domingo, 20 de agosto de 2000

Magnetismo enigmático

“E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim.” Jo. 12:32

Então a temida pergunta veio, em Arial Black, fonte 16:

PQ????

Ai, ai, ai... naum faça isso comigo... vc sabe como eu me inquieto diante de “porquês” , ainda mais quando eles dizem respeito ao ser humano...

Lux, entaum me ajude...me ajude a entender isso! Naum eh justo!
Ateh agora soh encontrei uma explicaçaum: estou velha, velha e feia, e com a crise mundial de homens no real sentido da palavra, eu virei mercadoria obsoleta, de terceira maum... e em breve de terceira idade :-((((

...pf, naum diga q vc aprendeu esse dramatismo de mim...:-)

amiga... naum tou brincando! Lembra daquela ilustrçaum q uma vez vc me contou? Qd eu tava c o Rick eu estava na fase do “muitos seraum chamados e poucos escolhidos”, agora estou na fase do “o q vier ateh mim, de modo algum o lançarei fora...” e ainda assim naum aparece uma alma caridosa q me note!

calma lindinha.. quem sabe vc naum encontra um varaum q esteja na fase do “vinde a mim todas vos q estais cansadas e oprimidas” hehehehe deixe de ser taum trágica! Q livro vc anda lendo? Noite na taverna? Cruzes! Vc eh muito linda, inteligente, e capaz de ter qualquer homem q quiser, sua boba.

muito engraçadinha, continue zombando do meu drama...naum fuja do assunto, sra. Desvendadora de pqs... me explique: passsei dois anos namorando o Rick e durante esse tempo os homens viviam me paquerando. Na faculdade, na igreja, no trabalho, eu ficava quietinha na minha, mas parecia que tinha um imã q atraía eles... recusei trilhões de pedidos p sair, joguei fora convites p lugares maravilhosos, esnobei elogios, declarações de amor... eagora, seis meses depois de ter terminado o namoro como Rick parece que ninguém mais quer saber de mim. Pq as pessoas soh parecem olhar p gente qdo estamos comprometidos???
Pq vc naum tenta uma reconciliaçaum com o Rick? Ele gostava tanto de vc! Foi vc q se empolgou demais como assédio, achando q era a rainha da cocada preta e desprezou o q ele sentia por vc, achando q poderia aproveitar um pouquinho de cada um dos seus fãs...

puxa, sua sinceridade me assusta... mas foi isso mesmo.. o problema eh q agora nem o Rick me quer mais :’’-((
Esta conversa se estendeu noite adentro na telinha preta do ICQ. Minha deprimida amiga, quando permitiu cessar suas lamúrias, juntou-se a mim na procura de saber o que havia de errado. Fisicamente ela é muito atraente, é uma pessoa culta, simpática, cristã e uma série de adjetivos que não justificam essa solidão. Chegamos a uma conclusão interessantíssima que não apenas explica o motivo dela só atrair admiradores quando está comprometida (algo que eu já ouvi muita gente além dela questionar), como também nos remete uma importante lição espiritual.
Você já reparou bem nos olhos de uma pessoa que está amando? Já percebeu como essas pessoas costumam estar com a auto-estima lá em cima e consequentemente procuram se vestir melhor, cuidam mais da aparência física, sorriem com mais freqüência, estão sempre entusiasmadas e ficam mais carinhosas, sensíveis e compreensivas? Uma pessoa que se descobre amando de verdade não desanima fácil, e se o faz não se deixa abater por completo porque sabe que tem uma fonte de amor que lhe suprirá as energias, alguém que de quem vai receber cuidado, carinho e um monte de coisas boas que vão lhe “recarregar as baterias” para enfrentar o que quer que seja. Você nunca verá uma pessoa que ama encarando as coisas de maneira negativa, pois seu consciente e inconsciente, seu corpo, seus gestos e palavras são tomados por uma involuntária expressão de felicidade e completude. Sua paz não é minada porque há sempre o farol do ser amado apontando como luz fulgurante no horizonte...
Por outro lado, uma pessoa que não ama alguém, ou que enfrenta sérios problemas no relacionamento pela ausência do amor em uma das partes (ou em ambas), terá uma inevitável postura de tristeza. Uma pessoa que não tem o toque inefável deste sentimento supremo em sua vida, acaba por encarar as coisas de maneira fria, amarga, negativa. Não raro passa a transmitir aos poucos que se dispõem a ouvi-lo quilos e quilos de fel, lamentações, tormentosas mágoas, lacrimosas concepções sobre o mundo, os homens ou mulheres, sobre si mesmo. Quando não é dado a se abrir facilmente, se isola dentro de si mesmo, desenvolve um egoísmo rígido, uma atitude inexpugnável diante dos sentimentos, e transmite aos que lhe cercam uma aparência de insensibilidade e inacessibilidade. Em ambos os casos, a reação natural das pessoas é de repulsa, senão vejamos: qual das personalidades lhe parece uma boa companhia, a do parágrafo anterior ou a deste parágrafo?
Está então explicado o magnetismo enigmático que flui dos seres que estão amando. O amor atrai as pessoas, sua influência é como aroma suave que inebria aqueles que entram em contato com ele. Vivemos em mundo de pessoas sequiosas por sentir o amor, que trazem dentro de si a busca por algo nobre, verdadeiro, algo que lhes dê alívio, conforto, que mude suas vidas no sentido de uma felicidade satisfatória. Quando as pessoas percebem que há um ser que provavelmente descobriu o caminho, elas vão imediatamente procurar estar junto desta pessoa para vir a ter as mesmas características que emanam dela. Por sua vez, a pessoa que está atraindo sente que o faz, sente que estão se aproximando dela e sua tendência é dar amor aos que a buscam, pois este não é um sentimento egoísta que se guarde. Detalhe: esta série de matéria férrea que circunda o campo magnético do amor não é só pessoas, mas projetos, investimentos, tudo aquilo que por influência do amor passou a crescer também, coisas que chamaremos de “pequenos amores”. O único perigo está em ocupar-se em suprir o amor de todos que se lhe pedem, e esquecer da fonte do amor... esquecer a pessoa que tornou esse sentimento capaz e deslumbrar-se com o fato de ser um imã tão poderoso... se isso acontecer, virá a traição: convencida que esta atração é produto de si mesma, a pessoa requererá os méritos por isso e para receber tudo que têm a lhe oferecer, passará a envolver-se e doar-se aos “pequenos amores”, numa intensidade que acabará por afastá-la em definitivo da fonte do amor. O resultado é triste: acaba o amor, pois não há mais fonte que o renove, a atração exercida, consequentemente, acaba também, e os que antes buscavam aquele ser, agora o deixam porque sentem que ele não tem mais nada a oferecer, portanto não merece receber mais nada também, os projetos envolventes que iam tão bem vão lentamente perdendo a rentabilidade e a importância. E aí vem a solidão e a amargura de não ter um amor nem mais nada por que valha a pena lutar.
Não é difícil encontrarmos uma aplicação espiritual para esta situação. Você, como eu, provavelmente sabe bem que a expressão de um cristão que vive o seu primeiro amor com Deus é fascinante. E ambos sabemos que atração fantástica acabamos por exercer nas pessoas que entram em contato conosco, como tudo em que nos empenhamos parece sair muito bem, como num instante surgem cargos na igreja, pessoas não cristãs se aproximam de nós, pessoas da igreja passam a nos devotar admiração, nossa é tudo tão .. envolvente! Por isso mesmo não podemos esquecer de manter constante contato coma fonte de nosso amor, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. O fato de atrairmos “pequenos amores” e o distribuirmos abundantemente não pode fazer com que o nosso amor com Deus seja menos total, único e central.
O amor desperta energias e reservas afetivas, as quais, se não fosse por ele, permaneceriam inutilizadas. São elas que abrem, depois, à pessoa, possibilidades insuspeitas de uma atração magnética , forte e frutuosa com os “pequenos amores”. Sendo assim, lembremos: é possível amar diversas coisas e pessoas ao mesmo tempo, mas só é possível devotar paixão fiel a uma, a quem se busca constantemente como fonte de toda a capacidade de amar. Que esta seja nossa história de relacionamento com Deus, para o qual Jesus, cheio de amor, um dia nos atraiu.
Uma semana feliz e iluminada!

