Ontem, quando entrei no ônibus de Recife para Natal, imaginava que aquela seria apenas mais uma viagem cansativa e melancólica de mais de quatro horas para longe de alguém que amo. Comprei a última passagem que sobrara, bem no fim do corredor direito, e a encontrei ao lado de um homem simpático que se ofereceu para guardar minha bolsa no compartimento de cima. Agradeci, e como sempre faço a fim de evitar a possibilidade da viagem ser ainda pior, abri logo um livro e fiz cara de leitora compenetrada para não dar margem à grandes diálogos. Chatice minha, provavelmente, mas conversar em ônibus me dá enjôo, especialmente considerando o tipo de conversa que quase sempre se inicia. Mas se tenho percebido algo nas minha ponte rodoviária Natal-Recife, é que os ônibus deixam as pessoas mais sensíveis e abertas. O fato de ter ao lado um interlocutor que possivelmente não se verá nunca mais desarma as travas da língua. E assim, depois que a luz apagou e eu acordei sobressaltada de um pequeno cochilo, o homem ao lado perguntou sobre as partituras que eu estava lendo e começamos a conversar.
Ao contrário do que eu imaginava, a conversa fluiu agradavelmente. Falamos de música, índios, aviões (ele é piloto da aeronáutica), peixes, e lá pelas tantas tentávamos identificar constelações pela janela do ônibus. Foi quando falei de Deus (na se pode olhar as estrelas sem pensar nEle). E Romeno mudou a entonação da voz. Falou que há algum tempo ele era um religioso dedicado, um cristão convicto, que não perdia um reunião na igreja, onde ia com sua esposa e duas filhas. Mas um dia, tendo saído da igreja com sua família em direção a casa, um caminhão desgovernado chocou-se contra seu carro, esmagando todo o lado esquerdo de sua mulher, passando por cima de sua filha mais nova e arrancando as duas pernas de sua filha mais velha.
- Se eu não tivesse ido à igreja naquela noite, isso não teria acontecido.
E Romeno começou a chorar. Poucas lágrimas já me afligiram tanto quanto as daquele homem, um militar treinado para ser forte e resistir a situações limite, mas que não resistia à própria dor, que carregava há doze anos com uma mágoa profunda. Seu semblante e conversa denunciavam um homem bom, honesto, sensível. Mas a ferida sangrava lá dentro, e agora ele não fazia força para esconder. Em meio às lágrimas ele me falou que sua filha, Catarine, foi o único bem que lhe sobrou. E para tentar fazê-lo parar de chorar, eu pedi que ele me dissesse como ela é, o que gosta de fazer. Enquanto ele a descrevia, sua face ficou mais alegre: ela vai fazer o vestibular próxima ano, adora estudar o céu e as estrelas, sabe o nome de cada constelação, é uma menina organizada, batalhadora, gosta muito de animais (a ponto de criar carinhosamente três gambás), e apesar dele não dizer expressamente, ficou patente que é uma garota feliz.
Mas ainda restava Romeno, ali, com aquele buraco no peito, e eu sem saber como estancar. E eu poderia? O que dizer a um homem que perdeu seu ideal de felicidade de uma forma tão violenta? Como responder às mesmas velhas dúvidas, cujas respostas eu mesma nunca encontrei, tais como: “o que fiz de errado para receber esse castigo?”, “por que Ele não impediu que isso acontecesse?”, “elas ainda estariam vivas se eu não fosse um cristão?”. Por alguns minutos calamo-nos. Romeno olhava as luzes de Natal se aproximando e eu orava pedindo que Deus falasse algo para ele através de mim. E pouco antes de ver Romeno partir eu lhe disse que precisava dizer-lhe algo:
- Não culpe sua fé pelo que aconteceu. Sua fé garantiu a salvação de sua pequena filha, e fez a sua esposa, orgulhosa, levar de você a imagem do marido que ela sempre quis ter. Deus não está indiferente à tua dor, Ele, que também viu morrer o Filho sem poder fazer nada, sabe exatamente como você se sente. A dor dEle teve uma finalidade, que você sabe, é a causa de toda a humanidade poder ter vida. A sua dor, Romeno, também tem. Um dia você vai saber, mas até lá considere que perder esposa e filha já é demais para um homem; não perca também sua fé. Ainda é preciso ter fé para garantir que você e sua filha Catarine cumpram o plano que Deus preparou para vocês aqui, e um dia, possam saber as respostas das suas perguntas. Deus ama você. Muito. E independentemente da sua dor, o amor dEle vai te continuar lhe acompanhando.
O ônibus parou. Romeno pediu licença, pegou sua bolsa, apertou minha mão e disse que foi um prazer conversar comigo.
- Sei que foi Deus quem te mandou aqui. Você é um anjo dEle. Pois então mande-lhe um recado: diga que valeu a tentativa.
Anjo, Romeno? Não... sou muito menor. Não posso sequer suportar a dúvida de que, talvez, não tenha te falado o suficiente, não tenha te dito as palavras certas. Como sou impotente, meu amigo viajante. Não consegui, antes que você saísse, nem mesmo lhe dizer que, se Ele tentou, é porque você é muito importante para Ele.
Uma semana mais iluminada,
Luciana Dantas Teixeira.
segunda-feira, 3 de novembro de 2003
segunda-feira, 27 de outubro de 2003
Que poderia ir em branco
Vocês não entenderiam se eu hoje lhes mandasse um e-mail em branco. E essa é uma das desvantagens da internet: na virtualidade nosso silêncio não faz sentido. Se calamos, anulamos a nossa existência, ao menos em relação a todos os nossos contatos virtuais. Eu mesma receio ter morrido para alguns amigos cujos e-mails repousam em meu Outlook como que deitados eternamente em berço esplêndido, sem que eu tenha tempo para respondê-los com o devido carinho, como gosto de fazer. Mania de quem ama as palavras, a ponto de não querer jogá-las de qualquer forma, mas dar-lhes o conteúdo mais formidável. Mania que em nada me enobrece, posto que continuo em falta com meus amigos. Resta meu silêncio inútil.
Ao começar este parágrafo quis pensar que, no “mundo real”, este mesmo silêncio fosse mais bem compreendido, mas já nesta segunda linha temo que não. Basta pensar na crescente objetividade do nosso tempo, onde parece que os sentidos vão perdendo algo de sua função: as pessoas comem em função das calorias, procuram eliminar ou disfarçar todos os cheiros, escutam apenas aquilo que não é preciso parar para ouvir, não tocam, seja por medo de estragar, de se contaminar ou simplesmente para não serem acusadas de assédio sexual, olham para os textos que dizem como está lá fora, lugar onde a vista não chega mais. E para tanto, comunicam-se. Meu Deus, como comunicam-se as pessoas de nosso tempo! Quantos recursos, tantos meios de exibir fala, imagem, texto, signo, o mundo fervilha em informações cada vez mais velozes, sinópticas, para nos poupar tempo a fim de darmos lugar à informação seguinte. Os sentidos numa tensão de atender a este ritmo, enquanto esquecemos de contemplar.
Saber silenciar; deixar todos os sentidos passivos e livres de qualquer responsabilidade para conosco. Um bom exercício é conviver com mulheres. Bem, vou tentar não generalizar só desta vez e falar apenas de mim, para quem a condição mais próxima de felicidade num relacionamento, é o reconhecimento de ouvir e ser ouvida. Presentes, gestos bonitos, a própria beleza em si são importantes, mas não superam o momento transcendente de contemplar exatamente aquilo que eu queria ouvir. Na hora certinha, sem dicas. E quanto tormento se evitaria se na hora de eu falar – naquela premente hora em que tudo que quero é ouvir nada – encontrasse um par de ouvidos pacientes. Mas o homem treinado para reconhecer problemas e necessariamente solucioná-los não desarma o ouvido analítico, e se desespera tentando achar uma solução, uma saída, uma explicação, o telefone da emergência, qualquer coisa que acabe com o problema, e quanto mais se desespera, mais a mulher suspira a falta do silêncio (ah, sim, eu tentava não generalizar). Não que seus problemas sejam o que há de mais lindo na natureza para contemplar. Mas certos momentos não pedem solução, apenas compreensão, e em se tratando das mulheres... digo, de mim, posso afirmar que nem isso, posto que totalmente inexigível, mas há momentos em que o não agir, não falar e não solucionar é a maior dádiva que se pode dar a uma mulher. De torná-la a criatura mais feliz do universo.
A verdade é que todos nós precisamos do silêncio, da contemplação, abrir a alma sem reservas a uma linguagem mais apurada, que nem sempre nossa mente finita consegue entender (não me refiro mais somente a ouvir as mulheres). Imediatamente antes de Jesus começar seu Ministério, ele não foi fazer um curso de oratória, nem conversar com os grandes sábios de seu tempo, nem praticar sua capacidade de fazer milagres. A Bíblia diz que Jesus foi para o deserto. E lá, com os sentidos desligados de todo o mundo exterior, na contemplação absoluta do humano e de Deus, Ele encontrou o que sua natureza humana precisava para enfrentar e vencer sua missão.
Nesta semana, tente dar uma folga para seus sentidos, deixá-los livres, abertos. Eles são o canal pelo qual o Espírito Santo nos fala, e se estiverem sempre ocupados em fazer, sem nunca receber, não poderão conhecer uma realidade mais elevada que a que os cerca (“...porque eles, vendo, não vêem; e ouvindo, não ouvem nem entendem” Mateus 13:13). Deixemos a vida correr um pouco mais passivamente, sem reservas, sem criar tantas imposições para limitar-nos e comprimir-nos: que venham gostos, cheiros, vistas, toques, sons, que venha o silêncio compreendido em toda extensão de sua expressividade, que venha a falta, o vazio, até mesmo a solidão, mas que nisto venha a linguagem sutil do Senhor a aguçar um pouco mais nossa frágil existência.
