sábado, 11 de setembro de 2004

Por outros olhos

Depois de mais de seis meses consegui colocar meu computador para funcionar, e passei algum tempo remexendo velhos arquivos para ter certeza que ainda estava tudo lá. Foi divertido me deparar com minha mania de querer registrar tudo, como se a vida tivesse que ficar escrita sob pena de não ter, de fato, existido. Encontrei, com delícia, vários escritos antigos, contos, cartas, poesias, coisas boas, emocionantes ou muito ruins, que me fizeram chorar de comoção ou riso. Considero meus textos como filhos (e há alguns que só saem a fórceps). Mas foram uns os olhos que os viram nascer, hoje são outros os mesmos olhos que os lêem.

As lembranças vieram em turbilhão: alguns destes textos nunca saíram do meu computador. Muitos ficaram incompletos, suspensos numa intenção que provavelmente eu nunca vou conseguir resgatar. Outros, mais ousados, freqüentaram concursos literários, e uns pouquinhos me deram a felicidade de ganhar dois livros de presente (eram os prêmios dos concursos), e um belo “certificado de honra ao mérito por conseguir a classificação entre os sessenta finalistas”. Nada que me mova a criar um novo movimento literário, mas o suficiente para eu mostrar aos meus netos enternecidos, que Deus há de querer bem generosos, a fim de se importarem com isso.

Todo esse reencontro comigo mesma me fez pensar que já tive muitos olhos, os quais tomei emprestado de muita gente especial que passou por meu caminho. Antes de todos, a minha mãe, que guardava com carinho os livros que eu escrevia e ilustrava lá pelos nove, dez anos. Mas os olhos dela eram ternos demais e se comoviam mesmo diante de títulos como “Flipinho, o peixinho”. Dada a benesse materna, eu me animei a começar a fazer poesias e mostrar para minhas professoras. Elas pareciam gostar também! Então lá pela quarta série eu me arrisquei a fazer algumas redações de cunho político-social que deixou em polvorosa a pacata Escola Vovó Libânia, e tia Roseane correu para mostra-las às outras tias, inclusive tia Graça, que colocou uma observação bem bonita e elogiosa no meu caderno. Um elogio de tia Graça, para mim, era toda a glória que qualquer escritor jamais poderia sonhar. E eu tomei os olhos de tia Graça para criar.

Um dia conheci Machado de Assis e tive meu encontro definitivo com a literatura. Mas que olhos assustadores! E à medida que eu procurava por mais autores, mais olhos assustadores me cercavam, todos muito grandes para caber em minhas órbitas oculares... por isso pedi emprestados olhos de amigos mais letrados, professores, até mesmo namorados, para quem dirigi boa parte de minha “produção”. Prestava bastante atenção na mágica que havia nos textos dos mestres, o que exatamente eles colocavam ali que me manipulava tão bem. Estudava embevecida causa e efeito, letra e sensação, tentava aplicar aquilo ao meu modo, e colhia o singelo resultado no semblante e na opinião de gente que, como eu, também gostava de ler ou escrever.

Ao longo do tempo essas pessoas foram mudando, e eu mesma mudei, me permitindo deixar-me um olho para analisar minhas crias, e tomar outro emprestado para garantir que não seria complacente demais comigo. Assim, por outros olhos, eu já tornei meus textos mais objetivos, mais impessoais, mais sentimentais, mais espirituais, mais humanos, mais sociais, dependendo sempre do olhar que eu escolhia como meu parâmetro. E não dava o texto por terminado enquanto não imaginasse como determinada pessoa (eu mesma, às vezes, por que não?) reagiria aqui e ali, e cortava, e emendava, e acrescentava, e o mais importante é que escrever continuou sendo um momento feliz.

Curioso, não? Mas algumas das coisas que mais gosto – música, escrita, pintura – aprendi por outros olhos. Maquiavel, certa vez, sentenciou: “O homem prudente deve seguir sempre as vias traçadas pelas grandes personagens e imitar aqueles que forem muito excelentes, para que, se o seu talento não lhe permitir igualá-los, consiga ao menos alguma semelhança”. E olhar por outros olhos nada mais é que se colocar no lugar de alguém e imitá-lo naquilo que você acha que ele tem de melhor.

Acredito que nossa amizade com Cristo exige muito dessa “técnica”, por assim dizer. Não se trata de anularmos nossa personalidade idealizando um ser abstrato, mas aprimorar nosso caráter segundo o que consideramos mais perfeito no exemplo concreto que está registrado em Sua Palavra e na memória do nosso relacionamento com Ele. Os meus olhos não conhecem de todo a bondade, a misericórdia, a paz, a sinceridade, o amor. Mas sei que pelos olhos de Cristo eu tenho o melhor parâmetro para trabalhar todos os meus atos, palavras e pensamentos, de modo a refletir “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor...” (Filipenses 4:8)

Perguntar-se “O que Jesus faria em meu lugar”, não é uma frase aplicável só às crianças da escola bíblica na igreja. Antes, ter a preocupação em olhar pelos olhos de Cristo serve “para que não mais sejamos meninos, inconstantes, levados ao redor por todo vento de doutrina, pela fraudulência dos homens, pela astúcia tendente à maquinação do erro, antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo” (Efésios 4:14 e 15). Se há algo que aprendi olhando o desenrolar da minha mania de escrever, é que somos felizes fazendo aquilo para o que nos sentimos particularmente chamados, dando nisso nosso melhor, e nos descobrindo únicos e especiais pelos olhos de quem sabe o que é especial. Desejo que todos os dias, encontremos a felicidade de andarmos na nossa soberana vocação, “não segundo as nossas obras, mas segundo o Seu próprio propósito e a graça que nos foi dada em Cristo Jesus...” (II Timóteo 1:9)

Bom sábado!

Luciana

terça-feira, 7 de setembro de 2004

Pelo mundo

“- Me diga uma coisa. Você vai mesmo salvar a humanidade?
- É curioso como eu penso agora nestas coisas. Antigamente só pensava em mim mesmo. Vivia como cego. Foi Olívia quem me fez enxergar claro. Ela me fez ver que a felicidade não é sucesso, o conforto. Uma simples frase me deixou pensando: `Considerai os lírios do campo. Eles não fiam nem tecem e no entanto nem Salomão em toda a sua glória se cobriu como um deles.´”


O diálogo acima ocorre entre Seixas e Eugênio, dois personagens do livro “Olhai os Lírios do Campo”, de Érico Veríssimo. O primeiro contato que travei com este livro foi quando eu tinha por volta de onze anos, e folheava um livro antigo de Educação, Moral e Cívica, disciplina modorrenta que atormentou alunos da década de setenta e oitenta. O que eu gostava no livro eram uns quadrinhos enfeitados com flores e folhas, onde o autor colocava frases de efeitos, pequenas histórias bonitinhas, fábulas e anedotas de efeito moral. Algo correspondente aos modernos sites de mensagens enlatadas, aquelas cheias de figuras bonitinhas e efeitos audiovisuais que até nos fazem perdoar a mania deles atribuírem textos sofríveis a grandes poetas. Pois bem, eu recortava impiedosamente os quadrinhos enfeitados e colava-os em meu diário, escrevendo textos melancólicos ao seu lado. Por essa época eu achava que para escrever bem se tinha que ser melancólico. Por isso fiquei atônita quando li um quadrinho do citado livro. Ele não trazia nenhuma historinha ou frase, mas uma citação que dizia:

“Estive pensando muito na fúria cega com que os homens se atiram à caça do dinheiro. É essa a causa principal dos dramas, das injustiças, da incompreensão da nossa época. Eles esquecem o que têm de mais humano e sacrificam o que a vida lhes oferece de melhor: as relações de criatura para criatura.”

