quinta-feira, 23 de junho de 2005

40 dias procurando Luz - Dia 40

Texto Bíblico do dia:

Apocalipse 21:5 - "E o que estava assentado sobre o trono disse: Eis que faço novas todas as coisas..."

O programa de Deus para a minha vida hoje:

Pela semelhança com o Espírito Criador de Deus, fazer novas também todas as coisas.

Meditando:

O sábado chegou chuvoso. Mas não percebemos. Eu tocava "Deus é tão bom" no teclado e meu marido me acompanhava com a flauta. Na singeleza desse momento estava toda a percepção de nossa existência.

A jornada acabou? A chuva me diz que não. Como no primeiro dia, a chuva continua... a jornada também. E só me dei conta, com clareza, do que isso significa ontem, no meio de uma mais uma crise. Não sei o caminho que Deus usou para chegar ao coração dos seus outros filhos que também estão orando e meditando durante estes quarenta dias. Mas comigo ele usou do estado crítico. Aquele em que todas as cordas do ser parecem estar tensionadas ao máximo, e um toque sequer pode desconcertar todo o sistema.

Amanhã, quando nos encontrarmos todos para partilhar de nossas experiências, ouvirei feliz dos milagres que Deus operou na vida de uns, das soluções felizes aos problemas de outros. E eu hei de me alegrar. Mas ao falar de mim, só poderei dizer que o que Ele me concedeu doeu muito, e doeu através de muitas dores, seguidas, simultâneas, intensas, dores que eu não conhecia, que não queria conhecer. Mas Sua dádiva é provavelmente a maior que Ele poderia conceder a um ser humano: o conhecimento de Deus. Não obtive respostas? Sim, muitas, mas quase nenhuma dizia exatamente o que eu queria ouvir. Conceitos significativos do que é religião e cristianismo foram moldados e polidos junto com meu próprio espírito durante este tempo. E ontem, no meio de mais uma dor profunda, Deus me mostrou como num espelho límpido seu trabalho em mim.

Como somos tolos! Buscamos a Deus por causa de nós mesmos. E vivemos assim também, com tudo apontado para nosso umbigo. Diante da oportunidade de nos aproximarmos mais dEle, começamos a enumerar a possíveis vantagens que isso trará para nós. Poderá resolver nossos problemas emocionais, financeiros, familiares, profissionais, espirituais! Ficaremos fortes, santos, felizes! Não quer Deus nos ver assim? Por certo que sim. Mas não somos OS ÚNICOS a que Ele quer ver assim. A única razão de nos tornarmos fortes, santos e felizes, é viver para tornar aos outros fortes, santos e felizes. E embora haja uma verdade especial a ser revelada a cada filho Seu, essa verdade em particular foi o que Ele cravou em meu peito. "Trago em meu corpo as marcas do Senhor Jesus" (Gálatas 6:17). Estou crucificada com Cristo. Agora sei o que é ser cristão. As marcas que carrego hoje, aquelas que recebi dEle, me dizem que não vivo para nada mais que para servir. O doloroso processo de descoberta já se fez. A aceitação e vivência dessa verdade é a continuação da jornada. O fim, será quando eu puder dizer: "Já não sou eu quem vivo, mas Cristo vive em mim"(Gálatas 2:20).

Hoje, para mim, cristianismo é muito mais que a beleza que lhe queremos dar. Um dia desses descobri que o mito das "pegadas da areia" não condiz com o processo bíblico de santificação, em que precisamos sempre andar com nossas próprias pernas. Outro dia, percebi que vida cristã não é uma espécie de loteria que, um dia, lhe premiará com uma história fantástica de um milagre longamente esperado. Isso pode até acontecer. Mas não é por isso que sou cristã. Hoje, tudo no cristianismo me faz crer que a minha vida é apenas um instrumento, que tudo que vivo apenas me prepara para ser um instrumento melhor, mais preciso. Não há mais o menor espaço para mim! Meus pais, minha faculdade, meu trabalho, meus sonhos, meu casamento, meus filhos, minha religião, tudo funcionam como meio de me ensinar a viver, e não como fim da minha vida! Ademais, se eu viver apenas para mim, o cristianismo que professo nunca me possibilitará ser totalmente feliz neste mundo, onde milhões de infelizes jazem ao meu redor! Enquanto cristã eu nunca poderei me conformar com isso e fazer de conta que está tudo bem com minha vidinha egoísta! Mas se eu me ocupar do outro, terei um sentido e uma satisfação de verdade: levar essas pessoas para um mundo melhor. O fato de eu ir junto é mero detalhe, quero apenas mostrar o caminho, e em conseqüência também chegarei lá.

Cristianismo também é ir de encontro à lógica humana.Vencer não é sempre se dar bem. Vencer, às vezes, pode ser aprender a sofrer. Sofrer por sua própria causa e por causa do outro. É ver nesse sofrimento também um sentido. A graça de Deus se mostra em algumas historinhas que contamos para as crianças, dizendo das pessoas que receberam coisas maravilhosas de Deus e viveram de maneira tranqüila e pacífica para sempre. Mas o cristianismo, o cristianismo para mim se revela nos milhares de mártires - santos, irrepreensíveis, cheios de fé, que foram além do limite do sofrimento e deram as próprias vidas em nome do sentido que encontraram em Deus. E quanto ao que diz a Bíblia? "Os justos clamam, e o Senhor os ouve, e os livra de todas as suas angústias." (Salmo 34:17). Como somos tolos! O Senhor o ouve e o livra porque a angústia do justo nunca está voltada para si mesmo. Se tem a certeza que cumpriu a vontade de Deus nesse mundo, o justo não tem motivo de angústia. Nesse sentido, mesmo a morte pode ser uma resposta aceita com felicidade e alegria. "Para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro" (Filipenses 1:21). E se a morte pode ser aceita assim, o silêncio de Deus também pode. Sem nenhuma decepção, sem nenhuma mágoa. Pois o silêncio dEle, agora, me ensina a morrer um pouco mais, para deixá-lO viver em mim.

O resultado mais significativo dessa jornada de quarenta dias é que agora está bem claro para mim o que Deus quer para minha vida. Aceitar isso e praticar é um longo caminho... mas eu quero muito caminhar. Sei que terei de abandonar algumas das coisas que quero, adiar outras, voltar todas para um fim que vise aos seres que me cercam, e não a mim. Mas agora que consigo entender isso, não tenho medo.Sinceramente me sinto cansada, fraca, pequena demais, e alguma dor ainda reverbera... e não foi assim com Noé depois dos 40 dias na arca? Quantos dias mais até ver o arco da aliança? Não foi assim com Moisés ao voltar do Sinai depois dos 40 dias, com um povo idólatra e ímpio lhe esperando quando ele estava cheio de sonhos? Não foi assim com os espias, quando, por sua fé provada durante 40 dias, quiseram lhes matar? Não foi assim com Elias quando depois de 40 dias teve que voltar para o maior e mais atemorizante desafio de sua vida? Não foi assim com Jonas quando enfrentou o próprio orgulho depois dos 40 dias que pregou que Nínive seria destruída, e Deus não a destruiu? Não foi assim com o próprio Cristo, depois dos 40 dias no deserto, quando foi duramente tentado e tão duramente que anjos tiveram de vir em seu socorro? Não foi assim com os discípulos, que depois dos 40 dias que antecederam a ressurreição, saíram para pregar e caminhar para o martírio?

