segunda-feira, 14 de julho de 2003

A pressa é inimiga da refeição

A pergunta aconteceu por volta das onze e quinze num contexto pouco favorável a respostas coerentes. O culto começara com vinte minutos de atraso por causa da leitura da ata de uma reunião onde se discutira a compra de novas cadeiras para a igreja, e depois de uma explicação pormenorizada dos modelos, quantidade e outros quesitos técnicos, as pessoas não conseguiam mais disfarçar o tédio. Um pai olhava com curiosidade seus filhos que desenhavam a arca de Noé, morrendo de vontade de pegar os lápis de cor deles. O calor fazia os mais inquietos se abanarem, levantando aquele incômodo barulhinho de papéis balançando. Dona Henriqueta, que já cochilava há algum tempo, abria agora a boca displicentemente, enquanto uma das crianças deixava os lápis de cor e colocava vagarosamente uma bolinha de papel dentro da boca da velhinha.

- Quantos aqui querem participar da ceia das aves que a Bíblia mencionam? – perguntou enfaticamente a pregadora.

Dois terços da igreja levantou o braço. Na pior das hipóteses era uma chance de alongar os músculos. Dona Henriqueta acordou assustada e disse, “Amém!”, cuspindo, confusa, a bolinha de papel.

- Todos vocês? - Sorriu a pregadora.

Os membros da igreja entreolharam-se confusos. Aquele sorriso denunciara que algo estava errado, e todos buscavam na memória o quê. Manhã quente de sábado, todos um pouco enfadados da leitura interminável da ata, o estômago já despedindo-se do café-da-manhã, e a atenção querendo despedir-se do culto, fez algumas pessoas interpretarem a ceia das aves, à primeira vista, como um banquete celestial cheio de frango assado para todo mundo. “Ih, mas no céu a gente vai comer frango?”, pensou consigo Dona Henriqueta.

A pregadora pediu que todos abrissem as Bíblias em Apocalipse 19: 17 e 18: “E vi um anjo em pé no sol; e clamou com grande voz, dizendo a todas as aves que voavam pelo meio do céu: Vinde, ajuntai-vos para a grande ceia de Deus, para comerdes carnes de reis, carnes de comandantes, carnes de poderosos, carnes de cavalos e dos que neles montavam, sim, carnes de todos os homens, livres e escravos, pequenos e grandes.”

Nesse ponto, a pregadora, que já notara o constrangimento na face da igreja agora toda atenta, tornou a perguntar:

- E quantos querem participar da Ceia das Bodas do Cordeiro?

Agora todos levantaram o braço, compondo um curioso quadro de leques improvisados. O Cordeiro era Jesus, claro. E se era a Ceia de Jesus, devia ser algo bom... não era?

- Acho que alguns de nós precisa decidir em que ceia quer estar, concluiu a pregadora, abrindo a Bíblia em Apocalipse 19: 7 – 9: “Regozijemo-nos, e exultemos, e demos-lhe a glória; porque são chegadas as bodas do Cordeiro, e já a sua noiva se preparou, e foi-lhe permitido vestir-se de linho fino, resplandecente e puro; pois o linho fino são as obras justas dos santos. E disse-me: Escreve: Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro...”

Depois a pregadora explicou o que quase todos já havia desconfiado. A Ceia das aves era aquela destinada aos ímpios, assim julgados porque em sua vida decidiram não fazer a vontade de Deus, mas seguir apenas os próprios impulsos humanos, e experimentar alegrias tão passageiras quanto esse mundo, encontrando, com o mundo, a própria destruição. Os dois versículos bastam para compor um cenário digno de filme de terror. Embora as aves sejam o símbolo de uma destruição completa e definitiva, não é, por isso, nada animador de imaginar. Os ímpios da ceia das aves são pecadores como todos nós, mas pessoas que escolheram o erro, simplesmente porque não queriam fazer o que era certo, mesmo sabendo que isso era o que deveriam ter feito. No contexto de Apocalipse, essas pessoas são aquelas que não se arrependeram de sua maldade, e escolheram uma vez mais atentar contra tudo que é justo, bom e contra o próprio Deus. Digamos que é o tipo de jantar para o qual ninguém gostaria de ser convidado. Especialmente quando se está destinado a ser o prato principal.

A Ceia das bodas do Cordeiro é aquela destinada ao grupo exatamente oposto ao anterior: os justos. Entenda-se justos não como pessoas perfeitas, que seguem todos os mandamentos com maestria ou viviam num pedestal de santidade. Os justos que Apocalipse mostra na Ceia das Bodas do Cordeiro são pecadores também, como aqueles mencionados anteriormente. Pessoas com falhas, egoísmos, muitas vezes injustas e às vezes até maus. Mas antes de tudo, pessoas que escolheram fazer o que era certo, a vontade de Deus, e mesmo sem conseguir sempre, se esforçam por isso sinceramente. Nos versículos citados, eles estão exultantes por que o Cordeiro, Jesus Cristo, está vindo tomar sua esposa, que representa a Sua Igreja, que como o texto diz, já está preparada e ornada com atos de justiça, decorrentes do amor que sente pelo seu Marido.

A diferença entre ser convidado para uma dessas duas ceias, está na atenção que damos às pequeninas coisas que dizem respeito à nossa vida espiritual, todos os dias. A coisa é muito mais sutil do que possamos nos aperceber a princípio. Basta baixar a guarda e ficar desatento por alguns instantes, e você pode escolher estar na ceia na errada... Nem sempre o ambiente aqui será favorável para vivermos nosso cristianismo de maneira plena. Às vezes nos sentiremos cansados, entediados, incomodados pelo calor das pressões e provações, tentados a tirar um “cochilo”, caindo numa religião letárgica, mas é nesse exato instante que Deus pode estar chamando nossos nomes na lista de convidados para a Ceia das bodas do Cordeiro. Se não reconhecermos a voz do Pastor, como poderemos tomar parte com Ele? (João 10:27; Mateus 25:33-46)

Assim, antes de decidir sobre nosso futuro espiritual, não nos apressemos a responder segundo nossos impulsos. Que possamos parar, pensar, ponderar na vontade de Deus, e só então escolher o melhor lugar onde estar. E que Deus nos abençoe...

- Amém! - Se empolga a irmã Henriqueta, e conclui – Eu sabia que no céu não se come frango!

Uma semana iluminada,

Luciana Dantas Teixeira

segunda-feira, 7 de julho de 2003

Insígnias

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Outro dia alguém me perguntou porque costumo assinar "Luciana Teixeira", ao invés de "Luciana Dantas", já que é por esse último sobrenome que a maioria das pessoas me distingue das dezenas de Lucianas de que vivo cercada. A resposta é: "por pura vaidade". Certa vez fui a uma exposição de brasões, e lá estavam meus dois sobrenomes com significado e origem. Teixeira provinha de um nobre guerreiro que havia lutado na tomada da Bastilha. E Dantas... bem, Dantas vinha da Região das Antas, em Portugal. Nada contra as antas, mas isso me soou pouco vultoso.

