segunda-feira, 30 de julho de 2001

Teopoesia - A quem não bateu à tua porta

"Se alguém bater um dia à tua porta,
Dizendo que é um emissário meu,
Não acredites, nem que seja eu;
Que o meu vaidoso orgulho não comporta,
Bater sequer à porta irreal do céu.
Mas se, naturalmente, e sem ouvir
Alguém bater, fores a porta abrir,
E encontrares alguém como que à espera
De ousar bater, medita um pouco. Esse era
Meu emissário e eu e o que comporta
O meu orgulho do que desespera.
Abre a quem não bater à tua porta!"

(Fernando Pessoa)

Ela sentava, olhava para a janela e esperava.

Havia um sentimento de tristeza íntima, uma certa ansiedade borboleteando seus olhos castanhos, mas as tardes mornas de Domingo eram tão azuis, que resistiam à melancolia. De vez em quando ela levantava, ia até o velho teclado e ensaiava um compasso de alguma valsa de Chopin. Fazia isso tão distraidamente, que só descobria ao
fundo da melodia, que ela era uma maneira de evocar o objeto de sua espera. Então suas mãos paravam frias sobre o teclado, e ela voltava a sentar-se em frente a janela, esperando e procurando-o em algum lugar daquele azul tépido.

Por que ele não vinha? A mesa estava posta. Seu coração transbordante de amor. As flores no vaso, sobre a escrivaninha. Os lápis tinham as pontas feitas. Papéis em branco ao lado. Tudo ao redor estava tão pronto quanto ela, e às vezes o vento parava de agitar as cortinas, como que anunciando sua chegada, mas... ele não vinha.
Seu amor era um mar agitado, batendo nas mesmas rochas... tão grande – mas que força estranha... – batendo nas mesmas rochas.

Olhou a porta e conteve-se: alguém precisava abrí-la. A porta também estava pronta. Ela o desejou mais fortemente e foi para perto do azul que a janela lhe dava. Mas admirou-se com o que viu: daquele ângulo ela via muito mais que o céu. Percebeu que havia tanta vida lá fora! E à medida em que inclinava o olhar para baixo da abóbada celeste, ela descobria que naquele momento a terra era mais urgente que o céu.

Perscrutou os detalhes para comprovar essa primeira impressão, e o que viu a fez tremer. Havia pessoas passando diante da sua porta! Bem embaixo da sua janela! Pessoas, pessoas, aqui e até a linha do horizonte! Em todas uma necessidade urgente. Elas deviam estar procurando alguma porta também, pois tinham a mesma expressão de ansiedade que os olhos dele possuíam. Mas não era só ansiedade. Ela tentou desvendar o nome preciso, mas tudo que conseguiu foi cumular uma lista de necessidades: confiança, atenção, perdão, compreensão, bondade, perdão, compaixão, doçura, perdão, perdão!...

Pessoas passando diante da sua porta! Bem embaixo da sua janela! Pessoas necessitando! Mas por que ela estava ali tão alheia? Ela tinha uma mesa posta! Flores no vaso, alguém poderia estar buscando flores! Lápis com pontas feitas, papéis em branco! Meu Deus, ela tinha um coração transbordante de amor! Por que ela estava ali dentro? Ah, porque ela esperava. Ela sentava e esperava. Mas as pessoas continuavam passando, todas elas necessitavam! E ela tinha uma porta pronta! Poderiam estar buscando uma porta...

Sentiu que precisava sair. A calma que o céu azul lhe transmitia fora trocada pela extrema urgência da contemplação terrena. A porta estava pronta, por que as pessoas não abriam? A resposta veio áspera, de si mesma:. porque ele, e todas as outras pessoas não buscavam portas, apenas o amor que elas aprisionavam.
Aquela porta estava pronta para ser aberta por ela e mais ninguém. Tola espera... ela nunca estivera pronta! E se ele chegasse? Se ela partisse e não estivesse mais presente quando ele fosse procurá-la? Como ele reagiria se encontrasse a porta aberta, e nenhum vaso, nenhum lápis ou papel em branco?

Ela sorriu, sorriu alegre como a mais dançante valsa de Chopin. Era tão simples... Ele não iria buscá-la ali. Ele estava também na urgência da Terra, caminhando ao lado de outras pessoas que necessitavam Então era preciso partir, e quando ele chegasse, iria encontrá-la em pé, vivendo de nunca chegar, amando sem reter.

Mais que contemplar o azul: doar-se na urgência da Terra e possuir o céu. Esperar com uma fidelidade ativa, pois o amor que tinha para ele não lhe pertenceria menos se semeado no vento. Havia tanto o que fazer, e ser: abrir-se a um mundo que não bateu a sua porta. E quando ele chegasse, iria tomar posse de um amor que era um lago tranquilo, fluindo sempre na mesma intensidade... tão grande – mas que força estranha... – fluindo na mesma intensidade.

domingo, 22 de julho de 2001

Teopoesia - Alberto

"...E o que ele, o coração, aspira, almeja
É o sonho que de lágrimas delira.
É sempre sonho e também é piedade,
Doçura, compaixão e suavidade
E graça e bem, misericórdia pura".

(Cruz e Souza – O coração)

Eu olhei uma vez mais e pisquei meus olhos com força, tornando a encará-los. Eram tão puros aqueles rios, que a água parecia feita de luz e cristal. Ao longe, eu ouvia o grasnar de pássaros, e ao meu redor tudo era verde, de uma paz quase tangível. Mas algo me disse que aquilo não poderia ser verdade, que era um sonho, e a consciência me tomou pela mão levando-me para longe, em direção aos sons estridentes dos pássaros, que ficavam cada vez mais fortes, e pareciam querer pronunciar algumas palavras:

- Tem alguém em casa?!! Abra, abra, por favor!!

Abri os olhos e não deixei de lamentar profundamente a ausência do cenário que contemplava no sonho, enquanto olhava meu quarto pedindo uma faxina. Cocei a cabeça tentando voltar em definitivo à realidade, e reconheci que os sons dos pássaros agora tomavam a forma de vozes agudas e afetadas vindas do portão. Levantei-me, vesti algo às pressas e quando cheguei lá fora, minha mãe já conversava com um
deles: Alberto.

Eu parei na porta, um pouco distante, e ouvi ele falando para minha mãe que meu primo foi encontrado por eles num matagal, violentamente espancado, com vários ferimentos graves na cabeça, inclusive uma fratura craniana, causados por armas típicas de lutadores de artes marciais, enfim, tentativa de homicídio. Alberto e seu amigo, que conheciam bem a vítima, o levaram a casa da avó materna, com quem meu
primo vive, mas a senhora teve um grande choque emocional e nada pôde fazer. Chamaram então a polícia, que o levou até o hospital público estadual, e procuraram minha mãe, que sabiam ser o familiar mais próximo.