Como somos tolos! Deus transformou a vida deles todos depois de 40 dias, mas não porque tenha tirado todos os problemas de suas vidas! Pelo contrário! Os problemas às vezes até aumentaram! A grande transformação ocorreu porque Deus os encheu de poder!E eu quero esse poder. Mas não o receberei enquanto não estiver disposta a aceitar também a missão que Ele tem para mim. Como somos tolos! Mas toda a dor que senti para conseguir ter em meu próprio corpo as marcas do Senhor Jesus, me provaram que mesmo tolos, somos instrumentos indispensáveis para o cumprimento do plano de Deus na história da salvação da humanidade. E nisso está o amor.

quarta-feira, 22 de junho de 2005

40 dias procurando Luz - Dia 39 (Misa Criolla)

Texto Bíblico do dia:

Salmo 34: 17 - 19 - "Os justos clamam, e o Senhor os ouve, e os livra de todas as suas angústias. Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado, e salva os contritos de espírito. Muitas são as aflições do justo, mas de todas elas o Senhor o livra."

O programa de Deus para a minha vida hoje:

Descobrir o programa de Deus para a minha vida hoje (posso me dar um dia todo para descobrir isso).

Meditando:

Deus escolhe muitos meios para se revelar a nós. Não precisa ser o meio que esperamos. Não tem que ser no tempo que queremos. Mas o melhor é que às vezes Ele também se revela da forma que nos dá mais prazer. Hoje Ele me veio através do Glória da Misa Criola*, uma obra sacra do argentino Ariel Ramírez. Gosto dessa obra porque ela foi beber no sentimento do povo, suas melodias e ritmos sugerem a fé pura e simples de uma grande massa sul-americana sedenta de Deus e Sua justiça, satisfeita em dar-lhe graças. Obras assim, especialmente as que têm como referência outras culturas, são um grande exercício de sensibilidade - tanto musical como espiritual - e eu amo isso.

Das versões que ouvi da Missa Crioula, especialmente do Glória (uma parte da obra), a que mais me chamou atenção foi justamente a versão mais popular, aquela que foi difundida na voz de Mercedes Sosa. E não apenas sua voz poderosa me cativa, como a interpretação geral do coro e solista. É muito interessante perceber o acentuado contraste entre os dois andamentos que compõem a música. O primeiro, "carnavalito"**, é um andante festivo, cheio de cores, luzes, efervescente, e a voz de Mercedes tem algo de visceral a que o coro dá uma força imensa. A variação de intensidade tem uma única direção, que sugere a apoteose de todos os sentidos.

Mas é quando temos essa nítida impressão que entra o segundo movimento. Um largo, "Yaravi"***, que nessa versão em particular não tem o menor pudor de "estragar a festa". De repente, bruscamente, todos os sentidos, outrora exaltados, têm de se render a pianíssimos murmurados pelo coro e entrecortados apenas pela voz agora quase lúgubre da cantora. Comigo, particularmente, isso não acontece sem alguma dificuldade. Para onde foram todas as cores? Para onde foi a luz? A base harmônica, o "chão" de quem escuta a música, torna-se uma amplidão fria e trêmula que, embora plana, nos envolve ainda mais intensamente, justo agora que nosso espírito está quieto e contemplativo, com algo oprimindo ou comprimindo o peito, não sei ao certo... acho que escolheria o termo "comprimindo", porque o que pesa sobre o coração nesse momento é o peso do próprio ser. No entanto, nesta reflexão há paz.

"Senhor Jesus Cristo, Filho Unigênito,
Senhor Deus, Cordeiro de Deus, Filho de Deus Pai,
Tu que tiras os pecados do mundo
Tem piedade de nós"



Depois de termos reconhecido a Deus e a nós mesmos nesse lugar, volta, também súbito, o "carnavalito". Voltam as cores, a efervescência, a força, o ritmo que por si só nos move em meio a festa dos sentidos. Mas agora compreendemos: isso tudo é uma ilusão. O que há no fundo de tudo isso, o que se esconde atrás dos sons fortes é o que realmente existe e perdura; um lugar onde a grandiosidade nos sufoca. Onde a leveza nos esmaga. Por trás do nosso mundo existe Deus. E a Ele deve ser dada toda a Glória. Tudo que encobre essa constatação é um breve torpor. Os começos, fins, recomeços, pausas, ciclos, tempos, perdem sua razão de ser quando o que é Eterno nos convida. É no encontro com Deus que descobrimos o que, de fato, é viver.



*Para ouvir a Misa Criolla (Windows Media ou Real Player), clicar AQUI

** carnavalito - se considera como la máxima expresión de alegría de un pueblo acostumbrado a la vida dura y escueta, y ha de ejecutarse alegre e inocentemente como si jugaran felices todos.

*** El Yaraví es "la canción más triste del mundo", en opinión de muchos conocedores que la oyeron en lo alto de los Andes sudamericanos.

terça-feira, 21 de junho de 2005

40 dias procurando Luz - Dia 38

Texto Bíblico do dia:

I Crônicas 29: 17 - 19 - "E bem sei, Deus meu, que tu sondas o coração, e que te agradas da retidão. Na sinceridade de meu coração voluntariamente ofereci todas estas coisas; e agora vi com alegria que o teu povo, que se acha aqui, ofereceu voluntariamente. O Senhor, Deus de nossos pais Abraão, Isaque e Israel, conserva para sempre no coração do teu povo estas disposições e estes pensamentos, e encaminha o seu coração para ti. E a Salomão, meu filho, dá um coração perfeito, para guardar os teus mandamentos, os teus testemunhos e os teus estatuto, e para fazer todas estas coisas, e para edificar o palácio para o qual tenha providenciado."

O programa de Deus para a minha vida hoje:

Ser um lugar onde a glória de Deus possa habitar.

Meditando:

As palavras do texto bíblico acima foram ditas em oração por Davi pouco antes do relato de sua morte. Sua maior preocupação então parecia ser que a posteridade continuasse a obra do Templo começada por ele, o que não foi pouca coisa e mobilizou todo o povo de Israel. A vida inteira de Davi foi marcada por grandes vitórias e magníficas atuações divinas. No entanto, nessa última oração pública percebemos um Davi humilde, se sentindo pequeno, indigno, frágil, reconhecendo que tudo que fizera não fora obra sua, mas concessão de Deus. Nenhuma menção ao seu passado de glórias, nenhuma exaltação ao belo planejamento do Templo que executara, Davi, com uma serenidade perturbadora, assume a pobre postura de servo que procura o que ainda falta fazer a seu Senhor. No entanto a Bíblia nunca o projeta de forma tão grande perante o povo - e perante Deus - como naquele momento. Nem ao vencer Golias, nem ao derrotar Saul, nem ao vencer os muitos exércitos inimigos, Davi não me parece tão altivo como naquele momento de oração humilde perante Israel. Não vejo apenas um Davi rei, mas um Davi amadurecido, pronto para descansar no seio de Deus.

"Tua é, ó Senhor, a grandeza, e o poder, e a glória, e a vitória, e a majestade, porque teu é tudo quanto há no céu e na terra; teu é, ó Senhor, o reino, e tu te exaltaste como chefe sobre todos. Tanto riquezas como honra vêm de ti, tu dominas sobre tudo, e na tua mão há força e poder; na tua mão está o engrandecer e o dar força a tudo." (versos 11 e 12). Davi sabia que se seu filho Salomão não guardasse a Deus em seu coração, a obra do Templo não seria concluída com sucesso. E que se o povo não permanecesse fiel, de nada adiantaria tanto esforço para adorar ao Deus Eterno. A obra do Templo não era obra para ser concluída em uma ou duas gerações, mas perpetuada através do tempo até a Eternidade. É por isso que, do alto de sua sabedoria, Davi não olhou para o passado, mas para o futuro, não se preocupou em contar as vitórias da sua juventude, mas em impressionar o coração dos novos jovens.