Lux Lunae

domingo, 13 de agosto de 2000

O paradoxo do insubstituível

“A alma farta pisa o favo de mel, mas à alma faminta todo amargo é doce” Prov. 27:7

Você pega o ônibus lotado às sete da manhã e alguém resolve pisar no seu pé, bem em cima daquela unha encravada. A dor parece subir pela garganta, passar pelas cordas vocais e querer sair numa explosão verbal nada delicada, mas você trava o impulso e retribui com um sorriso amarelo o “desculpa...” do desastrado. O celular toca e você o atende rapidamente para esquecer da dor que ainda lateja no dedo atingido. Chega ao trabalho e cumprimenta a todos com um sorriso entusiástico, mesmo aqueles a quem você é totalmente indiferente ou outros que você suporta com desprazer. Seu chefe o chama para uma pequena conversa e você sofre cada segundo da presença dele, que descarrega toneladas de cobranças, pressões , prazos, exigências em cima de você, mas seu sorriso está sempre lá, e todos os seus gestos são do mais fiel assentimento. Felizmente o celular toca mais uma vez e você tem um pretexto para encerrar a conversa. Seus colegas o chamam para almoçar num restaurante que acabou de ser inaugurado e você aceita: quase não consegue disfarçar a palidez na hora que vem a conta, mas assina o cheque sorrindo, afinal, a comida valeu a pena e foi bom estar com a turma. Voltando para o trabalho, você é chamado pelo chefe novamente que lhe dá uma advertência por você ter esquecido de apresentar um relatório, ao que você se desfaz em rogos, desculpas, perdões e promessas de que tudo será reparado e esse fato nunca mais acontecerá. Fica muito chateado consigo mesmo, e durante o caminho de volta no ônibus lotado, vai o tempo todo se culpando.
Enfim, chega em casa. Hora de tirar a máscara. Você dirige toda a sua atenção para três vontades: banho, comida, cama. Se é solteiro, procurará fugir das reclamações da mãe, que parece sempre encontrar defeito em tudo que você faz. Fica na defensiva... quando ela puxa conversa, você pensa numa saída; já suportou muito problema por hoje,não está nem um pouco a fim de pensar nas complicações que ela inventa. Então corta a conversa, dizendo bem sério que ela sempre consegue adivinhar o pior momento de lhe falar: ligou uma vez em pleno ônibus lotado, outra vez conseguiu atrapalhar uma importante reunião com o chefe, e agora não percebe o quanto você está cansado e chateado com seus próprios problemas, que não são poucos. Você não tinha intenção de magoá-la, mas acabou fazendo... enquanto ela sai de cara feia, você pensa que depois ela esquece e vai ficar bem... pelo menos você conseguiu um pouco de descanso. Seus irmãos perguntam se você comprou ou pagou algo que estava sob sua responsabilidade... “ih! Esqueci!”. Decide comprar um remédio para memória, mas não perde a chance rebater as reclamações deles e vocês acabam discutindo feio, as acusações e ironias se intensificam e no fim todos estão chateados. Você decide ir dormir, sem se preocupar em como eles estão se sentindo, afinal eles vão estar sempre ali e amanhã parecerá que nada aconteceu. Além disso, você tem coisas mais importantes para lembrar e com que gastar seu dinheiro... se você é casado, a esposa toma o papel da mãe e os filhos ficam no lugar dos irmãos.
É certo que, felizmente, existem pessoas que fazem exceção a esses acontecimentos, mas via de regra nós nos encaixamos neste modo de agir. O que faz nosso comportamento ser de um jeito com as pessoas que não conhecemos e de outro, oposto , com aquelas que estão bem próximas a nós? Por que as que significam mais em nossa vida são normalmente tratadas de forma mais rude, e acabam recebendo toda a descarga de tensão que acumulamos ao engolir os aborrecimentos das pessoas por quem não sentimos nada de especial? O que nos faz sentir tão livres para magoar a quem amamos com frequência, enquanto parecemos amordaçados na hora de reagir à injustiças de quem não nos tem nenhum sentimento profundo? Por que será que a mínima indelicadeza dos familiares, cônjuges, ou amigos com quem temos mais intimidade nos parece motivo para uma catástrofe indizível, enquanto grandes e pequenas ofensas dos indivíduos com quem travamos relação superficial são suportadas com um agonizante sorriso no rosto? A resposta para tudo isso está numa única assertiva: o amor insubstituível nos assegura que ele sempre estará lá.
Intimamente sabemos que as pessoas com quem nos relacionamos há mais tempo, com as quais partilhamos nossa intimidade e verdade estão seguramente “presas” a nós. Não precisamos conquistá-las, não há motivo para preocupação quanto ao mantê-las junto a nós: estas pessoas conhecem o que há de pior em nós e ainda assim nos aceitam plenamente, nos amam verdadeiramente e sempre nos perdoam. Sabemos que se as magoarmos, ferirmos, isso não será suficiente para diminuir o sentimento delas por nós, que excede qualquer entendimento (muito embora pouco nos preocupemos em entender o amor com que somos amados). E o que leva essas pessoas a ter um amor tão incondicional não é nenhuma tendência masoquista: elas estão sempre ao nosso lado porque nós somos INSUBTITUÍVEIS para elas, elas nos perdoam tão facilmente pois a felicidade de nossa presença supera nossa capacidade de fazê-las sofrer, elas passam além de nossos defeitos, não por causa do vínculo familiar ou do vínculo conjugal, mas pelo amor, que é o vínculo da perfeição(Col. 3:14).
Todos os outros relacionamentos são jogos de interesse em que não há segurança, apenas o cumprimento de um dever, seja ele a subordinação, a educação, a praxe. Forçamo-nos para que não apareça nossa face real, mas aquilo que queremos que as pessoas pensem de nós, até que consigamos conquistar nosso objetivo com, ou através daquela pessoa. E é assim que um namorado compreensivo e gentil pode se transformar num marido autoritário e bruto, que uma namorada doce e virtuosa pode se tornar uma esposa insolente, caprichosa e indiferente, ou ainda é assim que se explica como uma mesma pessoa pode parecer ao mundo ter qualidades que somem quando deveriam ser exercitadas justamente com os que lhe têm mais afeto. De outro modo, como se explicaria o fato de que somos capazes de varar madrugadas ouvindo e dando a maior força com os problemas e lamúrias de um amigo com quem não convivemos intimamente, mas nos impacientamos quando os que nos amam partilham sua tristeza conosco e não raro os abandonamos a sua própria capacidade de reagir, como se aquilo não tivesse nada a ver conosco? Ou, questiono-me, nos relacionamentos em que nos sentimos seguros, ostentamos veementemente a bandeira da liberdade de sermos e fazermos o que for de nossa vontade, mas engolimos quietinhos toda cobrança e imposição quando isso se nos apresenta como preço de nossas conquistas? O valor que demostramos pelo superficial por vezes supera o que demonstramos por essas pessoas, a quem só descobrimos a importância exata quando vimos a perdê-las...
Pensemos agora verticalmente. O amor com que Deus nos ama é extremamente pessoal, porque somos para Ele criaturas insubstituíveis. Quem ainda não sentiu Esse amor, regozija ao descobri-lo; quem já o provou sabe a maneira específica com que Ele se manifesta na vida do que crê. Aquele que já desvendou o real caráter do amor de Deus, que já foi perdoado e sentiu o amparo e proteção dEste Deus que, não importa quão sujos e pecadores somos, continua a nos amar fortemente...aquele que tem na sua vida o testemunho destas coisas, sabe em todo o seu ser, a todo tempo, que está seguro nas asas deste amor pelo insubstituível. Mas - infeliz paradoxo – são justamente os que já sentiram este amor, que tendem a não cultivá-lo como ele merece. Ora, sabendo-se que Deus é eterna misericórdia, que é onipresente e nunca falha quando nós falhamos, nos enchemos de uma segurança perigosa que pode nos levar para longe deste amor: o amor de Deus está sempre lá, Ele não vai perder-me de vista , então está tudo bem, não importa o que eu faça ou deixe de fazer. O que não nos apercebemos é que o amor só toca o que está na sua esfera de alcance, e embora ele exista latente no seio de quem ama, o ser amado ausente, distante e que se afasta voluntariamente mais e mais do amor, terá apenas a sua lembrança, mas não mais a sua atuação. E então virá a dor de ficar de fora de algo que parecia tão certo que nem precisava ser buscado.
Valorizemos o amor de quem nos considera insubstituíveis. O mínimo que pode acontecer é nos tornarmos menos egoístas e crescermos mais eficazmente com a experiência de amar. O auge será descobrirmos a felicidade completa, atingida quando decidimos colocar este amor acima do que não vale a pena (e isto inclui nosso eu). O máximo que irá acontecer... bem, nós temos uma eternidade inteira para descobrir...
Uma semana feliz e iluminada!

