quarta-feira, 25 de maio de 2005

40 dias procurando Luz - Dia 11

Texto Bíblico do dia:

I Tessalonicenses 4:1-2 - "Finalmente, irmãos, vos rogamos e exortamos no Senhor Jesus que, como aprendestes de nós de que maneira deveis andar e agradar a Deus, assim como estais fazendo, nisso mesmo abundeis cada vez mais. Pois vós sabeis que preceitos vos temos dado pelo Senhor Jesus."
Marcos 11:20 - 24 - "Quando passavam na manhã seguinte, viram que a figueira tinha secado desde as raízes. Então Pedro, lembrando-se, disse-lhe: Olha, Mestre, secou-se a figueira que amaldiçoaste. Respondeu-lhes Jesus: Tende fé em Deus. Em verdade vos digo que qualquer que disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar; e não duvidar em seu coração, mas crer que se fará aquilo que diz, assim lhe será feito. Por isso vos digo que tudo o que pedirdes em oração, crede que o recebereis, e tê-lo-eis."

O programa de Deus para a minha vida hoje:

Ter fé.

Meditando:

Algumas vezes sou dominada por um perfeccionismo teimoso. Agendo datas, programo horários, planejo mil atividades segundo uma ordem rigorosa, simétrica, perfeita conforme meu conceito cartesiano de perfeição. E muitas vezes tudo ocorre diferente do que eu esperava, algumas vezes porque era algo que não dependia só de mim, outras vezes porque eu não estava em condições de realizar aquilo que havia planejado da melhor forma naquele momento, e Deus providenciou para que eu terminasse aquilo depois.

Muitas vezes, por exemplo, desejei escrever um sermão inspirado naquele exato momento. E o sermão simplesmente não saiu. E eu fiquei triste, pensando: "Ô, Deus, cadê a inspiração que me prometeste?". Só depois eu conseguia enxergar que era preciso que eu passasse por certos fatos durante o dia (ou dias) para compreender melhor certas idéias e desenvolvê-las de um modo mais profundo por causa da minha experiência. Ontem mesmo me vi diante do computador querendo escrever esta reflexão a qualquer custo, forçando a mente para organizar e desenvolver idéias que não vinham. E quando o desânimo já começava a bater, veio pensamento: "talvez agora não seja o melhor tempo". De fato, percebi que estava com muito sono, não podia me conectar plenamente com Deus daquela forma e Sua negativa quanto a uma inspiração naquele momento era um claro "Eu sei do que você precisa, e agora você precisa descansar". Fui dormir pensando nisso, e daí veio a inspiração necessária para escrever.

Um dos nossos maiores defeitos é querer entender a Deus segundo nossos conceitos humanos de certo e errado, bom e mau, conveniente ou inconveniente, perfeito e desastroso. É como no canto. Numa das minhas primeiras aulas de técnica vocal minha professora alertou: "Confiem inteiramente na minha orientação. Às vezes você vai achar que está cantando lindo, e estará na verdade horrível. Outras vezes você se ouvirá cantando horrivelmente, e será esse exatamente o som correto a emitir." Na nossa vida espiritual também é assim. Às vezes achamos que estamos fazendo tudo certinho, e que Deus está orgulhoso de nós, mas de repente Ele nos mostra que não está tão feliz assim. Outras vezes achamos que nosso caso não tem solução, que somos os piores pecadores, e então encontramos a Deus em toda a Sua força.

Temos de estar atentos para o fato de que o homem tem deturpado tudo o que Deus nos deu. Ele nos deu alegria, o homem transformou-a em mera diversão. Deus nos deu amor, o homem transformou-o em egocentrismo. Deus nos deu prazer, o homem vinculou-o a autodestruição. Deus nos deu sentidos, o homem inventou meios de saturá-los ao invés de desenvolvê-los. Deus nos deu vida em abundância, o homem preferiu o lucro. Deus nos deu paz, mas não como o mundo a dá. Deus se deu ao homem, o homem se fez ídolo e matou a Deus. Depois de afastar-se tanto dos conceitos originais de Deus, mesmo o homem que quer voltar tem um caminho longo e acidentado a percorrer. Em nenhum momento podemos confiar em nosso próprio julgamento, seja quanto as circunstâncias da vida, seja quanto aos outros, seja quanto a nós mesmos. Temos de confiar apenas nas orientações dEle porque nós, tanto quanto os algozes de Cristo no Calvário, não sabemos o que estamos a fazer. (Lucas 23:34)

Deus respeita profundamente minhas limitações, por menores que me pareçam (a ponto de eu nem conseguir vê-las), e entra em cena quando estou preparada para superá-las. Por isso ao invés de me sentir frustrada, tenho procurado ver o respeito que Deus tem por mim agindo em minha vinda, guiando-me segundo o que Ele sabe ser o melhor para mim, e não o que eu penso ser. Embora nós, por outro lado, temos desaprendido gradativamente a desrespeitar tudo ao nosso redor e a nós mesmos, Ele é capaz de nos reintegrar no Seu plano original e corrigir - também gradativamente - essa grande soma de achismos, enganos e preconceitos que dominam nossa vontade.

Minha oração hoje é que eu tenha fé para permitir que Deus me conduza suavemente em cada pequena situação. Fé para não permitir que eu crie maneiras de tentar impressioná-lO ou parecer grande o suficiente. A figueira que parecia grande o suficiente acabou seca. Andar com Ele é a melhor forma de agradá-lO.

terça-feira, 24 de maio de 2005

40 dias procurando Luz - Dia 10

Texto Bíblico do dia:

Jeremias 17: 7 e 8 - "Bendito o homem que confia no Senhor, e cuja esperança é o Senhor. Porque é como a árvore plantada junto às águas, que estende as suas raízes para o ribeiro, e não receia quando vem o calor, mas a sua folha fica verde; e no ano de sequidão não se fadiga, nem deixa de dar fruto."

O programa de Deus para a minha vida hoje:

Acreditar que Ele me busca antes de eu buscá-lO.

Meditando:

Todo mundo conhece aquele ditado que diz que não podemos passar pela vida sem plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho. Por incrível que pareça, para mim tem sido mais difícil conseguir plantar uma árvore! E não é por falta de tentativas. Desde criança gosto de mexer com plantas. Mas mesmo aquelas experiências de fazer germinar um feijão no algodão úmido, que a gente fazia na escola, não davam muito certo. Quando eu me animava para plantar o pé de feijão no quintal, vinham os pardais e comiam os brotinhos. Outros simplesmente cismavam em não germinar. Até que eu resolvi começar tentando pelos livros...

No entanto faz pouco mais de um mês e ganhei uma planta de presente. Não é uma árvore em cuja sombra se possa abrigar com os netos depois de alguns anos. Na verdade é apenas um arbusto - um pé de capim-santo - que uma amiga me deu porque descobriu que eu gostava do chá de suas folhas. E acrescentou: "Olha, não precisa se preocupar porque essa planta pega fácil, fácil. É só plantar e deixar lá que ele cresce sozinho". Fiquei feliz com a perspectiva e arranjei um cantinho pra o arbusto no meu quintal. E não é que ele "pegou" mesmo? Suas folhas foram crescendo devagar, e em pouco tempo ele já dava para colher suas folhas para fazer chá. Que Beleza!

