que nunca se pensaria em ter. Uma dádiva que vem toda do outro, do amado, por escolha sua. Os teólogos criaram uma expressão para indicar essa dádiva: graça." (Alberoni, Enamoramento e Amor, p. 23)

Ora vem, Senhor Jesus.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Geografia divina

É fato que quem mora nas metrópoles brasileiras vive querendo dar uma escapulida, num feriadão qualquer, para a cidadezinha tranquila mais próxima. Nem precisa ser linda e completamente tranquila: se tiver filas menores nos supermercados, trânsito fluindo e um único bom restaurante já é considerada um pequeno paraíso. Mas é quase impossível a quem realiza uma pequena fuga dessas não ouvir de alguém que mora na cidadezinha ideal: "Nossa, então você é de (...)?? Não sei como você consegue viver lá! Com toda aquela violência, aquele barulho, aquela loucura... eu não aguentaria." A primeira resposta que vem à boca - e que é devidamente vetada por um Superego educadinho - é: "Bem, eu também não sei como consigo, mas não tenho muitas alternativas. Se pudesse estaria morando aqui, mas mesmo aqui ainda precisaria fazer coisas como comer, me vestir e ir ao médico, e para isso precisaria de um emprego razoável - coisa não muito fácil de achar em cidadezinhas perfeitas."

A reposta traz mesmo uma pontinha de despeito. Mas aparentemente justifica (para nós mesmos) nossa falta de qualidade de vida. É bem verdade que nos aborrece o questionamento simplista dos mais afortunados. Certo primo meu que mora no Rio de Janeiro e passava as férias no interior do Rio Grande do Norte, teve que amargar o caminho inteiro de volta da praia o taxista querendo lhe convencer de que o Rio era um lugar perigoso e horrível e impossível de se viver, tentando neutralizar qualquer elogio à Cidade Maravilhosa e declarando sua pena profundíssima por meu primo morar lá. Coisa chata! Mas nossas justificativas também escondem uma verdade que nem sempre vemos claramente: também nos acostumamos à comodidade das grandes metrópoles. Além de empregos melhores temos restaurantes melhores (mesmo que a fila seja um dissabor só), temos melhores médicos, concertos e programações culturais, um comércio onde é fácil encontrar tudo que se quer, serviços e produtos especializados que proporcionam algum conforto para nossa vida atribulada e nos dão a ilusão de que "vivemos bem". Isto é, desenvolvemos bronquite asmática por causa da poluição mas a farmácia vem deixar o melhor remédio no domicílio sem taxas adicionais. E isso nos parece até mais cômodo que ter de andar um quarteirão da cidadezinha ideal para ir até a farmácia uma vez na vida.

Esta comodidade não é privilégio de quem usufrui dos "benefícios" de uma cidade grande. Basta os telejornais começarem a mostrar cenas de gente sofrendo em algum lugar de mundo para ouvirmos discursos - muitas vezes proferidos por nós mesmos - sobre como essa gente aguenta morar lá. Os cubanos? Aquilo é absurdo! Como pode gente esclarecida como os médicos, professores e músicos de lá viverem sob o tormento de uma ditadura que lhes priva desde comida até o acesso à literatura, que lhes proíbe desde a expressão livre da palavra até a divulgação de descobertas científicas que poderiam salvar gente do mundo todo? E os mulçumanos? Aquelas mulheres escravizadas e destinadas ao silêncio desumano, aqueles homens aterrorizados e presos a uma guerra que não acaba nunca? E o que dizer chineses (as olimpíadas inflamaram os dicursos humanitários), dos angolanos, sudaneses? Por que não mudam de lá os sertanejos famintos da caatinga, os catarinenses vulneráveis, os recifenses que todo ano veem casas vizinhas desabarem de cima do morro? Parece que todo mundo, no mundo inteiro, deveria mesmo é se mudar para Natal.