Boa semana,
Luciana D. Teixeira
Ao começar este parágrafo quis pensar que, no “mundo real”, este mesmo silêncio fosse mais bem compreendido, mas já nesta segunda linha temo que não. Basta pensar na crescente objetividade do nosso tempo, onde parece que os sentidos vão perdendo algo de sua função: as pessoas comem em função das calorias, procuram eliminar ou disfarçar todos os cheiros, escutam apenas aquilo que não é preciso parar para ouvir, não tocam, seja por medo de estragar, de se contaminar ou simplesmente para não serem acusadas de assédio sexual, olham para os textos que dizem como está lá fora, lugar onde a vista não chega mais. E para tanto, comunicam-se. Meu Deus, como comunicam-se as pessoas de nosso tempo! Quantos recursos, tantos meios de exibir fala, imagem, texto, signo, o mundo fervilha em informações cada vez mais velozes, sinópticas, para nos poupar tempo a fim de darmos lugar à informação seguinte. Os sentidos numa tensão de atender a este ritmo, enquanto esquecemos de contemplar.
Saber silenciar; deixar todos os sentidos passivos e livres de qualquer responsabilidade para conosco. Um bom exercício é conviver com mulheres. Bem, vou tentar não generalizar só desta vez e falar apenas de mim, para quem a condição mais próxima de felicidade num relacionamento, é o reconhecimento de ouvir e ser ouvida. Presentes, gestos bonitos, a própria beleza em si são importantes, mas não superam o momento transcendente de contemplar exatamente aquilo que eu queria ouvir. Na hora certinha, sem dicas. E quanto tormento se evitaria se na hora de eu falar – naquela premente hora em que tudo que quero é ouvir nada – encontrasse um par de ouvidos pacientes. Mas o homem treinado para reconhecer problemas e necessariamente solucioná-los não desarma o ouvido analítico, e se desespera tentando achar uma solução, uma saída, uma explicação, o telefone da emergência, qualquer coisa que acabe com o problema, e quanto mais se desespera, mais a mulher suspira a falta do silêncio (ah, sim, eu tentava não generalizar). Não que seus problemas sejam o que há de mais lindo na natureza para contemplar. Mas certos momentos não pedem solução, apenas compreensão, e em se tratando das mulheres... digo, de mim, posso afirmar que nem isso, posto que totalmente inexigível, mas há momentos em que o não agir, não falar e não solucionar é a maior dádiva que se pode dar a uma mulher. De torná-la a criatura mais feliz do universo.
A verdade é que todos nós precisamos do silêncio, da contemplação, abrir a alma sem reservas a uma linguagem mais apurada, que nem sempre nossa mente finita consegue entender (não me refiro mais somente a ouvir as mulheres). Imediatamente antes de Jesus começar seu Ministério, ele não foi fazer um curso de oratória, nem conversar com os grandes sábios de seu tempo, nem praticar sua capacidade de fazer milagres. A Bíblia diz que Jesus foi para o deserto. E lá, com os sentidos desligados de todo o mundo exterior, na contemplação absoluta do humano e de Deus, Ele encontrou o que sua natureza humana precisava para enfrentar e vencer sua missão.
Nesta semana, tente dar uma folga para seus sentidos, deixá-los livres, abertos. Eles são o canal pelo qual o Espírito Santo nos fala, e se estiverem sempre ocupados em fazer, sem nunca receber, não poderão conhecer uma realidade mais elevada que a que os cerca (“...porque eles, vendo, não vêem; e ouvindo, não ouvem nem entendem” Mateus 13:13). Deixemos a vida correr um pouco mais passivamente, sem reservas, sem criar tantas imposições para limitar-nos e comprimir-nos: que venham gostos, cheiros, vistas, toques, sons, que venha o silêncio compreendido em toda extensão de sua expressividade, que venha a falta, o vazio, até mesmo a solidão, mas que nisto venha a linguagem sutil do Senhor a aguçar um pouco mais nossa frágil existência.
Boa semana,
Luciana D. Teixeira
segunda-feira, 20 de outubro de 2003
Mais
Geralmente os homens tem pior memória para datas. Mas ela só lembrou porque ouviu aquela música indelével: “everybody knows we live in a world where they give bad names to beautiful things”. Há exatamente um ano ela olhava a lua e não estava só. Conhecia entusiasmada a face de uma beleza desejada intimamente por muitos anos, aquele tipo de anseio que nem sabemos ter até que ele se manifesta satisfeito diante dos nossos olhos e pensamos: “pronto, encontrei o que queria.” Tinha a companhia da beleza e não estava só. No céu, a lua alta e cheia.
Agora olhava o rádio meio assombrada, ouvindo quase à força: “Heaven only knows we live in a world where (...) the [people] fragile and the sensitive are given no chance”. Um ano? Reparando no cardinal parece pouco, mas tanta coisa aconteceu desde aquela noite de lua. Algumas boas, outra ruins, outras que ela não sabe ao certo porque os sentimentos sempre confundem a precisão da memória. Emoções teimam em criar fatos ou dar-lhes cores escolhidas arbitrariamente (há que se perdoar emoções que não tiveram tempo de se acostumar à perda da beleza). E desviando os olhos do rádio, para tentar inconscientemente arrastar para longe os outros sentidos, ela hoje encontrou só o céu escuro, sem companhia, sem beleza e sem lua. Não fosse a música, até sem lembrança.
Como era mesmo que dizia Salomão? “Tudo quanto desejaram meus olhos não lhes neguei, nem privei o coração de alegria alguma... e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento...” (Eclesiastes 1: 10,11). Vento, lua, companhia: tudo a mesma natureza mutável. Há quem também cite a vida, mas não: a vida é justamente o que permanece clamando por mais. A vida fica enquanto desfilam nossas tristezas, sorrisos, conquistas e perdas, começos e também os desconhecidos começos que às vezes chamamos fim. Se é a vida ou eu quem passa, é pergunta filosófica demais para ser respondida em noite sem lua. Mas a transitoriedade é patente. E nos acena no momento seguinte da satisfação, no balanço anual dos sonhos, na percepção crescente de ausências, na coleção de descrenças, nas responsabilidades que tornam o riso adulto, na imagem que teima em refletir no espelho um ser que a nossa infância não sonhou. Eu falaria muito ainda da transitoriedade. Mas é assunto tão delicado, que melhor é deixá-lo como está em cada um, porque há gente que se esforça demais para esquecê-lo. E a vida já é inconveniente o bastante para lembrá-lo vez em quando.
Ah, a música que agora diz: “And the leaves turn green to red to brown fall to the ground and get kicked around”. A velha segunda lei da termodinâmica: tudo tende à degradação. Mas você pode encontrar outra explicação, descobrir uma lei melhor. Essas estranhas manias humanas... tantas explicações não resolvem, não preenchem. São, as próprias explicações, mutáveis e variáveis. E como folhas caindo ao sabor do vento, somos envoltos no que Milan Kundera chamaria de “a insustentável leveza do ser”. Toda a liberdade, aí incluídos os meios para satisfazer os anseios da liberdade, não proporciona senão uma pálida visão da felicidade, porque tangidos pelo vento não temos solidez para pousar em definitivo na condição de seres felizes. Ao vento, vamos perdendo as cores e deixando de ser folhas, vamos deixando de saber o que queremos. O que queremos? Sabemos apenas que mais. Livres, ao vento, apenas tocamos acidentalmente a felicidade, em momentos, pessoas ou coisas ideais que nos fogem (no referencial deles, somos nós que fugimos na corrente de ar). Qual o destino das folhas carregadas pelo vento?
Mas a música já está acabando. E agora pergunta contundente: “You wild enough to remain beautiful?”. Ela também se pergunta o quê mais, além da vida, permanece. Felizmente desviou-se da tristeza quando parou de ver apenas a evidente transitoriedade, para procurar em tudo a eternidade. Que dádiva abençoada, foi Deus colocar dentro de sua criação, imagem e semelhança, um reflexo de Sua própria Eternidade (“What are you so afraid of?
Show us what you're made of”, ela ainda ouve no rádio). As folhas não precisam voar para sentir o vento. Elas não precisam cair, mudar de cor e morrer. “Permanecei em mim e eu permanecerei em vós” (João 15:4). A única forma de suportarmos o vazio permanente da transitoriedade deste mundo, é permancermos ligados ao Eterno, aquele que é, e jamais passará. NEle, e conseqüentemente na Sua vontade, encontramos o tipo de segurança que não existe na satisfação de nenhum dos nossos desejos. Em Deus nem reparamos nos nossos desejos. Somos folhas que decidiram permanecer bebendo da Sua seiva, para que nunca deixemos de ser aquilo que realmente somos; esta é a satisfação intransponível (você é rebelde o suficiente para isso?). “Be yourself and be beautiful”, a música termina. Ela também dá por concluídas suas divagações. Passa a mão nos olhos, passa aquele apertozinho no coração. A lua já vai passando mais uma fase. “E agora permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior deste é o amor.” (I Cor. 13:13)
Agora olhava o rádio meio assombrada, ouvindo quase à força: “Heaven only knows we live in a world where (...) the [people] fragile and the sensitive are given no chance”. Um ano? Reparando no cardinal parece pouco, mas tanta coisa aconteceu desde aquela noite de lua. Algumas boas, outra ruins, outras que ela não sabe ao certo porque os sentimentos sempre confundem a precisão da memória. Emoções teimam em criar fatos ou dar-lhes cores escolhidas arbitrariamente (há que se perdoar emoções que não tiveram tempo de se acostumar à perda da beleza). E desviando os olhos do rádio, para tentar inconscientemente arrastar para longe os outros sentidos, ela hoje encontrou só o céu escuro, sem companhia, sem beleza e sem lua. Não fosse a música, até sem lembrança.
