segunda-feira, 23 de março de 2009

Faça você mesmo - Bíblia para bebês

Este post inaugura uma nova tag no blog, que ao meu ver também tem a ver com a Graça. É que Deus nos concede dons e talentos para criar, e a ação criativa nos aproxima do Criador, nos dá uma felicidade de quem reconhece em si algo do caráter divino.

Lembro que tive dificuldade de encontrar uma Bíblia para meu filhote porque mesmo as mais bonitas eram feitas daquele papel fininho que os pequenos adoram rasgar em três tempos. Então, Jaqueline, uma das melhores professoras infantis que já conheci, deu esta idéia que desenvolvemos juntas. Ao invés de dar R$ 15,00 numa Bíblia toda em papel cartonado, você pode, com cerca de R$ 4,00, confeccionar você mesmo uma, que seu filho também vai amar.

Para isso você vai precisar de:

- 1 álbum de fotografias, desses que se encontra ns lojas de 1,99, com cerca de 12 folhas. O coração recortado que aparece neste aqui veio nele mesmo. Pode também ser um fichário do tamanho de um caderno pequeno com capa e folhas de plástico, à venda em papelarias por um precinho bem camarada. Se você encontrar nem precisa encapar com feltro, só colar um figura bonita na capa.








- Uma impressora para imprimir ESTES DESENHOS ou outros a seu critério. Estes eu preparei já no tamanho certo para o álbum. São em preto e branco e mostram figuras de Jesus comcrianças e cenas de Sua vida. Se tiver tinta colorida pra gastar, você pode baixar ESTES ARQUIVOS DA EBD (procure pelos arquivos dos pré-primários e juniores também) e fazer a festa. Esta Bíblia é própria para bebês que ainda não lêem, mas você pode acrescentar palavras ou pequenas frases para estimular.
- Cola plástica (BRASCOLA, à venda em qualquer papelaria ou loja de construção)
- Feltro
- Tesoura
- Tinta dimensional (vem num tubinho com bico para facilitar a aplicação)

Passo-a-passo:

1- Encape o álbum com feltro, colando-o com cola plástica sobre a capa. Deixe o recorte abaixo nas pontas.













2- Feche as pontas com cola plástica também.
3 - Decore com tinta dimensional a seu gosto. Para quem não tem prática é bom treinar antes num papel.
4- Recorte e encaixe as figuras no álbum. Para ficar mais seguro você pode colar as bordas com durex depois que encaixar a figura (é mais difícil para as maozinhas puxarem os desenhos)
5- Está pronta! Você pode usar a mesma idéia para fazer livrinhos temáticos, sobre animais, plantas, instrumentos musicais e tudo que seu bebê gosta.
6 - Deixe o bebê manusear livremente o livro, e vá falando o que significa cada figura. Você pode passar uma vez explicando e depois deixar que ele mesmo se divirta manuseando. Logo você perceberá que ele o imita e tenta falar o que é cada figura também, como se estivesse contanto a história para você:-) Acredite, antes de 1 ano eles já podem fazer isso, o que pode fazer bastante diferença para o desenvolvimento de sua linguagem e capacidade de expressão.
7 - Cultive pequenos leitores e colherás grandes homens. O meu filhotinho é apaixonado por livros e vive me pedindo para contar histórias, que eu conto desde o ventre. Os livros ele já manuseia desde os três meses, quando aprendeu a agarrar objetos. Me chama para fazer sua liçaozinha bíblica todos os dias e se diverte com isso. Alguns de seus livros estão entre sues brinquedos preferidos, e ele passa um tempão "lendo" e "contando" histórias em nenenês, hehehe.

sábado, 21 de março de 2009

Adveniat - Algo mais

Ok, mais um texto antigo. Este é de 2004. Mas não é por falta de inspiração ou vontade de escrever, é que está difícil mesmo sentar na frente do computador, ou fazê-lo com a mente e o espírito abertos para a escrita. Esta semana ainda venho aqui escrever ao invés de reeditar.

-------------------------------------------------------
Acsa é uma personagem bíblica que só aparece em cinco versículos bíblicos (Josué 15:17 - 19 e Juízes 1:13-15), mas imprime uma mensagem de força indispensável em quem anda à busca de seu papel como cristão.

O pai de Acsa resolveu dá-la em casamento ao guerreiro que conseguisse conquistar uma certa região ao sul da Palestina chamada então de Quiriate-Sefer. Embora esse tipo de arranjo matrimonial nos pareça esquisito à primeira vista, é preciso analisar o contexto histórico para observar que nessa época a conquista de terras era o maior interesse dos povos, pois da posse da terra dependia toda a estabilidade deles. O pai de Acsa estava preocupado em lhe dar um marido que demonstrasse ter vontade suficiente de conquistar uma terra, pois esse demonstraria também aptidão para dar um lar seguro e próspero para sua filha. Depois, na mente de seu pai, um marido guerreiro, corajoso, era o melhor que ele poderia dar a Acsa, que devia ser uma mulher muito valorosa, a ponto do pagamento do seu dote ser a vitória de uma importante batalha.

