segunda-feira, 31 de março de 2003

Vai um pãozinho?

Não tenho olho azul, nem cabelo loiro, nem acompanhei a última novela das oito*, mas acredito que há algum italiano pendurado na minha árvore enealógica. Nada mais justificaria minha mania de cantar árias de ópera no banheiro, a vontade tresloucada de conhecer a Itália e o gosto incontrolável por massas. Ah, as massas! Tão condenadas e tão gostosas! Impossível ara mim sobreviver um dia sem comer alguma massa. Nem que seja um ãozinho no café-da-manhã.

Mas de vez em quando a coisa aperta e se a gente aqui bobear fica sem pão. Nenhuma tragédia financeira: é que quando minha mãe viaja, suas filhinhas perdem completamente o controle sobre coisas menores como comer e lavar e louça. Numa dessas ausências sentidas, me deparei várias vezes com a necessidade de usar a criatividade para amainar os apelos do estômago: pão com queijo, pão com leite condensado, pão com feijão, pão com rapadura... um menu extenso! Mas um dia ninguém comprou o pão. E tudo que encontrei foi um pacote muito suspeito com dois blocos de concreto disfarçados de pães. Eu, na minha ânsia por massas – mesmo num caso desse, em que elas deveriam estar num laboratório de engenharia civil – acabei fazendo torradinhas amanteigadas, com um gostinho... hmmmm.... horrível! Não reparei que os pães estavam com bolor. Você já comeu pão mofado? Não aconselho. O gosto mais próximo que poderia descrever essa experiência é sabor de sabão em pó com terra de xaxim. Digo, imagino que seja isso...

Mas meus amigos, curiosamente muitas pessoas hoje não só comem pão com bolor como o oferecem a outras pessoas, como se esse fosse o único alimento disponível. E não é culpa de outras mães viajantes: falo aqui do pão espiritual. E o que é esse pão? “Porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá a vida ao mundo” (Jo 6:33). Segundo a Bíblia, Cristo é o alimento que veio do Céu para nos dar vida em abundância. Deus, sabendo que nossas necessidades espirituais precisam ser supridas diariamente, concedeu o próprio Cristo com sua presença animadora, restauradora e fortalecedora para todo aquele que abre seu coração ao Pão que desce do céu.

Isso não nos faz lembrar o antigo Israel também? Quando atravessavam o deserto, um lugar tão inóspito para a vida quanto este mundo o é para nossa fé, eles recebiam diretamente do céu o seu alimento, o maná. Com eles faziam pão e recebiam a nutrição necessária para continuar a caminhada. A única coisa que eles tinham que fazer era pegar suas tigelinhas todos os dias, exceto no sábado, ir até fora da tenda e pegar o maná que caía do céu. Mas algum espertinho pensou: “Ai que preguiça!... vou pegar maná para hoje e amanhã, então poderei dormir um bocadinho mais amanhã”. E o que aconteceu? O maná que era guardado de um dia para o outro, irremediavelmente apodrecia, mofava e criava vermes. Um negócio horroroso, que não descia nem com manteiga.

Eu penso que Deus tem uma mensagem bem clara aqui: “Ei, seus dorminhocos, não se acomodem. Todos os dias vocês sentem fome, então todos os dias vocês têm que ir buscar comida. Ela está à disposição para quem quer pegá-la, mas todos os dias vocês devem lembrar que a dá para vocês.”

Consegue associar? “Disse-lhes, pois, Jesus: Na verdade, na verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu; mas meu Pai vos dá o verdadeiro pão do céu.” (Jo 6:32). Jesus, o Pão da Vida está disponível para alimentar os nossos espíritos, nossa fé, nossa religião, com a vantagem adicional de que, ao contrário do que acontecia em Israel, temos o sábado inteirinho para nos empaturrar desse alimento divino. Mas algumas pessoas tomam esse pão, enchem os bolsos e vão embora, como se isso desse para sustentar todo o resto da caminhada. A mensagem é: você precisa voltar para pegar mais pão todos os dias. Se está sentindo-se fraco espiritualmente, pergunte-se: com que regularidade você ergue a tigela do seu coração aos céus no contato com a Bíblia e a oração? “Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede.” (Jo 6:35) Guardar o pão é uma péssima idéia: ele vai mofar e sua religião vai ficar com gosto de sabão em pó com terra de xaxim. Se quiser passar o resto da vida comendo seu pão mofado, é uma escolha sua, embora o pão diário dado na comunhão com Cristo seja infinitamente mais apetitoso. Mas, por favor, não vá pegar esse pão mofado e duro e dar às pessoas dizendo que isso é o que Deus tem a oferecer.

Pessoas que vivem uma religião ritual e aparente, que estão mais preocupadas em mostrar aos outros seus cargos, títulos e listas de regras para ser considerado um bom cristão, estão comendo e oferecendo pão com bolor. Pessoas que vivem a real felicidade de andar com Cristo, voltam todos os dias para se alimentar , e não apontam para o pão que receberam dizendo: "vejam que pão lindo e maravilhoso o meu!”. Cristãos que conhecem a paz de estar sempre satisfeitos com sua fé e religião, são aqueles que não se acomodaram em guardam o que receberam ontem, mas estão sempre buscando mais. E, depois de alimentados, saem para convidar outras pessoas famintas para a ceia.

Uma semana iluminada e bon apetit!

Luciana Dantas Teixeira

* Na época era uma novela sobre italianos imigrantes.

segunda-feira, 24 de março de 2003

Viva la revolución!

Aos sete anos eu sabia exatamente como seria minha vida no futuro: primeiro eu seria professora (para conseguir as coisas mais simples como um apartamento e um carro), depois construiria uma grande escola que também serviria como base de uma entidade social filantrópica (a idéia era essa, mas sem o nome complicado). Tal iniciativa geraria outros núcleos de ajuda humanitária dirigidos à educação e integração social dos mais pobres e enfim, eu conseguiria salvar o Brasil da fome e da miséria. Aí eu já estaria bem velha, com uns vinte e três anos, e poderia dar uma pausa para casar, ter um filho e adotar outro, antes de partir para nova empreitada salvadorística em nível mundial.

Recordei estes meus planos durante esta semana, depois de conhecer uma garota de treze anos que também é voluntária numa ONG da qual participo (www.natalvoluntarios.org.br). Enquanto ouvia ela falar com ardor dos planos que tem para implantar definitivamente a bondade e a solidariedade no mundo, lembrava de mim mesma, com a idade dela, fazendo redações de protesto contra a política capitalista e discursos inflamados por melhores condições de vida para os trabalhadores, durante apresentações de trabalhos escolares. Tudo me parecia tão fácil e óbvio! Alguém só precisava dizer como as coisas deveriam ser feitas! Então eu romantizava os movimentos estudantis da época da ditadura militar e acreditava que a solução viria quando os jovens fizessem uma grande revolução e tomassem o poder.