Lux Lunae

domingo, 6 de agosto de 2000

Dos rótulos

“Senhor, tu me sondas e me conheces.” Salmo 139:1

Dez meses de uma feliz amizade e chegamos à conclusão que o namoro seria uma ótima opção para nos tornar ainda mais felizes. Como estávamos enfrentando uma série de barreiras, esta decisão foi cautelosa e um pouquinho demorada, até estarmos seguros que o alicerce estava bem firme... . Durante este tempo de “preparação do terreno”, por algumas vezes ele me perguntou se tal situação – estar ciente de meus sentimentos e dos dele e não poder expressá-los publicamente – não me incomodava. Eu respondia sempre que o importante eram exatamente os nossos sentimentos, e não o rótulo que nos descreveria frente às pessoas. No dia em que, finalmente, sentimos que havia chegado a hora de assumir o namoro oficialmente, eu demonstrei tamanha alegria, euforia e felicidade que ele me perguntou: “Será mesmo que os rótulos não são importantes?...”. Na hora fiquei tão encabulada que respondi qualquer coisa com ares de desculpa esfarrapada, mas hoje, repensando o episódio, acho que lhe responderia: “rótulos não são ruins, desde que não enganem quanto ao conteúdo!”, e minha felicidade traduzia justamente o saber que no nosso caso, o rótulo ainda era insuficiente para descrever a qualidade do conteúdo, hehehe.
Relembrei este episódio enquanto me dirigia para o primeiro dia no meu primeiro emprego (na verdade, quase isso.. um estágio) aqui em São Paulo. Eu percebi que meu andar estava diferente, mais firme, minha postura mais confiante, olhei-me no espelho e me achei até mais bonita e a explicação para isso era óbvia: agora eu tinha uma função... um rótulo! Passei a meditar na importância que as pessoas dão aos rótulos, como se fossem eles, e não elas próprias, que demonstrassem sua capacidade como seres humanos.
Lembrei de um fato constrangedor acontecido em certa escola sabatina. O professor perguntava à classe, o emprego de cada membro, com o fim de fazer uma analogia entre a diversidade de funções e a diversidade de dons. Certa senhora no entanto, permaneceu calada quando chegou a sua vez, e era visível como estava incomodada, constrangida, perturbada. Depois de alguns instantes, o professor, com muita habilidade e gentileza, descobriu que ela era uma dona-de-casa...o fato de não ter o rótulo de um emprego em meio a uma classe cheia de professores, engenheiros, pastores, contadores, secretários, etc, abateu visivelmente aquela mulher, ainda que várias pessoas lhe dissessem que ser dona-de-casa é uma bonita e importante função. Esse incidente por sua vez, me fez lembrar de outra certa dona-de-casa, a senhora Brown, que ao também ser perguntada sobre o que fazia da vida, respondeu satisfeita: “Exploro o desconhecido”. A diferença marcante entre as duas mulheres está que a última renova sua satisfação, no ato de descobrir novas facetas sobre sua capacidade, está livre para ir além dos limites. A primeira é dependente de uma função para revelar sua capacidade, para sentir que existe, para afirmar-se, enfim, tornou-se escrava dos rótulos pois se apoia neles para mostrar sua personalidade.
Mas afinal, quais as causas e consequências da dependência de funções rotulatórias? Analise comigo a vida de Tribufólio Cunegundes.
Tribufólio era um jovem, cristão novo, adventista convicto, tímido porém muito dado a realização do bem pelos outros. A profissão de Tribufólio... bem, digamos que ele era um olhador de nuvens sem responsabilidade meteorológica. Embora introvertido, ele gostava de lidar pessoalmente com as pessoas, seu problema estava apenas em encarar grandes grupos. Sabia dar estudos bíblicos e conduzir facilmente as pessoas a tomar decisões, pois era um observador detalhista das necessidades de seus estudantes. Também sabia cozinhar e quando ia preparar sua comida sempre fazia algo para oferecer aos vizinhos, que lhe tinham grande estima e respeito. Os que o conheciam o olhavam como um rapaz prestativo, íntegro, sensível às dores alheias, discreto e digno de confiança. Mas Tribufólio não estava satisfeito. Ele no fundo sabia que era inteligente e possuía muitas qualidades, mas ninguém parecia valorizá-lo por isso! Ele se sentia só mais alguém na multidão, sem nada de concreto que pudesse mostrar às pessoas o quanto ele era especial. Começou então por realizar um projeto profissional: se tornar um advogado, para que todos pudessem reconhecer seu valor na ajuda às causas alheias, dos desfavorecidos e necessitados. Fez, ou melhor, sofreu um curso de oratória e passou a dedicar-se a aprender técnicas que o fizessem expressar com eloquência sua idéias. Suando em bagas, pediu ao ancião uma oportunidade para pregar, num culto de quarta-feira de cinzas em que metade da igreja estava num acampamento e a outra metade não era a mais assídua... enquanto isso estagiava num escritório de advocacia para pegar todas as manhas da profissão, e por vezes , decepcionado, constatava que seria um pouco difícil manter seu ideal de justiça e integridade para ajudar as pessoas... Em poucos anos, Tribufólio se tornou o “doutor Cunegundes”, ancião da sua igreja e um advogado especializado em Direito Internacional, trabalhando em uma poderosa empresa do bloco Mercosul, afinal, ajudar as pessoas seria afundar no Direito das massas que em nada compensa. Como ancião cheio de problemas administrativos para resolver, não tinha mais tempo para dar estudos bíblicos, muito embora mantivesse, como alívio de consciência, sua pasta de sermões sempre atualizada. Estava consciente que não pregava tão bem quanto fazia o evangelismo pessoal, mas muitas pessoas o cumprimentavam dizendo que seus sermões era inspirados... o que Tribufólio não atentava é que ele fazia tais sermões exatamente com o intuito de agradar aos ouvidos dos que o cumprimentavam... ele necessitava desses elogios para se sentir valorizado. Triste nominalismo a que se reduziu o antigo cristianismo de Tribufólio... agora ele mantinha em dia o bonito quadro com o número de pessoas batizadas; quadro que ele mesmo escolhera combinando com a decoração da igreja, pessoas que estavam com todas as fichas batismais devidamente organizadas, preenchidas e arquivadas... e que não eram, nem sequer uma, fruto da influência dele. Como bem-sucedido homem de negócios, ele contratou uma cozinheira muito boa, mas não lembrava mais de dividir as delícias culinárias que degustava. Reformou e ampliou a casa e colocou um eficiente sistema de segurança em todos os muros – agora bem mais altos. Certo dia percebeu que esquecera o nome dos vizinhos, mas não se perturbou pois provavelmente não teria mesmo oportunidade para falar-lhes. Os que o conheciam bem agora, eram seus colegas de trabalho, que lhe cumprimentavam por sua competência profissional, sua imparcialidade, sua racionalidade e frieza para lidar com as situações propostas... o “doutor Cunegundes” sorria-lhes satisfeito, mas de vez em quando, sozinho no seu mega-escritório, sentia saudades do que já não era: um homem íntegro, prestativo, sensível e digno de confiança. Agora ele tinha os rótulos que havia sonhado... e uma úlcera no estômago.
O drama de Tribufólio se repete cotidianamente entre nós. Pessoas como ele estão sujeitas a pior condenação a que poderiam se impor: a escravidão do rótulo. Tais indivíduos vestem o rótulo como uma pele de que não podem se livrar, e que necessitam para serem supridos emocionalmente pela valorização alheia, já que não aprenderam a se auto-valorizar ou a discernir os valores mais importantes. Buscarão com ansiedade desproporcional o resultado excelente em tudo que fizerem, dando excessiva importância à situação em que o eu se exibe, afinal, é a valorização alheia que garantirá seu valor como pessoa. Se não conseguem se sobressair, sentem-se inúteis... no caso de Tribufólio, sendo um homem tímido, ele expressa sua depressão com frases de auto-compaixão, lamentos e afastamento da situação. Se fosse um tipo colérico, agrediria a situação, com palavras de orgulho, auto-afirmação, ou descarregando em cima dos outros. Tais pessoas acabarão por tonar-se pouco criativas e adequar-se ao que os outros esperam delas, entregando suas vidas e paz ao julgamento dos outros, como que lhes mendigando estima. Com o tempo, deixarão de explorar suas próprias qualidades, para desenvolver aquelas qualidades mais cotadas, mais evidentes, mais em moda, acabando por renunciar parte de si mesmo, senão a melhor parte...
Acho que não há muito que ser comentado a respeito desse insidioso mal. Felizmente temos um Deus que não mede nosso caráter pela quantidade de resultados concretos que fazemos, que não nos julga pelo consenso social, que nos identifica como almas filhas , e não pela função, profissão, nome, títulos, posições ou qualquer outro rótulo que venhamos a ter. Como muitos discípulos ao longo do tempo, talvez tenhamos até de sacrificar alguns rótulos bem quistos, em prol dos interesses do Reino...
Chegando ao escritório de advocacia, toco a campanhia mas é um som mais forte que ouço ressoar dentro de mim. E ele diz: “rótulos não são ruins desde que não enganem quanto ao conteúdo!”. Pois nada engana Aquele que nos sonda e nos conhece.
Uma semana feliz e iluminada!!

