Somos três irmãs aqui em casa. Todas tem uma miopia acentuada, mas a mais nova, por um desses mistérios entre o céu e a terra, não pode usar nem óculos nem lentes de contato corretivas. A solução, portanto, foi a cirurgia. Em casa ficamos todos apreensivos (e completamente quebrados financeiramente), mas graças a Deus tudo deu certo, e hoje ela veio me contar os detalhes da operação – com o que conseguiu me convencer a usar lentes de contato para o resto da minha vida.
- Cita, primeiro ele coloca uma coisa assim que puft! Escangalha o olho. As pálpebras ficam arregaçadas e eu tive quase certeza que meu olho estava saltando pra fora. Aí ele enfia uma agulhinha, uma vez, outra vez... fura o olho todo, e tira o líquido de dentro dele. E ao mesmo tempo vai enxugando a córnea com uma espécie de gaze, e enxuga e enxuga, e eu comecei a fica agoniada com aquilo e “aaannnn” comecei a chorar... mas Cita, você não acredita, a lágrima não descia, eu acho que é porque ela entrava no buraco do olho ao invés de sair. Então quando eu achava que tinha terminado aquele suplício, veio o laser e “tchum tchum tchum” fatiou meu olho em pedacinhos. Cita, é sério! Subiu uma catinga de carne queimada!!! E eu desesperada com vontade de sair gritando, e o médico disse: “não se mexa se não o laser corta seu cérebro”. Acho que ele disse brincando, mas na hora eu não achei que ele tava brincando não. Então eu fiquei quieta né, até porque se eu corresse, meu olho podia ficar pendurado lá naquela coisa...mas deu uma coisa ruim, e eu aguentando, e não doía, mas me deixou tão aperriada que eu tinha vontade de gritar. Aí o médico dizia: “fale comigo”, e eu fazia “aaaaannn”, e ele me chamou de chorona. Então começou a me contar que tava estressado, que colocavam a culpa de tudo nele, que ia dar a maior confusão porque ele chegou atrasado, mas ele não tava nem aí, e se viessem reclamar ele ía quebrar tudo, e o homem começou a ficar nervoso, Cita, e eu pensava: “meu Deus, e se ele resolve se vingar me cegando?”, e ele continuava ali, falando afobado e fazendo a cirurgia como se estivesse cortando um bife na cozinha da casa dele. Ele ficava pingando um colírio o tempo todo no meu olho para dilatar a pupila, pingava, pingava, pingava, eu tomei um porre de colírio, porque ele descia pelo buraco do olho, entrava no nariz, depois na boca e eu engolia... fiquei muito doidona de tanto colírio que engoli, Cita! Aliás hoje de manhã acordei com uma dor assim no meu coração, mas não foi do colírio não, era gases...
Confesso que quase chorei com a descrição minuciosa dela. Nunca levei jeito para essas coisas de corpo humano, cortes, bisturis e afins. E só de imaginar alguém pegando em sangue ou mexendo numa coisa sensível como um olho já me dá arrepios, vontade de gritar também. Mas enfim, essas coisas são necessárias... minha irmã concluiu toda feliz:
- Ah, Cita, faz também! Quando termina você se sente um mestre pokemón porque consegue suportar tudo aquilo sem sair correndo... e depois fica vendo tudo melhor, brilhando, brilhando, olha que céu mais lindo!
Bem, ainda não foi um argumento bom o suficiente para me convencer a enfrentar o raiozinho assassino, mas me fez pensar numas coisas aqui com meus botões.
O processo de santificação exige que nos coloquemos por inteiro nas mãos de Deus a fim de sermos transformados à semelhança do Seu caráter. Você não é obrigado a isso, Ele te ama de qualquer forma, mas você reconhece – porque O ama – que cristianismo pede crescimento. Ser cristão não é um momento, é uma vida inteira. E à medida que nos aproximamos dEle, não temos como nos conformar com nossas deformidades, nossos paliativos. Queremos a liberdade de ser inteiramente dEle.
Reparar esses defeitos, no entanto, não é algo fácil. Às vezes é necessário perder, renunciar ou agüentar um pouco mais, mesmo que a vontade seja de sair correndo e gritando em direção oposta. Mesmo quando você tem fé suficiente para não sentir dor, é impossível não se sentir incomodar quando as transformações começam a acontecer. Paciência! Você passou uma vida inteira sendo meramente humano, não é sem algum esforço que alcançará a natureza celestial. Só para lembrar: “Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio...” (Gálatas 5: 223 e 23). Há mesmo momentos em que a intervenção divina parece brusca ou violenta, que Ele está sendo intrometido demais, ou que, puxa, não dava pra deixar eu viver um pouquinho mais minha miopia?... mas há escolhas que não se podem adiar, que podem pesar bastante na sua saúde espiritual. Decisões – difíceis – que só podem ser tomadas agora, ou nunca mais.
Se você decidiu seguí-lO, vai chegar o momento de sentir a intervenção divina de alguma forma. Estranhar Seus métodos é normal: talvez demore muito tempo para você ter capacidade de entendê-los. Também não funciona querer escolher os lugares onde você acha que Ele pode intervir. Suas mãos precisam tocar mesmo os lugares mais sensíveis, como os olhos e o coração: para que você veja com os olhos dEle, para que você sinta com o coração dEle, para que você seja o que Ele sonhou para você. E ser qualquer coisa fora disso é uma mentira.
O segredo é sempre o mesmo: “não temas, crê somente!” (Marcos 5:36). Resista, que a prova vai passar, e você pode suportar, senão Ele não permitiria que fosse assim, pois tocar você é tocar a pupila dos olhos dEle (Ui! Ui! Que agonia! - Zacarias 2:8). Fale com Ele, chore, grite se for o caso, mas deixe que Ele te transforme num ser mais elevado, enobrecendo seu caráter defeituoso, que, cá pra nós, a gente pode ser bem mais do que temos sido aqui. Quando a intervenção passa, você se torna mais forte, e depois fica vendo tudo melhor, brilhando, brilhando, olha que céu mais lindo!
Uma semana iluminada!
Luciana
sábado, 28 de setembro de 2002
domingo, 22 de setembro de 2002
Dor e prazer
Já ouviu falar da lei de Murphy? É uma lei metafísica que diz: “se alguma coisa pode dar errado, vai dar errado, na pior hora e da pior forma”. Ruim mesmo é que essa lei, comprovadamente, é como a da gravidade: não tem escapatória.
A coisa acontece mais ou menos assim: quando eu era bem pequena, minha mãe disse: “não suba aí que você cai, menina!”. E o que eu fiz? Subi e caí. E a experiência me trouxe dor e prazer. A dor de me machucar, mas o prazer de, em seguida, ver minha mãe correndo até mim, me afagando, cuidando de mim, me dando toda a atenção e carinho que ordinariamente eu não recebia. Então acabei buscando situações em que, com o mínimo de dor, eu pudesse obter o máximo de prazer. Quando eu tinha minhas crises de carência, típicas da síndrome da irmã do meio (a mais velha pode tudo, a mais nova é privilegiada, a do meio, nada), eu aparecia com alguma dor de barriga homérica, uma enxaqueca atormentadora, um machucado no pé que me impingia dores terríveis, uma cólica que me fazia perder os sentidos, ou coisa do gênero: aprendi a dramatizar ao máximo minha dor como meio de ganhar atenção. Mas a glória mesmo, veio aos doze anos, quando eu torci meu pé. Pisei em falso e o pé inchou levemente, praticamente não doeu, mas eu só saí do hospital quando consegui convencer o médico que aquilo era quase uma fratura exposta, e ele (tão bonzinho!) me deu uma linda bota de gesso, enooorme, para eu desfilar minha necessidade de carinho em grande estilo. Isso tudo é completamente doido, mas na época, pelo menos umas três colegas me confessaram que sonhavam em quebrar uma perna pra ter uma bota de gesso também.
Pois bem, eu cresci – um dia isso tem que acontecer – , e fui aprendendo aos poucos, que atenção e carinho são mesmo coisas maravilhosas, mas existem modos mais eficazes de obtê-los que fazendo chantagem emocional. Que a relação dor-e-prazer era desvantajosa, quando eu podia obter somente o prazer sem precisar me machucar. E ao invés de arriscar sentir uma dor para dramatizá-la eu podia simplesmente descartá-la e obter um amor mais sincero e verdadeiro fazendo tão somente o óbvio: valorizando a mim mesma, e amando meu próximo primeiro, incondicionalmente, sem cobranças. Isso causou uma revolução tal em meu modo de agir que eu nem me lembrava mais do meu passado de atriz. Até ontem.
Como sou estagiária não tenho direito a férias no trabalho. Por isso aproveitei as férias na faculdade para trabalhar dobrado alguns dias, e ter direito a folgar pelo menos uma semana e viajar para meu éden particular: a praia de Muriú. Ontem fui lá para ter uma prévia do que seria ficar de quarta a domingo naquele lugar maravilhoso, e eis que me dirigindo para a lagoa de águas mornas e deliciosas, levo uma queda monumental, e a vida me dá novamente o presente com que eu sonhei por anos: nova torção no pé, essa sim verdadeira e insuportavelmente dolorosa. Então me restou dar adeus às férias e, de pé enfaixado (num engessa não, dotô! Por favor!), refletir sobre o episódio e tentar tirar algo de bom dele.
Que eu posso dizer? Torcer o pé dói e isso é ruim mesmo. Agora os valores aparecem em seu devido lugar. O que antes me faria pular de alegria, ops, quer dizer, manquejar de alegria, agora me deixou no mínimo triste. Mas essa confusão entre dor e prazer, essa coisa de ver coisas ruins como meio de obter satisfação é mais comum que se possa imaginar. Chega uma hora que as coisas ruins são tão almejadas que chegam a nem parecer tão ruins assim. Na verdade as coisas ruins parecem ser muito boas, ao ponto de pessoas persegui-las e fazerem disso um modo de vida. Saberem que estão se auto-destruindo e ainda assim, vibrarem com cada mutilação que sofrem. O nosso mundo faz propaganda dessa busca pelo mal, como se fosse algo para pessoas livres e fortes. E é claro, as coisas ruins, embora destruam, dão prazer. Um prazer imediato e superficial, mas bom o bastante para mover toda uma vida. Mesmo tendo-se consciência da auto-imolação, persiste-se nela em busca de algum prazer, não importa a dor que se siga. Mas isso é livre arbítrio: escolher a vida ou escolher uma pequena morte todos os dias.
Agora alguém pode concluir que é mesmo um absurdo como as pessoas “do mundo” permitem-se sacrificar seus corpos e espíritos num estilo de vida epicurista, capaz até de buscar satisfação em coisas ruins. É, eu também não entendo, mas não gostaria de concluir meu pensamento antes de apontar para uma escultura. Uma das esculturas mais instigantes do período barroco: o êxtase de Santa Teresa, de Bernini. Santa Teresa descreveu o momento de sua vida em que um anjo lhe apareceu em sonho e atravessou-a com uma flecha. A santa afirmou que, nesse momento, sentiu um gozo profundo, acompanhado de uma dor tão forte que a fez desmaiar. O escultor Bernini materializou o fato narrado, criando uma obra em que pode-se perceber na face da Santa, uma expressão mista de êxtase e sofrimento.
Também no meio religioso, sempre houve a idéia de que o sacrifício e a dor conduzem ao prazer espiritual. E isso faz com que algumas pessoas vivam uma aparente vida cristã, que na verdade lhes é um peso dificílimo de carregar. Reprimem seus desejos movidos pela obediência às regras e pela necessidade de se flagelarem para se sentirem mais santos. Embora seja comovente ver como tantas pessoas suportam o estilo de vida cristão como verdadeiros mártires modernos, pessoalmente não creio que essa seja a forma mais eficiente de obter o favor divino. A graça de Deus é realmente gratuita, nenhum esforço nosso pode comprá-la. E Ele não se compraz que tentemos “negociar” nossa salvação com atos de sacrifício, porque o único sacrifício válido e capaz de nos libertar da culpa do pecado, foi o sacrifício de Jesus, já realizado há mais de dois mil anos, pelo que já não se faz mais necessário nenhum outro sacrifício humano.
A lógica da salvação não admite a dor como item imprescindível. Não somos salvos por “distribuir todos os nossos bens entre os pobres, e entregar o corpo para ser queimado” (I Cor. 13:3), mas pelo amor ao Salvador. E quando existe amor, não há sacrifício, há renúncia. A diferença é que as renúncias feitas em nome do amor não doem. Não são usadas como meio de negociar atenção, mas oferecidas alegremente como a mais perfumada dádiva. Não cobram algo em troca, simplesmente se dão, e a maior renúncia é oferecida como quem dá um beijo. Se não for assim, mesmo a religião, que a princípio é uma coisa boa, pode se tornar em algo ruim e destruidor, posto que pode se transformar em um conjunto de formas e rituais vazios, e apesar de toda nossa “dedicação”, por nós mesmos só conseguiremos nos perder ainda mais. Se a vida de um crente consiste em apenas cumprir regras para parecer irrepreensível, levar pesados fardos nas costas para parecer bondoso, e de vez em quando fazer sacrifícios para parecer piedoso, bem, ele não conseguirá salvar-se, mas certamente se tornará alguém amargo, frustrado e infeliz.
Há muitos que buscam prazer nos lugares errados, com a ilusão de que o prazer temporário que as coisas daqui oferecem é o que de melhor se abstrai nesta vida. Sua felicidade então depende de estímulos constantes, ininterruptos e novos para perdurar, e, efêmera que é, não resiste ao momento da dor, nem nunca chega a preencher por completo. As coisas ruins, no fim são sempre são ruins, não importa com que boas sensações elas possam nos seduzir. E fora do Espírito Santo, não há discernimento agudo o suficiente para escolher o que é realmente bom. Mas muito mais triste que viver de momentos de prazer seguidos de dores profundas, é viver toda uma vida de sacrifícios dolorosos, tristeza e amargura, mesmo morando numa casa à beira da fonte de todo amor. Em ambos os extremos, de perdidos dentro e fora da igreja, o conceito pequeno de felicidade é lamentável. Há sempre um desperdício da vida em abundância que Jesus veio nos dar. Há sempre uma falta generalizada do conhecimento de Deus. Aquele que vem da vivência tão íntima com as coisas do céu, que flua em alegria, transborde em amor ao próximo e, no momento da dor, perdure em paz. Há nessa vivência o encontro com uma dimensão de felicidade que não cabe dentro dos sentidos humanos: e isso é Graça, meu amigo, porque pelo sacrifício dEle, nós fomos elevados a bem mais que homens. Somos filhos de Deus. (Gálatas 3:26)
Uma semana iluminada e prazerosa,
Luciana
A coisa acontece mais ou menos assim: quando eu era bem pequena, minha mãe disse: “não suba aí que você cai, menina!”. E o que eu fiz? Subi e caí. E a experiência me trouxe dor e prazer. A dor de me machucar, mas o prazer de, em seguida, ver minha mãe correndo até mim, me afagando, cuidando de mim, me dando toda a atenção e carinho que ordinariamente eu não recebia. Então acabei buscando situações em que, com o mínimo de dor, eu pudesse obter o máximo de prazer. Quando eu tinha minhas crises de carência, típicas da síndrome da irmã do meio (a mais velha pode tudo, a mais nova é privilegiada, a do meio, nada), eu aparecia com alguma dor de barriga homérica, uma enxaqueca atormentadora, um machucado no pé que me impingia dores terríveis, uma cólica que me fazia perder os sentidos, ou coisa do gênero: aprendi a dramatizar ao máximo minha dor como meio de ganhar atenção. Mas a glória mesmo, veio aos doze anos, quando eu torci meu pé. Pisei em falso e o pé inchou levemente, praticamente não doeu, mas eu só saí do hospital quando consegui convencer o médico que aquilo era quase uma fratura exposta, e ele (tão bonzinho!) me deu uma linda bota de gesso, enooorme, para eu desfilar minha necessidade de carinho em grande estilo. Isso tudo é completamente doido, mas na época, pelo menos umas três colegas me confessaram que sonhavam em quebrar uma perna pra ter uma bota de gesso também.
Pois bem, eu cresci – um dia isso tem que acontecer – , e fui aprendendo aos poucos, que atenção e carinho são mesmo coisas maravilhosas, mas existem modos mais eficazes de obtê-los que fazendo chantagem emocional. Que a relação dor-e-prazer era desvantajosa, quando eu podia obter somente o prazer sem precisar me machucar. E ao invés de arriscar sentir uma dor para dramatizá-la eu podia simplesmente descartá-la e obter um amor mais sincero e verdadeiro fazendo tão somente o óbvio: valorizando a mim mesma, e amando meu próximo primeiro, incondicionalmente, sem cobranças. Isso causou uma revolução tal em meu modo de agir que eu nem me lembrava mais do meu passado de atriz. Até ontem.