Mas eu não contava com as chuvas de maio. Recife está sendo inundada por chuvas torrenciais, dando à cidade um aspecto pós-diluviano e nos ilhando em casa - quando a casa também não está debaixo d´água. Meu quintal não escapou. Como a grande maioria do solo recifense é área de mangue aterrado, a terra retém a água facilmente; ela não tem onde penetrar porque o solo já é muito encharcado. Logo, meu quintal virou uma graciosa lagoa, habitada por plantas e bichos estranhos, e onde as muriçocas fazem festa e procriam alegremente. Como você pode imaginar, meu pobre pé de capim-santo está no meio da lagoa, e a essa altura morre afogado, as folhas apodrecendo lentamente debaixo d ´água enquanto eu volto a tomar chá de saquinho.

Tem coisa mais triste para uma planta que morrer afogada? Nós estamos acostumados a vê-las morrer por causa da seca, não por causa da chuva. Por isso, decerto, Jeremias comparou nossa esperança no Senhor com a planta que se nutre junto às águas do Seu amor, e nelas busca força para resistir nos tempos difíceis, de provas e desalento. Mas é triste perceber que algumas árvores da "plantação do Senhor" (Isaías 61:3) estão sujeitas a morrer afogadas - cercadas de bênçãos por todos os lados, mas incapazes de absorvê-las.

Falando objetivamente, me refiro aos cristãos que não aprenderam a ser gratos. Embora até agradeçam a Deus por uma ou outra coisa, estão com seus olhos sempre voltados para o que não têm, para o que não conseguiram, para o que não são, e assim deixam de ver tudo que têm, conseguiram e são, por obra e graça de Nosso Senhor. Falo de uma postura de gratidão frente a vida. Isso não significa agradecer somente esporadicamente, um agradecimento seco e geral. Uma postura de gratidão produz santa curiosidade, que procura em tudo, tudo mesmo que nos acontece, um motivo para louvar a Deus. Trata-se de tentar desvendar a lógica divina, vendo os fatos de nossa vida por uma lente mais ampla, que abrange todo o plano da salvação, e não apenas nossos desejos. É nesse momento que muitas bênçãos se revelam onde antes havia dúvida, temor, problema. Quem assume essa postura, freqüentemente se pega louvando a Deus mesmo depois de um acontecimento aparentemente negativo. O Espírito Santo trabalha na mente de modo a conduzí-la até uma causa divina. E nunca se conforma com um "porque Deus quis". Muitas vezes, percorrer o caminho até a causa dura anos, décadas, uma vida inteira e, creio, levará às vezes metade de uma eternidade. Mas enquanto isso, a postura de gratidão condiciona a crer. E louvar sempre, pela convicção de que somos instrumentos em Suas mãos, e Ele sabe cuidar de nós.

Pensamos que a confiança produz gratidão, mas freqüentemente é a gratidão que produz confiança. É de um coração agradecido a Deus que surge a fé para mover montanhas e subir tantas outras. Por isso que louva tem mais fé, e mais bênçãos: suas raízes espirituais estão sempre prontas a absorver o que o Infinito lhes dá . A terra em que está firmada, jamais se encharcará. Na seca ou no tempo de chuva, esta árvore estará segura, frutificando e crescendo para honra e glória de Deus.

segunda-feira, 23 de maio de 2005

40 dias procurando Luz - Dia 09

Texto Bíblico do dia:

Atos 11: 19-21, 26 - "Aqueles, pois, que foram dispersos pela tribulação suscitada por causa de Estêvão, passaram até a Fenícia, Chipre e Antioquia, não anunciando a ninguém a palavra, senão somente aos judeus. Havia, porém, entre eles alguns cíprios e cirenenses, os quais, entrando em Antioquia, falaram também aos gregos, anunciando o Senhor Jesus. E a mão do Senhor era com eles, e grande número creu e se converteu ao Senhor. E durante um ano inteiro reuniram-se naquela igreja e instruíram muita gente; e em Antioquia os discípulos pela primeira vez foram chamados cristãos."

O programa de Deus para a minha vida hoje:

Que as pessoas possam perceber que sou cristã.

Meditando:

Um dos propósitos de Deus na vida dos cristãos é fazê-los desenvolver uma crescente dependência dEle. Quanto mais dependermos de Deus, mais perto estaremos do Seu plano para nossa vida. E nesse sentido, dependência é sinônimo de força e estatura espiritual. Acontece que o ser humano tem problemas em administrar seu instinto de dependência: ou ele simplesmente o elimina, como se descartasse uma fraqueza, ou ele projeta sua dependência em cima de outro ser humano tão ou mais falho que ele. E, nesse sentido, a dependência é perniciosa e má.

Nos meus primeiros anos de fé adventista, eu conheci um pastor que se tornou um bom amigo, embora não tivéssemos muito tempo de conversar. Também, pudera, era impossível falar com ele após o culto, a menos que eu me dispusesse a enfrentar uma fila quilométrica, e mesmo em casa o telefone estava sempre tocando, impedindo qualquer diálogo de se aprofundar. Tenho certeza que se eu pedisse, ele reservaria um tempo para conversar comigo, mas o fato de vê-lo sempre tão ocupado me dava a sensação de que pedir isso seria incomodá-lo, ainda que ele não pensasse assim. Logo, nossas conversas eram curtas (mas proveitosas), e muitas vezes eu fazia companhia a sua esposa enquanto ela o esperava pacientemente na saída da igreja. Vê-la sentada ali, olhando sempre carinhosamente para seu marido sem poder chegar perto para dar-lhe um carinho me comovia bastante. Ela não desejava ir embora sem ele. E enquanto o esperava me falava do quanto era apaixonada por aquele bigodão. Por causa dela ficava mas fácil esperar meu namorado, então ancião, que saía um pouco antes do pastor...

Hoje, pensando uma vez mais sobre a igreja, essas cenas me vieram a mente e encontraram eco no texto bíblico que Deus selecionou para mim. A imagem de dezenas de membros cercando o pastor em busca de resposta me lembraram as primeiras palavras do texto: "Aqueles, pois, que foram dispersos pela tribulação suscitada por causa de Estêvão". A esposa do pastor, falando apaixonadamente dele, demonstrando com isso estar mais unida a ele que os que estavam mais próximo, me lembrou as últimas palavras do texto: "E durante um ano inteiro reuniram-se naquela igreja e instruíram muita gente; e em Antioquia os discípulos pela primeira vez foram chamados cristãos."

Porque muitos daqueles que cercavam o pastor estavam querendo tratar de assuntos administrativos, assuntos que o pastor seria mesmo a pessoa mais indicada a aconselhar e resolver. Mas muitos outros o buscavam antes mesmo de consultar a Deus, de orar perguntando Sua vontade, de abrir-lhe o coração e entregar-se a Ele. Buscavam o pastor porque dependiam dele para saber o que era certo e o que era errado, mesmo tendo a Palavra de Deus como o melhor guia à disposição de suas mãos. E esse tipo de dependência só os fazia mais e mais dispersos: mesmo obtendo uma resposta sensata do pastor, não teriam condições de praticá-la até que buscasse verdadeiramente a Deus, e isso o pastor não podia fazer por eles, ainda que quisesse. Mesmo homem mais ungido não pode dar a outrem a vida espiritual que estes não têm - e não querem. Quando vem a tribulação eles se dispersam e andam errantes pedindo "ore por mim", sem no entanto acreditar que Deus os ouve, sem colocar os próprios joelhos no chão. Como Deus pode responder a oração de fé de alguém por outro alguém que não O busca? Ele está ansioso por isso, mas não encontra um caminho para percorrer até esse coração!