Lux Lunae

domingo, 30 de julho de 2000

Confiar e Esperar

“...Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor...” I Cor. 13:12

Esta semana tive o prazer de degustar a leitura de mais um livro velhinho e fascinante. E como toda leitura realmente prazerosa, esta foi também despretensiosa e sem nenhum interesse específico, sendo que me trouxe ao final, importantes e fortes impressões. Trata-se do livro “O Conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas, um clássico da literatura juvenil (do tempo que literatura juvenil virava clássico). A trama é envolvente, e discorre sobre um jovem que é privado de todos os seus sonhos e esperanças estando prestes a realizá-los, passando de forma injusta e cruel, a ruminar sua desgraça num presídio de segurança máxima. Porém, depois de uma longa espera, a vida lhe deu a oportunidade de mudar o jogo e fazer justiça contra os que o traíram e atraiçoaram. Este jovem, que depois de provar o fel do cárcere e da traição, teria todos os motivos para tornar-se insensível, soberbo, frio, mas justamente por conhecer o significado de sua dor, termina a história com uma frase louvável: “Toda sabedoria humana se resume nestas duas palavras: confiar e esperar!”
Meditando sobre esta afirmação cheguei a conclusão que estas são, de fato, coisas muito difíceis de praticar hoje em dia, daí ser árduo o caminho que leva à sabedoria. Satanás também sabe de nossa fragilidade nesses pontos, pois conhece bem esta raça que desespera ao invés de esperar e aprende a trair ao invés de confiar. Esta raça cheias de extremos que necessita do equilíbrio em Cristo Jesus... falo de extremos porque, ordinariamente, nossas emoções costumam fazer nossas certezas mudarem abruptamente quando postas em prova. Vejamos alguns exemplos disso.
Já que estamos falando de condes, citemos um não tão feliz como o primeiro. No filme “Drácula por Bran Stocker”, temos uma curiosa ilustração na história de como o guerreiro Drácon vira o conde vampirão. O conde sai para guerrear numa Cruzada e deixa sua bela esposa no castelo, pedindo que ela o espere, pois em breve ele voltaria vitorioso. De fato, ele venceu a batalha, mas alguns inimigos sobreviventes enviaram uma carta falsa à doce condessa dizendo que seu marido havia tombado em batalha. A mulher, ao invés de confiar e esperar no que seu amado dissera, desesperou-se e se jogou no rio que cercava seu castelo, encontrando a morte eterna. Embora hoje eu esteja cheia de ilustrações fictícias, acho que não é difícil identificarmos tal atitude em muitos de nós no dia-a-dia. Tudo bem que nem todos se jogam no rio mais próximo – o Tietê por exemplo, mata o desejo do suicida antes que ele se mate, afinal ele não quer correr o risco de escapar fedendo... mas muitos são os que, desesperados, recorrem ao álcool, às drogas, à promiscuidade, ou simplesmente desistem de viver, se atolando na depressão, tornam-se pessoas desanimadas, negativas, invejosas, incapazes de sorrir para o futuro com alegria ou de olhar para o lado bom das coisas. Quantos, pior ainda, desistem de Deus, da sua religião, e prosseguem abatidas e vazias, mesmo que disfarçadas pela capa do nominalismo cristão... Desistir de esperar é desesperar, e entregar-se à derrota própria.
Um episódio que também traz significante ilustração, o qual me chamou atenção por ser vida real rotulada com as mãos da literatura, aconteceu hoje, quando eu vinha do estágio num ônibus. Um rapaz em pé, um pouco mais a minha frente, ostentava na camiseta negra, letras graúdas com parte do lúgubre poema de Augusto dos Anjos:

“...Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.”


Olhando a expressão e o olhar daquele rapaz, não pude deixar de sentir um calafrio me percorrer a espinha. Sua manifestação explícita traduz o que a princípio é a dor da perda da inocência, mas transforma-se num maligno instinto de sobrevivência: por desacreditar na confiança, aprende-se a trair, e a regra é encarar a todos como inimigos em potencial, que neste exato momento podem estar buscando um modo de fazer você sofrer. É muito mais difícil confiar, conservando os valores e as crenças puras, é terrivelmente mais doloroso optar pelo amor e pelo perdão. Tão calejados estão nossos corações, que a saída mais fácil e atraente é ceder à necessidade de também ser fera... um coração ferino estará sempre alerta contra a falsidade de toda demonstração de afeto, se sentirá sempre vitorioso por apedrejar a mão que afaga antes que esta o faça de tolo. E trocará o perigoso prazer de um beijo (por certo traiçoeiro) pela satisfação de um escarro na boca que, como aconteceu tantas vezes, está prestes a lhe trair. Podem até haver inocentes, mas estes são olhados com simplórias criaturas que devem ser doutrinadas a sobreviver na selva, o mais rápido possível.
Como seres pecadores mas que ainda carregam traços de semelhança com Deus, trazemos lá no fundo o desejo de crer na confiança que nasce do amor, mas o medo da decepção a qual está espreitando em cada esquina do caminho estreito que leva à felicidade, nos faz recuar. Abandonando a confiança estamos mais tristes, porém, nos sentimos mais protegidos em nossa auto-suficiência. Desistir de confiar é aprender a trair, e se entregar à derrota alheia.
Felizmente o maior Literata de todos os tempos, que também é Conde e cujo condado nada mais é que o Universo, nos deixou em seus ensinos a certeza de que toda a Felicidade humana se resume em duas atitudes: confiar e esperar nEle. Eu creio nEste Deus que cumpre suas promessas de amor e justiça, e leio claramente na Bíblia que os covardes não terão parte no Novo Lar Perfeito que nos aguarda. Para ser capaz de continuar esperando e confiando em meio a este mundo, é preciso ter muita coragem. A vitória, no entanto, está reservada a estes homens, “homens que não se comprem nem se vendam, homens que no íntimo da alma sejam verdadeiros e honestos, homens cuja consciência seja tão fiel como a bússola o é ao pólo, homens que permaneçam firmes pelo que é reto, ainda que caiam os céus”. (Ellen G. White, Educação, pág. 57)
Os que não desistem de esperar, contemplam hoje, em parte, a salvação, a qual verão brevemente, face a face (Salmo 62:1). Os que esperam são os que deixaram seu amor falar mais alto que as injustiças, traições, maldades e mentiras dos inimigos, suas vidas refletem a paz e segurança de estarem firmados neste amor supremo, suas faces revelam que desde já eles são vitoriosos. Os que não desistem de confiar, são os que não se contaminaram com os corações ferinos, antes, seguem o Cordeiro para onde quer que Ele for (Apocalipse 14: 4). Os que confiam são os bem-aventurados que hoje choram, mas são mansos, misericordiosos, limpos de coração e pacificadores; eles serão consolados, herdarão a Terra e verão ao seu Pai, tendo saciadas a sua fome e sede de justiça. Os que confiam e esperam vencerão o mundo por permanecerem no amor.
Uma semana feliz e iluminada!