O fato é que brasões de sobrenomes hoje ganharam um significado meramente estético, mas eles já foram o orgulho de uma família. Na Idade Média eles eram exibidos pelos cavaleiros em seus escudos para mostrar que os mesmos procediam de uma linhagem nobre, portanto, se alguém quisesse o matar teria que ser tão ou mais "importante" quanto ele. Não se concebia gastar o fio da espada com um plebeu metido a Jaspion (Pokemón par aos mais modernos); os cavaleiros nobres só se dignavam de derramar sangue aristocrático. Daí a importância de empunhar sua insígnia.

E hoje, qual é nosso brasão? Quem é nosso Inimigo? Nesses tempos onde a guerra diária ganha contornos muito mais sutis, as lutas são contra armadilhas cada vez mais capciosas e o Mal toma formas muitas vezes quase indistinguíveis, importante é discernimos de que lado nós estamos e erguer a bandeira do que professamos ser. Sun Tzu, o mais célebre dos estrategistas de guerra, escreveu em seu pequeno tratado "A Arte da Guerra": "Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas."

Para quem crê na Bíblia como Santa, Verdadeira e Inspirada Palavra de Deus, não é difícil saber quem é o Arqui-Inimigo, Aquele que anda rugindo ao redor, como um leão, procurando a quem devorar (I Pedro 5:8). Aquele que nem sempre é tão explícito, e não nos ataca com espadas, mas está pronto a nos atingir com dardos inflamados, e contra quem só a armadura feita nos moldes de Cristo pode resistir (Efésios 6:10-18).

E quem somos nós? Será que nas batalhas do cotidiano temos nos preocupado em empunhar o brasão de Filhos de Deus, mostrar que nossa linhagem procede do Senhor dos Exércitos, que o nosso sangue é do mesmo tipo daquele que foi derramado na cruz pelo Príncipe da Paz (Isaías 9:6)? Será que nosso Inimigo consegue ver que temos orgulho de pertencer a Deus? E a nossa vida é uma prova disso?

No Salmo 74, vemos uma preocupação que bem poderia ser transportada para os nossos dias: "Não vemos mais as nossas insígnias, não há mais profeta; nem há entre nós alguém que saiba até quando isto durará. (verso 9)". O salmista via, perplexo, os inimigos avançarem sobre a assembléia dos justos, derrubarem os seus estandartes e altearem em seus lugar as próprias insígnias. Profanavam o santuário dos hebreus e destruíam os lugares santos. E hoje não é diferente a preocupação dos cristãos, porque temos visto Satanás com o mesmo interesse em derrubar as verdades cristãs, profanar a santidade nos templos e nos lares, destruir os santuários com as mais sutis e perspicazes mentiras, de modo a erguer no meio do cristianismo, as bandeiras da mentira, do egoísmo, da nossa doente vontade própria, entre tantas outras que envergonham a procedência Real dos cristãos, e descaracterizam aquilo que deveria ser o acampamento dos justos.

Por isso o apelo do salmista ainda é válido para nós: "Os teus inimigos bramam no meio da tua assembléia; põem nela as suas insígnias por sinais." (Verso 4). Nas batalhas diárias por fazer o bem segundo a vontade dEle, que possamos lembrar de erguer sobre cada palavra, atitude ou pensamento, o brasão com a imagem do Cordeiro de Deus.

Uma semana iluminada,

Luciana D. Teixeira

segunda-feira, 30 de junho de 2003

Uma tela

Sempre tive paixão pela pintura, mas nunca me aventurei a ir além da mera contemplação. Até já tinha arriscado alguns rabiscos e pinceladas bem amadores e despretensiosos na minha adolescência, mas que ficaram muito bem escondidos do olhar do mundo em algum caderno esquecido. Foi só quando conversava com uma colega minha que também tem a mesma paixão que senti nova vontade de pintar. Dessa vez algo mais ambicioso que tinta guache em papel ofício: decidi pintar uma tela. Durante algum tempo resisti pensando: “Puxa, mas pintar em tela?! Tem que se ter técnica, boas noções de desenho e pintura, dedicação profunda, esmero meticuloso!”, mas Nicole, uma garotinha de dez anos, me provou que só boa vontade já é suficiente. Na verdade, depois de ver o quadrinho de Nicole concluí com meus botões que com um quarto de século de idade, pra pintar uma tela você só precisa de tinta e pincéis, oras.

Para não arriscar demais escolhi um motivo simples: tulipas. Mais precisamente um detalhe de tulipas, bem aproximado, de modo a me livrar ao máximo dos detalhes dificultosos. Seis tulipas com um fundo verde não devia ser algo que demorasse mais que uma tarde pra fazer. Com dois pincéis um tanto gastos e alguns potes de tinta acrílica comecei bem animada. No fim da tarde ainda não tinha pintado metade da tela. Dois dias depois tentava definir os contornos. Duas semanas depois testava dezenas de texturas para aplicar ao fundo verde, e já tinha uma coleção inteira de camisetas super fashion, manchadas de verde, marrom e vermelho. Um mês e oito pincéis depois, eu escolhia a assinatura. Enfim, hoje eu o terminei! Se ficou bonito? Não sei. Minha mãe e meu namorado jurariam que sim, mas não creio que eu vá fundar um novo movimento na arte plástica. Na verdade acho provável que minha tela de tulipas não saia nunca do seguro recôndito de meu quarto.

Mas além de desenvolver técnicas de pintura e conhecer o sentido mais profundo da palavra paciência, refleti bastante sobre a arte de criar. Acho que todo cristão deveria tentar pintar uma tela em sua vida para saber exatamente o significado do versículo: “No princípio criou Deus os céus e a terra.” (Gen. 1:1) (ter um filho também é outra alternativa, mas muito mais cara). Não se trata de saber como Deus se sentiu porque, em sua infinita sabedoria e perfeição, Ele certamente não teve dificuldades diante do ato de criar. Mas podemos avaliar ao menos palidamente o cuidado, dedicação e carinho que o Criador dedica à criação. E com isso reconhecermos que privilégio é sermos feitura de Suas mãos (Efésios 2:10), saber que Ele nos fez perfeitos, escolheu nossos dons e tons, e ao final assinou Seu maravilhoso nome em nosso coração dizendo: “Tu és meu”. Não se imagina a tela voltando-se contra o pintor e dizendo: “não acredito em você, sou obra de milênios de evolução e ciência e estou aqui por acaso.” Tampouco pode a tela, uma vez criada, deixar de ser amada pelo pintor, ainda que ele permita que ela leve sua beleza a outros olhos. O fato de existirmos demonstra que Deus nos ama. Tudo que somos deve ser valorizado porque Ele não erraria com a sua mais querida criação: somos nós que muitas vezes escapamos por um ponto de fuga e não deixamos que ele termine a obra que começou em nós.