Há nessa atitude uma mensagem muito especial para nosso cristianismo hoje. Quando nos propusemos a ser novos homens e mulheres, renascidos através do Espírito de Deus, também nos propusemos a andar em novidade de vida. Mas a história de um cristão é marcada por "altos e baixos", momentos de fé zelosa e momentos de pecados escabrosos. Quando nossa fé está em baixa tendemos a olhar para trás com saudosismo e dizer: "Bons mesmo eram os velhos tempos...". O primeiro erro que cometemos com essa postura é ignorar as dificuldades e pecados do passado. Depois, limitamos nossa capacidade de crescer, tomando como parâmetro o que fomos e não o que podemos vir ser. "Ninguém tira um pedaço de um vestido novo para o coser em vestido velho; do contrário, não somente rasgará o novo, mas também o pedaço do novo não condirá com o velho" Lucas 5: 36.

Aqui no meu computador tenho algumas pastas com mp3 que me fazem reencontrar com a velha Luciana sempre que quero. Outro dia, por exemplo, não porque cargas d´água me peguei escutando Cássia Eller. E como é normal acontecer com músicas, fui levada a me lembrar de um período específico da minha vida. Eu estava alegre, descobrindo novas facetas do mundo e de mim mesma, empolgada com a literatura e com as artes, e apaixonada. Suspirei sorrindo. Mas acabei me lembrando que nessa época também enfrentei uma grande crise espiritual, conflitos com pessoas da igreja, desânimo na fé... resolvi escutar um mp3 da pasta gospel: Sandi Patty. Ah, que maravilha! Lembrei que na época em que comecei a escutar aquela música, estava toda feliz descobrindo que podia fazer versões para músicas, e as pessoas elogiavam o que eu escrevia, e eu estava engajada na igreja como nunca antes nas atividades eclesiásticas... suspirei sorrindo. Mas lembrei que também nessa época me sentia constantemente sozinha, sem amigos, sem ninguém para amar e enfrentava uma crise no meu relacionamento familiar. Suspirei mais uma vez: o que há mesmo de tão mágico no encontro com o velho homem?

Há coisas boas e ruins para lembrar no velho homem. Mas antes de suspirar com "saudades das panelas de carne do Egito", antes de dizer que bom mesma era antigamente, antes de eleger o passado como padrão para aquilo que gostaríamos de tornar a ser, lembremo-nos que Deus quer trabalhar num novo homem. O que passou é experiência, são os tijolos que foram postos um sobre o outro a fim de construir, lenta e estrategicamente, a base sobre a qual o Espírito quer atuar hoje. E nesse sentido o saudosismo não ajuda. Biblicamente, olhar para trás nunca é uma boa idéia, e quando a mulher de Ló o fez não creio que estivesse lembrando apenas de coisas ruins... Coisas ruins? Depois que Cristo nos perdoou não temos mais o direito de nos demorar nelas. Coisas boas? Nada fizemos, tudo foi Deus quem nos concedeu a seu tempo. E "há tempo para todo propósito embaixo do Céu" (Eclesiastes 3:1).

O apóstolo aconselha: "Expurgai o fermento velho, para que sejais massa nova, assim como sois sem fermento..." (I Cor. 5:7). O fermento que nos infla de culpa ou de orgulho não ajuda em nada. Para que Deus conclua em mim a obra que um dia começou, vou "esquecendo-me das coisas que atrás ficam", sejam elas boas ou más, tomando-as apenas como degraus, "e avançando para as que estão adiante", pois Deus tem um plano tão único para mim, como eu mesma sou única, como único é este segundo de existência. A minha história não deve ser a repetição ou negação de atos passados, mas a construção de um futuro ímpar. Isso também significa livrar-se da auto-suficiência, que quer indicar a Deus o que é certo e o que é errado com base na nossa paupérrima experiência humana. Os modelos divinos, sejam aqueles que identificamos na nossa vida, sejam aqueles que identificamos na vida dos santos, são como modelos artísticos, que não são copiados, mas interpretados e, assim, tornados únicos. É daí que nasce a beleza da perfeição. É assim que nós crescemos diante de Deus.

segunda-feira, 20 de junho de 2005

40 dias procurando Luz - Dia 37

Texto Bíblico do dia:

Provérbios 22:17 - 19 - "Inclina o teu ouvido e ouve as palavras dos sábios, e aplica o teu coração ao meu conhecimento. Porque será coisa suave, se os guardares no teu peito, se estiverem todos eles prontos nos teus lábios. Para que a tua confiança esteja no senhor, a ti tos fiz saber hoje, sim, a ti mesmo."

O programa de Deus para a minha vida hoje:

Gastar meu tempo, energia e preocupação, prioritariamente, naquilo que tem a ver com a Eternidade.

Meditando:

O melhor amigo do meu marido na cozinha é o liquidificador. Como ele não gosta de melecar as mãos, detesta literalmente "botar a mão na massa", e não tem muita paciência em juntar ingredientes, prefere colocar tudo no liquidificador e resolver rapidinho todas as questões culinárias. Dessa forma ele faz gostosos bolos, assados, purês, molhos, e qualquer coisa que se possa ser triturada e esmagada durante o preparo. Uma das minhas maiores dificuldades é fazê-lo entender que não deve usar o liquidificar para cortar as cebolas do molho. "Mas como não? Fica tudo bem trituradinho, é bem mais prático do que ficar com as mãos cheirando mal!". Então eu tento argumentar que parece prático, mas cebola passada no liquidificador não fica como mesmo gosto de cebola cortada em pequenos cubinhos. É como o alho triturado que vendem em potinho no supermercado, que nunca tem o mesmo gosto do alho amassado no pilão da vovó. Aí é que a confusão aumenta. Para ele, como esse argumento não tem lógica, é insustentável (se eu tivesse estudado mais química talvez pudesse até argumentar melhor). A única forma de eu tentar convencê-lo é fazer parte da comida com cebola picada e parte com cebola passada no liquidificador, fazendo-o comprar o resultado final, que de fato é bem diferente.

Infelizmente existem coisas bem mais difíceis de entender que a influência do corte da cebola na culinária caseira. Durante nossa vida nos deparamos com dúvidas que simplesmente não têm respostas. Há quem arrisque a nos mostrar argumentos que no entanto, não nos convencem, não parecem fazer sentido. Não creio que seja necessário fazer listas dessas dúvidas, mas só preciso citar questões como o sofrimento, a morte, os acidentes, as doenças letais, para despertar algumas delas. Sendo menos trágica, poderia citar também o desemprego, a solidão, a injustiça, a pobreza, e mais questões surgiriam sem respostas. O problema não é tanto uma abordagem sociológica e econômica, às vezes não se trata nem mesmo de sabermos o porquê de tudo isso, mas para quê tudo isso? Essa pergunta só é útil quando tem uma resposta. E por mais que tentemos não pensar nela, ocupando-nos de coisas mais práticas, sempre haverá o momento terrível em que nos chocaremos de novo com o inevitável "para quê"?

Há pessoas muito inteligentes que vivem de estudar os "porquês" e "para quês" da vida, mesmo que não estejam necessariamente a busca de uma resposta. Elas fazem melhor que as pessoas que preferem não pensar sobre o assunto. Mas as pessoas mais privilegiadas são, com certeza, os cristãos, que receberam a resposta mais completa e concreta de todo o universo: o próprio Jesus Cristo. É nEle que são respondidas todas as minhas dúvidas, receios, medos, questionamentos. Porém sua resposta não satisfaz a mentes cartesianas. Ela é, sobretudo, uma resposta de fé: "Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida" (João 14:6).