Isso no entanto não foi o que aconteceu aos seguidores de Jesus. Da dispersão eles resolveram se ajuntar e seguir pregando a Palavra de Deus, dependendo inteiramente dEle para isso. Havia perseguição. Havia as dificuldades de andar em terra estranha, com uma língua e cultura desconhecidas, sem estrutura nenhuma que os acolhesse, mas eles faziam sua parte e deixavam que Deus fizesse a dEle, consultando e confiando, estudando e praticando, pedindo e recebendo. "E a mão do Senhor era com eles". Quando eu olhava a esposa do pastor falando apaixonadamente e unida a seu marido apesar das barreiras entre eles, eu via amor. Quando o povo via os filhos de Deus unidos e falando apaixonadamente dEle ("durante um ano inteiro reuniram-se naquela igreja e instruíram muita gente"), diziam "Vede como se amam!" ( Tertuliano, Apologético, 39,7). Não dividiam apenas um espaço físico e cumpriam ritos, eles estavam unidos apesar das barreiras, e falavam sobre o amor do Deus que sabiam que podia derrubá-las. E por causa desse amor os chamaram cristãos.

Não pode haver amor sem dependência embora haja dependência sem amor, e é isso que faz a diferença entre um cristão e alguém infeliz. Depender de Deus produz união entre os irmãos e vontade de falar dEle para todo o mundo. Produz sensatez e discernimento para tomar decisões ao reconhecer nelas a Vontade de Deus. Produz segurança de estar servindo ao Deus Vivo por amor e sentido uma enorme alegria de fazê-lo. Produz os dons do Espírito, e uma ânsia para buscar Sua voz, ouví-la e seguí-la. Nisto está o amor. Quando nossa igreja estiver vivendo esse amor, unida e pregando as Boas Novas de um Deus que se conhece pessoalmente, o mundo saberá novamente o que é ser cristão.

domingo, 22 de maio de 2005

40 dias procurando Luz - Dia 08

Texto Bíblico do dia:

II Tessalonicenses 3: 1 - 5 - "Finalmente, irmãos, orai por nós, para que a palavra do Senhor se propague e seja glorificada. como também o é entre vós, e para que sejamos livres de homens perversos e maus; porque a fé não é de todos. Mas fiel é o Senhor, o qual vos confirmará e guardará do maligno. E, quanto a vós, confiamos no Senhor que não só fazeis, mas fareis o que vos mandamos. Ora, o Senhor encaminhe os vossos corações no amor de Deus e na constância de Cristo."

O programa de Deus para a minha vida hoje:

Manter meu coração no amor de Deus e na constância de Cristo, para que a Palavra do Senhor se propague e seja glorificada.

Meditando:

Hoje nós decidimos caminhar. Demorou, mas decidimos. Já faz uma semana que não fazíamos nossa caminhada vespertina por causa das chuvas, que ainda estão caindo, provocando um magnetismo quase irresistível entre os corpos e suas respectivas camas. Nenhum de nós dois estávamos muito motivados a sair de casa, mas algo nos impeliu. E lá fomos nós.

Encontramos com uma lua linda. Primeiro, espreitando curiosa numa fenda entre duas grossas nuvens, depois se mostrando completa e perfeita na abóbada azul. Encontramos com a lua, e Deus estava nesse encontro. Encontramos também inesperadamente com uma árvore que produz minhas flores preferidas. E Deus estava nesse encontro. Por fim, encontramos com uma irmã querida, que já não víamos há algum tempo, e Deus estava mais uma vez na beleza desse encontro.

Ela nos contou que havia orado a Deus durante a tarde pedindo que Ele lhe mostrasse que ainda havia um modo de voltar ao caminho que Ele traçou para ela. Contou do modo como sua vida tem sido uma sucessão de tribulações nos últimos tempos, como tem se sentido fraca, e tem tido saudades de Deus. Ela nos disse que sua imagem de felicidade ficou dos momentos em que nos reuníamos para estudar a Bíblia - algo tão simples! - e suas lágrimas falaram que ela ainda desejava ter de novo aquela paz. Quem passasse por aquela avenida talvez não compreendesse o quadro: ela chorando, nós dois sorrindo. Mas estávamos os três profundamente agradecidos a Deus. E Ele estava ali, onde sempre esteve: no nosso caminhar.

"Eu sei, ó Senhor, que não é do homem o seu caminho; nem é do homem que caminha o dirigir os seus passos." (Jeremias 10:23). Não precisamos necessariamente saber para onde estamos indo, mas com Quem estamos indo. Nossa parte é prosseguir caminhando, e o Espírito Santo nos fará ver a Deus ao longo do caminho nos encontros formidáveis que prepara para nós. "Quando caminhares, isso te guiará; quando te deitares, te guardará; quando acordares, falará contigo."(Provérbios 6:22). Só temos que tomar uma decisão: caminhar. Não precisamos sequer saber onde estamos pisando. Estamos, de fato, caminhando sobre as palmas das mãos de Deus. "E guiarei os cegos por um caminho que não conhecem; fá-los-ei caminhar por veredas que não têm conhecido; tornarei as trevas em luz perante eles, e aplanados os caminhos escabrosos. Estas coisas lhes farei; e não os desampararei." (Isaias 42:16). Assim, quando o caminho parece confuso, andaremos ainda, sabendo que se pararmos, aí sim, estaremos perdidos.

Lembro que quando era criança, gostava de andar com meus primos e primas pelas dunas da praia de Muriú procurando pequenos "tesouros". Aquela paisagem de areia a perder de vista, cheia de vales e montes se abraçando nos entonteciam como um labirinto. Nós não estávamos preocupados com uma rota, mas com um objetivo: explorar a paisagem. E cada surpresa - uma raposa, um arbusto de frutas silvestres, uma árvore morta com um ninho em seus galhos - nos movia a caminhar mais e mais ainda, sem cansaço. Ao final da minha jornada espiritual, quero lembrar do meu caminho assim: um coleção de tesouros divinos que apreendi ao longo do caminhar. Não diviso início ou fim, quando contemplo o Alfa e o Ômega. Apenas caminho. Verdade e Vida me acompanharão. "Bondade e Misericórdia me seguirão todos os dias" (Salmo 23:6).

sábado, 21 de maio de 2005

40 dias procurando Luz - Dia 07

Texto Bíblico do dia:

Lucas 24:28 - 31, 44 e 45 - "Quando se aproximaram da aldeia para onde iam, ele fez como quem ia para mais longe. Eles, porém, o constrangeram, dizendo: Fica conosco; porque é tarde, e já declinou o dia. E entrou para ficar com eles. Estando com eles à mesa, tomou o pão e o abençoou; e, partindo-o, lho dava. Abriram-se-lhes então os olhos, e o reconheceram; nisto ele desapareceu de diante deles. (...) Depois lhe disse: São estas as palavras que vos falei, estando ainda convosco, que importava que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Então lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras;"

O programa de Deus para a minha vida hoje:

Estar sob a sombra da Cruz de Cristo, onde eu possa estar segura ao contemplá-la.

Meditando:

Uma das frases que mais me chamou atenção nas meditações desta semana tem a ver com o senso de primazia que damos a Deus na nossa vida, especialmente na forma como a nossa religião se manifesta nas nossas atitudes diárias. É uma frase do Pr. Morris Venden que diz: "você pode ter religião suficiente para torná-lo miserável, mas não suficiente para ser salvo". Forte não? Mas pude viver seu significado durante esta semana. Se a minha religião não serve como meio de me "religar" à Fonte da Vida eu me deixo consumir por meus problemas e preocupações até me sentir o mais miserável dos seres: "Eu não sou crente? Por que então Deus me abandonou e não me escuta, e não faz alguma coisa?". Esta pessoa não quer que Deus o salve, quer que a religião o salve. E para tanto procura cumprir todas as suas regras direitinho, sem contudo ver bênção alguma se manifestando em sua vida. No entanto, se a minha religião implica num compromisso de estar mais e mais perto do Senhor, eu poderei ver Seu poder atuando para a salvação da minha vida mesmo quando a olhos humanos tudo parecer ir mal.