De longe o desespero de Alberto parecia esdrúxulo. Suas lágrimas desfiguravam ainda mais o rosto maquiado grotescamente, e deslizando por um vinco junto ao nariz, vinham a cair nos lábios besuntados de batom vermelho. As mãos de Alberto se contorciam pregadas uma a outra enquanto ele falava, se abandonando apenas quando a mão direita saía ao encontro da sua mini-blusa branca, manchada de sangue, onde uma
fina alça insistia em cair-lhe dos ombros magros. Seus joelhos emanavam um ligeiro tremor que se propagava até sua saia vermelha e curta. Olhando assim, de longe, não era difícil de reparar que a história de Alberto era muito parecida à do meu primo, pois ambos viviam num mesmo submundo. Viviam? Pessoas como Alberto não vivem, atuam. Não têm outra alternativa diante da maldade que exala dos mais baixos níveis humanos, único lugar onde eles acham abrigo todas as noites. Maquiam o rosto e o espírito; quando podem, com drogas, quando não, com a ilusão de que são livres e alegres.

O choque da notícia não me fez recuar, antes me atraiu para ainda mais perto de Alberto, sem que ele reparasse em mim. Agora seu desespero parecia mais humano, pois pude observar outros vincos no seu rosto, algumas marcas no seu corpo, expressões . Em cada um desses sinais estava escrito um pecado, marcados ali com fogo e dor. Cada um reclamava para si e para aquele mundo miserável, a alma de Alberto, que já devia crer, como meu primo, que aquele era seu lugar, a prisão que lhe cabia como prêmio por ter buscado uma tal "liberdade". Involuntariamente passei as mãos pelo rosto, certificando-me das minhas próprias marcas. Há pessoas que optam por escondê-las mais a fundo, onde olhos humanos não possam chegar. Alberto as trazia estampadas...por quê? Talvez fosse sua maneira de pedir socorro. Ele vivia sorrindo e contrariando valores, mas era apenas alguém ousando pedindo socorro. Saberá ele disso?

Aquelas mãos nervosas haviam há pouco prestado socorro a um membro de minha família, que agora agonizava. Aquela mancha de sangue na blusa de Alberto, me fazia interrogar por uma humanidade inteira que agoniza, sangrando junto com o Filho de Deus. Jesus Cristo sente a dor, e espera – até quando? – o momento de estancar com Suas próprias mãos, essa ferida aberta que se tornou nossas vidas aqui, neste mundinho. Ele sabe o valor que tem sangue derramado.

Enquanto eu pensava nisso, cheguei tão perto de Alberto que os olhos dele vieram com força em minha direção. Agora, tão próximo dele, seu desespero era também o meu e de todos que simplesmente não agüentam mais. Naqueles olhos eu vi refletido o desejo comum a todo ser humano: "doçura, compaixão e suavidade, e graça, e bem, misericórdia
pura", o anseio universal pela felicidade completa. Me dei conta que esses olhos são a parte do ser humano onde estão fixos o olhos de Jesus, e Ele está assim, perto o suficiente para ver além de nosso invólucro deficiente de humanidade.

Nos olhos de Alberto que eu vi a maior de todas as nossas Esperanças...saberá ele disso? Voltando a sonhar, olhei uma vez mais e pisquei meus olhos com força, tornando a encará-los. Eram tão puros aqueles rios que a água parecia feita de luz e cristal.

Uma semana iluminada,

Luna

segunda-feira, 16 de julho de 2001

Teopoesia - O amor inocente

Chegaram as esperadas férias de julho, e com elas uma promessa: este mês só vou ler poesias e escutar Chopin. Resolvi dar uma pausa com o Direito e outros assuntos mais graves, porque minha alma está sedenta de brandura. Como em uns versos que escrevi há
muito tempo (e nem tive o pudor de revisar):

"Não há mínima pressa em meu viver;
Quero senti-lo até meu passamento.
Vou amar sem cautela e não entristecer,
Por ter a certeza de alçar o momento.

E não me importam sombra ou amargura,
Que venham ter comigo em meu pesar.
Hei de provar do mel toda doçura,
Todas canções, amando, irei cantar.

Lenta, tempestuarei em mares de ternura,
Junto à sandice irei bailar no vento,
Na minha vida acentuar a brandura,

Pois mesmo sendo prazer e tormento,
Que junto à vida, dores transfigura,
O amor encobre todo sofrimento."

Eu ainda cria em pequenas verdades, que eram tolas, mas eram só minhas. Perde-se muito nas buscas fora de si mesmo. Agora quero tudo que houver de doce e terno. Reaprender rimas pobres para combinar "pesar" com "cantar". Dar asas ao pensamento como quem plana na brisa e, como no tempo em que escrevi este sofrível soneto, não me preocupar com nada além da minha felicidade e a de tudo mais que estiver num raio de duas vezes o diâmetro da Terra. As quatro meditações que seguirão este mês, frutos do ócio criativo, terão como tempero uma cheiro de poesia, que é a minha própria essência. São histórias reais, nem mais nem menos que a luta de pessoas que descrevem a palavra humanidade. Dou-me a liberdade de "tempestuar" em mares de ternura com a mesma energia pueril de outrora, mas agora com versos que conhecem além: o poder que o Amor – o Verdadeiro Amor – tem para encobrir todo sofrimento. Deixem-me ousar falar de Deus assim..

Luna


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O amor inocente

"Última flor do Lácio, inculta e bela,
És a um tempo, esplendor e sepultura..."


Flor era inculta e bela. Não nascera no Lácio, mas sem o saber, era lasciva. Naquele momento ela se achava a última, a pior de todas as mulheres. Tinha consciência do esplendor de sua beleza, mas se sentia sepultura: "um sepulcro caiado" diria a mãe. A mãe é quem tinha razão.

Puxou a saia um pouco mais para baixo e releu os primeiros versos daquele poema, tentando se concentrar, mas não conseguia deixar de pensar no olhos do professor de literatura percorrendo-a despudoradamente. "Droga de saia de lycra que não se ajeita!". Ela sabia que não precisava fazer a prova. Como em todos os bimestres anteriores, bastaria assinar seu nome, entregar o exame em branco e esperar o professor em frente ao carro dele. Lembrou dos olhos monstruosos daquele homem vindo em sua direção, o sorriso malicioso com um fio de saliva se destacando enquanto dizia: "boa menina...você vai tirar dez, meu amor". O estômago da garota se contraiu. "Meu amor?"

Inclinou-se um pouco mais sobre a carteira, segurando firme o lápis. Haveria de entender os próximos versos.

"... Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio da ventura e o amor sem brilho!"¹


Flor percorreu as questões que se seguiam com olhos cada vez mais desesperados, intimamente revoltada. Ela sabia que era inteligente, tinha valor. A mãe sempre lhe dissera isso: "nunca deixe que duvidem dos seus valores", mas ela não sabe em que momento ao certo deixou de acreditar em si mesma. Talvez quando percebeu que ser dotada de beleza poderia lhe trazer muitas vantagens. Ganhar cada vez mais através do seu corpo tornou-se um desafio e logo ela se acostumou com isso, todos faziam – essa parecia a lei. Foi desacreditando na beleza que havia dentro dela, em sua capacidade de amar, em sua inteligência; esses era lugares onde ninguém nunca demorava um olhar. Foi começando a duvidar de Deus e Sua justiça, porque seu mundo foi sendo invadido por maldade, interesse e corrupção. Já não conseguia se libertar de seus vícios, nem dizer não aos seus erros, e o tempo, cínico, foi fazendo ser cada vez mais fácil deixar de pensar nas coisas certas. Agora não queria mais pensar nelas. Tudo que tinha de fazer era conseguir mais prazer e diversão, enquanto a beleza ainda fosse sua aliada.