Mas eu fui crescendo e vi que a maioria dos jovens tinham sonhos mais imediatos e superficiais. Foram ensinados a lutar para conseguir apenas a primeira parte do meu sonho aos sete anos: um emprego, um teto e um carrinho, se der. Percebi eu mesma que, só isso, já era bastante difícil. E quando entrei na faculdade veio o confronto definitivo com minhas utopias por um mundo melhor. Certo ditado americano diz que nós nunca deveríamos ver como são feitas as salsichas e as leis. E eu, que acreditava no poder da lei do amor para mudar o mundo, descobri que o que prevalece é a lei humana, a qual sempre tende a favorecer os mais forte e excluir os mais fracos. Que o Direito, ao invés de servir à Justiça como pregam bem os teóricos, acabou por se transformar em justificativa no discurso de uma classe que mantém a injustiça e a opressão no poder. O que mais me decepcionou é que grande parte dos que estavam comigo queriam apenas aprender as regras do jogo para se adaptarem bem e lucrarem com isso. E me disseram que isso era o normal: sobreviver e crescer profissionalmente, sem maiores comprometimentos com outros seres humanos. Antes, todos pareciam festejar o privilégio de ser elite intelectual, lamentando os demais intimamente (ou publicamente, dependendo da finalidade do discurso). Para escurecer o restinho de esperanças, percebi que a mentira se reveza no poder. E Bush foi eleito.

Quando chegamos nesse ponto nos sentimos maduros: não podemos mudar nada. Cuidar da nossa própria sobrevivência já é desgastante demais, e resta apenas nos fecharmos sobre nosso próprio mundinho, esquecer que ainda há coisas erradas e pessoas precisando de ajuda: quer nos lembremos, quer não. Somente quando acontecem grandes comoções, como desastres ou guerras, é que a humanidade se dá conta da fragilidade de sua condição. Acompanhamos atentos o desenrolar de estratégias militares onde dezenas de pessoas inocentes perdem a vida, mas quotidianamente ignoramos centenas , que morrem vítima do nosso descaso, bem ao nosso lado. E não sabemos nada da criança que acabou de morrer desnutrida, do adolescente que por falta de educação entrou no crime: o subúrbio não tem cobertura com flashes ao vivo na programação da Globo. A guerra nos faz pensar que há outros além de nós mesmos, mas é só quando a dor deles também nos ameaça que ficamos bem atentos com medo de sermos atingidos.

Hoje eu já não sonho com grandes revoluções para mudar o mundo. Sei um pouco do quanto é difícil resolver tudo política e juridicamente (muito mais que eu sabem os poucos homens honrados que estão lutando por esses caminhos). Não aposto na boa vontade da maioria para oferecer solução às necessidades alheias. Mas vou contar um segredo, pois afinal escrevo para amigos: eu ainda sonho em ver as pessoas vivendo melhor. Tenho convicção que cristianismo é muito mais que orar pelas vítimas da guerra e desejar um mundo melhor só na eternidade.

Embora biblicamente o que se profetize para nossos dias não seja nada animador, ainda devemos fazer nossa parte pelo nosso mundo aqui, pelas pessoas que deveríamos chamar de irmãos, mas que muitas vezes passam necessidade financeira e emocional ao nosso lado na igreja. O fato do mundo hoje estar se corrompendo mais rapidamente, não deve significar que nos resta ficar parados aguardando que tudo isso termine bem rápido, mas significa que nossa tarefa é cada dia maior, e a responsabilidade de tudo aquilo que podemos partilhar com nosso irmão é mais urgente.

A saída, entanto, não está nos grandes empreendimentos, nas doações milionárias ou nas entidades organizadas de ajuda ao próximo. Adventista: a missão de ajudar não está na ADRA ou no Departamento do Dorcas. Todo esforço bem sucedido em ajudar pessoas tem por base algo muito mais simples: uma pessoa amando outra pessoa e, por isso, conseguindo mudar sua vida para melhor. Foi assim que pessoas como a Madre Tereza ou o Betinho e até Jesus conseguiram grandes coisas. Amar no sentido bíblico, um amor com braços e pernas, com ação e não apenas com palavra (I Jo 3:18). Portanto antes de protestarmos contra a política mundial ou brasileira, antes de tecermos nosso discursos contra o capitalismo, a corrupção da lei e dos que a manejam, e gastarmos nossas forças tentando empreender vultosas mobilizações missões grandiosas, pensemos: somos capazes de amar? Porque se há algo que ajudar pessoas nos ensina, é que amar é nossa única e maior missão neste mundo. Se nosso empreendimento em favor das pessoas não vier de um coração que sabe amar em particular, cairemos fatidicamente no poema de Bertold Brecht: “Ai, nós que queríamos amainar o terreno para a amabilidade: não podíamos nós mesmos ser amáveis.” O que sustentará nossas ações?

Eu não perdi a fé num mundo melhor porque depois de conhecer a maldade e a pobreza espiritual humana, conheci um Deus que, dentre todos os caminhos que o homem forjou para fazer o bem, se mostrou Ele mesmo como o próprio Caminho. Jesus já fez a revolução necessária para mudar o mundo: ele transformou a vida de todos a quem se dirigia pessoalmente, fez isso comigo e continuará fazendo a outros também. Dele vem o amor, dEle vem a Salvação para bilhões de pessoas. A mim cabe começar amando ao menos uma pessoa de forma pura e verdadeira. Isso não será pouco, apesar de ainda restarem outras tantas precisando ser amadas.

Que a descoberta da injustiça não nos encha de revolta e ódio a ponto de desfigurar a essência do que pregamos. Que o choque com a indiferença pelo mais fraco não nos endureça a ponto de nos tornamos apenas mais uma pedra entre tantas. Que a maldade não nos faça desistir de lutar para dar ao nosso semelhante um pouco de alívio e esperança neste mundo, porque se não conhecerem o amor aqui, não poderão desejar um mundo de amor depois. Que nesta semana encaremos com comprometimento a nossa parte, olhando cada ser humano que precisa de nós como único, e merecedor de nossa mais profunda dedicação. Um a um, acolhamos cada qual, a começar pelos que estão ao lado, com nossa mais completa capacidade de amar.

Uma semana iluminada!

Luciana Dantas Teixeira

Ps.: dedico este texto a Débora, coordenadora do Núcleo de Crianças de Campinas, da ADRA.

domingo, 16 de março de 2003

Começo

Enquanto fechava a porta ela lembrava de como as coisas eram mais fáceis antigamente. Quando criança, se fizesse alguma coisa errada, a mãe brigava, mandava ela refazer tudo e ela refazia. Se depois de um tempão juntando areia da praia para formar aquela coisa que (ao menos para ela) parecia um castelo encantado, vinha uma onda sorrateira e derrubava tudo, ela ia brincar de outra coisa sem olhar para trás. Quando escrevia uma palavra errada, tinha sempre borracha e lápis a postos para corrigir e recomeçar.

Agora as coisas tinham se complicado muito. Quando fazia coisas erradas, era ela mesma quem brigava e magoava e se recusava a fazer do jeito certo. Os castelos em que ela se demorara anos construindo, vinham a baixo deixando-a completamente impotente e frustrada. Borracha e lápis não bastavam para dar-lhe a sensação de que conseguiria recomeçar.

Essa é a história de muitos de nós, talvez de todos, em um dado momento de nossas vidas. Sentimos que precisamos recomeçar, mas não sabemos como, quando nem mesmo porquê - afinal a única coisa que se afigura certa nessa vida, é que todas as coisas terão um fim. Podemos viver (ou deixar de viver) lamentando o passado. Podemos simplesmente ignorar a necessidade de um novo começo e seguir vivendo, ocupando nosso tempo ao máximo com todas as coisas possíveis: trabalho, lazer, estudo, pessoas, tudo de modo que nossa mente não se detenha muito em nossos próprios sentimentos. Isso, feito de modo saudável, com certeza nos fará acumular conhecimento, experiência de vida, dinheiro e um bocado de bons momentos. Mas embora as pessoas ao redor nos olhem e digam: "que pessoa culta, instruída, alegre, viajada!", ah, isso não é suficiente para que intimamente nos sintamos felizes.