Se acha que isso não passa de retórica, pense na vida de Cristo. Ele não disse porque coisas ruins acontecem, mas passou por coisas ruins. Ele não explicou a finalidade das injustiças, mas foi injustiçado. Ele não disse porque as famílias se desentendem, mas foi rechaçado na sua própria família. Ele não disse porque Deus permite a pobreza, mas foi pobre. Ele não falou por que uns, e não outros, adoecem e morrem, mas chorou diante da morte de um amigo. Nos fatos cotidianos não encontramos respostas, mas em Cristo encontramos o Caminho, a Verdade a Vida. E isso pode ser a resposta mais útil de todas, a resposta que traz a paz, "Porque será coisa suave, se a guardares no teu peito". Se Cristo, sendo Deus, sofreu e conheceu a dor tanto quanto eu, Ele sabe como me sinto, eu sei que nossa dor não é vã; ela tem uma finalidade e um dia terá fim. Desenvolvendo esse tipo de confiança, eu passo a crer na Sua promessa de que um dia este mundo será restaurado, e canalizar minhas energias para essa esperança passa a ter um sentido que as dúvidas e os questionamentos são incapazes de me prover.

É claro que gostaríamos de respostas mais específicas. De um Deus mais visível, que aparecesse no meio de uma tempestade e mostrasse que há um Deus poderoso sobre nossas cabeças. A resposta que Cristo oferece pode não satisfazer (como não satisfez na época em que aqui viveu), porque vem revestida da nossa humanidade, da fragilidade de nossa carne e nervos. Mas a melhor resposta que Deus poderia nos dar, ainda é Deus-Conosco.

domingo, 19 de junho de 2005

40 dias procurando Luz - Dia 36

Texto Bíblico do dia:

Amós 9: 13 - 15 - "Eis que vêm os dias, diz o Senhor, em que o que lavra alcançará ao que sega, e o que pisa as uvas ao que lança a semente; os montes destilarão mosto, e todos os outeiros se derreterão. Também trarei do cativeiro o meu povo Israel; e eles reedificarão as cidades assoladas, e nelas habitarão; plantarão vinhas, e beberão o seu vinho; e farão pomares, e lhes comerão o fruto. Assim os plantarei na sua terra, e não serão mais arrancados da sua terra que lhes dei, diz o senhor teu Deus."

O programa de Deus para a minha vida hoje:

Compreender que bênção há na minha fome e sede de justiça.

Meditando:

Na minha infância eu, como muitas outras crianças, reverenciava os heróis invencíveis, aqueles cujos super poderes eram capazes de vencer qualquer espécie de mal e salvar a Terra (ou pelo menos os EUA) todos os dias. Na infância da humanidade também foi assim. Durante muito tempo o homem forjou heróis que eram aplaudidos e reverenciados enquanto venciam. Herói era aquele que se destacava por nunca ser derrotado. Fazer o bem ou não era apenas um detalhe, herói era aquele que provocava temor e tremor, aquele que botava medo só com a presença, aquele ser acima da ira e da fraqueza dos meros mortais. Por outro lado, a vítima era um coitado, que só servia para jogar mais luz sobre a figura do herói.

Mas uma concepção como essa não tem sustentação em si mesma, porque os heróis humanos estão irrecorrivelmente fadados ao fracasso. Eles envelhecem e morrem, não obstante sua história de sucessos. Hoje, o que resta dessa concepção são os super-heróis infantis, que só existem na fantasia, num mundo ideal que não é o nosso. A humanidade cresceu, seus problemas também, e a figura do herói humano teve de se adaptar ao reconhecimento de nossas limitações. Herói, portanto, é hoje aquele que resiste, aquele que representa algo significativo, alcançado por várias vitórias, uma vitória apenas, ou também por derrotas. Assim, aplaudimos heróis mutilados que lutaram pelo país, heróis in memoriam que morreram em batalhas pela liberdade, heróis pobres e magros que jamais ergueram uma arma para lutar mas arregimentaram multidões pela paz, heróis com AIDS que enquanto definham ensinam a matar a fome dos outros, heróis de cabelos brancos, baixa estatura e encurvados pela idade que defendem a causa dos pobres, heróis perseguidos por fazer o bem, e tantos outros heróis-vítimas que reconhecemos com medalhas, memoriais, estátuas e prêmios nobeis.

Há, nessa mudança de concepção, um componente divino que nem sempre é reconhecido, e muitas vezes é até rejeitado pelos mais ardentes defensores da causa dos heróis-vítimas. Aquilo que o filósofo francês René Girard chamou de "a revolução histórica mais arrebatadora do mundo, a saber: o surgimento de uma empatia pelas vítimas." Quando Cristo, que como Deus tinha tudo para aparecer no mundo em glória e resplendor, preferiu encarnar como menino pobre, fugitivo, marginalizado por causa da sua origem, e no meio de um povo oprimido, Ele inaugurou uma nova maneira de ver a humanidade. E viveu de modo a ratificar sua preferência pelos pobres, doentes, fracos, cansados e oprimidos, pecadores. Os fortes da época - principalmente os religiosos - foram muitas vezes censurados por Ele. Segundo a antiga concepção de heroísmo, quando Cristo morreu, deveria ser esquecido, como apenas mais uma vítima do sistema poderoso que o cercava. Mas não foi isso que aconteceu. O poder que matou Cristo não foi reverenciado, mas desmascarado e rejeitado em favor da vítima, que ressurgiu como herói. O "Homem de dores", humilhado, foi exaltado. A violência que tantas vezes é usada no meio religioso como forma de impor a aceitação, não funcionou com o cristianismo, que começou a se expandir mais e mais, passando não só pelos romanos mas por vários outros oponentes até chegar aos nosso dias.

Por isso, hoje, quando ouvimos as vozes de multidões defendendo as minorias, clamando por justiça social, se mobilizando pelas nações de terceiro mundo, se movimentando pela beneficência do mais fraco, estamos apenas ouvindo o eco de Cristo na cruz, onde, segundo Philip Yancey, "Deus ficou ao lado da vítima". Ainda que Deus não seja tomado como referência por muitos que defendem os direitos humanos, foi da atitude dEle que partiu a base das suas reivindicações. Por isso acredito que é dEle que devemos partir se quisermos fazer o bem para as pessoas e trabalhar por um mundo melhor.

A Bíblia é a prova inequívoca de que Deus sempre se importou com o mais fraco. Quando analisamos a vida dos heróis da fé, percebemos que eles não foram os homens inexoráveis, perfeitos e poderosos que alguns tentam compor para saciar nossa imaginação infantil. Eles foram pessoas sujeitas a fraquezas, erros grotescos, grandes provações, tristezas profundas, e quando o apóstolo Paulo os mencionou da galeria dos heróis da fé de Hebreus 11 fez questão de expor sua condição de vítima (versos 37 e 38). A partir disso compreendo que eu mesma, com todas as minhas limitações também posso ser uma heroína. E que Deus, tanto quanto eu, também tem uma enorme sede e fome de justiça. Esse sentimento corre no sangue de todos que fazem parte da família de Deus, e escorreu na cruz como testemunho de que nosso anseio não é em vão. No texto bíblico de Amós temos mais que uma promessa, temos uma aspiração de Deus, que eu a imagino dita entre suspiros, com o olhar brilhando, com ansiedade. A causa dos sofredores, dos fracos, dos oprimidos, dos famintos, dos perseguidos, dos humilhados, dos discriminados, dos rejeitados, dos injustiçados, dos que choram é a causa dEle. E esses são, desde sempre, os heróis de Deus.

sábado, 18 de junho de 2005

40 dias procurando Luz - Dia 35

Texto Bíblico do dia:

II Coríntios 13: 5 - 7 - "Examinai-vos a vós mesmos se permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não sabeis quanto a vós mesmos, que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados. Mas espero que entendereis que nós não somos reprovados. Ora, rogamos a Deus que não façais mal algum, não para que nós pareçamos aprovados, mas que vós façais o bem, embora nós sejamos como reprovados."