Como era mesmo que dizia Salomão? “Tudo quanto desejaram meus olhos não lhes neguei, nem privei o coração de alegria alguma... e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento...” (Eclesiastes 1: 10,11). Vento, lua, companhia: tudo a mesma natureza mutável. Há quem também cite a vida, mas não: a vida é justamente o que permanece clamando por mais. A vida fica enquanto desfilam nossas tristezas, sorrisos, conquistas e perdas, começos e também os desconhecidos começos que às vezes chamamos fim. Se é a vida ou eu quem passa, é pergunta filosófica demais para ser respondida em noite sem lua. Mas a transitoriedade é patente. E nos acena no momento seguinte da satisfação, no balanço anual dos sonhos, na percepção crescente de ausências, na coleção de descrenças, nas responsabilidades que tornam o riso adulto, na imagem que teima em refletir no espelho um ser que a nossa infância não sonhou. Eu falaria muito ainda da transitoriedade. Mas é assunto tão delicado, que melhor é deixá-lo como está em cada um, porque há gente que se esforça demais para esquecê-lo. E a vida já é inconveniente o bastante para lembrá-lo vez em quando.
Ah, a música que agora diz: “And the leaves turn green to red to brown fall to the ground and get kicked around”. A velha segunda lei da termodinâmica: tudo tende à degradação. Mas você pode encontrar outra explicação, descobrir uma lei melhor. Essas estranhas manias humanas... tantas explicações não resolvem, não preenchem. São, as próprias explicações, mutáveis e variáveis. E como folhas caindo ao sabor do vento, somos envoltos no que Milan Kundera chamaria de “a insustentável leveza do ser”. Toda a liberdade, aí incluídos os meios para satisfazer os anseios da liberdade, não proporciona senão uma pálida visão da felicidade, porque tangidos pelo vento não temos solidez para pousar em definitivo na condição de seres felizes. Ao vento, vamos perdendo as cores e deixando de ser folhas, vamos deixando de saber o que queremos. O que queremos? Sabemos apenas que mais. Livres, ao vento, apenas tocamos acidentalmente a felicidade, em momentos, pessoas ou coisas ideais que nos fogem (no referencial deles, somos nós que fugimos na corrente de ar). Qual o destino das folhas carregadas pelo vento?
Mas a música já está acabando. E agora pergunta contundente: “You wild enough to remain beautiful?”. Ela também se pergunta o quê mais, além da vida, permanece. Felizmente desviou-se da tristeza quando parou de ver apenas a evidente transitoriedade, para procurar em tudo a eternidade. Que dádiva abençoada, foi Deus colocar dentro de sua criação, imagem e semelhança, um reflexo de Sua própria Eternidade (“What are you so afraid of?
Show us what you're made of”, ela ainda ouve no rádio). As folhas não precisam voar para sentir o vento. Elas não precisam cair, mudar de cor e morrer. “Permanecei em mim e eu permanecerei em vós” (João 15:4). A única forma de suportarmos o vazio permanente da transitoriedade deste mundo, é permancermos ligados ao Eterno, aquele que é, e jamais passará. NEle, e conseqüentemente na Sua vontade, encontramos o tipo de segurança que não existe na satisfação de nenhum dos nossos desejos. Em Deus nem reparamos nos nossos desejos. Somos folhas que decidiram permanecer bebendo da Sua seiva, para que nunca deixemos de ser aquilo que realmente somos; esta é a satisfação intransponível (você é rebelde o suficiente para isso?). “Be yourself and be beautiful”, a música termina. Ela também dá por concluídas suas divagações. Passa a mão nos olhos, passa aquele apertozinho no coração. A lua já vai passando mais uma fase. “E agora permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior deste é o amor.” (I Cor. 13:13)
terça-feira, 14 de outubro de 2003
Amor que olha para onde anda
Eu estava naquele estado de paixão em que você não está convencido de que aquela é a pessoa certa, mas não pode evitar sentir-se atraído por ela. E eu, que sempre disfarcei muito mal meus sentimentos, ficava inquieta, um pouco trêmula, com as mãos geladas quando ele chegava. Quanto mais me esforçava para ser discreta, mais meu olhar o procurava involuntariamente, quanto mais eu tentava manter a compostura e a sobriedade, mais eu parecia nervosa e abobalhada, mais eu falava besteiras, mais eu seguia cega e leda atrás do seu olhar.
Até que um dia ele perguntou se poderia ir me deixar em casa. “Claro!”, eu respondi tentando indiferença apesar da minha cara de sol-de-leite-ninho. Estávamos a apenas uns quinze minutos da minha casa, e ele foi andando comigo, fazendo companhia. Conversávamos sobre música, meu assunto preferido, e eu tagarelava entusiasmada sem, no entanto, tirar meus olhos dos olhos dele. Queria medir seu entusiasmo também, e a visão daqueles olhos, ah... eu já nem sabia o que falava, apenas olhava fixamente para suas pupilas magnéticas. Foi quando, no melhor da conversa, puft! Tão absorta eu estava em seu olhar que não vi o buraco na calçada em que caí: ralei o joelho, torci o pé e quase não levanto mais de tanta vergonha. Ele, tadinho, me socorreu imediatamente, e não consigo esquecer sua expressão cômica, entre desesperado para me ajudar a levantar e morrendo de vontade de dar uma gargalhada.
Lembrei desse episódio pitoresco da minha infinita lista de gafes e desastres, enquanto lia um livrinho delicioso sobre a vida de Clara de Assis. Em dado momento o autor grifa uma frase que me impressionou deveras: “Amar não é olhar um para o outro, mas, os dois, na mesma direção.” Simples, mas não é que é mesmo? Olhando um para o outro, nós centramos tal pessoa no centro de nosso mundo de tal forma a não vermos nada além dela e do nosso próprio reflexo em sua íris. Amor, no entanto, olhar por onde anda.
Não parece muito saudável uma relação que existe para si mesma, sem a consciência de um mundo inteiro ao redor. Não há como existir crescimento e amadurecimento do amor que é semeado no egoísmo e se estreita no alheamento dos dois. O amor não pode ser assim estático, necessita expandir-se, e para tanto os dois devem olhar ao lado e escolher uma direção. Olhando um para o outro, serão sempre dois. Olhando na mesma direção alcançarão a mais perfeição da unidade. Amor direcionado tem planos em comum, projetos pelos quais lutar, valores a preservar, sonhos para perseguir, esperanças e batalhas para partilhar. E por isso é forte; não se limita à contemplação de si e do outro, mas procura o que há de ambos no universo. Numa relação de amor há um e muito mais que dois; há um sem fim de paisagens para conquistar.
Compreendendo isso, fica mais fácil de sentir o amor de Deus. Quantas vezes tive me consolar com o olhar da fé... É este olhar de que fala João quando diz “Ninguém jamais viu a Deus; se nos amamos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor é em nós aperfeiçoado.” (I João 4:12). Não podemos (ainda) olhar nos olhos de Deus, mas se O amamos, olhamos na mesma direção que Ele. “...mas qualquer que guarda a Sua Palavra, nEle realmente se tem aperfeiçoado o amor de Deus. E nisto sabemos que estamos nele” (I João 2:5). Meu relacionamento com Deus nasce entre nós dois, mas vai crescer lá fora, quando minhas escolhas e atitudes demonstrarem que nosso olhar procura o mesmo lugar. E nisso está a segurança do amor: olhando os dois numa mesma direção, não há perigo de ninguém se machucar.
Nesta semana, muitos começos de semana iluminados,
Luciana D. Teixeira
Até que um dia ele perguntou se poderia ir me deixar em casa. “Claro!”, eu respondi tentando indiferença apesar da minha cara de sol-de-leite-ninho. Estávamos a apenas uns quinze minutos da minha casa, e ele foi andando comigo, fazendo companhia. Conversávamos sobre música, meu assunto preferido, e eu tagarelava entusiasmada sem, no entanto, tirar meus olhos dos olhos dele. Queria medir seu entusiasmo também, e a visão daqueles olhos, ah... eu já nem sabia o que falava, apenas olhava fixamente para suas pupilas magnéticas. Foi quando, no melhor da conversa, puft! Tão absorta eu estava em seu olhar que não vi o buraco na calçada em que caí: ralei o joelho, torci o pé e quase não levanto mais de tanta vergonha. Ele, tadinho, me socorreu imediatamente, e não consigo esquecer sua expressão cômica, entre desesperado para me ajudar a levantar e morrendo de vontade de dar uma gargalhada.
Lembrei desse episódio pitoresco da minha infinita lista de gafes e desastres, enquanto lia um livrinho delicioso sobre a vida de Clara de Assis. Em dado momento o autor grifa uma frase que me impressionou deveras: “Amar não é olhar um para o outro, mas, os dois, na mesma direção.” Simples, mas não é que é mesmo? Olhando um para o outro, nós centramos tal pessoa no centro de nosso mundo de tal forma a não vermos nada além dela e do nosso próprio reflexo em sua íris. Amor, no entanto, olhar por onde anda.
Não parece muito saudável uma relação que existe para si mesma, sem a consciência de um mundo inteiro ao redor. Não há como existir crescimento e amadurecimento do amor que é semeado no egoísmo e se estreita no alheamento dos dois. O amor não pode ser assim estático, necessita expandir-se, e para tanto os dois devem olhar ao lado e escolher uma direção. Olhando um para o outro, serão sempre dois. Olhando na mesma direção alcançarão a mais perfeição da unidade. Amor direcionado tem planos em comum, projetos pelos quais lutar, valores a preservar, sonhos para perseguir, esperanças e batalhas para partilhar. E por isso é forte; não se limita à contemplação de si e do outro, mas procura o que há de ambos no universo. Numa relação de amor há um e muito mais que dois; há um sem fim de paisagens para conquistar.