A mulher da história acima fez outra opção: decidiu por um novo começo. Ao fechar a porta de casa, ela deixou lá uma quantidade incontável de problemas, traumas, decepções, mágoas, dúvidas, angústias, frustrações e um vazio desesperado. Depois foi até a presença de Deus. Conversou com ele, pediu uma nova chance com a fé que tinha em seu coração (não vou lhe assegurar que era muita, mas existia, e por isso mesmo era suficiente), decidiu não se preocupar mais e deixar Deus tomar conta de cada problema. Voltou para casa decidida a estar atenta à voz de Deus para se deixar guiar. E quando chegou em casa, sabe o que aconteceu com todos os seus problemas? Sabe o que aconteceu com todas as conseqüências dos seus erros, com todas as mazelas de sua antiga vida, com todas as feridas adquiridas ao longo de todos os anos? Acredite, tudo isso estava no mesmíssimo lugar.

Claro que Deus poderia ter feito tudo se resolver com um passe de mágica, mas o que isso ia acrescentar de crescimento ao espírito dela? Como ela ia poder experimentar o poder de Deus em sua vida de forma plena se não unisse forças com Ele para lutar e vencer cada obstáculo? Eu até acho que Deus possa agir de outra forma e simplesmente eliminar todas as barreiras. Mas como Pai perfeito Ele quer muito mais para nós, quer que aprendamos a lidar com as conseqüências das nossas escolhas, quer que aprendamos a viver e amar do jeito certo, e isso só pode ser feito com paciência, confiança, espera e uma fé constante no cuidado divino.

O que houve então de tão especial na vida daquela mulher que decidiu começar de novo ao lado de Cristo? Afinal, seus problemas não permaneceram os mesmos? Sim, mas ela não permaneceu a mesma. Embora tendo que encarar cada problema, trauma, decepção, mágoa, dúvida, angústia e frustração, ela não sentia mais aquele imenso vazio. Embora as manchas do pecado e das imperfeições deste mundo ainda fossem bem visíveis, ela não tinha mais medo ou desânimo, porque sabia que estava ao lado do Deus que lhe predestinara à vitória. Percebe a diferença? Nossa entrega a Deus não faz mudar os nossos erros, a mudança ocorre dentro de nós, na nossa forma de perceber o mundo e encarar os obstáculos. Sendo assim, voltamos para enfrentar os velhos problemas da vida, mas como novas criaturas. E por isso sua vida pode se tornar nova, mesmo com os velhos problemas. Ademais não esqueça que os olhos de Deus para você serão olhos que não vêem seu passado. Você não precisa carregar culpas e sentimentos negativos, quando o próprio Deus esqueceu tudo o que passou. Esse é o outro detalhe importante de começar com Deus: Ele jamais vai te tratar como um reincidente. Com Deus você pode recuperar tudo que se perdeu pelo caminho.

Por isso prefiro falar de "começo" que de "recomeço". Recomeçar pode parecer que você vai começar a fazer tudo de novo, retomar. E um começo pode significar mudar tudo que você vinha fazendo até então. Pra um começo pode ser mister abandonar. Pode ser preciso também manter coisas que você tinha abandonado. E acima de tudo começar não é uma solução em si, mas uma forma de implementar soluções, e por isso mesmo vai requerer muita coragem de sua parte. Um começo, principalmente, não é apenas um momento. Um começo pode durar a vida inteira, e um começo com Cristo está fadado à eternidade.

Você é templo do Espírito Santo, não só o seu corpo, mas a sua alma. E pode ser que alguma parte de sua alma – corpo, coração ou espírito - tenha sido invadido, quebrado, violado, destruído, e olhando para seu templo você já não veja a beleza que havia há alguns anos. O brilho da inocência, dos primeiros sonhos pode ter se apagado, e agora se observem rachaduras ou ruínas. Mas se esse é seu caso, olhe para um Deus ansioso por ver esse templo novo outra vez. Uma vez, quando destruíram o templo de Deus aqui na Terra, ele ficou muito triste e pediu que seu povo o reconstruísse (você vai encontrar essa história no livro de Ageu). Ele não poderia ter feito tudo sozinho? Recomposto a glória do antigo templo com Suas próprias mãos? Mas o povo tinha que aprender o significado e preço de ter um belo templo.

Tinha que suar e valorizar cada tijolo colocado no lugar certo. Tinha que descobrir dia após dia como é abençoado quem se dispõe a unir suas forças ao Senhor. E qual o resultado de começar com Deus? Ele mesmo respondeu aos que se dispuseram a começar o novo templo: "A glória desta última casa será maior do que a da primeira, diz o SENHOR dos Exércitos, e neste lugar darei a paz..." (Ageu 2:9).

Começar de novo com Deus não significa somente resgatar tudo que se perdeu pelo caminho. É conseguir muito mais do que você jamais sonhou, porque um começo com Deus, significa sonhar os sonhos dEle.

Uma semana iluminada!

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2003

Poeminha bobo sobre um amor infalível.

Reiniciando o ciclo de reflexões semanais.

Se o nariz coça
e, desesperada,
você se encontra
com as mãos ocupadas;

Se você perde
tempo e paciência,
a vez ou graça,
o chão ou a crença;

Se você chora
a unha quebrada
o final tão triste
ou a alma lavada;

Se está com pressa
dor ou dormência,
bota a mão no fogo
ou na consciência;

E se acorda
mas é madrugada,
e um pernilongo
lhe deixa irritada;

Se você grita
de dor ou prazer,
se xinga a quem
não tem nada a ver;

Se tem coragem
e sonha acordada,
ou se fica tonta
de dar gargalhada;

Se aposta no amor
ou joga ele fora
ou nunca acerta
qual a melhor hora;

Se sabe das coisas
e fica assustada
e prefere, omissa,
não fazer mais nada;

Se não faz idéia,
nem tem interesse,
nem é o que ía
ser quando crescesse;

Se acorda de novo
e a luz foi tragada
e seu lençol curto
não cobre a fachada;

Se chama e insiste
Mas fecham a porta;
Creia, não duvide:

Deus se importa.


Feliz sábado, amigos!

Luciana

domingo, 1 de dezembro de 2002

Senhor, serei eu? (A Paixão Segundo São Mateus)

Uma das mais belas obras de música sacra chama-se “A Paixão segundo São Mateus”, de Bach. Paixão era como se chamava o relato do sofrimento e crucifixão de Cristo, nos quatro dias que antecedem a páscoa. Cantar a Paixão de Cristo era tradição na liturgia da igreja católica desde o século XIII, que mais tarde foi introduzida na liturgia protestante por Martinho Lutero, e alcançou seu clímax em Bach, que a apresentou na forma de oratórios, com os episódios bíblicos cantados ou recitados por solistas, intercalados de passagens meditativas feitas por dois coros, e passagens instrumentais realizadas por uma pequena orquestra.

A Paixão Segundo São Mateus foi apresentada pela primeira vez em 1729, na igreja de São Tomás em Leipzig. E depois que toda a Europa havia esquecido que um dia existira um compositor chamado Bach (pois é, os gênios quase nunca são reconhecidos em seu tempo), esta obra foi reapresentada em Berlim, exatamente cem anos depois, sob a regência de Mendelssohn. O impacto que esse oratório causou então, foi tão grande, que fez a obra de Bach ser “ressuscitada” para a eternidade, pois vem sendo estudada e reconhecida como um dos cumes da História da Música.