No entanto, alguns cristãos podem se sentir tentados a usar a religião como forma de barganhar com Deus, de suprir frustrações da vida secular, de construir uma aparência perante a sociedade, de cumprir uma trajetória traçada por sua família, e tantas outras finalidades que acabam por arruinar a vida espiritual. Podem até mesmo esquecer qual a finalidade da religião que professam e simplesmente se acostumarem com ela enquanto ela lhes for cômoda. Quem experimenta esse tipo de vivência religiosa nunca poderá ver a Deus.

Observemos um episódio da vida de Jesus que trata desse assunto. Em Marcos 8: 11, Jesus é interpelado pelos fariseus, que lhe pedem um sinal do céu para que Ele comprove que Ele era um Messias. O texto me fez pensar na expressão do rosto de Jesus perante eles. Em como Ele deve ter ficado impaciente em lhes mostrar o quão mais profundo era o que Deus tinha a lhes dar. O quão decepcionado com aquela geração Jesus ficou, e tomado de tristeza por não poder convencer aqueles corações endurecidos da Verdade. Cristo pode se colocar diante de nós, mas não pode nos obrigar a vê-lO. Imagino Jesus deixando-os com o semblante abatido, tomando o barco com seus discípulos e olhando para eles com uma esperança doída. Então os discípulos sentem falta de pão e começam a se preocupar. Os mesmos discípulos que tinham visto Jesus multiplicando alimento para milhares de pessoas, agora concentravam o pensamento em seus estômagos. Eles sabiam que Jesus podia lhes suprir todas as necessidades. Mas não confiavam que Jesus as via. Estavam com o Cristo Vivo em pleno ministério de salvar a humanidade, mas eram eles que não viam! E agora eu posso ver Jesus com os olhos se enchendo de lágrimas, aquela vaga esperança anda mais longe, e com a voz embargada, mas ainda cheia de amor, dizendo: "Tendo olhos não vedes? E, tendo ouvidos, não ouvis?" (v. 18)

Naquele momento os discípulos estavam envolvidos pelo "fermento dos fariseus e de Herodes", ou seja, vivendo uma religião superficial, desfocada do seu real sentido, inapta para religá-los às coisas de Deus, porque fundamentada em bases meramente humanas.E as palavras de Cristo remetem ao Salmo 115: 5 - 7: "Têm boca, mas não falam; têm olhos, mas não vêem; têm ouvidos, mas não ouvem; têm nariz, mas não cheiram; têm mãos, mas não apalpam; têm pés, mas não andam; nem som algum sai da sua garganta." Um salmo que fala de idolatria. Mas é exatamente isso que a falsa religião faz com o ser humano: transforma-o em ídolo de si mesmo. Um ser com os sentidos tão longe de Deus, tão desvirtuado de sua verdadeira condição e tão vazio que comparável a um objeto inanimado. Não vêem a Deus porque não tem olhos para Ele, apenas para si mesmos!

Que diferença da verdadeira religião, aquela que nos orienta para Deus: "Vós, os que temeis ao Senhor, confiai no Senhor; ele é seu auxílio e seu escudo. O Senhor tem-se lembrado de nós, abençoar-nos-á; abençoará a casa de Israel; abençoará a casa de Arão; abençoará os que temem ao Senhor, tanto pequenos como grandes." (Salmo 115: 11-13). Confiança, fé, comunhão, gratidão, alegria, paz, bênção: o resultado de encontrar a Cristo na religião que se vive, e que se vive diariamente, nas pequenas coisas também. A verdade é que todas as coisas terrenas começam a parecer mesmo muito pequenas quando nos aproximamos do Altíssimo.

Que o Senhor abra não só os nossos olhos mas nosso coração para recebê-lO em nosso espírito, e assim obtermos vida - não essa vidinha que o mundo nos oferece -, mas vida em abundância.

sexta-feira, 20 de maio de 2005

40 dias procurando Luz - Dia 06

Texto Bíblico do dia:

Colossenses 3:15-17 - "E a paz de Cristo, para a qual também fostes chamados em um corpo, domine em vossos corações; e sede agradecidos. A palavra de Cristo habite em vós ricamente, em toda a sabedoria; ensinai-vos e admoestai-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, louvando a Deus com gratidão em vossos corações. E tudo quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai."

O programa de Deus para a minha vida hoje:

Administrar com sabedoria os meios com que Ele me abençoou para que eu tenha uma vida feliz: tempo, saúde, inteligência, religião, etc.

Meditando:

Hoje é o sexto dia de jornada. Na cultura judaica, seis é um número de inquietação. E foi assim que cheguei até este dia: com uma paz inquieta se revolvendo cá dentro do peito. A semana que passou trouxe grandes bênçãos, mas também grandes preocupações. Graças a Deus, e a este contato com Ele, essas preocupações começaram a não me parecer mais tão grandes assim. Durante várias vezes ao longo de cada dia, me peguei me policiando para não focar o pensamento nos problemas que não dependiam de mim, e deixar que Deus realmente tomasse conta deles.

Então chegou o sexto dia. Mas chegou justamente no sétimo dia da semana, e pude ouvir a voz de Deus me dizendo: "É hora de descansar!". Ele mais que ninguém, mais que eu mesma, sabia o quanto eu estava cansada. Tanto de lutar para fazer algumas coisas, como de lutar para não tentar fazer outras coisas, entre essas últimas, aquelas que eu Lhe entreguei. Por isso me recebeu no sexto dia de jornada com o sétimo dia santificado, e também com as resposta de que eu necessitava para vivê-lo em paz. No fim da sexta-feira eu e meu marido obtivemos duas respostas que irão resolver grande parte de nossas preocupações. E eu me senti como a criança que recebe o presente do Pai na melhor hora que poderia haver, embora já o aguardasse ansiosa há tempos.

Todos os dias desta semana a meditação tem nos convidado a nos revestirmos da completa armadura de Deus. Isso é convite implícito a lutar. Mas quando observamos o texto bíblico que fala da armadura de Deus, em Efésios 6 - 10 - 18, observamos que o apóstolo Paulo dá grande ênfase ao "permanecer firmes". A idéia é repetida três vezes nessa citação, e no verso treze ele explica: "para que possais resistir no dia mau e, depois de terdes vencido tudo, permanecer inabaláveis". Ou seja, não basta estar preparado para lutar, mas permanecer firme depois que a batalha acabar.

Posso imaginar o quanto era difícil para um soldado romano lutar com todo aquele aparato. Quem já viu uma armadura dessas deve ter se espantado em como um homem poderia lutar com os movimentos tão limitados por um equipamento pesado e espesso em volta de todo o seu corpo. O primeiro desafio para o soldado ao vestir a armadura era manter o equilíbrio. Depois, coordenar cada um dos seus equipamentos, de modo a usá-los em seu favor, pois caso eles não fossem bem utilizados só apressariam sua derrota. Por fim, no confronto com o inimigo, ele deveria empenhar toda a sua força e concentração para manter-se de pé e não ser atingido. Pois ainda que ganhasse a batalha poderia sair dela com ferimentos mortais, que mais tarde o levariam a perder a vida. Por isso não bastava ao soldado usar uma armadura para ir à guerra, mas passar por um período de aprendizado a fim de desenvolver habilidades e táticas imprescindíveis a sua vitória.