E continuava, me prendendo a cada palavra, até terminar com a referência enigmática: Olhai os Lírios do Campo – Érico Veríssimo. O texto me impressionou tanto que não tive coragem de cortá-lo. Intui pela primeira vez que isso seria uma forma de profanação, e sem saber exatamente o que sentia, guardei-o na mente por muito tempo, admirando-o e fugindo dele. Tanto que sempre que tinha oportunidade de ler o livro, adiava, e foi assim até algumas semanas atrás, quando amanheci pensando no Sermão do Monte, exatamente no versículo citado acima que dá nome ao livro. Escrevi a um amigo e não resisti: enviei-lhe o versículo em latim. Depois, escolhendo aleatoriamente algo para ler no fim de semana, tomei o livro sem perceber a associação e levei-o junto com um Fernando Sabino e uma Lygia Fagundes Telles. Li-o por último, em desespero: como pude adiar tanto tempo aquela leitura? O impacto que ele causou em mim foi parecido com o causado por Crime e Castigo, de Dostoiévsky, sendo que o de Veríssimo mostra mais que a transição ocorrida no espírito de um homem perturbado, e percorre também o desenrolar de sua nova vida, com um realismo tocante. Nenhuma promessa, nenhum cenário brusco: apenas uma vida e suas lutas em busca de paz.

Não vou além porque não quero fazer uma sinopse dele, nem ficar divagando ao seu redor, que serei tentada a fazer dezenas de citações, terminando por cansar absolutamente que já teve a paciência de ler esta exaustiva introdução. Não quero cometer o mesmo erro do livro de Educação, Moral e Cívica, e usar uma literatura tal para forjar lições e conselhos. Mas preciso – é-me visceral – dizer que Olhai os Lírios do Campo me pôs a olhar demoradamente o mundo. E amá-lo um pouco mais.

Pois é, amá-lo não obstante o mundo esteja entre os chavões preferidos das religiões cristãs. O mundo é sempre citado como um lugar perverso, cheio de enganos, de maldade, o lugar dominado pelo Príncipe do Mal. Um lugar de onde os cristãos precisam sair e se manter bem longe a fim de alcançarem a salvação. “Você está no mundo, mas não pertence a ele”, nos advertem, e não sei porque só se nos grava a segunda parte da frase.

O que Eugênio e Olívia me fizeram pensar enquanto eu lia “Olhais os Lírios do Campo”, é que deveríamos meditar mais sobre o fato de estarmos no mundo. E que existem muitos outros nessa condição. O mundo é um lugar ruim? É o que nos dizem todos os jornais. Um mundo escuro, cheio de problemas. Mas é neste mundinho ruim que se opera nossas mais preciosas oportunidades de salvação. Salvar o mundo? Não, esse discurso nós já conhecemos bem e creio ser o caminho mais difícil sem que antes se realize o milagre de sermos salvos... pelo mundo. Pode parecer estranho dizer isso, quando se foi tanto educado a começar pelo processo inverso. Mas basta aprofundar a visão do que foi o ministério de Cristo para vermos dissipada qualquer dúvida. O mundo é um dos pregadores mais eloqüentes que pode haver, um dos instrumentos mais eficazes para a salvação em Cristo Jesus.

A igreja não é apenas um lugar onde devemos nos abrigar dos problemas, fugir da escuridão, ficarmos enclausurados pensando “claro que Deus quer seus filhos seguros aqui, perto dEle”. Esse pensamento é agradável porque cômodo. Mas a verdade é que esse Deus, quando se fez Homem, levou tudo aquilo que ele conheceu junto do Pai para o mundo, mesmo em seus lugares mais obscuros, e é justo aí que se opera a salvação: no lugar onde mais se carece dela, onde mais se precisa de demonstrações concretas de amor.

Pode ser que ao me encontrar no meio do mundo, enfrentando-o ao invés de fugir dele, eu descubra que sou eu, muito mais do que o mundo, que necessita de salvação. Foi isso que aconteceu com Eugênio, por exemplo. Só em contato direto com um mundo real, com as pessoas reais desse mundo, seus problemas e necessidades, é que ele pôde alcançar a paz, conhecer Deus e sentir a necessidade de um mundo melhor, superior. No conforto entorpecente dos nossos lares, igrejas e demais instituições, nesse conforto que parece ser mesmo o alvo insano de muitas vidas, os nossos sentidos tendem a se embotar e desligar do Deus verdadeiro, do Deus que nos ensinou que não somos como o mundo, mas podemos amá-lo profundamente, e transforma-lo, e sermos transformados através ele, à medida que nos aproximamos mais do caráter de Jesus.

O mundo é um lugar perigoso apenas para aqueles cristãos incapazes de viver em coerência com aquilo que pregam. Não conheceríamos o poder da luz se não a levássemos à escuridão, não entregaríamos o nosso coração a Deus se não nos deparássemos com corações endurecidos, não teríamos esperança se não percebêssemos a descrença. Cristo ainda passeia por entre a multidão de famintos que segue errante fora das paredes da nossa igreja. E digo-lhes com sinceridade: se Cristo deu sua vida para salvar o mundo, eu quero estar no mundo quando ele voltar. Quero que me encontre fazendo aquilo para o que Ele me chamou: “assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai, que está nos céus.” (Mateus 5:16). Acho que só vou saber mesmo o que significa a tão sonhada nova Terra, se eu aprender a viver como cristã nesta Terra aqui.

No mundo vamos encontrar muitos erros, e muita gente dizendo que errar é humano, muita gente dizendo muita coisa – como eu. Mas temos a Bíblia, maior fonte de força e inspiração, nos fazendo um convite a sermos semelhante ao Verbo, e agirmos. “Porque”, como dizia Olívia, “só valem as experiências que fazemos com a nossa própria carne. Pode ser que tudo isso seja apenas um grande sonho. Mas sonhar também é humano.”

Uma semana iluminada,

Luciana

sexta-feira, 5 de dezembro de 2003

Para um cartao de natal

Ontem à noite resolvi dar uma boa olhada no céu antes de dormir. Contemplar cenários grandiosos como o céu ou o mar, me tranqüiliza o espírito porque lhe dão uma noção mais acertada da dimensão dele, e conseqüentemente, dos problemas que o afligem, os quais vão minguando... minguando... até misturar-se num ponto do infinito. Diante da beleza grandiosa do céu, é impossível enxergar as aflições com o mesmo assombro. E era essa certeza que eu queria apreender no meu coração para aceitar que já é findo o ano.