Certo historiador classifica “A Paixão Segundo São Mateus” como uma obra de tão profunda emoção religiosa a ponto de converter um ateu . De fato, ela é de uma mensagem tão poderosa, musicalmente falando, que já se deu a Bach o título de “Quinto evangelista”.

Um dos curiosos recursos de Bach, que transparece perfeitamente nessa obra, é o modo como ele utiliza o coral para conseguir trazer a mensagem bíblica para mais perto dos ouvintes, de modo a fazê-los integrarem-se nela. Em detrimento da orquestra barroca, que era, comparada a de hoje, bem pequena, Bach fazia questão que sobressaísse a voz humana, e para tanto utilizou-se de toda a estrutura que a igreja de São Tomás podia comportar: espaço para dois coros, cantando em oito vozes distintas. Essas vozes, através de simbolismos muito bem explorados pela música dele, leva os ouvintes, de mero espectadores para participantes da cena cantada. A pregação não se limita a uma narração, a exposição de um drama ou sermão distante: o coral permite que Bach transforme a música em prece íntima, e realize a introspeção da mensagem na congregação.

Um exemplo desse magnífico efeito está na primeira parte da Paixão Segundo São Mateus, que expõe o momento em que Jesus anuncia aos discípulos que será traído. “Um de vós me trairá”, canta a voz do baixo. O narrador diz: “E eles, mutíssimo tristes começam a perguntar..” (Mateus 26:22). Então entra o coro dramático dos apóstolos perguntando “Senhor, serei eu?”, pergunta que é repetida onze vezes, o que nos faz lembrar que Judas calou-se. Nesse momento, todos esperam que se siga a narração conforme está na Bíblia, com Jesus indicando os sinais do traidor. Mas isso seria o óbvio, e Bach, cuja maior preocupação está em mostrar Deus em sua música, não poderia se conformar com o óbvio. A pergunta “Senhor, serei eu?” ainda está suspensa por um acorde interrogativo. Que faz Bach então? Quando todos esperam que Jesus diga que Judas é o traidor, entra um novo coro de vozes, que representando as vozes da congregação, anuncia: “Sou eu!”. De repente, os olhares que voltavam-se para Judas, passam a olhar para si mesmos, e cada pessoa presente na igreja passa a se sentir-se pessoalmente culpada pela morte de Cristo. E ao contrário do que poderia se imaginar, esse coro não tem em nenhuma de suas notas um tom acusador, mas contrito, de um pecador que se reconhece mau. Ninguém pode ouvir esse coro sem sentir em seu coração que, em algum momento, também traiu Jesus, e merecia sofrer as penas do pecado no lugar dEle. “Vossos sofrimentos redimiram minha alma”, termina o coro deixando emocionado e surpreso o ouvinte.

Só depois disso é que o relato prossegue. Judas pergunta: “Senhor, serei eu?” e Jesus termina afirmando: “Tu o disseste”. Pronto, Bach conseguiu fazer-nos entender um pouco mais do amor infinito de Cristo. Não um Cristo que chama nossos nomes para acusar, mas um Cristo que por Seu sacrifício de amor nos constrange a reconhecermos nossas culpas. Um Cristo a quem nós, todos os dias, crucificamos mais uma vez, e traímos com a mesma maldade de Judas, quando cedemos ao pecado. E que ainda assim, sofreu para redimir nossas almas. Bach não nos deixa imaginar que, sequer aquele “Tu o disseste”, não tenha sido dito com amor e compaixão.

Cada vez que condescendemos com o mal, traímos nosso amado Salvador. A dor que isso causa nEle é tão forte como uma das marteladas que cravaram os pregos em Suas mãos santas. Mas o mesmo sangue inocente que se derrama dessas mãos, é o sangue que nos limpa e reconcilia uma vez mais com Deus, quando nos arrependemos sinceramente de nossos pecados. A culpa do pecado, que é também a culpa que temos pela morte de Cristo, não nos é imputada somente devido a graça amorável dEle. Que ao começarmos esta semana possamos perguntar: “Senhor, serei eu? Serei eu quem esqueceu de amar-te a Ti e ao meu próximo como devia? Serei eu quem está te traindo através de pensamentos, palavras, ações e omissões?”. E quando nos vir arrependidos de nossa culpa, Jesus chamará o nosso nome, não para nos acusar, mas para nos dizer: “Filho, alegre-se! Perdoados estão os teus pecados” (Mateus 9:2).

Eis, Jesus estende Suas mãos para nos segurar. Vem!
Onde?
Para os braços de Jesus! Procura redenção, procura misericórdia, procura-te!
Onde?
Nos braços de Jesus! Vive, morre, fica aqui, Tu aflito. Fica aqui.
Onde?
Nos braços de Jesus!


Mas isso já é outro coro...

Uma semana iluminada,

Luciana

domingo, 24 de novembro de 2002

Mefibosete

Ele é um daqueles personagens sem muitas glórias para contar, que ficam escondidos nas histórias bíblicas. A forma mesmo como aparece pela primeira vez é trágica: aos cinco anos, Mefibosete sofre um acidente que lhe deixa deficiente das pernas para o resto da vida. (II Samuel 4: 4). Mas nenhuma história está registrada na Bíblia por acaso, e apesar de obscura , a vida desse homem tem algo a nos contar.

Com a morte de Saul, toda a sua descendência andava temerosa. Embora sabendo que Davi era um homem justo e temente a Deus, não faltavam pessoas – aqueles bajuladores de plantão – dispostos a acabar com a descendência de Saul para mostrar-se do lado do rei, tanto que Isboete, um dos filhos de Saul, foi morto justamente por essa causa (II Samuel 4:8). A sensação para a família de Saul é que muitas cabeças iriam rolar, literalmente...

Mas ao invés de aproveitar a oportunidade para vingar-se da família cujo patriarca passara a vida inteira lutando contra si, Davi permanecia fiel a promessa que fizera a Jônatas, filho de Saul, de que jamais levantaria a mão contra um descendente seu. Por isso, depois de vitorioso, no auge de seu poderio, Davi ainda lembrava-se da aliança que fizera com seu amigo, e certo dia inquietou-se: “Resta ainda, porventura, alguém da casa de Saul, para que eu use de bondade para com ele, por amor de Jônatas?” (II Samuel 9: 1).

Havia. E que era? Mefibosete! O curioso é observar que, originalmente, ele se chamava Meribe Baal (I Crônicas 9: 40), que significa “combatente contra Baal”. Ele nascera para ser um herói corajoso! Mas agora se transformara apenas em Mefibosete, que significa “propagador da vergonha”. A queda de seu avô Saul o arrastou para a miséria, a ponto dele considerar-se a si mesmo com um cão morto (II Samuel 9: 8). Então eu penso em quantos filhos que nosso Deus destinou para a luta, para a batalha pelo bem, para a vitória sobre os males deste mundo. Mas estes filhos acabaram sendo arrastados pela miséria de outros, caindo tanto ao ponto de serem apontados como “propagadores da vergonha”. O apóstolo Paulo adverte: “Aquele que pensa estar em pé, cuide para que não caia” (I Cor. 10: 12). Veremos muitas pessoas caindo ao nosso redor durante a caminhada cristã. Algumas dessas quedas terão tal impacto sobre nós, que, ao olhar ao redor, nosso primeiro impulso será desistir também. Mas o fato de algumas pessoas abandonarem a verdade, não significa que a Verdade desvaneceu, nem temos que cair também, traindo o destino para o qual Deus nos reservou: o de combatentes caminhando para a vitória certa.