Otoniel, primo de Acsa, conseguiu essa proeza e, conseqüentemente, a terra que conquistara. Se a história terminasse aqui todos os méritos pareceriam devidos a Otoniel, mas este fez apenas a sua parte no trato, conseguiu só aquilo que lhe era por direito humanamente. Acsa foi mais além. Ela percebeu que as terras do seu marido eram boas, mas não seriam produtivas sem água, que existia franca nas nascentes próximas, em terras de seu pai . E embora seu quinhão já fosse muito bom, ele não era tudo de que precisava: o clã de seu marido, agora o seu, precisava de mais, do melhor.
Não entendo a atitude de Acsa como ganância, mas como uma visão clara das vantagens a que tinha direito. Ela não se contentou em perceber suas necessidades e pediu ao pai aquilo que ele não poderia negar: um presente, como sinal de bênção sobre aquele casamento. Assim, os queneus conseguiram se estabelecer sobre ótimas terras e abundantes águas, sem o que as terras e todo o esforço do valente guerreiro Otoniel pouco teriam valido.

O que Acsa tem a nos dizer? Acredito que as nossas melhores conquistas são o fruto de uma parceria entre nós e Deus. Ele nos aponta as oportunidades – e é preciso conseguirmos distingui-las daquelas empreitadas que são meramente nossa vontade –, e nós nos lançamos na batalha com determinação até alcançar o alvo. Mas a história não deve parar por aqui, como a de Acsa não parou. Qualquer livro de auto-ajuda aconselharia a ter coragem de vencer as batalhas e se apossar do prêmio. Mas a Bíblia indica que os cristãos devemos reclamar a bênção completa que Deus tem para nós, aquilo que a fará fértil para gerar outras bênçãos.
Para isso é preciso perceber o que é que nos faz completos, depois ir até Ele, pedir que nos oriente a chegar até onde Ele quer que realmente cheguemos. E normalmente Ele apontará que quer que cheguemos ao Céu. Será que é uma atmosfera celestial que está faltando àquela bênção que Deus te ajudou a conquistar? Um perfume do Céu não tornaria o emprego, a casa, o casamento, o filho ou qualquer outra vitória que ele te apontou? Sem a água da vida que corre dos mananciais celestes (João 4:14), nossas conquistas serão tão efêmeras quanto o bocado deste mundo que conquistamos.
Uma vitória é sempre algo bom. Uma vitória com Deus é algo eterno. É preciso ter visão ampla para compreender aquilo de mais amplo que nós mais precisamos, e ir buscá-lo humildemente, mas com segurança, nas mãos dAquele que nos pode dar (Mateus 7:7), dAquele que, como nosso Pai amável, não nos pode negar uma bênção completa e abundante. Qual deve ser o tamanho de sua bênção esta semana? O que Deus pode ajuntar aos seus esforços? O que Ele deseja fazer que pode suprir por completo suas necessidades? Deixe que Ele lhe fale agora mesmo!

domingo, 15 de março de 2009

Só um suspiro

Estou tão cansada...
Que só consigo esperar.


sexta-feira, 6 de março de 2009

A pedidos - Músicas complementares

Não sei como não atinei com isso antes: é melhor refletir sobre uma obra musical quando se pode ouví-la, certo? Portanto, para o Marcão e para qualquer outro dos meus seis leitores ocasionais, seguem abaixo os arquivos em mp3 com as músicas mencionadas nos dois devocionais abaixo.

A PRIMEIRA é a ária para soprano e contralto do Messias de Handel, "He shall feed His flock".
Você pode baixar a obra completa (com a que é considerada por especialistas a melhor interpretação da obra), bem AQUI, no Blog do P.Q.P. BACH. Se quiser comparar, pode baixar essa OUTRA versão e aproveitar para ler mais comentários sobre o Messias.

Ária (Contralto) - Isaías 40:11

He shall feed His flock like a shepherd,
and He shall gather the lambs with His arm,
and carry them in His bosom,
and gently lead those that are with young.

Ária (Soprano) - Mateus 11:28-29

Come unto Him, all yet that labour,
that are heavy laden, and He will give you rest.
Take His yoke upon you, and learn of Him,
for He is meek and lowly of heart,
and ye shall find rest unto your souls.

Veja a TRADUÇÃO INTELINEAR do Levi Tavares.

A SEGUNDA é o conjunto de recitativos e coros citados no texto sobre a Paixão Segundo São Mateus. Você pode baixar a obra completa AQUI, créditos para o mesmo blog.

1. Recitativo - Evangelista (track 9)
Então, no primeiro dia da comemoração do pão ázimo, os discípulos vieram a Jesus dizendo-lhe:

2. Coro
Onde queres que preparemos a ceia para Tu comeres na Páscoa?

3. Recitativo - Evangelista
E Ele disse:

4. Recitativo - Jesus
Ide à cidade, a um certo homem, e dizei-lhe, o MEstre disse: Meu tempo está perto, Eu passarei a Páscoa em tua casa com Meus discípulos.

5. Recitativo - Evangelista
E os discípulos fizeram como Jesus lhe dissera, e eles aprontaram a Páscoa. Agora que o entardecer chegou, Ele sentou-se com os doze. E enquanto comiam, Ele disse:

6. Recitativo - Jesus
Na verdade, Eu vos digo, que um de Vós Me trairá.

7. Recitativo - Evangelista
E eles dicaram excessivamente tristes, e cada umd eles começpu a dizer-Lhe:

8. Coro
Senhor, serei eu?

9. Coral (track 10)
Sou Eu que devo ficar só, mão e pé amarrados na Sepultura.
Açoites e grilhões e vossos sofrimentos
redimiram minha alma.

