- Bateram em mim!
Quando ele me falou isso, cedo da manhã, eu passei algum tempo sem conseguir raciocinar. Tudo que me ocorria eram as cenas de todos os filmes policiais e de artes marciais que já vi, com imagens de gangues mal-encaradas cercando um pobre cidadão e partindo pra cima dele sem dó nem piedade. Depois ainda visualizei o mesmo cidadão arrastando-se na sarjeta, todo rasgado e cheio de hematomas, cinco dentes a menos, sangue cobrindo sua face deformada, até que, vencido pela agressão, tombava desfalecido, vindo a acordar somente no hospital enquanto uma mulher aos prantos, descabelada, acompanhava sua maca até o pronto-socorro. E naquele momento a mulher descabelada era eu.
- Quê?!
Eu já tinha uma bateria de perguntas posteriores, do tipo: quantos caras foram? Onde te bateram? Quantas fraturas expostas? Mas ele resolveu me explicar melhor.
- Bateram em mim. A porta lateral tá toda amassada.
Foi só então que eu entendi. Bateram no carro dele. Graças a Deus, ele não sofreu nenhum arranhão, mas sua ligação com o carro é tanta a ponto de ter falado dele como uma extensão de si próprio. Tamanha foi sua dor emocional ao ver a porta esquerda amassada, que eu poderia jurar que ele andaria mancando até o carro sair da oficina.
O episódio me fez pensar sobre as coisas externas que agregamos a nós mesmos, a ponto de sentí-las como um membro a mais. Todo mundo já ouviu que, para muito, o bolso é a parte mais sensível do corpo humano. E há quem sinta que é seu trabalho, seu cargo na igreja, sua casa, seus livros, seus filhos, sua coleção de sapatos ou CDs. Aquilo de que não concebemos nos separar. Aquilo que nos faz suar frio só de imaginar perder. E não é que até mesmo Deus, completo em si mesmo, escolheu algo fora dEle para tomar como parte de Si? “Eu sou a videira; vós sois os ramos. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.” (João 15:5).
Qualquer dano que um dos ramos sofra é sentido por toda a videira. E o vigor do ramo é a alegria da videira. Jesus continua: “Se alguém não permanece em mim, será lançado fora, à semelhança do ramo, e secará...”(v. 6). Não adianta estar ligado à videira e querer dar uva. “Pelos frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros?” (Mateus 7:16). E embora a videira de Cristo esteja sempre aberta a enxertos, os ramos são partes inteiramente dependentes e coerentes com a natureza da videira “Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes e vos será feito” (v. 7). Não se trata de um favor que Deus nos concede. Ele fará o que quisermos porque, sendo membros unidos a Ele, o nosso querer será a Sua vontade. Não haverá mais desejos separados; ramo e videira têm o mesmo interesse, que é frutificar no bem em abundância.
Que nesta nova semana saibamos escolher agregar coisas mais elevadas ao nosso ser. Se nos apegarmos a coisas materiais, finitas e perecíveis, nada estaremos acrescentando de melhor à nossa natureza. Se buscarmos permanecer unidos à Videira Verdadeira, porém, beberemos da seiva de Sua bela nobreza e eternidade.
segunda-feira, 29 de setembro de 2003
quarta-feira, 10 de setembro de 2003
À segunda vista
Acabo de chegar de uma pequena e agradável viagem à Recife, e na volta vinha pensando sobre ela no ônibus - afinal não resta mesmo muita coisa para eu fazer pois não consigo dormir nem ler. E refletia: a primeira impressão que tive de Recife não foi das melhores. Há cerca de dez anos eu a visitei pela primeira vez para fazer um exames médicos. E lembro com nitidez de andar com meus pais por umas ruas feias e tristes, entre calçadas estreitas apinhadas de gente apressada. A única coisa que me chamou atenção então foi o metrô, que eu não conhecia, mas acabei achando meio besta.
Voltei ainda algumas vezes a Recife, mas em nenhuma dessas me permiti livrar da primeira visão que tive da cidade. Restringia-me a ficar no lugar da hospedaria e esperar a hora de ir embora, porque para mim não havia nada que ver de interessante naquele lugar. Uma vez apenas passeei rapidamente em Olinda, e julguei que a fama turística de Recife fosse devida totalmente à primeira.
Só de uns três meses para cá é que tenho começado a descobrir a verdadeira Recife. E não tenho pudores de me confessar cada vez mais apaixonada. À medida que me permitir livrar da primeira e falsa impressão que tive da cidade, fui descobrindo sua beleza pulsante. E também sua história garbosa, corajosa, rica em detalhes que por vezes se escondem em prédios e igrejas fora do roteiro turístico, em teatros e construções sobranceiras, ou na alma forte e bonita de seu povo. Um olhar apenas não basta para captar o valor de Recife, é preciso a contemplação detida de todos os sentidos para não deixar passar sua essência. E talvez uma vida inteira para descobrí-la em seus magnéticos segredos.
A "lente" sensorial que forma nossas impressões nem sempre está ajustada para um bom foco. Por isso deveríamos permitir sempre uma segunda, terceira ou quarta impressão. Sobre as pessoas, lugares, livros, comidas (por que não?), fatos passados e presentes, fotografias, sobre nossa vida e tudo que a cerca, sobre as outras vidas e a forma como as cercamos. Deixar-se estar numa primeira impressão perenemente pode nos privar de uma descoberta mais profunda e acertada sobre a natureza das coisas. Isso engessa nosso conhecimento de mundo, e não raro, de Deus também. "...Transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus." (Romanos 12:2).
Se as misericóridas de Deus renovam-se a cada manhã (Lamentações 3:22,23), nós também devemos fazer renovar nosso ser perante Ele. E uma mudança eficaz de si mesmo compreende antes uma mudança na forma de olhar o mundo, as maneiras de encarar a vida e os problemas, nossa postura como cristãos e seres humanos relacionais. A renovação pode vir de percepções simples, como entender que quase tudo que sugere dor, implica verdadeiramente em crescimento, e o que parece um fim, tende sempre a criar novas oportunidades. Saber aproveitar a dádiva da vida com fé, é a força motriz de uma tranformação necessária para ver o mundo sob excitantes perspectivas.
Ainda que nos reste um longo caminho para alcançar a visão perfeita, temos auxílio garantido para não estacionarmos em nossa caminhada. Seja qual for a impressão que te impede de descobrir a real beleza da vida, "O Senhor teu Deus está no meio de ti, poderoso para te salvar; ele se deleitará em ti com alegria; renovar-te-á no seu amor, regozijar-se-á em ti com júbilo." (Sofonias 3:17).
Um restante de semana iluminado!
Luciana Dantas Teixeira
Voltei ainda algumas vezes a Recife, mas em nenhuma dessas me permiti livrar da primeira visão que tive da cidade. Restringia-me a ficar no lugar da hospedaria e esperar a hora de ir embora, porque para mim não havia nada que ver de interessante naquele lugar. Uma vez apenas passeei rapidamente em Olinda, e julguei que a fama turística de Recife fosse devida totalmente à primeira.
Só de uns três meses para cá é que tenho começado a descobrir a verdadeira Recife. E não tenho pudores de me confessar cada vez mais apaixonada. À medida que me permitir livrar da primeira e falsa impressão que tive da cidade, fui descobrindo sua beleza pulsante. E também sua história garbosa, corajosa, rica em detalhes que por vezes se escondem em prédios e igrejas fora do roteiro turístico, em teatros e construções sobranceiras, ou na alma forte e bonita de seu povo. Um olhar apenas não basta para captar o valor de Recife, é preciso a contemplação detida de todos os sentidos para não deixar passar sua essência. E talvez uma vida inteira para descobrí-la em seus magnéticos segredos.
A "lente" sensorial que forma nossas impressões nem sempre está ajustada para um bom foco. Por isso deveríamos permitir sempre uma segunda, terceira ou quarta impressão. Sobre as pessoas, lugares, livros, comidas (por que não?), fatos passados e presentes, fotografias, sobre nossa vida e tudo que a cerca, sobre as outras vidas e a forma como as cercamos. Deixar-se estar numa primeira impressão perenemente pode nos privar de uma descoberta mais profunda e acertada sobre a natureza das coisas. Isso engessa nosso conhecimento de mundo, e não raro, de Deus também. "...Transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus." (Romanos 12:2).
Se as misericóridas de Deus renovam-se a cada manhã (Lamentações 3:22,23), nós também devemos fazer renovar nosso ser perante Ele. E uma mudança eficaz de si mesmo compreende antes uma mudança na forma de olhar o mundo, as maneiras de encarar a vida e os problemas, nossa postura como cristãos e seres humanos relacionais. A renovação pode vir de percepções simples, como entender que quase tudo que sugere dor, implica verdadeiramente em crescimento, e o que parece um fim, tende sempre a criar novas oportunidades. Saber aproveitar a dádiva da vida com fé, é a força motriz de uma tranformação necessária para ver o mundo sob excitantes perspectivas.
Ainda que nos reste um longo caminho para alcançar a visão perfeita, temos auxílio garantido para não estacionarmos em nossa caminhada. Seja qual for a impressão que te impede de descobrir a real beleza da vida, "O Senhor teu Deus está no meio de ti, poderoso para te salvar; ele se deleitará em ti com alegria; renovar-te-á no seu amor, regozijar-se-á em ti com júbilo." (Sofonias 3:17).
Um restante de semana iluminado!
Luciana Dantas Teixeira
segunda-feira, 1 de setembro de 2003
As coisas que carregamos
Esta semana li num blog que gosto muito, a confissão inusitada de uma garota que perdeu sua tartaruga quando criança. Nada de muito diferente, não fosse a tragicidade grega do desfecho. Certo dia, quando ela procurou a caixa de areia onde guardava sua tartaruguinha, encontrou no lugar dela uma pedra. A mãe, com toda a sabedoria inquestionável que as mães têm, explicou para ela que uma fada tinha transformado a tartaruga em pedra, isso para não dizer que havia largado a tartaruga por aí, porque soube que o bichinho podia transmitir doenças. A garota, conformada, guardou a pedra carinhosamente por anos. Conseguia até ver as pernas e braços da tartaruga numas marquinhas que a pedra tinha. E só com vinte e poucos anos é que ela, revoltada, jogou a pedra fora depois de entender que fora enganada. Como pôde guardar tanto tempo uma pedra no lugar de sua amada tartaruga sem se dar conta da própria ilusão?