E quando alguém cai, onde pode ser encontrado? Certamente não perto da glória. “Onde está?”, Davi perguntou. E seu servo foi achar Mefibosete num lugar chamado Lo-Debar, que significa “sem pastagem”, “que não é nada”, “é sem valor”. “Onde estás?”, perguntou Deus a Adão logo após sua queda. E foi achá-lo escondido e com medo por entre as árvores. “Onde estás?”, pergunta Jesus ainda hoje quando nos afastamos de Seu convívio. E a resposta nunca aponta para um lugar melhor do que aquele onde estávamos junto dEle. Longe da companhia gloriosa de Cristo, podemos até encontrar refúgio, mas não em algo que tenha real valor.

Imagino a cara de Mefibosete quando foi procurado pelos servos de Davi. Ele deve ter ficado mortalmente assustado. O que o Rei poderia querer com ele, descendente de um homem que o combatera a vida inteira? Mas ao encontrar-se com Mefibosete, Davi disse aquilo que Deus sempre diz quando quer ganhar a confiança de um pecador: “Não temas!” (II Samuel 9: 7). Embora naquele momento Mefibosete representasse a própria miséria, Davi usou de bondade e misericórdia para com ele, por que é justamente a fraqueza que atrai a graça. Aquele homem, deficiente, representante da derrota e da estultícia de seu avô Saul, foi recebido com amor, reconduzido a uma vida digna e passou a se alimentar na mesa do Rei. Bem, você pode imaginar que para o padrão da época e mesmo de hoje, Mefibosete não fosse considerado pelas pessoas exatamente um enfeite para mesa real. Mas Davi o amava, porque via nele traços de seu amigo Jônatas.

Qualquer semelhança com a graça de Deus não é mera coincidência. É quando reconhecemos nossa fraqueza e feiúra espiritual, que Deus é atraído para transformar-nos, e “nos faz assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus, para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco...” (Efésios 2: 6 –7). É quando não temos nada para barganhar com ele, quando percebemos que todas as nossas boas obras e lista de regras bem cumpridas não são suficientes para encobrir nossa condição miserável, que podemos entender a Sua maravilhosa graça: não temos nada em nós que nos justifique, mas Ele vê em nosso ser traços de seu filho Jesus Cristo, e pela aliança firmada na cruz, nos ama infinitamente.

A história de Mefibosete poderia ter terminado por aí, mas infelizmente vamos encontrá-lo novamente em II Samuel 16: 1 – 4, em maus lençóis. Ziba, seu servo, além de lhe roubar os alimentos, ainda o acusou de querer tomar o reino de Davi. Este por sua vez, que estava no meio de uma fuga de Absalão, e sem muita condição de averiguar a veracidade da informação, deu a Ziba tudo que pertencia a Mefibosete. Se ele não fosse coxo, poderia ter acompanhado o Rei, e Ziba não teria passado-lhe a perna e roubado todos os seus bens. Nesse ponto eu pensei comigo: “coitado do Mefibosete!”, mas ainda aí há uma lição para aprendermos.

Espiritualmente, não podemos passar a vida inteira na mesma condição com que fomos achados. Deus nos recebe como somos, com todos os nossos defeitos, mas se não formos transformados, se não desenvolvermos nossas próprias pernas para acompanhar o Rei onde quer que Ele vá, chegará um momento em que poderemos perder tudo aquilo que nos foi dado. E nossas deficiências espirituais só são sanadas por meio de uma busca constante pela santificação, ou seja, por pôr em prática em nossas vidas o amor que aprendemos dEle. Há a tentação de se acostumar às mordomias da mesa do Rei, e acomodar-se em usar muletas para se movimentar. A religiosidade ritual pode ser uma muleta. A vida social que a igreja proporciona, as pequenas satisfações de cantar, pregar, evangelizar, tudo isso é uma bênção se não for usado como mera muleta para estar no palácio do Rei. O motivo de estarmos com Ele deve ser primeiramente Ele mesmo. Tudo o mais, ainda que importante, não deve ser o determinante em nossa vida cristã. Chegará o momento em que tudo que fazemos na igreja, todos os nossos pequenos rituais, obras, cargos e títulos não serão o bastante para nos permitir andar junto ao Rei. E é nesse momento que corremos o perigo de perdermos toda a herança que nos foi dada...

Que nesta semana possamos meditar uma vez mais sobre a graça de Deus em nossa vida, e deixar que ela nos transforme, para que possamos ser vigorosos combatentes de Baal, não simplesmente acomodados a vida exterior de convivas do Rei, mas vivendo interior e plenamente a condição de Príncipes do Reino Celestial.

Uma semana iluminada,

Luciana

domingo, 17 de novembro de 2002

Milagrinhos

Pequenos milagres é que me fascinam. Os grandes são fáceis de ver, e já existe gente demais falando deles. Do outro lado existem pessoas que, sem poder contestá-los, convivem confortável e alheiamente com o fato de que Deus existe. Pequenos milagres exigem um olhar mais atento, e quando percebidos fazem exclamar "Deus existe mesmo, e na minha vida!". Pequenos milagres convertem. Falemos de coisas pequenas então.

Por duas semanas eu me preparei para apresentar um seminário sobre Processo Penal. Queria fazer meu melhor e para isso não poupei esforços: sacrifiquei horas de sono, lazer, deixei de estudar para outras provas priorizando esse seminário. Na noite anterior à apresentação, depois dos indefectíveis ensaios diante do espelho, olhei os rascunhos e anotações satisfeita e fui dormir. Mas por um desses mistérios insondáveis do universo, o despertador não tocou pela manhã, e eu acordei na hora exata: na hora exata em que deveria estar começando o seminário... Desesperada, pensei em todas as possibilidades de chegar até à faculdade com apenas quinze minutos de atraso, mas a única coisa que me ocorreu foi um helicóptero, e não havia nenhum por perto, então, tal qual o salmista às margens dos rios da Babilônia, eu sentei e chorei.

Estava tudo irrecorrivelmente perdido. Restaram apenas as imprecações contra meu despertador, meu sono de pedra, e é claro, umas reclamações contra Deus, que bem poderia ter me dado uma forcinha e, levando em conta meu esforço, ter dado um jeito de me acordar a tempo. Por que não? Ele não é capaz de coisa bem maiores? E não se preocupa com pardais? Por que não poderia dar uma olhadinha pra mim quando preciso? Então me entristeci conformada, pensando que Ele devia ter mesmo coisa mais importante para fazer, que detalhes da minha vida dizem respeito somente a mim, Deus não poderia se ocupar de coisinhas do meu dia-a-dia, Ele não pode ligar para as pequenas preocupações que cada filho encrencado resolve lhe jogar nas costas. "Sei lá, deve estar resolvendo alguma questão na Palestina", pensei, e liguei para um colega a fim de avisar que eu não poderia ir. Ele disse:

- Ah, tudo bem,.o professor não veio.

- An??????

- É, como ele nunca se atrasa, e já são sete horas e dez minutos, pode ter certeza que ele não vem mais.