Para os mais ortodoxos, todos os CDs aqui postados para avaliação estão à venda na AMAZON.
Ouça tudo hoje mesmo e desejar-lhe um feliz sábado será redundante, hehehe.

Adveniat - Senhor, serei eu?

Seguindo a mesma linha do devocional anterior, este, escrito para o site Adveniat também retomou um escrito antigo (de 2002) sobre uma obra de que gosto muito. Só retoquei o texto para o formato so site, "enxugando-o" Ai, preciso retomar minhas audições sabáticas de música sacra. Este hábito, que aprendi na casa do meu saudoso amigo Elias Tavares, é algo que mantém a atmosfera do meu sábado bem próxima a do Céu.
------------------------------------------------------------

Você sabia que nesta semana comemorou-se pela primeira vez no Brasil o Dia Nacional da Música Clássica? Cinco de Março foi o dia escolhido por tratar-se do aniversário do compositor Heitor Villa-Lobos. Como o tema “Música” muito me apraz, eu não poderia deixar de recomendar uma de minhas obras preferidas, embora ela não seja exatamente Clássica no sentido mais estrito do termo. Trata-se, na verdade, de uma música barroca, e certamente uma das mais belas obras de música sacra. Chama-se “A Paixão segundo São Mateus”, de Bach. Mesmo que seu gosto pessoal não o motive a comemorar a mais nova celebração nacional, há algo de espiritual nessa composição que você não pode deixar passar.

O pesquisador Otto Maria Carpeaux classifica A Paixão Segundo São Mateus como “uma obra de tão profunda emoção religiosa a ponto de converter um ateu”. De fato, ela é de uma mensagem tão poderosa que já se deu a Bach o título de “Quinto evangelista”. A pregação não se limita à exposição de um drama distante: o uso genial da forma coral permite que Bach transforme a música em prece íntima, e realize a introspecção da mensagem na congregação.

Um exemplo desse magnífico efeito está na primeira parte da Paixão Segundo São Mateus, que expõe o momento em que Jesus anuncia aos discípulos que será traído. “Um de vós me trairá”, canta a voz do baixo. O narrador diz: “E eles, mutíssimo tristes começam a perguntar...” (Mateus 26:22). Então entra o coro dramático dos apóstolos perguntando “Senhor, serei eu?”, pergunta que é repetida onze vezes, o que nos faz lembrar que Judas calou-se. Nesse momento, todos esperam que se siga a narração conforme está na Bíblia, com Jesus indicando os sinais do traidor. A pergunta “Senhor, serei eu?” ainda está suspensa por um acorde interrogativo. Bach toma um rumo menos óbvio e quando se espera que Jesus diga que Judas é o traidor, entra um novo coro de vozes, que, representando as vozes da congregação, anuncia outro culpado: “Sou eu!”.

De repente, os olhares que se voltavam para Judas, passam a olhar para si mesmos, e cada pessoa presente na igreja passa a se sentir pessoalmente culpada pela morte de Cristo. Ao contrário do que poderia se imaginar, esse coro não tem em nenhuma de suas notas um tom acusador, mas contrito, de um pecador que se reconhece mau. Ninguém pode ouvir esse coro sem sentir em seu coração que, em algum momento, também traiu Jesus, e merecia sofrer as penas do pecado no lugar dEle. “Vossos sofrimentos redimiram minha alma”, termina o coro deixando emocionado e surpreso o ouvinte.

Só depois disso é que o relato prossegue. Judas pergunta: “Senhor, serei eu?” e Jesus termina afirmando: “Tu o disseste”. Pronto, Bach mostrou a Cristo. Não um Cristo que chama nossos nomes para acusar, mas um Cristo que por Seu sacrifício de amor nos constrange a reconhecermos nossas culpas. Um Cristo a quem nós, todos os dias, crucificamos mais uma vez, e traímos tal como Judas quando cedemos ao pecado. Um Cristo que, ainda assim, sofreu para redimir nossas almas. Bach nos faz imaginar que até aquele “Tu o disseste” foi dito com amor e compaixão.

O sangue que flui das mãos onde cravamos, por nossas culpas, dolorosos pregos, é o mesmo sangue que nos limpa e reconcilia com Deus. A culpa do pecado, que é também a culpa que temos pela morte de Cristo, não nos é imputada devido a graça amorável dEle. Que ao começarmos esta semana possamos perguntar: “Senhor, serei eu?” E quando nos vir arrependidos, Jesus chamará o nosso nome, não para nos acusar, mas para nos dizer: “Filho, alegre-se! Perdoados estão os teus pecados” (Mateus 9:2).

Eis, Jesus estende Suas mãos para nos segurar. Vem!
Onde?
Para os braços de Jesus! Procura redenção, procura misericórdia, procura-te!
Onde?
Nos braços de Jesus! Vive, morre, fica aqui, Tu aflito. Fica aqui.
Onde?
Nos braços de Jesus!

Mas isso já é outro coro...