Tirando as determinantes sócio-econômicas que impedem as pessoas de saírem de seus locais de origem por causa simplesmente do dinheiro, há ainda outros vários fatores que mantém essas "incógnitas" geográficas. A religião, por exemplo. Vi uma entrevista com certa mulçumana de mãe brasileira que, mesmo vivendo sob o terror das bombas em Gaza, diz que prefere morrer jovem lá que velhinha no Brasil, pois se morrer lá crê que seu martírio lhe valerá grandes benefícios no mundo após a morte, o que não aconteceria se morresse aqui no Brasil. Embora a idéia pareça absurda a muitos de nós ocidentais faz parte do código moral que ela assimilou como correto através de sua religião, e o que pode ser visto como falta de amor à vida é justamente um profundo apego ao sentido mais amplo dela. A cultura também tem sua parte. Há pessoas que tem um senso de pertença muito forte quanto a terra em que nasceram, e preferem viver lá apesar de todos os problemas, pois sentem que o viver ali faz parte de sua própria identidade, e isso lhes é imprescindível. É o que acontece com alguns índios, por exemplo. Há ainda fatores emocionais e psicológicos: o convívio com a família, a pouca habilidade para lidar com mudanças. E muitos outros aspectos, mas como isto aqui não é uma tese sociológica, quero convidá-lo a pensar num fator especial: o espiritual.

Antes de pensarmos, falarmos e repassarmos e-mails falando sobre o "absurdo" que é para essas pessoas viverem onde estão, pensemos em nossa própria condição como cristãos. O quanto nós já nos acomodamos num mundo que por causa de sua decadência se tornou um lugar árido demais para qualquer filho de Deus viver? Embora a Bíblia nos aponte um mundo bem melhor, é comum a muitos de nós passarmos a vida pedindo a Deus que nos ajude a crescer e prosperar aqui. Pedimos saúde para trabalhar, e trabalho para ganhar dinheiro. Pedimos que nos abra as portas para oportunidades de subirmos na vida - nesta vida - mas quase nunca essa subida inclui algo mais alto que um edifício empresarial.

Não é errado pedir essas coisas, o próprio Cristo nos orientou a pedir o pão de cada dia na oração modelo, mas na mesma oração acrescentou: "Venha a nós o Teu Reino". Acontece que por vezes nos acomodamos ao pão terreno e ambicionamos apenas mais delícias da padaria. "Dá-me o pão, mas aquele pão doce com uma cereja em cima, e também o croissant, o bolo de chocolate e...". Será que, absurdamente, esquecemos de pedir também pelas coisas do Reino (e não falo do queijo)? Será que a idéia de um mundo perfeito foi ofuscada pelo comodismo de desfrutar os prazeres efêmeros e materiais deste mundo? Nas nossas orações o que pedimos tem mais a ver com este mundo ou com o vindouro? “Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma...?” (Mateus 16:26)

Se esquecermos de pedir - e viver - pela vinda do Reino de Deus, logo estaremos amando mais a este mundo que as coisas do Altíssimo. O Céu - falo não só da Nova Terra como da atmosfera celestial que já podemos vivenciar aqui - é para aqueles que o desejam, que o aguardam, que anseiam por ele e que querem levar todas as pessoas (amadas ou não) para lá. E não pelas coisas boas que ganharemos - isso é uma extensão do pensamento mesquinho que nos leva ao apego das coisas terrenas- , mas por causa da Pessoa de Cristo que é toda razão, essência e motivo para querermos esse céu. É por ele que, morar aqui, no Sudão ou em Papua Nova Guiné não faz grande sentido, nem tem tanta importância. É com Ele que queremos morar.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Lua Perfeita

Acabo de decidir que os textos não serão necessariamente semanais. Este é o prazo máximo, mas sempre que der vontade virei aqui. Do contrário acabo perdendo a essência do que queria escrever. Segue mais um, então.
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Percebo que em cada lugar por onde passo há algo na natureza que impressiona particularmente ali. Parece que cada cidade tem uma vocação distinta em seu conjunto de belezas, e isso é o bom de viajar muito: cavocar e conhecer essas particularidades, reconhecendo nelas a assinatura de uma Artista caprichoso, que fez questão de distribuir êxtases de beleza por toda a Sua criação.