Mas agora ela se sentia estranhamente envergonhada. Lembrou dos olhares odiosos que as garotas da escola lhe lançavam, e das expressões maldosas que os meninos lhe dirigiam. Sempre conviveu com aquilo como se merecesse, como se tivesse nascido para o opróbrio – essa também parecia a lei. E sua saia parecia cada vez mais curta.

"...em que Camões chorou, no exílio amargo..."

A garota fechou os olhos tentando lembrar do significado da palavra exílio. Nada lhe vinha à mente, e as palavras se misturavam confusas: amargo, rude, doloroso – isso ela conhecia bem... "amor, a voz materna..." lembrou dos versículos que a mãe obrigava-a a memorizar quando estudavam a Bíblia juntas. Fazia muito tempo, mas as palavras ainda ecoavam em seu coração. Havia também as histórias que as professoras contavam na classe de estudos bíblicos da igreja, e houve até uma vez em que ela ganhara um prêmio, uma Bíblia azul, porque conseguira decorar um capítulo inteiro do livro de provérbios... um dos versículos dizia: "O que faz com que os retos se desviem para um mau caminho, ele mesmo cairá na cova que abriu; mas os inocentes herdarão o bem". (Provérbios 28:10). Onde estaria agora a Bíblia azul?

Mas ela tinha que lembrar o significado da palavra exílio e apertou mais os olhos; amargo, rude, doloroso, amor, a voz materna... amor... inocentes... amor sem brilho... amor sem inocência. Onde estaria agora a inocência?Haveria alguém tão inocente a ponto de amar? Tudo que ela conhecera sobre o amor foi sem brilho, vazio, egoísta e doloroso. "Olá Camões, eu também conheço o amor sem brilho". Flor não sabia quem era Camões, mas como ele, também chorou, de olhos menos apertados que seu coração. Queria ser capaz de amar de novo, com a mesma entrega inocente e completa de que foi capaz algum dia, mas como fazer isso sem se machucar? Valeria a pena, afinal? Aqui, todos só haviam procurado-a para satisfazer seus próprios interesses, para usá-la e abandoná-la quando fosse conveniente, e sempre que acreditou ter encontrado sinceridade, veio a decepção logo em seguida. Com o tempo ela aprendera também a usar as pessoas e amar coisas: era mais seguro assim... o que fazer para voltar a crer? Se a mãe estivesse ali ela lhe diria; a mãe sempre tinha razão. Mesmo quando se vestia tão mal com aquelas saias de "crente"; saias de lycra não se ajeitam.

Agora Flor estaria completamente só... não fosse a força da voz materna, vindo clara e segura em sua lembrança: "...Pois que com amor eterno te amei"... Jeremias 31:3 Flor abriu os olhos e sorriu. Sim, havia Alguém que ainda era capaz de amar, de derramar Seu sangue inocente por isso. Haveria de existir na cruz de Cristo, uma gota de sangue que lhe pertencia, lhe dando direito a uma vida melhor, a um amor como sempre quis ter junto de si. Havia Jesus, sempre tão rejeitado do seu coração rebelde, mas agora aparecendo como o único ser capaz de amar e se entregar de forma completa e inocente, como ela e ninguém mais seria capaz de fazer. Havia Deus acreditando até o último instante na beleza e importância da sua alma por inteira.

Pela primeira vez, Flor se sentiu acolhida, num mundo que só se importava em colher. E decidiu também amar e se entregar Àquele que estava esperando ansioso para transformá-la. O único interesse daquele Amor era salvá-la, e não dava mais para adiar o momento de ser feliz de verdade.

Andando em passos firmes, Flor enxugou as lágrimas e dirigiu-se até o professor. Ele tinha uma grande interrogação nos olhos e esperava dos lábios trêmulos da garota, uma palavra que demorou, demorou e não veio. Flor rasgou a prova num silêncio que dizia ao professor: "vou recomeçar". Deu as costas àquilo tudo, e seu sorriso tornou-se mais amplo. Como acontece a quem descobre que um Amor Inocente lhe salvou.


¹Língua Portuguesa, poesia de Olavo Bilac.

sábado, 7 de julho de 2001

Canil

Chegara enfim o grande momento. Ela esperou durante meses uma oportunidade, a melhor ocasião, mas agora tomara a decisão: era hora de criar um cachorrinho. A vontade já existia há tanto tempo quanto imperava a solidão (que mundo frio esse nosso), e a companhia dócil, amável e fiel de um animal lhe parecia muito mais atraente que uma consulta nos nomes masculinos em sua agenda telefônica.

Como toda grande decisão feminina, mister foi divulgá-la a todas as amigas, para ouvir sugestões, críticas e deliciar-se com os olhares tomados de uma inveja espantada: "Ela vai criar um cachorro! Ela pode fazer isso!". Lojas de animais foram sugeridas, algumas razoáveis, outras em que ela nunca ousaria entrar, todas deprimentes com suas jaulas minúsculas. Com a testa franzida, ela pensou na maldade que é fazer comércio de vidas , e com o contracheque na mão decidiu que não incentivaria tal prática. Até que lhe veio a idéia iluminada, resplandecente nestes tempos de apagão: escolheria seu cachorrinho num canil.

Ao deparar-se com o centro de controle do zoonoses relutou se uma loja de animais não seria uma visão menos terrível, mas respirou fundo e um pensamento lhe fez continuar: "Não importa o que eu veja, o importante é que estou aqui hoje para salvar um deles" – o sentimento salvador era a propulsão que precisava para sair do carro e ir em frente.

Um funcionário a interpelou na recepção, olhar sonolento, mas muito prestativo. Ela contou-lhe sua decisão, já não mais tão sorridente como o fizera às amigas, mas ele pareceu se empolgar mais que elas. Levou-a até uma ala de paredes brancas cobertas de musgo e com o reboco cheio de falhas, onde havia um portão enegrecido ostentando um cadeado gasto. Os sons que vinham lá de dentro fizeram o coração dela disparar de ansiedade e horror. De repente se viu diante de um corredor, com pequenas celas de ambos os lados, por trás das quais pequenos seres peludos lhe atiravam olhares e latidos comoventes. Alheio a seu nó na garganta, o funcionário caminhava atrás dela falando detalhes do trabalho que era feito com os animais, a importância para o controle de doenças, e - a parte que ela mais temia ouvir – que todos aqueles animais seriam sacrificados caso não aparecesse alguém disposto a "adotá-los". Usam gás; é rápido e indolor. Ela caminhou mais lentamente e reparou que o corredor da morte lhe parecia maior agora. "Poderia ser menor..."