Lux Lunae

domingo, 23 de julho de 2000

Quando alguém muda os seus planos

"Conceda-te conforme ao teu coração, e cumpra todo o teu plano". Salmo 20:4

Resolvi preparar uma surpresa para a minha avó paterna e telefonei para ela hoje. Foi muito gostoso falar com ela apesar das lágrimas mútuas, em compensação ouvi suas reclamações acaloradas pois, devido aquela característica de despedidas não me apetecerem, eu fui embora sem dizer para ela, ainda que tenha passado o último fim-de-semana em Natal na casa dela.
Foi, aliás, um dia muito gostoso, literalmente, principalmente à hora do almoço... e como pede todo almoço em casa de avó, sugeri que ela nos contasse uma velha história, perguntei como ela tinha conhecido meu avô (que já descansa). Ela então começou uma narrativa que prendeu a atenção de todos que estavam na cozinha, e quem passava, ficava para ouvir, de modo que a família toda se apertou para acompanhar a narração recheada de gargalhadas e alguns nós na garganta... uma tragi-comédia que colocaria qualquer novela do SBT no chinelo.
Minha avó, quando adolescente, se apaixonou perdidamente por um rapaz que morava em seu bairro, o qual caiu de quatro pelos encantos da menina. Mais uma linda história de amor, não fosse a existência da tia Elisa.
Tia Elisa era uma amiga da minha avó na época, e irmã do meu avô. Ela morreu com mais de noventa anos, solteirinha da silva, depois de um histórico de maldades de fazer inveja ao curriculo da madastra da Branca de Neve. Quando tia Elisa soube da paixão avassaladora de minha avó, resolveu jogar areia nela e começou seus planos maquiavélicos. Descobriu que o rapaz era motorista de táxi e foi até a mãe de minha avó e delatou tudo, enfatizando que "motorista é uma raça que não presta" e "ele só quer se aproveitar da Maria". Não deu outra. A minha bisa proibiu o namoro. Mas isso não os impediu de se encontrarem às escondidas... Tia Elisa então, tentou algo mais pesado: chantageou a empregada da casa da minha avó para fazê-la inventar a confissão de que tinha andado fazendo "sem-vergonhices" com o namorado da minha avó. E ainda forjou um flagra. Quando o pobre rapaz chegou, num domingo, do quartel onde prestava serviço militar, minha tia o procurou dizendo que vó Maria mandaria um recado para ele pela empregada, e marcou hora e lugar. Ela então correu à casa de vovó, enquanto a empregada ía ao encontro dele para simular o "affair", e, nervosamente, convidou minha avó a flagrar a suposta traição. Quando a empregada avistou minha avó, agarrou o namorado dela, que a empurrou, mas já era tarde: tia Elisa já havia convencido-a que ele era um canalha imprestável que vinha traindo-a há muito tempo. Mas como o rapaz ainda a procurasse (em vão) constantemente, para tentar explicar-se , minha querida tia armou o golpe de misericórida.
Ela começou a sugestionar o meu avô ,irmão ela, a namorar minha avó, e ele, vocês devem imaginar, achou a idéia agradável. Tia Elisa então, chamou minha avó para visitá-la e combinou com meu avô para esperá-la à porta e puxar conversa com ela para dar início à paquera. Depois correu ao ponto de táxi onde o ex-namorado de minha avó ficava, e disse-lhe que ele parasse de ser besta e ir atrás da Maria porque ela já estava namorando o Gaspar (meu vô), há muito tempo, desde quando ela ainda se encontrava com o motorista. E como ele, raivoso, afirmasse que ela estava mentindo, ela o levou até a sua casa, onde flagrou meu avô conversando com minha avó , enquanto tentava tocar-lhe os cabelos. O pobre taxista, agora desiludido, ficou pálido e se aproximou da minha avó dizendo-lhe duras palavras, e depois disso nunca mais a procurou. Ela só veio entender o que aconteceu, anos mais tarde, quando a própria tia Elisa, contou-lhe tudo.
E meu avô acabou casando com minha vozinha, mas não antes da nossa cara vilã convencê-lo a raptá-la, inventando uma mentira sobre a mãe dela querer levá-la embora para Recife, somente para difamar a minha avó, visto que "casar fugida" naquela época era uma das maiores vergonhas e desgostos que se podia dar aos pais. Bem, os últimos anos da tia Elisa foram cheios de sofrimentos (na verdade acho que todos foram), mas foi minha avó que cuidou dela até sua morte, e parece que não guardou mágoas de toda injustiça que passou por causa da minha tia bruxinha. Mas perder um grande amor e o respeito da sociedade só porque alguém resolveu mudar os planos, não deve ser fácil de perdoar.
Penso que para Deus também não deve ter sido nada agradável ver Seus planos de felicidade para a humanidade, serem mudados por causa da inveja, orgulho e maldade de um ser que Ele mesmo criou, e O servia frente a frente, todo o tempo. O pior é que este ser se especializou em ser o "estraga-prazer" dos planos para a vida de todos os filhos de Deus.
Satanás se diverte inventando artimanhas para acabar com a real felicidade de cada um de nós , e seus planos são inteligentes e bem-traçados, com a experiência de um estrategista milenar, de modo que muitas vezes caimos em suas armadilhas sem nem desconfiarmos de que lado está a verdade. E como foi com minha avó, só depois de algum tempo, quando já não há nada a ser feito, é que descobrimos desolados que fomos enganados, ludibriados, manipulados até, e acabamos por perder tudo que estava originalmente planejado sem que tivéssemos culpa consciente disso.
Eu e você, no entanto, contamos com um trunfo que minha avó não tinha: Alguém não só sabe como é a própria verdade e quer nos proteger das maldades de nosso arqui-inimigo. O Deus em que nós cremos, é Aquele que conseguiu driblar as risadas de satisfação de Satanás quando ele levou o pecado a Adão, com um plano perfeito de salvação. Aquele que transformou o gozo de alegria de Satanás, ao ver Cristo pregado morto na cruz, em angústia mortal, quando deu ao Seu Filho a vitória sobre a morte e a sepultura. Aquele que é capaz de nos tomar no meio da situação mais deprimente, no poço mais fundo, da mais escura rua sem saída, do deserto mais árido e da selva mais densa, e tomando-nos em Seus braços, conduzir-nos ao caminho verdejante das águas de descanso. Um Deus-Pastor que tem prazer em carregar suas ovelhas em Seus braços, junto ao peito, enquanto mansamente sussurra: "descanse do seu labor, sua luta árdua, sua decepção e de todo esse medo e insegurança que agora toma conta de você. Deixe que eu leve seus fardos e simplesmente se deixe guiar...". (Isaías 40:11, Mateus 11:28). Com um Deus assim, o que temer? O que fazer se não tomar Seu suave jugo e aprender da mansidão e humildade que emanam do Seu coração? (Mateus11:29).
Quando alguém muda os seus planos, o melhor é permitir que Deus entre com os planos dELe. Jesus, mais que ninguém, conhece a tristeza da frustração; Ele foi homem como eu e você. Em Sua eterna perfeição, Ele consegue transformar toda essa frustração em gozo de vitória. Ainda que tenhamos sido nós a abandonar Seu plano inicial de felicidade total, ou tenhamos sido enganados pelas artimanhas deletérias do Maligno ou simplesmente estejamos cegos para ver que os nossos planos não são os dELe, há algo de muito maior e melhor logo atrás do Monte para onde Ele quer nos levar; há felicidade real, num conceito que nossas limitadas mentes jamais poderão conceber, nem em uma pálida idéia.(Isaias 64:4)
Minha avó, com seu riso largo ao fim da sua triste história, me ensinou algo importantíssimo: mudança de planos não significa derrota. E cá para nós, se minha avó não tivesse casado com meu avô e passado por tantas coisas que lhe acrescentaram uma sabedoria enorme, eu não teria a bênção da sua presença e exemplo! E ela não teria uma neta coruja que lhe amasse tanto quanto eu, hehehe.
Somos todos mais que vencedores por meio dAquele que nos amou, e os planos para as vidas dos filhos do Grande Deus Todo-Poderoso são histórias de um povo que desde a antiguidade nasceu como raça eleita para a vitória, histórias com muitos enredos, caminhos que se cruzam, se afastam dando voltas e se bifurcam brusca ou sutilmente... mas acima de tudo vidas com o mesmo fim: o cumprimento do Plano maior que jamais será frustrado, do qual força inimiga nenhuma nos afastará, o Plano da Salvação Gloriosa em Cristo Jesus.
Uma Semana Feliz e Iluminada!

Lux Lunae

domingo, 16 de julho de 2000

O amor admirável

"Quando [o Senhor] vier para ser glorificado nos seus santos e ser admirado em todos os que creram..." II Ts 1:10

Depois de mais de seis meses sem acariciar a tecla de um piano tive o ímpeto e a oportunidade de sentar tranquilamente diante de um (i.e., sem observadores). Reuni minhas partituras mais queridas e me pus a dedilhar o instrumento.
O que me motivou a buscá-lo, eu sabia bem, era a vã tentativa de preencher minha mente para tentar esquecer um problema específico que me atordoou o dia inteiro, mas justamente tal problema me fazia incapaz de concentrar-me como deveria, de modo que eu divagava intermitantemente entre o pentagrama e ele. Quando enfim conseguia virar uma página, um bemol qualquer me lembrava a gravidade do problema, que ainda estava lá, por trás da clave de fá. A carta foi objetiva e a caligrafia denotava uma escrita nervosa e emocionada.
Uma amiga muito querida, que me acompanha desde que conheci Jesus, como uma verdadeira irmã, e que sempre me animava com seu sorriso constante, expunha, desolada, a ruína de seu casamento. E no seu caso não é apenas mais um casamento, mas o casamento que todos tinham por modelo. Lembrei da época em que se deu o matrimônio, aliás, eu mesma, noiva na época , quase caso também movida pelo clima de ansiedade que envolvia a todos e ao casal. Ambos eram cristãos atuantes, jovens cheios de planos e inteligentes. Agora se separam e ela me diz que o convívio estava impossível, que já não havia amor. O que houve de errado?
Me aborreci com a questão que me tomou o dia todo e voltei ao piano, mas a primeira nota era justamente um si bemol que me impediu de continuar com seu som de pergunta. Me veio então vivamente à memória a frase de um amigo pianista que conhecia muito bem minha admiração pelo instrumento e acompanhou meus primeiros passos. Ele dizia: "Não se centre na admiração que você tem pelo instrumento ou pelo que ele pode fazer, admire o que vocês podem fazer juntos, admire o que vocês são quando se unem, sob pena de uma desastrosa mediocridade". E agora eu tinha uma hipótese musical para a separação.
Lembrando com mais detalhes, percebi que a admiração mútua foi o que fez aquele casal se unir. Eles viam no outro o cônjuge ideal pela série de qualidades que apresentavam, mas juntos não eram ou faziam nada que pudessem admirar também; a união com o outro era apenas mais um modo de atrair mais admiração para si. Admirar e amar nem sempre são a mesma coisa.
É engraçado mas quando as pessoas vão justificar porque estão bem com seus cônjuges, elas começam a dar uma lista de virtudes das pessoas. O importante é saber até que ponto tais virtudes importam realmente para elas... por outro lado, um homem pode admirar a Sharon Stone, a Marta Suplicy e até a Carla Perez, mas amar profundamente a sua esposa, devotando-lhe admiração especial. Porque nenhuma outra mulher, com mais qualidades ou dotes físicos e/ou intelectuais desperta nele sentimentos, ações, vontades tão especialmente admiráveis, porque nenhuma outra conseguiu penetrar na sua vida e fazê-lo feliz. Então qualquer outra jamais a superará, ainda que acumule trilhões de adjetivos maravilhosos.
A nossa relação com Deus não é diferente. A história bíblica fala de um Cristo admirável, isso confessa o mais veemente ateu. A minha religião pode ser, doutrinária e teologicamente, admirável, mas a admiração que eu lhe tenho não é diferente da que tenho quando me deparo com inteligentíssimas filosofias temporais. O detalhe que fará minha religião e minha relação com Deus serem especiais está no quanto elas têm efeito sobre minha vida, meus sentimentos, ações e vontades. Cristo , como personagem isolado é apenas mais um vulto histórico, um profeta incrível e até um Deus poderoso, mas... e daí? Eu posso o admirar e estar alheia a ele, tanto quanto a Maomé. Mas Cristo em mim, isso sim, é algo de que realmente eu m e maravilho! Porque juntos, partilhando problemas e alegrias, dividindo vitórias e derrotas ou simplesmente vivendo a paz e a alegria de estarmos juntinhos um ao lado do outro, isso é assombrosamente bom. Ele então nem precisaria ser um afamado personagem, um filósofo e político fenomenal, nem um Deus capaz demover montanhas e acalmar tempestades; eu o amo porque Sua influência na minha vida é fundamental para eu ser feliz. Todos os grandes personagens bíblicos não foram grandes porque achavam Deus o máximo, mas porque a Sua relação com Esse Deus era o máximo. Houve há certo tempo um homem que admirou muito a Jesus. Ele o viu pela primeira vez enquanto Cristo pregava às multidões e ficou maravilhado com Seu carisma, Seu poder, Seu olhar penetrante, a forma como curava, a sabedoria que emanava em jorros do Mestre. Este homem foi chamado do meio da multidão para acompanhar Cristo de perto por três anos. Estou certa que durante este tempo, ele aprendeu a admirá-lO mais. E depois de andar, comer, conversar, receber carinho e ter tido amor como jamais ninguém o amou, este homem ainda não permitira que Jesus penetrasse no seu coração e na sua vida de forma plena, e não investiu na relação de amor que lhe estava proposta. Por isso, Judas não conseguiu que a sua relação com o Mestre se tornasse admirável, antes a fez infame com uma cruel traição. Amor de verdade só vem quando a pessoa a quem admiramos forma uma dupla admirável conosco. E se você deixar Jesus ser Seu parceiro, o mundo admirará a Ele em você! Que este seja nosso testemunho até o dia da glorificação.
Uma semana Feliz e Iluminada!