Como sou estagiária não tenho direito a férias no trabalho. Por isso aproveitei as férias na faculdade para trabalhar dobrado alguns dias, e ter direito a folgar pelo menos uma semana e viajar para meu éden particular: a praia de Muriú. Ontem fui lá para ter uma prévia do que seria ficar de quarta a domingo naquele lugar maravilhoso, e eis que me dirigindo para a lagoa de águas mornas e deliciosas, levo uma queda monumental, e a vida me dá novamente o presente com que eu sonhei por anos: nova torção no pé, essa sim verdadeira e insuportavelmente dolorosa. Então me restou dar adeus às férias e, de pé enfaixado (num engessa não, dotô! Por favor!), refletir sobre o episódio e tentar tirar algo de bom dele.
Que eu posso dizer? Torcer o pé dói e isso é ruim mesmo. Agora os valores aparecem em seu devido lugar. O que antes me faria pular de alegria, ops, quer dizer, manquejar de alegria, agora me deixou no mínimo triste. Mas essa confusão entre dor e prazer, essa coisa de ver coisas ruins como meio de obter satisfação é mais comum que se possa imaginar. Chega uma hora que as coisas ruins são tão almejadas que chegam a nem parecer tão ruins assim. Na verdade as coisas ruins parecem ser muito boas, ao ponto de pessoas persegui-las e fazerem disso um modo de vida. Saberem que estão se auto-destruindo e ainda assim, vibrarem com cada mutilação que sofrem. O nosso mundo faz propaganda dessa busca pelo mal, como se fosse algo para pessoas livres e fortes. E é claro, as coisas ruins, embora destruam, dão prazer. Um prazer imediato e superficial, mas bom o bastante para mover toda uma vida. Mesmo tendo-se consciência da auto-imolação, persiste-se nela em busca de algum prazer, não importa a dor que se siga. Mas isso é livre arbítrio: escolher a vida ou escolher uma pequena morte todos os dias.
Agora alguém pode concluir que é mesmo um absurdo como as pessoas “do mundo” permitem-se sacrificar seus corpos e espíritos num estilo de vida epicurista, capaz até de buscar satisfação em coisas ruins. É, eu também não entendo, mas não gostaria de concluir meu pensamento antes de apontar para uma escultura. Uma das esculturas mais instigantes do período barroco: o êxtase de Santa Teresa, de Bernini. Santa Teresa descreveu o momento de sua vida em que um anjo lhe apareceu em sonho e atravessou-a com uma flecha. A santa afirmou que, nesse momento, sentiu um gozo profundo, acompanhado de uma dor tão forte que a fez desmaiar. O escultor Bernini materializou o fato narrado, criando uma obra em que pode-se perceber na face da Santa, uma expressão mista de êxtase e sofrimento.
Também no meio religioso, sempre houve a idéia de que o sacrifício e a dor conduzem ao prazer espiritual. E isso faz com que algumas pessoas vivam uma aparente vida cristã, que na verdade lhes é um peso dificílimo de carregar. Reprimem seus desejos movidos pela obediência às regras e pela necessidade de se flagelarem para se sentirem mais santos. Embora seja comovente ver como tantas pessoas suportam o estilo de vida cristão como verdadeiros mártires modernos, pessoalmente não creio que essa seja a forma mais eficiente de obter o favor divino. A graça de Deus é realmente gratuita, nenhum esforço nosso pode comprá-la. E Ele não se compraz que tentemos “negociar” nossa salvação com atos de sacrifício, porque o único sacrifício válido e capaz de nos libertar da culpa do pecado, foi o sacrifício de Jesus, já realizado há mais de dois mil anos, pelo que já não se faz mais necessário nenhum outro sacrifício humano.
A lógica da salvação não admite a dor como item imprescindível. Não somos salvos por “distribuir todos os nossos bens entre os pobres, e entregar o corpo para ser queimado” (I Cor. 13:3), mas pelo amor ao Salvador. E quando existe amor, não há sacrifício, há renúncia. A diferença é que as renúncias feitas em nome do amor não doem. Não são usadas como meio de negociar atenção, mas oferecidas alegremente como a mais perfumada dádiva. Não cobram algo em troca, simplesmente se dão, e a maior renúncia é oferecida como quem dá um beijo. Se não for assim, mesmo a religião, que a princípio é uma coisa boa, pode se tornar em algo ruim e destruidor, posto que pode se transformar em um conjunto de formas e rituais vazios, e apesar de toda nossa “dedicação”, por nós mesmos só conseguiremos nos perder ainda mais. Se a vida de um crente consiste em apenas cumprir regras para parecer irrepreensível, levar pesados fardos nas costas para parecer bondoso, e de vez em quando fazer sacrifícios para parecer piedoso, bem, ele não conseguirá salvar-se, mas certamente se tornará alguém amargo, frustrado e infeliz.
Há muitos que buscam prazer nos lugares errados, com a ilusão de que o prazer temporário que as coisas daqui oferecem é o que de melhor se abstrai nesta vida. Sua felicidade então depende de estímulos constantes, ininterruptos e novos para perdurar, e, efêmera que é, não resiste ao momento da dor, nem nunca chega a preencher por completo. As coisas ruins, no fim são sempre são ruins, não importa com que boas sensações elas possam nos seduzir. E fora do Espírito Santo, não há discernimento agudo o suficiente para escolher o que é realmente bom. Mas muito mais triste que viver de momentos de prazer seguidos de dores profundas, é viver toda uma vida de sacrifícios dolorosos, tristeza e amargura, mesmo morando numa casa à beira da fonte de todo amor. Em ambos os extremos, de perdidos dentro e fora da igreja, o conceito pequeno de felicidade é lamentável. Há sempre um desperdício da vida em abundância que Jesus veio nos dar. Há sempre uma falta generalizada do conhecimento de Deus. Aquele que vem da vivência tão íntima com as coisas do céu, que flua em alegria, transborde em amor ao próximo e, no momento da dor, perdure em paz. Há nessa vivência o encontro com uma dimensão de felicidade que não cabe dentro dos sentidos humanos: e isso é Graça, meu amigo, porque pelo sacrifício dEle, nós fomos elevados a bem mais que homens. Somos filhos de Deus. (Gálatas 3:26)
Uma semana iluminada e prazerosa,
Luciana
domingo, 15 de setembro de 2002
Como manda o figurino
Por esses dias eu terminei de montar um mural de fotografias no meu quarto. Foi uma idéia divertida, e selecionar as fotos foi um prazer à parte. Reencontrei muitas faces de mim mesma, e uma das que me traz saudades em particular, é a da menina de cabelos partidos no meio e vestidinho vermelho de babado. Eu amava esse vestido.
Minha mãe, por um bom tempo, era quem costurava as nossas roupas. E acompanhávamos passo-a-passo a confecção, desde o corte, quando ficávamos absortas como o modo como ela manejava aquela grande tesoura, até o acabamento, com as agulhas pregando botões e zíperes, provas e alfinetes. Gostávamos de pegar os retalhos que caíam da máquina e fazer roupas pra nossas bonecas. Bem, pareciam roupas aos nossos olhos.
Por isso, ganhar um vestido novo era uma festa que durava dias. Mas não sei bem porque, por aquele vestido vermelho eu me apaixonei particularmente. E o achava o vestido mais bonito que eu jamais usara, apesar de sua simplicidade. Eu queria estar com ele sempre que pudesse, em todos os lugares, eu e meu vestidinho vermelho - o grande caso de amor da minha infância.
Acontece que um dia lavaram meu vestido e eu fui para casa da minha tia sem levá-lo (a gente sempre levava uma “roupa de sair” para vestir à tarde, depois de tomar banho, para esperar os nossos pais). Se era para eu estar sem meu vestidinho vermelho, eu preferia não vestir roupa de sair.
À tarde minha tia sentenciou: “vamos para a pizzaria”. Aquilo em outra ocasião seria uma festa. Vi todos os meus primos e primas se arrumando alegremente, e eu fui ficando cada vez mais desesperada. Todo mundo iria menos eu? Olhei para minhas sandálias havaianas, e em seguida para o sapatinho de verniz da minha prima. Olhei para minha saia de bolinhas com um furinho do lado, e botei o dedo no furinho enquanto pensava. Era melhor não ir. Foi aí que minha tia fez a pior coisa que uma tia poderia fazer com uma criança de oito anos. Ela me obrigou a ir também. “Mas assim, como eu tou?”. Exatamente, “deixe de besteira e venha, que você não vai ficar aí sozinha”.
Desci do carro de minha tia reparando em como todo mundo estava super bem vestido – naquela época pizzaria ainda era novidade aqui em Natal: era ristoranti italini . Quando entrei naquele prédio assustador com meus primos, uma menina de vestido belíssimo e sandália branca brilhante vinha saindo com os pais. Nunca esqueci o olhar da menina em minha direção. Ela arregalou bem os olhos, olhou de cima a baixo e piscou forte. Eu baixei a cabeça e acho que não vi mais nada a noite toda. Passei todo o restante do tempo com o dedo enfiado no buraco da minha saia e tentando manter meus pés bem escondidos embaixo da mesa. Nem sei se comi pizza, e se comi não acho que tenha tido algum gosto. Lembro vagamente das risadas de meus primos se divertindo enquanto eu olhava a toalha da mesa, que era vermelha, e me fazia pensar no meu vestidinho pendurado no varal...
Ai, deu até vontade de chorar lembrando disso de novo, chuinf. Talvez por causa desse episódio lamentável eu sempre tenha sentido um nó na garganta quando leio o capítulo 22 de Mateus. Sei exatamente como é a sensação de estar numa festa com o traje equivocado. De ter a roupa ideal para ser usada mas estar sem ela quando se mais precisa. Ah, sei como é desagradável!
Somos chamados a participar de um banquete, onde a verdade e o amor são os pratos principais. E a roupa para estar nessa festa já foi preparada por Jesus, com o carinho de uma mãe que veste os filhos. Essa roupa é o manto de justiça que nos torna dignos de estar na presença do Pai. Foi um cordeiro que, no Éden, foi sacrificado para que sua pele pudesse cobrir o pecado de Adão. Foi também um cordeiro, o Cordeiro de Deus, que foi sacrificado na cruz para que nós pudéssemos cobrir nossa nudez de virtudes, com a Sua graça redentora. “Aconselho-te que de mim compres... vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez.” Apocalipse 3: 18.
Essa veste que está preparada para nós sob medida, não é uma capa que se usa aos sábados pela manhã e depois do culto se pendura dentro do armário. Temos de nos manter vestidos com ela o tempo todo, para que Ele não nos apanhe em nossos trajes pobres de justiça e esburacados pelo pecado. Cristo já fez Sua parte: preparou nosso traje. Mas... e nós? Estamos usando a veste que Ele nos preparou, tecida com Seu sofrimento, costurada com Seu amor e tingida com seu próprio sangue? Ou preferimos usar nossos trapos, que não obstante nos darem a sensação de eles somente bastam, não escondem nossa verdadeira condição miserável, pobre, cega e nua? Não faz sentido que estejamos pobremente vestidos: Deus convida que nossa igreja lavar as vestes no sangue do cordeiro (Apocalipse 22:14). Só assim podemos nos apresentar dignamente perante Ele.
Sem meu vestidinho vermelho, não teve a menor graça participar do banquete na pizzaria. Se nossas vestes de cristãos – tudo que dizemos, fazemos, pensamos e representamos – não passarem pelo vermelho justificador do sangue de Cristo, o banquete que Ele tem preparado para nós também não terá nenhum sabor.
Uma semana iluminada,
Luciana
Minha mãe, por um bom tempo, era quem costurava as nossas roupas. E acompanhávamos passo-a-passo a confecção, desde o corte, quando ficávamos absortas como o modo como ela manejava aquela grande tesoura, até o acabamento, com as agulhas pregando botões e zíperes, provas e alfinetes. Gostávamos de pegar os retalhos que caíam da máquina e fazer roupas pra nossas bonecas. Bem, pareciam roupas aos nossos olhos.
Por isso, ganhar um vestido novo era uma festa que durava dias. Mas não sei bem porque, por aquele vestido vermelho eu me apaixonei particularmente. E o achava o vestido mais bonito que eu jamais usara, apesar de sua simplicidade. Eu queria estar com ele sempre que pudesse, em todos os lugares, eu e meu vestidinho vermelho - o grande caso de amor da minha infância.
Acontece que um dia lavaram meu vestido e eu fui para casa da minha tia sem levá-lo (a gente sempre levava uma “roupa de sair” para vestir à tarde, depois de tomar banho, para esperar os nossos pais). Se era para eu estar sem meu vestidinho vermelho, eu preferia não vestir roupa de sair.
À tarde minha tia sentenciou: “vamos para a pizzaria”. Aquilo em outra ocasião seria uma festa. Vi todos os meus primos e primas se arrumando alegremente, e eu fui ficando cada vez mais desesperada. Todo mundo iria menos eu? Olhei para minhas sandálias havaianas, e em seguida para o sapatinho de verniz da minha prima. Olhei para minha saia de bolinhas com um furinho do lado, e botei o dedo no furinho enquanto pensava. Era melhor não ir. Foi aí que minha tia fez a pior coisa que uma tia poderia fazer com uma criança de oito anos. Ela me obrigou a ir também. “Mas assim, como eu tou?”. Exatamente, “deixe de besteira e venha, que você não vai ficar aí sozinha”.
Desci do carro de minha tia reparando em como todo mundo estava super bem vestido – naquela época pizzaria ainda era novidade aqui em Natal: era ristoranti italini . Quando entrei naquele prédio assustador com meus primos, uma menina de vestido belíssimo e sandália branca brilhante vinha saindo com os pais. Nunca esqueci o olhar da menina em minha direção. Ela arregalou bem os olhos, olhou de cima a baixo e piscou forte. Eu baixei a cabeça e acho que não vi mais nada a noite toda. Passei todo o restante do tempo com o dedo enfiado no buraco da minha saia e tentando manter meus pés bem escondidos embaixo da mesa. Nem sei se comi pizza, e se comi não acho que tenha tido algum gosto. Lembro vagamente das risadas de meus primos se divertindo enquanto eu olhava a toalha da mesa, que era vermelha, e me fazia pensar no meu vestidinho pendurado no varal...
Ai, deu até vontade de chorar lembrando disso de novo, chuinf. Talvez por causa desse episódio lamentável eu sempre tenha sentido um nó na garganta quando leio o capítulo 22 de Mateus. Sei exatamente como é a sensação de estar numa festa com o traje equivocado. De ter a roupa ideal para ser usada mas estar sem ela quando se mais precisa. Ah, sei como é desagradável!
Somos chamados a participar de um banquete, onde a verdade e o amor são os pratos principais. E a roupa para estar nessa festa já foi preparada por Jesus, com o carinho de uma mãe que veste os filhos. Essa roupa é o manto de justiça que nos torna dignos de estar na presença do Pai. Foi um cordeiro que, no Éden, foi sacrificado para que sua pele pudesse cobrir o pecado de Adão. Foi também um cordeiro, o Cordeiro de Deus, que foi sacrificado na cruz para que nós pudéssemos cobrir nossa nudez de virtudes, com a Sua graça redentora. “Aconselho-te que de mim compres... vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez.” Apocalipse 3: 18.
Essa veste que está preparada para nós sob medida, não é uma capa que se usa aos sábados pela manhã e depois do culto se pendura dentro do armário. Temos de nos manter vestidos com ela o tempo todo, para que Ele não nos apanhe em nossos trajes pobres de justiça e esburacados pelo pecado. Cristo já fez Sua parte: preparou nosso traje. Mas... e nós? Estamos usando a veste que Ele nos preparou, tecida com Seu sofrimento, costurada com Seu amor e tingida com seu próprio sangue? Ou preferimos usar nossos trapos, que não obstante nos darem a sensação de eles somente bastam, não escondem nossa verdadeira condição miserável, pobre, cega e nua? Não faz sentido que estejamos pobremente vestidos: Deus convida que nossa igreja lavar as vestes no sangue do cordeiro (Apocalipse 22:14). Só assim podemos nos apresentar dignamente perante Ele.
Sem meu vestidinho vermelho, não teve a menor graça participar do banquete na pizzaria. Se nossas vestes de cristãos – tudo que dizemos, fazemos, pensamos e representamos – não passarem pelo vermelho justificador do sangue de Cristo, o banquete que Ele tem preparado para nós também não terá nenhum sabor.
Uma semana iluminada,
Luciana
domingo, 8 de setembro de 2002
Uma lista para você
Todo mundo já recebeu uma, eu recebi outra esta semana. Listinhas de internet. Elas trazem de tudo, desde correntes de assinatura para proibir a caça de pardais até centenas de motivos porque um frango atravessou a rua. A lista que recebi não tinha um tema específico, mas de alguma forma falou algumas coisas que eu não poderia deixar de comentar. Entre elas:
1. A verdadeira felicidade está nas pequenas coisas...um pequeno iate, um pequeno Rolex, uma pequena mansão, uma pequena fortuna...