É, ele não foi. Não tenho idéia do que o fez faltar, especialmente porque isso não é comum. Só sei que no momento que desliguei o telefone me senti a própria Scarlet Ohara em "O vento Levou", cabelos desgrenhados ao vento, maquiagem borrada, dizendo: "Jamais sentirei falta de fé outra vez!!!"

Bem, eu poderia fazer apenas o normal e exclamar: "Ufa! Que sorte!". Poderia apenas ficar com essa "feliz coincidência" e seguir meu caminho. Mas sinceramente, o que ouvi foi um Deus amoroso dizendo: "Ei, você sabe que me preocupo com as aves do céu e com os lírios do campo, mas também me preocupo com você, e no momento o que você estava precisando mesmo não era de um despertador, era dormir!!". Reconheço que minha vida é uma sucessão de pequenas e felizes coincidências, algumas das quais eu nem sei que aconteceram, outras cotidianas, mais ou menos vistosas, mas sinto que muito do que acontece em minha vida não é fruto apenas do que eu faço ou deixo de fazer. E eu teria que fazer um esforço muito grande para crer que isso são só coincidências, quando o mais evidente é que Ele cuida de mim. Sim, mesmo nos mínimos detalhes.

Mas é sempre a mesma coisa: não vemos os pequenos milagres e esquecemos os grandes. Por que não admitimos que Deus pode interferir em pequenos episódios de nossa vida e mudar decisivamente a direção ou fim de um episódio, em nosso favor? Por que preferimos chamar isso de sorte, coincidência ou intuição? Certamente admitir uma intervenção divina exigiria de nós uma resposta, nem que fosse gratidão, e não queremos sentir que "devemos algo" para alguém, especialmente quando esse alguém é Deus (fomos ensinados que não se dá nada sem se cobrar algo em troca, e sabe-se lá o que Deus pode cobrar de nós!). Ver pequenos milagres, consiste em admitir que Deus existe e está presente em nossas vidas. Até onde essa presença nos incomoda, desnuda ou constrange? Crer em pequenos milagres é bem mais difícil que crer em grandes milagres. Grandes milagres geralmente são com os outros, pequenos milagres vão insistir em me dizer respeito! Pode-se lidar razoavelmente com o fato que Deus tem o mundo nas mãos, mas quão perturbador é perceber que Ele tem justamente a minha vida nas mãos dEle! E tudo bem que se importe com a Palestina, mas como encarar tranqüilamente o fato de que Ele se importa comigo e meus menores anseios, problemas e dificuldades? E se Ele resolver me cobrar caro pelo excesso de zelo? Se quiser que eu seja mais grato que eu gostaria de ser? Se descobrir que prestando tanta atenção em mim Ele não vai ter lá um retorno tão grande em termos de investimento?

Ora, Deus quer mais é saber de amar você. E enquanto você estuda sua reação e conseqüências diante dEsse amor incompreensível, Ele vai mostrando do que é capaz um ser humano.

Venha aqui para o evangelho de João 20: 11. Lá está Maria chorando e chorando, totalmente concentrada em sua dor. "Ai, roubaram o corpo de Jesus, era só o que faltava. Não podiam tê-lo poupado de mais esse sacrilégio? Ai, se eu soubesse onde está o corpo dele...". Então Jesus aparece para ela. Sabe o que imagino? Jesus havia acabado de ressuscitar. Ele agora subiria aos céus, que em festa, cheio de júbilo e ansiedade o esperavam para honrá-lo como o Príncipe da Vida e saudá-lo vivamente, dando a afirmação de que seu sacrifício expiatório fora aceito. Jesus só tinha que subir e correr para o abraço, literalmente. O Seu próprio Pai O esperava cheio de vontade de abraçá-lo, de tê-lo de novo consigo depois de um tempo tão doloroso de afastamento. Jesus, por sua vez, estava prestes a se desprender da miséria humana e adentrar de novo no seu Lar original, cheio de glória, luz, lugar perfeito de onde ele estava cheio de saudades. Lá ia Jesus... mas ouviu Maria chorar. E deu meia volta. Foi até ela, e com todo o carinho deste e do outro mundo, dissipou-lhe a tristeza anunciando que havia ressuscitado e estava indo ver Seu Pai, deu-lhe o mais animador de seus sorrisos, e só depois de deixar Maria feliz foi que Ele continuou seu caminho rumo a um Céu glorioso... mas que podia esperar. (ver "O Desejado de Todas as Nações" de Ellen G. White, págs. 788 a 791)

Percebe? Jesus não resiste a uma lágrima humana. E uma só lágrima de sofrimento de um único filho seu é capaz de fazer Ele deixar um céu inteiro esperando, só para devolver o sorriso àquele filhinho. É esse Deus de amor que eu conheço e vejo agir em minha vida. Nenhum detalhe do meu viver é demasiado pequeno para que Ele não se importe, ou não haja quanto a isso em meu favor. Por isso me fascinam os pequenos milagres, e perante as coisinhas menores da minha vida é que sempre peço com mais ardor: "Pai converte os meus olhos para que te vejam, converte a minha memória para que ela jamais esqueça que Tu és Deus."

Uma semana iluminada,

Luciana

domingo, 10 de novembro de 2002

Então tá

(O diálogo a seguir não é ficção. Aconteceu sexta-feira, por volta das dezesseis horas tendo por cenário um ônibus lotado. Por partir de crenças muito pessoais a respeito do conceito de Deus, não o recomendo para quem ora apenas de joelhos e só se dirige a Ele na segunda pessoa do singular.)

- Então tá, é o seguinte: eu preciso cuidar da minha vida.

- Tá.

- Tá? Assim, você não vai me contestar?

- O que eu posso dizer? Se você decidiu assim, eu só posso aceitar e continuar do teu lado. Não acho que qualquer coisa que eu fale agora vá fazer você mudar de idéia.

- Talvez! Por isso vim aqui falar com você.

- Quando você me chamou achei que tinha algo a me dizer, apenas. Não consegui perceber uma intenção de diálogo.

- É, é verdade, mas eu deixo você falar. O que me dá raiva é que no fim você sempre tem razão.

- ...

- E sempre faz minhas razões parecerem tão ridiculamente pequenas, que eu acabo voltando atrás e fazendo a sua vontade.

- E isso é ruim?

- Não, não é que seja ruim, mas no final de tudo fica parecendo que eu sou a única pessoa do mundo que ainda se importa com isso. Entende? Me sinto anacrônica, deslocada, um ET que nunca vai aprender a viver aqui.

- Você pode tentar aprender a viver aqui, na verdade eu até espero que você consiga. Mas meus planos pra você vão além disso. E se você quiser ir além deste mundo, não vai conseguir se adaptar aqui mesmo.

- Tá vendo? Então eu vou passar o resto da minha vida me colocando em segundo plano? Eu ainda vivo aqui, tenho que pensar no que está acontecendo agora, ao meu redor. Foi isso que eu vim te dizer, acho que você cuida bem de mim, mas eu também preciso fazer isso de vez em quando. Acho que eu posso me virar sozinha às vezes. Não acho que se eu deixar de fazer certas ações, isso vai alterar a ordem das coisas, no final tudo vai ficar bem. Sabe, acho que não sou insubstituível. Por que eu tenho que fazer certas coisas? Você não pode colocar alguém pra fazê-las em meu lugar?

- Posso.

- E então, tou liberada?

- Do quê?

- Ora, de fazer as coisas tão certinhas! De ser tão boazinha e levar sempre a pior!