Isso me fez lembrar outro episódio ocorrido aqui em casa com minha irmã mais velha. Quando ela e namorado comemoravam alguns meses juntos, ele trouxe de presente uma enorme caixa de papelão para empregar o velho truque de uma caixa dentro da outra. Encheu-a de caixinhas menores até que, lá no fundo, minha irmã encontrou uma boneca bem pequena. Ela adorou. Tanto que guardou, além da boneca, um grande tijolo que ele colocara na caixa para tornar a coisa toda mais verossímil. E eu sempre dava risada quando, entrando no quarto dela, via o dito tijolo colocado em lugar de honra numa estante, entre ursinhos e bonecas. Até que o tijolo sumiu por alguma razão desconhecida.
Como podem ser estranhas as coisas que carregamos! Esquisitas mesmo! Coisas que podemos trazer na intenção ilusória de substituir algo que perdemos no caminho, que ao menos lembrem, ao longe, aquilo que já não temos. Ou coisas totalmente dispensáveis que nos dispomos a levar na tentativa vã de aumentar o valor daquilo que já temos.
Aquilo que perdemos está perdido, e nada ocupará satisfatoriamente o seu vão, a menos que o que estava perdido volte a seu lugar. Deus sabia disso quando enviou Seu Filho para “buscar e salvar o que se havia perdido” (Lucas 19:10). Talvez fosse mais fácil criar outro mundo, com uma nova espécie mais obediente e menos egoísta que o homem, mas era o homem que Deus havia perdido, era o homem que Deus tinha que buscar. E veio. E continua vindo, porque sabe que perto dEle, também nós podemos encontrar aquilo que temos perdido. O próprio Jesus utilizou-se de várias parábolas para afirmar isso: “Alegrai-vos comigo, porque achei a minha ovelha que se havia perdido.” (Lucas 15:6); “Alegrai-vos comigo, porque achei a dracma que eu havia perdido.” (Lucas 15:9); “porque este meu filho estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado.” (Lucas 15:24). Tais versículos não demonstram apenas que cada ser é objeto do amor particular do Pai, como também nos diz que o coração humano não achará alegria verdadeira sem antes reencontrar aquilo de que sente falta. Artifícios, os mais bem elaborados não vão substituir a sensação de completude pela qual a alma anseia. As pedras colhidas no caminho não aliviarão, antes pesarão, sobre o espírito onde habita um vazio do tamanho de Deus.
E o que dizer de nossa pouca habilidade para receber as dádivas divinas? Quantas vezes nosso Deus nos presenteia com exatamente aquilo que precisamos para ser feliz, mas nós achamos pouco. Encarregamo-nos, nós mesmos, de arranjar inúteis pedras que dêem a sensação de que nossa dádiva “pesa” mais. Tão poucas vezes nos contentamos com a plenitude que há nas coisas e pessoas que Deus põe em nosso caminho, e tratamos de elaborar rápida e avidamente um plano de obter mais, e mais, e mais, até que estejamos fartos daquilo que, julgamos, satisfará nosso desejo. Pena que a satisfação não é garantia de felicidade. E o que fazemos, normalmente, é tomar o presente divino e acumular pedras sobre ele – honrando muitas vezes mais as próprias pedras que o presente, cumulando-nos de coisas por vezes inúteis, quase sempre prejudiciais. Pois a medida de Deus completa, enquanto a nossa medida não sabe sopesar felicidade duradoura.
O único peso que somos chamados a carregar é nossa própria cruz (Lucas 9:23). Não precisamos carregar conosco pedras de nenhum valor, como a culpa, a solidão, a tristeza, a soberba, a mágoa, a desesperança ou qualquer outra forma de sublimação da nossa dor. “Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte.” (Romanos 8:2). Não devemos enterrar as bênçãos de Deus sob as pedras do nosso egoísmo tão limitado e míope. Aprendamos com Cristo que nos convida a enfrentar nossos problemas e anseios com fé na cruz para a qual ele carregou todo motivo de sofrimento, para a qual Ele mesmo nos carrega ternamente enquanto diz: “...o meu jugo é suave, e o meu fardo e leve.” (Mateus 11:30).
Uma semana iluminada,
Luciana Dantas Teixeira
Isso me fez lembrar outro episódio ocorrido aqui em casa com minha irmã mais velha. Quando ela e namorado comemoravam alguns meses juntos, ele trouxe de presente uma enorme caixa de papelão para empregar o velho truque de uma caixa dentro da outra. Encheu-a de caixinhas menores até que, lá no fundo, minha irmã encontrou uma boneca bem pequena. Ela adorou. Tanto que guardou, além da boneca, um grande tijolo que ele colocara na caixa para tornar a coisa toda mais verossímil. E eu sempre dava risada quando, entrando no quarto dela, via o dito tijolo colocado em lugar de honra numa estante, entre ursinhos e bonecas. Até que o tijolo sumiu por alguma razão desconhecida.
Como podem ser estranhas as coisas que carregamos! Esquisitas mesmo! Coisas que podemos trazer na intenção ilusória de substituir algo que perdemos no caminho, que ao menos lembrem, ao longe, aquilo que já não temos. Ou coisas totalmente dispensáveis que nos dispomos a levar na tentativa vã de aumentar o valor daquilo que já temos.
Aquilo que perdemos está perdido, e nada ocupará satisfatoriamente o seu vão, a menos que o que estava perdido volte a seu lugar. Deus sabia disso quando enviou Seu Filho para “buscar e salvar o que se havia perdido” (Lucas 19:10). Talvez fosse mais fácil criar outro mundo, com uma nova espécie mais obediente e menos egoísta que o homem, mas era o homem que Deus havia perdido, era o homem que Deus tinha que buscar. E veio. E continua vindo, porque sabe que perto dEle, também nós podemos encontrar aquilo que temos perdido. O próprio Jesus utilizou-se de várias parábolas para afirmar isso: “Alegrai-vos comigo, porque achei a minha ovelha que se havia perdido.” (Lucas 15:6); “Alegrai-vos comigo, porque achei a dracma que eu havia perdido.” (Lucas 15:9); “porque este meu filho estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado.” (Lucas 15:24). Tais versículos não demonstram apenas que cada ser é objeto do amor particular do Pai, como também nos diz que o coração humano não achará alegria verdadeira sem antes reencontrar aquilo de que sente falta. Artifícios, os mais bem elaborados não vão substituir a sensação de completude pela qual a alma anseia. As pedras colhidas no caminho não aliviarão, antes pesarão, sobre o espírito onde habita um vazio do tamanho de Deus.
E o que dizer de nossa pouca habilidade para receber as dádivas divinas? Quantas vezes nosso Deus nos presenteia com exatamente aquilo que precisamos para ser feliz, mas nós achamos pouco. Encarregamo-nos, nós mesmos, de arranjar inúteis pedras que dêem a sensação de que nossa dádiva “pesa” mais. Tão poucas vezes nos contentamos com a plenitude que há nas coisas e pessoas que Deus põe em nosso caminho, e tratamos de elaborar rápida e avidamente um plano de obter mais, e mais, e mais, até que estejamos fartos daquilo que, julgamos, satisfará nosso desejo. Pena que a satisfação não é garantia de felicidade. E o que fazemos, normalmente, é tomar o presente divino e acumular pedras sobre ele – honrando muitas vezes mais as próprias pedras que o presente, cumulando-nos de coisas por vezes inúteis, quase sempre prejudiciais. Pois a medida de Deus completa, enquanto a nossa medida não sabe sopesar felicidade duradoura.
O único peso que somos chamados a carregar é nossa própria cruz (Lucas 9:23). Não precisamos carregar conosco pedras de nenhum valor, como a culpa, a solidão, a tristeza, a soberba, a mágoa, a desesperança ou qualquer outra forma de sublimação da nossa dor. “Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte.” (Romanos 8:2). Não devemos enterrar as bênçãos de Deus sob as pedras do nosso egoísmo tão limitado e míope. Aprendamos com Cristo que nos convida a enfrentar nossos problemas e anseios com fé na cruz para a qual ele carregou todo motivo de sofrimento, para a qual Ele mesmo nos carrega ternamente enquanto diz: “...o meu jugo é suave, e o meu fardo e leve.” (Mateus 11:30).
Uma semana iluminada,
Luciana Dantas Teixeira
segunda-feira, 14 de julho de 2003
A pressa é inimiga da refeição
A pergunta aconteceu por volta das onze e quinze num contexto pouco favorável a respostas coerentes. O culto começara com vinte minutos de atraso por causa da leitura da ata de uma reunião onde se discutira a compra de novas cadeiras para a igreja, e depois de uma explicação pormenorizada dos modelos, quantidade e outros quesitos técnicos, as pessoas não conseguiam mais disfarçar o tédio. Um pai olhava com curiosidade seus filhos que desenhavam a arca de Noé, morrendo de vontade de pegar os lápis de cor deles. O calor fazia os mais inquietos se abanarem, levantando aquele incômodo barulhinho de papéis balançando. Dona Henriqueta, que já cochilava há algum tempo, abria agora a boca displicentemente, enquanto uma das crianças deixava os lápis de cor e colocava vagarosamente uma bolinha de papel dentro da boca da velhinha.
- Quantos aqui querem participar da ceia das aves que a Bíblia mencionam? – perguntou enfaticamente a pregadora.
Dois terços da igreja levantou o braço. Na pior das hipóteses era uma chance de alongar os músculos. Dona Henriqueta acordou assustada e disse, “Amém!”, cuspindo, confusa, a bolinha de papel.
- Todos vocês? - Sorriu a pregadora.