Ficou algum tempo contemplando aqueles olhinhos caninos, alguns dóceis e meigos sem desconfiar de seu destino, outros ríspidos como que prevendo a sorte funesta, e ainda outros brincalhões, serelepes, violentos, tristonhos, cansados, doentes. Mas tinha que escolher só um??? Pensou na cara da mãe vendo ela chegar em casa com quinze vira-latas embaixo do braço. É, tinha que ser só um. Quando limpou a lágrima furtiva que lhe caía do olho esquerdo (como era bom ser mulher nesse momento e não ter que dar motivos para chorar:
cisco, conjutivite, a morte da tia), reparou num gesto de impaciência do funcionário e resolveu fazer tudo rapidamente, sem escolher demais.

Parou em frente a uma cela onde uma cauda de pequinês se agitava freneticamente e decidiu que seria aquele. Ela se abaixou e chegou bem perto dele cochichando: "parabéns, você ganhou a salvação". A pequena bola de pêlos levantou as orelhas, inclinou a cabeça para a direita e piscou.

Quando saía do corredor com o cachorrinho, novo tumulto de latidos e gemidos ecoou fazendo ela cair no choro de uma vez. Agradeceu ao funcionário, entrou no carro com o pequinês no colo e ficou ali um tempo fazendo planos de divulgar ao máximo de pessoas que aqueles cachorrinhos precisavam de outros salvadores. Imaginou a alegria da cachorrada toda saindo dali em bando, para gozar a liberdade num lugar tranquilo, amplo, com bastante comida e carinho.

E por causa de uma paixão incurável pelas coisas do alto, dirigiu seus pensamentos até Deus, num instinto de prece.Ela pensou no privilégio que Jesus teve em ser o Salvador de uma raça inteira que estava condenada à morte. Na alegria com que se dispôs a dar a vida por essa raça inferior, tal qual eu não acho provável que nenhum ser humano se animasse a dar em prol dos cães.

Nos planos que fez para levar toda a humanidade até um lugar de paz, tranquilidade e carinho: o Seu próprio Lar Celestial, onde haveria vida e gozo em abundância. Mas de repente ela pensou no que é a frustração de um Salvador. Imaginou como ela se sentira se abrisse as ortas daquele canil convidando todos os cachorros a virem após ela, para obterem vida eterna e descanso para suas almas, e alguns deles permanecessem e suas celas por acharem aquele malcheiroso antro o melhor lugar para um cachorro se viver. E que alguns deles ladrariam em sua direção: "ora, saia daqui, não acredito em você, você é criação de mentes de cães fracos. Deixe-me com minha ração e minha vida de cachorro porque a morte é uma consequência natural da nossa raça, só nos resta aproveitar o que temos agora", ela não saberia reagir diante desses cães epicuristas! E que dizer dos "caneístas",
que lhe lançariam um olhar de respeito mas murmurariam: "acredito em sua força superior, mas não convém que você interfira em nossa vida de cão". Pior seria se alguns deles, crentes na verdade do convite feito, dissessem que iriam depois, assim que tivessem tempo, pois agora estavam de olho naquele gato em cima do muro, e um cachorro neste mundo precisa sobreviver, e só alcança dignidade se perseguir um gato. Menos mal diante dos que poderiam se arremeter contra ela dispostos a despedaçar-lhe, em violento ataque contra quem só desejava dar-lhe a Salvação...

Ela sorriu interrogando a si mesma quem no mundo daria crédito àquela teologia canina. Ora, era apenas uma divagação, e difícil crer que alguém no mundo além dela tivesse tais delírios. O olhar doce do pequinês parecia querer compreender-lhe. Ela alisou os tufos marrons da cabeça dele, ligou o carro e partiu.

domingo, 24 de junho de 2001

O plano

Há quem deteste o carnaval, eu abomino as festas juninas. Nunca entendi esse fascínio por soltar bombinhas ensurdecedoras, dançar quadrilha, e comer canjica que não tenha sido feita por minha avó. Tá, eu sou chata, isso não é novidade, mas tenho lá meus traumas com festa de São João.

Naquele ano eu havia encontrado um motivo muito forte para crer que minha família não gostava de mim. Desses pensamentos monstruosos que nos invadem quando temos oito anos. E já estava cansada de sempre apelar para uma terrível dor de cabeça, uma lacerante dor de barriga, ou outra dor qualquer que chamasse atenção dos meus pais para sua filhinha à beira da morte. Suspirei pensando que eles também já estavam cansados do meu cardápio de dores imaginárias... então era hora de uma decisão drástica.

Arrumei minhas roupas em dois sacos plásticos de supermercado. Peguei uma maçã escondida na geladeira, os olhos brilhando por pegar uma maçã interinha só para mim, quando a regra era dividí-la em três com minhas irmãs. Cruzei o portão da minha casa e olhei para os lados, indecisa: e agora, para onde ir? Cogitei algumas possibilidades, mas tudo parecia assustador demais naquela noite de fogueiras crepitantes. Sentei sobre minhas mochilas em frente ao muro, para pensar, e olhava a quadrilha que dançava animadamente na rua embaixo.

Como acontece até hoje, logo após eu ceder aos meus impulsos, me senti ridícula. omeçou a fazer frio, e a alegria daquele povo dançando alheio a minha dor, me irritava profundamente. Decidi que o melhor era ficar ali e esperar mais um pouco. Em breve eles sentiriam minha falta, eu ouviria gritos me chamando, vozes alteradas, portas batendo... sorri. Aí sim eu apareceria, e todos me olhariam consternados, me abraçando, chorando e pedindo perdão por terem me magoado.

Um menino passou e soltou uma bombinha bem perto de mim. O susto e o frio me faziam suar e tremer... talvez já tivessem passado várias horas, por que eu ainda não ouvia os gritos aflitos a minha procura? Olhei mais uma vez a quadrilha e peguei a maçã, disposta a saborear ela toda, como nunca dantes, superior a minhas pobres irmãs... minhas irmãs... o que elas estariam fazendo agora? Comecei a sentir saudade, e não consegui comer mais que uma terça parte da fruta. Era como cometer um crime me apossar da parte delas. "Cadê os gritos???" e eu decidi voltar, porque com a barulheira daquela quadrilha lá embaixo, eu não iria escutar o choro aflito de todos a minha procura.

Cruzei o portão da minha casa e entrei vagarosamente, os sentidos aguçados. Vozes tranqüilas e alguns sorrisos pareciam vir da cozinha e eu me dirigi até lá. Meu pai brincava com minhas irmãs enquanto minha mãe lavava a louça, no mais perfeito e feliz cenário de família "american style life". Soltei as mochilas, minha mãe olhou para mim.

- Ahn, você está aí. Venha enxugar a louça.

E eu comecei a sentir uma dor insuportável e mortífera no pé...

O ser humano, mesmo as crianças mais crescidas, têm uma propensão a resolver as coisas com aquela saída estratégica pela direita. É orgânico: por natureza nosso sistema nervoso nos condiciona a lutar ou fugir, portanto temos cinquenta por cento de chance de escolher debandar. Mas em se tratando de nossa mente, coração e espírito, a fuga nunca é a melhor solução. Não importa quão longe você vá, os problemas continuarão existindo até que você decida encará-los. Não adianta querer que sintam dó de você e te deixem em paz, ou que caia
das nuvens uma resposta certa. É mais fácil a gente cair das nuvens, e uhh , como dói essa queda do céu da ilusão, como dói se dar conta que apesar de todas as mentirinhas inventadas para si mesmo, o problema ainda está lá, rindo da sua cara...