Esses ensinamentos também estão implícitos no texto de Paulo sobre a batalha cristã. Diariamente travamos batalhas árduas contra as forças do Mal. E ao nos revestirmos da armadura de Deus devemos ter equilíbrio, discernimento para usar as armas certas no momento certo, sabedoria para saber nos defender, força e concentração para não nos desviarmos de nossos objetivos, e principalmente sensatez para não nos colocarmos no terreno de Satanás de tal forma que ele consiga nos atingir e, mesmo não provocando uma derrota imediata, consiga nos impingir uma ferida que pouco a pouco tirará a vida de nosso espírito. Tudo isso só pode ser conseguido se ouvirmos atentamente as instruções do Grande Comandante durante toda a batalha... não adianta querer tomar a armadura de Deus para lutar sem Ele à frente.

Depois de termos vencido tudo, precisamos permanecer inabaláveis. O meu cansaço no começo do dia me fez meditar nisso. Não basta apenas lutar, mas saber descansar à sombra do Onipotente. Não basta apenas ir para a batalha com a armadura de Deus, mas deixar que o próprio Deus nos ensine - ao longo do tempo - a batalhar com ela.

quinta-feira, 19 de maio de 2005

40 dias procurando Luz - Dia 05

Texto Bíblico do dia:

João 6: 47-51 - "Em verdade, em verdade vos digo: Aquele que crê tem a vida eterna. Eu sou o pão da vida. Vossos pais comeram o maná no deserto e morreram. Este é o pão que desce do céu, para que o que dele comer não morra.Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu darei pela vida do mundo é a minha carne."

O programa de Deus para a minha vida hoje:

"Não entristeçais o Espírito" (Efésios 4:30): continuar deixando que Ele faça a obra que começou em mim.

Meditando:

E não é que o Espírito Santo me ajudou a conseguir mesmo compor uma música? Foi a minha primeira composição. Embora eu aprecie e estude música há algum tempo, me considero chata demais para me permitir compor. Mas quase de brincadeira a melodia foi saindo e... aqui está. Vou trabalhar sua harmonia, acompanhamentos e ver se consigo mostrá-la à Igreja. A letra escolhida foi uma citação de Ellen White que diariamente a meditação nos aconselha a decorar. Como não sou boa nisso e meu marido menos ainda, acredito que a música nos ajudará bastante:

"Quem usa a completa armadura de Deus e separa algum tempo cada dia para meditar e orar e também para estudar as Escrituras, estará ligado ao Céu e terá uma influência transformadora e salvadora sobre os que o rodeiam. Terá importantes pensamentos, nobres aspirações e claras percepções da verdade e da obra de Deus. Anelará pela pureza, pela luz, pelo amor, e por todas as graças celestiais." (Testemonies, vol. 5, pág. 112)

Mais uma prova do que refletir nas coisas de Deus pode nos levar a fazer: algo bom que jamais nos imaginaríamos capazes de fazer. Lembro que a primeira vez que tentei compor foi quando estudava piano com um amigo meu, e ele acreditava que eu tinha talento (era tão generoso...), por isso me incentivava a compor letras e músicas. Quanto às letras eu já tinha alguma familiaridade porque gosto muito de escrever. Mas quanto à música... embora eu até tenha tentado, o resultado foi desastroso. E antes que eu a terminasse, meu generoso amigo que também era sincero, me disse que aquela música estava positivamente muito ruim. O fato virou motivo de risada, mas também me serviu para guardar uma certa reserva quanto a arte de compor. Ainda mais depois que ampliei meus horizontes musicais, vindo a conhecer melhor os grandes mestres da música erudita: "como alguém pode se atrever a compor depois de ouvir Bach?", eu me perguntava.

Porém, enquanto era orientada a refletir na Palavra de Deus me ocorreu que eu poderia tentar compor algo para Cristo. E não tinha que ser uma sinfonia, um concerto, uma sonata, um oratório, não precisava sequer ser erudito. Só uma música que traduzisse meu sentimento diante daquelas palavras inspiradas. E neste ato de reflexão, o Espírito me falou ao coração e meu deu uma pequena mas significativa (ao menos para mim) graça.

O que é refletir? De acordo com a análise etimológica feita pela filósofa Marilena Chauí, refletir é uma palavra formada pelo radical "re", que quer dizer novamente, e "fletir", que vem de flexão, flexionar, um verbo que sugere ação. Refletir seria assim, literalmente, se debruçar novamente sobre uma mesma idéia. Refletir sobre a Palavra de Deus, seria então deter-se sobre Ela, revendo antigos (pré) conceitos e formulando novas maneiras de agir em conformidade com Seus princípios. No ato de refletir, o pecador pode encontrar na Bíblia uma resposta nova e poderosa para vencer suas fraquezas, e ainda que ache que jamais conseguiria fazê-lo, o Espírito Santo o convence de isso é possível e faz o trabalho nele. A parte daquele pecador foi apenas buscar a Bíblia para aplicá-la às suas necessidades, todo o trabalho duro é obra de Deus no espírito que se abre para Ele.

A experiência de refletir na Palavra de Deus não nos conduzirá de pronto a um caráter igual ao de Deus. Assim como eu não poderia na minha primeira composição fazer mais que um hino singelo. Mas de passo em passo vamos permitindo Deus desenvolver nosso ser novamente à Sua semelhança, e cada conquista será sentida com indizível prazer. Pode ser uma pequena vitória, a que o tempo acrescenta harmonia e acompanhamento celestiais. Pode ser algo que só você saiba, a sua melodia particular. Pode ser algo que as pessoas de alguma forma percebam que mudou em você, e se ponham a imitar, como quando aprendemos uma canção que nos cativa. O fato é que a reflexão - e a ação que indubitavelmente decorre do ato de refletir - sempre nos aproximará um pouco mais de nosso Pai. A ponto de, quando chegar ao Céu, você ser capaz de reconhecer de forma bem familiar a música dos coros angelicais.

quarta-feira, 18 de maio de 2005

40 dias procurando Luz - Dia 04

Texto Bíblico do dia:

Malaquias 3:16 - "Então aqueles que temiam ao Senhor falaram uns aos outros; e o Senhor atentou e ouviu, e um memorial foi escrito diante dele, para os que temiam ao Senhor, e para os que se lembravam do seu nome."
Salmo 100 - "Celebrai com júbilo ao Senhor, todos os habitantes da terra. Servi ao Senhor com alegria, e apresentai-vos a ele com cântico. Sabei que o Senhor é Deus! Foi ele quem nos fez, e somos dele; somos o seu povo e ovelhas do seu pasto. Entrai pelas suas portas com ação de graças, e em seus átrios com louvor; dai-lhe graças e bendizei o seu nome. Porque o Senhor é bom; a sua benignidade dura para sempre, e a sua fidelidade de geração em geração."

O programa de Deus para a minha vida hoje:

Cantar ao Senhor um cântico novo. Não deixar que as cordas do meu espírito envelheçam...

Meditando:

A meditação de hoje propôs algo instigante: compor música. O propósito é ajudar a memorizar versículos e citações importantes, mas como estudante de música eu não poderia deixar de tecer mais umas considerações sobre o assunto pois de Jubal (Gênesis 4:21) até Beethoven percorreu-se um caminho de descobertas incríveis que eu me ponho a imaginar.