Os membros da igreja entreolharam-se confusos. Aquele sorriso denunciara que algo estava errado, e todos buscavam na memória o quê. Manhã quente de sábado, todos um pouco enfadados da leitura interminável da ata, o estômago já despedindo-se do café-da-manhã, e a atenção querendo despedir-se do culto, fez algumas pessoas interpretarem a ceia das aves, à primeira vista, como um banquete celestial cheio de frango assado para todo mundo. “Ih, mas no céu a gente vai comer frango?”, pensou consigo Dona Henriqueta.
A pregadora pediu que todos abrissem as Bíblias em Apocalipse 19: 17 e 18: “E vi um anjo em pé no sol; e clamou com grande voz, dizendo a todas as aves que voavam pelo meio do céu: Vinde, ajuntai-vos para a grande ceia de Deus, para comerdes carnes de reis, carnes de comandantes, carnes de poderosos, carnes de cavalos e dos que neles montavam, sim, carnes de todos os homens, livres e escravos, pequenos e grandes.”
Nesse ponto, a pregadora, que já notara o constrangimento na face da igreja agora toda atenta, tornou a perguntar:
- E quantos querem participar da Ceia das Bodas do Cordeiro?
Agora todos levantaram o braço, compondo um curioso quadro de leques improvisados. O Cordeiro era Jesus, claro. E se era a Ceia de Jesus, devia ser algo bom... não era?
- Acho que alguns de nós precisa decidir em que ceia quer estar, concluiu a pregadora, abrindo a Bíblia em Apocalipse 19: 7 – 9: “Regozijemo-nos, e exultemos, e demos-lhe a glória; porque são chegadas as bodas do Cordeiro, e já a sua noiva se preparou, e foi-lhe permitido vestir-se de linho fino, resplandecente e puro; pois o linho fino são as obras justas dos santos. E disse-me: Escreve: Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro...”
Depois a pregadora explicou o que quase todos já havia desconfiado. A Ceia das aves era aquela destinada aos ímpios, assim julgados porque em sua vida decidiram não fazer a vontade de Deus, mas seguir apenas os próprios impulsos humanos, e experimentar alegrias tão passageiras quanto esse mundo, encontrando, com o mundo, a própria destruição. Os dois versículos bastam para compor um cenário digno de filme de terror. Embora as aves sejam o símbolo de uma destruição completa e definitiva, não é, por isso, nada animador de imaginar. Os ímpios da ceia das aves são pecadores como todos nós, mas pessoas que escolheram o erro, simplesmente porque não queriam fazer o que era certo, mesmo sabendo que isso era o que deveriam ter feito. No contexto de Apocalipse, essas pessoas são aquelas que não se arrependeram de sua maldade, e escolheram uma vez mais atentar contra tudo que é justo, bom e contra o próprio Deus. Digamos que é o tipo de jantar para o qual ninguém gostaria de ser convidado. Especialmente quando se está destinado a ser o prato principal.
A Ceia das bodas do Cordeiro é aquela destinada ao grupo exatamente oposto ao anterior: os justos. Entenda-se justos não como pessoas perfeitas, que seguem todos os mandamentos com maestria ou viviam num pedestal de santidade. Os justos que Apocalipse mostra na Ceia das Bodas do Cordeiro são pecadores também, como aqueles mencionados anteriormente. Pessoas com falhas, egoísmos, muitas vezes injustas e às vezes até maus. Mas antes de tudo, pessoas que escolheram fazer o que era certo, a vontade de Deus, e mesmo sem conseguir sempre, se esforçam por isso sinceramente. Nos versículos citados, eles estão exultantes por que o Cordeiro, Jesus Cristo, está vindo tomar sua esposa, que representa a Sua Igreja, que como o texto diz, já está preparada e ornada com atos de justiça, decorrentes do amor que sente pelo seu Marido.
A diferença entre ser convidado para uma dessas duas ceias, está na atenção que damos às pequeninas coisas que dizem respeito à nossa vida espiritual, todos os dias. A coisa é muito mais sutil do que possamos nos aperceber a princípio. Basta baixar a guarda e ficar desatento por alguns instantes, e você pode escolher estar na ceia na errada... Nem sempre o ambiente aqui será favorável para vivermos nosso cristianismo de maneira plena. Às vezes nos sentiremos cansados, entediados, incomodados pelo calor das pressões e provações, tentados a tirar um “cochilo”, caindo numa religião letárgica, mas é nesse exato instante que Deus pode estar chamando nossos nomes na lista de convidados para a Ceia das bodas do Cordeiro. Se não reconhecermos a voz do Pastor, como poderemos tomar parte com Ele? (João 10:27; Mateus 25:33-46)
Assim, antes de decidir sobre nosso futuro espiritual, não nos apressemos a responder segundo nossos impulsos. Que possamos parar, pensar, ponderar na vontade de Deus, e só então escolher o melhor lugar onde estar. E que Deus nos abençoe...
- Amém! - Se empolga a irmã Henriqueta, e conclui – Eu sabia que no céu não se come frango!
Uma semana iluminada,
Luciana Dantas Teixeira
- Quantos aqui querem participar da ceia das aves que a Bíblia mencionam? – perguntou enfaticamente a pregadora.
Dois terços da igreja levantou o braço. Na pior das hipóteses era uma chance de alongar os músculos. Dona Henriqueta acordou assustada e disse, “Amém!”, cuspindo, confusa, a bolinha de papel.
- Todos vocês? - Sorriu a pregadora.
Os membros da igreja entreolharam-se confusos. Aquele sorriso denunciara que algo estava errado, e todos buscavam na memória o quê. Manhã quente de sábado, todos um pouco enfadados da leitura interminável da ata, o estômago já despedindo-se do café-da-manhã, e a atenção querendo despedir-se do culto, fez algumas pessoas interpretarem a ceia das aves, à primeira vista, como um banquete celestial cheio de frango assado para todo mundo. “Ih, mas no céu a gente vai comer frango?”, pensou consigo Dona Henriqueta.
A pregadora pediu que todos abrissem as Bíblias em Apocalipse 19: 17 e 18: “E vi um anjo em pé no sol; e clamou com grande voz, dizendo a todas as aves que voavam pelo meio do céu: Vinde, ajuntai-vos para a grande ceia de Deus, para comerdes carnes de reis, carnes de comandantes, carnes de poderosos, carnes de cavalos e dos que neles montavam, sim, carnes de todos os homens, livres e escravos, pequenos e grandes.”
Nesse ponto, a pregadora, que já notara o constrangimento na face da igreja agora toda atenta, tornou a perguntar:
- E quantos querem participar da Ceia das Bodas do Cordeiro?
Agora todos levantaram o braço, compondo um curioso quadro de leques improvisados. O Cordeiro era Jesus, claro. E se era a Ceia de Jesus, devia ser algo bom... não era?
- Acho que alguns de nós precisa decidir em que ceia quer estar, concluiu a pregadora, abrindo a Bíblia em Apocalipse 19: 7 – 9: “Regozijemo-nos, e exultemos, e demos-lhe a glória; porque são chegadas as bodas do Cordeiro, e já a sua noiva se preparou, e foi-lhe permitido vestir-se de linho fino, resplandecente e puro; pois o linho fino são as obras justas dos santos. E disse-me: Escreve: Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro...”
Depois a pregadora explicou o que quase todos já havia desconfiado. A Ceia das aves era aquela destinada aos ímpios, assim julgados porque em sua vida decidiram não fazer a vontade de Deus, mas seguir apenas os próprios impulsos humanos, e experimentar alegrias tão passageiras quanto esse mundo, encontrando, com o mundo, a própria destruição. Os dois versículos bastam para compor um cenário digno de filme de terror. Embora as aves sejam o símbolo de uma destruição completa e definitiva, não é, por isso, nada animador de imaginar. Os ímpios da ceia das aves são pecadores como todos nós, mas pessoas que escolheram o erro, simplesmente porque não queriam fazer o que era certo, mesmo sabendo que isso era o que deveriam ter feito. No contexto de Apocalipse, essas pessoas são aquelas que não se arrependeram de sua maldade, e escolheram uma vez mais atentar contra tudo que é justo, bom e contra o próprio Deus. Digamos que é o tipo de jantar para o qual ninguém gostaria de ser convidado. Especialmente quando se está destinado a ser o prato principal.
A Ceia das bodas do Cordeiro é aquela destinada ao grupo exatamente oposto ao anterior: os justos. Entenda-se justos não como pessoas perfeitas, que seguem todos os mandamentos com maestria ou viviam num pedestal de santidade. Os justos que Apocalipse mostra na Ceia das Bodas do Cordeiro são pecadores também, como aqueles mencionados anteriormente. Pessoas com falhas, egoísmos, muitas vezes injustas e às vezes até maus. Mas antes de tudo, pessoas que escolheram fazer o que era certo, a vontade de Deus, e mesmo sem conseguir sempre, se esforçam por isso sinceramente. Nos versículos citados, eles estão exultantes por que o Cordeiro, Jesus Cristo, está vindo tomar sua esposa, que representa a Sua Igreja, que como o texto diz, já está preparada e ornada com atos de justiça, decorrentes do amor que sente pelo seu Marido.
A diferença entre ser convidado para uma dessas duas ceias, está na atenção que damos às pequeninas coisas que dizem respeito à nossa vida espiritual, todos os dias. A coisa é muito mais sutil do que possamos nos aperceber a princípio. Basta baixar a guarda e ficar desatento por alguns instantes, e você pode escolher estar na ceia na errada... Nem sempre o ambiente aqui será favorável para vivermos nosso cristianismo de maneira plena. Às vezes nos sentiremos cansados, entediados, incomodados pelo calor das pressões e provações, tentados a tirar um “cochilo”, caindo numa religião letárgica, mas é nesse exato instante que Deus pode estar chamando nossos nomes na lista de convidados para a Ceia das bodas do Cordeiro. Se não reconhecermos a voz do Pastor, como poderemos tomar parte com Ele? (João 10:27; Mateus 25:33-46)
Assim, antes de decidir sobre nosso futuro espiritual, não nos apressemos a responder segundo nossos impulsos. Que possamos parar, pensar, ponderar na vontade de Deus, e só então escolher o melhor lugar onde estar. E que Deus nos abençoe...