Nota: Paixão é como se chama o relato do sofrimento e crucifixão de Cristo nos quatro dias que antecedem a páscoa. Cantar a Paixão de Cristo era tradição na liturgia da igreja católica desde o século XIII, que mais tarde foi introduzida na liturgia protestante por Martinho Lutero, e alcançou seu clímax em Bach, que a apresentou na forma de oratórios. A Paixão Segundo São Mateus foi apresentada pela primeira vez em 1729, na igreja de São Tomás em Leipzig. Mas depois a Europa quase esqueceu que um dia existira um compositor chamado Bach. Exatamente cem anos depois, sob a regência de Mendelssohn, o impacto que esse oratório causou foi tão grande que fez a obra de Bach ser “ressuscitada”, estudada e reconhecida como um dos cumes da História da Música.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Feliz dia da música clássica

Hoje, revirando alguns escritos antigos, achei uns devocionais que escrevi inspirada por obras musicais em específico. E como fiquei sabendo pelo blog do Joêzer que hoje é oficialmente dia nacional da Música Clássica, pesquei esse texto aí embaixo para colocar aqui. Foi escrita em 2001, quando eu começava a adentrar o "magnífico" mundo da música erudita. Sabia tão pouco da técnica, da teoria e dos esnobismos que cercam esse mundo! Não que hoje eu saiba alguma coisa, mas digamos que, na faculdadede Música adquiri um certo conhecimento do bem e do mal.
Hoje estou especialmente triste e bastante desanimada. Recorro a lembranças da minha obra sacra "erudita" preferida, o Messias de Handel (sim, o Messias, aquele do Aleluia). Poderia citar obras muito mais "eruditas" e até mais "sacras", poderia ter escolhido um devocional menos ingênuo e piegas. Mas esta preferência é também uma necessidade de consolo. Uma vontade de colher afeto na Beleza que me toca. Não acho que recuperarei a comoção tão autêntica, característica desta época de minha vida. Mas a Música sempre aponta uma claridade.

---------------------------------------

Eu já falei para vocês o quanto gosto de Handel? Só não afirmo que ele é meu compositor favorito porque também sou fascinada pela exuberância de Bach, a expressividade de Vivaldi, e a mediocridade de Mozart (o garante minha querida e saudosa amiga Renata). Se a minha vida pudesse ter trilha musical (tenho esta neurose), George Frideric Handel fulguraria em destaque nos créditos, tanto me identifico com sua música.

Eu estava aqui prestando atenção numa das muitas belas árias compostas por ele, que também é uma obra-prima teológica pelo simples ajuntar de dois versículos. A voz de uma contralto (as contraltos são formidáveis) desabrocha no meio de violinos e canta: "Como pastor ele apascentará o seu rebanho; entre os seus braços recolherá os cordeirinhos, e os levará junto ao peito; as que amamentam, ele as guiará mansamente." (Isaías 40:11). Chegue mais perto e repare: o pastor agora está sozinho, e tem o olhar fixo no horizonte, onde busca uma ovelha. Por um momento ele interrompe a caminhada, para e suspira. A voz soprano que estava agachada a contemplar a flor da voz contralto, toma-a nas mãos, levanta-se três tons acima e diz: "Ide a Ele, todos os que estais cansados e oprimidos, e Ele vos aliviará.. Tomai sobre vós o Seu jugo, e aprendei dEle, que é manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas." (ver Mateus 11:28, 29).

E agora eu ouso ir além, fazendo um arranjo nessa harmonia tocante. Quero ver a ovelha que o pastor procura. E sabe o que vejo? A ovelha de Lucas 3:4 – 6, aquela famosa ovelhinha perdida.
Quero que você imagine-se no lugar daquele pastor. Ele amava suas ovelhas, e tanto cuidava, dava carinho e atenção que estas já lhe conheciam pela voz. Mas uma dessas ovelhas sumiu, deixando-o preocupado, temeroso e decepcionado. Imagino esse pastor andando pelo deserto, fazendo sua voz ecoar nas montanhas pedregosas em busca de sua preciosa ovelha perdida. Mas parece que quanto mais a busca, mais a ovelha se distancia dele. O sol lhe queima a face ansiosa... ele começa a sentir sede e fome. Seus pés doem, mas ele continua a andar e – estranho – seu semblante transmite ânimo inabalável, sua voz firme não deixa de ser doce enquanto diz: "Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei... e achareis descanso para as vossas almas".

Consegue perceber que enquanto procura a sua ovelha perdida, o pastor chama para si não só ela, mas todos os que estão cansados e oprimidos? Pode imaginar que, naqueles vales desérticos talvez haja outras ovelhas perdidas precisando dos braços amoráveis do pastor, onde possam descansar junto ao seu peito? Nota que mesmo fatigado da busca, decepcionado com a perda de sua querida ovelhinha, e sem certezas de que tornará a vê-la, ele persiste em ser pastor acolhedor a toda criatura que cruze seu caminho? Você enxerga que este pastor não se ocupa das próprias lágrimas, mas persegue com teimosia um alvo, sem jamais duvidar de sua capacidade de amar, sem questionar se vale a pena tamanha jornada pedregosa por causa de uma simples ovelha?

Olhe para sua vida e pense nas coisas que você perdeu. Talvez você saiba exatamente o que faz falta, a saudade precisa do que um dia foi tão seu, tão você, a dor de uma ausência bem conhecida: algo que se perdeu de dentro de você. Talvez você nem tenha parado para se dar conta das perdas que carrega como fardo vida afora. Algumas pessoas preferem não pensar muito na forma como perderam a pureza ingênua, a esperança de melhorar as coisas erradas ao redor ou em si mesmo, a capacidade de amar e confiar sinceramente no ser humano, até mesmo a crença num Deus presente e amoroso e num novo mundo transformado, muito embora essas perdas se acumulem formando rugas no espírito de quem as leva.