Tentei passar de largo as lojas enfeitadas com luzes, papais noéis (cada vez mais moderninhos, dançantes e em trajes esquisitos), penduricalhos multicoloridos. Tentei não prestar atenção nas propagandas apelando para o décimo terceiro salário. Mas ontem recebi um cartão de natal, e o que era intimamente ignorado ficou patente: é findo o ano! E agora me ataca a velha frustração, repetida antes de todos os natais, de que o ano vai embora sem que eu tenha conseguido realizar tudo que queria. O tempo passou mais rapidamente que no ano passado (e nesse, mais rápido que no anterior), de modo que boa parte dos meus planos continuaram presas ao mundo das idéias... e será que eu fiz tudo que deveria ter feito? Será que dei tudo de mim mesmo? Será que não poderia, nesse breve intervalo que nos separa do ano novo, correr atrás daquilo que protelei por tantos meses? Enche-me então uma repentina coragem, mas logo desvanece: hora de ir trabalhar...

Melancolia de quem queria ter certeza de que viveu do jeito certo. E olha que foi apenas o primeiro cartão de natal. Eu mesma tomarei tempo para fazer alguns, que ainda é um dos meus prazeres preferidos, mesmo que a modernidade o tenha incluído em sua ampla lista dos costumes obsoletos (portanto faço cartões como quem ama: sem esperar resposta). E saltando a praticidade dos computadores, dos cartões pré-pagos, dos telefonemas cordiais, eu gosto de fazer – ao menos para alguns, e os outros ficarão par ao próximo ano – cartões personalizados, com tesoura, cola, fitas, papéis e mensagens escolhidos por mim. Afinal são as mensagens a parte que mais toca ou mais perturba, o que não pode é uma mensagem natalina causar indiferença. Há que se atentar bem no que ela diz e para quem diz. Portanto pense duas vezes antes de escrever a velha frase: “que neste no ano que se inicia, todos os seus sonhos se realizem”, que tal desejo pode ser o que de pior podemos desejar a alguém querido.

Nós temos uma mania feia de enxergar a vida de forma muito pontual: deu certo, não deu certo e ponto final. Mas quando parece que um sonho não deu certo, pode ser que esteja se iniciando o começo de um sonho mais perfeito, mais acertado, com maiores chances de nos conduzir a um bom lugar, e que no entanto, nós ainda não sonhamos, e só iremos reconhecê-lo (que se reconheça, ora pois!) muito adiante, quando o futuro nos colocar num patamar privilegiado para ver todas as coisas passadas com seu fim alcançado. E então compreenderemos que o ser humano precisa aprender a sonhar, não com os olhos fixos no presente e suas dádivas imediatas, mas perceber nos sonhos algo de atemporal, que por vezes escapará à nossa posse, à nossa auto-suficiência, ao nosso entendimento míope e limitado, que teima em se apegar ao agora, ao aqui e em caso contrário, ao lamentar ignorante.

É possível que eu não consiga, embora quisesse muito, fazer um cartão de natal para cada pessoa que receberá este texto. Além de anacrônica, eu tenho pouca prática com as artes manuais... mas desde já deixo com todos a minha mensagem preferida, que a todos serve em qualquer ocasião: no ano que há de se iniciar em breve, desejo que todos os sonhos de Deus para você se realizem. Até lá desejo fé para chegar ao fim do ano sem fardos de frustrações ou lamentos, sem a sensação pesarosa de que poderia ter feito ou deixado de fazer. “Porque agora vemos como em espelho, obscuramente; mas [quando vier o que é perfeito] veremos face a face. Agora, conheço em parte; mas [quando vier o que é perfeito] conhecerei como também sou conhecido” (I Cor. 13:12). Desejo, sobretudo, que aprendamos a olhar a vida como quem olha o céu ou o mar: sem assombro, sem uma visão pontual, com uma noção mais acertada das nossas perspectivas.

Um sábado iluminado,

Luciana Dantas Teixeira

domingo, 30 de novembro de 2003

Aos amigos dos noivos

Ele pensou em tudo, pois haveria de ser algo bem romântico. E não bastava ser romântico (como era difícil namorar alguém especial!), tinha que ser o romantismo certo, a expressão que tocasse o coração dela com singeleza mas profundidade. Providenciadas as alianças ele arquitetou o melhor momento de fazer o pedido. Caminhou de um lado para outro na casa e acabou parando na cozinha. Ele sabia cozinhar, e fazê-lo para ela era sempre um prazer. Pensou num cardápio e comprou pratos novos, com tulipinhas desenhadas na borda porque são as flores preferidas dela. O fundo musical também já estava planejado. Restavam as flores e no meio delas, aquele sorriso que o fazia suspirar.

Tudo pronto, preparava-se para ir à floricultura quando recebeu a ligação dela: “Não há passagens para hoje... então só vou poder ir amanhã cedo, tudo bem?”. Ele disse “tudo bem” mas o chão fugiu sob seus pés. É claro que não estava tudo bem. Ele entendia a situação mas custou a aceitá-la. Voltou para casa, olhou os pratos...sentiu mais fortemente a frustração de não tê-la ali (e sempre se surpreendia ao constatar que essa sensação podia ser mais forte).

Há exatos setes meses eles deram seu primeiro beijo. Encontraram-se quase acidentalmente: ele trocara o carro e de última hora resolveu viajar até Natal. Lá chegando foi ver uns amigos, que não via há algum tempo. Aquelas decisões que se tomam sem planejar, sem pensar muito. E ela estava lá num vestidinho preto, o olhar meio triste mesmo embaixo daquele sorriso (ahhh...), como que carregando uma dor secreta. Trocaram umas poucas palavras e ele se foi. Os amigos porém, que conheciam bem a ambos, insistiram que eles combinavam direitinho, que dariam um par perfeito. Mesmos gostos, valores, mesma forma de encarar a vida, mesmo padrão na busca da companhia ideal. A partir daí os amigos tiveram uma importância fundamental: como conselheiros, secretários (e-mails, telefones), relatores da vida alheia (e tinham que repetir mil vezes com todos os detalhes possíveis e inimagináveis as características um do outro), incentivadores (como é dura a timidez!) e torcedores exaltados (com mil coisas afins que não caberiam em dez mil parênteses). De tanto investirem propaganda, empenho e paciência, acabaram por testemunhar o dia em que, finalmente, eles começaram a namorar. E tudo que ele queria – se aquele ônibus importuno tivesse deixado - era dizer-lhes que não eram mais amigos de um casal de namorados; eram amigos dos noivos!