- Amém! - Se empolga a irmã Henriqueta, e conclui – Eu sabia que no céu não se come frango!
Uma semana iluminada,
Luciana Dantas Teixeira
segunda-feira, 7 de julho de 2003
Insígnias
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Outro dia alguém me perguntou porque costumo assinar "Luciana Teixeira", ao invés de "Luciana Dantas", já que é por esse último sobrenome que a maioria das pessoas me distingue das dezenas de Lucianas de que vivo cercada. A resposta é: "por pura vaidade". Certa vez fui a uma exposição de brasões, e lá estavam meus dois sobrenomes com significado e origem. Teixeira provinha de um nobre guerreiro que havia lutado na tomada da Bastilha. E Dantas... bem, Dantas vinha da Região das Antas, em Portugal. Nada contra as antas, mas isso me soou pouco vultoso.
O fato é que brasões de sobrenomes hoje ganharam um significado meramente estético, mas eles já foram o orgulho de uma família. Na Idade Média eles eram exibidos pelos cavaleiros em seus escudos para mostrar que os mesmos procediam de uma linhagem nobre, portanto, se alguém quisesse o matar teria que ser tão ou mais "importante" quanto ele. Não se concebia gastar o fio da espada com um plebeu metido a Jaspion (Pokemón par aos mais modernos); os cavaleiros nobres só se dignavam de derramar sangue aristocrático. Daí a importância de empunhar sua insígnia.
E hoje, qual é nosso brasão? Quem é nosso Inimigo? Nesses tempos onde a guerra diária ganha contornos muito mais sutis, as lutas são contra armadilhas cada vez mais capciosas e o Mal toma formas muitas vezes quase indistinguíveis, importante é discernimos de que lado nós estamos e erguer a bandeira do que professamos ser. Sun Tzu, o mais célebre dos estrategistas de guerra, escreveu em seu pequeno tratado "A Arte da Guerra": "Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas."
Para quem crê na Bíblia como Santa, Verdadeira e Inspirada Palavra de Deus, não é difícil saber quem é o Arqui-Inimigo, Aquele que anda rugindo ao redor, como um leão, procurando a quem devorar (I Pedro 5:8). Aquele que nem sempre é tão explícito, e não nos ataca com espadas, mas está pronto a nos atingir com dardos inflamados, e contra quem só a armadura feita nos moldes de Cristo pode resistir (Efésios 6:10-18).
E quem somos nós? Será que nas batalhas do cotidiano temos nos preocupado em empunhar o brasão de Filhos de Deus, mostrar que nossa linhagem procede do Senhor dos Exércitos, que o nosso sangue é do mesmo tipo daquele que foi derramado na cruz pelo Príncipe da Paz (Isaías 9:6)? Será que nosso Inimigo consegue ver que temos orgulho de pertencer a Deus? E a nossa vida é uma prova disso?
No Salmo 74, vemos uma preocupação que bem poderia ser transportada para os nossos dias: "Não vemos mais as nossas insígnias, não há mais profeta; nem há entre nós alguém que saiba até quando isto durará. (verso 9)". O salmista via, perplexo, os inimigos avançarem sobre a assembléia dos justos, derrubarem os seus estandartes e altearem em seus lugar as próprias insígnias. Profanavam o santuário dos hebreus e destruíam os lugares santos. E hoje não é diferente a preocupação dos cristãos, porque temos visto Satanás com o mesmo interesse em derrubar as verdades cristãs, profanar a santidade nos templos e nos lares, destruir os santuários com as mais sutis e perspicazes mentiras, de modo a erguer no meio do cristianismo, as bandeiras da mentira, do egoísmo, da nossa doente vontade própria, entre tantas outras que envergonham a procedência Real dos cristãos, e descaracterizam aquilo que deveria ser o acampamento dos justos.
Por isso o apelo do salmista ainda é válido para nós: "Os teus inimigos bramam no meio da tua assembléia; põem nela as suas insígnias por sinais." (Verso 4). Nas batalhas diárias por fazer o bem segundo a vontade dEle, que possamos lembrar de erguer sobre cada palavra, atitude ou pensamento, o brasão com a imagem do Cordeiro de Deus.
Uma semana iluminada,
Luciana D. Teixeira
Outro dia alguém me perguntou porque costumo assinar "Luciana Teixeira", ao invés de "Luciana Dantas", já que é por esse último sobrenome que a maioria das pessoas me distingue das dezenas de Lucianas de que vivo cercada. A resposta é: "por pura vaidade". Certa vez fui a uma exposição de brasões, e lá estavam meus dois sobrenomes com significado e origem. Teixeira provinha de um nobre guerreiro que havia lutado na tomada da Bastilha. E Dantas... bem, Dantas vinha da Região das Antas, em Portugal. Nada contra as antas, mas isso me soou pouco vultoso.
O fato é que brasões de sobrenomes hoje ganharam um significado meramente estético, mas eles já foram o orgulho de uma família. Na Idade Média eles eram exibidos pelos cavaleiros em seus escudos para mostrar que os mesmos procediam de uma linhagem nobre, portanto, se alguém quisesse o matar teria que ser tão ou mais "importante" quanto ele. Não se concebia gastar o fio da espada com um plebeu metido a Jaspion (Pokemón par aos mais modernos); os cavaleiros nobres só se dignavam de derramar sangue aristocrático. Daí a importância de empunhar sua insígnia.
E hoje, qual é nosso brasão? Quem é nosso Inimigo? Nesses tempos onde a guerra diária ganha contornos muito mais sutis, as lutas são contra armadilhas cada vez mais capciosas e o Mal toma formas muitas vezes quase indistinguíveis, importante é discernimos de que lado nós estamos e erguer a bandeira do que professamos ser. Sun Tzu, o mais célebre dos estrategistas de guerra, escreveu em seu pequeno tratado "A Arte da Guerra": "Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas."
Para quem crê na Bíblia como Santa, Verdadeira e Inspirada Palavra de Deus, não é difícil saber quem é o Arqui-Inimigo, Aquele que anda rugindo ao redor, como um leão, procurando a quem devorar (I Pedro 5:8). Aquele que nem sempre é tão explícito, e não nos ataca com espadas, mas está pronto a nos atingir com dardos inflamados, e contra quem só a armadura feita nos moldes de Cristo pode resistir (Efésios 6:10-18).
E quem somos nós? Será que nas batalhas do cotidiano temos nos preocupado em empunhar o brasão de Filhos de Deus, mostrar que nossa linhagem procede do Senhor dos Exércitos, que o nosso sangue é do mesmo tipo daquele que foi derramado na cruz pelo Príncipe da Paz (Isaías 9:6)? Será que nosso Inimigo consegue ver que temos orgulho de pertencer a Deus? E a nossa vida é uma prova disso?
No Salmo 74, vemos uma preocupação que bem poderia ser transportada para os nossos dias: "Não vemos mais as nossas insígnias, não há mais profeta; nem há entre nós alguém que saiba até quando isto durará. (verso 9)". O salmista via, perplexo, os inimigos avançarem sobre a assembléia dos justos, derrubarem os seus estandartes e altearem em seus lugar as próprias insígnias. Profanavam o santuário dos hebreus e destruíam os lugares santos. E hoje não é diferente a preocupação dos cristãos, porque temos visto Satanás com o mesmo interesse em derrubar as verdades cristãs, profanar a santidade nos templos e nos lares, destruir os santuários com as mais sutis e perspicazes mentiras, de modo a erguer no meio do cristianismo, as bandeiras da mentira, do egoísmo, da nossa doente vontade própria, entre tantas outras que envergonham a procedência Real dos cristãos, e descaracterizam aquilo que deveria ser o acampamento dos justos.
Por isso o apelo do salmista ainda é válido para nós: "Os teus inimigos bramam no meio da tua assembléia; põem nela as suas insígnias por sinais." (Verso 4). Nas batalhas diárias por fazer o bem segundo a vontade dEle, que possamos lembrar de erguer sobre cada palavra, atitude ou pensamento, o brasão com a imagem do Cordeiro de Deus.
Uma semana iluminada,
Luciana D. Teixeira
segunda-feira, 30 de junho de 2003
Uma tela
Sempre tive paixão pela pintura, mas nunca me aventurei a ir além da mera contemplação. Até já tinha arriscado alguns rabiscos e pinceladas bem amadores e despretensiosos na minha adolescência, mas que ficaram muito bem escondidos do olhar do mundo em algum caderno esquecido. Foi só quando conversava com uma colega minha que também tem a mesma paixão que senti nova vontade de pintar. Dessa vez algo mais ambicioso que tinta guache em papel ofício: decidi pintar uma tela. Durante algum tempo resisti pensando: “Puxa, mas pintar em tela?! Tem que se ter técnica, boas noções de desenho e pintura, dedicação profunda, esmero meticuloso!”, mas Nicole, uma garotinha de dez anos, me provou que só boa vontade já é suficiente. Na verdade, depois de ver o quadrinho de Nicole concluí com meus botões que com um quarto de século de idade, pra pintar uma tela você só precisa de tinta e pincéis, oras.
Para não arriscar demais escolhi um motivo simples: tulipas. Mais precisamente um detalhe de tulipas, bem aproximado, de modo a me livrar ao máximo dos detalhes dificultosos. Seis tulipas com um fundo verde não devia ser algo que demorasse mais que uma tarde pra fazer. Com dois pincéis um tanto gastos e alguns potes de tinta acrílica comecei bem animada. No fim da tarde ainda não tinha pintado metade da tela. Dois dias depois tentava definir os contornos. Duas semanas depois testava dezenas de texturas para aplicar ao fundo verde, e já tinha uma coleção inteira de camisetas super fashion, manchadas de verde, marrom e vermelho. Um mês e oito pincéis depois, eu escolhia a assinatura. Enfim, hoje eu o terminei! Se ficou bonito? Não sei. Minha mãe e meu namorado jurariam que sim, mas não creio que eu vá fundar um novo movimento na arte plástica. Na verdade acho provável que minha tela de tulipas não saia nunca do seguro recôndito de meu quarto.