Lux Lunae

domingo, 9 de julho de 2000

Passando uma chuva

"Porque somos estrangeiros diante de ti, e peregrinos como todos os nossos pais; como a sombra são os nossos dias sobre a terra, e sem ti não há esperança." I Cr 29:15

Esta semana cheguei a uma conclusão que precisei anotar para a posteridade: você só saberá o valor exato do seu lar quando, longe dele, ficar muito doente. Embora um tanto dramática, esta é uma verdade que descobri curtindo 41,5º C de febre em cima de uma cama, tendo a gripe por companhia e a tosse por som mais próximo do humano. Bem, pelo intróito desta mensagem você vê que eu fiquei deprimida mesmo, e quem mais poderia me socorrer com o condão do ânimo e do amor? Ela! A super mamãe!
Dona Lindalva, que não podia fazer nada além de me recomendar duas dúzias de remédios naturais, alopáticos e trocentas dezenas de recomendações, fez de suas palavras, mais uma vez, o antídoto ideal para eu me sentir muito bem. Oradora perfeita que é, começou falando da sua preocupação com a gripe porque lá em Natal tem chovido torrrencialmente há vários dias, e arrematou o início do sermão afirmando: "Embora eu saiba que a situação do clima aí seja a inversa, não esqueça que você está apenas passando um chuva por aí, mas enquanto ela passa, olhe ao redor e faça alguma coisa!" E então começou a contar a história de um certo senhor chamado Paulo, hoje muito idoso, pai de um amigo católico nosso que é coordenador do grupo que ela frequenta.
Este senhor , há muitos anos atrás, veio até SP com um amigo, provavelmente movido pela falta de opções empregatícias por lá. Assim que chegaram aqui, desceram do pau-de-arara debaixo de uma chuva muito forte. Eles não tinham para onde ir, então só lhes restava correr para o abrigo mais próximo, tentando equilibrar no meio da enxurrada, os corpos franzinos carregados de sacolas. Como todo nordestino de primeira viagem em SP, eles logo descobriram que suas roupas não eram suficientes para vencer o frio, e o único lugar ao abrigo do vento forte era a frente de uma casa onde estava sentada uma jovem senhora. Eles se aproximaram respeitosamente, e seo Paulo indagou àquela senhora que, mais de perto ele percebera estar grávida, se poderia ficar ali embaixo com o amigo até a chuva passar. Ela os olhou desconfiada e calculou que talvez demorasse até aquele temporal cessar, mas consentiu gentilmente e ainda lhes ofereceu um café. O ronco da barriga de seo Paulo respondeu alegremente ao convite enquanto ele, envergonhado, falou que aceitaria pois há dois dias não comia nada. A mulher entrou vagarosamente, segurando a imensa barriga e dentro em pouco trouxe pão e café para os dois homens que não cabiam em si de satisfação. Depois sentou novamente e só então seo Paulo reparou que ao lado dela havia um grande machado e uma pilha enorme de troncos de lenha para cortar. Incontinenti, ele perguntou se poderia cortar a lenha enquanto esperava a chuva passar e ela disse que ficaria muito grata pois seu marido estava viajando e ela não tinha mais nenhum graveto para se aquecer, e o carvão do fogão já estava quase todo virado em cinzas. Os moços arregaçaram as mangas e cortaram toda a pilha de lenha. Enquanto a chuva passava, eles também consertaram a cerca da varanda, as goteiras do telhado, os degraus da escada e arrumaram e limparam toda a frente da casa da mulher. Quando garoava e o sol já começava a aparecer por trás das nuvens, eles foram se despedir, mas a mulher insistiu para que eles esperassem até o seu marido chegar, e embora encabulados e um tanto temerosos, o cheiro de galinha assada para o jantar os convenceu a ficar um pouco mais.
Em pouco tempo o marido dela chegou e reparou imediatamente que as coisas estavam diferentes. A mulher , respondendo ao seu olhar indagador, falou dos dois homens "do norte" que a ajudaram com as coisas e pediu que ele os recompessasse de alguma forma. Seo Paulo quis ir embora dizendo que eles haviam feito tudo sem querer retribuição, mas o marido daquela senhora arranjou lugar, comida, emprego e roupas para eles, que ficaram em SP por mais um ano como empregados de confiança daquele homem, com total apoio e estrutura. O marido da mulher a quem ajudaram enquanto a chuva passava , era o vice-prefeito de uma cidade do interior de SP.
Com uma voz branda e penetrante, minha mãe fez a aplicação da história: "Sei que quando vem a chuva a vontade que dá é se esconder embaixo do cobertor e ficar olhando ela cair através dos vidros da janela, mas lembre-se que não é só a chuva que está de passagem, você também está! E todo tempo é precioso no lugar em que você está; aproveite-o, olhe ao redor, descubra o que tem de ser feito e faça bem-feito, não deixe que o frio ou a incerteza quanto ao clima te desanimem. Apenas faça o seu melhor e quando a chuva passar, todos vão Ter o sol e você ainda terá uma recompensa.
Todos sabemos que espiritualmente estamos na Terra passando uma chuva. O vento castiga, o frio incomoda, os pés doem e sofremos com a ânsia de encontrarmos descanso. Jesus nos oferece abrigo em Sua Palavra e Amor através do teto da Igreja, onde podemos ficar como peregrinos que se protegem das intempéries. Mas se olharmos ao redor veremos que há muito para ser feito, e que afinal, nossa tarefa é de reparadores de brechas e restauradores de veredas; enquanto a chuva passa precisamos arregaçar as mangas e fazer o que deve ser feito da melhor forma possível. E quando o temporal se for, virá o Sol da Justiça, que todo olho verá, mas que dará a recompensa ao justo que labutou enquanto O esperava.
Uma semana feliz e iluminada!!