Por certo eles se sentiriam felizes e privilegiados. Talvez até dissessem como João Batista: “o amigo do noivo, que está presente e o ouve, alegra-se muito com a voz do noivo. Assim esta alegria já se cumpriu em mim.” (João 3:29). Interessante perceber que a figura do amigo do noivo já existia há muito tempo, porém num contexto mais específico. À época de Jesus, a maior missão da vida de um pai hebreu era casar seu filho. Para tanto, ele escolhia o servo de maior confiança de sua casa para essa missão: encontrar uma noiva ideal para o herdeiro de todos os bens da família, transformando-se, portanto, em seu depositário. O servo encarregado dessa delicada missão era chamado “o amigo do noivo”, e a partir de então deixava todos os seus afazeres ordinários, domésticos ou rurais, para dedicar-se tão somente a sua missão: achar uma jovem adequada, “apaixoná-la” por alguém que na maioria das vezes ela nunca tinha visto em sua vida, e obter seu consentimento e o da sua família para levá-la até a casa ou o país onde morava o filho do seu senhor.

No texto do evangelho, flagramos João Batista num momento de crise de popularidade. Pouco tempo antes, pessoas dos lugares mais distantes, dos mais altos cargos políoticos ou religiosos, do mais rico ao mais pobre procuravam-no para ouvir sua pregação e serem batizados por ele. Até que um dia apareceu Jesus e “roubou o foco da câmera”, transformando-se na principal figura do cenário religioso de Israel. Os seguidores de João, chateados com aquele repentino fracasso, foram até ele dizendo que Jesus, aquele a quem João havia batizado (e frisaram bem essa parte para deixar subentendido que Jesus devia submissão à João Batista), estava atraindo a atenção de todos os seguidores que antes “pertenciam” a João, e batizando-os, sendo que isso não era justo, pois aos seus olhos, João era o Mestre. Mas João respondeu usando a figura de linguagem que todos à época entederam muito bem: “Quem tem a noiva é o noivo, eu sou simplesmente o amigo do noivo, e minha alegria é cumprir minha missão”. Com isso João queria dizer que, justamente naquele momento de aparente fracasso, é que ele estava mais feliz, pois tinha conseguido conduzir a noiva, Israel, ao noivo, Cristo. Portanto chegado era o tempo em que o amigo do noivo diminuiria, e Cristo apareceria cada vez mais.

Um dos amigos do noivo mais famosos e importantes da história de Israel, tem sua missão relatada em Gênesis 24. A forma como Eliezer conduziu Rebeca a Isaque tem muito a nos ensinar; cada pequeno detalhe aponta para uma missão que nós mesmos temos, ao passo em que nos colocamos como amigos de Jesus. Reconhecendo a Cristo como o noivo e a humanidade como sua amada pretendida, entendemos que ele nos confiou esta missão porque somos considerados por Ele servos de sua maior confiança e competência. E se olharmos para o modo como Eliezer se portou, notaremos que ele saiu da casa de Abraão com tudo de melhor que havia ali – ouro, prata,. Marfim, seda, alabastro – mas não confiando só na riqueza que carregava, pediu ajuda a Deus. A Bíblia diz que estando ainda em oração, Deus lhe respondeu enviando Rebeca cumprindo o sinal que Eliezer havia pedido. Portanto observemos que ao falar de Jesus para as pessoas, devemos mostrar o que de melhor conhecemos em sua casa. Levar para o mundo paz, alegria, fé, coragem, esperança, amor, todo esse rico tesouro que está à disposição para impressionar a noiva, e quando as pessoas disserem: “quanta coisa boa você transpira!”, que nós possamos arrematar: “você não viu nada: na casa do meu Senhor, que é a minha fonte, há muito mais! E Ele próprio é a maior riqueza, que nenhuma expressão humana é capaz de descrever”. Depois lembremos que trabalhamos para o Senhor e com o Senhor: a Sua ajuda é imprescindível a cada passo. Aprendamos também com a história de Eliezer, que esse amigo do noivo elaborou um rito pausado, sem pressa, sem fórmulas prontas ou palavras mágicas. Eliezer estudou com carinho o caminho para chegar ao coração de Rebeca, e uma vez tendo-o encontrado, foi tão feliz que ela não pensou duas vezes em deixar a família, a pátria e tudo o mais para ir ao encontro da felicidade. Assim como aconteceu com Rebeca e Isaque, há um final feliz garantido para o noivo Jesus e sua noiva, a humanidade. Basta usar o que há de melhor em nós para dizer isso às pessoas, e elas naturalmente se apaixonarão por Cristo, sem temor de deixar pra trás as coisas pequenas que as prendem a este mundo.

Mas ainda há uma história para retomar! Como terminou a historio do noivo cheio de expectativa que mencionei no primeiro parágrafo? Não terminou. Se a vontade e bênção divinas permitirem, não haverá fim para essa história. Necessário apenas dizer que dois dias depois eles foram jantar num restaurante japonês e lá ele descobriu duas coisas muito significativas: a primeira é que ela detestou sushi; a segunda, que eles ficam muito bem de aliança.

Uma semana iluminada!

Luciana Dantas Teixeira

domingo, 16 de novembro de 2003

Porque ele disse que vai ficar tudo bem

Lucas pôs em mim aqueles olhinhos ternos e segredou-me:

- Tô com medo...

Eu me inclinei para ele, segurei suas mãos pequeninas e disse que eu entendia que ele estivesse com medo, mas que ele agüentasse firme pois eu estava ali e não ia deixar ninguém lhe fazer mal. Ele sorriu e aconchegou-se junto a mim. Quando eu pensei que estava tudo bem ele tornou a me encarar:

- E você, tem medo?

- Eu tenho. Um monte deles: tenho medo de escuro, de lugares pequenos fechados, de lugares grandes cheios de gente, tenho medo de bonecas de porcelana...

-Ha ha!

- É! Quando eu era do seu tamanho – eu já fui do seu tamanzinho – eu achava que as bonecas de porcelana iriam me pegar quando eu dormisse e dar nós nos meus cabelos.

- Que medo bobo!

- Ah, quase todo medo é bobo para quem não sente aquele medo. Por exemplo, você gosta de galinhas, né? Eu tenho medo de galinhas. Minha irmã mais nova corria com a cabeça de uma galinha morta atrás de mim e eu quase fazia xixi de tanto medo. Mas você deve achar isso muito bobo! Tem outros medos que não são tão bobos. Como o seu agora. Fazer uma cirurgia não é um medo bobo, é mede de gente grande!

- É? Falou estufando o peito.

- É! Mas como eu te disse, estou aqui e não vou deixar que te façam nenhum mal.

- E você não está com medo?

- Hmm... é.... bem, Lucas, eu também estou.

- Então como sabe que não vão me fazer nenhum mal?

- É que seu pai está ali, está vendo? E ele me disse que te ama muito, e me ama muito, e não vai deixar que ninguém faça mal pra nós dois. Porque se fizerem mal pra você, estarão fazendo mal pra mim também.

- E o papai não está com medo?

-...

- Está?

- Está, Luquinhas.

- E como ele sabe que não vão fazer mal pra mim e para você?

- É que... Você viu quando o seu papai estava de olhos fechados? Ele estava orando para o Papai do Céu, dizendo a ele que tem muito medo de ver seu filhinho numa operação delicada, que não quer que nada dê errado com você, e Deus garantiu que vai ficar tudo bem, que ele não precisa ter medo, porque Deus ama muito o papai, você e eu, e não vai deixar que nada aconteça para o nosso mal, pois seria como se fizessem mal para Ele.