- Mas você faz assim porque quer! Porque você é assim. Porque quer fazer o que eu quero pra você, você mesma decidiu isso, não foi? Como você pode se liberar de você mesma?

- Ai, ai, lá vem você dando um nó na minha cabeça de novo. Ta vendo, é impossível ter um diálogo com você...

- ...Sem que você consiga driblar o que você de fato é. Mas é um fato, você não pode correr tão rápido que consiga escapar de você. Pode fingir não me ouvir, pode arquitetar suas desculpas (e você é boa nisso!), mas quando tiver certeza que está "livre" para fazer tudo o que quer, me responda, será que você estará finalmente feliz? Você acha mesmo que o que você não encontrou aqui dentro, poderia encontrar lá fora? Acha que construindo um mundo só seu, você se sentirá segura enfim? Bem, você sempre esteve "liberada" para fazer o que quiser. Eu vou continuar te amando e esperando. E aposto três estrelas como minha fidelidade dura mais que sua satisfação lá fora. Hmm... diga apenas, para onde você iria?

- Ah, não sei, o mundo é tão grande... que dá até medo. E se eu deixar de amar você? Você sabe, a gente pode cortar a convivência, então com o tempo eu vou deixando de te amar.

- Pode ser, com certeza. Mas mesmo sem me amar, você ainda vai se lembrar que os melhores momentos de sua vida foram passados do meu lado. E eu vou continuar te amando, já disse, e esperando você voltar pra gente conseguir viver uma vida toda de felicidade juntos e não só alguns momentos.

- Olha, bonita sua conversa, mas na prática a gente sabe que não é assim. Não dá pra ser feliz com tanta gente fazendo as coisas erradas, que ainda dizem estar do teu lado. Não dá pra ter uma vida inteira de felicidade tendo tanta gente ao redor destruindo o que você lutou pra erguer, arrancando o que você plantou, semeando mentira onde você se esforçou pra fazer brotar a verdade. Ninguém pode ser feliz tão plenamente, vendo pessoas sendo enganadas, maltratadas, negligenciadas física, social, emocional e espiritualmente, por outras pessoas que só se importam em manter uma fachada de "bom cristão". Como conciliar felicidade e hipocrisia?

- Eu falei de felicidade, não de perfeição. A perfeição não é pra agora, menina impaciente...

- Num me xinga não!

- Não estou xingando. Nem mentindo, certo?

- Só porque você me conhece não precisa ir apontando os defeitos, ora...

- Falei de felicidade, porque me referia a estarmos juntos. A maioria do tempo as coisas não vão mesmo estar bem. Alguns dos seus planos vão dar errado, outros vão ser destruídos a despeito de todo o seu esforço pra fazer o que é certo. Eu gostaria muito que não fosse assim, mas só posso agir quando chegar o tempo certo, e até lá preciso de sua confiança. Nós podemos ter uma vida inteira de felicidade, sim! Todos os momentos felizes que tivemos juntos não foram por causa da alegria contida neles. Fomos felizes mesmo em alguns dos seus momentos mais difíceis, só porque estávamos juntos. E quando te prometo uma felicidade perene, não estou falando que tudo vai ser sempre flores, mas que podemos estar sempre juntos sempre, ininterruptamente.

- Mas tem tanta coisa errada...

- Bem-vinda ao planeta Terra! Não adianta fingir que não é com você. Tem um monte de pessoas olhando pra você e esperando o que você vai fazer.

- Isso é assustador... Quer dizer, sou tão... tão...nada!

- Eis o ponto de tensão: o que você é, e o que você pode ser. Como as coisas estão e como elas poderiam ser.

- E se eu não conseguir? Se eu cair fora ou simplesmente cair derrotada no chão?

- Bem-vinda à resistência. Eu posso te garantir paz enquanto você lutar.

- Que paradoxo!

- De fato, mas é assim. Não posso te dar muitas respostas agora, porque você não está preparada pra entendê-las. Também não posso prometer que você vai sempre ganhar e ver as coisas dando certo. Mas posso prometer - e já prometi - paz. A minha graça te basta.

- Ô frase difícil e engolir! Pode ser que não baste, já parou pra pensar nisso?

- Ah, já sim. Mas eu não afirmaria com tanta certeza se não soubesse: minha graça te basta.

- Ta. Então digamos que eu te confesse que certas verdades que eu vivia e pregava com tanto fervor há uns anos atrás, já não têm a mesma força sobre mim. E aí?

- E aí que essas verdades não deixarão de ser verdades só porque você não as vive mais. E nem tente fazer sua versão para elas, porque você sabe que essas verdades são absolutas. As únicas coisas absolutas no universo. Embora haja tanta gente empenhada em negar isso para tentar se autojustificar. Você quer ser mais uma?

- Eu não. Mas a gente cansa, sabe? Não, por favor não me fale de exemplos bíblicos, de personagens bravos e fortes que não são eu. Não me cite os velhos versículos como aquele "mas os que esperam no Senhor renovarão as suas forças..."

- Tu o disseste! Eles são velhos mas ainda são pra você...

- E se eu cansar de ver que ninguém mesmo liga pra certos valores?

- Eles continuarão sendo os valores certos. E você saberá disso enquanto viver.

- E quanto tudo parecer irreal? Quando minhas crenças parecerem, aos olhos de todo mundo, algo sem nexo? Vou ter que passar o resto da vida estudando teologia, apologia, argumentação, e me matando com as refutações da alta crítica?

- Se você acreditar, já será real. E todos verão isso.

- Voltamos à fé...

- É... a fé, que você ainda tem aí dentro, e por menor que possa parecer, é sempre suficiente para criar raízes e dar frutos. O grão de mostarda, lembra? Eu acredito na qualidade da sua fé. Se ela não fosse das boas, você não estaria falando comigo no meio desse ônibus lotado.

- Tem razão, desculpa de tê-lo feito vir aqui, é que era urgente...

- Tudo bem, estou mais confortável que você.

- Então tá, é o seguinte, acho que você ganhou outra vez.

- É? Então exijo um pôr-do-sol ao seu lado.

- Mas não saia de perto de mim nunquinha, tá certo?

- Nem você, combinado?

- Combinado, prepare aí seu melhor pôr-do-sol e vamos ver se depois de milênios você ainda não enferrujou.

Uma semana iluminada,

Luciana

domingo, 3 de novembro de 2002

A maior tragédia

Outro dia, eu e umas amigas conversávamos sobre as manias curiosas que as crianças têm. Eu contei, achando-me o mais esquisito dos seres, que quando era criança e minha mãe me batia, eu ia para o meu quarto, ligava o rádio numa música romântica, bem triste, e só então chorava com gosto minha mágoa, que acentuada pela melodia ganhava ares de tragédia. Outra amiga contou que, bem pequena, quando estava chateada ou sentia alguma dor, puxava bastante os próprios cabelos pra dor aumentar e ela chorar com mais força ainda. Mas quem ganhou mesmo foi outra amiga, que relatou, vitoriosa, que quando levava umas boas palmadas da mãe, ia para frente do fogão na cozinha, e ficava olhando fixamente no vidro do forno, o rosto coberto de lágrimas, e então chorava mais, como se estivesse vendo a sua própria dor sendo encenada na televisão.