2. O importante não é ganhar. O que importa é competir sem perder nem empatar.
3. Ter a consciência limpa é ter a memória fraca.
4. Há um mundo bem melhor... só que é caríssimo.
5. Se procuras uma mão disposta a te ajudar, tu a encontrarás no final do teu braço.
6. Se tu és capaz de sorrir quando tudo deu errado, é porque tu já descobriste em quem pôr a culpa.
Se eu não estivesse estressada até a medula dos ossos com as provas de fim de semestre na faculdade, eu até me limitaria a rir e deixar pra lá. Mas sabe como é: estresse + TPM + esgotamento intelectual = filosofia! E junte-se a isso que ando meio irritada com essa total inversão de valores que vem sendo ironizada por aí. Por isso elaborei também minha lista, que não pretende ser engraçada nem tão profunda, mas tenta reescrever umas definições básicas que andamos esquecendo...
- Primeiro pressuposto: voltemos à definição de coisas e pessoas. Vejamos o Aurélio:
Coisas – S. f. pl. 1. Bens, propriedades, valores.
Pessoas – S. f. pl. [do lat. Persona] 1. Homem ou mulher.
Um verbete a mais, só para lembrar: coisas são para usar, pessoas são para amar. Não o contrário.
- Deveríamos dedicar mais tempo para pessoas e não para coisas; coisas são adiáveis, pessoas não. Você pode recuperar a maioria das coisas que perde. Mas o momento agora de amar as pessoas, não se recupera jamais.
- Coisas te proporcionam realização, mas só pessoas te dão satisfação. Dói no coração ver tanta gente “realizada”, culta, rica, famosa, e... insatisfeita. De que adianta realizar cada uma de nossas ambições, se ao final tudo continua sendo vazio e solidão? É muito bom conquistar coisas. Melhor ainda é partilhar isso com pessoas. Pessoas que amem quem realmente está por trás de todas as “grandes” coisas que conquistamos, e que tenham braços capazes de abraçar a “enormidade” daquilo que nos tornamos...
- Quanto tempo se gasta querendo-se achar o culpado! E depois que se acha, gasta-se mais tempo ainda encontrando-se um modo de castigá-lo, ferí-lo e condená-lo, para que se lembre bem, eternamente, do quão culpado é. Enquanto isso, em Gothan City, o problema continua sem solução... coisas têm conserto, podem até ser substituídas. Pessoas são insubstituíveis. E quando têm o coração partido, este pode não se consertar jamais.
- Ajudar é bom. Não estou falando de fazer o possível (leia-se confortável), só para parecer bonzinho – até os maus fazem isso. Não estou falando de abraçar velhinhos para ganhar a eleição. Nem muito menos de fazer uma caridade para "herdar o Reino dos Céus". Estou falando de ajudar, fazer o bem porque, oras, fazer o bem é bom. Sem nada em troca, apenas por ajudar. Porque investir em pessoas é infinitamente mais gratificante que investir em coisas. Puxa, alguém lembra o quanto isso é bom? Sabe aquele calorzinho no coração, aquela alegria secreta de ver alguém feliz sem precisar expor os próprios feitos no outdoor? Aquela sensação única de fazer algo realmente importante para alguém, sem querer absolutamente nada em troca? Ainda tenho esperança de contar a meus netos que dinossauros, araras azuis e esse tipo de ajuda desinteressada já existiram na Terra, de verdade.
Neste início de semana, faça você também a sua lista. Mas não esqueça de colocar no topo dela, as prioridades certas.
Uma semana iluminada,
Luciana
1. A verdadeira felicidade está nas pequenas coisas...um pequeno iate, um pequeno Rolex, uma pequena mansão, uma pequena fortuna...
2. O importante não é ganhar. O que importa é competir sem perder nem empatar.
3. Ter a consciência limpa é ter a memória fraca.
4. Há um mundo bem melhor... só que é caríssimo.
5. Se procuras uma mão disposta a te ajudar, tu a encontrarás no final do teu braço.
6. Se tu és capaz de sorrir quando tudo deu errado, é porque tu já descobriste em quem pôr a culpa.
Se eu não estivesse estressada até a medula dos ossos com as provas de fim de semestre na faculdade, eu até me limitaria a rir e deixar pra lá. Mas sabe como é: estresse + TPM + esgotamento intelectual = filosofia! E junte-se a isso que ando meio irritada com essa total inversão de valores que vem sendo ironizada por aí. Por isso elaborei também minha lista, que não pretende ser engraçada nem tão profunda, mas tenta reescrever umas definições básicas que andamos esquecendo...
- Primeiro pressuposto: voltemos à definição de coisas e pessoas. Vejamos o Aurélio:
Coisas – S. f. pl. 1. Bens, propriedades, valores.
Pessoas – S. f. pl. [do lat. Persona] 1. Homem ou mulher.
Um verbete a mais, só para lembrar: coisas são para usar, pessoas são para amar. Não o contrário.
- Deveríamos dedicar mais tempo para pessoas e não para coisas; coisas são adiáveis, pessoas não. Você pode recuperar a maioria das coisas que perde. Mas o momento agora de amar as pessoas, não se recupera jamais.
- Coisas te proporcionam realização, mas só pessoas te dão satisfação. Dói no coração ver tanta gente “realizada”, culta, rica, famosa, e... insatisfeita. De que adianta realizar cada uma de nossas ambições, se ao final tudo continua sendo vazio e solidão? É muito bom conquistar coisas. Melhor ainda é partilhar isso com pessoas. Pessoas que amem quem realmente está por trás de todas as “grandes” coisas que conquistamos, e que tenham braços capazes de abraçar a “enormidade” daquilo que nos tornamos...
- Quanto tempo se gasta querendo-se achar o culpado! E depois que se acha, gasta-se mais tempo ainda encontrando-se um modo de castigá-lo, ferí-lo e condená-lo, para que se lembre bem, eternamente, do quão culpado é. Enquanto isso, em Gothan City, o problema continua sem solução... coisas têm conserto, podem até ser substituídas. Pessoas são insubstituíveis. E quando têm o coração partido, este pode não se consertar jamais.
- Ajudar é bom. Não estou falando de fazer o possível (leia-se confortável), só para parecer bonzinho – até os maus fazem isso. Não estou falando de abraçar velhinhos para ganhar a eleição. Nem muito menos de fazer uma caridade para "herdar o Reino dos Céus". Estou falando de ajudar, fazer o bem porque, oras, fazer o bem é bom. Sem nada em troca, apenas por ajudar. Porque investir em pessoas é infinitamente mais gratificante que investir em coisas. Puxa, alguém lembra o quanto isso é bom? Sabe aquele calorzinho no coração, aquela alegria secreta de ver alguém feliz sem precisar expor os próprios feitos no outdoor? Aquela sensação única de fazer algo realmente importante para alguém, sem querer absolutamente nada em troca? Ainda tenho esperança de contar a meus netos que dinossauros, araras azuis e esse tipo de ajuda desinteressada já existiram na Terra, de verdade.
Neste início de semana, faça você também a sua lista. Mas não esqueça de colocar no topo dela, as prioridades certas.
Uma semana iluminada,
Luciana
sábado, 31 de agosto de 2002
Quando as coisas começam a mudar
Sábado passado tivemos, como de costume, a reunião do GEA (Grupo de Estudantes Adventistas) da Igreja do Alecrim. Todos estávamos visivelmente tristes, devido à perda de dois membros muito queridos, que por motivos pessoais se afastaram do nosso convívio. Ambos acrescentavam muito em alegria e motivação, e ora, uma perda é sempre uma perda, é sempre triste, e deixa aquela sensação de membro amputado que continua a doer. Ao contrário de todas as semanas, começamos a reunião sem cantar, porque um dos membros que saíram foi justamente aquele que tocava o violão para animar o louvor. Cantar sem ele ali, significava evocar de forma mais sofrida sua ausência. Então fomos logo para a sessão de pedidos, agradecimentos e testemunhos.
Depois de seguidos “agradeço a Deus pela vida”, com um semblante triste tornando o agradecimento meio paradoxal, e depois de alguns pedidos de oração em torno sempre de nossas perdas, um dos membros mais tímidos, que geralmente nada pede, agradece ou testemunha, disse que queria falar. Todos os olhares surpresos dirigiram-se para Regineide, que ainda mais intimidada começou a narrar um dos testemunhos mais poderosos que eu já ouvi nos últimos tempos.
Regineide faz geologia no CEFET daqui de Natal, e é comum eles saírem para pesquisas de campo. Na sexta-feira sua turma fez uma dessas viagens, mas o que deveria ser só mais uma viagem para estudos, logo se tornou uma prova angustiante. Depois que o grupo realizou suas atividades rotineiras, um dos amigos de Regineide contou algo no mínimo perturbador. Ele disse que há algum tempo atrás, sonhara com essa viagem, e que tudo estava acontecendo exatamente como no sonho: os componentes do grupo, as atividades realizadas, os lugares, tudo com detalhes estava seguindo o mesmo rumo do seu sonho. Mas um detalhe que o estava incomodando muito, é que no sonho, enquanto eles voltavam, acontecia um grave acidente com o ônibus, e nesse acidente Regineide morria. Fantasia? Profecia? Coincidência? Brincadeira de mal gosto? O fato é que ninguém queria mais deixar Regineide voltar. É provável que o relato do colega dela tenha sido bastante convincente, porque até mesmo os professores começaram a inventar mil motivos para eles viajarem só no outro dia.
Porém era sexta-feira, e Regineide tinha um compromisso inadiável com Deus no sábado. “Mas aqui nós vamos passear, ver coisas da natureza, você não vai precisar fazer nenhum trabalho...”. Regineide estava decidida: ela queria estar na Igreja. “Mas é apenas uma noite, você vai amanhã cedo”. Regineide subiu no ônibus, preparada para voltar. Pode ser que na hora ela tenha dito que aquilo era só uma coincidência, que ninguém podia se guiar por sonhos, e talvez até tenha feito algumas brincadeiras em torno do assunto. Eu faria isso. Talvez você também. A maioria das pessoas aprende, ainda criança, que a melhor maneira de espantar o medo do desconhecido é chamá-lo de misticismo e tratá-lo como um fantasia da imaginação humana. Mas a gente sempre esbarra com algo na Bíblia parecido com “pois não é contra carne e sangue que temos que lutar, mas sim contra os principados, contra as potestades, conta os príncipes do mundo destas trevas, contra as hostes espirituais da iniqüidade nas regiões celestes.” Efésios 6:12. Acho que Regineide teve muita fé em entrar naquele ônibus, e pensando bem, eu não conseguiria fazê-lo sem ao menos um leve tremor nas pernas.
Durante a viagem, de fato, ocorreu um grave acidente na estrada. Mas não com o ônibus em que Regineide ia com seu grupo. Este chegou a Natal são e salvo, sem nenhum arranhão. Comentando então sobre o “destino” diferente do sonho, o colega dela falou o seguinte: “Mas tudo ia mesmo, exatamente como no sonho, até a hora do pôr-do-sol. No meu sonho, você ia triste, sentada na cadeira com um ar desconsolado. As coisas na realidade começaram a ficar diferentes, quando você se levantou da cadeira e começou a cantar para gente as músicas que você costuma cantar no culto de pôr-do-sol da sua igreja. Daí em diante, tudo mudou, e como você vê, nada mais aconteceu segundo o que eu tinha sonhado!”. Nós todos do GEA estávamos emocionados com o testemunho dela, que nesse ponto também já não conseguia falar, com a voz embargada pelo choro contido. Nesse sábado, como todos os demais, nós terminamos cantando. E não obstante a tristeza pela ausência de dois dos nossos membros, terminamos cantando forte, com fé e poder.
Não é curioso como louvar a Deus parece combinar apenas com um coração alegre e exultante? Sim, sem dúvida é maravilhoso louvar a Deus assim, mas o louvor é também para quem está fraco, ansioso, derrotado, tentado e triste. Diria mais: o louvor é especialmente para quem está assim! Mas sejamos francos. É claro que na prática louvar a Deus quando as coisas vão mal é como seguir aquele bom hábito de beber muita água logo ao acordar e depois tomar um café da manhã bem generoso: espontaneamente não dá mesmo! Temos que ter uma boa motivação, ou do contrário nosso esforço não terá sentido.
Eu poderia citar uma porção de bons motivos para você louvar a Deus em todas as ocasiões, mesmo nas tristes. Mas a sua motivação tem que partir daí de dentro, de um genuíno desejo de agradecer a Ele, mesmo quando tudo leva a crer que sua derrota é certa. Isso significa: fé, que implica em poder para fazer as coisas mudarem. No caso de Israel em II Crônicas 20, a motivação era um exército inimigo bem a sua frente, em número assombrosamente maior, pronto a massacrá-los, cortá-los em pedacinhos, queimá-los e jogar as cinzas no rio Ganges. Estranhamente, o pequeno exército de Israel guardou suas espadas e pôs a sua frente um grupo de cantores dizendo: “Rendei graças ao Senhor, porque a sua misericórdia dura para sempre.” (II Cron. 20:20). Consegue se imaginar no lugar deles? Se já houve pessoas de fé na Bíblia, essas pessoas cantavam. Repare que, além de caminhar para um destino perigoso e temível, eles ainda tiveram que subir um monte, sem poder ver que, do outro lado, os próprios inimigos matavam-se uns aos outros. Sempre agradecendo, eles caminhavam sem ter noção do que os aguardava. E ao chegarem no alto do monte, não havia mais nenhum inimigo sobrevivente.
O recado é claro: louve ao Senhor com um coração agradecido.. Mesmo que o destino pareça amedrontador, é louvando que você demonstra fé em que Ele está agindo. E Ele está. Mesmo que, na subida do monte, você não consiga ver como Ele está fazendo isso. Há Alguém que vai muito à frente no teu caminho, preparando tudo para que você alcance a vitória. O que você tem que fazer, então, é louvar. E se a vida está em ruínas, se seus sonhos se frustraram, se suas conquistas foram tragadas, louve ainda mais forte, como se sua alma mesmo fosse um canto de louvor. Sua tarefa é continuar caminhando, e cantar com tanta fé que nem sinta seus pés doerem tanto. Os pés dEle doeram mais quando foram pregados na cruz.
Deus está entronizado nos louvores do seu povo (Salmo 22:3). É aí que Ele mora, então se quer encontrá-lo, não há melhor maneira que buscá-lo em adoração. Experimente, ao invés de parar no meio do caminho ou fugir pela tangente, continuar caminhando mesmo em meio ao vale da sombra da morte. Enquanto caminha, tente agradecer a Ele, mesmo que não tenha restado nenhum motivo a não ser a fé de que Ele vai à sua frente. Faça isso e sinta quanto poder é liberado quando você desvia seus olhos do objeto de seu medo, para o Objeto de sua fé. Meu querido amigo, acredite, é quando louvamos que as coisas realmente começam a mudar... e não seguem mais o curso daquilo que julgamos “o mais provável”, mas fluem de acordo com a realidade do amor dEle por nós. Confie um pouco mais! Habite com Ele no louvor. Começo, então, eu mesma, pedindo isso...
Comigo habita, ó Deus, a noite vem!
As trevas descem, eis, Senhor, convém
Que me socorra a Tua proteção!
Oh, vem fazer comigo habitação!
Vem revelar-Te a mim, Jesus, Senhor,
Divino Mestre, Rei, Consolador!
Meu Guia forte, amparo em tentação!
Oh, vem fazer comigo habitação!
Breve, Senhor, terei meu fim mortal;
É tão fugaz a vida terreal!
Tem tudo aqui mudança e corrupção,
Oh, vem fazer comigo habitação!
Se eu estiver nas trevas ou na luz,
Não há perigo, andando com Jesus;
A morte e a tumba não aterrarão!
Oh, vem fazer comigo habitação!
(Comigo Habita [Abide with me], hino 397 do Hinário Adventista do Sétimo Dia)
Uma semana iluminada,
Luciana
Depois de seguidos “agradeço a Deus pela vida”, com um semblante triste tornando o agradecimento meio paradoxal, e depois de alguns pedidos de oração em torno sempre de nossas perdas, um dos membros mais tímidos, que geralmente nada pede, agradece ou testemunha, disse que queria falar. Todos os olhares surpresos dirigiram-se para Regineide, que ainda mais intimidada começou a narrar um dos testemunhos mais poderosos que eu já ouvi nos últimos tempos.
Regineide faz geologia no CEFET daqui de Natal, e é comum eles saírem para pesquisas de campo. Na sexta-feira sua turma fez uma dessas viagens, mas o que deveria ser só mais uma viagem para estudos, logo se tornou uma prova angustiante. Depois que o grupo realizou suas atividades rotineiras, um dos amigos de Regineide contou algo no mínimo perturbador. Ele disse que há algum tempo atrás, sonhara com essa viagem, e que tudo estava acontecendo exatamente como no sonho: os componentes do grupo, as atividades realizadas, os lugares, tudo com detalhes estava seguindo o mesmo rumo do seu sonho. Mas um detalhe que o estava incomodando muito, é que no sonho, enquanto eles voltavam, acontecia um grave acidente com o ônibus, e nesse acidente Regineide morria. Fantasia? Profecia? Coincidência? Brincadeira de mal gosto? O fato é que ninguém queria mais deixar Regineide voltar. É provável que o relato do colega dela tenha sido bastante convincente, porque até mesmo os professores começaram a inventar mil motivos para eles viajarem só no outro dia.