O programa de Deus para a minha vida hoje:

Colher motivos para ser grata.

Meditando:

Na faculdade em que estudo não tem agência bancária. A mais próxima fica na reitoria, que é fora do campus, afastada de todos os centros. Hoje precisei ir ao banco e, como não havia mesmo outra maneira, fui a pé. Nunca tinha feito isso porque o caminho me parecia muito grande. De modo que, se precisava de um serviço bancário, deixava para o outro dia ou ia em uma agência próxima a minha casa. O que eu não podia fazer naquele momento... o jeito foi colocar o pé na estrada a contragosto e ir em frente.

Mas é assim, a contragosto, andando por caminhos desconhecidos, que nos colocamos a prova e descobrimos as coisas mais interessantes sobre nós mesmos e sobre a vida. Se não colocamos nosso conhecimento, nossos limites, nossa força a prova, não crescemos. E, no plano espiritual, não conhecemos a Deus. Pois se não sabemos do que somos incapazes, não saberemos do que Deus é capaz. Na prova, aquilo nos desestrutura e desafia, construímos nossa identidade: "Ou não sabeis quanto a vós mesmos, que Jesus Cristo está em vós?"

No caminho até a agência bancária descobri algo interessante sobre a minha faculdade: ela é muito bonita! Me vi no meio de trilhas arborizadas, ladeadas por riachos, lagos, flores, canteiros primorosamente esculpidos, pássaros simpáticos, cores alegres, tudo encimado por um céu que se comprazia em combinar com a paisagem. A imagem da agência bancária chegou antes do que eu esperava. Na verdade eu não me importaria que o caminho até lá fosse um pouco mais longo... a beleza acabou com minha pressa.

Acredito que a vida também pode ser assim: um caminho longo, mas belo. Depende de em que você vai fixar os olhos. Se olhar para os próprios pés pensando na distância até seus objetivos, o caminho se tornará bem penoso. Se, no entanto, se permitir olhar ao redor, colhendo motivos para ser grato a Deus, o caminho se tornará um,a fonte de bênçãos. Sempre há algo pelo que agradecer, nem que seja o próprio caminhar. Mesmo nos trechos onde não se consegue ver tantas coisa belas assim, o som dos passos pode criar música. Mas Deus nunca deixará que um cristão aberto ao que é bom chegue ao fim da jornada de alma vazia. Portanto, não meça distâncias, não tema o desconhecido, prove a si mesmo e descubra as bênçãos que estão a sua espreita no caminho.

sexta-feira, 17 de junho de 2005

40 dias procurando Luz - Dia 34

Texto Bíblico do dia:

Juízes 21: 25 - "Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada um fazia o que achava mais reto."

O programa de Deus para a minha vida hoje:

Deixar Deus teimar mais um pouquinho.

Meditando:

Acredito que palavras também têm sotaque, e aqueles que gostam muito de ler vão me entender. As palavras, mesmo escritas, guardam um ritmo, uma cadência, uma essência que denunciam seu autor, ainda que ele use diferentes pseudônimos. Há uma maneira de escolher e arrumar as palavras em cada pessoa, que não pode ser imitada por mais ninguém. Percebi isso mais fortemente em certa época, quando eu e um amigo tivemos um desentendimento e ficamos sem nos falar. Como gostávamos muito um do outro, mas éramos ambos muito orgulhosos, nos comunicávamos por mensagens indiretas. E quando eu sumi de vez, ele achou um jeito de se comunicar comigo usando um pseudônimo. Dessa forma ele sabia como estava a minha vida sem dar o braço a torcer. Eu desconfiei logo da verdadeira identidade dele por causa do "sotaque" em suas palavras. E olha que ele fazia um esforço muito grande para disfarçá-lo! Mandava textos que não tinham nada a ver com seus gostos reais, forjava certas expressões esquisitas, inventava características para seu "personagem", mas ainda assim eu conseguia perceber nitidamente que era ele pela forma como escrevia, apesar de não ter uma prova concreta. Depois de algum tempo, quando fizemos as pazes, ele acabou me confessando que era mesmo ele o curioso correspondente, e eu confessei que, sabendo disso, sempre dava um jeitinho de escrever coisas para o correspondente, que na verdade gostaria de dizer para ele...

Falo disso depois de ler algumas passagens do Antigo Testamento. O que mais me impressiona aí é a presença constante de Deus mesmo nos piores momentos, teimando em acreditar no Seu povo mesmo quando o povo não acreditava mais nEle.Consigo ver o amor de Deus tão forte no Antigo como no Novo Testamento, só que com um "sotaque" diferente a cada livro. Não poderia ser diferente, pois Deus usou diferentes homens para comunicar Suas palavras. Mas por trás desses homens é possível identificar um modo de escolher e arrumar as coisas que pertencem a uma mesma essência de amor.

Para que esta meditação signifique alguma coisa para você, é necessário que você já tenha lido os livros de Reis e Crônicas na Bíblia. Que já tenha se espantado com essas páginas cheias de histórias tristes, de traição, sangue, vingança. Que tenha se indagado, como o Cristo do Novo Testamento pode ter algo com o Deus da guerra - o Senhor dos Exércitos - do Antigo Testamento. Para que você compreenda o que tenho a dizer, é preciso que que tenha sido tocado pela história de altos e baixos do povo israelita, e se indignado com as más escolhas deles, com as muitas vezes que abandonaram um Deus que lhes falava tão de perto.

O texto bíblico de hoje fala de um povo que conhecia exatamente o significado das palavras escravidão e liberdade. Depois de muitos anos cativos, eles foram libertos por Deus e chamados para viver aqui na Terra como referencial, como nação eleita, separada, santa portanto, para ser apontada como exemplo entre as nações. Por isso Deus lhes deu a mais perfeita forma de governo: a teocracia. A mesma sob a qual viveremos quando esta Terra for restaurada. No plano perfeito de Deus, o povo só teria que seguir os Seus preceitos, fazer Sua vontade, que estava totalmente voltada para o benefício do próprio povo, e ser inteiramente livre do imperfeito domínio humano, que por mais bem intencionado que seja, redunda sempre em fracasso. Israel viveu assim por muito tempo. Mas chegou um momento que o fato de não ter um Rei concreto para lhes dizer o que fazer começou a fazer diferença. E ao invés de se orgulharem de ser uma nação diferente de todas as demais, eles começaram a se sentir incomodados por isso. A teocracia parecia não mais atender a suas necessidades. E o verso bíblico de hoje explica o porquê: eles deixaram de fazer a vontade de Deus, para fazer sua própria vontade. Deixaram de escolher o que era certo perante Deus, para escolher o que era certo diante de seus olhos e dos olhos das nações vizinhas.

Então Israel, um povo que era o mais livre da face da Terra, dirigiu-se ao profeta Samuel para pedir: "Queremos alguém que nos governe". Ora, eles não tinham a Deus? Certamente, mas Deus não vivia num palácio ostensivo, não montava à cavalo nas guerras, não se vestia de ouro para desfilar diante dos outros povos para provar quão rico era seu poderio. Mais que isso, Deus não baseava seu governo na opressão, queria apenas a lealdade, não a servidão. Mas aquele povo, que esquecera rápido do seu tempo de escravidão, clamou pela escravidão. E exigiu um rei. Essa foi a saída que eles encontraram para consertar as coisas, que não estava bem. A falha não estava na teocracia, nem em Deus, mas neles mesmos! A própria injustiça e fraqueza humana, no entanto, foi usada como pretexto para "ser como as outras nações". Acaso eram as outras nações modelos a serem seguidos? Certamente não. Todas elas passaram, mas o Rei Eterno vive. O olhar do povo, no entanto, não enxergava até aqui, mas se concentrava no seu mundinho pequeno e imediato.