Mas além de desenvolver técnicas de pintura e conhecer o sentido mais profundo da palavra paciência, refleti bastante sobre a arte de criar. Acho que todo cristão deveria tentar pintar uma tela em sua vida para saber exatamente o significado do versículo: “No princípio criou Deus os céus e a terra.” (Gen. 1:1) (ter um filho também é outra alternativa, mas muito mais cara). Não se trata de saber como Deus se sentiu porque, em sua infinita sabedoria e perfeição, Ele certamente não teve dificuldades diante do ato de criar. Mas podemos avaliar ao menos palidamente o cuidado, dedicação e carinho que o Criador dedica à criação. E com isso reconhecermos que privilégio é sermos feitura de Suas mãos (Efésios 2:10), saber que Ele nos fez perfeitos, escolheu nossos dons e tons, e ao final assinou Seu maravilhoso nome em nosso coração dizendo: “Tu és meu”. Não se imagina a tela voltando-se contra o pintor e dizendo: “não acredito em você, sou obra de milênios de evolução e ciência e estou aqui por acaso.” Tampouco pode a tela, uma vez criada, deixar de ser amada pelo pintor, ainda que ele permita que ela leve sua beleza a outros olhos. O fato de existirmos demonstra que Deus nos ama. Tudo que somos deve ser valorizado porque Ele não erraria com a sua mais querida criação: somos nós que muitas vezes escapamos por um ponto de fuga e não deixamos que ele termine a obra que começou em nós.
“Pois os seus atributos invisíveis, o seu eterno poder e divindade, são claramente vistos desde a criação do mundo, sendo percebidos mediante as coisas criadas.” (Romanos 1:20). Mesmo aquilo que temos, os pequenos e grandes atributos, bens, alegrias, livramentos e desafios que formam nossa vida, expressam a existência de um Criador que nos ama. Ele não só nos fez, mas nos refaz todos os dias: somos recriados à Sua semelhança cada vez que O buscamos, é Ele quem nos mantém seguros na batalha entre a sombra e a luz. E nesse deixar que Suas mãos de Criador tracem contornos e cores em todos os detalhes de nossa vida, vamos nos tornando uma admirável obra de arte.
Para não arriscar demais escolhi um motivo simples: tulipas. Mais precisamente um detalhe de tulipas, bem aproximado, de modo a me livrar ao máximo dos detalhes dificultosos. Seis tulipas com um fundo verde não devia ser algo que demorasse mais que uma tarde pra fazer. Com dois pincéis um tanto gastos e alguns potes de tinta acrílica comecei bem animada. No fim da tarde ainda não tinha pintado metade da tela. Dois dias depois tentava definir os contornos. Duas semanas depois testava dezenas de texturas para aplicar ao fundo verde, e já tinha uma coleção inteira de camisetas super fashion, manchadas de verde, marrom e vermelho. Um mês e oito pincéis depois, eu escolhia a assinatura. Enfim, hoje eu o terminei! Se ficou bonito? Não sei. Minha mãe e meu namorado jurariam que sim, mas não creio que eu vá fundar um novo movimento na arte plástica. Na verdade acho provável que minha tela de tulipas não saia nunca do seguro recôndito de meu quarto.
Mas além de desenvolver técnicas de pintura e conhecer o sentido mais profundo da palavra paciência, refleti bastante sobre a arte de criar. Acho que todo cristão deveria tentar pintar uma tela em sua vida para saber exatamente o significado do versículo: “No princípio criou Deus os céus e a terra.” (Gen. 1:1) (ter um filho também é outra alternativa, mas muito mais cara). Não se trata de saber como Deus se sentiu porque, em sua infinita sabedoria e perfeição, Ele certamente não teve dificuldades diante do ato de criar. Mas podemos avaliar ao menos palidamente o cuidado, dedicação e carinho que o Criador dedica à criação. E com isso reconhecermos que privilégio é sermos feitura de Suas mãos (Efésios 2:10), saber que Ele nos fez perfeitos, escolheu nossos dons e tons, e ao final assinou Seu maravilhoso nome em nosso coração dizendo: “Tu és meu”. Não se imagina a tela voltando-se contra o pintor e dizendo: “não acredito em você, sou obra de milênios de evolução e ciência e estou aqui por acaso.” Tampouco pode a tela, uma vez criada, deixar de ser amada pelo pintor, ainda que ele permita que ela leve sua beleza a outros olhos. O fato de existirmos demonstra que Deus nos ama. Tudo que somos deve ser valorizado porque Ele não erraria com a sua mais querida criação: somos nós que muitas vezes escapamos por um ponto de fuga e não deixamos que ele termine a obra que começou em nós.
“Pois os seus atributos invisíveis, o seu eterno poder e divindade, são claramente vistos desde a criação do mundo, sendo percebidos mediante as coisas criadas.” (Romanos 1:20). Mesmo aquilo que temos, os pequenos e grandes atributos, bens, alegrias, livramentos e desafios que formam nossa vida, expressam a existência de um Criador que nos ama. Ele não só nos fez, mas nos refaz todos os dias: somos recriados à Sua semelhança cada vez que O buscamos, é Ele quem nos mantém seguros na batalha entre a sombra e a luz. E nesse deixar que Suas mãos de Criador tracem contornos e cores em todos os detalhes de nossa vida, vamos nos tornando uma admirável obra de arte.
segunda-feira, 19 de maio de 2003
O Caminho
Um dos passatempos preferidos de certo amigo meu é ver onde o caminho vai dar. Assim mesmo: ir andando, notar uma rua qualquer, lembrar que nunca entrou ali antes e então entrar, só para descobrir onde a rua acaba, por onde ela passa, que caminho é aquele ali. Certa vez enquanto eu o acompanhava num desses passatempos insólitos, ele me contava que já há muitos anos colocava a filha em sua moto e a levava para passeios cujo rumo era descobrir o rumo. Nunca lembrei de perguntá-lo se alguma vez entrou em algum lugar de que se arrependera, mas acredito que qualquer imprevisto valeria o seu prazer de desvendar o desconhecido.
Muitos hão de concordar que há uma graça muito sutil em sair por aí para lugar nenhum, só pelo prazer de descobrir onde se pode chegar. E hoje em dia, ele há de recomendar que sua filha não saia por aí fazendo o mesmo, porque, especialmente em certos lugares do nosso país tropical, caminhos desconhecidos podem levar a problemas funestos com o tráfego. E com o tráfico também.
Mas há na estranha mania do meu amigo, algo análogo a nossa própria vida. Agora mesmo eu e você estamos tomando rumos que não fazemos idéia de onde vão acabar. Mesmo tomando o cuidado de planejar, conhecer, estruturar, seguir os sinais de quem já passou por ali, nem sempre podemos ter certeza do lugar onde vamos chegar, muito menos se esse lugar é exatamente onde queremos estar no fim do caminho. Na nossa vida aqui temos poucas certezas quanto a isso. O máximo que podemos fazer é, como meu amigo, tentar abstrair algum prazer da novidade do caminho, e abstrair descobertas onde só vemos incertezas.
O que vai ser logo ali adiante? Para onde exatamente nossas escolhas estão nos levando? O que garante que não nos perderemos? Não há resposta muito precisas. Apenas uma é verdadeiramente certa: os caminhos desta vida são quase todos de mão única, e os retornos são quase tão impossíveis de se achar quanto os de São Paulo. Mesmo quando achamos que vamos voltar, o que estamos fazendo na verdade é seguir em frente. Nenhum caminho aqui é verdadeiramente seguro, e jamais permaneceremos nele o suficiente para o conhecermos totalmente. Que dirá prever o seu fim. E quando saber que chegamos ao fim?
Há apenas uma maneira de garantir que o rumo que escolhemos não vai nos decepcionar: seguindo Aquele que já andou pelos mesmos caminhos que nós. E o único que o fez sem tropeçar nem entrar por lugares errados foi Jesus Cristo. Mas alguém pode perguntar: "Senhor, nós não sabemos para onde vais; e como podemos saber o caminho?" (Jo. 14:5). Afinal, onde vai dar exatamente esse caminho para o qual Cristo aponta agora, olha para você e diz: "Siga"? Repare bem, se você tem certeza que esse é o caminho que Deus escolheu para você, simplesmente vá, sem medo. E se você não sabe ao certo que caminho tomar, olhe para Cristo uma vez mais. Na dúvida escolha sempre a direção que o levará para mais perto dEle. Porque Cristo é ao mesmo tempo o Caminho e o melhor Lugar onde podemos chegar.
Uma semana iluminada!
Luciana Dantas Teixeira
Muitos hão de concordar que há uma graça muito sutil em sair por aí para lugar nenhum, só pelo prazer de descobrir onde se pode chegar. E hoje em dia, ele há de recomendar que sua filha não saia por aí fazendo o mesmo, porque, especialmente em certos lugares do nosso país tropical, caminhos desconhecidos podem levar a problemas funestos com o tráfego. E com o tráfico também.
Mas há na estranha mania do meu amigo, algo análogo a nossa própria vida. Agora mesmo eu e você estamos tomando rumos que não fazemos idéia de onde vão acabar. Mesmo tomando o cuidado de planejar, conhecer, estruturar, seguir os sinais de quem já passou por ali, nem sempre podemos ter certeza do lugar onde vamos chegar, muito menos se esse lugar é exatamente onde queremos estar no fim do caminho. Na nossa vida aqui temos poucas certezas quanto a isso. O máximo que podemos fazer é, como meu amigo, tentar abstrair algum prazer da novidade do caminho, e abstrair descobertas onde só vemos incertezas.