Porém era sexta-feira, e Regineide tinha um compromisso inadiável com Deus no sábado. “Mas aqui nós vamos passear, ver coisas da natureza, você não vai precisar fazer nenhum trabalho...”. Regineide estava decidida: ela queria estar na Igreja. “Mas é apenas uma noite, você vai amanhã cedo”. Regineide subiu no ônibus, preparada para voltar. Pode ser que na hora ela tenha dito que aquilo era só uma coincidência, que ninguém podia se guiar por sonhos, e talvez até tenha feito algumas brincadeiras em torno do assunto. Eu faria isso. Talvez você também. A maioria das pessoas aprende, ainda criança, que a melhor maneira de espantar o medo do desconhecido é chamá-lo de misticismo e tratá-lo como um fantasia da imaginação humana. Mas a gente sempre esbarra com algo na Bíblia parecido com “pois não é contra carne e sangue que temos que lutar, mas sim contra os principados, contra as potestades, conta os príncipes do mundo destas trevas, contra as hostes espirituais da iniqüidade nas regiões celestes.” Efésios 6:12. Acho que Regineide teve muita fé em entrar naquele ônibus, e pensando bem, eu não conseguiria fazê-lo sem ao menos um leve tremor nas pernas.
Durante a viagem, de fato, ocorreu um grave acidente na estrada. Mas não com o ônibus em que Regineide ia com seu grupo. Este chegou a Natal são e salvo, sem nenhum arranhão. Comentando então sobre o “destino” diferente do sonho, o colega dela falou o seguinte: “Mas tudo ia mesmo, exatamente como no sonho, até a hora do pôr-do-sol. No meu sonho, você ia triste, sentada na cadeira com um ar desconsolado. As coisas na realidade começaram a ficar diferentes, quando você se levantou da cadeira e começou a cantar para gente as músicas que você costuma cantar no culto de pôr-do-sol da sua igreja. Daí em diante, tudo mudou, e como você vê, nada mais aconteceu segundo o que eu tinha sonhado!”. Nós todos do GEA estávamos emocionados com o testemunho dela, que nesse ponto também já não conseguia falar, com a voz embargada pelo choro contido. Nesse sábado, como todos os demais, nós terminamos cantando. E não obstante a tristeza pela ausência de dois dos nossos membros, terminamos cantando forte, com fé e poder.
Não é curioso como louvar a Deus parece combinar apenas com um coração alegre e exultante? Sim, sem dúvida é maravilhoso louvar a Deus assim, mas o louvor é também para quem está fraco, ansioso, derrotado, tentado e triste. Diria mais: o louvor é especialmente para quem está assim! Mas sejamos francos. É claro que na prática louvar a Deus quando as coisas vão mal é como seguir aquele bom hábito de beber muita água logo ao acordar e depois tomar um café da manhã bem generoso: espontaneamente não dá mesmo! Temos que ter uma boa motivação, ou do contrário nosso esforço não terá sentido.
Eu poderia citar uma porção de bons motivos para você louvar a Deus em todas as ocasiões, mesmo nas tristes. Mas a sua motivação tem que partir daí de dentro, de um genuíno desejo de agradecer a Ele, mesmo quando tudo leva a crer que sua derrota é certa. Isso significa: fé, que implica em poder para fazer as coisas mudarem. No caso de Israel em II Crônicas 20, a motivação era um exército inimigo bem a sua frente, em número assombrosamente maior, pronto a massacrá-los, cortá-los em pedacinhos, queimá-los e jogar as cinzas no rio Ganges. Estranhamente, o pequeno exército de Israel guardou suas espadas e pôs a sua frente um grupo de cantores dizendo: “Rendei graças ao Senhor, porque a sua misericórdia dura para sempre.” (II Cron. 20:20). Consegue se imaginar no lugar deles? Se já houve pessoas de fé na Bíblia, essas pessoas cantavam. Repare que, além de caminhar para um destino perigoso e temível, eles ainda tiveram que subir um monte, sem poder ver que, do outro lado, os próprios inimigos matavam-se uns aos outros. Sempre agradecendo, eles caminhavam sem ter noção do que os aguardava. E ao chegarem no alto do monte, não havia mais nenhum inimigo sobrevivente.
O recado é claro: louve ao Senhor com um coração agradecido.. Mesmo que o destino pareça amedrontador, é louvando que você demonstra fé em que Ele está agindo. E Ele está. Mesmo que, na subida do monte, você não consiga ver como Ele está fazendo isso. Há Alguém que vai muito à frente no teu caminho, preparando tudo para que você alcance a vitória. O que você tem que fazer, então, é louvar. E se a vida está em ruínas, se seus sonhos se frustraram, se suas conquistas foram tragadas, louve ainda mais forte, como se sua alma mesmo fosse um canto de louvor. Sua tarefa é continuar caminhando, e cantar com tanta fé que nem sinta seus pés doerem tanto. Os pés dEle doeram mais quando foram pregados na cruz.
Deus está entronizado nos louvores do seu povo (Salmo 22:3). É aí que Ele mora, então se quer encontrá-lo, não há melhor maneira que buscá-lo em adoração. Experimente, ao invés de parar no meio do caminho ou fugir pela tangente, continuar caminhando mesmo em meio ao vale da sombra da morte. Enquanto caminha, tente agradecer a Ele, mesmo que não tenha restado nenhum motivo a não ser a fé de que Ele vai à sua frente. Faça isso e sinta quanto poder é liberado quando você desvia seus olhos do objeto de seu medo, para o Objeto de sua fé. Meu querido amigo, acredite, é quando louvamos que as coisas realmente começam a mudar... e não seguem mais o curso daquilo que julgamos “o mais provável”, mas fluem de acordo com a realidade do amor dEle por nós. Confie um pouco mais! Habite com Ele no louvor. Começo, então, eu mesma, pedindo isso...
Comigo habita, ó Deus, a noite vem!
As trevas descem, eis, Senhor, convém
Que me socorra a Tua proteção!
Oh, vem fazer comigo habitação!
Vem revelar-Te a mim, Jesus, Senhor,
Divino Mestre, Rei, Consolador!
Meu Guia forte, amparo em tentação!
Oh, vem fazer comigo habitação!
Breve, Senhor, terei meu fim mortal;
É tão fugaz a vida terreal!
Tem tudo aqui mudança e corrupção,
Oh, vem fazer comigo habitação!
Se eu estiver nas trevas ou na luz,
Não há perigo, andando com Jesus;
A morte e a tumba não aterrarão!
Oh, vem fazer comigo habitação!
(Comigo Habita [Abide with me], hino 397 do Hinário Adventista do Sétimo Dia)
Uma semana iluminada,
Luciana
sábado, 24 de agosto de 2002
Decifre pessoas (e economize R$ 35)
O fenômeno aconteceu quando uma das estagiárias chegou com um livrinho verde embaixo do braço e o colocou na estante onde guardamos nosso material. Todo mundo que chegava e saía via o livro lá, verdinho, e por algum motivo, irresistivelmente magnético. Na mesma semana, já havia fila de espera para pegar o livro emprestado, todo mundo que o via queria ler. A explicação para tamanha atração estava no título: “Decifrar pessoas”. O livro de Jo-Ellan Dimitrius e Mark Mazzarella é um pequeno manual que ensina a descobrir as características das pessoas através da observação de seu comportamento, tom da voz, aparência (inclusive o corte de cabelo), entre outras “dicas” aprendidas em experiências práticas que a autora vivenciou acompanhando mais de seiscentos processos judiciais nos Estados Unidos.
Eu, que desde sempre me considero uma observadora apaixonada do ser humano, consegui furar a fila e dar uma folheada no livro. Não descobri ali nenhuma fórmula mágica, apenas alguns itens óbvios a serem analisados quando se quer, de fato, conhecer alguém. Se estou interessada em saber quem é Mauro Maurício, é normal que eu repare no modo como ele veste, fala e se comporta. Se ele dá uma gargalhada está alegre, se chora, está triste ou comovido. Se usa sempre terno preto, não acho que ele seja um indivíduo espalhafatoso, se engraxa os sapatos, é cuidadoso, e se sabe combinar bem as camisas com as gravatas e meias, adivinhe? Ele tem uma ótima esposa! Ao contrário do que o título do livro sugere, não há nenhum segredo para decifrar pessoas: trata-se da antiga arte de observar, aliada a um pouco de sensibilidade.
O que me chamou atenção mesmo, não foram as “dicas” da autora, mas a forma como o livro causou um interesse repentino nas pessoas. Parece que todos estão querendo urgentemente entender seu semelhante. Conviver tornou-se um jogo de individualismos, e desconhecemos cada vez menos as pessoas com quem lidamos. Os adolescentes passam um terço da vida se sentindo incompreendidos, e quando crescem é a vez deles não compreenderem. Os homens espalham aos quatro ventos que “ninguém entende as mulheres”, e as mulheres respondem que “quanto mais conhecem os homens, mais admiram os cachorros”. Depois homens e mulheres fazem uma trégua e têm filhos que, quando forem adolescentes, escreverão em seus diários: “ninguém me compreende!”. Tornamo-nos cada vez mais indecifráveis! O resultado disso é a deterioração dos relacionamentos, tão notória em nossos dias.
*Ai que vontade de comer feijão*
Ninguém pode negar que esse é um dos maiores problemas do século XXI: relações superficiais e pouco duradouras. Nos acostumamos a fast food, drive-in, instant mensseger, e também a relacionamentos práticos e rapidinhos (ainda vão inventar um nome em inglês pra isso). Nada muito envolvente (envolvimento dá trabalho), nada muito profundo (profundidade exige diálogo e tempo – que não temos), nada muito grande (para sempre é tempo demais a se investir numa pessoa).
Mas assim como acontece com as comidas congeladas, perdemos muito em sentir o sabor de algo realmente gostoso num relacionamento “enlatado”, tipo agite e use. Pode ser que um dia todos comam gelatinas verdes super-nutritivas e insípidas, como aquelas que os astronautas levam para o espaço. Nesse dia as pessoas poderão até ter aprendido a viver sozinhas e sem Deus. Mas eu, no alto dos meus noventa anos, vou continuar comprando feijão no mercado negro.
Talvez você também já tenha cansado de gelatina verde sem sabor. Quando me pergunto: “Por que estamos assim?”, nunca consigo ouvir como resposta um “porque queremos”. Essa distância entre nós mesmos, essa falta de entendimento entre pais, filhos, cônjuges, colegas de trabalho e torcedores de times rivais, essa incompreensão não parece ser uma opção que nos agrade. Ela é muito mais fruto de nossos medos e inseguranças. O resultado de nossas defesas, e a fantasia tola de achar que não se entregar dói menos que não ser feliz.
Nosso medo de não sermos aceitos é o que nos faz ceder a uma vida frustrante, e até se adaptar a ela como se isso fosse exatamente a coisa certa a fazer. Embora você sinta lá dentro, sobre o travesseiro onde você põe a cabeça todas as noites, uma vontade imensa de comer feijão.
Tornamos nossos relacionamentos mais confortáveis fazendo com que ele não mexam tanto conosco. Não nos incomodem a ponto de transformar o que somos. Homens, mulheres, temos medo. E um deles, é sermos descobertos e não aceitos. De sermos desmascarados e por isso, não mais amados. Relacionar-se plenamente custaria ter que se abrir e mostrar-se por inteiro, deixar-se observar, deixar-se decifrar, e isso nos faz tremer os joelhos. Nossa máscara é bem mais confortável. E um relacionamento superficial, se por um lado não nos satisfaz, por outro lado, não provoca sentimentos e reações que fujam ao nosso controle. Relacionamentos rapidinhos, descartáveis ou bocejantemente superficiais não borram a maquiagem. Nos contentamos em ser aceitos por aquilo que não somos... E suportamos o tédio, porque fugimos da perspectiva de dor. Embora não esqueçamos o gosto do feijão, até mesmo daquele que nunca provamos.
Esse apetite por ser inteiro não é em nada errado, é apenas a confissão da nossa humanidade: Deus nos fez para sermos felizes, plenos, não para sermos seres se escondendo.
*Baile de máscaras*
Esse é enfim o primeiro grande problema que nos fez distantes um do outro: o medo de sermos quem somos realmente. Há pessoas tão especializadas em ser o que os outros querem, que se lhe tirassem os paradigmas de beleza, poder e status, elas perderiam o motivo de viver: não saberiam quem são! Morreriam por acreditar que ninguém as amaria se elas não fossem exatamente como manda o modelo. Mas a tragédia de quem vive assim, é enxergar que nenhum de nós se encaixa perfeitamente em modelo nenhum. Sempre nos deparamos com falhas. E as escondemos. Todos nós.
Agora pense: Como as pessoas podem se entender, se elas não mostram ao outro quem são? Como podemos nos compreender se vivemos fugindo uns dos outros? Como decifrar pessoas num mundo onde as pessoas não se permitem decifrar? A resposta para o primeiro grande problema é lançar fora o medo. Se é tão difícil sermos amados pelo que somos de verdade, uma coisa é certa: essa é a única maneira de ser amado. Se você precisa usar uma máscara para ser aceito, a verdade é que sua máscara é amada e não você. E máscaras, amigo, existem às milhares. Você é único. E atrás dessa maquiagem, talvez esteja desperdiçando uma chance única de ser amado de verdade.
O segundo grande problema da nossa distância universal é que, acostumados que ficamos a esse baile de máscaras, já perdemos há muito o hábito de observar as pessoas. Ora, mas se todas parecem tão iguais! Como num desfile de moda. As pequenas variações de cor da pele e cabelo nas modelos que desfilam, não consegue tirar a impressão de uniformidade que elas formam, como se fossem todas o mesmo ser fabricado em série. Infelizmente essa busca pelo padrão universal não fica só nas passarelas. Já não nos preocupamos em sermos apenas, mas em sermos “daquele jeito”. Se dermos uma olhada ao redor veremos que Deus ama a diversidade, e pôs no mundo criaturas tão diferentes por um só motivo: a beleza também está na diferença, no contraste, na assimetria. Mas agora todo mundo se esforça para ser igual, usando o mesmo padrão global de ser humano perfeito... (ops! Plim, plim).
*Labirintos fascinantes*
Assim fica mais difícil conhecer as pessoas. Elas ficam parecendo uma grande massa de iguais. Mas eu acredito que ainda é possível ver algo especial se nos esforçarmos para ver além. Só temos que recuperar o gosto por observar. Reparar detalhes. Ou no caso dos homens, pelo menos tentar. O melhor modo de decifrar as pessoas ainda é contemplando-as. É incrível como, olhando para nosso semelhante, aprendemos muito sobre nós mesmos. Crescemos sobremaneira saindo do nosso próprio mundinho para ver a beleza particular de cada pessoa. E também seus defeitos, manias, necessidades. Veremos algumas coisas tristes, outras que nos causarão repulsa. Mas sempre haveremos de crescer. Veremos que a verdade não pertence somente ao nosso conjunto de frases feitas. Há um pouco mais de verdade no olhar de cada pessoa que nos cerca. Mas a gente tem que chegar lá, bem perto, para ver.
A resposta para o segundo grande problema é termos coragem para nos aproximar. Observar detidamente, com o mínimo de preconceito possível, e tentar apreender a profundidade, mesmo a não nítida, ou a de difícil acesso. Decifrar pessoas pode ser como entrar num labirinto, em que, à medida que você vai se aproximando do centro, as paredes vão ficando mais estreitas e salientes, com pontas agudas em que você poderá se machucar. Mas se conseguir chegar ao centro, terá uma visão tão bela que te impressionará a ponto de fazer você não querer mais sair dali. O centro do labirinto pode guardar o lugar onde você nasceu para ficar.
Quero crer que haveremos sempre de encontrar algo para observar além da máscara alheia. Algo que nos diz respeito, que vai mexer com nossas vidas (oh, não... não tem outra maneira mesmo!), e vai exigir de nós mesmos, atitudes de ser humano para ser humano, não mais de ser humano para objeto. Reaprendendo a observar pessoas, conseguiremos ser mais humanos, nem que isso parta do encontro de vazio com vazio.
*Descansando o olhar*
Para decifrar pessoas não basta querer saber os segredos de invadir. Tem que se ter consciência que, conhecer é também ser invadido, e que por isso exige muito mais do que a maioria de nós se sente capaz de dar. Mas o fato de eu estar dizendo tudo isso, é porque acredito que ainda somos capazes. Deus nos fez assim! Não nascemos para nada abaixo da plenitude. Se acostumar ao superficial é o que de pior podemos fazer a nós mesmos. Relacionamentos sólidos e profundos demandam grande energia e investimento, mas valem a pena. Fazem-nos conhecer não só as pessoas, mas a sensação ímpar de sermos satisfeitos em todos os níveis do ser, a alegria sublime de amar e sermos completamente amados. Lembra? Sabe o que é isso?