“Pois os seus atributos invisíveis, o seu eterno poder e divindade, são claramente vistos desde a criação do mundo, sendo percebidos mediante as coisas criadas.” (Romanos 1:20). Mesmo aquilo que temos, os pequenos e grandes atributos, bens, alegrias, livramentos e desafios que formam nossa vida, expressam a existência de um Criador que nos ama. Ele não só nos fez, mas nos refaz todos os dias: somos recriados à Sua semelhança cada vez que O buscamos, é Ele quem nos mantém seguros na batalha entre a sombra e a luz. E nesse deixar que Suas mãos de Criador tracem contornos e cores em todos os detalhes de nossa vida, vamos nos tornando uma admirável obra de arte.

segunda-feira, 19 de maio de 2003

O Caminho

Um dos passatempos preferidos de certo amigo meu é ver onde o caminho vai dar. Assim mesmo: ir andando, notar uma rua qualquer, lembrar que nunca entrou ali antes e então entrar, só para descobrir onde a rua acaba, por onde ela passa, que caminho é aquele ali. Certa vez enquanto eu o acompanhava num desses passatempos insólitos, ele me contava que já há muitos anos colocava a filha em sua moto e a levava para passeios cujo rumo era descobrir o rumo. Nunca lembrei de perguntá-lo se alguma vez entrou em algum lugar de que se arrependera, mas acredito que qualquer imprevisto valeria o seu prazer de desvendar o desconhecido.

Muitos hão de concordar que há uma graça muito sutil em sair por aí para lugar nenhum, só pelo prazer de descobrir onde se pode chegar. E hoje em dia, ele há de recomendar que sua filha não saia por aí fazendo o mesmo, porque, especialmente em certos lugares do nosso país tropical, caminhos desconhecidos podem levar a problemas funestos com o tráfego. E com o tráfico também.

Mas há na estranha mania do meu amigo, algo análogo a nossa própria vida. Agora mesmo eu e você estamos tomando rumos que não fazemos idéia de onde vão acabar. Mesmo tomando o cuidado de planejar, conhecer, estruturar, seguir os sinais de quem já passou por ali, nem sempre podemos ter certeza do lugar onde vamos chegar, muito menos se esse lugar é exatamente onde queremos estar no fim do caminho. Na nossa vida aqui temos poucas certezas quanto a isso. O máximo que podemos fazer é, como meu amigo, tentar abstrair algum prazer da novidade do caminho, e abstrair descobertas onde só vemos incertezas.

O que vai ser logo ali adiante? Para onde exatamente nossas escolhas estão nos levando? O que garante que não nos perderemos? Não há resposta muito precisas. Apenas uma é verdadeiramente certa: os caminhos desta vida são quase todos de mão única, e os retornos são quase tão impossíveis de se achar quanto os de São Paulo. Mesmo quando achamos que vamos voltar, o que estamos fazendo na verdade é seguir em frente. Nenhum caminho aqui é verdadeiramente seguro, e jamais permaneceremos nele o suficiente para o conhecermos totalmente. Que dirá prever o seu fim. E quando saber que chegamos ao fim?

Há apenas uma maneira de garantir que o rumo que escolhemos não vai nos decepcionar: seguindo Aquele que já andou pelos mesmos caminhos que nós. E o único que o fez sem tropeçar nem entrar por lugares errados foi Jesus Cristo. Mas alguém pode perguntar: "Senhor, nós não sabemos para onde vais; e como podemos saber o caminho?" (Jo. 14:5). Afinal, onde vai dar exatamente esse caminho para o qual Cristo aponta agora, olha para você e diz: "Siga"? Repare bem, se você tem certeza que esse é o caminho que Deus escolheu para você, simplesmente vá, sem medo. E se você não sabe ao certo que caminho tomar, olhe para Cristo uma vez mais. Na dúvida escolha sempre a direção que o levará para mais perto dEle. Porque Cristo é ao mesmo tempo o Caminho e o melhor Lugar onde podemos chegar.

Uma semana iluminada!

Luciana Dantas Teixeira

segunda-feira, 12 de maio de 2003

Morrendo de saudade

O problema era explicar a Daniela o porquê dos peixinhos terem morrido. Ela comprara um aquário novo, comidinha saborosa (devia ter gosto de minhoca, mas acho que ninguém sabia ao certo), enfeites lindos de plástico para tornar o aquário o mais agradável e bonito possível. Mas ela não queria qualquer peixe, tinha que ser os peixinhos da lagoa de Muriú. Então ela foi à lagoa, e junto com uma prima, pegou um lençol, colocou comida no meio e atraiu dezenas daqueles peixinhos brilhantes. Em segundos ela pegou cinco deles com a mão e os colocou dentro do lindo aquário que esperava do lado de fora da lagoa. Segurou-o firme entre as mãozinhas e esperou sentada até a hora de entrar no carro para ir embora. Feliz, acompanhava os movimentos daqueles peixinhos que ela agora escolhera por melhores amigos. Mas todos os cinco morreram antes que o carro chegasse na casa de Daniela. Por que?

Eu nunca soube ao certo. A água era a mesma da lagoa, e tinha oxigenação suficiente para os peixes sobreviverem alguns dias. O aquário não foi exposto ao sol, ou qualquer outra intempérie que justificasse a morte tão rápida dos peixinhos. Por isso a explicação mais convincente que encontrei para dar a Daniela foi: “Querida, seu aquário é lindo. Tenho certeza que você daria comida, cuidado e amor para eles, até eu gostaria de morar ali. Mas seu aquário não é a casa deles, e é bem provável que eles tenham morrido de saudade.”

Demorou até ela aceitar. Em sua mente, os peixinhos deveriam estar felizes com sua casa nova, aparentemente muito mais bonita e cheia de regalias que a antiga. Era apenas menor, mas eles não teriam mais que ir atrás de comida, ou se esconder de outros peixes predadores, e escapariam até à escola dos peixes para brincar o dia inteiro (Daniela sabia bem o que uma oportunidade dessa significava). Mesmo assim os peixinhos brilhantes não se adaptaram, e depois de pensar bem, Daniela concluiu que eles morreram chorando a falta da lagoa de Muriú.