Também não é o caso de querer virar super herói e sair voando. As coisas são bem mais difíceis de resolver se tentamos fazer isso sozinhos. Antes de mais nada, troque seu plano de fuga, por um plano mais eficaz: o plano de Deus. Experimente, ao invés de fugir e protelar, tomar decisões auxiliado pelo Seu Grande Amigo Estrategista. Ele então mostrará as ferramentas e o apoio preciso – humano e divino – para te ver vencer. As coisas podem até não sair como você esperava, mas com certeza só acontecerá o que for melhor para você a longo prazo.

Nesta semana, convide Jesus para pôr um ponto final naquele (s) problema (s) mal resolvido (s), que você vive adiando. E se parecer que não há saída, resista ao plano de fuga; confie no plano D. De Deus.

sábado, 16 de junho de 2001

Magistrais

Um amontoado de estudantes que haviam acabado de sair das salas de aula, disputavam um lugar sob a sombra do ponto de ônibus. Eu me comprimia num canto, com aquela placidez conformada de quem espera o prenúncio de um pará-choque na linha do horizonte. Foi quando reparei na voz tímida e aguda ao meu lado. Olhei, e me causou
admiração como a atitude dela se esforçava para dar força àquela voz miúda: - Serei juíza!

Seu Manual de Direito impecável, um fichário grosso e o estojo transparente deixando ver suas canetas organizadas, acabavam de compor o estereótipo perfeito de uma aluna de Direito deleitando seu primeiro semestre na faculdade. Apesar do calor e do ônibus não chegar, eu sorri enternecida, pensand nessa vocação para a magistratura que todo o ser humano tem, e que o acadêmicos de Direito aspiram com delícia.

Por causa do pecado, o ser humano entende as leis como meio de satisfazer sua ânsia de poder. Por isso todo mundo que tem suasnormas, por mais simples que sejam – normas de conduta, religiosas, morais – sente coceiras de citá-las, para sentir o gozo de sujeitar o vizinho a elas. Das leis que nos são dadas, abstraímos uma autoridade de cobrá-las a todos os demais, como se isso nos aproximasse da
glória de quem as criou. Se submeter a todas as regras (e quanto mais duras, melhor) vale a pena ao paladar pecador, quando este se depara com alguém que ousa não fazer o mesmo: é então que degusta-se o perseguido momento de se tornar juiz do semelhante.

O que a Bíblia fala sobre essa nossa tendência inata para julgar? Oapóstolo Paulo, em suas cartas, nos dá duas visões do tema. A primeira, está em I Cor. 4:5: "Portanto nada julgueis antes do tempo, até que venha o Senhor, o qual não só trará à luz as coisas ocultas das trevas, mas também manifestará os desígnios dos corações; e então cada um receberá de Deus o seu louvor". Jesus já advertira sobre isso, como lemos em Lucas 6:37; "Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados." Qual o motivo desse conselho? Ora, no nosso ordenamento jurídico, um dos motivos que impede o juiz de julgar determinada causa, é fazer parte dela. Espiritualmente falando, todos partilhamos da mesma culpa, o pecado em suas mais execráveis formas, e só Deus, o Supremo Juiz, tem competência para nos julgar a todos. Só Ele tem acesso aos desígnios do coração, e conhece as coisas ocultas que nossa débil visão não é capaz de enxergar. Quando ignoramos esse impedimento e, do alto de nossa injustiça presunçosa, persistimos em sentir o sabor do domínio, transformamos o ato de julgar numa forma insidiosa de acusar.

Esse tema me lembrou o filósofo e escritor Kafka, que em seu livro "O Processo", conta a narrativa da vida de um homem o qual, ao acordar certo dia, descobre que está sendo processado, embora não tenha conhecimento do crime que cometeu. A estória, com os típicos absurdos de Kafka, toma ares de loucura à medida em que se desenrola (ou enrola ainda mais!): uma justiça paralela, decadente, infundada, comandada pela vontade de homens inacessíveis, onde não há o menor senso de equidade, nem o réu pode se defender, apenas aguardar o favor dos juizes se estes simpatizarem com o infeliz. No fim, o personagem é condenado à morte sem ter tido chance de provar sua inocência, sequer saber qual fora seu grande crime. É nesse ponto que nos damos conta que nós mesmos representamos essa justiça mesquinha e obscura, alojada nas trevas pecaminosas do nosso ser, e Joseph K. representa as pessoas que, por nossos métodos mais covardes, condenamos ao degredo, à margem dos nossos conceitos (forjados) de conduta correta ou cristã. Esse tipo de julgamento condena, antes de tudo, a quem o faz. A sentença, sem que se aperceba disso, recai sobre quem a profere. Comprovaremos isso num breve e verdadeiro Juízo...

Mas Paulo ainda nos fala algo sobre julgamentos: "Ou não sabeis vós que os santos hão de julgar o mundo? ... Não sabeis vós que havemos de julgar os anjos?" I cor 6:2,3. Paulo se refere à profecia de que trata Apocalipse 20:4, quando após a Vinda de Cristo, os filhos de Deus considerados justos, e tendo sua natureza corruptível já
transformada à semelhança da perfeição com que foram criados, receberão poder para julgar todos os atos dos ímpios, inclusive Satanás e seus anjos. Não é interessante reparar que, para que venhamos a ser dignos de julgar, precisamos enquanto pecadores, nos abster disso? Enquanto carregamos a mácula do pecado, não estamos habilitados para discernir conforme a Justiça Divina. Somente Ele, depois de nos tornar inteiramente santos e livres da nossa natureza contaminada, é quem nos dará poder para exercer a função de juizes das almas.

E quando uma posição administrativa na igreja parece sugerir o encargo de julgar as pessoas? Quando eu precisar, de fato, formar um juízo de valor sobre a atitude ou vida de alguém visando solucionar problemas ou tomar decisões quanto a vida desse alguém? Creio que ainda assim prevalece a assertiva: não julgueis. Enquanto aguardamos o tempo em que Deus nos capacitará para perscrutar corações, temos uma missão a cumprir, que tem sido bastante negligenciada: amar as pessoas, ouvi-las, orar com elas, chorar com suas angústias, ajudá- las a ver o Cristo Vivo que habita em nós. Ele mesmo nos deu o exemplo de como agir quando falou: "E, se alguém ouvir as minhas palavras, e não as guardar, eu não o julgo; pois eu vim, não para julgar o mundo, mas para salvar o mundo"(Lucas 12: 47). Se o próprio Deus feito Homem levava a Verdade e exercia seu ministério sem se preocupar em julgar os que a ouviam, que diremos de nós, míseros pecadores? Não é impondo a minha verdade e capacidade de cumprir normas aos outros, que estarei executando a missão que Ele designou. Nosso dever é amar e deixar que o Espírito Santo faça a parte que lhe cabe. Hoje há urgência de se imitar Jesus: devemos nos preocupar em salvar ao invés de julgar, esse deve ser o parâmetro de qualquer decisão que envolva outra vida que não a minha. Líderes e membros de igreja, devem rogar a Deus sabedoria para julgar questões
administrativas, e inteligência para, ao considerarem a situação de um pecador como eles, buscarem modos de salvá-lo, ao invés de estratagemas para julgá-lo.