Imaginem o Homem pela primeira vez diante de um sistema organizado de sons a que hoje nós chamaríamos escala musical. Deus os deu de presente em alguma manhã iluminada. Você já teve um pianinho de brinquedo quando era criança? A simples existência de sete notas musicais parece algo maravilhoso para quem as experimenta pela primeira vez. Não precisa ter nenhum sentido musical, não precisa ser sequer bonito, só precisa soar para começar a prender o espírito. Depois o ouvido começa a pedir algo mais. Então o Homem percebe que os sons se comunicam. Que com aquelas sete notas de uma escala ele pode criar uma melodia agradável, e depois até combinar duas melodias se conseguir tocá-las uma em cada mão. Empolgado, ele experimenta juntar ainda outras melodias ao mesmo tempo - alguns mais afoitos chegaram a juntar até 64 vozes, cada uma cantando algo diferente, numa só música. Até que ele percebe uma relação horizontal entre essas "linhas melódicas", e resolve juntar alguns sons que lhe parecem harmônicos para criar acordes. Percebe certas leis que regem essas relações. Fascinante! O Homem então mergulha num universo de formas e sons que lhe permite se expressar com uma riqueza que as palavras jamais poderiam alcançar.

Não é preciso que alguém passe por todas essas etapas que a humanidade passou para perceber que com grupos de sete sons definidos pode-se obter verdadeiras obras-primas. E assim a música prossegue junto com a história do próprio Homem, comovendo-o tanto quando ele a cria como quando ele a escuta. Algumas são bem simples, outras profundas, algumas você guardou porque marcaram algo especial, outras porque ouviu por aí e aquilo acabou ficando grudado em sua mente. Quantas músicas diferentes você ouviu em sua vida? Quantas a humanidade já inventou? Seria capaz de mensurar o potencial criativo de todas as culturas musicais do nosso planeta? No entanto tudo começou com um pequenino grupo de sete sons, tal qual no seu pianinho de brinquedo...

Embora eu tenha simplificado bastante o intrincado mundo da teoria musical, acho que já posso lhe fazer uma pergunta. Existiria música se o Homem tivesse continuado com aquelas sete notas em suas mãos e não as explorasse mais e mais suas possibilidades? De que adiantaria que Deus tivesse dado esses preciosos sons de presente, se o Homem não se importasse em os usar? Como uma criança com seu pianinho de brinquedo, o homem, com o passar do tempo, se cansaria de ouvir aqueles sons desconexos até o ponto de não aguentá-los mais. É verdade que os pais se cansam mais rapidamente que as crianças de seus pianinhos... mas chega uma hora que, se a criança não tiver estímulo para ir além, aquelas notas serão deixadas de lado e nunca virarão música. Imagine que ela aprenda a tocar "Cai, cai balão" e dê um concerto incrível para seus pais orgulhosos. Depois de tocar "Cai, cai balão" pela 8567ª vez, ela começará a ficar entediada. E seus pais enlouquecidos. A experiência musical acabará aí. A menos que ela se abra para novas possibilidades...

Infelizmente isso não é o que acontece na maioria dos casos. Os pais se dão por satisfeitos em dizer aos vizinhos que seu filho toca maravilhosamente "Cai, cai balão" e a criança se sente atraída por brinquedos mais novos: uma bicicleta, um pobre cachorro, o aparelho de som da sala...

Sabe, o que mais me fascina em Davi, é que ele era um homem que não se cansava de aprofundar suas experiências. Compunha um salmo e logo se sentia inspirado a compor outro e mais outro, e nunca dar por esgotadas as possibilidades de expressar a beleza musical e poética. O texto bíblico de hoje me mostra um Davi que lembrava de Deus, mas lembrava com fervor. Consigo imaginar seu semblante de felicidade enquanto entoava o salmo 100 a Deus. E seu sentimento não era mais ou menos forte em qualquer um dos seus outros hinos. Seja tristeza ou alegria, havia sempre algo pulsando firme dentro do seu peito. Por isso a Casa de Deus era um lugar a que ele se dirigia com ansiedade e imensurável prazer.

Esse talvez seja o sonho de algum cristão de hoje em dia, que vai para a igreja só pelo hábito, mas entra e sai sentindo um grande vazio, carregando sua Bíblia como se nela levasse o peso de séculos... Passados os primeiros meses de recém-convertido, ele começou a experimentar a sensação de conhecimento. Já conseguia dizer alguns versículos de cor, lembrar de textos relacionados a certos assuntos, expor mesmo que resumidamente o fundamento das doutrinas em que cria. E isso era bom! Mas com o tempo, ele começou a desenvolver “super poderes”: adivinhar o sermão do pastor pelas primeiras frases, prever todas as falas e jargões da doxologia com tédio, saber qual hino seria cantado desanimadamente pela primeira nota tocada ao piano, e sabia até onde a igreja dizia um potente “amém!” durante a oração, só pela entonação de quem orava. E isso não é era bom. Com o passar dos anos, começou a experimentar mais e mais freqüentemente uma incômoda sensação de “déjà vu” durante os cultos, e a cada nova mensagem apresentada o primeiro impulso era pensar: “de novo!...”. Permaneceu na igreja por costume, mas no íntimo sentia que nada ali parecia mais ter sentido para ele.

E não haveria de ser assim? Imagine passar dez anos ouvindo "Dó Ré Mi Fá Sol Lá Si" três vezes por semana, durante algumas horas. Quem pode se empolgar com isso? Quem pode ver sentido nisso? Está lá o pianinho capenga, já desafinado, tocando sempre as mesmas notas que não dizem nada. E eu aqui esperando que essa não se torne a nossa história.

Como manter a alegria pulsante de Davi depois de anos e anos indo à mesma igreja regularmente? Como manter aceso o interesse pelo mesmo conteúdo, muitas vezes explanado da mesma forma pelas mesmas pessoas ao longo do tempo? Como sentir-se motivado a "apresentar-se diante do Senhor com cânticos", depois de ouvir os mesmos cânticos décadas a fio? Bem, a resposta é simples. Basta perceber o quão profunda pode ser a religião que Deus nos deu de presente e vivê-la de modo a ter dela tudo o que ela pode lhe dar.

Como conseguir agora transformar o "Dó Ré Mi Fá Sol Lá Si" numa sonata de Beethoven?? De que modo a religião com cara de gasta pode tomar nova vida e se renovar a cada dia com maior força e beleza, graça e fascinação? Ainda por analogia, imagine que a música que você ouve sai de você mesmo! Você é o instrumento! Deus lhe deu tudo de que você necessita para ter um relacionamento riquíssimo com Ele e produzir as mais belas composições! No entanto não tente fazer você sozinho o trabalho do compositor. Um piano não pode tocar a si próprio, não importa que ele tenha cordas afinadíssimas ou teclas de marfim. É o Espírito Santo que vai transformar suas notinhas desconexas em uma sinfonia celestial. "Não em virtude de obras de justiça que nós houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou mediante o lavar da regeneração e renovação pelo Espírito Santo" Tito 3:5.