O que vai ser logo ali adiante? Para onde exatamente nossas escolhas estão nos levando? O que garante que não nos perderemos? Não há resposta muito precisas. Apenas uma é verdadeiramente certa: os caminhos desta vida são quase todos de mão única, e os retornos são quase tão impossíveis de se achar quanto os de São Paulo. Mesmo quando achamos que vamos voltar, o que estamos fazendo na verdade é seguir em frente. Nenhum caminho aqui é verdadeiramente seguro, e jamais permaneceremos nele o suficiente para o conhecermos totalmente. Que dirá prever o seu fim. E quando saber que chegamos ao fim?
Há apenas uma maneira de garantir que o rumo que escolhemos não vai nos decepcionar: seguindo Aquele que já andou pelos mesmos caminhos que nós. E o único que o fez sem tropeçar nem entrar por lugares errados foi Jesus Cristo. Mas alguém pode perguntar: "Senhor, nós não sabemos para onde vais; e como podemos saber o caminho?" (Jo. 14:5). Afinal, onde vai dar exatamente esse caminho para o qual Cristo aponta agora, olha para você e diz: "Siga"? Repare bem, se você tem certeza que esse é o caminho que Deus escolheu para você, simplesmente vá, sem medo. E se você não sabe ao certo que caminho tomar, olhe para Cristo uma vez mais. Na dúvida escolha sempre a direção que o levará para mais perto dEle. Porque Cristo é ao mesmo tempo o Caminho e o melhor Lugar onde podemos chegar.
Uma semana iluminada!
Luciana Dantas Teixeira
segunda-feira, 12 de maio de 2003
Morrendo de saudade
O problema era explicar a Daniela o porquê dos peixinhos terem morrido. Ela comprara um aquário novo, comidinha saborosa (devia ter gosto de minhoca, mas acho que ninguém sabia ao certo), enfeites lindos de plástico para tornar o aquário o mais agradável e bonito possível. Mas ela não queria qualquer peixe, tinha que ser os peixinhos da lagoa de Muriú. Então ela foi à lagoa, e junto com uma prima, pegou um lençol, colocou comida no meio e atraiu dezenas daqueles peixinhos brilhantes. Em segundos ela pegou cinco deles com a mão e os colocou dentro do lindo aquário que esperava do lado de fora da lagoa. Segurou-o firme entre as mãozinhas e esperou sentada até a hora de entrar no carro para ir embora. Feliz, acompanhava os movimentos daqueles peixinhos que ela agora escolhera por melhores amigos. Mas todos os cinco morreram antes que o carro chegasse na casa de Daniela. Por que?
Eu nunca soube ao certo. A água era a mesma da lagoa, e tinha oxigenação suficiente para os peixes sobreviverem alguns dias. O aquário não foi exposto ao sol, ou qualquer outra intempérie que justificasse a morte tão rápida dos peixinhos. Por isso a explicação mais convincente que encontrei para dar a Daniela foi: “Querida, seu aquário é lindo. Tenho certeza que você daria comida, cuidado e amor para eles, até eu gostaria de morar ali. Mas seu aquário não é a casa deles, e é bem provável que eles tenham morrido de saudade.”
Demorou até ela aceitar. Em sua mente, os peixinhos deveriam estar felizes com sua casa nova, aparentemente muito mais bonita e cheia de regalias que a antiga. Era apenas menor, mas eles não teriam mais que ir atrás de comida, ou se esconder de outros peixes predadores, e escapariam até à escola dos peixes para brincar o dia inteiro (Daniela sabia bem o que uma oportunidade dessa significava). Mesmo assim os peixinhos brilhantes não se adaptaram, e depois de pensar bem, Daniela concluiu que eles morreram chorando a falta da lagoa de Muriú.
Felizmente somos seres mais adaptáveis que os peixes da lagoa de Muriú. A maioria das mudanças físicas, psicológicas e materiais não são apenas possíveis, mas necessárias em nossa vida a fim de crescermos. Isso, no entanto, não as torna sempre fáceis, pelo menos para mim. Como os peixinhos de Daniela, eu também já mudei de casa, não só uma mas duas vezes. Para muitas pessoas essa mudança pode ser algo festivo, empolgante, estimulante. Para mim, que me apego profundamente à minha realidade, mudar é sempre um processo desgastante. Na primeira vez que mudei de casa, passava horas inconformada, olhando para tudo com tristeza e saudade, e só depois de muitos meses consegui me adaptar. Há porém uma saudade que teima em permanecer inexorável e reclama cada parte de minha alma com uma força irresistível: a saudade do lar celestial.
E faz só pouco tempo que reconheci em mim essa saudade, enquanto pensava na fidelidade dos peixinhos de Muriú à sua lagoa. Porque costumamos pensar na Nova Terra de que João fala em Apocalipse, como um lugar quase mágico, surreal, o que soa, por vezes, até fantasioso. Mas Jesus Cristo falou dele como um lugar bem real. E embora nos dirijamos a esse lugar, muitas vezes, como nosso “Novo Lar”, na verdade esse foi o primeiro Lar na humanidade, o lugar de onde saímos e para onde – mesmo que sem consciência disso – ansiamos voltar. É por ele que nossas almas clamam. Todo esse vazio que acompanha a existência humana, é causado por uma íntima inconformidade com nossa condição neste mundo.
Há quem passe a vida inteira enfeitando o “aquário” de sua vida, tentando torná-lo bonito, confortável, prazeroso, e quanto mais investem no aquário, mais sente que está faltando alguma coisa. Esquecem que Deus está preparando um lugar cuja beleza nenhuma pena humana seria capaz de descrever. Alguns acham que a satisfação virá de tornar o aquário um lugar mais justo, e tentam consertar tudo aquilo no que, segundo julgam, o criador do aquário falhou. E vão sempre encontrar novas falhas, descobrir que não têm poder para consertá-las todas. Esquecem que não faz sentido Deus consertar um aquário velho e corrompido, se Ele já providenciou um lugar infinitamente melhor para abrigar Sua criação. Outros simplesmente decidem “desencanar” e aproveitar a vida no aquário como se tudo que houvesse ali já fosse o suficiente: isso não significa que se adaptaram, mas que aprenderam a mentir bem para si mesmos. Esquecem que nenhuma mentira pode abafar a sede do espírito humano.
Uma nova semana se inicia, e não faço idéia das mudanças pelas quais teremos de passar. Sei que Deus nos concedeu sabedoria e inteligência para nos adaptarmos às condições mais difíceis, aos lugares mais inóspitos, às situações mais desgastantes. Podemos ultrapassar qualquer desafio com Sua força e nosso empenho, e vencer até mesmo a saudade lacerante de lugares e pessoas que já fazem parte de nós. O único fato com que não temos como vencer é que nossos espíritos não se saciarão da vontade de voltar para seu verdadeiro lugar. E para que eles não morram de saudade, o ideal é respirarmos já a atmosfera do Lar celestial. Considere que nosso tempo aqui é curto, e investí-lo só no aquário é uma atitude pequena. Permaneça fiel à sua origem e viva como alguém que sabe que sua verdadeira casa é onde Jesus está (João 17:24).
Uma semana iluminada,
Luciana Dantas Teixeira
Eu nunca soube ao certo. A água era a mesma da lagoa, e tinha oxigenação suficiente para os peixes sobreviverem alguns dias. O aquário não foi exposto ao sol, ou qualquer outra intempérie que justificasse a morte tão rápida dos peixinhos. Por isso a explicação mais convincente que encontrei para dar a Daniela foi: “Querida, seu aquário é lindo. Tenho certeza que você daria comida, cuidado e amor para eles, até eu gostaria de morar ali. Mas seu aquário não é a casa deles, e é bem provável que eles tenham morrido de saudade.”
Demorou até ela aceitar. Em sua mente, os peixinhos deveriam estar felizes com sua casa nova, aparentemente muito mais bonita e cheia de regalias que a antiga. Era apenas menor, mas eles não teriam mais que ir atrás de comida, ou se esconder de outros peixes predadores, e escapariam até à escola dos peixes para brincar o dia inteiro (Daniela sabia bem o que uma oportunidade dessa significava). Mesmo assim os peixinhos brilhantes não se adaptaram, e depois de pensar bem, Daniela concluiu que eles morreram chorando a falta da lagoa de Muriú.
Felizmente somos seres mais adaptáveis que os peixes da lagoa de Muriú. A maioria das mudanças físicas, psicológicas e materiais não são apenas possíveis, mas necessárias em nossa vida a fim de crescermos. Isso, no entanto, não as torna sempre fáceis, pelo menos para mim. Como os peixinhos de Daniela, eu também já mudei de casa, não só uma mas duas vezes. Para muitas pessoas essa mudança pode ser algo festivo, empolgante, estimulante. Para mim, que me apego profundamente à minha realidade, mudar é sempre um processo desgastante. Na primeira vez que mudei de casa, passava horas inconformada, olhando para tudo com tristeza e saudade, e só depois de muitos meses consegui me adaptar. Há porém uma saudade que teima em permanecer inexorável e reclama cada parte de minha alma com uma força irresistível: a saudade do lar celestial.
E faz só pouco tempo que reconheci em mim essa saudade, enquanto pensava na fidelidade dos peixinhos de Muriú à sua lagoa. Porque costumamos pensar na Nova Terra de que João fala em Apocalipse, como um lugar quase mágico, surreal, o que soa, por vezes, até fantasioso. Mas Jesus Cristo falou dele como um lugar bem real. E embora nos dirijamos a esse lugar, muitas vezes, como nosso “Novo Lar”, na verdade esse foi o primeiro Lar na humanidade, o lugar de onde saímos e para onde – mesmo que sem consciência disso – ansiamos voltar. É por ele que nossas almas clamam. Todo esse vazio que acompanha a existência humana, é causado por uma íntima inconformidade com nossa condição neste mundo.