Não importa o que dizem as estatísticas da ONU: nós sempre vamos achar que nossas próprias tragédias merecem toda atenção. É da natureza humana encontrar sempre algo para queixar-se, e por menor que o problema eleito pareça aos olhos dos demais, ele costuma ser tratado com tamanha ênfase que ganha ares de insolubilidade. "Ai, minha unha quebrou, que desgraça!", e acredite, o sofrimento é verdadeiro e plenamente justificável: "Você tem idéia de quanto tempo esperei esta unha crescer? De quanto gastei em esmalte fortalecedor? Do envolvimento emotivo e cósmico que eu tinha com essa unha?"

Brincadeiras à parte, todos nós, pelo menos uma vez na vida, nos vimos às voltas com algum grande problema, aparentemente sem solução. Daqueles frente aos quais nos sentimos completamente impotentes. Ou ainda daqueles que desabam depois de você ter dedicado um tempo e esforço enorme investindo para que algo fosse adiante, e no fim alguém - que não está realmente interessado na sua dedicação - põe todos os seus planos a perder. Seja qual for a descrição do grande problema, ele é será sempre trágico aos olhos de quem o viveu (mesmo aos olhos daqueles que disfarçam muito bem).

Esta semana, mais uma vez, Deus me falou que no perfil de um cristão não se encaixa bem essa tendência humana de supervalorizar o próprio sofrimento. Na verdade basta um pequeno esforço em mudar o ângulo da visão para perceber que as coisas não são tão trágicas assim. Com um leve movimento rotativo do pescoço, você consegue perceber que todas as pessoas têm problemas, alguns deles muito maiores que o seu. A bem da verdade, com uma olhada mais apurada, você constata que há pessoas com problemas que fariam o seu parecer bem pequenininhos. O maior exemplo disso foi uma jovem garota que conheci faz uns meses, e que tem câncer há três anos. Mesmo podendo reivindicar para si o título de "maior problema do mundo", ela me surpreendeu dizendo ficou muito triste ao encontrar certa mulher bastante resmungona e mau-humorada no pátio de um hospital, que fazia questão de dizer a todos que a interpelavam: "não encha, você não sabe o que é conviver anos com um joelho reumático!". Minha amiguinha apenas sorriu e pensou: "puxa, ela tem um problema maior que o meu: eu tenho que aprender a lidar com a morte, ela sequer aprendeu a lidar com vida!".

E há ainda outro ângulo que convém lançar o olhar antes de dar nosso caso por perdido. Olhando para Cristo, não temos como nos sentir sozinhos. Ele está no comando, sempre! Então pra quê esse desespero? Tudo vai ficar bem, e não é porque sua mãe, namorada ou o Lair Ribeiro falou. É porque Deus está cuidando de tudo. Se você tiver fé para acreditar nisso e deixar que Ele faça a Sua parte, o tamanho do problema diminuirá drasticamente diante de seus olhos.

Há algum tempo li certa frase de um autor que não lembro de jeito nenhum. Até pesquisei bastante para ver se achava ela na internet, mas nem o google me socorreu, então me resta apelar para minha falha memória: "Não se atormente tanto por um problema. O que é a maior das tragédias depois de dez dias?". Você pode escolher ficar com os olhos bem fixos na sua mágoa, decepção, tristeza, saudade, frustração ou derrota. Ou pode olhar em volta e para cima, e renovar a fé na vida. Deus já escolheu que você vai vencer, só espera que você aceite esse fato, para poder torná-lo realidade em sua vida. Enquanto isso acontece, perceba as tragédias alheias e ocupe-se de amenizá-las: é uma forma bastante eficaz de esquecer suas mazelas. Mas não dê muita atenção as próprias tragédias, que elas vão passar, e daqui a dez dias já não serão tão grandes assim, afinal a vida ainda tem que continuar. Ora, a maior tragédia de todos os tempos, durou somente três dias. Mas ao terceiro dia Ele ressuscitou! E agora cá estamos nós, destinados para a vida em abundância!

Uma semana iluminada,

Luciana

domingo, 27 de outubro de 2002

Estigmas

Passamos a vida colecionando estigmas, não adianta o quanto tentemos andar na linha. Por mais que você tenha uma conduta ilibada, a qual sirva de modelo perante a maioria das pessoas que te cercam, tem sempre alguém mais perto que conhece seus pequenos - ou grandes - defeitos e é capaz de apontá-los com precisão, mesmo àqueles que nem mesmo você sabia ter.

Veja o meu caso. Na maioria do tempo tenho consciência dos meus próprios defeitos. Às vezes sou preguiçosa, impaciente, perfeccionista, e perco todas as canetas que me chegam à mão. Tenho, ao longo dos anos, buscado trabalhar nesses defeitos, muito embora continue colecionando erros e tampas de caneta solitárias. O curioso é que quem me conhece, mesmo depois de muito tempo, não consegue perceber com facilidade os defeitos que eu reconheço em mim. Por isso sempre me surpreendo com pessoas que elogiam meu empenho, paciência e maleabilidade. E ainda mais com as que me pedem canetas emprestado!

Mas a família possui uma habilidade admirável de achar aqueles defeitos que você nunca reparou, ou ao menos se esforçou bastante pra esconder. E o pior de tudo, é que os estigmas são formados justamente graças a essa habilidade. "Eu? Claro que não sou desastrada. Não, não lembro de deixar a luz acesa quando saio. Nunca destruí o coração de ninguém, que coisa! Não reparei que abro a geladeira toda hora, minhas refeições são bastante regulares. Eu não ronco feito um caminhão desgovernado!". Não adianta. Você provavelmente entrará para a posteridade como uma mulher desengonçada, pródiga, sentimentalmente perversa, com apetite descontrolado e o ronco mais aterrador da árvore genealógica.

O pior do estigma, é que ele é indelével. Quando você ousa ir contra ele, todos reagem como se estivessem assistindo a um novo ataque terrorista via CNN. Conhecida como a nerd que só ouve Mozart e Bach? Nem pense em se apaixonar! Se te pegam ouvindo Fagner, terá de suportar pelo menos meia hora de gargalhadas histéricas. Hoje, por exemplo, só porque eu comentei com a maior inocência do mundo que ía limpar meu quarto, sucederam-se vários comentários exaltados do tipo: "Nuuuuussa, salvou-se uma alma!!", "Gente, ela tá doente!!", "Hein??? Preciso de um cotonete...". Ora, ora, tudo bem, não tenho vocação pra Amélia, mas eu limpo meu quarto com regularidade, sim! É tão chato quando as pessoas te julgam incapaz de fazer algo, só por causa do teu histórico! Nós não somos robôs programados. Somos seres em constante mutação, passíveis de mudar e escolher um caminho diferente. Capazes de absolutamente tudo, inclusive de fazer o que menos se espera de nós. Digo, capazes de fazer as coisas certas! As coisas boas e nobres. Por que não? Capazes de amar! E de limpar o quarto!

Felizmente existe a piedade divina. E um Deus que não estigmatiza seus filhos. Ele não nos conhece como "o cara mais mentiroso do pedaço", "o crente que só ser certinho mas no final faz tudo errado", ou "a garota do ronco de 500 decibéis". Não nos chama por alcunha, nem nos julga por nossos históricos, não importa o quanto eles não nos recomendem. Não nos conhece pelo que fomos, ou pelo que dizem de nós, mas pelo que podemos ser. E quando permitimos, somos "justificados gratuitamente pela sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus" (Romanos 3: 24). Os estigmas que interessam para Ele em nossa história, são apenas aqueles que Ele carrega em Suas mãos.

Uma semana iluminada,

Luciana