Deus tinha motivos de sobra para estar magoado. Ele diz em I Samuel 8: 7: "Atende a voz do povo em tudo quanto te diz, pois não te rejeitou a ti, mas a mim, para que eu não reine sobre ele." Depois de muito teimar, Deus deixou que o povo tomasse suas próprias decisões. Ele passou anos argumentando, tentando fazer aquele povo entender seus desígnios e lhes guiar pelos melhores caminhos. Num último momento ainda teimou, mostrando-lhes o que um rei humano poderia fazer de mal com eles e seus filhos (II Samuel 8: 11 - 18). Mas diante da resistência também teimosa dos israelitas, deixou que seguissem seu caminho, pois Ele ainda era o Deus da liberdade e do respeito. Se prosseguirmos com a história veremos que, mesmo ferido e rejeitado, Deus os abençoou (isso não lembra Cristo?). Escolheu o melhor homem para ser o monarca: bonito, inteligente, capaz. E ungiu esse homem para que ele fizesse o melhor por Israel.

No entanto a conseqüência a longo prazo da monarquia foram as histórias tristes, pérfidas e sangrentas que se seguem. Analisando desse ponto de vista, percebemos que tais histórias não eram plano de Deus para seu povo, mas conseqüência da teimosia desse povo. Hoje, quando vemos inocentes morrendo e sendo injustiçados, ainda nos perguntamos, muitas vezes, por que Deus deixou as coisas chegarem a esse ponto. A questão, na verdade, é que mesmo os inocentes pagam as conseqüências das escolhas teimosas e más que o próprio ser humano vem tomando ao longo da história. E isso só terá fim quando o plano de resgate de Deus for totalmente cumprido, e Seu domínio estabelecido onde hoje o pecado reina e perverte. Até que isso aconteça uma coisa está bem certa em minha mente: é melhor deixar Deus teimar na Sua vontade para minha vida do que lhe impor minha teimosia míope.

quinta-feira, 16 de junho de 2005

40 dias procurando Luz - Dia 33

Texto Bíblico do dia:

João 7: 37 - 39 - "Ora, no seu último dia, o grande dia da festa, Jesus pôs-se em pé e clamou, dizendo: Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura, do seu interior correrão rios de água viva. Ora, isto ele disse a respeito do Espírito que haviam de receber os que nele cressem; pois o Espírito ainda não fora dado, porque Jesus ainda não tinha sido glorificado."

O programa de Deus para a minha vida hoje:

O que flui de dentro de mim é o que influi. O que está jorrando de dentro de mim?

Meditando:

Depois de casada descobri prazer em algo que, quando solteira eu detestava: limpar a casa. Nunca fui muito dada a atividades "do lar", e isso era motivo de constantes conflitos com minha mãe e minhas irmãs, que viviam reclamando da minha falta de interesse em ajudá-las. Bem, eu até queria... mas quando começava a limpar uma estante, pegava um livro e começava a ler, esquecendo da poeira. Quando ía lavar a louça me vinha alguma idéia para um texto e eu trocava a esponja pelo computador. E foi assim até o dia em que me vi dentro de minha própria casa. Minha mãe e minhas irmãs não podiam me ajudar, e eu tinha que me virar com meu marido para a casa continuar ao menos habitável. Ainda detesto lavar a louça, mas em sextas-feiras como hoje, depois de horas exaustivas varrendo, espanando, lavando e chamando a atenção de meu marido para ele não colocar a poeira embaixo no tapete, eu consigo encontrar um grande prazer no meu cansaço: o prazer da tarefa cumprida, de um ambiente agradável construído com minhas próprias mãos. Se eu pagasse alguém para fazê-lo, talvez não tivesse o mesmo gostinho. Depois da faxina semanal na sexta-feira, sempre paro por alguns minutos e contemplo minha obra com ares superiores: "Viu Luciana tudo quanto fizera, e eis que era muito bom... e havendo Luciana terminado a sua obra, descansou no sétimo dia."

Nunca pensei que diria isso, mas limpar a minha casa proporciona uma grande alegria! Ao menos depois de limpá-la. É maravilhoso passar pelos cômodos e ver tudo arrumadinho, limpo, cheirando a desinfetante, brilhando. O ruim é que essa sensação não dura muito. Depois da faxina, vem a hora de fazer o almoço do sábado e aí a cozinha (a mais trabalhosa de limpar) já não está tão admirável . Uma panela aqui, molho de tomate ali, alguns potes sobre a pia, umas gotas de azeite no chão e lá se foi minha grande obra... Depois de preparar o almoço chega a hora de culto do pôr-do-sol: uma bíblia em cima do sofá, um hinário na mesa, uma gata persa soltando pelos em cima do tapete... a sala já se desarrumou. Vamos escutar música: CDs se espalhados sobre a estante, caixas de DVDs no sofá, uma gata persa soltando pelos em cima da poltrona... a sala de TV também já era. E assim acontece com cada cômodo, de modo que antes que amanheça minha casa perdeu sua aparência de cenário de novela.

Eu poderia me preocupar mais em arrumar tudo imediatamente após bagunçar (isso também era grande causa de conflito com minha mãe), fazer um esforço tremendo para não sujar, não bagunçar, e mandar tosar as nossas gatinhas (ou passar gel nos pelos delas, como meu marido sugeriu). Poderia brigar mais com meu marido para ele também manter tudo limpo e arrumado, e desenvolver uma neurose que prolongasse mais a minha sensação de prazer em ver tudo no lugar. Mas sabe, uma hora as coisas iam sair do lugar, e eu não conseguiria controlar a quantidade de poeira no ar ou as correntes de vento que entram pela janela, não poderia evitar incidentes como deixar o azeite cair no chão, ou brigar com cada visita que não limpasse os sapatos antes de entrar ou derramasse refrigerante no sofá da sala (como aconteceu outro dia). Apesar dos meus ares superiores perante a casa limpa, eu não sou Deus, e não consigo controlar tudo conforme minha vontade. Se o próprio Deus não força nossas escolhas, como eu poderia querer forçar o mundo a se comportar de modo a só me proporcionar prazer e alegria?

Por isso, antes de dormir, na sexta-feira, procuro não listar mais as coisas que já foram sujas ou desarrumadas, mas me concentro no fato de que Deus ainda me dá forças para limpá-las e arrumá-las depois. Não posso manter tudo favorável a mim o tempo todo, mas posso trabalhar por isso o tempo todo. Se eu me apoderar dos instrumentos que Deus me deu ao invés dos resultados apenas, eu poderei ter minha alegria sempre renovada. É preciso compreender que a perenidade não é algo que cabe neste mundo, enquanto estivermos aqui não encontraremos a eternidade, mas podemos encontrar a constância, que é um prelúdio das alegrias eternas que encontraremos mais além, quando Jesus vier nos levar para nosso Lar. Nesse Lar sim, não haverá sombra de perturbação, destruição ou desordem, a harmonia será perfeita e sólida, nosso prazer e alegria se movimentarão apenas em sentido ascendente.

Mas enquanto estivermos aqui, podemos usar o que Ele nos deu para trabalhar pela constância. Isto é, estarmos constantemente limpos, constantemente puros, constantemente humildes, constantemente santos, constantemente ligados a Cristo, constantemente ocupados em Sua obra, constantemente amando, constantemente orando. "Ora, o Senhor encaminhe os vossos corações no amor de Deus e na constância de Cristo." (II Tessalonicenses 3:5). Essa constância cristã não é ainda perenidade, isso quer dizer que haverão pequenas "quebras" em nossos planos, uma sujeirinha aqui ou ali sempre aparecerão para que percebamos que o controle está nas mãos de Deus e não nas nossas. A constância, no entanto, está em continuar buscando. A palavra exata é "continuidade": ela nos levará a constância, e a constância nos levará ao que é Eterno.