Há quem passe a vida inteira enfeitando o “aquário” de sua vida, tentando torná-lo bonito, confortável, prazeroso, e quanto mais investem no aquário, mais sente que está faltando alguma coisa. Esquecem que Deus está preparando um lugar cuja beleza nenhuma pena humana seria capaz de descrever. Alguns acham que a satisfação virá de tornar o aquário um lugar mais justo, e tentam consertar tudo aquilo no que, segundo julgam, o criador do aquário falhou. E vão sempre encontrar novas falhas, descobrir que não têm poder para consertá-las todas. Esquecem que não faz sentido Deus consertar um aquário velho e corrompido, se Ele já providenciou um lugar infinitamente melhor para abrigar Sua criação. Outros simplesmente decidem “desencanar” e aproveitar a vida no aquário como se tudo que houvesse ali já fosse o suficiente: isso não significa que se adaptaram, mas que aprenderam a mentir bem para si mesmos. Esquecem que nenhuma mentira pode abafar a sede do espírito humano.
Uma nova semana se inicia, e não faço idéia das mudanças pelas quais teremos de passar. Sei que Deus nos concedeu sabedoria e inteligência para nos adaptarmos às condições mais difíceis, aos lugares mais inóspitos, às situações mais desgastantes. Podemos ultrapassar qualquer desafio com Sua força e nosso empenho, e vencer até mesmo a saudade lacerante de lugares e pessoas que já fazem parte de nós. O único fato com que não temos como vencer é que nossos espíritos não se saciarão da vontade de voltar para seu verdadeiro lugar. E para que eles não morram de saudade, o ideal é respirarmos já a atmosfera do Lar celestial. Considere que nosso tempo aqui é curto, e investí-lo só no aquário é uma atitude pequena. Permaneça fiel à sua origem e viva como alguém que sabe que sua verdadeira casa é onde Jesus está (João 17:24).
Uma semana iluminada,
Luciana Dantas Teixeira
segunda-feira, 28 de abril de 2003
Onde pôr o olhar
Quando eu tinha por volta de sete anos se instalou na minha cidade uma moda curiosa: a dos pôsteres fotográficos. Estúdios fotográficos distribuíam cupons que davam direito a um pôster grátis, depois tiravam uma dúzia de fotos e acabavam convencendo os pais corujas a comprarem todos os pôsteres, mais um monte de fotos três por quatro. Toda mãe que se prezasse tinha que ter quadrinhos com moldura de cerejeira e pôsteres dos filhos com chapeis, sombrinhas e todo um aparato de gosto duvidoso enfeitando-os em poses clássicas “que cute-cute”.
Eu fui mais uma que não escapei. Mesmo tendo perdido um dente incisivo, minha mãe me obrigou a colocar meu conjuntinho amarelo, pentear a franja pra frente e ir ao estúdio tirar as benditas fotos. Eu estava muito chateada, primeiro porque achava tudo aquilo uma besteira (filhos às vezes são bem insensíveis quanto aos caprichos maternais), e segundo porque não queria meu quarto enfeitado com um quadro me mostrando banguela para toda a minha família. Mas você sabe como é mãe: acha linda até a gengiva do filho. E a fotógrafa, propositadamente, tirou a foto de um ângulo que a falta do meu incisivo ficava bem evidente, num sorriso desconcertante do tipo “eu mato essa fotógrafa!”. A vergonha da banguelinha, junto com a chateação por estar me expondo àquele ritual ao meu ver ridículo, me deu uma expressão bem peculiar na foto. E foi justamente essa foto que eles ampliaram ao máximo e colocaram numa linda moldura, que foi parar no meu quarto.
Durante muito tempo esse quadro foi o tormento de minha existência. Não bastasse o contexto da fotografia, comecei a sentir medo da minha própria foto. Parecia que os olhos da fotografia me acompanhavam aonde quer que eu fosse. De qualquer ângulo aquele olhar meio maquiavélico me seguia, com um sorriso que parecia cada vez mais escarnecedor. E quanto mais eu olhava para a foto, mais assustadora ela ficava. À noite passei a dormir os pés virados para a cabeceira da cama, só para não ter que contemplar a expressão medonha da minha própria fotografia, me vigiando e ameaçando algo indescritível com o olhar. Jamais ficava sozinha no meu quarto, e quando passava pelo quadro podia jurar que a foto ia pular em cima de mim. Essa fixação chegou ao ponto em que tive de pedir para minha mãe retirar o quadro do meu quarto.
Outro dia reencontrei o tal quadro e curiosamente não consegui encontrar nenhum resquício daquela expressão que me parecia tão assustadora. O problema não era o olhar da fotografia, era o meu olhar. De tanto olhar para o quadro, as impressões que eu tinha cresceram e cresceram a ponto de ficarem irreais e distorcerem completamente a realidade. Você já se sentiu assim com relação a alguma coisa em sua vida?
Faça uma experiência. Vá ao dicionário e procure uma palavra que você desconheça. Depois perceba como, de uma hora pra outra, parece que todo mundo decidiu usar a palavra nova que você acabou de descobrir. Na verdade todo mundo já usava essa palavra antes, a questão é que só agora você presta atenção nela, por isso parece que ela está em todo lugar.
Esse princípio se aplica a várias faces da vida. Muitas vezes nos detemos a olhar tão fixamente para algum problema, que o que a princípio nos parecia apenas incômodo, vai crescendo, crescendo, tomando proporções gigantescas e ameaçando de forma terrível a nossa paz. Tudo que acontece ao nosso redor parece ter a ver ou dizer respeito a essa situação. Da mesma forma, quando percebemos algo de errado conosco, um pecado em particular, um defeito de caráter, ficar olhando detidamente para ele só vai nos fazer desesperar. Nem tudo aquilo que aos nossos olhos parece grande é, na realidade, tão grande assim. Aquilo para que olhamos é que se torna grande diante dos nossos olhos. As coisas têm a importância que lhes dedicamos: se passamos muito tempo dando atenção a algo, é lógico que esse algo irá ganhar uma importância cada vez maior, chegando a ter seu real valor distorcido ou superestimado.
Uma nova semana se inicia, e temos diante de nós muitos desafios. Se ficarmos olhando para nossos problemas, nossa incapacidade, nossas limitações, nossa situação desfavorável, a tendência será apenas tudo isso ficar grande e assustador diante dos nossos olhos. Mas podemos desviar os olhos dos problemas para a solução. E qualquer que seja o desafio, o melhor lugar para manter os olhos é em Jesus. Não há riscos em contemplá-lO, e Sua grandeza amorosa não cabe no limite de nosso olhar. Se em toda as situações da nossa vida olharmos “firmemente para o Autor e Consumado da fé, Jesus” (Hebreus 12:2), essa Presença animadora crescerá diante de nós e trará equilíbrio, acerto e paz em todas as nossas decisões. Se há algo que deve se tornar grande e importante aos nossos olhos, é a certeza que temos Cristo por nós e em nós.
Uma semana iluminada,
Luciana Dantas Teixeira
Ps.: este texto é carinhosamente dedicado à Aninha (http://abussola.weblogger.terra.com.br/ ), responsável pelo insight que gerou essa meditação.
Eu fui mais uma que não escapei. Mesmo tendo perdido um dente incisivo, minha mãe me obrigou a colocar meu conjuntinho amarelo, pentear a franja pra frente e ir ao estúdio tirar as benditas fotos. Eu estava muito chateada, primeiro porque achava tudo aquilo uma besteira (filhos às vezes são bem insensíveis quanto aos caprichos maternais), e segundo porque não queria meu quarto enfeitado com um quadro me mostrando banguela para toda a minha família. Mas você sabe como é mãe: acha linda até a gengiva do filho. E a fotógrafa, propositadamente, tirou a foto de um ângulo que a falta do meu incisivo ficava bem evidente, num sorriso desconcertante do tipo “eu mato essa fotógrafa!”. A vergonha da banguelinha, junto com a chateação por estar me expondo àquele ritual ao meu ver ridículo, me deu uma expressão bem peculiar na foto. E foi justamente essa foto que eles ampliaram ao máximo e colocaram numa linda moldura, que foi parar no meu quarto.
Durante muito tempo esse quadro foi o tormento de minha existência. Não bastasse o contexto da fotografia, comecei a sentir medo da minha própria foto. Parecia que os olhos da fotografia me acompanhavam aonde quer que eu fosse. De qualquer ângulo aquele olhar meio maquiavélico me seguia, com um sorriso que parecia cada vez mais escarnecedor. E quanto mais eu olhava para a foto, mais assustadora ela ficava. À noite passei a dormir os pés virados para a cabeceira da cama, só para não ter que contemplar a expressão medonha da minha própria fotografia, me vigiando e ameaçando algo indescritível com o olhar. Jamais ficava sozinha no meu quarto, e quando passava pelo quadro podia jurar que a foto ia pular em cima de mim. Essa fixação chegou ao ponto em que tive de pedir para minha mãe retirar o quadro do meu quarto.
Outro dia reencontrei o tal quadro e curiosamente não consegui encontrar nenhum resquício daquela expressão que me parecia tão assustadora. O problema não era o olhar da fotografia, era o meu olhar. De tanto olhar para o quadro, as impressões que eu tinha cresceram e cresceram a ponto de ficarem irreais e distorcerem completamente a realidade. Você já se sentiu assim com relação a alguma coisa em sua vida?
Faça uma experiência. Vá ao dicionário e procure uma palavra que você desconheça. Depois perceba como, de uma hora pra outra, parece que todo mundo decidiu usar a palavra nova que você acabou de descobrir. Na verdade todo mundo já usava essa palavra antes, a questão é que só agora você presta atenção nela, por isso parece que ela está em todo lugar.
Esse princípio se aplica a várias faces da vida. Muitas vezes nos detemos a olhar tão fixamente para algum problema, que o que a princípio nos parecia apenas incômodo, vai crescendo, crescendo, tomando proporções gigantescas e ameaçando de forma terrível a nossa paz. Tudo que acontece ao nosso redor parece ter a ver ou dizer respeito a essa situação. Da mesma forma, quando percebemos algo de errado conosco, um pecado em particular, um defeito de caráter, ficar olhando detidamente para ele só vai nos fazer desesperar. Nem tudo aquilo que aos nossos olhos parece grande é, na realidade, tão grande assim. Aquilo para que olhamos é que se torna grande diante dos nossos olhos. As coisas têm a importância que lhes dedicamos: se passamos muito tempo dando atenção a algo, é lógico que esse algo irá ganhar uma importância cada vez maior, chegando a ter seu real valor distorcido ou superestimado.