Felizmente somos seres mais adaptáveis que os peixes da lagoa de Muriú. A maioria das mudanças físicas, psicológicas e materiais não são apenas possíveis, mas necessárias em nossa vida a fim de crescermos. Isso, no entanto, não as torna sempre fáceis, pelo menos para mim. Como os peixinhos de Daniela, eu também já mudei de casa, não só uma mas duas vezes. Para muitas pessoas essa mudança pode ser algo festivo, empolgante, estimulante. Para mim, que me apego profundamente à minha realidade, mudar é sempre um processo desgastante. Na primeira vez que mudei de casa, passava horas inconformada, olhando para tudo com tristeza e saudade, e só depois de muitos meses consegui me adaptar. Há porém uma saudade que teima em permanecer inexorável e reclama cada parte de minha alma com uma força irresistível: a saudade do lar celestial.

E faz só pouco tempo que reconheci em mim essa saudade, enquanto pensava na fidelidade dos peixinhos de Muriú à sua lagoa. Porque costumamos pensar na Nova Terra de que João fala em Apocalipse, como um lugar quase mágico, surreal, o que soa, por vezes, até fantasioso. Mas Jesus Cristo falou dele como um lugar bem real. E embora nos dirijamos a esse lugar, muitas vezes, como nosso “Novo Lar”, na verdade esse foi o primeiro Lar na humanidade, o lugar de onde saímos e para onde – mesmo que sem consciência disso – ansiamos voltar. É por ele que nossas almas clamam. Todo esse vazio que acompanha a existência humana, é causado por uma íntima inconformidade com nossa condição neste mundo.

Há quem passe a vida inteira enfeitando o “aquário” de sua vida, tentando torná-lo bonito, confortável, prazeroso, e quanto mais investem no aquário, mais sente que está faltando alguma coisa. Esquecem que Deus está preparando um lugar cuja beleza nenhuma pena humana seria capaz de descrever. Alguns acham que a satisfação virá de tornar o aquário um lugar mais justo, e tentam consertar tudo aquilo no que, segundo julgam, o criador do aquário falhou. E vão sempre encontrar novas falhas, descobrir que não têm poder para consertá-las todas. Esquecem que não faz sentido Deus consertar um aquário velho e corrompido, se Ele já providenciou um lugar infinitamente melhor para abrigar Sua criação. Outros simplesmente decidem “desencanar” e aproveitar a vida no aquário como se tudo que houvesse ali já fosse o suficiente: isso não significa que se adaptaram, mas que aprenderam a mentir bem para si mesmos. Esquecem que nenhuma mentira pode abafar a sede do espírito humano.

Uma nova semana se inicia, e não faço idéia das mudanças pelas quais teremos de passar. Sei que Deus nos concedeu sabedoria e inteligência para nos adaptarmos às condições mais difíceis, aos lugares mais inóspitos, às situações mais desgastantes. Podemos ultrapassar qualquer desafio com Sua força e nosso empenho, e vencer até mesmo a saudade lacerante de lugares e pessoas que já fazem parte de nós. O único fato com que não temos como vencer é que nossos espíritos não se saciarão da vontade de voltar para seu verdadeiro lugar. E para que eles não morram de saudade, o ideal é respirarmos já a atmosfera do Lar celestial. Considere que nosso tempo aqui é curto, e investí-lo só no aquário é uma atitude pequena. Permaneça fiel à sua origem e viva como alguém que sabe que sua verdadeira casa é onde Jesus está (João 17:24).

Uma semana iluminada,

Luciana Dantas Teixeira

segunda-feira, 28 de abril de 2003

Onde pôr o olhar

Quando eu tinha por volta de sete anos se instalou na minha cidade uma moda curiosa: a dos pôsteres fotográficos. Estúdios fotográficos distribuíam cupons que davam direito a um pôster grátis, depois tiravam uma dúzia de fotos e acabavam convencendo os pais corujas a comprarem todos os pôsteres, mais um monte de fotos três por quatro. Toda mãe que se prezasse tinha que ter quadrinhos com moldura de cerejeira e pôsteres dos filhos com chapeis, sombrinhas e todo um aparato de gosto duvidoso enfeitando-os em poses clássicas “que cute-cute”.

Eu fui mais uma que não escapei. Mesmo tendo perdido um dente incisivo, minha mãe me obrigou a colocar meu conjuntinho amarelo, pentear a franja pra frente e ir ao estúdio tirar as benditas fotos. Eu estava muito chateada, primeiro porque achava tudo aquilo uma besteira (filhos às vezes são bem insensíveis quanto aos caprichos maternais), e segundo porque não queria meu quarto enfeitado com um quadro me mostrando banguela para toda a minha família. Mas você sabe como é mãe: acha linda até a gengiva do filho. E a fotógrafa, propositadamente, tirou a foto de um ângulo que a falta do meu incisivo ficava bem evidente, num sorriso desconcertante do tipo “eu mato essa fotógrafa!”. A vergonha da banguelinha, junto com a chateação por estar me expondo àquele ritual ao meu ver ridículo, me deu uma expressão bem peculiar na foto. E foi justamente essa foto que eles ampliaram ao máximo e colocaram numa linda moldura, que foi parar no meu quarto.

Durante muito tempo esse quadro foi o tormento de minha existência. Não bastasse o contexto da fotografia, comecei a sentir medo da minha própria foto. Parecia que os olhos da fotografia me acompanhavam aonde quer que eu fosse. De qualquer ângulo aquele olhar meio maquiavélico me seguia, com um sorriso que parecia cada vez mais escarnecedor. E quanto mais eu olhava para a foto, mais assustadora ela ficava. À noite passei a dormir os pés virados para a cabeceira da cama, só para não ter que contemplar a expressão medonha da minha própria fotografia, me vigiando e ameaçando algo indescritível com o olhar. Jamais ficava sozinha no meu quarto, e quando passava pelo quadro podia jurar que a foto ia pular em cima de mim. Essa fixação chegou ao ponto em que tive de pedir para minha mãe retirar o quadro do meu quarto.

Outro dia reencontrei o tal quadro e curiosamente não consegui encontrar nenhum resquício daquela expressão que me parecia tão assustadora. O problema não era o olhar da fotografia, era o meu olhar. De tanto olhar para o quadro, as impressões que eu tinha cresceram e cresceram a ponto de ficarem irreais e distorcerem completamente a realidade. Você já se sentiu assim com relação a alguma coisa em sua vida?

Faça uma experiência. Vá ao dicionário e procure uma palavra que você desconheça. Depois perceba como, de uma hora pra outra, parece que todo mundo decidiu usar a palavra nova que você acabou de descobrir. Na verdade todo mundo já usava essa palavra antes, a questão é que só agora você presta atenção nela, por isso parece que ela está em todo lugar.