Por isso Paulo fala tanto a respeito de renovação. Nenhum cristianismo sobrevive em uma bolha ou redoma de vidro. "E não vos conformeis a este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus." (Romanos 12:2). Vivemos num mundo amplamente contaminado pelo pecado, e embora não possamos controlar o mundo, podemos deixar Deus no controlar e renovar-nos para que permaneçamos na constância e no amor de Cristo. Não é à toa que as misericórdias do Senhor renovam-se a cada manhã (Lamentações de Jeremias 3:22 - 2 3): terminamos cada dia necessitando lavar nossas vestes no sangue do Cordeiro. Renovando também nossas decisões ao lado de Deus, encontraremos a alegria que tivemos em nosso batismo todos os dias. É plano de Deus que não nos conformemos com esse tipo de alegria só uma vez na vida. Hoje temos tudo que precisamos, dado diretamente de Suas mãos, para trabalhar em novos projetos, recompor projetos antigos, retomar os inacabados, e em tudo encontrar um prazer específico e renovado de servir a Deus e caminhar em Sua direção. Alguém pode perguntar: "Por que não podemos simplesmente nos abastecer de algo que dure a vida inteira? Você agüentaria fazer uma faxina em sua casa todos os dias?". Isso pode ser cansativo, certamente, mas especialmente com as coisas espirituais, ao final de cada batalha contemplamos satisfeitos o resultado, e a satisfação é bem maior que o cansaço. "Por isso não desfalecemos; mas ainda que o nosso homem exterior se esteja consumindo, o interior, contudo, se renova de dia em dia." (II Coríntios 4:16).

quarta-feira, 15 de junho de 2005

40 dias procurando Luz - Dia 32

Texto Bíblico do dia:

Marcos 14:51 - "Ora, seguia-o certo jovem envolto em um lençol sobre o corpo nu; e o agarraram. Mas ele, largando o lençol, fugiu despido."

O programa de Deus para a minha vida hoje:

Não me desviar da missão.

Meditando:

Sabe aqueles textos bíblicos que você não acredita que nunca prestou atenção? O de hoje foi um deles. Talvez por preferir o evangelho de João eu nunca tenha atentado para esse episódio que Marcos descreve. Certo comentário bíblico sugere que o jovem descrito seria o próprio Marcos, pois não se justificaria incluir um episódio tão trivial na narrativa se não fosse autobiográfico. Mas nada é trivial demais para minha imaginação. Fiquei pensando no texto e me ocorreram algumas nuances dramáticas.

O contexto é muito tenso. Jesus acabara de ser preso, e os discípulos todos tinham fugido com medo. Mas, confusos, alguns seguiram-no de longe, sem querer se arriscar e ao mesmo tempo sem conseguir abandonar Jesus totalmente. O jovem mencionado é um deles, que, no entanto, é descoberto e capturado. Debatendo-se, ele consegue escapar livrando-se do lençol com que estava coberto, e continua fugindo, agora nu. Aturdido, envergonhado, escondido, com frio e completamente só, o discípulo certamente sentiu-se o mais desamparado de todos os viventes (João 20:19). Curioso é ele ter se sentido assim, quando o mestre é quem fora abandonado. Jesus prometera estar com ele e seus companheiros por todos os dias de sua vida, e não falhou em sua promessa. Mas aqueles que se intitulavam seus seguidores, o deixaram na hora da tormenta. No entanto, foram eles próprios a se sentir desamparados.

Algumas situações em na vida nos fazem sentir como esse jovem: completamente despidos. Tudo que construímos, tudo que conquistamos, toda a aparência de felicidade, todas as ilusões materiais e físicas, todo dinheiro que juntamos, todo conhecimento que acumulamos, de repente, não passam de um frágil lençol arrancado pela força da tormenta. "Porquanto dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um coitado, e miserável, e pobre, e cego, e nu" (Apocalipse 3: 17 ). O que se observa sempre que surge uma situação dessa a um ser humano é que a primeira pergunta, "Senhor, será que eu não poderia ter feito algo para impedir isso?", e o reconhecimento da própria impotência que se segue, faz logo com que surja uma nova pergunta: "Senhor, será que Tu não poderias ter feito algo para impedir isso?"

Os discípulos, acostumados a ver Jesus realizar milagres tremendos certamente se perguntaram isso ao vê-lo morto na cruz. Um pai que perdeu a família enquanto ia para a igreja num acidente de carro causado por um motorista bêbado, também. Muitos de nós, ao ver as cenas das guerras e desastres naturais que passam na TV, também perguntamos. E essa pergunta incômoda é sempre seguida por uma sensação de desamparo enorme, como se Deus tivesse saído de férias e perdido o controle da humanidade.

É aí que alguns fazem o que Adão fez: fogem e se escondem. Adão, o jovem acima citado e algumas pessoas que deixaram a fé têm muito em comum: viveram grandes tragédias, ficaram nus, fugiram e se esconderam, colocaram a responsabilidade do ocorrido sobre outro ser, e principalmente, deixaram a Deus. Essa é uma das escolhas que o ser humano tem quando se decepciona com Deus. "Ele poderia ter feito alguma coisa para impedir", "Ele poderia ter feito do jeito que eu estava pensando, e tudo daria certo", "Ele não cumpriu as promessas que pôs na Bíblia a respeito da proteção e vitória que daria a seus servos". Deus vira um ser desatencioso, para não usar adjetivos piores, e sobre Ele recaem a culpa de todas as desgraças, como se elas acontecessem por vontade dEle. Alguns, tentando consolar, só o afirmam categoricamente: "Não fique assim, foi a vontade de Deus."

Não é vontade de Deus que nenhum de seus filhos sofra. Por isso nunca, nunca mesmo, Deus os abandona. Ele esteve presente em todos os momentos da história, seja através de grandes sinais, seja através dos profetas, seja pela encarnação do Seu Filho, seja pela atuação do Espírito Santo. No entanto vivemos num mundo onde forças malignas trabalham arduamente para semear a destruição, e o próprio homem é, muitas vezes, joguete de Satanás para causar dor aos semelhantes. Diante de um mundo onde o pecado abunda, Deus atua influenciando, nunca forçando decisões. E algumas pessoas simplesmente ignoram a influência divina, preferem fazer o que é errado, e para cada erro há uma conseqüência. Agora imagine o resultado de todos os erros da humanidade através de milênios: é isso que vivemos hoje. É claro que Deus quer dar um basta nisso e corrigir tudo, mas Ele é sábio demais para fazer isso aleatoriamente, por isso segue um plano perfeito, com começo, meio e fim. Enquanto o fim não chega, com a vitória absoluta do bem, Ele administra o mundo dando poder e força para aquele que decide crer.

A outra decisão que temos diante das tormentas que não têm explicação é confiar. Se não confiarmos quando o silêncio de Deus é duro de ouvir, "para onde iremos" (João 6:68)? O que a falta de confiança nos dará de melhor? Que vantagem há em abandonar a Deus? Se decidirmos confiar ainda, crer que no fim Ele nos dará a vitória e está trabalhando para isso independente de quão desesperadora a situação pareça, talvez a nossa dor não diminua muito. Mas Deus fará com que da tragédia nasçam bênçãos. Pessoas podem ser influenciadas por seu testemunho. Outras podem repensar o próprio relacionamento com Deus e seus semelhantes a partir da sua tragédia pessoal, fazendo com que novas tragédias não aconteça. Que motorista se atreverá a beber antes de dirigir ao conhecer a história daquele pai que perdeu a família? Que mãe se atreverá a abortar sua criança com síndrome de Down ao ouvir a história de uma mãe que descobriu alegria ao cumprir essa missão? Que preconceito subsistirá entre um pai branco e um pai negro que perderam seus filhos no mesmo acidente? Mais uma vez repito: decidir crer não consertará as coisas, mas pode ser uma enorme fonte de bênçãos para outros e trará algo que jamais se encontrará fora da fé: a Esperança.