- E Deus...

- Não, Lucas, Deus não sente medo.

- Eu acho que Ele sente sim! Acho que Deus tem medo que a gente tenha medo.

- É mesmo, né?

- É “óbivo”! Se o papai ficar com medo, você também vai ficar com medo e eu também vou ficar com medo, daí eu não vou fazer a cirurgia e Deus não vai poder curar meu olhinho doente, né? E Ele tem medo de que a gente não deixe Ele me curar...

- (nó na garganta) – é...

- Mas... e quando Deus fica com medo quem é que diz para Ele que vai ficar tudo bem?

- Ora, é você, Luquinhas! E não acabou de dizer? Quando você acredita que não precisa mais sentir medo, porque tem muita gente que te ama protegendo e cuidando de você, aí Deus não fica mais com medo e pode fazer o trabalho dele sossegado porque Ele sabe que a gente acredita que vai ficar tudo bem, então não vamos atrapalhá-lO. Vou contar um segredo. Eu e o papai não queremos que você se machuque, não queremos que nada de mal lhe aconteça, mas só temos uma vaga idéia do que é realmente bom ou ruim para você. O papai por exemplo não gosta da idéia do médico cortar seu olhinho, mas o médico vai fazer isso apenas para te fazer um bem maior, e você ficar curado. Se o papai pudesse não te largaria nunca, porque ele acha que bom pra você é você ficar sempre perto dele, ele acha que sabe tudo sobre te proteger. E eu então? Você acha que uma pessoa que tem medo de galinha sabe o que é bom para Luquinhas? Mas a gente não sabe, só pode acreditar para deixar Deus fazer o trabalho dEle em você. Se Ele te trouxe até aqui para você ter o que precisa para ser feliz, eu e o papai vamos ter que deixar você ir e sem medo, pra que dÊ tudo certo como a gente quer.

Os médicos vieram, e começaram a levar Lucas para fora da sala numa maca. Seu pai ainda o segurou um instante (como assusta o desconhecido!), mas Lucas sorriu para o pai e disse:

- Papai, deixa eu ir! Pode acreditar em Deus que já falei para Ele que vai ficar tudo bem...

Uma semana iluminada, amigos!

Luciana Dantas Teixeira

ps.: Dedico este texto a Anderson. Meu amado amigo, siga tranqüilo. Nada de mal vai acontecer com você. E a essa altura você já sabe porquê...

terça-feira, 11 de novembro de 2003

Tratamento natural

Meu frágil limiar para a dor me fez ser, durante muito tempo, uma entusiasta assumida da praticidade alopática. Qualquer dor, febre, cólica ou machucado, eu corria para um remédio rápido, local, eficiente e se possível sem gosto ruim nem ardência. “Ora”, eu raciocinava, “se Deus nos permitiu ter a ciência de ir direto ao ponto com uma aspirina, nada como agradecer-Lhe fazendo uso da dádiva.” E que parto humanizado que nada! Desde que, aos doze anos, eu compreendi exatamente como os bebês vinham ao mundo, decidi: “quero um parto com drogas, muitas drogas, dopping absoluto”.

Mas tive a chance de convier algum tempo com um casal muito amável que me fez ver o processo doença/cura por outra ótica. Enquanto as estadas na casa deles se resumiam a degustar deliciosas refeições vegetarianas, estava tudo às mil maravilhas. Até um dia em que, logo após o almoço, me atacou uma das minhas insuportáveis enxaquecas. “Como assim não tem aspirina?”, eu perguntei incrédula à senhora sorridente. E ela me explicou mais uma vez que não tinha, que eles não faziam uso de nenhum tipo de tratamento alopático, não gastavam um só centavo na farmácia. Na minha bolsa, dezenas de cartelas vazias de anador aumentavam meu desespero. Ela, percebendo-o, recomendou que eu tomasse um banho frio, depois fizesse um escalda-pés, e por fim me faria uma massagem nas têmporas. Fiquei ainda uns minutos olhando boquiaberta para aquela gente que, em pleno século XXI, não possuía uma aspirinazinha salvadora em casa. Como eles conseguiam sobreviver? “E quando está no trabalho, oq eu a senhora faz? Pede licença pra ir em casa tomar banho e fazer escalda-pés?”. Ela respondeu, mais sorridente, que eles não tinha dor de cabeça. “Ah, tá”, eu murmurei ainda boquiaberta, me dirigindo para o banho.
Já com os pés numa bacia de água quente, ela massageando minhas têmporas, me ocorreu uma vaga lembrança que foi ficando mais e mais viva na medida em que eu me concentrava nela. Lembrei que quando eu tinha por volta de sete anos, já tinha crises fortíssimas de enxaqueca que não diminuíam com nenhum tipo de analgésico. Eram tão violentas que eu gritava, chorava desesperada e por fim quedava-me semiconsciente. Mas havia um tratamento infalível: era quando minha mãe ou meu pai deitava minha cabeça em seu colo, colocava as mãos em minha testa, e enquanto oravam ou cantavam alguma prece, acariciavam-na ternamente. Então eu dormia tranqüila, e ao acordar já não sentia nada.

Como quando ela parou de massagear minhas têmporas. Eu estava bem. E refletindo sobre o episódio apreendi algumas coisas do tratamento natural, que listo abaixo sem intenção terapêutica, mas – acredite – com um interessante fundo teológico:

1 – Somos todo, devemos ser tratados como todo – “De maneira que, se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele.”(I Cor 12:26). A alopatia é objetiva, vai direto ao ponto se concentra lá, crendo que tratando o mal no local em que ele se manifesta, resolverá o problema. O tratamento natural considera o universo. Não vê uma cabeça com vasos dilatados e doendo, mas uma criança que chora com dor, medo e desespero. Vai tratar da segunda. Acalmá-la, acariciá-la, falar ao seu corpo e espírito por entendê-la completa. Não somos pedacinhos. Desde o mito das almas gêmeas de Aristófanes, muitos insistem em acreditar que são metade, parte quebrada que dói. Mas somos como Deus nos vê: um todo (embora nem sempre bem concatenado). Por isso Ele não acabou com o mal pontualmente quando esse se manifestou. Bastaria uma palavra e o lugar onde o mal primeiro apareceu seria fulminado. Mas isso traria efeitos colaterais profundos para a história da humanidade atingida pela chaga, e o homem jamais teria certeza da justiça de Deus, tal como, no início, não tinha certeza da natureza do mal. Por isso Ele foi além para resolver o problema no todo, na humanidade, mesmo que essa nem sempre O entenda e às vezes O culpe pelo mal que Ele está derrotando (só os olhos da fé podem ver vitória iminente entre tantas feridas). Enquanto isso, no todo de cada homem, nas histórias que formam a História, Deus vai prescrevendo a cura, manifestando Seu amor de forma ao mesmo tempo pessoal e universal.