Esse princípio se aplica a várias faces da vida. Muitas vezes nos detemos a olhar tão fixamente para algum problema, que o que a princípio nos parecia apenas incômodo, vai crescendo, crescendo, tomando proporções gigantescas e ameaçando de forma terrível a nossa paz. Tudo que acontece ao nosso redor parece ter a ver ou dizer respeito a essa situação. Da mesma forma, quando percebemos algo de errado conosco, um pecado em particular, um defeito de caráter, ficar olhando detidamente para ele só vai nos fazer desesperar. Nem tudo aquilo que aos nossos olhos parece grande é, na realidade, tão grande assim. Aquilo para que olhamos é que se torna grande diante dos nossos olhos. As coisas têm a importância que lhes dedicamos: se passamos muito tempo dando atenção a algo, é lógico que esse algo irá ganhar uma importância cada vez maior, chegando a ter seu real valor distorcido ou superestimado.

Uma nova semana se inicia, e temos diante de nós muitos desafios. Se ficarmos olhando para nossos problemas, nossa incapacidade, nossas limitações, nossa situação desfavorável, a tendência será apenas tudo isso ficar grande e assustador diante dos nossos olhos. Mas podemos desviar os olhos dos problemas para a solução. E qualquer que seja o desafio, o melhor lugar para manter os olhos é em Jesus. Não há riscos em contemplá-lO, e Sua grandeza amorosa não cabe no limite de nosso olhar. Se em toda as situações da nossa vida olharmos “firmemente para o Autor e Consumado da fé, Jesus” (Hebreus 12:2), essa Presença animadora crescerá diante de nós e trará equilíbrio, acerto e paz em todas as nossas decisões. Se há algo que deve se tornar grande e importante aos nossos olhos, é a certeza que temos Cristo por nós e em nós.

Uma semana iluminada,

Luciana Dantas Teixeira

Ps.: este texto é carinhosamente dedicado à Aninha (http://abussola.weblogger.terra.com.br/ ), responsável pelo insight que gerou essa meditação.

quarta-feira, 23 de abril de 2003

A cura

"Queres ser curado?" (João 5: 1 - 9)

A pergunta chega a soar absurda tamanha a obviedade da resposta. Há trinta e oito anos aquele homem paralítico chegara ao tanque de Betesda. Há trinta e oito anos ele estudava a posição das nuvens e dos astros tentando encontrar um momento mais propício para se atirar no tanque. Há trinta e oito anos ele sentia o coração agitado quando o vento ficava mais forte, e gritava por alguém que o levasse até a água. Há trinta e oito anos ele se arrastava com sofreguidão até a beira do tanque, só para ver os outros chegarem primeiro e tirarem a oportunidade dele alcançar a cura.

Até que um dia, ele deita no seu leito pobre e fecha os olhos. Olhando-o assim, de passagem, muitos creriam que ele se cansara, que desistira afinal. Outros, sem saber da sua história, achariam que ele apenas dormia, e no sonho andava com vigor pelas ruas da Galiléia. Alguns poucos que chegassem mais perto poderiam tentar desvendar a expressão no rosto do homem que durante trinta e oito anos utilizara todos os seus esforços para alcançar a cura, gastara toda a sua esperança olhando para as águas calmas do tanque de Betesda. Mas apenas um pôde vê-lo na inteireza de seus desejos, fracassos, sonhos e frustrações. Jesus dirigiu-se a ele e perguntou:

"Queres ser curado?"

O que você pensaria no lugar do paralítico? A frase poderia soar como um gracejo se não viesse de um Homem cujo olhar penetrava-lhe o espírito. E diante desse olhar, não havia nada que se pudesse esconder.

"Senhor, não tenho ninguém que me ponha no tanque quando a água é agitada: pois, enquanto eu vou, desce outro antes de mim". As coisas nunca saíam exatamente como ele planejava.

Ele, como eu e você, também foi ensinado desde muito cedo a esconder suas fraquezas. A tentar resolver tudo sozinho para demonstrar auto-suficiência e independência. A parecer invulnerável diante das dificuldades da vida, e forte para poder ser respeitado. Também o ensinaram que só se conquista as coisas com muito esforço e melhor ainda se for sem a ajuda de ninguém. Também o disseram que ele só seria feliz e realizado se aprendesse a fazer tudo por si próprio, escolher com a sua própria vontade, fazer com as próprias mãos, andar com os próprios pés. Mas então ele já não podia andar. E nenhum dos que disseram para ele conseguir tudo com a própria força estava ali para ajudá-lo a chegar na sua última esperança: as águas de Betesda. Reconhecer a necessidade de cura agora, era também expor na totalidade sua fraqueza e fracasso.

Todos nós temos um tanque de Betesda particular, onde almejamos chegar para encontrar a paz, a felicidade, a sensação de completude ao invés do vazio perseguidor de uma existência maculada pela imperfeição e inconstância. Todos queremos chegar lá, onde nos acena a possibilidade de sermos aquele ser ideal que estamos longe de ser. E em busca disso nos arrastamos por anos, colocando toda a nossa esperança em pessoas, lugares, ritos ou coisas que além da breve sensação de refrigério, nos dê também a cura permanente para essa ânsia de transcender.

O mesmo olhar ainda nos procura: "queres ser curado?"

A pergunta já não soa tão absurda quando dirigida a nós. Soa perturbadora. Mas nós não precisamos passar tanto tempo nos arrastando em volta de uma ilusão para respondermos a esse olhar. Nem demorar anos e anos para reconhecer nossa impotência, fragilidade e necessidade de ajuda. Não seremos fracos quando decidirmos depender dEle, e confessarmos que apesar de nossa obstinação, nossa vontade não basta, nossos esforços precisam do toque divino. Não perderemos nada em deixar que Ele faça ao Seu modo, e transforme nossa história de repetidas frustrações num encontro definitivo com a cura. Precisamos apenas querer. Talvez reparar na pele áspera e calejada de pernas que, sob nosso comando, nada fazem além de se arrastar de um lugar par ao outro, ou encarar o leito feio onde costumamos depor nosso cansaço. Talvez só tirar os olhos de Betesda. E encontrar Aquele cuja voz dirá: "Levanta-te, toma o teu leito e anda."

Uma semana iluminada.

Luciana Dantas Teixeira

Ps.: texto carinhosamente dedicado a Moab Mariano, com quem ouvi um sermão bastante singular sobre esse mesmo trecho bíblico.

segunda-feira, 7 de abril de 2003

Pedi e dar-se-vos-á

- Dá-me mais fé!