Natal, por exemplo. Não há melhor lugar para ver o pôr-do-sol porque há ali uma claridade característica que eu não encontrei no céu de nenhuma outra cidade. No quesito brisa marítima também ganha disparado. Já o mar de Maceió é uma coisa estupenda, não há verde mais encantador que o das praias de lá. Em São Paulo o verde magnífico é o das plantas [que restaram], ele é diferente, mesmo considerando suas diferentes matizes, e não acho que tenha algo a ver com a poluição... nenhuma folhagem me mostrou um verde mais dramático que o de lá. E talvez tenha mesmo a ver com a poluição: entre tanto cimento e fumaça o verde deve querer gritar para sobressair.

Aqui em Recife há os céus de inverno, nos meses de julho a setembro, que são um espetáculo de cores. O sol e as nunves púmbleas se misturam criando cenários que a gente quer emoldurar. E ainda tem - descobri recentemente - as luas de janeiro. Não lembro de ter visto em outro lugar luas cheias como as daqui. Nem nas mais bucólicas terras potiguares. Este sábado vi a lua cheia mais brilhante que já vi na minha vida, sem dúvida alguma. Pensei que pudesse ser um embaçamento nas minhas lentes de contato mas meu marido confirmou: aquela lua estava um desespero de bonita. O brilho invadia o céu com uma força poética que fazia calar mesmo as invejosas luzes da cidade. Tudo aqui embaixo era tocado por aqueles braços prateados, e até meu filho ficou embasbacado a ponto apontá-la, fazendo o mesmo sinal de quando quer os biscoitos na prateleira, e me pedir "Uaaaaaa! Mi dê!" (tradução: "Lua! Me dá ela, mamãe!). Meu marido então disse: "É, realmente esta lua hoje está perfeita". E ninguém perdeu mais tempo com adjetivos.

O que fez a lua mais perfeita neste sábado? O céu sem nuvens de Recife? Sua distância em relação à Terra naquela noite? Sua posição em relação ao Sol que a fez refletir melhor a luz deste? O privilégio de estar olhando para ela junto a pessoas que amo? O fato é que essa lua linda e perfeita continuava lua em sua essência. E a perfeição abrangia mesmo sua face esburacada por crateras tão grandes e irregulares, mas tanto mais perfeitas quanto mais visíveis. Abrangia também a seca e fria poeira lunar de quem nem nos lembramos aqui, mas que cobre todo o satélite dando-lhe aquele ar desolado nos vídeos da NASA. Tão sem cor, a lua, tão silenciosa, tão pequena frente a outros vários astros mais vistosos. Mas perfeita aos nossos olhos e corações.

Nessas horas reconheço uma qualidade divina que carregamos conosco, a qualidade de reconhecer o valor das coisas em si, e não por padrões pré-estabelecidos, esta última uma típica atitude humana. Nos acostumamos a medir e sermos medidos segundo referências arbitrárias. Por que a mulher na capa da revista feminina é bonita? Ou por que sou tratado diferente se estou com roupas sociais? Porque ser alto é uma prerrogativa para ser atraente e ter um cargo administrativo na igreja me faz parecer mais santo? Muito do que somos e fazemos é determinado por essas tais referências que já nos deram prontas e acabadas, não ousamos contestar, assentimos e tentamos nos adaptar a elas.

Mas cada ser humano é uma paisagem para Deus, uma paisagem que traz em si algo de muito valioso, uma beleza característica que não pode ser encontrada em nenhum outro indívíduo. Não importa se sua face foi esburacada pela ingratidão, não importa se você vive e trabalha num lugar tão árido ao espírito como o terreno lunar. Deus é capaz de ver além da poeira que recobre sua alma, não o mede por sua altura porque te olha na altura dos olhos, não te mede também por bens ou cargos porque já te viu chorando. Sabe como você tem beleza porque conhece o seu sorriso. E basta que você reconheça um aceno dEle para que Ele veja você brilhar perfeito. É que, não os raios do sol, mas a sombra de uma cruz, ao incidir sobre nós, inspira em Deus amor e poesia. E Ele nos vê, mais uma vez, com olhos de Pai apaixonado por sua criação, de Menino* que viu algo tão lindo. Se fecharmos os olhos em oração, poderemos até vê-lO sorrir acenar uma vez mais: "Dá-me, filho meu, o teu coração..." (Prov. 26:23).

*Aos teologicamente puristas, meus perdões. Mas quando penso num ornitorrinco, por exemplo, só consigo visualisar Deus criando-o com ares de Menino.