Compreendendo isso, fica mais fácil de sentir o amor de Deus. Quantas vezes tive me consolar com o olhar da fé... É este olhar de que fala João quando diz “Ninguém jamais viu a Deus; se nos amamos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor é em nós aperfeiçoado.” (I João 4:12). Não podemos (ainda) olhar nos olhos de Deus, mas se O amamos, olhamos na mesma direção que Ele. “...mas qualquer que guarda a Sua Palavra, nEle realmente se tem aperfeiçoado o amor de Deus. E nisto sabemos que estamos nele” (I João 2:5). Meu relacionamento com Deus nasce entre nós dois, mas vai crescer lá fora, quando minhas escolhas e atitudes demonstrarem que nosso olhar procura o mesmo lugar. E nisso está a segurança do amor: olhando os dois numa mesma direção, não há perigo de ninguém se machucar.
Nesta semana, muitos começos de semana iluminados,
Luciana D. Teixeira
segunda-feira, 29 de setembro de 2003
"Oh, pedaço de mim..."
- Bateram em mim!
Quando ele me falou isso, cedo da manhã, eu passei algum tempo sem conseguir raciocinar. Tudo que me ocorria eram as cenas de todos os filmes policiais e de artes marciais que já vi, com imagens de gangues mal-encaradas cercando um pobre cidadão e partindo pra cima dele sem dó nem piedade. Depois ainda visualizei o mesmo cidadão arrastando-se na sarjeta, todo rasgado e cheio de hematomas, cinco dentes a menos, sangue cobrindo sua face deformada, até que, vencido pela agressão, tombava desfalecido, vindo a acordar somente no hospital enquanto uma mulher aos prantos, descabelada, acompanhava sua maca até o pronto-socorro. E naquele momento a mulher descabelada era eu.
- Quê?!
Eu já tinha uma bateria de perguntas posteriores, do tipo: quantos caras foram? Onde te bateram? Quantas fraturas expostas? Mas ele resolveu me explicar melhor.
- Bateram em mim. A porta lateral tá toda amassada.
Foi só então que eu entendi. Bateram no carro dele. Graças a Deus, ele não sofreu nenhum arranhão, mas sua ligação com o carro é tanta a ponto de ter falado dele como uma extensão de si próprio. Tamanha foi sua dor emocional ao ver a porta esquerda amassada, que eu poderia jurar que ele andaria mancando até o carro sair da oficina.
O episódio me fez pensar sobre as coisas externas que agregamos a nós mesmos, a ponto de sentí-las como um membro a mais. Todo mundo já ouviu que, para muito, o bolso é a parte mais sensível do corpo humano. E há quem sinta que é seu trabalho, seu cargo na igreja, sua casa, seus livros, seus filhos, sua coleção de sapatos ou CDs. Aquilo de que não concebemos nos separar. Aquilo que nos faz suar frio só de imaginar perder. E não é que até mesmo Deus, completo em si mesmo, escolheu algo fora dEle para tomar como parte de Si? “Eu sou a videira; vós sois os ramos. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.” (João 15:5).
Qualquer dano que um dos ramos sofra é sentido por toda a videira. E o vigor do ramo é a alegria da videira. Jesus continua: “Se alguém não permanece em mim, será lançado fora, à semelhança do ramo, e secará...”(v. 6). Não adianta estar ligado à videira e querer dar uva. “Pelos frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros?” (Mateus 7:16). E embora a videira de Cristo esteja sempre aberta a enxertos, os ramos são partes inteiramente dependentes e coerentes com a natureza da videira “Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes e vos será feito” (v. 7). Não se trata de um favor que Deus nos concede. Ele fará o que quisermos porque, sendo membros unidos a Ele, o nosso querer será a Sua vontade. Não haverá mais desejos separados; ramo e videira têm o mesmo interesse, que é frutificar no bem em abundância.
Que nesta nova semana saibamos escolher agregar coisas mais elevadas ao nosso ser. Se nos apegarmos a coisas materiais, finitas e perecíveis, nada estaremos acrescentando de melhor à nossa natureza. Se buscarmos permanecer unidos à Videira Verdadeira, porém, beberemos da seiva de Sua bela nobreza e eternidade.
Quando ele me falou isso, cedo da manhã, eu passei algum tempo sem conseguir raciocinar. Tudo que me ocorria eram as cenas de todos os filmes policiais e de artes marciais que já vi, com imagens de gangues mal-encaradas cercando um pobre cidadão e partindo pra cima dele sem dó nem piedade. Depois ainda visualizei o mesmo cidadão arrastando-se na sarjeta, todo rasgado e cheio de hematomas, cinco dentes a menos, sangue cobrindo sua face deformada, até que, vencido pela agressão, tombava desfalecido, vindo a acordar somente no hospital enquanto uma mulher aos prantos, descabelada, acompanhava sua maca até o pronto-socorro. E naquele momento a mulher descabelada era eu.
- Quê?!
Eu já tinha uma bateria de perguntas posteriores, do tipo: quantos caras foram? Onde te bateram? Quantas fraturas expostas? Mas ele resolveu me explicar melhor.
- Bateram em mim. A porta lateral tá toda amassada.
Foi só então que eu entendi. Bateram no carro dele. Graças a Deus, ele não sofreu nenhum arranhão, mas sua ligação com o carro é tanta a ponto de ter falado dele como uma extensão de si próprio. Tamanha foi sua dor emocional ao ver a porta esquerda amassada, que eu poderia jurar que ele andaria mancando até o carro sair da oficina.
O episódio me fez pensar sobre as coisas externas que agregamos a nós mesmos, a ponto de sentí-las como um membro a mais. Todo mundo já ouviu que, para muito, o bolso é a parte mais sensível do corpo humano. E há quem sinta que é seu trabalho, seu cargo na igreja, sua casa, seus livros, seus filhos, sua coleção de sapatos ou CDs. Aquilo de que não concebemos nos separar. Aquilo que nos faz suar frio só de imaginar perder. E não é que até mesmo Deus, completo em si mesmo, escolheu algo fora dEle para tomar como parte de Si? “Eu sou a videira; vós sois os ramos. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.” (João 15:5).
Qualquer dano que um dos ramos sofra é sentido por toda a videira. E o vigor do ramo é a alegria da videira. Jesus continua: “Se alguém não permanece em mim, será lançado fora, à semelhança do ramo, e secará...”(v. 6). Não adianta estar ligado à videira e querer dar uva. “Pelos frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros?” (Mateus 7:16). E embora a videira de Cristo esteja sempre aberta a enxertos, os ramos são partes inteiramente dependentes e coerentes com a natureza da videira “Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes e vos será feito” (v. 7). Não se trata de um favor que Deus nos concede. Ele fará o que quisermos porque, sendo membros unidos a Ele, o nosso querer será a Sua vontade. Não haverá mais desejos separados; ramo e videira têm o mesmo interesse, que é frutificar no bem em abundância.
Que nesta nova semana saibamos escolher agregar coisas mais elevadas ao nosso ser. Se nos apegarmos a coisas materiais, finitas e perecíveis, nada estaremos acrescentando de melhor à nossa natureza. Se buscarmos permanecer unidos à Videira Verdadeira, porém, beberemos da seiva de Sua bela nobreza e eternidade.
quarta-feira, 10 de setembro de 2003
À segunda vista
Acabo de chegar de uma pequena e agradável viagem à Recife, e na volta vinha pensando sobre ela no ônibus - afinal não resta mesmo muita coisa para eu fazer pois não consigo dormir nem ler. E refletia: a primeira impressão que tive de Recife não foi das melhores. Há cerca de dez anos eu a visitei pela primeira vez para fazer um exames médicos. E lembro com nitidez de andar com meus pais por umas ruas feias e tristes, entre calçadas estreitas apinhadas de gente apressada. A única coisa que me chamou atenção então foi o metrô, que eu não conhecia, mas acabei achando meio besta.
Voltei ainda algumas vezes a Recife, mas em nenhuma dessas me permiti livrar da primeira visão que tive da cidade. Restringia-me a ficar no lugar da hospedaria e esperar a hora de ir embora, porque para mim não havia nada que ver de interessante naquele lugar. Uma vez apenas passeei rapidamente em Olinda, e julguei que a fama turística de Recife fosse devida totalmente à primeira.
Só de uns três meses para cá é que tenho começado a descobrir a verdadeira Recife. E não tenho pudores de me confessar cada vez mais apaixonada. À medida que me permitir livrar da primeira e falsa impressão que tive da cidade, fui descobrindo sua beleza pulsante. E também sua história garbosa, corajosa, rica em detalhes que por vezes se escondem em prédios e igrejas fora do roteiro turístico, em teatros e construções sobranceiras, ou na alma forte e bonita de seu povo. Um olhar apenas não basta para captar o valor de Recife, é preciso a contemplação detida de todos os sentidos para não deixar passar sua essência. E talvez uma vida inteira para descobrí-la em seus magnéticos segredos.
A "lente" sensorial que forma nossas impressões nem sempre está ajustada para um bom foco. Por isso deveríamos permitir sempre uma segunda, terceira ou quarta impressão. Sobre as pessoas, lugares, livros, comidas (por que não?), fatos passados e presentes, fotografias, sobre nossa vida e tudo que a cerca, sobre as outras vidas e a forma como as cercamos. Deixar-se estar numa primeira impressão perenemente pode nos privar de uma descoberta mais profunda e acertada sobre a natureza das coisas. Isso engessa nosso conhecimento de mundo, e não raro, de Deus também. "...Transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus." (Romanos 12:2).
Se as misericóridas de Deus renovam-se a cada manhã (Lamentações 3:22,23), nós também devemos fazer renovar nosso ser perante Ele. E uma mudança eficaz de si mesmo compreende antes uma mudança na forma de olhar o mundo, as maneiras de encarar a vida e os problemas, nossa postura como cristãos e seres humanos relacionais. A renovação pode vir de percepções simples, como entender que quase tudo que sugere dor, implica verdadeiramente em crescimento, e o que parece um fim, tende sempre a criar novas oportunidades. Saber aproveitar a dádiva da vida com fé, é a força motriz de uma tranformação necessária para ver o mundo sob excitantes perspectivas.