Jó, quando diante de várias desgraças seguidas, pronunciou uma frase intrigante: " Nu saí do ventre, e nu voltarei.O Senhor deu, e o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor." (Jó 1:21) Ele foi um homem que, mesmo nu, decidiu crer. Se decidirmos fazer isso também, poderemos voltar ao ventre e experimentar um novo nascimento em Cristo Jesus. Mesmo as piores situações podem redundar em vida quando não nos desligamos da fonte da vida. Podemos fazer da nossa dor e dúvida, degraus para crescermos espiritualmente, ajudarmos outras pessoas e alimentarmos a esperança de um novo céu e uma nova terra, onde seremos seres perfeitos vivendo num mundo perfeito. A busca da perfeição, no entanto, começa aqui, e mais êxito alcança quando perseguida através da renúncia do próprio eu, da própria vontade, da própria lógica, da auto-suficiência. Na dor de nos sentirmos nus e desamparados Deus encontra uma oportunidade de voltar a nos colocar nos braços como bebês. Não temos força para resistir ao Seu amor impedir que Ele realize sua obra em nós. Deus, que viu o próprio Filho morrer, conhece exatamente o significado da palavra dor. Cristo, que morreu por nossa causa, sabe o que é sacrifício. Confiemos, pois, que um dia entenderemos completamente seus desígnios, teremos nossa felicidade restaurada por inteiro e, vestidos da Sua justiça, ouviremos: "Estes são os que vêm da grande tribulação, e lavaram as suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro." (Apocalipse 7:14)

terça-feira, 14 de junho de 2005

40 dias procurando Luz - Dia 31

Texto Bíblico do dia:

Romanos 13: 11 - 12 - "E isso fazei, conhecendo o tempo, que já é hora de despertardes do sono; porque a nossa salvação está agora mais perto de nós do que quando nos tornamos crentes. A noite é passada, e o dia é chegado; dispamo-nos, pois, das obras das trevas, e vistamo-nos das armas da luz."

O programa de Deus para a minha vida hoje:

Dar testemunho de Cristo em detrimento dos modelos que o mundo me indica.

Meditando:

Hoje aconteceu uma coisa engraçada enquanto eu navegava na internet. Ao consultar um site de buscas usando a palavra "Deus", percebi que junto com o resultado das buscas apareceu uma pequena propaganda de um site de downloads que dizia: "Download Deus for free!". Claro que aquela propaganda estava programada para fazer aparecer nela qualquer palavra que eu digitasse na minha busca, a fim de me influenciar a visitar aquele site para conseguir o que eu queria. e é claro que a graça de Deus é surpreendente. Mas acho que Deus ainda não está em formato de programa para ser baixado de graça na internet, embora isso fosse uma notícia agradável para muitos. Já imaginou?

- Fulana, estou com problemas. Tenho sentido necessidade de compreender mais a vida, minha existência, a existência da dor e da morte nesse mundo...

- Ah, não se preocupe. Vá a este site de downloads e baixe o programa Deus 3.0 e você vai encontrar todas as suas respostas. Ele tem três utilitários maravilhosos: Pai, Filho e Espírito Santo, e ainda conta com um serviço de composição de e-mail que manda sua oração diretamente para o trono celestial!

- Eu já tentei, mas o site está congestionado, fica dando mensagens de erro por causa do número de acessos... está pior que o orkut.

Imaginação á parte, outro dia encontrei, de verdade, num site de downloads, um programa que diz quem você foi na sua suposta vida passada, a partir somente de sua data de nascimento. Acho que quem nasceu no mesmo dia tem que tirar par ou ímpar. E ainda assim um dos comentários sobre o programa diz: "achei tudo o que eu queria!". Se Deus estivesse mesmo disponível para download, acho que muita gente também ía ficar feliz e dizer que achou tudo que queria: um Deus manipulável, controlável, adaptável a suas necessidades, com recursos funcionando conforme sua vontade, interface intuitiva e amigável, aparência modificável (bastando apenas baixar uma "skin" de Deus que agradasse mais ao seu gosto), menu "Help" para solucionar todas as dúvidas, menu "Milagre" para solucionar todos os problemas, e o indefectível x lá no topo para encerrar o programa a qualquer momento. Poderia mesmo ser um programa aberto, para que programadores sugerissem novas modificações que melhor servissem ao usuário. Todos iriam, realmente, adorar Deus! Só há um grande problema com o Deus 3.0: criar nossa própria imagem de Deus e adorá-la é uma forma perversa de idolatria.

Lendo a Bíblia fico maravilhada em ver como Deus se tornou acessível à humanidade através do plano da salvação. antes da morte de Jesus, somente os sacerdotes podiam levar ofertas e sacrifício,s somente os hebreus podiam ser chamados filhos e filhas de Deus, somente os que observavam o Dia da Expiação eram considerados corretos, somente os que seguiam as leis poderiam ser chamados justos. Após a morte de Jesus, todo aquele que invoca o nome do Senhor será salvo (Romanos 10: 12 - 13), fomos todos adotados como filhos de Deus (Gálatas 3:26 - 29, 4:4 - 7), fazemos o que é certo ao cumprir a Sua vontade (Romanos 12:1) e somos justificados pela fé em Cristo (I João 2:29, João 3:16). *

Não precisamos enfrentar sites congestionados para acessar o trono da graça. A questão é: para quê o fazemos? Um dos principais motivos que os antigos sacerdotes tinham para isso era oferecer sacrifícios. Mas hoje, alguns sacerdotes modernos pregam ao povo um Deus que não exige sacrifício nenhum, dizendo que Cristo já fez o sacrifício, e nós colhemos apenas as bênçãos. Isso é reduzir Deus a um utilitário confortável. O sacrifício maior de Cristo nos mostrou que o caminho para a salvação passa pela via dolorosa. Portanto, ao acessar a Deus hoje, eu tenho de lhe oferecer meu sacrifício vivo, que é cumprir a Sua vontade ao invés da minha. Os filhos têm, por Cristo, livre acesso ao Pai. Mas os filhos amam ao Pai, por isso sua felicidade é agradar a Ele e não a si mesmos. Todo acesso que temos existe para nos proporcionar essa felicidade, não a felicidade terrena, daqueles que ainda não conheceram o privilégio de serem chamados filhos de Deus, pois essa felicidade mesquinha tem um prazo de validade muito curto e uma gama estreita de cores berrantes. A felicidade de servir a Deus ao invés de querer ser servido por Ele, é o tipo de felicidade que se encontra mesmo nas cores mais sombrias, pois mesmo quando as cores não deixam ver a luz, tem-se a certeza que ela está presente apontando para a eternidade. Seja dia perfeito ou trevas, estamos vestidos com as armas desta luz, as quais somente a nossa vontade pode destruir. A despeito do mundo ao redor, que trabalha para me oferecer o mais confortável, o mais adaptável ao meu gosto e necessidade, meu cristianismo tem que dar testemunho de um amor muito maior que este mundo. Um amor que atravessa a atmosfera, cruza o espaço sideral e as inimagináveis distâncias para se colocar diante de um Ser e dizer-lhe: "agrada-me fazer a Tua vontade, ó Deus" (Salmo 40: 8).


*Fonte de pesquisa: A Bíblia da Mulher, SBB, pág. 1419.