Certa vez uma amiga me procurou angustiada, e expôs aquilo que julgava ser um grave problema: “eu acho que estou grávida!”, ela disse. Embora casada há dois anos, ela não sentia que tinha estrutura material para receber um filho naquele momento, e quando começaram os sintomas da gravidez, ela se desesperou em pensar nas conseqüências para sua vida profissional e financeira. Conversamos um pouco antes dela criar coragem para ir ao médico, e nessa conversa concluímos que ela precisava ter fé que Deus proveria o necessário para que sua família não passasse necessidades. Que se Ele havia permitido essa gravidez, é porque aquele filho seria uma grande bênção na hora certa. Foi então que decidimos orar, e ela fez um pedido que muitos de nós costumamos fazer nos momentos difíceis: “Senhor, sei que queres me ensinar a depender de Ti inteiramente, mas sou tão fraca! Por isso te peço: dá-me mais fé!”. No outro dia ela me ligou com a notícia que, embora inesperada, era uma resposta clara ao seu pedido: ela não estava grávida de um bebê, mas de dois!
Muitas vezes achamos que bastará pedir mais fé a Deus e um anjo descerá do Céu com uma varinha de condão, tocará nosso peito e seremos transformados numa versão moderna de Abraão, o pai da fé. Mas Deus costuma fazer nossa fé aumentar por um meio mais eficaz em longo prazo, e esse meio é justamente a provação. Quanto maior a dificuldade que atravessamos pela fé, tanto maior esta ficará após a batalha, porque o poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza (II Cor. 12:9).
Então dê uma nova olhada sobre seus problemas por esse ângulo: pode ser que Deus esteja apenas respondendo sua súplica por fé, e Ele estará ao seu lado até que o seu pedido se realize.

- Dá-me mais tempo!

Havia um ancião muito dedicado à Igreja, cujo maior objetivo de vida era servir a Deus com toda a sua alma. Por isso ele separava mais e mais tempo para os afazeres na igreja, dando tudo de si. Mas chegou um tempo em que ficou difícil administrar todas as suas tarefas e ainda a vida familiar, profissional, social... Muitas de suas noites eram passadas em claro elaborando projetos para aproveitar melhor o tempo, e mesmo quando parava para comer sua oração era pra lá de objetiva: “Senhor, abençoa a mão que fez e a boca que vai comer, amém!”.
Um dia, sem saber mais de onde tirar tempo para dar conta de todos os cargos e afazeres, ele decidiu procurar o pastor: “Pastor, como eu faço para o dia render mais? Parece que vinte e quatro horas apenas não bastam!”, ao que o pastor respondeu: “Filho, apenas ore e peça isso a Deus”. “Mas eu já oro”, respondeu o ancião, “todos os dias dedico meia hora à oração.”. E o pastor lhe disse: “Então ore durante uma hora!”. “Uma hora!!”, reclamou o ancião, “se eu gastar uma hora orando não vou conseguir terminar todas as minhas tarefas!”. O pastor concluiu: “Então ore duas horas!”.
O que aquele ancião e muitos de nós também precisamos aprender é que o tempo dedicado à oração não é gasto, mas investido. Vivemos num século que mede nossa produtividade pela quantidade de coisas que fazemos, mas um cristão bem-sucedido é aquele que mede sua produtividade pela quantidade de coisas que Deus faz por ele. Na oração abrimos um canal para permitir que Deus realize em nós o Seu querer e efetuar. E se fazemos Sua vontade, todas as outras coisas ficarão em seu devido lugar. Há tempo para tudo (Ecl. 3), porém quanto mais tempo houver para Deus, mais proveitoso tudo será.

- Dá-me sabedoria!

Conheci um rapaz bastante religioso, desde criança dedicado a aprender a doutrina bíblica e freqüentador das rodas intelectuais de várias denominações. Com vinte e cinco anos, já havia lido a Bíblia dez vezes, sabia respostas para os mais intricados problemas teológicos e era consultor em se tratando de profecia. Ele me contou que certa vez um professor na sua faculdade o desafiou dizendo: “quero que você me responda apenas uma pergunta e eu saberei se você é mesmo cristão.” O rapaz, acostumado a argumentar com ateus, deístas, protestantes e católicos, aceitou o desafio e disse sorrindo: “pode perguntar!”. O professor aproximou-se, olhou bem em seus olhos e inquiriu: “qual o nome do filho da zeladora de sua igreja?”. O rapaz calou-se.
Quando Deus concedeu sabedoria a Salomão, não o fez somente um homem inteligente, um político hábil ou um literato excepcional. Salomão foi dotado com a sabedoria divina, que nada mais é que o conhecimento de Deus. O mero conhecimento humano, que se adquire em livros e rodas intelectuais, não faz o homem grande diante de Deus. Mas aquele conhecimento que é sorvido convivendo diária e intimamente com o Senhor, é a sabedoria que deveríamos ter por alvo no nosso viver cristão. A sabedoria verdadeira não é aprendida, é revelada pelo Espírito Santo (I Cor. 2:10). Ela é pura, pacífica, indulgente, tratável, plena de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem fingimento. Não é facciosa, mas promove a paz (Tiago 3:13-18). Ela cresce até à Eternidade, enquanto a sabedoria humana, que é o simples conhecimento do bem e do mal, tem por fruto, desde sempre, o perecimento.
O conhecimento deste mundo traz tristeza e enfado (Ecl.1:18), afoga o homem em sua própria empáfia. Mas o conhecimento de Deus torna o homem humilde, alegre, e o guia pela forma mais eficaz de conhecer a Deus: o amor. Pois todo aquele que ama, conhece a Deus. (I Jo.4:7).

- Dá-me porção dobrada do Teu Espírito!

Quando Eliseu fez esse pedido a Elias, este lhe respondeu: “Dura coisa pediste!” (II Reis 2:10). Receber o Espírito de Deus exige mais que boa vontade da parte dEle; exige muito de nós em nos deixarmos usar segundo Sua vontade.
Alguém cheio do Espírito Santo produz os frutos mencionados em Gálatas 5:22-23, os quais, examinados de perto, se traduzem em várias faces de um só verbo: amar. Vejamos: a alegria é o amor sorrindo. Paz é o amor serenando. Longanimidade é o amor sofrendo. Benignidade é o amor compassivo. Bondade é o amor agindo. Fé é o amor confiando. Mansidão é o amor suportando e temperança é o amor controlando. Se amamos, o Espírito de Deus habita em nós (I Jo 4:12-13).
Mas como tem sido dado o nosso amor? O ser humano, de uma forma geral, possui uma enorme vontade de amar; a quem o ama, o aceita, nunca lhe fez mal algum e concorda com todos os seus pensamentos. Mas Jesus foi claro em dizer: “Se amardes os que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem os publicanos o mesmo?” (Mateus 5:46). Portanto se queremos porção dobrada do Espírito Santo, devemos também nos esforçar para amar em dobro, ir além do que é conveniente, ir onde o amor transcenda a dor e o egoísmo, como Cristo fez. Se tentarmos amar como pede o Pai (Oh, Senhor, dura coisa nos pediste!), e não como permite o nosso pobre coração humano, receberemos o Espírito Santo em Sua plenitude e poder.