O que eu desejo para mim e para todos aqueles que sofreram grandes perdas e decepções, é que assumam a postura daquele pastor. Não desistir de ir atrás do que se perdeu. Se isso lhe pertencia, era parte de você, então é extremamente precioso e deve voltar ao seu verdadeiro lugar. Não podemos nos sentir felizes se estamos incompletos, portanto continue procurando o amor, a amizade, a confiança, a fé, a crença. Se você fizer isso, vai estar você mesmo voltando para o seu verdadeiro lugar, pois o caminho pedregoso dos que lutam por reconquistar a felicidade, vai dar na Nova Terra, onde finalmente encontraremos tudo que um dia fomos, e que se perdeu nesses milênios de pecado.

Continue buscando. E não siga cabisbaixo e murmurante, não se isole no vale de sua dor; vá oferecendo amor e sorrisos a todos que cruzarem seu caminho. Enquanto procura sua ovelha perdida, dê o abrigo de seus braços aos que seguem cansados e oprimidos, seja alívio e descanso para os outros que estão perdidos. Você estará recuperando muitas ovelhas preciosas que a humanidade perdeu. Seja manso e humilde de coração, e você já terá achado algo muito importante: companhia para dividir o peso do jugo, e ajuda para buscar e comemorar a volta da sua ovelhinha.

Uma semana cheia dessa melodia luminosa,

Luna

segunda-feira, 2 de março de 2009

Converte o meu intelecto

Quando eu sei que minha religião está intelectualizada? Um dos primeiros sintomas é julgar um sermão, por exemplo, conforme sua construção literária, linguística, meramente teológica e não deixá-lo entrar entre a alma e o espírito como uma espada de dois gumes (Hebreus 4:12). Começamos a selecionar as igrejas que frequetamos pela habilidade dos líderes, cantores e oradores. E ao sair de um culto que julgamos "bom", permanecemos vazios espiritualmente, mas intelectualmente satisfeitos: "Viu como o pregador conseguiu prender a platéia do começo ao fim do sermão?"

Pessoalmente eu tenho grande admiração pela oratória jesuíta. Gosto de ouvir sermões bem elaborados, e não é pecado admirar o esmero com que um pregador constrói e expõe uma mensagem, vibrar quando uma escola sabatina é bem dirigida ou alegrar-se com uma música que parece ter sido entoada por um anjo. O problema é quando nosso aproveitamento da mensagem se restringe ao campo intelectual. Esta impressão pode ser causada por qualquer música de Bach ou quadro de Da Vinci. Mas onde fica o componente espiritual da religião intelecutalizada? Ele inexiste tanto quanto nas mentes mais ignorantes. Uma bela mensagem que não é recebida espiritualmente é apenas uma bela mensagem sem poder. E se não há necessidade de poder divino, o que nos leva a professar uma religião? A necessidade de poder temporal? Hábito ou tradição? Qualquer outro motivo que não seja a necessidade de Deus nos afasta do verdadeiro religare.

Pior que viver uma vazia religião intelectualizada é orgulhar-se dela. Se pudermos admitir que um bom orador cristão exerce seu dom com arte, teremos de admitir que, para toda arte há sempre um crítico literário. E em especial o mal crítico, aquele que geralmente é um artista frustrado com muito conhecimento inutilizado pela ausência de prática louvável na arte em questão. Há, assim, dentro da Religião, aqueles que se especializam em criticar os métodos, modos, técnicas e ferramentas dos que estão ocupados fazendo algo dentro da igreja. Esses críticos se dirigem a líderes, oradores, cantores e todos os demais obreiros,e normalmente não poupam apontamentos vastos em relatórios suscintos do que podia ser melhorado. "Para a causa de Deus", complementam. Será? Uma religião intelectulizada e desespiritualizada trabalha sempre para idolatrar o Eu.

Neste sentido está todo o desapontamento de Cristo ao se dirigir a esta classe de pessoas como "sepulcros caiados", "raça de víboras", "serpentes", "assassinos" (Mateus 23). Ainda que os fariseus de hoje em dia não sejam necessariamente radicais, pelo contrário, ostentem até muita liberalidade, eles também se ocupam de matar a fé das pessoas, depois de se suicidarem espiritualmente. A questão não está tanto nas filosofias e técnicas que defendem - podem até ser conhecimentos bons em si - , mas no uso que fazem deles, para julgar e destruir ao invés de elevar, para sentir-se superior ao invés de buscar o Altíssimo.