Julgar é colocar um jugo sobre as almas. Especialidade dos fariseus hipócritas, "Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; mas eles mesmos nem com o dedo querem movê-los" (Mateus 23:4). Salvar, é oferecer o fardo leve da paz – que só pode ser dada por quem conhece bem Sua Fonte (Mateus 11:30).

Uma semana iluminada!

Luna

sábado, 9 de junho de 2001

Não lhe quebrei as mãos

Considere as estatísticas: é tão raro um brasileiro comprar um livro novo, sem ser movido necessariamente por obrigação ou vínculo com alguma instituição educacional, que naquele dia eu me sentia verdadeiramente uma privilegiada. Com computador num país de desnutridos, com acesso a internet num país cuja maior prestadora é a Embratel (mas presta mesmo, hein?), com dentes no país do "INAMPS", viva num país de alta taxa de mortalidade infantil e com a ousadia de um livro novinho debaixo do braço, no país do carnaval-e-futebol! Comovente.

Me refiro ao dia em que comprei "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século". O tema era tentador demais para esperar chegar ao sebo. Juntando minhas minguadas economias eu cometi esta pequena loucura orçamentária e resolvi ler o livro sem pressa, saboreando cada centavo que valeu suas páginas. Somente ontem, depois de uns 6 meses foi que o terminei. É verdade que ali há conteúdo humano (em excepcional forma literária) suficiente para tecer diversas reflexões, mas um conto em especial me chamou atenção.
Não vou cometer a insanidade de resumir uma obra de Érico Veríssimo, mas apenas para economizar espaço e a sua paciência, me permito traçar um esboço da estória. Esta fala de pais presenciando o concerto que consagra seu filho como um pianista célebre. Pai e mãe num camarote, estranhos àquele elitista mundo artístico, mas completamente absortos na contemplação da glória de seu virtuose rebento. Antes, tão seu menino, seu filho, agora revelado para um mundo desconhecido, rico, culto, superior, onde se tem o privilégio de ser mais. E sabe, nem os pais escapam a um olhar cobiçoso sobre a glória (tudo bem, eles merecem)... . Ali, ocultos na sombra do teatro, eles reclamavam para si parte dela, isto é, ao menos buscavam justificativas para sorver uma terça parte que fosse daqueles aplausos.

A mãe orgulhava-se do seu quinhão: sempre fora dedicada, trabalhando noite e dia para permitir ao seu filho chegar até onde ele estava. Ouve cada nota saboreando a sensação de mãe e mecenas, superior ao superiores que agora estavam completamente dominados pelas mãos de seu filho. O pai, porém, não compartilhava deste orgulho. A vida toda estivera alheio à função paterna, vencido pelo vício da bebida, humilhado pela incapacidade de deixá-lo e reconstruir sua moral. Cada nota que ouvia lhe lembrava o filho que ele nunca amparou. Chorou, por fim, vencido pelo fracasso.

Mas uma lembrança iluminou-lhe o semblante: uma noite mal dormida, em companhia da mulher e do filho, dividindo com eles uma cama pobre e estreita. Nesta noite ele sentiu que as mãos do bebê lhe roçavam as costas, e com medo de deitar sobre elas, ficou acordado até a manhã, desconfortável, apreensivo. "Se eu tivesse esmagado as mãos do Betinho, hoje ele não estava aí tocando essas músicas difíceis... não podia ser o artista que é". E sorri satisfeito com sua partícula de glória.

Fiquei pensando com que facilidade nós nos acomodamos à idéia de que nos tornamos bons por condutas negativas. Quando uma voz ousa perguntar o que fizemos por nosso semelhante, automatizamos um: "Não matei, não roubei, não feri, nem interferi - eu não lhe quebrei as mãos", e o deixar de fazer nos satisfaz a consciência. Mas a omissão pode ser uma forma cruel de pecar, tanto que Jesus, ao falar sobre o juízo, a condenou veementemente em Mateus 25:41 – 45: " Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o Diabo e seus anjos; porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; era forasteiro, e não me acolhestes; estava nu, e não me vestistes; enfermo, e na prisão, e não me visitastes. Então também estes perguntarão: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou forasteiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos? Ao que lhes responderá: Em verdade vos digo que, sempre que o deixaste de fazer a um destes mais pequeninos, deixastes de o fazer a mim."

Podemos confiar nosso cristianismo ao simples "deixar de fazer"? Se deixamos de fazer o bem, estamos pecando por omissão. Se deixamos de fazer o mal, estaremos sendo melhores que as ostras, esquilos e nematelmintos? Como seremos mais racionais que eles, se não percebermos que a vitória do livre arbítrio não é deixar de cometer a injustiça, mas decidir fazer o bem?

Oro para que nesta nova semana consigamos fazer mais por nosso próximo que não lhe quebrar as mãos. Que as mãos que não se intrometem, aprendam a se comprometer. Que as mãos que não apedrejam, aprendam a afagar.

segunda-feira, 4 de junho de 2001

Um compromisso com Margarete

Eu estava em um Sábado realmente atarefado. Passei a noite de sexta-feira preparando detalhes da escola sabatina e pela manhã bem cedo estava na igreja para providenciar que tudo estivesse em ordem. Participei da classe de professores, regi os momentos prévios de louvor, certifiquei-me que os responsáveis pela abertura haviam chegado, tudo conforme eu planejara.

Depois de debatida a lição semanal com minha classe, me dirigi apressadamente até a mesa de som, e enquanto confirmava a música especial que seria cantada para as visitas, dava as últimas instruções às pessoas que fariam o encerramento da escola sabatina. Já sentia aquele gostinho satisfeito de missão cumprida: agora eu só tinha que reger a congregação no hino final, dar os avisos com respeito às programações da tarde, fazer o serviço de cânticos congregacionais e sentar (que momento aguardado!) para assistir o sermão. Foi então que apareceu Margarete.

Não vi quando ela chegou, mas ao levantar os olhos me deparei com seu rosto quase colado ao meu. Sem dar tempo para que eu reagisse, ela segurou meu braço e me olhou tensa, os lábios trêmulos murmurando que precisava falar comigo. Nesse momento estavam anunciando o hino final, que eu deveria reger, com aquele braço que Margarete prendia. Suas mãos me apertavam com força, me machucavam, como se quisessem também eles me falar de uma grande dor. Eu a olhei com ternura e espanto, e tentei dizer que falaria daqui a pouco, assim que...

- Não! Eu preciso falar com você agora! – disse ela enquanto grossas lágrimas desciam de seus olhos – você falou de oração, disse que Deus ouve a oração feita com fé, citou vários homens que oraram e receberam uma resposta! Eu preciso que você ore comigo, eu não sei mais o que fazer...