2 – Os semelhantes foram feitos para os semelhantes – o lema da homeopatia, um dos tratamentos naturais mais difundidos, é “os semelhantes são curados pelos semelhantes”. A alopatia introduz elementos contrários ao mal, com o fim de forçar o órgão a encontrar sua solução. O tratamento natural emprega elementos comuns ao meio em que o homem vive para envolvê-lo a partir daquilo que seu organismo conhece, mas sente falta. Tal como Deus que, para resolver o problema da humanidade, desceu até ela com tudo em comum. “Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si” (Isaías 53:4). Resolver as coisas lá de cima, objetivamente, como Deus, seria fácil, rápido mas impessoal. Então ele veio aqui, assemelhar-se. E, inocente, sofrer num corpo frágil as dores e tentações da humanidade inteira... foi difícil. Mas necessário, tanto quanto a cura para nós.

3 – Os semelhantes se unem - Um médico alopata, quando vai tratar do doente de estômago, olha o estômago. Examina o órgão por dentro, por fora, dos lados e dá seu parecer. Médico e paciente continuam a uma distância segura. No tratamento natural, o olhar examina inteiro e comedido, sem pressa e com curiosidade. Há contato (nosso século tem medo disso!) para que haja unidade, e na justa inteireza, a cura. As mãos espalham o ungüento, tocam a pele, os pés tocam a água, os sentidos tocam cheiros, gostos verdadeiros, até o som da voz materna, de uma oração ou música (como eu que hoje administro Mozart para minhas enxaquecas). Os semelhantes se abraçam, sem medo. Tocam-se; no toque se reconhecem. E ao se conhecerem de novo se unem. Tal como eu, que depois de conhecer o amor de Cristo revelado em Seu sacrifício e na intercessão cotidiana do seu sangue purificador, não posso seguir em outra direção que não seja Seus braços, Seu olhar, Sua resposta às minhas dores.

Não pretendo defender a superioridade absoluta do tratamento natural sobre o alopático. Nem que eu tivesse condições técnicas para isso, poderia deixar de admitir que esse último também é importante para solucionar nossos males. Mas ainda que tenha de amadurecer a idéia do parto humanizado, sigo divagando uma vez mais, que este meu frágil limiar para a dor me conduz incontinenti a pensar sobre como Deus revela de tantas formas Seus mistérios de salvação.

Uma semana iluminada,
Luciana Dantas Teixeira

segunda-feira, 3 de novembro de 2003

Uma dor

Ontem, quando entrei no ônibus de Recife para Natal, imaginava que aquela seria apenas mais uma viagem cansativa e melancólica de mais de quatro horas para longe de alguém que amo. Comprei a última passagem que sobrara, bem no fim do corredor direito, e a encontrei ao lado de um homem simpático que se ofereceu para guardar minha bolsa no compartimento de cima. Agradeci, e como sempre faço a fim de evitar a possibilidade da viagem ser ainda pior, abri logo um livro e fiz cara de leitora compenetrada para não dar margem à grandes diálogos. Chatice minha, provavelmente, mas conversar em ônibus me dá enjôo, especialmente considerando o tipo de conversa que quase sempre se inicia. Mas se tenho percebido algo nas minha ponte rodoviária Natal-Recife, é que os ônibus deixam as pessoas mais sensíveis e abertas. O fato de ter ao lado um interlocutor que possivelmente não se verá nunca mais desarma as travas da língua. E assim, depois que a luz apagou e eu acordei sobressaltada de um pequeno cochilo, o homem ao lado perguntou sobre as partituras que eu estava lendo e começamos a conversar.

Ao contrário do que eu imaginava, a conversa fluiu agradavelmente. Falamos de música, índios, aviões (ele é piloto da aeronáutica), peixes, e lá pelas tantas tentávamos identificar constelações pela janela do ônibus. Foi quando falei de Deus (na se pode olhar as estrelas sem pensar nEle). E Romeno mudou a entonação da voz. Falou que há algum tempo ele era um religioso dedicado, um cristão convicto, que não perdia um reunião na igreja, onde ia com sua esposa e duas filhas. Mas um dia, tendo saído da igreja com sua família em direção a casa, um caminhão desgovernado chocou-se contra seu carro, esmagando todo o lado esquerdo de sua mulher, passando por cima de sua filha mais nova e arrancando as duas pernas de sua filha mais velha.

- Se eu não tivesse ido à igreja naquela noite, isso não teria acontecido.

E Romeno começou a chorar. Poucas lágrimas já me afligiram tanto quanto as daquele homem, um militar treinado para ser forte e resistir a situações limite, mas que não resistia à própria dor, que carregava há doze anos com uma mágoa profunda. Seu semblante e conversa denunciavam um homem bom, honesto, sensível. Mas a ferida sangrava lá dentro, e agora ele não fazia força para esconder. Em meio às lágrimas ele me falou que sua filha, Catarine, foi o único bem que lhe sobrou. E para tentar fazê-lo parar de chorar, eu pedi que ele me dissesse como ela é, o que gosta de fazer. Enquanto ele a descrevia, sua face ficou mais alegre: ela vai fazer o vestibular próxima ano, adora estudar o céu e as estrelas, sabe o nome de cada constelação, é uma menina organizada, batalhadora, gosta muito de animais (a ponto de criar carinhosamente três gambás), e apesar dele não dizer expressamente, ficou patente que é uma garota feliz.

Mas ainda restava Romeno, ali, com aquele buraco no peito, e eu sem saber como estancar. E eu poderia? O que dizer a um homem que perdeu seu ideal de felicidade de uma forma tão violenta? Como responder às mesmas velhas dúvidas, cujas respostas eu mesma nunca encontrei, tais como: “o que fiz de errado para receber esse castigo?”, “por que Ele não impediu que isso acontecesse?”, “elas ainda estariam vivas se eu não fosse um cristão?”. Por alguns minutos calamo-nos. Romeno olhava as luzes de Natal se aproximando e eu orava pedindo que Deus falasse algo para ele através de mim. E pouco antes de ver Romeno partir eu lhe disse que precisava dizer-lhe algo:

- Não culpe sua fé pelo que aconteceu. Sua fé garantiu a salvação de sua pequena filha, e fez a sua esposa, orgulhosa, levar de você a imagem do marido que ela sempre quis ter. Deus não está indiferente à tua dor, Ele, que também viu morrer o Filho sem poder fazer nada, sabe exatamente como você se sente. A dor dEle teve uma finalidade, que você sabe, é a causa de toda a humanidade poder ter vida. A sua dor, Romeno, também tem. Um dia você vai saber, mas até lá considere que perder esposa e filha já é demais para um homem; não perca também sua fé. Ainda é preciso ter fé para garantir que você e sua filha Catarine cumpram o plano que Deus preparou para vocês aqui, e um dia, possam saber as respostas das suas perguntas. Deus ama você. Muito. E independentemente da sua dor, o amor dEle vai te continuar lhe acompanhando.

O ônibus parou. Romeno pediu licença, pegou sua bolsa, apertou minha mão e disse que foi um prazer conversar comigo.

- Sei que foi Deus quem te mandou aqui. Você é um anjo dEle. Pois então mande-lhe um recado: diga que valeu a tentativa.