O Pr. Rubens Lessa, num dos melhores livros que já li (daqueles que não importa quanto tempo passe estão sempre atuais), "Diagnóstico e Remédio*", cita Manuel Bernardes com uma frase contundente mas acertada: "Há uma conversação que é parte da alma; e há outra de que a alma é pasto." O intelecto sem Deus é tão impregnado de morte quanto qualquer corpo embelezado, esculpido, mas destinado ao pó. No mesmo livro, o Pr. Lessa cita também Ellen White, que também não alivia: "Quantas famílias não temperam suas refeições diárias com dúvidas e cavilações! Dissecam o caráter de seus amigos e o servem como delicada sobremesa. Um precioso bocado de maledicência é passado ao redor da mesa, para ser comentado não só por adultos mas também por crianças. Nisto Deus é desonrado"; "Enquanto isto fazem a mente não está em Deus, nem no Céu, ou na verdade; mas simplesmente onde Satanás quer que esteja - noutros. Sua alma é negligenciada"(Testemunhos seletos I p. 490, 43 e 44)

"O senhor Deus me deu língua erudita para que eu saiba dizer boa palavra ao cansado" (Isaías 50:4). Homens de Deus em todos os tempos alertam de diversas maneiras: um intelecto não convertido é uma arma contra Deus. Uma mente que só se ocupa do que é carnal, é naturalmente aversa ao Espírito. Uma religião que não tem em sua essência a busca humilde do que é Divino, torna-se apenas mais um desatino humano.

----------------------------------------------------------
* Fica aqui meu humilde pedido para que a CASA reedite o livro. Hoje é impossível encontrá-lo, até em sebo, porque quem o lê não quer se desfazer dele. Só achei um exemplar, que coloco aqui para o caso de algum afortunado se interessar. Embora esteja na estante de "saúde" (por causa do título, bobviamente), trata de assuntos espirituais com a verve única do Pr. Lessa.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Erros

Os críticos literários - e em especial aqueles que criticam os autores cristãos - costumam buscar e apontar as contradições na obra dos escritores como um erro crasso. Pessoalmente acho que isso é uma prova de que o escritor está vivo e ativo. No caso de um escritor cristão, demosntra que ele está renovando sua experiência com Deus. Tudo aquilo que aprendemos na vida espiritual esta passível de ser reelaborado e aperfeiçoado. Isso Às vezes demanda tempo, uma vida inteira. E pode acabar por contradizer, em parte ou de todo, aquilo que julgávamos uma verdade completa tempos atrás. O texto que se segue é fruto de uma reflexão nova, e vem emendar um texto que fiz dias atrás sobre as consequências do pecado.
-------------------------------------------------------------------------------

O primeiro erro do cristão é achar que pode cuidar de tudo sozinho. Depois de tantos sermões, palestras, cursos, congressos, escolas dominicais ou sabatinas, leituras devocionais e estudos bíblicos, ele chega a conclusão que tem um know-how considerável, que pode deixar Deus descansar um pouquinho e tomar as próprias decisões conforme seu conceito aprendido de certo e errado, bom e mau. Creio num Deus que preza o uso da inteligência e discernimento de seus filhos, mas todo conhecimento espiritual deve nos levar a depender mais de Deus, não o contrário. Quando paramos de nos questionar sobre a opinião de Deus, fazendo-a coincidir com nossa vontade, há um erro à vista, prestes a acontecer.

O segundo erro é achar que podemos concertar o primeiro erro sozinhos. Então esquematizamos nossos próprios paliativos, que julgamos eficazes porque parecem sanar o problema sem causar grandes transtornos ao nosso modus vivendi. Sabemos que o pecado tem que ser confessado, mas às vezes preferimos carregaro fardo do silêncio pela vida inteira. Sabemos que o pedido de perdão também tem que ser dirigido a quem ofendemos, mas às vezes preferimos simplesmente nos esconder. Sabemos que temos que perdoar, mas preferimos racionalizar que Deus conhece nosso coração a ponto de nos dar algum tempo para remoer nossa mágoa. E Deus sabe tanto de nossa imperícia para resolver problemas que, por Sua graça, costuma nos mostrar o caminho quando, ao abrir os olhos, percebemos que do nosso jeito não deu certo.

O terceiro erro é achar que, ou por mérito de nossas ações e palavras bem planejadas, ou por misericórida divina, tudo está bem porque acabou bem, ou seja, porque aparentemente nosso problema foi rsolvido sem maiores consequências. Não houve dor, suspiros, gritos ou gemidos de dor, ninguém morreu, nem matou, nem tentou o suicídio. Nenhuma testemunha de nossos erros, ninguém ferido para nos cobrar promessas ou indenizações por danos morais. Então tudo certo, ok? É o terceiro erro, eu dizia. O fato de não sermos capazes de ver consequências em nossos atos não quer dizer que elas não existam e sejam terríveis. Mesmo que não tenha havido dor da sua parte, ou da parte contra quem você pecou, um Ser nos céus sentiu sua ofensa.

Para o mais "perfeito" dos pecados, há sempre uma consequência espiritual. Talvez você não possa ver, mas se uma fotografia pudesse lhe mostrar envolto no mundo sob qual influência você está, o que você veria? O mesmo que Jeazir, que viu-se cercado de exércitos celestiais quando Eliseu pediu ao Senhor que lhe abrisse os olhos (2 Reis 6: 17)? Ou a dura (e muitas vezes esquecida) realidade de que fala Efésios 6:12; "Pois não é contra carne e sangue que temos que lutar, mas sim contra os principados, contra as potestades, conta os príncipes do mundo destas trevas, contra as hostes espirituais da iniqüidade nas regiões celestes."? Nossas palavras e ações de âmbito espiritual se conectam com anjos do bem ou do mal, e debaixo de sua influência nos colocamos mesmo quando não exergamos nenhuma consequência palpável na nossa realidade meramente carnal. Um pecado não está resolvido quando deixa de imprimir dor visível. Todo pecado só é apagado por completo por meio do sangue de Cristo, suplicado com arrependimento e desejo de não mais pecar. Só a partir da jsutificação em Cristo pode-se não temer o pecado cometido. Antes disso ele sempre será mais um dardo - muitas vezes escondido - nas mãos de Satanás.