Ainda que nos reste um longo caminho para alcançar a visão perfeita, temos auxílio garantido para não estacionarmos em nossa caminhada. Seja qual for a impressão que te impede de descobrir a real beleza da vida, "O Senhor teu Deus está no meio de ti, poderoso para te salvar; ele se deleitará em ti com alegria; renovar-te-á no seu amor, regozijar-se-á em ti com júbilo." (Sofonias 3:17).
Um restante de semana iluminado!
Luciana Dantas Teixeira
Voltei ainda algumas vezes a Recife, mas em nenhuma dessas me permiti livrar da primeira visão que tive da cidade. Restringia-me a ficar no lugar da hospedaria e esperar a hora de ir embora, porque para mim não havia nada que ver de interessante naquele lugar. Uma vez apenas passeei rapidamente em Olinda, e julguei que a fama turística de Recife fosse devida totalmente à primeira.
Só de uns três meses para cá é que tenho começado a descobrir a verdadeira Recife. E não tenho pudores de me confessar cada vez mais apaixonada. À medida que me permitir livrar da primeira e falsa impressão que tive da cidade, fui descobrindo sua beleza pulsante. E também sua história garbosa, corajosa, rica em detalhes que por vezes se escondem em prédios e igrejas fora do roteiro turístico, em teatros e construções sobranceiras, ou na alma forte e bonita de seu povo. Um olhar apenas não basta para captar o valor de Recife, é preciso a contemplação detida de todos os sentidos para não deixar passar sua essência. E talvez uma vida inteira para descobrí-la em seus magnéticos segredos.
A "lente" sensorial que forma nossas impressões nem sempre está ajustada para um bom foco. Por isso deveríamos permitir sempre uma segunda, terceira ou quarta impressão. Sobre as pessoas, lugares, livros, comidas (por que não?), fatos passados e presentes, fotografias, sobre nossa vida e tudo que a cerca, sobre as outras vidas e a forma como as cercamos. Deixar-se estar numa primeira impressão perenemente pode nos privar de uma descoberta mais profunda e acertada sobre a natureza das coisas. Isso engessa nosso conhecimento de mundo, e não raro, de Deus também. "...Transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus." (Romanos 12:2).
Se as misericóridas de Deus renovam-se a cada manhã (Lamentações 3:22,23), nós também devemos fazer renovar nosso ser perante Ele. E uma mudança eficaz de si mesmo compreende antes uma mudança na forma de olhar o mundo, as maneiras de encarar a vida e os problemas, nossa postura como cristãos e seres humanos relacionais. A renovação pode vir de percepções simples, como entender que quase tudo que sugere dor, implica verdadeiramente em crescimento, e o que parece um fim, tende sempre a criar novas oportunidades. Saber aproveitar a dádiva da vida com fé, é a força motriz de uma tranformação necessária para ver o mundo sob excitantes perspectivas.
Ainda que nos reste um longo caminho para alcançar a visão perfeita, temos auxílio garantido para não estacionarmos em nossa caminhada. Seja qual for a impressão que te impede de descobrir a real beleza da vida, "O Senhor teu Deus está no meio de ti, poderoso para te salvar; ele se deleitará em ti com alegria; renovar-te-á no seu amor, regozijar-se-á em ti com júbilo." (Sofonias 3:17).
Um restante de semana iluminado!
Luciana Dantas Teixeira
segunda-feira, 1 de setembro de 2003
As coisas que carregamos
Esta semana li num blog que gosto muito, a confissão inusitada de uma garota que perdeu sua tartaruga quando criança. Nada de muito diferente, não fosse a tragicidade grega do desfecho. Certo dia, quando ela procurou a caixa de areia onde guardava sua tartaruguinha, encontrou no lugar dela uma pedra. A mãe, com toda a sabedoria inquestionável que as mães têm, explicou para ela que uma fada tinha transformado a tartaruga em pedra, isso para não dizer que havia largado a tartaruga por aí, porque soube que o bichinho podia transmitir doenças. A garota, conformada, guardou a pedra carinhosamente por anos. Conseguia até ver as pernas e braços da tartaruga numas marquinhas que a pedra tinha. E só com vinte e poucos anos é que ela, revoltada, jogou a pedra fora depois de entender que fora enganada. Como pôde guardar tanto tempo uma pedra no lugar de sua amada tartaruga sem se dar conta da própria ilusão?
Isso me fez lembrar outro episódio ocorrido aqui em casa com minha irmã mais velha. Quando ela e namorado comemoravam alguns meses juntos, ele trouxe de presente uma enorme caixa de papelão para empregar o velho truque de uma caixa dentro da outra. Encheu-a de caixinhas menores até que, lá no fundo, minha irmã encontrou uma boneca bem pequena. Ela adorou. Tanto que guardou, além da boneca, um grande tijolo que ele colocara na caixa para tornar a coisa toda mais verossímil. E eu sempre dava risada quando, entrando no quarto dela, via o dito tijolo colocado em lugar de honra numa estante, entre ursinhos e bonecas. Até que o tijolo sumiu por alguma razão desconhecida.
Como podem ser estranhas as coisas que carregamos! Esquisitas mesmo! Coisas que podemos trazer na intenção ilusória de substituir algo que perdemos no caminho, que ao menos lembrem, ao longe, aquilo que já não temos. Ou coisas totalmente dispensáveis que nos dispomos a levar na tentativa vã de aumentar o valor daquilo que já temos.
Aquilo que perdemos está perdido, e nada ocupará satisfatoriamente o seu vão, a menos que o que estava perdido volte a seu lugar. Deus sabia disso quando enviou Seu Filho para “buscar e salvar o que se havia perdido” (Lucas 19:10). Talvez fosse mais fácil criar outro mundo, com uma nova espécie mais obediente e menos egoísta que o homem, mas era o homem que Deus havia perdido, era o homem que Deus tinha que buscar. E veio. E continua vindo, porque sabe que perto dEle, também nós podemos encontrar aquilo que temos perdido. O próprio Jesus utilizou-se de várias parábolas para afirmar isso: “Alegrai-vos comigo, porque achei a minha ovelha que se havia perdido.” (Lucas 15:6); “Alegrai-vos comigo, porque achei a dracma que eu havia perdido.” (Lucas 15:9); “porque este meu filho estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado.” (Lucas 15:24). Tais versículos não demonstram apenas que cada ser é objeto do amor particular do Pai, como também nos diz que o coração humano não achará alegria verdadeira sem antes reencontrar aquilo de que sente falta. Artifícios, os mais bem elaborados não vão substituir a sensação de completude pela qual a alma anseia. As pedras colhidas no caminho não aliviarão, antes pesarão, sobre o espírito onde habita um vazio do tamanho de Deus.
E o que dizer de nossa pouca habilidade para receber as dádivas divinas? Quantas vezes nosso Deus nos presenteia com exatamente aquilo que precisamos para ser feliz, mas nós achamos pouco. Encarregamo-nos, nós mesmos, de arranjar inúteis pedras que dêem a sensação de que nossa dádiva “pesa” mais. Tão poucas vezes nos contentamos com a plenitude que há nas coisas e pessoas que Deus põe em nosso caminho, e tratamos de elaborar rápida e avidamente um plano de obter mais, e mais, e mais, até que estejamos fartos daquilo que, julgamos, satisfará nosso desejo. Pena que a satisfação não é garantia de felicidade. E o que fazemos, normalmente, é tomar o presente divino e acumular pedras sobre ele – honrando muitas vezes mais as próprias pedras que o presente, cumulando-nos de coisas por vezes inúteis, quase sempre prejudiciais. Pois a medida de Deus completa, enquanto a nossa medida não sabe sopesar felicidade duradoura.
O único peso que somos chamados a carregar é nossa própria cruz (Lucas 9:23). Não precisamos carregar conosco pedras de nenhum valor, como a culpa, a solidão, a tristeza, a soberba, a mágoa, a desesperança ou qualquer outra forma de sublimação da nossa dor. “Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte.” (Romanos 8:2). Não devemos enterrar as bênçãos de Deus sob as pedras do nosso egoísmo tão limitado e míope. Aprendamos com Cristo que nos convida a enfrentar nossos problemas e anseios com fé na cruz para a qual ele carregou todo motivo de sofrimento, para a qual Ele mesmo nos carrega ternamente enquanto diz: “...o meu jugo é suave, e o meu fardo e leve.” (Mateus 11:30).
Uma semana iluminada,
Luciana Dantas Teixeira
Isso me fez lembrar outro episódio ocorrido aqui em casa com minha irmã mais velha. Quando ela e namorado comemoravam alguns meses juntos, ele trouxe de presente uma enorme caixa de papelão para empregar o velho truque de uma caixa dentro da outra. Encheu-a de caixinhas menores até que, lá no fundo, minha irmã encontrou uma boneca bem pequena. Ela adorou. Tanto que guardou, além da boneca, um grande tijolo que ele colocara na caixa para tornar a coisa toda mais verossímil. E eu sempre dava risada quando, entrando no quarto dela, via o dito tijolo colocado em lugar de honra numa estante, entre ursinhos e bonecas. Até que o tijolo sumiu por alguma razão desconhecida.
Como podem ser estranhas as coisas que carregamos! Esquisitas mesmo! Coisas que podemos trazer na intenção ilusória de substituir algo que perdemos no caminho, que ao menos lembrem, ao longe, aquilo que já não temos. Ou coisas totalmente dispensáveis que nos dispomos a levar na tentativa vã de aumentar o valor daquilo que já temos.