Neste início de semana, pense se já não é hora de rever seu modo de olhar e ser olhado. Peça a Deus o dom de observar, e a coragem de ser exatamente quem é. Pode ser que seus olhos às vezes fiquem cansados, ao ver tantas paisagens tristes, tantos lugares áridos onde a pupila não possa descansar. E ainda pode ser que, sendo quem você é, você perca algumas coisas, até algumas pessoas que não queiram o que há por detrás da sua máscara (não que você não seja especial, é que nem todo mundo aprecia Miró ou Van Gogh). Mas esteja certo que Cristo sempre te olhará com amor leal. E nEle você sempre achará lugar para contemplar e sorrir.
Uma semana iluminada,
Luciana
Eu, que desde sempre me considero uma observadora apaixonada do ser humano, consegui furar a fila e dar uma folheada no livro. Não descobri ali nenhuma fórmula mágica, apenas alguns itens óbvios a serem analisados quando se quer, de fato, conhecer alguém. Se estou interessada em saber quem é Mauro Maurício, é normal que eu repare no modo como ele veste, fala e se comporta. Se ele dá uma gargalhada está alegre, se chora, está triste ou comovido. Se usa sempre terno preto, não acho que ele seja um indivíduo espalhafatoso, se engraxa os sapatos, é cuidadoso, e se sabe combinar bem as camisas com as gravatas e meias, adivinhe? Ele tem uma ótima esposa! Ao contrário do que o título do livro sugere, não há nenhum segredo para decifrar pessoas: trata-se da antiga arte de observar, aliada a um pouco de sensibilidade.
O que me chamou atenção mesmo, não foram as “dicas” da autora, mas a forma como o livro causou um interesse repentino nas pessoas. Parece que todos estão querendo urgentemente entender seu semelhante. Conviver tornou-se um jogo de individualismos, e desconhecemos cada vez menos as pessoas com quem lidamos. Os adolescentes passam um terço da vida se sentindo incompreendidos, e quando crescem é a vez deles não compreenderem. Os homens espalham aos quatro ventos que “ninguém entende as mulheres”, e as mulheres respondem que “quanto mais conhecem os homens, mais admiram os cachorros”. Depois homens e mulheres fazem uma trégua e têm filhos que, quando forem adolescentes, escreverão em seus diários: “ninguém me compreende!”. Tornamo-nos cada vez mais indecifráveis! O resultado disso é a deterioração dos relacionamentos, tão notória em nossos dias.
*Ai que vontade de comer feijão*
Ninguém pode negar que esse é um dos maiores problemas do século XXI: relações superficiais e pouco duradouras. Nos acostumamos a fast food, drive-in, instant mensseger, e também a relacionamentos práticos e rapidinhos (ainda vão inventar um nome em inglês pra isso). Nada muito envolvente (envolvimento dá trabalho), nada muito profundo (profundidade exige diálogo e tempo – que não temos), nada muito grande (para sempre é tempo demais a se investir numa pessoa).
Mas assim como acontece com as comidas congeladas, perdemos muito em sentir o sabor de algo realmente gostoso num relacionamento “enlatado”, tipo agite e use. Pode ser que um dia todos comam gelatinas verdes super-nutritivas e insípidas, como aquelas que os astronautas levam para o espaço. Nesse dia as pessoas poderão até ter aprendido a viver sozinhas e sem Deus. Mas eu, no alto dos meus noventa anos, vou continuar comprando feijão no mercado negro.
Talvez você também já tenha cansado de gelatina verde sem sabor. Quando me pergunto: “Por que estamos assim?”, nunca consigo ouvir como resposta um “porque queremos”. Essa distância entre nós mesmos, essa falta de entendimento entre pais, filhos, cônjuges, colegas de trabalho e torcedores de times rivais, essa incompreensão não parece ser uma opção que nos agrade. Ela é muito mais fruto de nossos medos e inseguranças. O resultado de nossas defesas, e a fantasia tola de achar que não se entregar dói menos que não ser feliz.
Nosso medo de não sermos aceitos é o que nos faz ceder a uma vida frustrante, e até se adaptar a ela como se isso fosse exatamente a coisa certa a fazer. Embora você sinta lá dentro, sobre o travesseiro onde você põe a cabeça todas as noites, uma vontade imensa de comer feijão.
Tornamos nossos relacionamentos mais confortáveis fazendo com que ele não mexam tanto conosco. Não nos incomodem a ponto de transformar o que somos. Homens, mulheres, temos medo. E um deles, é sermos descobertos e não aceitos. De sermos desmascarados e por isso, não mais amados. Relacionar-se plenamente custaria ter que se abrir e mostrar-se por inteiro, deixar-se observar, deixar-se decifrar, e isso nos faz tremer os joelhos. Nossa máscara é bem mais confortável. E um relacionamento superficial, se por um lado não nos satisfaz, por outro lado, não provoca sentimentos e reações que fujam ao nosso controle. Relacionamentos rapidinhos, descartáveis ou bocejantemente superficiais não borram a maquiagem. Nos contentamos em ser aceitos por aquilo que não somos... E suportamos o tédio, porque fugimos da perspectiva de dor. Embora não esqueçamos o gosto do feijão, até mesmo daquele que nunca provamos.
Esse apetite por ser inteiro não é em nada errado, é apenas a confissão da nossa humanidade: Deus nos fez para sermos felizes, plenos, não para sermos seres se escondendo.
*Baile de máscaras*
Esse é enfim o primeiro grande problema que nos fez distantes um do outro: o medo de sermos quem somos realmente. Há pessoas tão especializadas em ser o que os outros querem, que se lhe tirassem os paradigmas de beleza, poder e status, elas perderiam o motivo de viver: não saberiam quem são! Morreriam por acreditar que ninguém as amaria se elas não fossem exatamente como manda o modelo. Mas a tragédia de quem vive assim, é enxergar que nenhum de nós se encaixa perfeitamente em modelo nenhum. Sempre nos deparamos com falhas. E as escondemos. Todos nós.
Agora pense: Como as pessoas podem se entender, se elas não mostram ao outro quem são? Como podemos nos compreender se vivemos fugindo uns dos outros? Como decifrar pessoas num mundo onde as pessoas não se permitem decifrar? A resposta para o primeiro grande problema é lançar fora o medo. Se é tão difícil sermos amados pelo que somos de verdade, uma coisa é certa: essa é a única maneira de ser amado. Se você precisa usar uma máscara para ser aceito, a verdade é que sua máscara é amada e não você. E máscaras, amigo, existem às milhares. Você é único. E atrás dessa maquiagem, talvez esteja desperdiçando uma chance única de ser amado de verdade.
O segundo grande problema da nossa distância universal é que, acostumados que ficamos a esse baile de máscaras, já perdemos há muito o hábito de observar as pessoas. Ora, mas se todas parecem tão iguais! Como num desfile de moda. As pequenas variações de cor da pele e cabelo nas modelos que desfilam, não consegue tirar a impressão de uniformidade que elas formam, como se fossem todas o mesmo ser fabricado em série. Infelizmente essa busca pelo padrão universal não fica só nas passarelas. Já não nos preocupamos em sermos apenas, mas em sermos “daquele jeito”. Se dermos uma olhada ao redor veremos que Deus ama a diversidade, e pôs no mundo criaturas tão diferentes por um só motivo: a beleza também está na diferença, no contraste, na assimetria. Mas agora todo mundo se esforça para ser igual, usando o mesmo padrão global de ser humano perfeito... (ops! Plim, plim).
*Labirintos fascinantes*
Assim fica mais difícil conhecer as pessoas. Elas ficam parecendo uma grande massa de iguais. Mas eu acredito que ainda é possível ver algo especial se nos esforçarmos para ver além. Só temos que recuperar o gosto por observar. Reparar detalhes. Ou no caso dos homens, pelo menos tentar. O melhor modo de decifrar as pessoas ainda é contemplando-as. É incrível como, olhando para nosso semelhante, aprendemos muito sobre nós mesmos. Crescemos sobremaneira saindo do nosso próprio mundinho para ver a beleza particular de cada pessoa. E também seus defeitos, manias, necessidades. Veremos algumas coisas tristes, outras que nos causarão repulsa. Mas sempre haveremos de crescer. Veremos que a verdade não pertence somente ao nosso conjunto de frases feitas. Há um pouco mais de verdade no olhar de cada pessoa que nos cerca. Mas a gente tem que chegar lá, bem perto, para ver.
A resposta para o segundo grande problema é termos coragem para nos aproximar. Observar detidamente, com o mínimo de preconceito possível, e tentar apreender a profundidade, mesmo a não nítida, ou a de difícil acesso. Decifrar pessoas pode ser como entrar num labirinto, em que, à medida que você vai se aproximando do centro, as paredes vão ficando mais estreitas e salientes, com pontas agudas em que você poderá se machucar. Mas se conseguir chegar ao centro, terá uma visão tão bela que te impressionará a ponto de fazer você não querer mais sair dali. O centro do labirinto pode guardar o lugar onde você nasceu para ficar.
Quero crer que haveremos sempre de encontrar algo para observar além da máscara alheia. Algo que nos diz respeito, que vai mexer com nossas vidas (oh, não... não tem outra maneira mesmo!), e vai exigir de nós mesmos, atitudes de ser humano para ser humano, não mais de ser humano para objeto. Reaprendendo a observar pessoas, conseguiremos ser mais humanos, nem que isso parta do encontro de vazio com vazio.
*Descansando o olhar*
Para decifrar pessoas não basta querer saber os segredos de invadir. Tem que se ter consciência que, conhecer é também ser invadido, e que por isso exige muito mais do que a maioria de nós se sente capaz de dar. Mas o fato de eu estar dizendo tudo isso, é porque acredito que ainda somos capazes. Deus nos fez assim! Não nascemos para nada abaixo da plenitude. Se acostumar ao superficial é o que de pior podemos fazer a nós mesmos. Relacionamentos sólidos e profundos demandam grande energia e investimento, mas valem a pena. Fazem-nos conhecer não só as pessoas, mas a sensação ímpar de sermos satisfeitos em todos os níveis do ser, a alegria sublime de amar e sermos completamente amados. Lembra? Sabe o que é isso?
Neste início de semana, pense se já não é hora de rever seu modo de olhar e ser olhado. Peça a Deus o dom de observar, e a coragem de ser exatamente quem é. Pode ser que seus olhos às vezes fiquem cansados, ao ver tantas paisagens tristes, tantos lugares áridos onde a pupila não possa descansar. E ainda pode ser que, sendo quem você é, você perca algumas coisas, até algumas pessoas que não queiram o que há por detrás da sua máscara (não que você não seja especial, é que nem todo mundo aprecia Miró ou Van Gogh). Mas esteja certo que Cristo sempre te olhará com amor leal. E nEle você sempre achará lugar para contemplar e sorrir.
Uma semana iluminada,
Luciana
sábado, 17 de agosto de 2002
Montanhas
Você conhece, é um dos chavões cristãos mais propalados: “a fé remove montanhas”. A base bíblica para essa afirmação está em Marcos 11: 23, onde Jesus afirma: “Em verdade vos digo que qualquer que disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar; e não duvidar em seu coração, mas crer que se fará aquilo que diz, assim lhe será feito.” Descobri um novo sentido para essa crença, e gostaria de partilhar com vocês.
Semana passada minha mãe dirigiu-se até uma clínica para fazer exames de rotina, entre os quais estava incluída uma mamografia. Ela foi sem medo. Aos cinqüenta e um anos, nunca foi constatado nada de irregular. Na sala de espera, ela observava constrangida o desespero de outras mulheres. Uma delas estava voltando para fazer novo exame, porque o médico havia descoberto um nódulo suspeito em seu seio. E isso, para aquela mulher, significava algo de muito errado. Um câncer talvez. Por isso ela chorava e chorava, enquanto outra mulher tentava consolá-la. A última dizia à primeira:
- Tenha calma, as coisas não são tão trágicas assim. Veja o meu exemplo. Há alguns anos eu fiz um exame e os médicos encontraram um enorme nódulo no meu seio. Como era maligno, precisou ser retirado com urgência. Mas eu tive fé, e orei pedindo a Jesus que me curasse. Até aquele momento eu não conhecia o poder de Deus. Era uma mulher rica, bonita, realizada, bem casada, nunca havia precisado da ajuda de Deus. Mas quando precisei, Ele me atendeu, e antes de fazer a cirurgia, os médicos fizeram um novo exame onde constataram o desaparecimento inexplicável do nódulo.
Minha mãe ficou impressionada com o relato da mulher. Solidária a ela, e na intenção de reforçar seu testemunho, disse apenas:
- É, eu também conheço esse Deus vivo que te curou!
Fez o exame e foi embora. Na mesma semana, minha mãe descobriu que o exame acusou não só um, mas vários nódulos nos seus dois seios. Foi chamada para fazer novo exame, mais minucioso, e teve que enfrentar novamente a sala de espera, sem ninguém para consolá-la e com um medo terrível no coração. Na mente, a sua afirmação dita tão convictamente alguns dias atrás, parecia acusar-lhe: “Você realmente conhece esse Deus vivo? Então chegou a sua vez de ter fé.”
É tão fácil declararmos nossa fé quando nada nos atinge. Mas quando chega a hora de sermos provados? Até onde nossa fé sobrepuja o medo, a ansiedade, a dúvida? Minha mãe passou a semana orando. Nunca a vi tão temerosa. Falava sem parar no assunto, e seu semblante ficou visivelmente abatido. Descobri que nessas ocasiões, é até melhor não conversar sobre o assunto com outras mulheres, já que todas têm sempre uma experiência horrível e traumatizante para contar...
Um dia antes de ir ao médico fazer a biópsia, minha mãe apontava para o exame de ressonância magnética e dizia: “Veja só, Luciana. Um dos nódulos é enorme, há outros grandes também. Estou preparada para chegar lá amanhã e ter de ficar internada para uma cirurgia...” O nódulo maior tinha pouco mais de dois centímetros, mas na perspectiva dela aquilo era imenso. Tentávamos tranqüiliza-la dizendo que não era nada demais, que ela não podia antever nenhum diagnóstico. Mas foi Deus quem a fez ir ao exame pensado: “Eu, porém, confiarei no Senhor; esperarei no Deus da minha salvação. O meu Deus me ouvirá.” (Miquéias 7: 7)
Felizmente ao chegar no médico, este descobriu que a situação era mais simples do que ela imaginava. Os nódulos “enormes”, foram retirados rapidamente, através de uma pulsão, um procedimento relativamente simples, que usa apenas uma agulha para “esvaziar” os nódulos. Em seguida ela voltou para casa, e quando fui conversar com ela para saber como tudo havia se passado, ouvi exatamente essas palavras:
- Eu disse que tinha fé. Os nódulos foram minhas “montanhas”. Eu os via enormes, intransponíveis... mas Deus, em Seu amor, as transformou em montículos de barro. E eu aprendi como minha fé pode remover montanhas.
Qual é a sua montanha pessoal? Não importa que homens no passado tenham curado, ressuscitado, feito fogo descer do céu. Quando você se vê diante da sua montanha, é somente a sua fé que pode removê-la. Você realmente acredita nisso? Conhece verdadeiramente o Seu Deus? Ou apensa as histórias que te foram contadas, e pareceram sempre tão distantes? Milagre não é fazer um nódulo desaparecer, um câncer ser curado, um cego tornar a ver ou uma montanha lançar-se ao mar. Isso tudo é muito simples para Deus, muito pequeno. Milagre, é fazer você ver as coisas com o olhar dEle. Sem medo, sem desespero, com a certeza de que todas as coisas contribuem para o bem daquele que O amam. É abrir seus olhos, de modo que, conhecendo realmente por Quem você é amado, seus olhos se abram para uma realidade muito além do cume das montanhas. O milagre que Deus mais anseia realizar, o mais difícil, meu amigo, é fazer você crer. De todo o seu coração, vontade e entendimento. Quando conseguirmos ser curados espiritualmente da nossa pouca fé, nenhuma montanha nos parecerá ameaçadora. Porque Ele nos elevará acima das maiores alturas, para vermos muito mais que os simples temores humanos. “Os teus olhos verão o Rei na sua formosura, e verão a Terra que se estende em amplidão.” Isaías 33: 17
Que nesta nova semana, você receba o maior milagre de todos: saber em quem tem crido. (II Tim. 1:12)
Uma semana iluminada!
Luciana
Semana passada minha mãe dirigiu-se até uma clínica para fazer exames de rotina, entre os quais estava incluída uma mamografia. Ela foi sem medo. Aos cinqüenta e um anos, nunca foi constatado nada de irregular. Na sala de espera, ela observava constrangida o desespero de outras mulheres. Uma delas estava voltando para fazer novo exame, porque o médico havia descoberto um nódulo suspeito em seu seio. E isso, para aquela mulher, significava algo de muito errado. Um câncer talvez. Por isso ela chorava e chorava, enquanto outra mulher tentava consolá-la. A última dizia à primeira:
- Tenha calma, as coisas não são tão trágicas assim. Veja o meu exemplo. Há alguns anos eu fiz um exame e os médicos encontraram um enorme nódulo no meu seio. Como era maligno, precisou ser retirado com urgência. Mas eu tive fé, e orei pedindo a Jesus que me curasse. Até aquele momento eu não conhecia o poder de Deus. Era uma mulher rica, bonita, realizada, bem casada, nunca havia precisado da ajuda de Deus. Mas quando precisei, Ele me atendeu, e antes de fazer a cirurgia, os médicos fizeram um novo exame onde constataram o desaparecimento inexplicável do nódulo.