Uma nova semana se inicia, e temos diante de nós muitos desafios. Se ficarmos olhando para nossos problemas, nossa incapacidade, nossas limitações, nossa situação desfavorável, a tendência será apenas tudo isso ficar grande e assustador diante dos nossos olhos. Mas podemos desviar os olhos dos problemas para a solução. E qualquer que seja o desafio, o melhor lugar para manter os olhos é em Jesus. Não há riscos em contemplá-lO, e Sua grandeza amorosa não cabe no limite de nosso olhar. Se em toda as situações da nossa vida olharmos “firmemente para o Autor e Consumado da fé, Jesus” (Hebreus 12:2), essa Presença animadora crescerá diante de nós e trará equilíbrio, acerto e paz em todas as nossas decisões. Se há algo que deve se tornar grande e importante aos nossos olhos, é a certeza que temos Cristo por nós e em nós.
Uma semana iluminada,
Luciana Dantas Teixeira
Ps.: este texto é carinhosamente dedicado à Aninha (http://abussola.weblogger.terra.com.br/ ), responsável pelo insight que gerou essa meditação.
quarta-feira, 23 de abril de 2003
A cura
"Queres ser curado?" (João 5: 1 - 9)
A pergunta chega a soar absurda tamanha a obviedade da resposta. Há trinta e oito anos aquele homem paralítico chegara ao tanque de Betesda. Há trinta e oito anos ele estudava a posição das nuvens e dos astros tentando encontrar um momento mais propício para se atirar no tanque. Há trinta e oito anos ele sentia o coração agitado quando o vento ficava mais forte, e gritava por alguém que o levasse até a água. Há trinta e oito anos ele se arrastava com sofreguidão até a beira do tanque, só para ver os outros chegarem primeiro e tirarem a oportunidade dele alcançar a cura.
Até que um dia, ele deita no seu leito pobre e fecha os olhos. Olhando-o assim, de passagem, muitos creriam que ele se cansara, que desistira afinal. Outros, sem saber da sua história, achariam que ele apenas dormia, e no sonho andava com vigor pelas ruas da Galiléia. Alguns poucos que chegassem mais perto poderiam tentar desvendar a expressão no rosto do homem que durante trinta e oito anos utilizara todos os seus esforços para alcançar a cura, gastara toda a sua esperança olhando para as águas calmas do tanque de Betesda. Mas apenas um pôde vê-lo na inteireza de seus desejos, fracassos, sonhos e frustrações. Jesus dirigiu-se a ele e perguntou:
"Queres ser curado?"
O que você pensaria no lugar do paralítico? A frase poderia soar como um gracejo se não viesse de um Homem cujo olhar penetrava-lhe o espírito. E diante desse olhar, não havia nada que se pudesse esconder.
"Senhor, não tenho ninguém que me ponha no tanque quando a água é agitada: pois, enquanto eu vou, desce outro antes de mim". As coisas nunca saíam exatamente como ele planejava.
Ele, como eu e você, também foi ensinado desde muito cedo a esconder suas fraquezas. A tentar resolver tudo sozinho para demonstrar auto-suficiência e independência. A parecer invulnerável diante das dificuldades da vida, e forte para poder ser respeitado. Também o ensinaram que só se conquista as coisas com muito esforço e melhor ainda se for sem a ajuda de ninguém. Também o disseram que ele só seria feliz e realizado se aprendesse a fazer tudo por si próprio, escolher com a sua própria vontade, fazer com as próprias mãos, andar com os próprios pés. Mas então ele já não podia andar. E nenhum dos que disseram para ele conseguir tudo com a própria força estava ali para ajudá-lo a chegar na sua última esperança: as águas de Betesda. Reconhecer a necessidade de cura agora, era também expor na totalidade sua fraqueza e fracasso.
Todos nós temos um tanque de Betesda particular, onde almejamos chegar para encontrar a paz, a felicidade, a sensação de completude ao invés do vazio perseguidor de uma existência maculada pela imperfeição e inconstância. Todos queremos chegar lá, onde nos acena a possibilidade de sermos aquele ser ideal que estamos longe de ser. E em busca disso nos arrastamos por anos, colocando toda a nossa esperança em pessoas, lugares, ritos ou coisas que além da breve sensação de refrigério, nos dê também a cura permanente para essa ânsia de transcender.
O mesmo olhar ainda nos procura: "queres ser curado?"
A pergunta já não soa tão absurda quando dirigida a nós. Soa perturbadora. Mas nós não precisamos passar tanto tempo nos arrastando em volta de uma ilusão para respondermos a esse olhar. Nem demorar anos e anos para reconhecer nossa impotência, fragilidade e necessidade de ajuda. Não seremos fracos quando decidirmos depender dEle, e confessarmos que apesar de nossa obstinação, nossa vontade não basta, nossos esforços precisam do toque divino. Não perderemos nada em deixar que Ele faça ao Seu modo, e transforme nossa história de repetidas frustrações num encontro definitivo com a cura. Precisamos apenas querer. Talvez reparar na pele áspera e calejada de pernas que, sob nosso comando, nada fazem além de se arrastar de um lugar par ao outro, ou encarar o leito feio onde costumamos depor nosso cansaço. Talvez só tirar os olhos de Betesda. E encontrar Aquele cuja voz dirá: "Levanta-te, toma o teu leito e anda."
Uma semana iluminada.
Luciana Dantas Teixeira
Ps.: texto carinhosamente dedicado a Moab Mariano, com quem ouvi um sermão bastante singular sobre esse mesmo trecho bíblico.
A pergunta chega a soar absurda tamanha a obviedade da resposta. Há trinta e oito anos aquele homem paralítico chegara ao tanque de Betesda. Há trinta e oito anos ele estudava a posição das nuvens e dos astros tentando encontrar um momento mais propício para se atirar no tanque. Há trinta e oito anos ele sentia o coração agitado quando o vento ficava mais forte, e gritava por alguém que o levasse até a água. Há trinta e oito anos ele se arrastava com sofreguidão até a beira do tanque, só para ver os outros chegarem primeiro e tirarem a oportunidade dele alcançar a cura.
Até que um dia, ele deita no seu leito pobre e fecha os olhos. Olhando-o assim, de passagem, muitos creriam que ele se cansara, que desistira afinal. Outros, sem saber da sua história, achariam que ele apenas dormia, e no sonho andava com vigor pelas ruas da Galiléia. Alguns poucos que chegassem mais perto poderiam tentar desvendar a expressão no rosto do homem que durante trinta e oito anos utilizara todos os seus esforços para alcançar a cura, gastara toda a sua esperança olhando para as águas calmas do tanque de Betesda. Mas apenas um pôde vê-lo na inteireza de seus desejos, fracassos, sonhos e frustrações. Jesus dirigiu-se a ele e perguntou:
"Queres ser curado?"
O que você pensaria no lugar do paralítico? A frase poderia soar como um gracejo se não viesse de um Homem cujo olhar penetrava-lhe o espírito. E diante desse olhar, não havia nada que se pudesse esconder.
"Senhor, não tenho ninguém que me ponha no tanque quando a água é agitada: pois, enquanto eu vou, desce outro antes de mim". As coisas nunca saíam exatamente como ele planejava.
Ele, como eu e você, também foi ensinado desde muito cedo a esconder suas fraquezas. A tentar resolver tudo sozinho para demonstrar auto-suficiência e independência. A parecer invulnerável diante das dificuldades da vida, e forte para poder ser respeitado. Também o ensinaram que só se conquista as coisas com muito esforço e melhor ainda se for sem a ajuda de ninguém. Também o disseram que ele só seria feliz e realizado se aprendesse a fazer tudo por si próprio, escolher com a sua própria vontade, fazer com as próprias mãos, andar com os próprios pés. Mas então ele já não podia andar. E nenhum dos que disseram para ele conseguir tudo com a própria força estava ali para ajudá-lo a chegar na sua última esperança: as águas de Betesda. Reconhecer a necessidade de cura agora, era também expor na totalidade sua fraqueza e fracasso.
Todos nós temos um tanque de Betesda particular, onde almejamos chegar para encontrar a paz, a felicidade, a sensação de completude ao invés do vazio perseguidor de uma existência maculada pela imperfeição e inconstância. Todos queremos chegar lá, onde nos acena a possibilidade de sermos aquele ser ideal que estamos longe de ser. E em busca disso nos arrastamos por anos, colocando toda a nossa esperança em pessoas, lugares, ritos ou coisas que além da breve sensação de refrigério, nos dê também a cura permanente para essa ânsia de transcender.
O mesmo olhar ainda nos procura: "queres ser curado?"
A pergunta já não soa tão absurda quando dirigida a nós. Soa perturbadora. Mas nós não precisamos passar tanto tempo nos arrastando em volta de uma ilusão para respondermos a esse olhar. Nem demorar anos e anos para reconhecer nossa impotência, fragilidade e necessidade de ajuda. Não seremos fracos quando decidirmos depender dEle, e confessarmos que apesar de nossa obstinação, nossa vontade não basta, nossos esforços precisam do toque divino. Não perderemos nada em deixar que Ele faça ao Seu modo, e transforme nossa história de repetidas frustrações num encontro definitivo com a cura. Precisamos apenas querer. Talvez reparar na pele áspera e calejada de pernas que, sob nosso comando, nada fazem além de se arrastar de um lugar par ao outro, ou encarar o leito feio onde costumamos depor nosso cansaço. Talvez só tirar os olhos de Betesda. E encontrar Aquele cuja voz dirá: "Levanta-te, toma o teu leito e anda."
Uma semana iluminada.
Luciana Dantas Teixeira
Ps.: texto carinhosamente dedicado a Moab Mariano, com quem ouvi um sermão bastante singular sobre esse mesmo trecho bíblico.
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