Aquilo que perdemos está perdido, e nada ocupará satisfatoriamente o seu vão, a menos que o que estava perdido volte a seu lugar. Deus sabia disso quando enviou Seu Filho para “buscar e salvar o que se havia perdido” (Lucas 19:10). Talvez fosse mais fácil criar outro mundo, com uma nova espécie mais obediente e menos egoísta que o homem, mas era o homem que Deus havia perdido, era o homem que Deus tinha que buscar. E veio. E continua vindo, porque sabe que perto dEle, também nós podemos encontrar aquilo que temos perdido. O próprio Jesus utilizou-se de várias parábolas para afirmar isso: “Alegrai-vos comigo, porque achei a minha ovelha que se havia perdido.” (Lucas 15:6); “Alegrai-vos comigo, porque achei a dracma que eu havia perdido.” (Lucas 15:9); “porque este meu filho estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado.” (Lucas 15:24). Tais versículos não demonstram apenas que cada ser é objeto do amor particular do Pai, como também nos diz que o coração humano não achará alegria verdadeira sem antes reencontrar aquilo de que sente falta. Artifícios, os mais bem elaborados não vão substituir a sensação de completude pela qual a alma anseia. As pedras colhidas no caminho não aliviarão, antes pesarão, sobre o espírito onde habita um vazio do tamanho de Deus.
E o que dizer de nossa pouca habilidade para receber as dádivas divinas? Quantas vezes nosso Deus nos presenteia com exatamente aquilo que precisamos para ser feliz, mas nós achamos pouco. Encarregamo-nos, nós mesmos, de arranjar inúteis pedras que dêem a sensação de que nossa dádiva “pesa” mais. Tão poucas vezes nos contentamos com a plenitude que há nas coisas e pessoas que Deus põe em nosso caminho, e tratamos de elaborar rápida e avidamente um plano de obter mais, e mais, e mais, até que estejamos fartos daquilo que, julgamos, satisfará nosso desejo. Pena que a satisfação não é garantia de felicidade. E o que fazemos, normalmente, é tomar o presente divino e acumular pedras sobre ele – honrando muitas vezes mais as próprias pedras que o presente, cumulando-nos de coisas por vezes inúteis, quase sempre prejudiciais. Pois a medida de Deus completa, enquanto a nossa medida não sabe sopesar felicidade duradoura.
O único peso que somos chamados a carregar é nossa própria cruz (Lucas 9:23). Não precisamos carregar conosco pedras de nenhum valor, como a culpa, a solidão, a tristeza, a soberba, a mágoa, a desesperança ou qualquer outra forma de sublimação da nossa dor. “Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte.” (Romanos 8:2). Não devemos enterrar as bênçãos de Deus sob as pedras do nosso egoísmo tão limitado e míope. Aprendamos com Cristo que nos convida a enfrentar nossos problemas e anseios com fé na cruz para a qual ele carregou todo motivo de sofrimento, para a qual Ele mesmo nos carrega ternamente enquanto diz: “...o meu jugo é suave, e o meu fardo e leve.” (Mateus 11:30).
Uma semana iluminada,
Luciana Dantas Teixeira
segunda-feira, 14 de julho de 2003
A pressa é inimiga da refeição
A pergunta aconteceu por volta das onze e quinze num contexto pouco favorável a respostas coerentes. O culto começara com vinte minutos de atraso por causa da leitura da ata de uma reunião onde se discutira a compra de novas cadeiras para a igreja, e depois de uma explicação pormenorizada dos modelos, quantidade e outros quesitos técnicos, as pessoas não conseguiam mais disfarçar o tédio. Um pai olhava com curiosidade seus filhos que desenhavam a arca de Noé, morrendo de vontade de pegar os lápis de cor deles. O calor fazia os mais inquietos se abanarem, levantando aquele incômodo barulhinho de papéis balançando. Dona Henriqueta, que já cochilava há algum tempo, abria agora a boca displicentemente, enquanto uma das crianças deixava os lápis de cor e colocava vagarosamente uma bolinha de papel dentro da boca da velhinha.
- Quantos aqui querem participar da ceia das aves que a Bíblia mencionam? – perguntou enfaticamente a pregadora.
Dois terços da igreja levantou o braço. Na pior das hipóteses era uma chance de alongar os músculos. Dona Henriqueta acordou assustada e disse, “Amém!”, cuspindo, confusa, a bolinha de papel.
- Todos vocês? - Sorriu a pregadora.
Os membros da igreja entreolharam-se confusos. Aquele sorriso denunciara que algo estava errado, e todos buscavam na memória o quê. Manhã quente de sábado, todos um pouco enfadados da leitura interminável da ata, o estômago já despedindo-se do café-da-manhã, e a atenção querendo despedir-se do culto, fez algumas pessoas interpretarem a ceia das aves, à primeira vista, como um banquete celestial cheio de frango assado para todo mundo. “Ih, mas no céu a gente vai comer frango?”, pensou consigo Dona Henriqueta.
A pregadora pediu que todos abrissem as Bíblias em Apocalipse 19: 17 e 18: “E vi um anjo em pé no sol; e clamou com grande voz, dizendo a todas as aves que voavam pelo meio do céu: Vinde, ajuntai-vos para a grande ceia de Deus, para comerdes carnes de reis, carnes de comandantes, carnes de poderosos, carnes de cavalos e dos que neles montavam, sim, carnes de todos os homens, livres e escravos, pequenos e grandes.”
Nesse ponto, a pregadora, que já notara o constrangimento na face da igreja agora toda atenta, tornou a perguntar:
- E quantos querem participar da Ceia das Bodas do Cordeiro?
Agora todos levantaram o braço, compondo um curioso quadro de leques improvisados. O Cordeiro era Jesus, claro. E se era a Ceia de Jesus, devia ser algo bom... não era?
- Acho que alguns de nós precisa decidir em que ceia quer estar, concluiu a pregadora, abrindo a Bíblia em Apocalipse 19: 7 – 9: “Regozijemo-nos, e exultemos, e demos-lhe a glória; porque são chegadas as bodas do Cordeiro, e já a sua noiva se preparou, e foi-lhe permitido vestir-se de linho fino, resplandecente e puro; pois o linho fino são as obras justas dos santos. E disse-me: Escreve: Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro...”
Depois a pregadora explicou o que quase todos já havia desconfiado. A Ceia das aves era aquela destinada aos ímpios, assim julgados porque em sua vida decidiram não fazer a vontade de Deus, mas seguir apenas os próprios impulsos humanos, e experimentar alegrias tão passageiras quanto esse mundo, encontrando, com o mundo, a própria destruição. Os dois versículos bastam para compor um cenário digno de filme de terror. Embora as aves sejam o símbolo de uma destruição completa e definitiva, não é, por isso, nada animador de imaginar. Os ímpios da ceia das aves são pecadores como todos nós, mas pessoas que escolheram o erro, simplesmente porque não queriam fazer o que era certo, mesmo sabendo que isso era o que deveriam ter feito. No contexto de Apocalipse, essas pessoas são aquelas que não se arrependeram de sua maldade, e escolheram uma vez mais atentar contra tudo que é justo, bom e contra o próprio Deus. Digamos que é o tipo de jantar para o qual ninguém gostaria de ser convidado. Especialmente quando se está destinado a ser o prato principal.
A Ceia das bodas do Cordeiro é aquela destinada ao grupo exatamente oposto ao anterior: os justos. Entenda-se justos não como pessoas perfeitas, que seguem todos os mandamentos com maestria ou viviam num pedestal de santidade. Os justos que Apocalipse mostra na Ceia das Bodas do Cordeiro são pecadores também, como aqueles mencionados anteriormente. Pessoas com falhas, egoísmos, muitas vezes injustas e às vezes até maus. Mas antes de tudo, pessoas que escolheram fazer o que era certo, a vontade de Deus, e mesmo sem conseguir sempre, se esforçam por isso sinceramente. Nos versículos citados, eles estão exultantes por que o Cordeiro, Jesus Cristo, está vindo tomar sua esposa, que representa a Sua Igreja, que como o texto diz, já está preparada e ornada com atos de justiça, decorrentes do amor que sente pelo seu Marido.
A diferença entre ser convidado para uma dessas duas ceias, está na atenção que damos às pequeninas coisas que dizem respeito à nossa vida espiritual, todos os dias. A coisa é muito mais sutil do que possamos nos aperceber a princípio. Basta baixar a guarda e ficar desatento por alguns instantes, e você pode escolher estar na ceia na errada... Nem sempre o ambiente aqui será favorável para vivermos nosso cristianismo de maneira plena. Às vezes nos sentiremos cansados, entediados, incomodados pelo calor das pressões e provações, tentados a tirar um “cochilo”, caindo numa religião letárgica, mas é nesse exato instante que Deus pode estar chamando nossos nomes na lista de convidados para a Ceia das bodas do Cordeiro. Se não reconhecermos a voz do Pastor, como poderemos tomar parte com Ele? (João 10:27; Mateus 25:33-46)
Assim, antes de decidir sobre nosso futuro espiritual, não nos apressemos a responder segundo nossos impulsos. Que possamos parar, pensar, ponderar na vontade de Deus, e só então escolher o melhor lugar onde estar. E que Deus nos abençoe...
- Amém! - Se empolga a irmã Henriqueta, e conclui – Eu sabia que no céu não se come frango!
Uma semana iluminada,
Luciana Dantas Teixeira
- Quantos aqui querem participar da ceia das aves que a Bíblia mencionam? – perguntou enfaticamente a pregadora.
Dois terços da igreja levantou o braço. Na pior das hipóteses era uma chance de alongar os músculos. Dona Henriqueta acordou assustada e disse, “Amém!”, cuspindo, confusa, a bolinha de papel.
- Todos vocês? - Sorriu a pregadora.
Os membros da igreja entreolharam-se confusos. Aquele sorriso denunciara que algo estava errado, e todos buscavam na memória o quê. Manhã quente de sábado, todos um pouco enfadados da leitura interminável da ata, o estômago já despedindo-se do café-da-manhã, e a atenção querendo despedir-se do culto, fez algumas pessoas interpretarem a ceia das aves, à primeira vista, como um banquete celestial cheio de frango assado para todo mundo. “Ih, mas no céu a gente vai comer frango?”, pensou consigo Dona Henriqueta.