Minha mãe ficou impressionada com o relato da mulher. Solidária a ela, e na intenção de reforçar seu testemunho, disse apenas:
- É, eu também conheço esse Deus vivo que te curou!
Fez o exame e foi embora. Na mesma semana, minha mãe descobriu que o exame acusou não só um, mas vários nódulos nos seus dois seios. Foi chamada para fazer novo exame, mais minucioso, e teve que enfrentar novamente a sala de espera, sem ninguém para consolá-la e com um medo terrível no coração. Na mente, a sua afirmação dita tão convictamente alguns dias atrás, parecia acusar-lhe: “Você realmente conhece esse Deus vivo? Então chegou a sua vez de ter fé.”
É tão fácil declararmos nossa fé quando nada nos atinge. Mas quando chega a hora de sermos provados? Até onde nossa fé sobrepuja o medo, a ansiedade, a dúvida? Minha mãe passou a semana orando. Nunca a vi tão temerosa. Falava sem parar no assunto, e seu semblante ficou visivelmente abatido. Descobri que nessas ocasiões, é até melhor não conversar sobre o assunto com outras mulheres, já que todas têm sempre uma experiência horrível e traumatizante para contar...
Um dia antes de ir ao médico fazer a biópsia, minha mãe apontava para o exame de ressonância magnética e dizia: “Veja só, Luciana. Um dos nódulos é enorme, há outros grandes também. Estou preparada para chegar lá amanhã e ter de ficar internada para uma cirurgia...” O nódulo maior tinha pouco mais de dois centímetros, mas na perspectiva dela aquilo era imenso. Tentávamos tranqüiliza-la dizendo que não era nada demais, que ela não podia antever nenhum diagnóstico. Mas foi Deus quem a fez ir ao exame pensado: “Eu, porém, confiarei no Senhor; esperarei no Deus da minha salvação. O meu Deus me ouvirá.” (Miquéias 7: 7)
Felizmente ao chegar no médico, este descobriu que a situação era mais simples do que ela imaginava. Os nódulos “enormes”, foram retirados rapidamente, através de uma pulsão, um procedimento relativamente simples, que usa apenas uma agulha para “esvaziar” os nódulos. Em seguida ela voltou para casa, e quando fui conversar com ela para saber como tudo havia se passado, ouvi exatamente essas palavras:
- Eu disse que tinha fé. Os nódulos foram minhas “montanhas”. Eu os via enormes, intransponíveis... mas Deus, em Seu amor, as transformou em montículos de barro. E eu aprendi como minha fé pode remover montanhas.
Qual é a sua montanha pessoal? Não importa que homens no passado tenham curado, ressuscitado, feito fogo descer do céu. Quando você se vê diante da sua montanha, é somente a sua fé que pode removê-la. Você realmente acredita nisso? Conhece verdadeiramente o Seu Deus? Ou apensa as histórias que te foram contadas, e pareceram sempre tão distantes? Milagre não é fazer um nódulo desaparecer, um câncer ser curado, um cego tornar a ver ou uma montanha lançar-se ao mar. Isso tudo é muito simples para Deus, muito pequeno. Milagre, é fazer você ver as coisas com o olhar dEle. Sem medo, sem desespero, com a certeza de que todas as coisas contribuem para o bem daquele que O amam. É abrir seus olhos, de modo que, conhecendo realmente por Quem você é amado, seus olhos se abram para uma realidade muito além do cume das montanhas. O milagre que Deus mais anseia realizar, o mais difícil, meu amigo, é fazer você crer. De todo o seu coração, vontade e entendimento. Quando conseguirmos ser curados espiritualmente da nossa pouca fé, nenhuma montanha nos parecerá ameaçadora. Porque Ele nos elevará acima das maiores alturas, para vermos muito mais que os simples temores humanos. “Os teus olhos verão o Rei na sua formosura, e verão a Terra que se estende em amplidão.” Isaías 33: 17
Que nesta nova semana, você receba o maior milagre de todos: saber em quem tem crido. (II Tim. 1:12)
Uma semana iluminada!
Luciana
sábado, 3 de agosto de 2002
O céu por um real
A cena era comovente. Meio-dia, a senhora indiferente, e ela explicando com voz de choro:
- Não, minha senhora, deixe eu ser clara... eu te-nho-que participar desse evento, entendeu?
- Senhorita, o que eu entendi bem é que você não fez a matrícula na semana passada, portanto não-po-de-ma-is participar desse evento. Não há mais vagas. Sinto muito.
- Não, a senhora não tem idéia do que eu sinto. Se eu perder a oportunidade de fazer um desses cursos de música barroca, eu posso ter um colapso nervoso. A senhora gostaria de abrir o jornal e ver que uma garota morreu de colapso nervoso porque não abriram uma vaga para ela? Meus pais poderiam processar a senhora - ameaçou a garota, insopitável.
- Pois bem, que processem - falou a senhora secamente, terminando de organizar uns papéis em cima da mesa.
- Olha - ela respirou fundo - desculpe, eu estou nervosa. Não quis ser grosseira. Sabe, eu amo música barroca. Sou completamente, perdidamente, doidamente apaixonada por música barroca. E aqui em Natal, nunca aconteceu um evento desse porte, especialmente voltado para esse tipo de música, e com professores de alta qualidade. Então, eu não posso ficar de fora se não nunca vou me recuperar desse trauma...
- Senhorita, se você ama tanto música barroca, por que não fez a inscrição semana passada?
- Mas eu já lhe disse! Eu não sabia que as inscrições eram até semana passada. Vi a propaganda, mas não reparei nas letras minúsculas que diziam o prazo de inscrição. Ontem eu vim aqui pensando ser uma das primeiras da fila, mas quando cheguei me informaram dessa catástrofe. Então resolvi vir aqui novamente, suplicar, implorar, pedir de joelhos se for o caso, para a senhora deixar eu participar.
- Não posso.
- Eu não acredito! Minha senhora, tudo bem, eu entenderia se a inscrição fosse de um valor maior, mas é apenas um real!! Um real!! Que diferença faz matricular alguém depois?? É apenas uma vaga a mais, ninguém vai reparar!
- De fato, esse valor é apenas simbólico. Não paga nem o lanche dos professores. Mas foi instituído para que os alunos se sentissem vinculados à responsabilidade de comparecer ao curso. Pagando essa taxa, eles demonstraram interesse real pelas matérias, o que a senhorita não fez.
- Mas... mas...
- Tenho que ir almoçar, com licença.
- Ouça-me, eu pago mais - dizia ela enquanto segurava o braço da senhora, que saía a passos largos em direção à porta - pago cinco reais, pago dez. Pago vinte, a senhora pode ficar com o restante. Espere um pouco!
- Por favor, me solte, se não eu chamo o segurança.
- Eu pago cinqüenta, cem reais... tá bom, eu pago duzentos, meu salário todinho!
A senhora parou, olhou a garota de cima a baixo e não pareceu nem um pouco sensibilizada com a quantia vultosa do suborno. Antes, a fulminou com um olhar que a fez ficar parada, sem reação. Depois continuou andando em direção a seu carro.
A garota começou a chorar. Estava desesperada e fazia questão de demostrar isso. Logo que se deu conta que sua última oportunidade de fazer o curso de música barroca estava indo embora, retomou os movimentos e correu em direção ao carro.
- Minha senhora, eu lhe imploro - ela soluçava - se a senhora não fizer minha matrícula eu vou acampar aqui na frente do Palácio da Cultura, e vou cantar todo o repertório de música barroca e renascentista que eu conheço, até alguém se sensibilizar com minha situação, ou até eu perder a voz!
- Faça um bom aquecimento vocal antes, disse a senhora dando partida no carro.
- Não, não vá embora... por favor...
Mas o carro já ia embora. A garota foi atrás, a princípio tentando segurar o carro, depois andando rápido, depois correndo com os sapatos altos nas mãos, jogando súplicas ao vento. Uma cena deplorável, coisa que ela só se deu conta depois que notou todo mundo da praça a olhando.
De alguma forma, esse episódio me fez pensar de novo em Deus, e no modo como se opera a nossa salvação. Quanto custa ser salvo? O apóstolo Paulo responde: "sendo justificados gratuitamente pela sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus" (Romanos 3: 24); "para o louvor da glória da sua graça, a qual nos deu gratuitamente no Amado" (Efésios 1:6).
A salvação é gratuita, decorre da graça de Deus. Mas há algo que precisamos fazer, e é condição sine qua non para sermos salvos. Consiste em aceitarmos isso. Deixar que a salvação concedida gratuitamente por Cristo faça parte de nossa vida, demonstrar interesse para que ela se opere. Se me permitem a comparação, seria como dar um real a Deus e em troca receber toda as promessas celestiais que Ele tem para nós. Mas um real? É, não se engane se quiserem vender um terreno no Céu mais caro. Deus realmente não precisa de nosso dinheiro, nem do nosso um real (que é quase dinheiro), mas Ele precisa que demonstremos interesse pelo Seu maior presente. Afinal, não adianta Ele querer nos dar um Céu junto com Jesus , se o Céu junto com Jesus não está entre o que mais queremos.
E como demonstramos nosso interesse? Bem, como Deus ainda não abriu uma conta bancária aqui na Terra, Ele instituiu outra "moeda" simbólica: o nosso coração. Dando o nosso coração a Jesus, demonstramos querer muito estar ao Seu lado, e participar das boas-novas que Ele anunciou, das promessas que em breve irão se cumprir. Trata-se de um compromisso que assumimos quanto aos nossos sonhos de cristãos. Esse é o vínculo entre a salvação e o ser humano: o ato de entregar o ser a Cristo, por inteiro, demonstrando nosso interesse em estarmos para sempre com Ele. Não estou dizendo que o seu coração vale um real, nada disso! Mas entregá-lo a Deus pode ser tão fácil quanto desembolsar essa quantia módica, se você o fizer movido por amor. E conhecendo a esse Deus maravilhoso, não há como não amá-lO!
Sim, a salvação é gratuita, é dom de Deus. Mas exige de nossa parte um aceite indispensável, claro e total. Uma entrega tão profunda que seja visível aos olhos de todos os passantes. E creia, o amor que provém de Deus transpira por todos os poros, é notório e contagiante.
Que nesta nova semana você possa entregar-se mais uma vez a Jesus, e renovar com Ele o pacto da salvação. Isso fará sua semana muito mais feliz. Assim como a minha, que começa maravilhosa, especialmente depois que consegui me matricular num dos cursos de música barroca, justamente o de canto, que eu mais queria. Pois é, um dia depois do incidente com a senhora da história ai em cima, os organizadores abriram novos prazos, e eu consegui fazer minha inscrição. Mas é claro, eu tinha que fazer meu drama, hehehe.
Uma semana iluminada,
Luciana
- Não, minha senhora, deixe eu ser clara... eu te-nho-que participar desse evento, entendeu?
- Senhorita, o que eu entendi bem é que você não fez a matrícula na semana passada, portanto não-po-de-ma-is participar desse evento. Não há mais vagas. Sinto muito.
- Não, a senhora não tem idéia do que eu sinto. Se eu perder a oportunidade de fazer um desses cursos de música barroca, eu posso ter um colapso nervoso. A senhora gostaria de abrir o jornal e ver que uma garota morreu de colapso nervoso porque não abriram uma vaga para ela? Meus pais poderiam processar a senhora - ameaçou a garota, insopitável.
- Pois bem, que processem - falou a senhora secamente, terminando de organizar uns papéis em cima da mesa.
- Olha - ela respirou fundo - desculpe, eu estou nervosa. Não quis ser grosseira. Sabe, eu amo música barroca. Sou completamente, perdidamente, doidamente apaixonada por música barroca. E aqui em Natal, nunca aconteceu um evento desse porte, especialmente voltado para esse tipo de música, e com professores de alta qualidade. Então, eu não posso ficar de fora se não nunca vou me recuperar desse trauma...
- Senhorita, se você ama tanto música barroca, por que não fez a inscrição semana passada?
- Mas eu já lhe disse! Eu não sabia que as inscrições eram até semana passada. Vi a propaganda, mas não reparei nas letras minúsculas que diziam o prazo de inscrição. Ontem eu vim aqui pensando ser uma das primeiras da fila, mas quando cheguei me informaram dessa catástrofe. Então resolvi vir aqui novamente, suplicar, implorar, pedir de joelhos se for o caso, para a senhora deixar eu participar.
- Não posso.
- Eu não acredito! Minha senhora, tudo bem, eu entenderia se a inscrição fosse de um valor maior, mas é apenas um real!! Um real!! Que diferença faz matricular alguém depois?? É apenas uma vaga a mais, ninguém vai reparar!
- De fato, esse valor é apenas simbólico. Não paga nem o lanche dos professores. Mas foi instituído para que os alunos se sentissem vinculados à responsabilidade de comparecer ao curso. Pagando essa taxa, eles demonstraram interesse real pelas matérias, o que a senhorita não fez.
- Mas... mas...
- Tenho que ir almoçar, com licença.
- Ouça-me, eu pago mais - dizia ela enquanto segurava o braço da senhora, que saía a passos largos em direção à porta - pago cinco reais, pago dez. Pago vinte, a senhora pode ficar com o restante. Espere um pouco!
- Por favor, me solte, se não eu chamo o segurança.
- Eu pago cinqüenta, cem reais... tá bom, eu pago duzentos, meu salário todinho!
A senhora parou, olhou a garota de cima a baixo e não pareceu nem um pouco sensibilizada com a quantia vultosa do suborno. Antes, a fulminou com um olhar que a fez ficar parada, sem reação. Depois continuou andando em direção a seu carro.
A garota começou a chorar. Estava desesperada e fazia questão de demostrar isso. Logo que se deu conta que sua última oportunidade de fazer o curso de música barroca estava indo embora, retomou os movimentos e correu em direção ao carro.
- Minha senhora, eu lhe imploro - ela soluçava - se a senhora não fizer minha matrícula eu vou acampar aqui na frente do Palácio da Cultura, e vou cantar todo o repertório de música barroca e renascentista que eu conheço, até alguém se sensibilizar com minha situação, ou até eu perder a voz!
- Faça um bom aquecimento vocal antes, disse a senhora dando partida no carro.
- Não, não vá embora... por favor...
Mas o carro já ia embora. A garota foi atrás, a princípio tentando segurar o carro, depois andando rápido, depois correndo com os sapatos altos nas mãos, jogando súplicas ao vento. Uma cena deplorável, coisa que ela só se deu conta depois que notou todo mundo da praça a olhando.
De alguma forma, esse episódio me fez pensar de novo em Deus, e no modo como se opera a nossa salvação. Quanto custa ser salvo? O apóstolo Paulo responde: "sendo justificados gratuitamente pela sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus" (Romanos 3: 24); "para o louvor da glória da sua graça, a qual nos deu gratuitamente no Amado" (Efésios 1:6).
A salvação é gratuita, decorre da graça de Deus. Mas há algo que precisamos fazer, e é condição sine qua non para sermos salvos. Consiste em aceitarmos isso. Deixar que a salvação concedida gratuitamente por Cristo faça parte de nossa vida, demonstrar interesse para que ela se opere. Se me permitem a comparação, seria como dar um real a Deus e em troca receber toda as promessas celestiais que Ele tem para nós. Mas um real? É, não se engane se quiserem vender um terreno no Céu mais caro. Deus realmente não precisa de nosso dinheiro, nem do nosso um real (que é quase dinheiro), mas Ele precisa que demonstremos interesse pelo Seu maior presente. Afinal, não adianta Ele querer nos dar um Céu junto com Jesus , se o Céu junto com Jesus não está entre o que mais queremos.
E como demonstramos nosso interesse? Bem, como Deus ainda não abriu uma conta bancária aqui na Terra, Ele instituiu outra "moeda" simbólica: o nosso coração. Dando o nosso coração a Jesus, demonstramos querer muito estar ao Seu lado, e participar das boas-novas que Ele anunciou, das promessas que em breve irão se cumprir. Trata-se de um compromisso que assumimos quanto aos nossos sonhos de cristãos. Esse é o vínculo entre a salvação e o ser humano: o ato de entregar o ser a Cristo, por inteiro, demonstrando nosso interesse em estarmos para sempre com Ele. Não estou dizendo que o seu coração vale um real, nada disso! Mas entregá-lo a Deus pode ser tão fácil quanto desembolsar essa quantia módica, se você o fizer movido por amor. E conhecendo a esse Deus maravilhoso, não há como não amá-lO!
Sim, a salvação é gratuita, é dom de Deus. Mas exige de nossa parte um aceite indispensável, claro e total. Uma entrega tão profunda que seja visível aos olhos de todos os passantes. E creia, o amor que provém de Deus transpira por todos os poros, é notório e contagiante.