Lux Lunae

domingo, 2 de julho de 2000

De Mal Com Deus

"Jesus, porém, disse: Deixai vir a mim os pequeninos, porque deles é o reino dos céus" Mateus 19:14

Sempre detestei despedidas por serem aquelas ocasiões em que nunca se sabe ao certo o que falar ou fazer. Mas a que mais me marcou em sua tristeza foi quando fui me despedir de uma prima minha de oito anos, pouco antes de eu vir para São Paulo.
Nossa admiração mútua sempre foi muito forte, e, enquanto ela projetou em mim o modelo da "gente grande" que ela quer ser, eu me orgulho da intrepidez e coragem com que ela defende seus sonhos e opiniões. Não estou bem certa do que ela vê em mim que a faça se sentir movida a me imitar, mas meu especial amor por ela cresceu do fato dela ter muito do que eu queria ser e já não consigo.
Assim, ela diz para todos que quer ter um quarto bagunçado da mesma maneira que o meu (!) e eu me declaro fã de sua impetuosidade com as palavras. Ela me pedia para que eu a ensinasse a usar a internet para que ela também passasse o domingo inteiro na frente do computador e eu suspiro querendo aprender como ela faz parecer tão fácil defender a justiça sem o menor medo ou pudor. Eu a convenci a suportar os estudos que ela tanto detesta a fim de se tornar uma boa veterinária e ela, sem saber, sempre me dava uma tremenda ajuda emocional e espiritual; eu contava meus problemas para ela e ela me dava uma análise clara e simples da situação.
Antes de eu vir ela insistiu muito para que eu ficasse e me ameaçou de todas as formas: desde entrar na minha mala até ficar de mal comigo. E como eu não cedi, ficou de mal mesmo, de modo que a última vez que vi seu rostinho, ele estava triste, choroso e com um bico "destamanho". O que fez aliviar o nó na garganta que eu fiquei diante desta visão foi a lembrança das vezes que eu mesma fiquei de mal com uma pessoa que eu amo muito: meu pai.
Eu era a "quebradeira oficial" de vasos, abajures louças, porcelanas, cristais, vidros e afins. Esta propensão para o desastre que me acompanha até hoje, me rendeu muitos castigos e, quando minha inquietude curiosa e desastrada ultrapassava todos os limites, meu pai providenciava "carões" e surras bem duros. Eu ficava com muita raiva e prometia a mim mesma que nunca mais falaria com ele, que estava de mal e lhe seria completamente indiferente, "pra ele ver o que é bom pra tosse". Acontece que o outro dia vinha e nós tínhamos por hábito recebe-lo todas as tardes ao portão, correndo e abraçando-o com força, e aí, tudo era folia e brincadeira até a hora do jantar. E nessas horas eu sempre esquecia que estava de mal com ele e corria com a mesma euforia em sua direção. Às vezes até lembrava, mas já estava abraçando-o, e então não adiantava mais... "Ah, mas ele é tão bom! Vou dar mais esta chance pra ele", eu pensava. E no máximo fazia um biquinho para ganhar mais dengo...
Depois de algum tempo, percebi que as crianças tem essa tendência natural para o perdão, porque elas não gostam de perder tempo com coisas tristes, e a sua lógica é que vale a pena deixar o amor prevalecer, mesmo que ela não consiga entender porque não pode fazer tudo que quer e ter tudo o que deseja. Acho bem provável que este seja um dos grandes motivos por que vale a pena ser uma criança espiritualmente. Depois de fazer minhas traquinagens, eu, por vezes, me aborreci por Deus permitir que eu sofresse as conseqüências delas, sem falar naquela birra infantil que nos leva a pensar que "se Deus me ama mesmo Ele bem que poderia me deixar fazer tudo o que quero sem pegar no meu pé depois". Então ficava de mal e me fechava para qualquer trégua. Mas sabem de uma coisa? É impossível ver um Deus sorrindo de braços abertos para mim logo depois de eu ter aprontado com Ele e continuar fazendo tipo. O melhor é reconhecer que eu errei e Ele tem sempre razão. O melhor, com certeza, é correr rapidinho para a paz reconfortante de Seus braços e aproveitar a alegria de ter um Pai assim tão bom.
Se você está em dúvida porque já esqueceu como é ser criança (cuidado: o primeiro sinal de que se está velho é esquecer as coisas; o segundo é...... não lembro!), vai por mim: dá uma chance pra Ele. E nem precisa fazer biquinho, porque Ele vai te amar com toda força de um Deus que é Amor. Basta que você se permita correr agora em Sua direção.
Ah! Recebi um pequeno cartão da minha prima esta semana. Ele diz assim: "Luciana, Quero te dizer que estou com saudade e queria lhe dar um abraço bem forte. Por último queria lhe dizer que te amo muito e também queria dizer que volte logo!"
Uma Semana Feliz e Iluminada

Lux Lunae

domingo, 25 de junho de 2000

Mais uma Definição de Amor

“Em Gibeão apareceu o Senhor a Salomão de noite em sonhos, e disse-lhe: Pede o que queres que eu te dê.” I Reis 3: 5

Amar é realizar sonhos.
E, muito embora eu concorde com o Machado de Assis quando ele diz que todas as definições de amor não valem um beijo, acho que esta em particular me tem um significado especial, por ser a conclusão de uma história não menos especial, contada pela minha avó. Acho inconcebível almoçar na casa da avó (minha ou de quem quer que seja) e não degustar como sobremesa uma boa história (às vezes com ares de estória), daquelas bem antigas, contadas de uma maneira... entre solene e misteriosa. Numa dessas oportunidades, na casa de minha avó Cecília, ouvi-a contar do seu casamento com meu avô Enéas (- "Deus o tenha", ela diria).
Meu avô tinha um espírito aventureiro, que o impedia de se fixar em qualquer lugar ou situação, sempre a buscar novos desafios, e não media esforços para atingir suas metas, mesmo tendo de enfrentar as mais ferinas oposições. Foi lavrador e comerciante, chegou a ser considerado um homem de posses, com uma vida estável e bem sucedida, mas parecia aborrecer incomensuravelmente a rotina, pois deixava tudo para trás e ia tentar algo diferente e novo em outro lugar. Minha avó sempre o acompanhou, junto com os 13 filhos (se não me falha a memória). Ela não dispunha do mesmo espírito aventureiro. Antes, tudo o que queria era que seu marido se aquietasse e tratasse de criar os filhos com ela, sossegadamente. Murmurava, reclamava, ameaçava, mas acabava sempre cedendo às empreitadas "destemperadas" do meu avô. Passou privações ao lado dele, chegou a dormir com a ninhada de filhos debaixo de uma árvore, morou em casa de taipa, passou fome e teve que esquecer muitos caprichos típicos de mulher. Minha mãe conta que o cardápio, em muitas épocas, a fazia saborear feijão branco cozido no sal, com um peixinho chamado traíra todos os dias e barro na sobremesa. Minha avó só viu "seo" Enéas se aquietar quando um câncer no pulmão o fez descansar, depois de uma longa história de vitórias e derrotas que deixaram um caráter lutador na minha família materna (aguçado pela herança genética, que faz "certas parentas" serem identificadas como "clones" dele).
Pensei no meu avô enquanto estou sentada numa praça que não sei o nome, em frente a uma escultura no mínimo bizarra, perto da Av. Nove de Julho. Lembrei que ele também teve o sonho de vir a São Paulo e essa foi a maior prova de amor que minha avó lhe deu; para permitir que ele realizasse mais esse sonho, suportou um ano de ausência do seu amado, e ainda teve de encontrar forças na solidão para crias os filhos, administrar os gastos e agüentar comentários maldosos. Parei para pensar em quantas pessoas me apoiaram para que eu também pudesse estar aqui, tentando decifrar essa escultura paulista e lutando por novos ideais. Algumas em especial se dispuseram a abnegar o que fosse preciso em prol do meu sonho , sem obter ressarcimento. Intrigada com esta capacidade de se dar para realizar sonhos, recorro mais uma vez à minha avó, lembrando da sua expressão de felicidade ao chegar no fim da história. E a explicação me vem numa frase musical: "Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade."
Somente o amor é capaz de tornar os sonhos reais, e quando esse amor é fruto de uma parceria, o sonho também se torna conjunto, a felicidade de o realizar é partilhada na mesma intensidade. Os objetivos, assim como as vidas, se fundem, e correm na mesma direção, sendo que o amor é a energia que faz as coisas acontecerem, que faz as abnegações não fazerem a menor falta, que faz os sacrifícios possíveis e até mesmo a dor ser encoberta pela felicidade de ver o sonho do outro acontecendo.
Penso agora em um Deus Pai com um grande sonho: criar uma humanidade para viver eternamente, plena de felicidade e paz. Imagino-o partilhando Seu sonho com o Filho e o Espírito Santo que, por possuírem o Amor Perfeito, formam a Unidade Perfeita, e consigo vislumbrar o gozo em criarem a projetarem tudo para que esse sonho acontecesse. Agora posso imaginar o pesar que tomou o coração do Pai quando o pecado ameaçou destruir Seu sonho, e a esperança que encheu o céu, quando Jesus, disposto a realizar o sonho do Pai - sonho Seu também, devido ao vínculo de amor - decidiu tornar-se homem de dores, ser maltratado e rejeitado na terra e morrer, abnegando Sua divindade e toda a honra e glória que Lhe são devidas.
Não é preciso muito esforço para lembrar de todos os sonhos que Jesus realizou para mim. E aqueles que eu não realizei foram os mesmos que eu sonhei só, "sonhos que se sonha só", mas todos que eu entrei em parceria com Ele e dividi, e partilhei, sem exceção, tornaram-se reais, como todo "sonho que se sonha junto".
Se você ainda não experimentou essa parceria, tente! Se você já sentiu o quanto ela é poderosa, faça como eu, reafirme hoje o desejo de estar sempre ao lado de Cristo, aquele que tem amor tão grande que é capaz de realizar todos os sonhos. Ah, e sonhe grande, bem alto mesmo, sem medo, pois estamos falando do Rei dos Reis e Deus Todo-Poderoso. Una seus ideais aos de Cristo, deixando que Ele dirija ao acontecimentos, e depois me fale se você conseguiu o que queria... A promessa é certa: "Pedi e dar-se-vos-á."
Estou certa que na Nova Jerusalém, onde o sonho de Deus vai ser uma realidade partilhada por todos os que O amam, nós teremos muitos almoços na casa dos meus avós, recheadas de histórias de amor: deles, minhas e suas.
Uma Semana Feliz e Iluminada!!