Anjo, Romeno? Não... sou muito menor. Não posso sequer suportar a dúvida de que, talvez, não tenha te falado o suficiente, não tenha te dito as palavras certas. Como sou impotente, meu amigo viajante. Não consegui, antes que você saísse, nem mesmo lhe dizer que, se Ele tentou, é porque você é muito importante para Ele.

Uma semana mais iluminada,

Luciana Dantas Teixeira.

segunda-feira, 27 de outubro de 2003

Que poderia ir em branco

Vocês não entenderiam se eu hoje lhes mandasse um e-mail em branco. E essa é uma das desvantagens da internet: na virtualidade nosso silêncio não faz sentido. Se calamos, anulamos a nossa existência, ao menos em relação a todos os nossos contatos virtuais. Eu mesma receio ter morrido para alguns amigos cujos e-mails repousam em meu Outlook como que deitados eternamente em berço esplêndido, sem que eu tenha tempo para respondê-los com o devido carinho, como gosto de fazer. Mania de quem ama as palavras, a ponto de não querer jogá-las de qualquer forma, mas dar-lhes o conteúdo mais formidável. Mania que em nada me enobrece, posto que continuo em falta com meus amigos. Resta meu silêncio inútil.

Ao começar este parágrafo quis pensar que, no “mundo real”, este mesmo silêncio fosse mais bem compreendido, mas já nesta segunda linha temo que não. Basta pensar na crescente objetividade do nosso tempo, onde parece que os sentidos vão perdendo algo de sua função: as pessoas comem em função das calorias, procuram eliminar ou disfarçar todos os cheiros, escutam apenas aquilo que não é preciso parar para ouvir, não tocam, seja por medo de estragar, de se contaminar ou simplesmente para não serem acusadas de assédio sexual, olham para os textos que dizem como está lá fora, lugar onde a vista não chega mais. E para tanto, comunicam-se. Meu Deus, como comunicam-se as pessoas de nosso tempo! Quantos recursos, tantos meios de exibir fala, imagem, texto, signo, o mundo fervilha em informações cada vez mais velozes, sinópticas, para nos poupar tempo a fim de darmos lugar à informação seguinte. Os sentidos numa tensão de atender a este ritmo, enquanto esquecemos de contemplar.

Saber silenciar; deixar todos os sentidos passivos e livres de qualquer responsabilidade para conosco. Um bom exercício é conviver com mulheres. Bem, vou tentar não generalizar só desta vez e falar apenas de mim, para quem a condição mais próxima de felicidade num relacionamento, é o reconhecimento de ouvir e ser ouvida. Presentes, gestos bonitos, a própria beleza em si são importantes, mas não superam o momento transcendente de contemplar exatamente aquilo que eu queria ouvir. Na hora certinha, sem dicas. E quanto tormento se evitaria se na hora de eu falar – naquela premente hora em que tudo que quero é ouvir nada – encontrasse um par de ouvidos pacientes. Mas o homem treinado para reconhecer problemas e necessariamente solucioná-los não desarma o ouvido analítico, e se desespera tentando achar uma solução, uma saída, uma explicação, o telefone da emergência, qualquer coisa que acabe com o problema, e quanto mais se desespera, mais a mulher suspira a falta do silêncio (ah, sim, eu tentava não generalizar). Não que seus problemas sejam o que há de mais lindo na natureza para contemplar. Mas certos momentos não pedem solução, apenas compreensão, e em se tratando das mulheres... digo, de mim, posso afirmar que nem isso, posto que totalmente inexigível, mas há momentos em que o não agir, não falar e não solucionar é a maior dádiva que se pode dar a uma mulher. De torná-la a criatura mais feliz do universo.

A verdade é que todos nós precisamos do silêncio, da contemplação, abrir a alma sem reservas a uma linguagem mais apurada, que nem sempre nossa mente finita consegue entender (não me refiro mais somente a ouvir as mulheres). Imediatamente antes de Jesus começar seu Ministério, ele não foi fazer um curso de oratória, nem conversar com os grandes sábios de seu tempo, nem praticar sua capacidade de fazer milagres. A Bíblia diz que Jesus foi para o deserto. E lá, com os sentidos desligados de todo o mundo exterior, na contemplação absoluta do humano e de Deus, Ele encontrou o que sua natureza humana precisava para enfrentar e vencer sua missão.

Nesta semana, tente dar uma folga para seus sentidos, deixá-los livres, abertos. Eles são o canal pelo qual o Espírito Santo nos fala, e se estiverem sempre ocupados em fazer, sem nunca receber, não poderão conhecer uma realidade mais elevada que a que os cerca (“...porque eles, vendo, não vêem; e ouvindo, não ouvem nem entendem” Mateus 13:13). Deixemos a vida correr um pouco mais passivamente, sem reservas, sem criar tantas imposições para limitar-nos e comprimir-nos: que venham gostos, cheiros, vistas, toques, sons, que venha o silêncio compreendido em toda extensão de sua expressividade, que venha a falta, o vazio, até mesmo a solidão, mas que nisto venha a linguagem sutil do Senhor a aguçar um pouco mais nossa frágil existência.

Boa semana,

Luciana D. Teixeira

segunda-feira, 20 de outubro de 2003

Mais

Geralmente os homens tem pior memória para datas. Mas ela só lembrou porque ouviu aquela música indelével: “everybody knows we live in a world where they give bad names to beautiful things”. Há exatamente um ano ela olhava a lua e não estava só. Conhecia entusiasmada a face de uma beleza desejada intimamente por muitos anos, aquele tipo de anseio que nem sabemos ter até que ele se manifesta satisfeito diante dos nossos olhos e pensamos: “pronto, encontrei o que queria.” Tinha a companhia da beleza e não estava só. No céu, a lua alta e cheia.

Agora olhava o rádio meio assombrada, ouvindo quase à força: “Heaven only knows we live in a world where (...) the [people] fragile and the sensitive are given no chance”. Um ano? Reparando no cardinal parece pouco, mas tanta coisa aconteceu desde aquela noite de lua. Algumas boas, outra ruins, outras que ela não sabe ao certo porque os sentimentos sempre confundem a precisão da memória. Emoções teimam em criar fatos ou dar-lhes cores escolhidas arbitrariamente (há que se perdoar emoções que não tiveram tempo de se acostumar à perda da beleza). E desviando os olhos do rádio, para tentar inconscientemente arrastar para longe os outros sentidos, ela hoje encontrou só o céu escuro, sem companhia, sem beleza e sem lua. Não fosse a música, até sem lembrança.