Ps.: Dedido este texto à Igreja Central de Recife e a Tibério, que me pediu um textinho objetivo, me obrigando, portanto, a arranjar uma nova forma de ser prolixa: fazer quatros textinhos objetivos:-))

segunda-feira, 31 de março de 2003

Vai um pãozinho?

Não tenho olho azul, nem cabelo loiro, nem acompanhei a última novela das oito*, mas acredito que há algum italiano pendurado na minha árvore enealógica. Nada mais justificaria minha mania de cantar árias de ópera no banheiro, a vontade tresloucada de conhecer a Itália e o gosto incontrolável por massas. Ah, as massas! Tão condenadas e tão gostosas! Impossível ara mim sobreviver um dia sem comer alguma massa. Nem que seja um ãozinho no café-da-manhã.

Mas de vez em quando a coisa aperta e se a gente aqui bobear fica sem pão. Nenhuma tragédia financeira: é que quando minha mãe viaja, suas filhinhas perdem completamente o controle sobre coisas menores como comer e lavar e louça. Numa dessas ausências sentidas, me deparei várias vezes com a necessidade de usar a criatividade para amainar os apelos do estômago: pão com queijo, pão com leite condensado, pão com feijão, pão com rapadura... um menu extenso! Mas um dia ninguém comprou o pão. E tudo que encontrei foi um pacote muito suspeito com dois blocos de concreto disfarçados de pães. Eu, na minha ânsia por massas – mesmo num caso desse, em que elas deveriam estar num laboratório de engenharia civil – acabei fazendo torradinhas amanteigadas, com um gostinho... hmmmm.... horrível! Não reparei que os pães estavam com bolor. Você já comeu pão mofado? Não aconselho. O gosto mais próximo que poderia descrever essa experiência é sabor de sabão em pó com terra de xaxim. Digo, imagino que seja isso...

Mas meus amigos, curiosamente muitas pessoas hoje não só comem pão com bolor como o oferecem a outras pessoas, como se esse fosse o único alimento disponível. E não é culpa de outras mães viajantes: falo aqui do pão espiritual. E o que é esse pão? “Porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá a vida ao mundo” (Jo 6:33). Segundo a Bíblia, Cristo é o alimento que veio do Céu para nos dar vida em abundância. Deus, sabendo que nossas necessidades espirituais precisam ser supridas diariamente, concedeu o próprio Cristo com sua presença animadora, restauradora e fortalecedora para todo aquele que abre seu coração ao Pão que desce do céu.

Isso não nos faz lembrar o antigo Israel também? Quando atravessavam o deserto, um lugar tão inóspito para a vida quanto este mundo o é para nossa fé, eles recebiam diretamente do céu o seu alimento, o maná. Com eles faziam pão e recebiam a nutrição necessária para continuar a caminhada. A única coisa que eles tinham que fazer era pegar suas tigelinhas todos os dias, exceto no sábado, ir até fora da tenda e pegar o maná que caía do céu. Mas algum espertinho pensou: “Ai que preguiça!... vou pegar maná para hoje e amanhã, então poderei dormir um bocadinho mais amanhã”. E o que aconteceu? O maná que era guardado de um dia para o outro, irremediavelmente apodrecia, mofava e criava vermes. Um negócio horroroso, que não descia nem com manteiga.

Eu penso que Deus tem uma mensagem bem clara aqui: “Ei, seus dorminhocos, não se acomodem. Todos os dias vocês sentem fome, então todos os dias vocês têm que ir buscar comida. Ela está à disposição para quem quer pegá-la, mas todos os dias vocês devem lembrar que a dá para vocês.”

Consegue associar? “Disse-lhes, pois, Jesus: Na verdade, na verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu; mas meu Pai vos dá o verdadeiro pão do céu.” (Jo 6:32). Jesus, o Pão da Vida está disponível para alimentar os nossos espíritos, nossa fé, nossa religião, com a vantagem adicional de que, ao contrário do que acontecia em Israel, temos o sábado inteirinho para nos empaturrar desse alimento divino. Mas algumas pessoas tomam esse pão, enchem os bolsos e vão embora, como se isso desse para sustentar todo o resto da caminhada. A mensagem é: você precisa voltar para pegar mais pão todos os dias. Se está sentindo-se fraco espiritualmente, pergunte-se: com que regularidade você ergue a tigela do seu coração aos céus no contato com a Bíblia e a oração? “Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede.” (Jo 6:35) Guardar o pão é uma péssima idéia: ele vai mofar e sua religião vai ficar com gosto de sabão em pó com terra de xaxim. Se quiser passar o resto da vida comendo seu pão mofado, é uma escolha sua, embora o pão diário dado na comunhão com Cristo seja infinitamente mais apetitoso. Mas, por favor, não vá pegar esse pão mofado e duro e dar às pessoas dizendo que isso é o que Deus tem a oferecer.

Pessoas que vivem uma religião ritual e aparente, que estão mais preocupadas em mostrar aos outros seus cargos, títulos e listas de regras para ser considerado um bom cristão, estão comendo e oferecendo pão com bolor. Pessoas que vivem a real felicidade de andar com Cristo, voltam todos os dias para se alimentar , e não apontam para o pão que receberam dizendo: "vejam que pão lindo e maravilhoso o meu!”. Cristãos que conhecem a paz de estar sempre satisfeitos com sua fé e religião, são aqueles que não se acomodaram em guardam o que receberam ontem, mas estão sempre buscando mais. E, depois de alimentados, saem para convidar outras pessoas famintas para a ceia.

Uma semana iluminada e bon apetit!

Luciana Dantas Teixeira

* Na época era uma novela sobre italianos imigrantes.

segunda-feira, 24 de março de 2003

Viva la revolución!

Aos sete anos eu sabia exatamente como seria minha vida no futuro: primeiro eu seria professora (para conseguir as coisas mais simples como um apartamento e um carro), depois construiria uma grande escola que também serviria como base de uma entidade social filantrópica (a idéia era essa, mas sem o nome complicado). Tal iniciativa geraria outros núcleos de ajuda humanitária dirigidos à educação e integração social dos mais pobres e enfim, eu conseguiria salvar o Brasil da fome e da miséria. Aí eu já estaria bem velha, com uns vinte e três anos, e poderia dar uma pausa para casar, ter um filho e adotar outro, antes de partir para nova empreitada salvadorística em nível mundial.