Lux Lunae

domingo, 18 de junho de 2000

Lembrando com pedras brancas

“Guarda-te para que não te esqueças do Senhor teu Deus... antes te lembrarás do Senhor teu Deu , que é Ele que te dá força para adquirires poder; para confirmar o Seu concerto, que jurou a teus pais ; como se vê neste dia” Deuteronômio 8: 11 e 18

Semana passada tive o prazer de degustar um gostoso e nutritivo almoço na casa da nossa amiga geana Pilocarpina, e logo após a refeição me deparei surpresa com algumas fotografias que a mãe dela tirou há uns quatro anos quando esteve a passeio em Natal. Cada paisagem que eu via me remetia às mais profundas lembranças, cada lugar que eu identificava era uma voz doce me contando a minha própria história. Uma das fotografias mostrava a praia de Areia Preta (cuja areia não é preta; certamente quem deu este nome ainda não havia visitado Santos) e num cantinho, o velho ponto de ônibus junto à casa em ruínas. Meu coração apertou mais forte diante deste quadro e todas as lembranças que ele me trouxe. Este ponto de ônibus era o último, portanto o mais afastado e o mais próximo à parte mais isolada e bonita da praia. À direita ficavam as ruínas de uma velha casa, e seu alicerce nos olhava com ares de imponência, como uma altiva senhora idosa cujo olhar soberbo é o último sinal de grandeza, negado pelo decrépito corpo. O alicerce terminava bem em frente a rochas escuras e pontiagudas onde as ondas vinham quebrar furiosamente. Ali, no cantinho do alicerce, olhando o mar bravio, duas mentes não menos bravias se encontravam às tardes num namoro filosófico. Hehehe, foi o termo mais próximo que eu encontrei para adjetivar meus encontros com Roberto. Eu tinha treze anos, ele, vinte e oito, mas estávamos unidos por uma criticidade aguda e por uma mania incurável de buscar o porquê a solução das coisas. É certo que chegávamos a bem poucas conclusões, mas divagávamos sobre todas as facetas da natureza humana, da sociedade, do sistema vigente. Eu estava acabando de descobrir o mundo ao meu redor , e tinha uma fome indevassável de estudar e entender. Assim, tudo era matéria-prima para nossas mentes artesãs; o homem era dissecado em nossas análises tão amadoras mas que julgávamos a verdadeira pedra filosofal. Lembrei do dia em que terminamos o namoro ( o mesmo dia em que decidi me batizar da IASD) e ele me deu uma pedrinha branca, cuja função, segundo ele, era ser o nosso memorial. E aí filosofamos pela última vez a respeito da memória. Ele me falou que ao olhar aquela pedra eu não deveria usar apenas minha memória passiva e lembrar de fatos isolados, como que abrindo um arquivo no computador, mas usar minha memória afetiva e asociar cada fato desse a um sentimento significativo, reviver cada lembrança não como parte do passado, mas com a certeza de um sentimento presente e por ser eterno (segudno ele), projetando-o e celebrando-o para o futuro. Depois desse dia aprendi a guardar pequenos memoriais de cada fato importante da minha vida, assim, consigo reviver o sentimento marcante com exatidão, apenas fechando os olhos e tocando uma flor seca, um guardanapo, um chaveiro, uma pedra, um limão, uma escova de dentes...
Ao nos criar, Deus sabia que certas experiências deixam marcas incisivas em nossa psique, marcas que são reativadas com o sentimento correspondente quando nos colocamos diante de algo que simbolize ou faça analogia a elas. Por isso providenciou para Seu povo uma série de memoriais que servissem de aliança entre Ele e os Seus. O pecado corrompeu também nossa memória, de modo que somente uma memória convertida é capaz de fazer lembrança das bênçãos de Deus como parte do presente e do futuro, celebrando-as como marcas indissolúveis de um amor infinito. Sabendo o quanto somos propensos a esquecer Suas dádivas e o significado delas em nossa vida, Deus utiliza com frequência o termo: “Lembra-te...”.
O povo hebreu é o maior exemplo disso. O hebreu cria e firmava sua fé não pela força d complexos argumentos racionais ou provas teológicas doutrinárias; sua convicção vinha da experiência com deus, a vivência das bênçãos divinas celebrada sempre e passada de geração à geração. “Lembra-te de todo caminho que o Senhor teu Deus te fez percorrer durante quarenta anos no deserto”. Dt 8:2. E o hebreu não apenas recordava, mas “fazia memória” de sua experiência, tornando os fatos objeto de culto e louvor, tornando-os parte do presente e certeza para o futuro, renovando o eventos no tempo , no significado e na eficácia. E o hebreu acreditava, porque seus olhos viram (Dt. 11:3 - 7), porque seus pais lhe contaram (Dt. 32:7), porque sua experiência com Deus era mais que lembrança passiva; era fonte de nova e constante bênção ( Dt 8). E a fé do hebreu crescia de forma extraordinária; uma fé simples mas eficaz cujo segredo de ser inabalável estava em ser uma fé pessoal , não teórica, mas “solidamente ancorada na vida, capaz de dar a Deus um nome e traços a ao Seu semblante”.
Nossa fé perde a força quando deixamos de fazer memória da nossa história com Deus, quando não damos o significado verdadeiro às grandes e pequenas alianças que Ele fez conosco. Percebi isso certo dia quando uma amiga minha me procurou angustiada, dizendo-se não estar mais apaixonada pelo seu marido, e por causa disso estava vendo a aliança do casamento se quebrar. Isto é um exemplo comum de memória enferma, que não lembra ou lembra apenas parcialmente dos fatos que conduziram à aliança, não interpreta o que recorda, não ama nem contempla as lembranças das provas de que o amor existe e está bem mais próximo que se imagina. Falei isso a ela e pedi que ela lembrasse de todas as qualidades do marido que a fizeram se apaixonar por ele, que as listasse num papel e que as lesse todos os dias , se esforçando por achar novas qualidades cada vez que as lesse. Que orasse agradecendo a Deus pelas qualidades do seu marido e todas as boas lembranças que ele lhe proporcionou, louvando ao Pai pelo homem que ela escolheu para ser seu companheiro. Faz algum tempo que perdi o contato com ela, mas da última vez que tive notícias dela eu mesma louvei a Deus por um caso a menos de adultério da Igreja.
Crescer na fé significa cada dia fazer memória da benevolência divina. Deus sabe tanto dessa nossa necessidade espiritual que nos deu um dia inteiro como memorial da criação e redenção, para ser dedicado exclusivamente à contemplação de Sua divindade. A escritora Ellen White, baseada em sua própria experiência espiritual, aconselha em um de seus escritos a reservarmos pelo menos uma hora diária para o exercício da contemplação do amor de Deus revelado por Sua Palavra. E também afirma com a convicção de uma fé pessoal , que “nada temos a temer quanto ao futuro a menos que nos esqueçamos o modo como Deus nos guiou no passado”. Isso é converter nossa memória a Deus. E quanto mais o tempo passar , mais seremos capazes de lembrar tudo , guardar na mente e coração tudo o que os nosso olhos viram e os ouvidos ouviram. A memória afetiva que carregamos conosco nos fará capazes de enfrentar qualquer circunstância da vida confiando que nosso Deus é Pai e Senhor, e ainda que o mundo nos rejeite, Ele será conosco.
Um dia, ao lado de Cristo no céu, nossas lembranças já não serão objeto de celebração, mas apenas peças de um quebra-cabeças que se revelará perfeitamente, e nós mesmo alcançaremos a memória restaurada com a qual uma vez fomos criados. Entenderemos então a dimensão da memória de um Deus que nos tem gravados nas palmas das mãos.
Hoje já não tenho a pedrinha branca que Roberto me deu, ainda que guarde a lembrança dele com carinho. Mas guardo comigo a fé em um Deus que nos prometeu por memorial de nossa vitória: “Ao que vencer... dar-lhe-ei uma pedra branca, e na pedra um novo nome escrito” (Apoc. 2:17), para levarmos conosco para sempre esta aliança de Seu amor eterno.
Uma semana feliz e iluminada!

Lux Lunae