Falando de forma bem clara, temos que nos achegar diariamente à Palavra de Deus e pedir que o Espírito Santo nos mostre como aquelas palavras - as mesmas que estão lá há milênios - podem nos fazer um homem novo hoje. E quanto mais repetitivas certas idéias parecem, mais Deus aponta para nossa necessidade de trabalhar com elas. Mais precisamente? Peça a Deus que lhe ajude a praticar tudo o que você já sabe, ou acha que sabe, mesmo aqueles princípios tão elementares como um "Cai, cai balão". Se se propor a fazer um terço do que você viu e ouviu na Bíblia, já ocupará todos os dias da sua vida com algo novo e desafiador, e começará a achar com mais e mais constância facetas novas e impressionantes nas mesmas palavras. Se com sete notas um bom compositor pode fazer uma sinfonia inteira, imagine o que Deus pode fazer com Sua Palavra em nós! "E não vos conformeis a este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus." Romanos 12:2. A renovação de que necessitamos está em praticar a Palavra de Deus, não por nossos próprios esforços, mas através de uma atitude de humildade e entrega que permite ao Espírito Santo nos fazer instrumentos em suas mãos. E compor com nossas vidas, a cada dia, uma obra de arte mais bela. "Por isso não desfalecemos; mas ainda que o nosso homem exterior se esteja consumindo, o interior, contudo, se renova de dia em dia." II Cor. 4:16.. À medida que formos percebendo Seu trabalho em nós, não nos permitiremos jamais ser meros sons medíocres e desconexos outra vez. Pois descobriremos que fomos criados para muito mais.

Minha oração hoje é que eu seja capaz de executar o cântico novo que Deus preparou para minha vida neste dia, com as Palavras que Ele me mostrou. E cada semelhante meu o escute soando agradavelmente aos seus ouvidos.

terça-feira, 17 de maio de 2005

40 dias procurando Luz - Dia 03

Texto Bíblico do dia:

Oséias 6:1-6 - "Vinde, e tornemos para o Senhor, porque ele despedaçou e nos sarará; fez a ferida, e no-la atará. Depois de dois dias nos ressuscitará: ao terceiro dia nos levantará, e viveremos diante dele. Conheçamos, e prossigamos em conhecer ao Senhor; a sua saída, como a alva, é certa; e ele a nós virá como a chuva, como a chuva serôdia que rega a terra. Que te farei, ó Efraim? que te farei, ó Judá? porque o vosso amor é como a nuvem da manhã, e como o orvalho que cedo passa. Por isso os abati pelos profetas; pela palavra da minha boca os matei; e os meus juízos a teu respeito sairão como a luz. Pois misericórdia quero, e não sacrifícios; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos."
João 1:43-45 - "No dia seguinte Jesus resolveu partir para a Galiléia, e achando a Felipe disse-lhe: Segue-me. Ora, Felipe era de Betsaida, cidade de André e de Pedro. Felipe achou a Natanael, e disse-lhe: Acabamos de achar aquele de quem escreveram Moisés na lei, e os profetas: Jesus de Nazaré, filho de José."

O programa de Deus para a minha vida hoje:

Conhecer e prosseguir em conhecer ao Senhor, com um amor constante e bem alicerçado na Sua Palavra.

Meditando:

Vontade de orar. Foi assim que terminei o dia anterior. E esta vontade que vem crescendo desde o primeiro desta jornada teve hoje a oportunidade de ser posta em prática.

Acabo de chegar da igreja onde fui pregar. Antes do sermão foram feitos pedidos de oração e logo em seguida, uma irmã propôs que orássemos dez minutos de joelhos e terminássemos com um Pai-Nosso. "Dez minutos?", pensei, "este foi o tempo que planejei para a oração no culto pela manhã, que coincidência!". Quando dialogamos com alguém próximo e querido nem vemos o tempo passar. Dez minutos parecem um segundo. Muitas vezes virei noites conversando com amigas minhas. E o que são dez minutos com Deus para um cristão que ainda não sabe orar? Isso não é algo difícil de acontecer. A Bíblia diz que o Espírito Santo se compadece de nós e intercede fervorosamente porque nós não sabemos pedir (Romanos 8:26). O pior é que muitos de nós nem sabemos que não sabemos pedir.

Quando isso acontece, dez minutos de oração viram um relatório: coisas para agradecer, coisas para pedir perdão, coisas para implorar, e... e o que mais mesmo? An... Existem algumas frases feitas que são boas muletas para essas horas: "Obrigada pela vida, pelo ar que respiro, pelo alimento, pelo Teu amor, pela vida, ih, essa já foi...". "Tu és um Deus maravilhoso, grandioso, vitorioso, glorioso, majestoso, poderoso... e mais um monte de adjetivos terminado sem `oso´". E os dez minutos não passam. Tem outra lista boa para preencher o tempo: "Abençoa meu pai, minha mãe, minha irmã, meu amigo, o vizinho da prima da cunhada do irmão do meu chefe...". Os problemas das outras pessoas ocupam boa parte da oração. E se ainda assim não se preencher os dez minutos, pode-se dizer amém e ficar de de joelhos, olhos fechados, pensando na louça que tem para lavar em casa...

Dez minutos apenas! Será que consigo usá-los para falar tão somente de mim para Deus? A oração intercessória tem seu lugar também, mas será que consigo ter um tempo só para colocar diante de Deus o meu espírito, mente e coração abertamente? Consigo fugir das frases feitas e estabelecer um diálogo com Ele? Se sim, eu também deixo tempo em minha oração para silenciar e ouvir a Sua voz. Pois se eu não deixo Ele falar comigo, não é um diálogo, é um monólogo! Consigo me concentrar no silêncio, no vazio, e deixar que Ele suavemente o preencha com inspiração e paz? Se sim, não conseguirei dizer amém antes de dez minutos. Eles ainda serão pouco. Nenhum tempo é grande o suficiente para caber o Deus que eu conheço. Mas conheço?

Orar é uma forma de conhecer a Deus, e não um sacrifício. Por isso não faz sentido orar como quem paga penitência. O texto bíblico de hoje deixa isso claro. E somente se eu o conhecer, através da oração e da leitura de Sua Palavra, serei capaz de REconhecê-lo na minha vida, na minha religião, nos meus sonhos, nos meus relacionamentos, palavras, objetivos. "Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor": conheçamos e O reconheçamos cada vez que Ele se revelar a nós. Foi assim com Felipe. Jesus não o hipnotizou para que ele O seguisse. Felipe já conhecia Jesus através da Lei e dos Profetas, certamente já estava acostumado com o "timbre" da voz de Deus na suas orações e diante de Cristo foi capaz de reconhecê-lO. Por isso não foi fácil aceitar seu convite e seguí-lO.

"Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor." I Coríntios 15:58. O amor constante que Deus expressa anelar, pela boca do profeta Oséias, é resultado de uma entrega também constante, diária e sem reservas. Fomos orientados a respeito de duas coisas muito importantes quando a oração que deve ser elevada a Deus durante esta jornada. A primeira é que depois de nos entregarmos a Deus em oração, sem pressa, em atitude de meditação, devemos entregar pelo menos cinco pessoas em especial, que mais tarde serão convidadas a participar de um evento que reunirá a todos. Com isso o nosso tempo de oração hoje aumentou significativamente. Também não tive pressa em escolher as pessoas por quem estou orando, e não restringi a pessoas que poderão participar desse evento, mas a todos a quem me senti movida a orar. Quando nos enchemos do Espírito queremos, naturalmente, espalhar Seu perfume ao nosso redor. A segunda coisa importante é que orar por coisas materiais é apenas uma prova de falta de fé . Não devemos estar ansiosos por isso como se não conhecêssemos a Deus (Mateus 6:32). Ele sabe de nossos anseios financeiros, nossas necessidades seculares, e agora queremos nos propor a edificar o espírito. Portanto embora seja saudável contar-Lhe tudo que passa em nosso coração, devemos resistir à tentação de concentrar nossa atenção na matéria, mendigar-Lhe respostas imediatas ou insistir em nossa vontade, mas devemos buscar em primeiro lugar o Seu Reino e deixar que todas as outras coisas nos sejam acrescentadas. Não se deter na superfície. Não considerar nunca esta jornada como uma forma de barganha comportamental esperando que algo aconteça imediatamente. Não crer em vitória instantânea.