Que nesta nova semana você possa entregar-se mais uma vez a Jesus, e renovar com Ele o pacto da salvação. Isso fará sua semana muito mais feliz. Assim como a minha, que começa maravilhosa, especialmente depois que consegui me matricular num dos cursos de música barroca, justamente o de canto, que eu mais queria. Pois é, um dia depois do incidente com a senhora da história ai em cima, os organizadores abriram novos prazos, e eu consegui fazer minha inscrição. Mas é claro, eu tinha que fazer meu drama, hehehe.
Uma semana iluminada,
Luciana
sábado, 27 de julho de 2002
Num lance de fotografia (Os Miseráveis)
Fim-de-semana passado, assisti a um filme que já é meu preferido, apesar de só ter dado para eu repetir a fita cinco vezes. Trata-se de “Os Miseráveis” (Les Misérables), drama baseado no livro homônimo de Victor Hugo, que se tornou um romance clássico da literatura universal. Dirigido por Billy August e tendo no elenco Liam Neeson, Geoffrey Rush, Uma Thurman – e um gatinho chamado Hans Mathison (o Marius) – o filme consegue surpreender e envolver do começo ao fim da história, especialmente a quem não leu o livro ainda, de modo que é, com certeza, o filme mais fantástico que eu já vi (sempre chego a essas conclusões, dez anos depois que todo mundo já viu tudo).
O enredo se desenvolve em torno de Jean Valijean, condenado que passou vinte anos preso e realizando trabalhos forçados, tendo entre seus algozes, o guarda Javert. Durante a liberdade condicional, Valijean foge e recomeça sua vida em outra cidade, com nova identidade, e novos valores. Mas a vida faz com que reencontre Javert, agora como inspetor de polícia, que o reconhece e fica obcecado por desmascará-lo. Valijean consegue fugir de Javert várias vezes, e isso só instiga mais ódio no inspetor – um competente e irrepreensível funcionário, fiel cumpridor da lei.
A cena mais emocionante, no final do filme, mostra Jean Vilajean finalmente nas mãos de Javert. Capturado, sem qualquer escapatória, e preparado para o trágico destino que se lhe aponta, Vilejean está em pé na beira de um rio, com Javert apontando uma singela pistola que mais parece uma bazooca em miniatura bem embaixo do seu queixo, e sentenciando: “você não entende a importância da lei”. Por um momento a gente pensa: “Mas será que Javert não vai ter piedade de Jean Vilejean? Será que ele não vai ao menos deixar o coitado viver, nem que seja na prisão?” Então Javert diz com voz fria:
- Vou poupá-lo de uma vida na prisão, Jean Vilejean. É uma pena que as leis não me permitam ter piedade – e com a arma, fasta a cabeça de Jean em sua direção.
Nesse preciso momento, o foco da câmera lança mão de um recurso de fotografia fantástico. A cena é cortada, e em seguida focalizada novamente do alto de um canto esquerdo qualquer, mostrando os dois homens à distância, de costas, Javert com a arma apontada para o pescoço de Jean, olhando-o fixamente. Fundo musical de suspense. É por causa desse lance fotográfico – a cena mostrada de longe – que a gente, sem raciocinar, conclui imediatamente: “Pronto, o cara vai morrer. Atira logo, sô! Eu quero respirar!”. É como se a câmera se afastasse para não mostrar de perto os miolos de Jean voando e o corpo tombando sem cabeça no rio. Para não respingar sangue na lente. Reação análoga a que a gente tem diante de algo repugnante: desviamos o olhar para não ver a desgraça detalhadamente.
Mas essa reação não acontece somente ao observarmos uma cena da qual estamos alheios. Às vezes, assim que a gente se dá conta que errou, pensa logo que em seguida virá o pior. Fomos ensinados que o pecado é a transgressão da Lei, e que o salário do pecado é a morte. Você pecou, e quando todos foram embora, quando só resta você, Deus e seu travesseiro, a verdade lhe aparece como uma arma apontada para a sua cabeça. Você errou, deve pagar. A câmera de sua mente se afasta dessa cena constrangedora, como se você tivesse que fugir, como se não pudesse encarar que está prestes a ser sacrificado diante da presença do Deus Justiceiro. E prefere não ver o que sente no fundo do seu coração: que Ele está com a arma apontada para você. Ele é o Todo-Poderoso que você acabou de insultar, pode haver escapatória? Ele é o Dono da Lei que você passou a vida inteira quebrando e quebrando seguidamente. Ele é o Inspetor de quem você tentou fugir por todas as formas, e agora que você O sente do teu lado, agora que você está preso nas mãos dEle, o melhor é dirigir o olhar pra longe, pra um lugar qualquer onde você não possa ver detalhadamente o modo como Ele vai te punir pela tua lista quilométrica de pecados.
Você até que conseguiu passar um bom tempo de sua vida provando para todo mundo que poderia ser feliz, muito feliz, fingindo que não fez nada errado. Por vezes quase se convenceu que quem errou foram as pessoas, foram as circunstâncias, foi a tua igreja. Você foi uma vítima do meio. Então partiu para um lugar onde ninguém sabia do que você fez - ou não dava a mínima para isso – e recomeçou. Conseguiu pensar que agora tudo estava bem, mas... Ele é terrível. E acabou te pegando outra vez. Só Ele sabe de todo o teu passado, das coisas escondidas, das tuas mentiras e hipocrisias. Só ele enxerga além das tuas frágeis máscaras. É... parece que só resta desviar o olhar e torcer para não doer muito.
Mas não deixe que esse recurso de fotografia pegue você. Raciocine antes de concluir qualquer coisa. Sabe aquele versículo que fala sobre o preço do pecado, que há pouco te assaltou a memória tão vivamente? Se permita lembrar o versículo todo: “porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus nosso Senhor.” (Romanos 6:23) Lembrou? Há pessoas que passam a vida sem lembrar desse grande detalhe. Tecem todos os planos de fuga, e quando encontram Deus face-a-face (é, Ele não vai largar do teu pé tão fácil ), assinam a própria condenação simplesmente porque desviam seu olhar para longe da cena. Jamais se perdoam, precisam de paliativos para aliviar suas consciências, ou de remédios para entorpecê-las. Estão certas que para elas não há mais solução, nem há solução para este mundo, tudo está condenado a sofrer uma por uma as conseqüências do pecado.Com os olhos sempre voltados para um literal ponto de fuga no horizonte, desviam-se até o último momento de um encontro definitivo com Deus.
Mas perceba. Se você desviar seus olhos para os lados, nunca vai conseguir ver o perdão amoroso que emana dos olhos dEle. Se você desviar os olhos para cima, vai estar vendo o lugar aonde Ele quer te levar, porque teu lugar é no alto, junto do Altíssimo, e não nesse mundinho incompleto que você criou para sobreviver longe dEle, onde nenhuma alegria dura mais que a sua dor. Se desviar seus olhos para o chão, vai ver sangue ali – mas não se espante, não é o seu! É o sangue dEle, ainda escorrendo de Suas mãos que foram pregadas na cruz junto com todos os teus pecados.
Ninguém tem que carregar o preço daquilo que Ele já pagou com a vida. Você pode até ouvir algumas pessoas dizendo que, por causa do teu erro, você vai ter que amargar uma vida inteira de conseqüências desastrosas. Mas o meu Deus, é aquele que não tem prazer na dor de Seus filhos, e mesmo quando eles erram, Ele dá um jeitinho de fazer com que não paguem por todos os erros. Ora, quem conseguiria efetuar tal pagamento? Que seria de nós se Deus não amenizasse as conseqüências de nossas más decisões, e planejasse os mais variados atalhos para voltarmos seguros para o nosso lugar? Se as coisas estão ruins, acredite, elas vão ficar melhores daqui a pouco. Se as coisas parecem estar indo muito bem, ufa! Isso só prova que Ele já encontrou um jeito de te manter resguardado, até você voltar. Então, volte logo, porque nenhum lugar longe dEle é seguro para sempre.
Mas antes de tudo, lance um olhar sincero, próximo, direto para os Olhos de Jesus. Você vai descobrir ali, que a graça dEle é maior que a Lei, maior que a acusação que você lança sobre si mesmo, maior que o julgamento que os outros fazem dos teus erros, e bem maior que a força do pecado. “Porque o amor é forte como a morte”, e a morte já aconteceu lá no Calvário para que você tivesse vida. Não apenas uma vida de fugas e alegrias fugazes. Falo de vida em abundância. De paz, não como o mundo a dá (João 14:27).
Uma semana iluminada,
Luciana
Ps.: E quanto a Jean Valijean, o que aconteceu? Ora, claro que eu não vou dizer, assista o filme!!
O enredo se desenvolve em torno de Jean Valijean, condenado que passou vinte anos preso e realizando trabalhos forçados, tendo entre seus algozes, o guarda Javert. Durante a liberdade condicional, Valijean foge e recomeça sua vida em outra cidade, com nova identidade, e novos valores. Mas a vida faz com que reencontre Javert, agora como inspetor de polícia, que o reconhece e fica obcecado por desmascará-lo. Valijean consegue fugir de Javert várias vezes, e isso só instiga mais ódio no inspetor – um competente e irrepreensível funcionário, fiel cumpridor da lei.
A cena mais emocionante, no final do filme, mostra Jean Vilajean finalmente nas mãos de Javert. Capturado, sem qualquer escapatória, e preparado para o trágico destino que se lhe aponta, Vilejean está em pé na beira de um rio, com Javert apontando uma singela pistola que mais parece uma bazooca em miniatura bem embaixo do seu queixo, e sentenciando: “você não entende a importância da lei”. Por um momento a gente pensa: “Mas será que Javert não vai ter piedade de Jean Vilejean? Será que ele não vai ao menos deixar o coitado viver, nem que seja na prisão?” Então Javert diz com voz fria:
- Vou poupá-lo de uma vida na prisão, Jean Vilejean. É uma pena que as leis não me permitam ter piedade – e com a arma, fasta a cabeça de Jean em sua direção.
Nesse preciso momento, o foco da câmera lança mão de um recurso de fotografia fantástico. A cena é cortada, e em seguida focalizada novamente do alto de um canto esquerdo qualquer, mostrando os dois homens à distância, de costas, Javert com a arma apontada para o pescoço de Jean, olhando-o fixamente. Fundo musical de suspense. É por causa desse lance fotográfico – a cena mostrada de longe – que a gente, sem raciocinar, conclui imediatamente: “Pronto, o cara vai morrer. Atira logo, sô! Eu quero respirar!”. É como se a câmera se afastasse para não mostrar de perto os miolos de Jean voando e o corpo tombando sem cabeça no rio. Para não respingar sangue na lente. Reação análoga a que a gente tem diante de algo repugnante: desviamos o olhar para não ver a desgraça detalhadamente.
Mas essa reação não acontece somente ao observarmos uma cena da qual estamos alheios. Às vezes, assim que a gente se dá conta que errou, pensa logo que em seguida virá o pior. Fomos ensinados que o pecado é a transgressão da Lei, e que o salário do pecado é a morte. Você pecou, e quando todos foram embora, quando só resta você, Deus e seu travesseiro, a verdade lhe aparece como uma arma apontada para a sua cabeça. Você errou, deve pagar. A câmera de sua mente se afasta dessa cena constrangedora, como se você tivesse que fugir, como se não pudesse encarar que está prestes a ser sacrificado diante da presença do Deus Justiceiro. E prefere não ver o que sente no fundo do seu coração: que Ele está com a arma apontada para você. Ele é o Todo-Poderoso que você acabou de insultar, pode haver escapatória? Ele é o Dono da Lei que você passou a vida inteira quebrando e quebrando seguidamente. Ele é o Inspetor de quem você tentou fugir por todas as formas, e agora que você O sente do teu lado, agora que você está preso nas mãos dEle, o melhor é dirigir o olhar pra longe, pra um lugar qualquer onde você não possa ver detalhadamente o modo como Ele vai te punir pela tua lista quilométrica de pecados.
Você até que conseguiu passar um bom tempo de sua vida provando para todo mundo que poderia ser feliz, muito feliz, fingindo que não fez nada errado. Por vezes quase se convenceu que quem errou foram as pessoas, foram as circunstâncias, foi a tua igreja. Você foi uma vítima do meio. Então partiu para um lugar onde ninguém sabia do que você fez - ou não dava a mínima para isso – e recomeçou. Conseguiu pensar que agora tudo estava bem, mas... Ele é terrível. E acabou te pegando outra vez. Só Ele sabe de todo o teu passado, das coisas escondidas, das tuas mentiras e hipocrisias. Só ele enxerga além das tuas frágeis máscaras. É... parece que só resta desviar o olhar e torcer para não doer muito.
Mas não deixe que esse recurso de fotografia pegue você. Raciocine antes de concluir qualquer coisa. Sabe aquele versículo que fala sobre o preço do pecado, que há pouco te assaltou a memória tão vivamente? Se permita lembrar o versículo todo: “porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus nosso Senhor.” (Romanos 6:23) Lembrou? Há pessoas que passam a vida sem lembrar desse grande detalhe. Tecem todos os planos de fuga, e quando encontram Deus face-a-face (é, Ele não vai largar do teu pé tão fácil ), assinam a própria condenação simplesmente porque desviam seu olhar para longe da cena. Jamais se perdoam, precisam de paliativos para aliviar suas consciências, ou de remédios para entorpecê-las. Estão certas que para elas não há mais solução, nem há solução para este mundo, tudo está condenado a sofrer uma por uma as conseqüências do pecado.Com os olhos sempre voltados para um literal ponto de fuga no horizonte, desviam-se até o último momento de um encontro definitivo com Deus.
Mas perceba. Se você desviar seus olhos para os lados, nunca vai conseguir ver o perdão amoroso que emana dos olhos dEle. Se você desviar os olhos para cima, vai estar vendo o lugar aonde Ele quer te levar, porque teu lugar é no alto, junto do Altíssimo, e não nesse mundinho incompleto que você criou para sobreviver longe dEle, onde nenhuma alegria dura mais que a sua dor. Se desviar seus olhos para o chão, vai ver sangue ali – mas não se espante, não é o seu! É o sangue dEle, ainda escorrendo de Suas mãos que foram pregadas na cruz junto com todos os teus pecados.
Ninguém tem que carregar o preço daquilo que Ele já pagou com a vida. Você pode até ouvir algumas pessoas dizendo que, por causa do teu erro, você vai ter que amargar uma vida inteira de conseqüências desastrosas. Mas o meu Deus, é aquele que não tem prazer na dor de Seus filhos, e mesmo quando eles erram, Ele dá um jeitinho de fazer com que não paguem por todos os erros. Ora, quem conseguiria efetuar tal pagamento? Que seria de nós se Deus não amenizasse as conseqüências de nossas más decisões, e planejasse os mais variados atalhos para voltarmos seguros para o nosso lugar? Se as coisas estão ruins, acredite, elas vão ficar melhores daqui a pouco. Se as coisas parecem estar indo muito bem, ufa! Isso só prova que Ele já encontrou um jeito de te manter resguardado, até você voltar. Então, volte logo, porque nenhum lugar longe dEle é seguro para sempre.
Mas antes de tudo, lance um olhar sincero, próximo, direto para os Olhos de Jesus. Você vai descobrir ali, que a graça dEle é maior que a Lei, maior que a acusação que você lança sobre si mesmo, maior que o julgamento que os outros fazem dos teus erros, e bem maior que a força do pecado. “Porque o amor é forte como a morte”, e a morte já aconteceu lá no Calvário para que você tivesse vida. Não apenas uma vida de fugas e alegrias fugazes. Falo de vida em abundância. De paz, não como o mundo a dá (João 14:27).
Uma semana iluminada,
Luciana
Ps.: E quanto a Jean Valijean, o que aconteceu? Ora, claro que eu não vou dizer, assista o filme!!
sábado, 20 de julho de 2002
Para Mônica
Olá amiga.
Escrevo a você, porque o Direito é essa Ilha da Fantasia, e você sabe. Escrevo-te também porque mesmo não tendo assistindo a defesa da sua tese de mestrado, sei que você se saiu muitíssimo bem. Talvez por isso, sempre que alguém se refere a Direito Penal eu lembro de você. Talvez também por isso eu tenha lembrado de você naquela noite.
Era por volta das vinte e duas horas. Eu e um amigo estávamos no ônibus, osolhos ardendo um pouco de sono, as línguas pesadas impedindo qualquer diálogo. O dia tinha consumido todas as nossas energias, agora queríamos simplesmente chegar em nossas casas. No interior do ônibus, as mesmas caras de sempre: alguns estudantes que acabaram de sair da aula, um casal estranho sentado à nossa frente, conversando sobre a economia no mundo globalizado, um rapaz ao lado, de camisa xadrez. As coisas só ficaram esquisitas quando o ônibus descreveu uma curva para entrar no bairro das Rocas, um dos maispobres da cidade, mas que está no itinerário de quase todos os coletivos daqui.