Como era mesmo que dizia Salomão? “Tudo quanto desejaram meus olhos não lhes neguei, nem privei o coração de alegria alguma... e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento...” (Eclesiastes 1: 10,11). Vento, lua, companhia: tudo a mesma natureza mutável. Há quem também cite a vida, mas não: a vida é justamente o que permanece clamando por mais. A vida fica enquanto desfilam nossas tristezas, sorrisos, conquistas e perdas, começos e também os desconhecidos começos que às vezes chamamos fim. Se é a vida ou eu quem passa, é pergunta filosófica demais para ser respondida em noite sem lua. Mas a transitoriedade é patente. E nos acena no momento seguinte da satisfação, no balanço anual dos sonhos, na percepção crescente de ausências, na coleção de descrenças, nas responsabilidades que tornam o riso adulto, na imagem que teima em refletir no espelho um ser que a nossa infância não sonhou. Eu falaria muito ainda da transitoriedade. Mas é assunto tão delicado, que melhor é deixá-lo como está em cada um, porque há gente que se esforça demais para esquecê-lo. E a vida já é inconveniente o bastante para lembrá-lo vez em quando.

Ah, a música que agora diz: “And the leaves turn green to red to brown fall to the ground and get kicked around”. A velha segunda lei da termodinâmica: tudo tende à degradação. Mas você pode encontrar outra explicação, descobrir uma lei melhor. Essas estranhas manias humanas... tantas explicações não resolvem, não preenchem. São, as próprias explicações, mutáveis e variáveis. E como folhas caindo ao sabor do vento, somos envoltos no que Milan Kundera chamaria de “a insustentável leveza do ser”. Toda a liberdade, aí incluídos os meios para satisfazer os anseios da liberdade, não proporciona senão uma pálida visão da felicidade, porque tangidos pelo vento não temos solidez para pousar em definitivo na condição de seres felizes. Ao vento, vamos perdendo as cores e deixando de ser folhas, vamos deixando de saber o que queremos. O que queremos? Sabemos apenas que mais. Livres, ao vento, apenas tocamos acidentalmente a felicidade, em momentos, pessoas ou coisas ideais que nos fogem (no referencial deles, somos nós que fugimos na corrente de ar). Qual o destino das folhas carregadas pelo vento?

Mas a música já está acabando. E agora pergunta contundente: “You wild enough to remain beautiful?”. Ela também se pergunta o quê mais, além da vida, permanece. Felizmente desviou-se da tristeza quando parou de ver apenas a evidente transitoriedade, para procurar em tudo a eternidade. Que dádiva abençoada, foi Deus colocar dentro de sua criação, imagem e semelhança, um reflexo de Sua própria Eternidade (“What are you so afraid of?
Show us what you're made of”, ela ainda ouve no rádio). As folhas não precisam voar para sentir o vento. Elas não precisam cair, mudar de cor e morrer. “Permanecei em mim e eu permanecerei em vós” (João 15:4). A única forma de suportarmos o vazio permanente da transitoriedade deste mundo, é permancermos ligados ao Eterno, aquele que é, e jamais passará. NEle, e conseqüentemente na Sua vontade, encontramos o tipo de segurança que não existe na satisfação de nenhum dos nossos desejos. Em Deus nem reparamos nos nossos desejos. Somos folhas que decidiram permanecer bebendo da Sua seiva, para que nunca deixemos de ser aquilo que realmente somos; esta é a satisfação intransponível (você é rebelde o suficiente para isso?). “Be yourself and be beautiful”, a música termina. Ela também dá por concluídas suas divagações. Passa a mão nos olhos, passa aquele apertozinho no coração. A lua já vai passando mais uma fase. “E agora permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior deste é o amor.” (I Cor. 13:13)

terça-feira, 14 de outubro de 2003

Amor que olha para onde anda

Eu estava naquele estado de paixão em que você não está convencido de que aquela é a pessoa certa, mas não pode evitar sentir-se atraído por ela. E eu, que sempre disfarcei muito mal meus sentimentos, ficava inquieta, um pouco trêmula, com as mãos geladas quando ele chegava. Quanto mais me esforçava para ser discreta, mais meu olhar o procurava involuntariamente, quanto mais eu tentava manter a compostura e a sobriedade, mais eu parecia nervosa e abobalhada, mais eu falava besteiras, mais eu seguia cega e leda atrás do seu olhar.

Até que um dia ele perguntou se poderia ir me deixar em casa. “Claro!”, eu respondi tentando indiferença apesar da minha cara de sol-de-leite-ninho. Estávamos a apenas uns quinze minutos da minha casa, e ele foi andando comigo, fazendo companhia. Conversávamos sobre música, meu assunto preferido, e eu tagarelava entusiasmada sem, no entanto, tirar meus olhos dos olhos dele. Queria medir seu entusiasmo também, e a visão daqueles olhos, ah... eu já nem sabia o que falava, apenas olhava fixamente para suas pupilas magnéticas. Foi quando, no melhor da conversa, puft! Tão absorta eu estava em seu olhar que não vi o buraco na calçada em que caí: ralei o joelho, torci o pé e quase não levanto mais de tanta vergonha. Ele, tadinho, me socorreu imediatamente, e não consigo esquecer sua expressão cômica, entre desesperado para me ajudar a levantar e morrendo de vontade de dar uma gargalhada.

Lembrei desse episódio pitoresco da minha infinita lista de gafes e desastres, enquanto lia um livrinho delicioso sobre a vida de Clara de Assis. Em dado momento o autor grifa uma frase que me impressionou deveras: “Amar não é olhar um para o outro, mas, os dois, na mesma direção.” Simples, mas não é que é mesmo? Olhando um para o outro, nós centramos tal pessoa no centro de nosso mundo de tal forma a não vermos nada além dela e do nosso próprio reflexo em sua íris. Amor, no entanto, olhar por onde anda.

Não parece muito saudável uma relação que existe para si mesma, sem a consciência de um mundo inteiro ao redor. Não há como existir crescimento e amadurecimento do amor que é semeado no egoísmo e se estreita no alheamento dos dois. O amor não pode ser assim estático, necessita expandir-se, e para tanto os dois devem olhar ao lado e escolher uma direção. Olhando um para o outro, serão sempre dois. Olhando na mesma direção alcançarão a mais perfeição da unidade. Amor direcionado tem planos em comum, projetos pelos quais lutar, valores a preservar, sonhos para perseguir, esperanças e batalhas para partilhar. E por isso é forte; não se limita à contemplação de si e do outro, mas procura o que há de ambos no universo. Numa relação de amor há um e muito mais que dois; há um sem fim de paisagens para conquistar.

Compreendendo isso, fica mais fácil de sentir o amor de Deus. Quantas vezes tive me consolar com o olhar da fé... É este olhar de que fala João quando diz “Ninguém jamais viu a Deus; se nos amamos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor é em nós aperfeiçoado.” (I João 4:12). Não podemos (ainda) olhar nos olhos de Deus, mas se O amamos, olhamos na mesma direção que Ele. “...mas qualquer que guarda a Sua Palavra, nEle realmente se tem aperfeiçoado o amor de Deus. E nisto sabemos que estamos nele” (I João 2:5). Meu relacionamento com Deus nasce entre nós dois, mas vai crescer lá fora, quando minhas escolhas e atitudes demonstrarem que nosso olhar procura o mesmo lugar. E nisso está a segurança do amor: olhando os dois numa mesma direção, não há perigo de ninguém se machucar.

Nesta semana, muitos começos de semana iluminados,

Luciana D. Teixeira