A pregadora pediu que todos abrissem as Bíblias em Apocalipse 19: 17 e 18: “E vi um anjo em pé no sol; e clamou com grande voz, dizendo a todas as aves que voavam pelo meio do céu: Vinde, ajuntai-vos para a grande ceia de Deus, para comerdes carnes de reis, carnes de comandantes, carnes de poderosos, carnes de cavalos e dos que neles montavam, sim, carnes de todos os homens, livres e escravos, pequenos e grandes.”
Nesse ponto, a pregadora, que já notara o constrangimento na face da igreja agora toda atenta, tornou a perguntar:
- E quantos querem participar da Ceia das Bodas do Cordeiro?
Agora todos levantaram o braço, compondo um curioso quadro de leques improvisados. O Cordeiro era Jesus, claro. E se era a Ceia de Jesus, devia ser algo bom... não era?
- Acho que alguns de nós precisa decidir em que ceia quer estar, concluiu a pregadora, abrindo a Bíblia em Apocalipse 19: 7 – 9: “Regozijemo-nos, e exultemos, e demos-lhe a glória; porque são chegadas as bodas do Cordeiro, e já a sua noiva se preparou, e foi-lhe permitido vestir-se de linho fino, resplandecente e puro; pois o linho fino são as obras justas dos santos. E disse-me: Escreve: Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro...”
Depois a pregadora explicou o que quase todos já havia desconfiado. A Ceia das aves era aquela destinada aos ímpios, assim julgados porque em sua vida decidiram não fazer a vontade de Deus, mas seguir apenas os próprios impulsos humanos, e experimentar alegrias tão passageiras quanto esse mundo, encontrando, com o mundo, a própria destruição. Os dois versículos bastam para compor um cenário digno de filme de terror. Embora as aves sejam o símbolo de uma destruição completa e definitiva, não é, por isso, nada animador de imaginar. Os ímpios da ceia das aves são pecadores como todos nós, mas pessoas que escolheram o erro, simplesmente porque não queriam fazer o que era certo, mesmo sabendo que isso era o que deveriam ter feito. No contexto de Apocalipse, essas pessoas são aquelas que não se arrependeram de sua maldade, e escolheram uma vez mais atentar contra tudo que é justo, bom e contra o próprio Deus. Digamos que é o tipo de jantar para o qual ninguém gostaria de ser convidado. Especialmente quando se está destinado a ser o prato principal.
A Ceia das bodas do Cordeiro é aquela destinada ao grupo exatamente oposto ao anterior: os justos. Entenda-se justos não como pessoas perfeitas, que seguem todos os mandamentos com maestria ou viviam num pedestal de santidade. Os justos que Apocalipse mostra na Ceia das Bodas do Cordeiro são pecadores também, como aqueles mencionados anteriormente. Pessoas com falhas, egoísmos, muitas vezes injustas e às vezes até maus. Mas antes de tudo, pessoas que escolheram fazer o que era certo, a vontade de Deus, e mesmo sem conseguir sempre, se esforçam por isso sinceramente. Nos versículos citados, eles estão exultantes por que o Cordeiro, Jesus Cristo, está vindo tomar sua esposa, que representa a Sua Igreja, que como o texto diz, já está preparada e ornada com atos de justiça, decorrentes do amor que sente pelo seu Marido.
A diferença entre ser convidado para uma dessas duas ceias, está na atenção que damos às pequeninas coisas que dizem respeito à nossa vida espiritual, todos os dias. A coisa é muito mais sutil do que possamos nos aperceber a princípio. Basta baixar a guarda e ficar desatento por alguns instantes, e você pode escolher estar na ceia na errada... Nem sempre o ambiente aqui será favorável para vivermos nosso cristianismo de maneira plena. Às vezes nos sentiremos cansados, entediados, incomodados pelo calor das pressões e provações, tentados a tirar um “cochilo”, caindo numa religião letárgica, mas é nesse exato instante que Deus pode estar chamando nossos nomes na lista de convidados para a Ceia das bodas do Cordeiro. Se não reconhecermos a voz do Pastor, como poderemos tomar parte com Ele? (João 10:27; Mateus 25:33-46)
Assim, antes de decidir sobre nosso futuro espiritual, não nos apressemos a responder segundo nossos impulsos. Que possamos parar, pensar, ponderar na vontade de Deus, e só então escolher o melhor lugar onde estar. E que Deus nos abençoe...
- Amém! - Se empolga a irmã Henriqueta, e conclui – Eu sabia que no céu não se come frango!
Uma semana iluminada,
Luciana Dantas Teixeira
segunda-feira, 7 de julho de 2003
Insígnias
PUBLICIDADE
Outro dia alguém me perguntou porque costumo assinar "Luciana Teixeira", ao invés de "Luciana Dantas", já que é por esse último sobrenome que a maioria das pessoas me distingue das dezenas de Lucianas de que vivo cercada. A resposta é: "por pura vaidade". Certa vez fui a uma exposição de brasões, e lá estavam meus dois sobrenomes com significado e origem. Teixeira provinha de um nobre guerreiro que havia lutado na tomada da Bastilha. E Dantas... bem, Dantas vinha da Região das Antas, em Portugal. Nada contra as antas, mas isso me soou pouco vultoso.
O fato é que brasões de sobrenomes hoje ganharam um significado meramente estético, mas eles já foram o orgulho de uma família. Na Idade Média eles eram exibidos pelos cavaleiros em seus escudos para mostrar que os mesmos procediam de uma linhagem nobre, portanto, se alguém quisesse o matar teria que ser tão ou mais "importante" quanto ele. Não se concebia gastar o fio da espada com um plebeu metido a Jaspion (Pokemón par aos mais modernos); os cavaleiros nobres só se dignavam de derramar sangue aristocrático. Daí a importância de empunhar sua insígnia.
E hoje, qual é nosso brasão? Quem é nosso Inimigo? Nesses tempos onde a guerra diária ganha contornos muito mais sutis, as lutas são contra armadilhas cada vez mais capciosas e o Mal toma formas muitas vezes quase indistinguíveis, importante é discernimos de que lado nós estamos e erguer a bandeira do que professamos ser. Sun Tzu, o mais célebre dos estrategistas de guerra, escreveu em seu pequeno tratado "A Arte da Guerra": "Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas."
Para quem crê na Bíblia como Santa, Verdadeira e Inspirada Palavra de Deus, não é difícil saber quem é o Arqui-Inimigo, Aquele que anda rugindo ao redor, como um leão, procurando a quem devorar (I Pedro 5:8). Aquele que nem sempre é tão explícito, e não nos ataca com espadas, mas está pronto a nos atingir com dardos inflamados, e contra quem só a armadura feita nos moldes de Cristo pode resistir (Efésios 6:10-18).
E quem somos nós? Será que nas batalhas do cotidiano temos nos preocupado em empunhar o brasão de Filhos de Deus, mostrar que nossa linhagem procede do Senhor dos Exércitos, que o nosso sangue é do mesmo tipo daquele que foi derramado na cruz pelo Príncipe da Paz (Isaías 9:6)? Será que nosso Inimigo consegue ver que temos orgulho de pertencer a Deus? E a nossa vida é uma prova disso?
No Salmo 74, vemos uma preocupação que bem poderia ser transportada para os nossos dias: "Não vemos mais as nossas insígnias, não há mais profeta; nem há entre nós alguém que saiba até quando isto durará. (verso 9)". O salmista via, perplexo, os inimigos avançarem sobre a assembléia dos justos, derrubarem os seus estandartes e altearem em seus lugar as próprias insígnias. Profanavam o santuário dos hebreus e destruíam os lugares santos. E hoje não é diferente a preocupação dos cristãos, porque temos visto Satanás com o mesmo interesse em derrubar as verdades cristãs, profanar a santidade nos templos e nos lares, destruir os santuários com as mais sutis e perspicazes mentiras, de modo a erguer no meio do cristianismo, as bandeiras da mentira, do egoísmo, da nossa doente vontade própria, entre tantas outras que envergonham a procedência Real dos cristãos, e descaracterizam aquilo que deveria ser o acampamento dos justos.
Por isso o apelo do salmista ainda é válido para nós: "Os teus inimigos bramam no meio da tua assembléia; põem nela as suas insígnias por sinais." (Verso 4). Nas batalhas diárias por fazer o bem segundo a vontade dEle, que possamos lembrar de erguer sobre cada palavra, atitude ou pensamento, o brasão com a imagem do Cordeiro de Deus.
Uma semana iluminada,
Luciana D. Teixeira
Outro dia alguém me perguntou porque costumo assinar "Luciana Teixeira", ao invés de "Luciana Dantas", já que é por esse último sobrenome que a maioria das pessoas me distingue das dezenas de Lucianas de que vivo cercada. A resposta é: "por pura vaidade". Certa vez fui a uma exposição de brasões, e lá estavam meus dois sobrenomes com significado e origem. Teixeira provinha de um nobre guerreiro que havia lutado na tomada da Bastilha. E Dantas... bem, Dantas vinha da Região das Antas, em Portugal. Nada contra as antas, mas isso me soou pouco vultoso.
O fato é que brasões de sobrenomes hoje ganharam um significado meramente estético, mas eles já foram o orgulho de uma família. Na Idade Média eles eram exibidos pelos cavaleiros em seus escudos para mostrar que os mesmos procediam de uma linhagem nobre, portanto, se alguém quisesse o matar teria que ser tão ou mais "importante" quanto ele. Não se concebia gastar o fio da espada com um plebeu metido a Jaspion (Pokemón par aos mais modernos); os cavaleiros nobres só se dignavam de derramar sangue aristocrático. Daí a importância de empunhar sua insígnia.