Uma barreira policial apareceu, e nossos olhos os vasculhavam, querendo saber do que se tratava. A princípio pensei ser só mais uma blitz da polícia rodoviária ou coisa assim. Mas pouco depois do ônibus parar, uma policial militar, muito distinta e educadamente, entrou no ônibus, olhou-nos fixamente por alguns segundos e começou a falar num tom cordial e firme:- Boa noite, senhoras e senhores. Nós estamos realizando um procedimento de rotina para a melhor segurança dos cidadãos.
"Segurança? Campanha educativa a essa hora?", eu pensei. "Rotina? Isso nuncaaconteceu aqui antes!", pensou meu amigo.
- Por isso queremos pedir que as senhoras abram suas bolsas e os senhores ponham-se de pé para uma revista que será feita pelos policiais.
Enquanto falava, vários homens armados entraram no ônibus pela porta de trás e passaram a revistar os cavalheiros que, automática e abobalhadamente, se punham de pé, e a olhar com o máximo de discrição as bolsas escancaradas das damas boquiabertas.
- Obrigada, tenham uma boa noite.
O homem de camisa xadrez demorou um pouco para tornar a sentar. Um coro de estudantes excitados com a novidade respondeu: "Boa noite!", e eufóricos, deram tchauzinhos para os policiais enquanto o ônibus continuava seu caminho.
Meus olhos ainda ardiam de sono, mas minha língua, de repente, começou a tagarelar. Meu amigo fazia força para compreender aqueles termos técnicos de Direito ditos entre o barulho alto do motor do ônibus e das risadinhas dos estudantes espevitados. Eu falava, ao mesmo tempo em que recordava, todas aquelas coisas que nós duas aprendemos nos bancos da faculdade. Você sabe, a tal presunção de inocência. Sei que isso tem uma dezena de desdobramentos, mas eu queria me deter no mais elementar.
Disseram-nos que esse princípio estava garantido pela Constituição Federal, nossa Lei Magna, que governa todas as demais leis no país. Explicaram que se tratava de um direito que todo cidadão tem, o jus libertatis, que apesar do latim, a gente logo desconfiou ser o velho direito à liberdade. Disseram que por esse princípio, ninguém pode ser acusado de crime algum, a não ser por uma sentença definitiva, decorrente de um julgamento justo. Você deve lembrar melhor que eu. Falaram que o Direito existe para dar ao homemgarantias, nesse caso, a garantia de que ele não será privado da sua liberdade nem da sua prerrogativa de bom cidadão, cumpridor de seus deveres, só porque alguém não foi com a cara dele. E a gente saiu da aula acreditando que o Estado jamais ousaria violar a Lei Maior, e nos punir por algo que não fizemos. Que nossa inocência estava garantida, e quem a questionasse teria que provar isso em juízo. Que mesmo que fôssemos acusadas de um crime e as evidências não estivessem ao nosso favor, receberíamos durante o processocriminal, um tratamento digno, tratamento de um cidadão respeitável e honesto. Que se durante esse processo houvesse alguma dúvida, o juiz decidiria em nosso favor: "in dubio pro reo", falou o professor sempre ávido de latim. Arremataram citando a Declaração Universal dos Direitos Humanos e o Pacto de São José da Costa Rica. Enfim, minha amiga, saímos da aula deslumbradas com nosso Estado de Direito, que defende os seus com justiça e equidade.
Mas ao pegarmos o ônibus a fim de irmos para casa, lá estava o adesivo amarelinho dizendo: "Sorria! Você está sendo filmado". E quando quisemos entrar no banco, tivemos que depositar nossas chaves e celulares naquela caixinha de acrílico. Uma ou outra vez esquecemos uma sombrinha dentro da bolsa e passamos por aquele constrangimento de ficarmos presas na porta travada, com todos os olhares em nossa direção insinuando algo que preferimos ignorar. Quando fomos gastar nosso primeiro salário, comprando aquele móvel em prestações, pediram documentos que a gente nem sabia que existia, comprovante de renda e carteirinha de vacinação. Ligaram para nossos amigos para saber se éramos confiáveis, perguntando até se faltávamos às aulas de educação física no colégio. Ouvimos histórias engraçadas de amigos que tiveram as roupas íntimas expostas em alfândegas, e nenhum deles ousou mencionar o Pacto de São José da Costa Rica. No estágio obrigatório do nosso curso, ouvimos histórias bem mais horripilantes de cidadãos, que deveriam estar protegidos pela Lei Magna, mas encontravam-se presos em cadeias públicas e delegacias, sofrendo todo tipo de violência física, mental e moral, apesar de não terem sido ainda condenados, ou de já terem pagado a pena que lhes cabia.
Bem, até aí já desconfiávamos de que alguma coisa estava errada, e talvez não tivessem avisado nada aos nossos professores. Na verdade nos acostumamos a conviver na sociedade sendo tratadas como criminosas, por adesivos amarelinhos, portas de bancos, e o pessoal das alfândegas e financeiras. Dissemos a nós mesmas que era o preço por nossa segurança. Lamentamos a situação dos milhares de presos em situação irregular. Mas minha amiga, precisei passar pela experiência naquela blitz policial, para ter noção de quão utópicas são nossas teorias sobre presunção de inocência, garantias, direitos do cidadão, liberdade e - uma coisa de que não falaram no curso – respeito.
Por mais bela que seja a Constituição, somos considerados todos criminosos até que provemos o contrário. E contra isso, nada pode o nosso Direito, pouco vale a nossa Justiça. Não importa se nos acusam ou não de um delito específico, reina a desconfiança universal de que somos infratores. E se não o somos, temos o potencial de o ser, é o que dizem os desivos nas lojas e provadores: "nossa mercadoria está protegida eletronicamente contra qualquer tentativa de você nos roubar, é você mesmo aí com essa cara de inocente, seufingido. Pensa que eu não sei que você matou aquela aula na terceira série? Pensa que eu não vi você cortando aquele sinal vermelho? E aquela grana que pegou emprestado do teu amigo, seu inadimplente, pensa que eu não sei?". Não adianta muito achar seu crime pequeno: "quem mente, rouba, e quem rouba, mata", diz o ditado popular.
Sabe, amiga Mônica, é por isso que me conforta tanto a Pessoa da Justiça em Jesus Cristo, em detrimento do nosso mesquinho senso de justiça. Somente no sangue de Cordeiro de Deus há a verdadeira presunção de inocência amparando a cada um de nós. Contra o poder redentor desse sangue não subsiste nenhuma acusação. Por mais que, nesse caso, tenhamos verdadeiramente cometido o delito, e o Inimigo aponte com fúria para nossos pecados, Jesus nos concede a graça de alvejarmos nossas vestes em Seu sangue, e assim sermoscompletamente justificados. Porque ele nos amou enquanto ainda éramos culpados. No momento em que aceitamos o sacrifício da cruz e o poder da tumba vazia em nossas vidas, nossos pecados são apagados e somos considerados inocentes perante o Universo. Ele já carregou os sofrimentos e culpas que nos pertenciam. Fomos reconciliados com o Pai, que agora ao olhar para nós, não enxerga mais nossas transgressões, mas vê os traços do SeuFilho Jesus em nossos rostos. "Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu, ou, antes, ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós... Agora, pois, já não há nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus." (Romanos 8: 33, 34, 1)
Quanto ao mais, Cristo já deixou todos os sinais de que estamos seguros em Seu amor, que somos cidadãos do Céu, e a ninguém debaixo deste Céu, foi dada autoridade para acusar os filhos de Deus, desrespeitá-los, nem tratá-los abaixo do padrão principesco com o qual merecem ser tratados. Nem anjos, nem poderes, nem eu mesma ou qualquer outra criatura podem escapar a essa norma que Deus pôs sobre o meu e o teu viver. Quem o fizer prestará contas a Deus, por violar a Lei Magna que nos rege: a Lei do Amor Infinito dEle pelo serhumano.Pelo princípio da presunção da inocência - o verdadeiro - Cristo nos concede o direito à liberdade, e o dever de amar. Livres e felizes, você sabe: exatamente a condição para que fomos criados.
Uma semana iluminada,
Luciana
Escrevo a você, porque o Direito é essa Ilha da Fantasia, e você sabe. Escrevo-te também porque mesmo não tendo assistindo a defesa da sua tese de mestrado, sei que você se saiu muitíssimo bem. Talvez por isso, sempre que alguém se refere a Direito Penal eu lembro de você. Talvez também por isso eu tenha lembrado de você naquela noite.
Era por volta das vinte e duas horas. Eu e um amigo estávamos no ônibus, osolhos ardendo um pouco de sono, as línguas pesadas impedindo qualquer diálogo. O dia tinha consumido todas as nossas energias, agora queríamos simplesmente chegar em nossas casas. No interior do ônibus, as mesmas caras de sempre: alguns estudantes que acabaram de sair da aula, um casal estranho sentado à nossa frente, conversando sobre a economia no mundo globalizado, um rapaz ao lado, de camisa xadrez. As coisas só ficaram esquisitas quando o ônibus descreveu uma curva para entrar no bairro das Rocas, um dos maispobres da cidade, mas que está no itinerário de quase todos os coletivos daqui.
Uma barreira policial apareceu, e nossos olhos os vasculhavam, querendo saber do que se tratava. A princípio pensei ser só mais uma blitz da polícia rodoviária ou coisa assim. Mas pouco depois do ônibus parar, uma policial militar, muito distinta e educadamente, entrou no ônibus, olhou-nos fixamente por alguns segundos e começou a falar num tom cordial e firme:- Boa noite, senhoras e senhores. Nós estamos realizando um procedimento de rotina para a melhor segurança dos cidadãos.
"Segurança? Campanha educativa a essa hora?", eu pensei. "Rotina? Isso nuncaaconteceu aqui antes!", pensou meu amigo.
- Por isso queremos pedir que as senhoras abram suas bolsas e os senhores ponham-se de pé para uma revista que será feita pelos policiais.
Enquanto falava, vários homens armados entraram no ônibus pela porta de trás e passaram a revistar os cavalheiros que, automática e abobalhadamente, se punham de pé, e a olhar com o máximo de discrição as bolsas escancaradas das damas boquiabertas.
- Obrigada, tenham uma boa noite.
O homem de camisa xadrez demorou um pouco para tornar a sentar. Um coro de estudantes excitados com a novidade respondeu: "Boa noite!", e eufóricos, deram tchauzinhos para os policiais enquanto o ônibus continuava seu caminho.
Meus olhos ainda ardiam de sono, mas minha língua, de repente, começou a tagarelar. Meu amigo fazia força para compreender aqueles termos técnicos de Direito ditos entre o barulho alto do motor do ônibus e das risadinhas dos estudantes espevitados. Eu falava, ao mesmo tempo em que recordava, todas aquelas coisas que nós duas aprendemos nos bancos da faculdade. Você sabe, a tal presunção de inocência. Sei que isso tem uma dezena de desdobramentos, mas eu queria me deter no mais elementar.
Disseram-nos que esse princípio estava garantido pela Constituição Federal, nossa Lei Magna, que governa todas as demais leis no país. Explicaram que se tratava de um direito que todo cidadão tem, o jus libertatis, que apesar do latim, a gente logo desconfiou ser o velho direito à liberdade. Disseram que por esse princípio, ninguém pode ser acusado de crime algum, a não ser por uma sentença definitiva, decorrente de um julgamento justo. Você deve lembrar melhor que eu. Falaram que o Direito existe para dar ao homemgarantias, nesse caso, a garantia de que ele não será privado da sua liberdade nem da sua prerrogativa de bom cidadão, cumpridor de seus deveres, só porque alguém não foi com a cara dele. E a gente saiu da aula acreditando que o Estado jamais ousaria violar a Lei Maior, e nos punir por algo que não fizemos. Que nossa inocência estava garantida, e quem a questionasse teria que provar isso em juízo. Que mesmo que fôssemos acusadas de um crime e as evidências não estivessem ao nosso favor, receberíamos durante o processocriminal, um tratamento digno, tratamento de um cidadão respeitável e honesto. Que se durante esse processo houvesse alguma dúvida, o juiz decidiria em nosso favor: "in dubio pro reo", falou o professor sempre ávido de latim. Arremataram citando a Declaração Universal dos Direitos Humanos e o Pacto de São José da Costa Rica. Enfim, minha amiga, saímos da aula deslumbradas com nosso Estado de Direito, que defende os seus com justiça e equidade.
Mas ao pegarmos o ônibus a fim de irmos para casa, lá estava o adesivo amarelinho dizendo: "Sorria! Você está sendo filmado". E quando quisemos entrar no banco, tivemos que depositar nossas chaves e celulares naquela caixinha de acrílico. Uma ou outra vez esquecemos uma sombrinha dentro da bolsa e passamos por aquele constrangimento de ficarmos presas na porta travada, com todos os olhares em nossa direção insinuando algo que preferimos ignorar. Quando fomos gastar nosso primeiro salário, comprando aquele móvel em prestações, pediram documentos que a gente nem sabia que existia, comprovante de renda e carteirinha de vacinação. Ligaram para nossos amigos para saber se éramos confiáveis, perguntando até se faltávamos às aulas de educação física no colégio. Ouvimos histórias engraçadas de amigos que tiveram as roupas íntimas expostas em alfândegas, e nenhum deles ousou mencionar o Pacto de São José da Costa Rica. No estágio obrigatório do nosso curso, ouvimos histórias bem mais horripilantes de cidadãos, que deveriam estar protegidos pela Lei Magna, mas encontravam-se presos em cadeias públicas e delegacias, sofrendo todo tipo de violência física, mental e moral, apesar de não terem sido ainda condenados, ou de já terem pagado a pena que lhes cabia.
Bem, até aí já desconfiávamos de que alguma coisa estava errada, e talvez não tivessem avisado nada aos nossos professores. Na verdade nos acostumamos a conviver na sociedade sendo tratadas como criminosas, por adesivos amarelinhos, portas de bancos, e o pessoal das alfândegas e financeiras. Dissemos a nós mesmas que era o preço por nossa segurança. Lamentamos a situação dos milhares de presos em situação irregular. Mas minha amiga, precisei passar pela experiência naquela blitz policial, para ter noção de quão utópicas são nossas teorias sobre presunção de inocência, garantias, direitos do cidadão, liberdade e - uma coisa de que não falaram no curso – respeito.
Por mais bela que seja a Constituição, somos considerados todos criminosos até que provemos o contrário. E contra isso, nada pode o nosso Direito, pouco vale a nossa Justiça. Não importa se nos acusam ou não de um delito específico, reina a desconfiança universal de que somos infratores. E se não o somos, temos o potencial de o ser, é o que dizem os desivos nas lojas e provadores: "nossa mercadoria está protegida eletronicamente contra qualquer tentativa de você nos roubar, é você mesmo aí com essa cara de inocente, seufingido. Pensa que eu não sei que você matou aquela aula na terceira série? Pensa que eu não vi você cortando aquele sinal vermelho? E aquela grana que pegou emprestado do teu amigo, seu inadimplente, pensa que eu não sei?". Não adianta muito achar seu crime pequeno: "quem mente, rouba, e quem rouba, mata", diz o ditado popular.
Sabe, amiga Mônica, é por isso que me conforta tanto a Pessoa da Justiça em Jesus Cristo, em detrimento do nosso mesquinho senso de justiça. Somente no sangue de Cordeiro de Deus há a verdadeira presunção de inocência amparando a cada um de nós. Contra o poder redentor desse sangue não subsiste nenhuma acusação. Por mais que, nesse caso, tenhamos verdadeiramente cometido o delito, e o Inimigo aponte com fúria para nossos pecados, Jesus nos concede a graça de alvejarmos nossas vestes em Seu sangue, e assim sermoscompletamente justificados. Porque ele nos amou enquanto ainda éramos culpados. No momento em que aceitamos o sacrifício da cruz e o poder da tumba vazia em nossas vidas, nossos pecados são apagados e somos considerados inocentes perante o Universo. Ele já carregou os sofrimentos e culpas que nos pertenciam. Fomos reconciliados com o Pai, que agora ao olhar para nós, não enxerga mais nossas transgressões, mas vê os traços do SeuFilho Jesus em nossos rostos. "Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu, ou, antes, ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós... Agora, pois, já não há nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus." (Romanos 8: 33, 34, 1)
Quanto ao mais, Cristo já deixou todos os sinais de que estamos seguros em Seu amor, que somos cidadãos do Céu, e a ninguém debaixo deste Céu, foi dada autoridade para acusar os filhos de Deus, desrespeitá-los, nem tratá-los abaixo do padrão principesco com o qual merecem ser tratados. Nem anjos, nem poderes, nem eu mesma ou qualquer outra criatura podem escapar a essa norma que Deus pôs sobre o meu e o teu viver. Quem o fizer prestará contas a Deus, por violar a Lei Magna que nos rege: a Lei do Amor Infinito dEle pelo serhumano.Pelo princípio da presunção da inocência - o verdadeiro - Cristo nos concede o direito à liberdade, e o dever de amar. Livres e felizes, você sabe: exatamente a condição para que fomos criados.
Uma semana iluminada,
Luciana
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