Errar e errar sequencialmente faz parte de nossa natureza carnal, decaída. Mas errando conhecemos mais uma face da maravilhosa graça que nos alcança. É Deus quem cuida para que nossos passos não se desviem. É Deus quem nos toma pela mão e nos ajuda a reencontrar o caminho quando nos desviamos. É Deus que extermina a influência do pecado sobre nossa vida. E é Ele quem nos concede o desejo de não tornar a pecar. Não há mérito algum nas nossas ações ou palavras bem intencionadas, é nele que está o nosso querer e o relizar (Romanos 7:18). Todo bem que fazemos, queremos, recebemos vem de Suas mãos. Por isso mesmo, nada feito por nós podemos Lhe dar. Nenhuma prova de como aprendemos bem as lições bíblicas, os sermões, as palestras... quando usamos de nossa melhor capacidade de discernir, escolher e decidir, resolvemos Lhe dar não menos que toda a nossa vida. Só nessa entrega absoluta encontramos existência plena, só nessa dependência completa nossa vida cumpre seu significado aqui na Terra e afirma o melhor que há em sua humanidade.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Adveniat - Centro

O cartaz no ônibus informava objetivamente a respeito das mudanças no trânsito do centro da cidade por ocasião do carnaval. Não pedia desculpas pelos transtornos, não dava alternativas satisfatórias, não dava número de telefone para sugestões e críticas. Apenas comunicava secamente as mudanças que haveriam de alterar por uma semana a rotina e o humor de todos os recifenses que precisassem passar por ali. Fiquei pensando sobre a mensagem nas entrelinhas daquele cartaz: “Você está em Recife, uma cidade carnavalesca que por estes dias estará toda voltada para o comércio festivo. Não nos preocupamos com o que você pensa, se gosta ou não das mudanças para o carnaval ou do próprio carnaval, porque você não é o foco de nosso interesse. Portanto, se se sentir incomodado procure a BR 101 e siga seu rumo para longe daqui.”

Diante de um “Ame-o ou deixe-o” nós sempre deixamos Recife por essa época e nos escondemos nas paisagens potiguares. Lá podemos meditar com mais calma e inspiração no amor de um Deus que se preocupa em detalhes com Seus filhos. Se não fora assim, por que teria colocado na obra da Sua criação cores, sabores, texturas, odores e sons tão diversos e tão agradáveis em sua amplidão? Nas várias matizes de uma flor, pessoas de diferentes gostos visuais podem se sentir tocadas por uma mesma beleza que remete ao sublime. Aos diferentes cheiros do campo, boas memórias vão se associar em tipos humanos diversos, e em cada um vai virar um alento futuro, uma saudade afável. Entre as digitais de bilhões de seres espalhados pelo planeta, você certamente encontrará pelo menos um par de mãos que lhe será tão doce ao toque que você desejará tê-las por perto o resto da vida. Em toda a obra feita pelas mãos de Deus há uma manifestação de graça escondida, pronta a alcançar cada um de Seus filhos.

Por que é assim? Porque entre todas as criaturas da Terra estamos no centro do interesse divino. Há filósofos que criticam essa característica cristã, que de tão afirmada ao longo da História, queria até fazer da Terra o centro do sistema solar. No entanto o cristão que conhece a seu Deus não faz essa afirmação por esnobismo ou egocentrismo, mas por reconhecimento de um amor demonstrado de maneira incontestável na Revelação de Sua Palavra e Sua criação. Tenho um Deus que diz ser capaz de entregar reinos por Seu povo (Isaías 43:4). E que me oferece incontáveis provas de aceitação, desde o gosto da minha fruta preferida até um som vespertino que ninguém mais percebeu, mas que falou ao meu coração dizendo “Vinde a Mim”.

Entre os muitos caminhos que Cristo tem para chegar ao nosso coração, um há de lhe alcançar e fazer você sentir-se amado, respeitado, de forma única, tal como o ser que você é. Mesmo que a humanidade prefira entorpecer os sentidos para festejar a carne, há um prazer espiritual guardado em muitos detalhes cotidianos (ou fora dele), esperando para ser contemplado e vivido. Um prazer que não pode nos ser tirado, pois traz os ecos da Eternidade. Muitos pedacinhos do céu são plantados em nossos caminhos, mas só somos capazes de desfrutá-los quanto não passamos com pressa por cima deles: “A Terra está cheia da bondade do Senhor” (Salmo 33:5); “Quem é sábio observe estas coisas e considere atentamente as bondades do Senhor.” (Salmo 107:43)

“Acaso não tendes tido quadros luminosos em vossa vida? Não haveis experimentado preciosos momentos, em que vosso coração pulsou de alegria à influência do Espírito de Deus? Volvendo o olhar aos capítulos de vossa passada existência, não encontrais algumas páginas aprazíveis? Acaso as promessas de Deus, quais flores fragrantes, não medram a cada passo na vereda que trilhais? E não permitireis que sua beleza e suavidade vos encham de gozo o coração? (...) Graças a Deus pelos quadros luminosos que nos tem apresentado! Enfeixemos todas as benditas promessas de Seu amor, a fim de sobre elas poder deter continuamente o olhar.” (Ellen G. White, Caminho a Cristo, p. 117 e 118)

Que ao contemplar a luz que incide nesses feixes de amor Divino, possamos nós, que somos o centro de Seu amor aqui na Terra, torná-Lo o centro de nossas vidas também.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Quantas coisas você não consegue fazer ao mesmo tempo?