A essa altura eu também não sabia o que fazer. A plataforma que encerrara a escola sabatina olhava para mim esperando uma atitude, provavelmente sem entender a presença daquela mulher desconhecida ao meu lado, me impedindo qualquer ação. E eu permaneci dividida entre a aflição deles e de Margarete, que sem o menor pudor, segurou agora meus dois braços e contou-me que viera à igreja naquela manhã fugindo do marido, mas tinha medo de voltar para casa com sua filha. Ele bebia muito, e ficava violento, tinha ameaçado-as de morte. Enquanto eu cumpria minha tarefa de professora da classe bíblica, Margarete ouvira eu falar do poder da oração, e se convencera que seu caso tinha solução. Eu, sem perceber, lhe mostrara um feixe de esperança, e agora ela exigia, reclamava, implorava que eu lhe desse mais, e provasse que aquelas palavras também eram para ela.

A igreja começava a se agitar, e um burburinho de cabeças inquietas fez um dos irmãos que estavam na plataforma encaminhar-se até nós duas, me inquirindo com olhos angustiados sobre o que estava acontecendo. Ele me estendeu o hinário aberto. Eu me ajoelhei ali mesmo com Margarete. Segurei suas mãos tentando lhe passar toda a segurança de que ela precisava, e orei com toda a calma de que seu coração tinha sede. Enquanto orava, senti que o Espírito Santo me fazia interceder por ela com palavras certas, as quais também me encheram de infinita paz. Quando tornei a olhar para Margarete, ela sorria o sorriso. O irmão que trouxera o hinário, também, enquanto terminava de cantar com a igreja a última estrofe do hino.

Ainda tive tempo de lembrar do apóstolo Paulo, que como eu, andou por uns tempos meio estressado por causa da Igreja. Perfeccionista que era, queria sempre o melhor para Deus, e se esforçava para cumprir rigorosamente suas funções e compromissos. Certo dia, porém, Deus simplesmente o impediu de fazer o que queria. Ele agendou uma visita a Ásia, e um grande trabalho evagelístico Bitínia, "mas o Espírito de Jesus não o permitiu" (Atos 16:7). Há poucos dias, Paulo havia brigado com o irmão Barnabé, porque este se recusara a fazer as
coisas do jeito que Paulo queria. E agora Deus ensinava a Paulo quem era que agendava as coisas importantes na Igreja. Qual a Vontade que prevalecia ali. Qual olhar discernia a necessidade a ser suprida. E Paulo deixou de se guiar por sua agenda, cargo ou compromissos, para ser conduzido pela vontade divina até o clamor: "ajuda-nos".

Mas eu nem tive tempo de dizer isso a Margarete, nem pude lhe dizer obrigada. Ela me fez um aceno rápido com a cabeça, saiu, e eu não a vi mais durante todo o culto. Pensei que gostaria muito de ter uma nova oportunidade de abraçá-la, ouvir dela que tudo ficou bem, e lhe contar que nunca eu me senti tão certa de meu lugar, como no momento em que me ajoelhei com ela. Lhe dizer que o seu clamor de ajuda, foi a forma pela qual Deus me ensinou, mais uma vez, que o Espírito sopra onde quer (João 3:8); fazer minha parte é apenas me deixar levar por Ele. Mas onde estava Margarete? Posso encontrá-la ainda em muitas mãos aflitas, e muitos olhos lacrimosos, em muitas vozes embargadas de dor... espero em Deus não estar ocupada demais com meus compromissos a ponto de deixar passá-la despercebida... Livra-a, Senhor, de minha indiferença!

domingo, 27 de maio de 2001

Uma olhadinha microscopica sobre a perfeicao

Aí, não lembro bem porquê, a gente falou de microscópio. Tudo bem, nas nossas conversas incidentais cabe cada porção do universo. É fácil conversar e entender quando a afinidade vai de Palestrina a biscoitos de aveia e mel. E agora era a vez de um microscópio confirmar nossa intuição mútua.

*Eu, divagando: "tenho uma história com microscópios".*

Quando eu era criança meu sonho era ter uma boneca bebezinho, um "Playmobil" e um microscópio. Eu sonhava acordada com esses brinquedos que nunca vim a ter, planejando aventuras, jogos, mil divertimentos que se frustravam todo Natal. Certa vez um primo ganhou um microscópio de presente. A "primarada" toda foi à loucura, todo mundo queria olhar naquela lente já desfocada de tanto passar de mão em mão. Mas meu primo, no alto de sua glória, proibiu as meninas de terem direito àquela mágica visão... e eu fiquei chorando (sempre fui a prima chorona), ouvindo com mágoa as história de seres fantásticos que habitavam na lama do quintal de meu primo, e que apenas os meninos puderam ver.

Assim se seguiu minha fascinação pela biologia: sempre platônica, alimentada a pão e água pelos documentários da TV Cultura. A única vez que olhei através de um microscópio foi numa feira de ciências, onde se dava a oportunidade para quem estivesse disposto a enfrentar uma fila de dobrar quarteirão, de observar por cinco segundos um mosquito da dengue. Com o tempo, acabei cedendo a outras paixões, mais acessíveis, e fiz do meu olhar a lente para um microscópio próprio: o que focalizava o ser humano.

Foi então que me entreguei a área humanística e passei a investigar com a avidez antropofágica os seres humanos ao redor, me detendo em tudo que a humanidade pudesse criar ou expressar. Com isso aprendi muito sobre mim mesma, mas sem perceber, estava voltando minha lente para o lugar errado, e vou lhes dizer porquê.

O ser humano é uma criatura fantástica, não há definição que traduza essa caraterística, mas tem o fado da imperfeição. E quanto mais você se aproxima de suas obras, mais nitidamente você vê as marcas dessa imperfeição. Ao longo dos séculos filósofos, poetas, escritores, teólogos, sociólogos e políticos voltam seus olhares microscópicos para o ser humano, buscando desvendá-lo em todas as suas esferas, explicando-o e enaltecendo-o (não raro a si próprios) e o que encontraram até hoje? Não há nada feito por humanos que seja completamente perfeito. Pelo contrário. Quanto mais microscopicamente você olhar, quanto mais você buscar precisão e exatidão, mais descobrirá imperfeição e vontade de poder. Só a paixão é capaz de
encobrir essa realidade.

Quando comecei a perceber isso, me senti frustrada e insatisfeita. Foi a sensação de uma criança que vê seu brinquedo perder a graça. Eu que julgava ser capaz de descobrir a grandiosidade humana, me vi diante de seres análogos aos que meus primos descobriram na lama... . O homem foi ficando cada vez mais decepcionante à medida em que eu o via capaz de domar um átomo mas impotente para produzi-lo. Gabando-se de manipular a vida mas sempre vencido pela morte e pela falta de amor.

*Eu, intuindo-o: "já falamos sobre microscópio antes..."*

Nós reclamávamos que o Museu do Ipiranga estava fechado, mas como isso não fosse suficiente para o abrirem, nos restou a saída dos impotentes: sentamos e ontemplamos. Ao menos havia muito o que contemplar no jardim em frente ao museu, e ficamos admirando as árvores artisticamente podadas de modo a formarem, aparententemente, belas figuras geométricas. Mas quando chegamos mais perto, observamos que pequenos brotos agonizantes insistiam em quebrar aquela aparente
perfeição, fazendo sobressair suas sofridas folhinhas por cima da linha reta que a tesoura lhes impunha. Ele falou:

- Veja que interessante. Se olharmos as coisas que o homem faz deperto, percebemos que elas sempre são imperfeitas. E quanto mais próximo você olhar, mais imperfeita ela lhe parecerá... veja esse museu, um prédio muito bem planejado, construído com esmero... mas se você for em busca de precisão ao menos matemática em suas medidas,
não as encontrará. Mas olhe esses brotos... estão aqui, sobrevivendo e lutando em sua química perfeita, em sua biologia surpreendente...quanto mais aproximamos o olhar dos feitos divinos, mais admiramos a perfeição!