Ainda há muito para ouvir de Deus. Mas hoje já senti uma diferença significativa na hora de fazer o meu sermão. As idéias fluíram com muito mais clareza, com bem menos esforço intelectual, e em bem pouco tempo consegui organizar a mensagem de forma satisfatória. Na exposição a manifestação do Espírito Santo foi notória, estava no semblante das pessoas. Deus me deu já neste terceiro dia o privilégio de achar natural ser usada como instrumento em Suas mãos - embora eu nunca deixe de me maravilhar com isso. E quer fazer-me mais que um instrumento, mas uma morada do Seu Espírito. Foi o que sussurrou em meus ouvidos durante aqueles dez minutos de oração...

segunda-feira, 16 de maio de 2005

40 dias procurando Luz - Dia 02

Texto Bíblico do dia:

Lucas 9:23 - 27 - "Em seguida dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por amor de mim, esse a salvará. Pois, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, e perder-se, ou prejudicar-se a si mesmo? Porque, quem se envergonhar de mim e das minhas palavras, dele se envergonhará o Filho do homem, quando vier na sua glória, e na do Pai e dos santos anjos. Mas em verdade vos digo: Alguns há, dos que estão aqui, que de modo nenhum provarão a morte até que vejam o reino de Deus."

O programa de Deus para a minha vida hoje:

Que as pessoas possam ver em mim um reflexo do que virá a ser o Reino dEle, e eu descubra esse Reino escondido em bênçãos no meu cotidiano.

Meditando:

A primeira constatação do dia é que seguir a Jesus não é fácil MESMO. Se fosse, ele não teria usado uma cruz como ilustração. E eu não acordaria com tanto sono hoje! Resolvemos acordar meia hora mais cedo para fazer nossa meditação com mais tranqüilidade. Acontece que fui dormir três horas mais tarde por causa da parte do trabalho que minha amiga da faculdade não fez, e eu tive de fazer. Até ontem isso não parecia tão significativo, mas às cinco e meia da manhã de hoje...

Seguir a Cristo não nos guarda de incidentes desse tipo no nosso relacionamento com amigos, familiares. Acabei saindo de casa mais chateada por causa de uma pequena discussão que tive com meu marido por causa da tinta da impressora: mais uma vez, o bendito trabalho! Meu humor, francamente, não estava nada bom. Mas antes mesmo de chegar à parada de ônibus eu lembrei do programa de Deus para a minha vida hoje e senti-me constrangida. "Ok, Senhor", eu orei, "já entendi que o tema que Tu separastes para mim hoje é: pessoas. Um tema muito pesado para um segundo dia, não? Por favor, me ajude que por eu mesma não sinto que conseguirei chegar ao fim de dia com meu humor restaurado. Agora só consigo pensar num modo de deixar claro à minha amiga, assim como o fiz com meu marido, que estou chateada, decepcionada e cansada. Ajude-me, mais uma vez eu te peço...".

Esta é outra grande diferença de começar o dia com Cristo. Se você não o faz, pode até orar e conversar com Ele ao longo do dia, mas não está ciente do propósito que Ele separou para você especificamente para aquele dia. Indo ao Seu encontro logo ao acordar, você consegue discernir melhor a Sua vontade - ainda que não consiga cumprí-la de pronto, e aí sim, o diálogo com Ele se torna muito mais produtivo. No meu caso, eu percebi que seguir a Cristo não me resguardaria de incidentes nos meus relacionamentos, mas percebi também que Ele usa esses incidentes para que trabalhemos melhor esses relacionamentos, para que haja crescimento através do exercício (doloroso) do perdão e da benignidade. Os incidentes podem, assim, se converter em bênçãos.

Nesse contexto os versículos que li hoje parecem enfáticos. "Negue-se a si mesmo" é uma frase simples de significado estrondoso. Cada vez que eu me nego, o outro passa a ocupar um lugar mais importante na minha vida, e num mundo que incentiva a primazia do Eu, não há cruz mais pesada que reprimir os impulsos de vingança, ressentimento e mágoa. A notícia bom é que não cabe a nós substituir esses maus sentimentos por outros bons. Isso é simplesmente impossível. O Espírito Santo é que atua em nós quando esvaziamo-nos do lixo, então Ele nos preenche e encontramos nEle a paz de que necessitamos, a capacidade de perdoar e tudo o mais necessário à restauração dos nossos relacionamentos.

"Alguns há, dos que estão aqui, que de modo nenhum provarão a morte até que vejam o reino de Deus.", disse Cristo. A primeira coisa que nos passa pela cabeça ao ler pela primeira vez essa passagem é que os discípulos irão ver um Reino literal, serão arrebatados ou coisa que o valha. Os discípulos também devem ter pensado que eles veriam a glória de um reino terrestre e isso deve tê-los animado bastante. Jesus não explica suas palavras, mas os fatos as explicam. Logo em seguida ocorre a transfiguração. E ali, Cristo, Moisés (representando os mortos que serão ressuscitados) e Elias (representando os fiéis que não passarão pela morte) se apresentam em aparência de glória diante de três discípulos como figura de um Reino porvir. O comentário da Bíblia de Genebra diz: "sugestões quanto ao sentido desta frase [a primeira deste parágrafo] incluem a Transfiguração, a ressurreição de Jesus, a ascensão, o Pentecostes, a disseminação do evangelho, a destruição de Jerusalém e o Segundo Advento". Creio na última hipótese. Mas esta e todas as outras hipóteses constituem revelações de um Reino, não o Reino em si. Cristo revelou a glória de Seu reino a discípulos que não lograram compreendê-la. E não é assim comigo? Quantas vezes durante o dia Deus me revela facetas do Seu Reino e eu simplesmente não consigo ver porque estou esperando que Ele me mostre o que eu quero ver? Quantas vezes Deus é sutil e simples em suas revelações, mas eu teimo em só querer vê-lO no místico e no grandioso? Quantas vezes o Reino de Deus se me revela em flashes diante dos meus olhos, que não o vêem porque eu quase nada conheço sobre a essência do Reino de Deus?

Hoje eu pude ver o Reino de Deus na cortesia de um homem. Na alegria de uma senhora. Na simpatia de um amigo. Na inteligência de uma frase. E quantos puderam ver o Reino de Deus se revelando em mim? Esta pergunta me faz voltar às pessoas. Aquelas que no início do dia eu culpei por meu mau humor. Sinto vontade de orar por elas, pelos problemas que as levaram a tomar certas decisões que eu me recusei a compreender. Que talvez eu nem venha a compreender de fato. Mas que Deus conhece e pode ajudar a mudar se julgar necessário, tal como mudou minha decisão de deixar-me estar magoada.

Acho que não poderia ir dormir com melhor desejo que esse: vontade orar. "Venha a nós o Teu Reino" para que eu e meu marido sejamos uma revelação do Teu Reino. "Venha a nós o Teu Reino" para que eu e aquela minha amiga sejamos uma revelação do Teu Reino. "Venha a nós o Teu Reino" para que eu contigo sejamos uma revelação do Teu Reino