Recordei estes meus planos durante esta semana, depois de conhecer uma garota de treze anos que também é voluntária numa ONG da qual participo (www.natalvoluntarios.org.br). Enquanto ouvia ela falar com ardor dos planos que tem para implantar definitivamente a bondade e a solidariedade no mundo, lembrava de mim mesma, com a idade dela, fazendo redações de protesto contra a política capitalista e discursos inflamados por melhores condições de vida para os trabalhadores, durante apresentações de trabalhos escolares. Tudo me parecia tão fácil e óbvio! Alguém só precisava dizer como as coisas deveriam ser feitas! Então eu romantizava os movimentos estudantis da época da ditadura militar e acreditava que a solução viria quando os jovens fizessem uma grande revolução e tomassem o poder.

Mas eu fui crescendo e vi que a maioria dos jovens tinham sonhos mais imediatos e superficiais. Foram ensinados a lutar para conseguir apenas a primeira parte do meu sonho aos sete anos: um emprego, um teto e um carrinho, se der. Percebi eu mesma que, só isso, já era bastante difícil. E quando entrei na faculdade veio o confronto definitivo com minhas utopias por um mundo melhor. Certo ditado americano diz que nós nunca deveríamos ver como são feitas as salsichas e as leis. E eu, que acreditava no poder da lei do amor para mudar o mundo, descobri que o que prevalece é a lei humana, a qual sempre tende a favorecer os mais forte e excluir os mais fracos. Que o Direito, ao invés de servir à Justiça como pregam bem os teóricos, acabou por se transformar em justificativa no discurso de uma classe que mantém a injustiça e a opressão no poder. O que mais me decepcionou é que grande parte dos que estavam comigo queriam apenas aprender as regras do jogo para se adaptarem bem e lucrarem com isso. E me disseram que isso era o normal: sobreviver e crescer profissionalmente, sem maiores comprometimentos com outros seres humanos. Antes, todos pareciam festejar o privilégio de ser elite intelectual, lamentando os demais intimamente (ou publicamente, dependendo da finalidade do discurso). Para escurecer o restinho de esperanças, percebi que a mentira se reveza no poder. E Bush foi eleito.

Quando chegamos nesse ponto nos sentimos maduros: não podemos mudar nada. Cuidar da nossa própria sobrevivência já é desgastante demais, e resta apenas nos fecharmos sobre nosso próprio mundinho, esquecer que ainda há coisas erradas e pessoas precisando de ajuda: quer nos lembremos, quer não. Somente quando acontecem grandes comoções, como desastres ou guerras, é que a humanidade se dá conta da fragilidade de sua condição. Acompanhamos atentos o desenrolar de estratégias militares onde dezenas de pessoas inocentes perdem a vida, mas quotidianamente ignoramos centenas , que morrem vítima do nosso descaso, bem ao nosso lado. E não sabemos nada da criança que acabou de morrer desnutrida, do adolescente que por falta de educação entrou no crime: o subúrbio não tem cobertura com flashes ao vivo na programação da Globo. A guerra nos faz pensar que há outros além de nós mesmos, mas é só quando a dor deles também nos ameaça que ficamos bem atentos com medo de sermos atingidos.

Hoje eu já não sonho com grandes revoluções para mudar o mundo. Sei um pouco do quanto é difícil resolver tudo política e juridicamente (muito mais que eu sabem os poucos homens honrados que estão lutando por esses caminhos). Não aposto na boa vontade da maioria para oferecer solução às necessidades alheias. Mas vou contar um segredo, pois afinal escrevo para amigos: eu ainda sonho em ver as pessoas vivendo melhor. Tenho convicção que cristianismo é muito mais que orar pelas vítimas da guerra e desejar um mundo melhor só na eternidade.

Embora biblicamente o que se profetize para nossos dias não seja nada animador, ainda devemos fazer nossa parte pelo nosso mundo aqui, pelas pessoas que deveríamos chamar de irmãos, mas que muitas vezes passam necessidade financeira e emocional ao nosso lado na igreja. O fato do mundo hoje estar se corrompendo mais rapidamente, não deve significar que nos resta ficar parados aguardando que tudo isso termine bem rápido, mas significa que nossa tarefa é cada dia maior, e a responsabilidade de tudo aquilo que podemos partilhar com nosso irmão é mais urgente.

A saída, entanto, não está nos grandes empreendimentos, nas doações milionárias ou nas entidades organizadas de ajuda ao próximo. Adventista: a missão de ajudar não está na ADRA ou no Departamento do Dorcas. Todo esforço bem sucedido em ajudar pessoas tem por base algo muito mais simples: uma pessoa amando outra pessoa e, por isso, conseguindo mudar sua vida para melhor. Foi assim que pessoas como a Madre Tereza ou o Betinho e até Jesus conseguiram grandes coisas. Amar no sentido bíblico, um amor com braços e pernas, com ação e não apenas com palavra (I Jo 3:18). Portanto antes de protestarmos contra a política mundial ou brasileira, antes de tecermos nosso discursos contra o capitalismo, a corrupção da lei e dos que a manejam, e gastarmos nossas forças tentando empreender vultosas mobilizações missões grandiosas, pensemos: somos capazes de amar? Porque se há algo que ajudar pessoas nos ensina, é que amar é nossa única e maior missão neste mundo. Se nosso empreendimento em favor das pessoas não vier de um coração que sabe amar em particular, cairemos fatidicamente no poema de Bertold Brecht: “Ai, nós que queríamos amainar o terreno para a amabilidade: não podíamos nós mesmos ser amáveis.” O que sustentará nossas ações?

Eu não perdi a fé num mundo melhor porque depois de conhecer a maldade e a pobreza espiritual humana, conheci um Deus que, dentre todos os caminhos que o homem forjou para fazer o bem, se mostrou Ele mesmo como o próprio Caminho. Jesus já fez a revolução necessária para mudar o mundo: ele transformou a vida de todos a quem se dirigia pessoalmente, fez isso comigo e continuará fazendo a outros também. Dele vem o amor, dEle vem a Salvação para bilhões de pessoas. A mim cabe começar amando ao menos uma pessoa de forma pura e verdadeira. Isso não será pouco, apesar de ainda restarem outras tantas precisando ser amadas.

Que a descoberta da injustiça não nos encha de revolta e ódio a ponto de desfigurar a essência do que pregamos. Que o choque com a indiferença pelo mais fraco não nos endureça a ponto de nos tornamos apenas mais uma pedra entre tantas. Que a maldade não nos faça desistir de lutar para dar ao nosso semelhante um pouco de alívio e esperança neste mundo, porque se não conhecerem o amor aqui, não poderão desejar um mundo de amor depois. Que nesta semana encaremos com comprometimento a nossa parte, olhando cada ser humano que precisa de nós como único, e merecedor de nossa mais profunda dedicação. Um a um, acolhamos cada qual, a começar pelos que estão ao lado, com nossa mais completa capacidade de amar.

Uma semana iluminada!

Luciana Dantas Teixeira

Ps.: dedico este texto a Débora, coordenadora do Núcleo de Crianças de Campinas, da ADRA.