Mas como eu não me dera conta disso antes? Eu estava perdendo meu tempo com erros de todas as coisas humanas e esquecendo de voltar meu microscópio para o lado certo! Caso mantivesse as lentes de minha alma voltadas para os feitos divinos, teria descoberto coisas bem mais preciosas, apreciáveis, importantes para minha vida. Teria
percebido que mesmo o ser humano e seu conjunto de impotências, quando olhado pelas lentes que apontam para o céu, revela seus traços divinos e potencial para a perfeição.

O que eu quero levar você a pensar é: volte seu olhar para o lugar certo, ajuste suas lentes para as coisas perfeitas. O que ganhamos observando no dia-a-dia apenas o que as pessoas fazem? Atos em que predominam o egoísmo e a corrupção, desgaste emocional e intelectual, descrença nas relações entre os seres humanos, frustração com a própria condição, perda de um tempo precioso (hoje, tempo é salvação), e algo mais de imperfeito que não dá pra engolir (que lista de fazer inveja a Voltaire, hein?). Caso aceite voltar-se para o lado divino, você aprenderá a respeito da real (e única) Perfeição, e se descobrirá sendo olhado do outro lado da lente como um ser
perfeito – segundo o coração de Deus.

Notará, com o tempo, que a contemplação transforma, e que você é (como não percebera isso antes?!) incrivelmente feliz. Assim foi comigo, que à medida que aprofundo a dimensão deste microscópio, enxergo coisas incríveis. Me surpreendo despreocupada e inatingível pela maldade ao redor e vou me vendo mais leve, livre, lúdica e luminosa. Mais Luciana, aquela dos sonhos de Deus.

Uma semana iluminada!

Luna

domingo, 20 de maio de 2001

Abuse da autoridade

A História é um romance auto-biográfico, escrito por mãos enamoradas pela Autoridade, beldade de fascinantes olhos de sol. Há exemplos gradiosos e desprezíveis de como a autoridade foi usada e abusada pelo homem ao longo de sua existência. Mas foi somente há pouco tempo que eu descobri um sentido pessoal para esta palavra em minha vida, com a ajuda da fé apaixonada de meus irmãos cristãos pentecostais. Desde então descobri também a precisão do versículo "Tudo posso nAquele que me fortalece" Filipenses 4:13.

Questione-se: você crê que esse versículo tem algo a ver com você, ou o considera apenas uma prova de que o apóstolo Paulo era um cristão excepcional? Acredita que essa autoridade de tudo poder também é válida para um ser humano "comum" como eu e você?

A Bíblia propõe uma resposta instigante. Para entendê-la, esqueçamos por um momento as associações que a palavra autoridade possa ter com CPI, ditador, Luis XIV, Conde Drácon, sogras ciumentas, mães de chinelo em punho ou traumas infantis com professoras mau humoradas. Aproveitemos também para desfazer a idéia de que, o contrário de autoridade é humildade: em se tratando de autoridade cristã, a humildade é sempre pressuposto, fundamento, propulsão.

Se passarmos pelos conflitos freudianos e pré-conceitos do parágrafo anterior, vamos estar preparados para assimilar que Jesus deu aos seus seguidores uma missão e um poder: a autoridade para "pisar serpentes e escorpiões, e sobre todo o poder do inimigo; e nada vos fará dano algum." Lucas 10:19. Nada mais lógico que um ser, que ao ser criado à imagem e semelhança de Deus recebeu dEle a capacidade de dominar toda a terra e subjugar as demais espécies (Gên. 1: 26), recebesse também autoridade para lidar com o mundo espiritual. Nenhum general mandaria soldados desarmados para a guerra.

No entanto esta idéia parece ir contra o pensamento católico medieval, mas ainda reinante no cristianismo atual, de que para ser um bom filho de Deus, você precisa sofrer, suportar todos os males, se conformar com todas as dores, limitações e agruras desta vida. Parece que ter a face desfigurada e uma lista sem fim de provações é requisito para ser santo. Assim, muitas pessoas vão se deixando envenenar por serpentes e escorpiões, mesmo tendo meios para esmagá-los, vão sendo massacradas continuamente pelo poder do inimigo sem que façam absolutamente nada contra isso. Confundem a Vontade de um Deus amoroso com sua própria comodidade, seu medo de se posicionar firmemente contra o Inimigo e expulsar o domínio dele de suas vidas.

Deus está ansioso para nos ajudar, mas prefere fazê-lo usando a nós mesmos como instrumentos. Esperar que Deus resolva tudo, muitas vezes não é atributo da resignação de um santo, mas pura falta de fé. Momento haverá em que teremos de usar nossa autoridade para expulsar os males que alojamos em nossa casa, trabalho, igreja, braços, peito e espírito, só assim Deus poderá agir de forma efetiva.

Infelizmente eu ainda vejo tanta gente (e às vezes a mim mesma) vestindo uma crença morna e passiva, que fixa os olhos no Cristo sangrando numa cruz, mas passa de largo o Cristo expulsando demônios. Que acredita num Salvador poderoso, mas não se apossa desse poder. Que esquece que "servo bom e fiel" não tem que ser "servo sofredor": Jesus Cristo já sofreu a maior de todas as dores exatamente para que eu e você não tivéssemos que amargar o jugo de nenhum pecado (Isaías 53:4 – 5). E nos deu vitória sobre a morte para não permitirmos que
Satanás nos tire a vida e alegria, características de um povo vencedor.

Desde que entrei na Igreja Adventista ouço um jargão da escritora Ellen White ser repetido constantemente: "Deus precisa de homens e mulheres... que chamem o pecado pelo nome!", mas nunca ouvi ninguém meditar na necessidade de chamar seu próprio pecado pelo nome para em seguida expulsá-lo de si em nome de Jesus. Parece ser infinitamente mais divertido chamar o pecado do outro pelo nome. Há quem aceite a proposta de carteirinha de caça-pecados, e troféu para quem chamar o pecado alheio mais cabeludo. Pecados são como filhos: os nossos são sempre os mais belos. Sendo tais pecados belos também nos nomes, nada mais interessante que se ocupar de chamá-los para o fundo do mais belo, distante e profundo abismo, onde já não possam nos dominar.

O que é autoridade senão a emanação de um poder? Se não exercemos tal autoridade, podemos nós falar que conhecemos o Poder de Deus em nossas vidas? Quero convidar você neste início desta semana, a orar pedindo que Deus te invista de autoridade para espezinhar e vencer o poder do inimigo. Abuse desta autoridade. Imponha-se, em Cristo Jesus, sobre cada mal específico que te atormenta, e depois volte a contar as bênçãos.