E hoje, qual é nosso brasão? Quem é nosso Inimigo? Nesses tempos onde a guerra diária ganha contornos muito mais sutis, as lutas são contra armadilhas cada vez mais capciosas e o Mal toma formas muitas vezes quase indistinguíveis, importante é discernimos de que lado nós estamos e erguer a bandeira do que professamos ser. Sun Tzu, o mais célebre dos estrategistas de guerra, escreveu em seu pequeno tratado "A Arte da Guerra": "Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas."
Para quem crê na Bíblia como Santa, Verdadeira e Inspirada Palavra de Deus, não é difícil saber quem é o Arqui-Inimigo, Aquele que anda rugindo ao redor, como um leão, procurando a quem devorar (I Pedro 5:8). Aquele que nem sempre é tão explícito, e não nos ataca com espadas, mas está pronto a nos atingir com dardos inflamados, e contra quem só a armadura feita nos moldes de Cristo pode resistir (Efésios 6:10-18).
E quem somos nós? Será que nas batalhas do cotidiano temos nos preocupado em empunhar o brasão de Filhos de Deus, mostrar que nossa linhagem procede do Senhor dos Exércitos, que o nosso sangue é do mesmo tipo daquele que foi derramado na cruz pelo Príncipe da Paz (Isaías 9:6)? Será que nosso Inimigo consegue ver que temos orgulho de pertencer a Deus? E a nossa vida é uma prova disso?
No Salmo 74, vemos uma preocupação que bem poderia ser transportada para os nossos dias: "Não vemos mais as nossas insígnias, não há mais profeta; nem há entre nós alguém que saiba até quando isto durará. (verso 9)". O salmista via, perplexo, os inimigos avançarem sobre a assembléia dos justos, derrubarem os seus estandartes e altearem em seus lugar as próprias insígnias. Profanavam o santuário dos hebreus e destruíam os lugares santos. E hoje não é diferente a preocupação dos cristãos, porque temos visto Satanás com o mesmo interesse em derrubar as verdades cristãs, profanar a santidade nos templos e nos lares, destruir os santuários com as mais sutis e perspicazes mentiras, de modo a erguer no meio do cristianismo, as bandeiras da mentira, do egoísmo, da nossa doente vontade própria, entre tantas outras que envergonham a procedência Real dos cristãos, e descaracterizam aquilo que deveria ser o acampamento dos justos.
Por isso o apelo do salmista ainda é válido para nós: "Os teus inimigos bramam no meio da tua assembléia; põem nela as suas insígnias por sinais." (Verso 4). Nas batalhas diárias por fazer o bem segundo a vontade dEle, que possamos lembrar de erguer sobre cada palavra, atitude ou pensamento, o brasão com a imagem do Cordeiro de Deus.
Uma semana iluminada,
Luciana D. Teixeira
segunda-feira, 30 de junho de 2003
Uma tela
Sempre tive paixão pela pintura, mas nunca me aventurei a ir além da mera contemplação. Até já tinha arriscado alguns rabiscos e pinceladas bem amadores e despretensiosos na minha adolescência, mas que ficaram muito bem escondidos do olhar do mundo em algum caderno esquecido. Foi só quando conversava com uma colega minha que também tem a mesma paixão que senti nova vontade de pintar. Dessa vez algo mais ambicioso que tinta guache em papel ofício: decidi pintar uma tela. Durante algum tempo resisti pensando: “Puxa, mas pintar em tela?! Tem que se ter técnica, boas noções de desenho e pintura, dedicação profunda, esmero meticuloso!”, mas Nicole, uma garotinha de dez anos, me provou que só boa vontade já é suficiente. Na verdade, depois de ver o quadrinho de Nicole concluí com meus botões que com um quarto de século de idade, pra pintar uma tela você só precisa de tinta e pincéis, oras.
Para não arriscar demais escolhi um motivo simples: tulipas. Mais precisamente um detalhe de tulipas, bem aproximado, de modo a me livrar ao máximo dos detalhes dificultosos. Seis tulipas com um fundo verde não devia ser algo que demorasse mais que uma tarde pra fazer. Com dois pincéis um tanto gastos e alguns potes de tinta acrílica comecei bem animada. No fim da tarde ainda não tinha pintado metade da tela. Dois dias depois tentava definir os contornos. Duas semanas depois testava dezenas de texturas para aplicar ao fundo verde, e já tinha uma coleção inteira de camisetas super fashion, manchadas de verde, marrom e vermelho. Um mês e oito pincéis depois, eu escolhia a assinatura. Enfim, hoje eu o terminei! Se ficou bonito? Não sei. Minha mãe e meu namorado jurariam que sim, mas não creio que eu vá fundar um novo movimento na arte plástica. Na verdade acho provável que minha tela de tulipas não saia nunca do seguro recôndito de meu quarto.
Mas além de desenvolver técnicas de pintura e conhecer o sentido mais profundo da palavra paciência, refleti bastante sobre a arte de criar. Acho que todo cristão deveria tentar pintar uma tela em sua vida para saber exatamente o significado do versículo: “No princípio criou Deus os céus e a terra.” (Gen. 1:1) (ter um filho também é outra alternativa, mas muito mais cara). Não se trata de saber como Deus se sentiu porque, em sua infinita sabedoria e perfeição, Ele certamente não teve dificuldades diante do ato de criar. Mas podemos avaliar ao menos palidamente o cuidado, dedicação e carinho que o Criador dedica à criação. E com isso reconhecermos que privilégio é sermos feitura de Suas mãos (Efésios 2:10), saber que Ele nos fez perfeitos, escolheu nossos dons e tons, e ao final assinou Seu maravilhoso nome em nosso coração dizendo: “Tu és meu”. Não se imagina a tela voltando-se contra o pintor e dizendo: “não acredito em você, sou obra de milênios de evolução e ciência e estou aqui por acaso.” Tampouco pode a tela, uma vez criada, deixar de ser amada pelo pintor, ainda que ele permita que ela leve sua beleza a outros olhos. O fato de existirmos demonstra que Deus nos ama. Tudo que somos deve ser valorizado porque Ele não erraria com a sua mais querida criação: somos nós que muitas vezes escapamos por um ponto de fuga e não deixamos que ele termine a obra que começou em nós.
“Pois os seus atributos invisíveis, o seu eterno poder e divindade, são claramente vistos desde a criação do mundo, sendo percebidos mediante as coisas criadas.” (Romanos 1:20). Mesmo aquilo que temos, os pequenos e grandes atributos, bens, alegrias, livramentos e desafios que formam nossa vida, expressam a existência de um Criador que nos ama. Ele não só nos fez, mas nos refaz todos os dias: somos recriados à Sua semelhança cada vez que O buscamos, é Ele quem nos mantém seguros na batalha entre a sombra e a luz. E nesse deixar que Suas mãos de Criador tracem contornos e cores em todos os detalhes de nossa vida, vamos nos tornando uma admirável obra de arte.
Para não arriscar demais escolhi um motivo simples: tulipas. Mais precisamente um detalhe de tulipas, bem aproximado, de modo a me livrar ao máximo dos detalhes dificultosos. Seis tulipas com um fundo verde não devia ser algo que demorasse mais que uma tarde pra fazer. Com dois pincéis um tanto gastos e alguns potes de tinta acrílica comecei bem animada. No fim da tarde ainda não tinha pintado metade da tela. Dois dias depois tentava definir os contornos. Duas semanas depois testava dezenas de texturas para aplicar ao fundo verde, e já tinha uma coleção inteira de camisetas super fashion, manchadas de verde, marrom e vermelho. Um mês e oito pincéis depois, eu escolhia a assinatura. Enfim, hoje eu o terminei! Se ficou bonito? Não sei. Minha mãe e meu namorado jurariam que sim, mas não creio que eu vá fundar um novo movimento na arte plástica. Na verdade acho provável que minha tela de tulipas não saia nunca do seguro recôndito de meu quarto.
Mas além de desenvolver técnicas de pintura e conhecer o sentido mais profundo da palavra paciência, refleti bastante sobre a arte de criar. Acho que todo cristão deveria tentar pintar uma tela em sua vida para saber exatamente o significado do versículo: “No princípio criou Deus os céus e a terra.” (Gen. 1:1) (ter um filho também é outra alternativa, mas muito mais cara). Não se trata de saber como Deus se sentiu porque, em sua infinita sabedoria e perfeição, Ele certamente não teve dificuldades diante do ato de criar. Mas podemos avaliar ao menos palidamente o cuidado, dedicação e carinho que o Criador dedica à criação. E com isso reconhecermos que privilégio é sermos feitura de Suas mãos (Efésios 2:10), saber que Ele nos fez perfeitos, escolheu nossos dons e tons, e ao final assinou Seu maravilhoso nome em nosso coração dizendo: “Tu és meu”. Não se imagina a tela voltando-se contra o pintor e dizendo: “não acredito em você, sou obra de milênios de evolução e ciência e estou aqui por acaso.” Tampouco pode a tela, uma vez criada, deixar de ser amada pelo pintor, ainda que ele permita que ela leve sua beleza a outros olhos. O fato de existirmos demonstra que Deus nos ama. Tudo que somos deve ser valorizado porque Ele não erraria com a sua mais querida criação: somos nós que muitas vezes escapamos por um ponto de fuga e não deixamos que ele termine a obra que começou em nós.
“Pois os seus atributos invisíveis, o seu eterno poder e divindade, são claramente vistos desde a criação do mundo, sendo percebidos mediante as coisas criadas.” (Romanos 1:20). Mesmo aquilo que temos, os pequenos e grandes atributos, bens, alegrias, livramentos e desafios que formam nossa vida, expressam a existência de um Criador que nos ama. Ele não só nos fez, mas nos refaz todos os dias: somos recriados à Sua semelhança cada vez que O buscamos, é Ele quem nos mantém seguros na batalha entre a sombra e a luz. E nesse deixar que Suas mãos de Criador tracem contornos e cores em todos os detalhes de nossa vida, vamos nos tornando uma admirável obra de arte.
Assinar:
Postagens (Atom)