Não escrevi neste fim-de-semana porque estava em um congresso para evangelistas que aconteceu no ENA. Foi um belo congresso, num lindo lugar, com pessoas amadas e comida maravilhsoa, heheheh. E tudo dado de presente pelo pastor. Amazing Grace!
-----------------------------------------------------------

Ao contrário do que incentiva nosso século de velocidade, eu não consigo fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Logo que conheci a internet achei que era apenas imperícia de minha parte, mas hoje, dez anos depois, cheguei a conclusão que é total incapacidade mesmo. Acho fantástico observar como amigos meus conseguem conversar com quinze pessoas ao mesmo tempo num Messenger, e, ainda ao mesmo tempo, checar os e-mails, olhar uma home page, fazer uma pesquisa no google, baixar um arquivo, responder a uma pergunta do chefe (sem que este veja o bate-papo), atualizar o blog e ainda comer um sanduíche sem derrubar uma migalha sobre o teclado. Eu não consigo sequer esse último item enquanto estou na frente do computador!

E não é assim apenas no mundo virtual. Não sei o que seria da minha missão de mãe sem minha boa babá por perto, me ajudando a coordenar os mil afazeres que um bebê demanda. Na cozinha tenho que fazer uma coisa de cada vez, se não algo vai ficar sem sal, queimado ou cru. O resultado é que enquanto minha mãe gasta uma hora e três panelas para preparar um almoço eu gasto quatro horas e todas as panelas do armário. As vezes em que quis me meter à besta de fazer algo fora da cozinha enquanto o fogão estava ligado renderam desde miojo queimado até panelas com fundo derretido. Certa vez consegui queimar a pipoca enquanto conversava com um amigo em frente ao fogão...

Não obstante meus problemas mentais característicos, acho que o nosso século exalta demais quem consegue se virar sozinho para fazer tudo, e quem consegue fazer tudo ao mesmo tempo. Embora busquemos nos especializar cada vez mais, somos cobrados para dar conta de um milhão de problemas diferentes, e somos considerados “bons” quando conseguimos realizar o máximo de tarefas num tempo mínimo e sem a ajuda de ninguém. É engraçado mas hoje tem se tornado absurdo deixar que outras pessoas ajudem. É como se isso tirasse os méritos, colocasse sombra sobre as conquistas. Por isso mesmo é cada vez mais difícil para o ser humano contemporâneo lidar com a sensação de impotência. Ele, que é cobrado para ser capaz de resolver tudo sozinho, rápida e simultaneamente, amarga com tristeza extrema quando se depara como instransponível. Mas nessa hora, até para Deus chegar junto está difícil. Apelar para Deus seria confessar-se fracassado, e o auxílio divino tiraria o brilho da vitória. O homem desafiado pelo problema cairia para o lugar de salvo ao invés de fulgurar no lugar do salvador. E há quem prefira constar como fracassado a ser flagrado, frágil e pequenino, nos braços de Deus.

Mas a onipotência ainda é um atributo que só a Deus pertence. E a impotência pode ser uma boa oportunidade para questionar o valor das coisas que queremos transpor. Eu já acho que pensar, escrever e respirar ao mesmo tempo seja algo incrível para mim. Ter o controle de todo o presente e futuro na minha vida seria um desatino. Pelo contrário; alguns dos meus planos mais benevolentes não funcionam apesar de muito bem estruturados, e algumas maldades que maquino fazer quando estou com raiva de Deus falham antes de eu me sentir uma menina má. Há sempre fatores que estão além do meu alcance e que vez ou outra impedem meus planos de se concretizarem, quer sejam bons, quer sejam maus. E eu até já ousei reclamar com Deus dessas intervenções que seriam coincidência demais para acontecerem com tanta freqüência e eficácia, tirando-me a humana capacidade de querer e realizar (Filipenses 2:12 e 13).

A sensação de impotência para manejar o próprio destino é algo que mexe com os brios do ser humano. Mas é algo com o que os filhos de Deus precisam aprender a lidar, porque se por um lado Deus lhes deu livre arbítrio, Ele os ama demais para os deixar sozinhos em sua caminhada. Mesmo quando merecemos sofrer as conseqüências de nossos atos errados e amargar decepções vindas dos mais bem intencionados - mas imprudentes - planos, Deus não permite a seus filhos sofrimento desnecessário. Este é o princípio da graça que está expresso no verso: “Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar.” (I Coríntios 10:13). O versículo no entanto não diz que Deus nos consultará sobre a conveniência de suas decisões em nosso favor. Deixar Deus nos ajudar pode ser um processo de doloroso aprendizado, em que nem se enxergue o auxílio de pronto, e em que a dependência nos ensine a nos desprendermos mais e mais das mesquinharias humanas, do egoísmo, da incapacidade de dar e receber. E nos faça começar a listar quantas coisas não conseguimos fazer ao mesmo tempo.