sábado, 31 de agosto de 2002

Quando as coisas começam a mudar

Sábado passado tivemos, como de costume, a reunião do GEA (Grupo de Estudantes Adventistas) da Igreja do Alecrim. Todos estávamos visivelmente tristes, devido à perda de dois membros muito queridos, que por motivos pessoais se afastaram do nosso convívio. Ambos acrescentavam muito em alegria e motivação, e ora, uma perda é sempre uma perda, é sempre triste, e deixa aquela sensação de membro amputado que continua a doer. Ao contrário de todas as semanas, começamos a reunião sem cantar, porque um dos membros que saíram foi justamente aquele que tocava o violão para animar o louvor. Cantar sem ele ali, significava evocar de forma mais sofrida sua ausência. Então fomos logo para a sessão de pedidos, agradecimentos e testemunhos.

Depois de seguidos “agradeço a Deus pela vida”, com um semblante triste tornando o agradecimento meio paradoxal, e depois de alguns pedidos de oração em torno sempre de nossas perdas, um dos membros mais tímidos, que geralmente nada pede, agradece ou testemunha, disse que queria falar. Todos os olhares surpresos dirigiram-se para Regineide, que ainda mais intimidada começou a narrar um dos testemunhos mais poderosos que eu já ouvi nos últimos tempos.

Regineide faz geologia no CEFET daqui de Natal, e é comum eles saírem para pesquisas de campo. Na sexta-feira sua turma fez uma dessas viagens, mas o que deveria ser só mais uma viagem para estudos, logo se tornou uma prova angustiante. Depois que o grupo realizou suas atividades rotineiras, um dos amigos de Regineide contou algo no mínimo perturbador. Ele disse que há algum tempo atrás, sonhara com essa viagem, e que tudo estava acontecendo exatamente como no sonho: os componentes do grupo, as atividades realizadas, os lugares, tudo com detalhes estava seguindo o mesmo rumo do seu sonho. Mas um detalhe que o estava incomodando muito, é que no sonho, enquanto eles voltavam, acontecia um grave acidente com o ônibus, e nesse acidente Regineide morria. Fantasia? Profecia? Coincidência? Brincadeira de mal gosto? O fato é que ninguém queria mais deixar Regineide voltar. É provável que o relato do colega dela tenha sido bastante convincente, porque até mesmo os professores começaram a inventar mil motivos para eles viajarem só no outro dia.

Porém era sexta-feira, e Regineide tinha um compromisso inadiável com Deus no sábado. “Mas aqui nós vamos passear, ver coisas da natureza, você não vai precisar fazer nenhum trabalho...”. Regineide estava decidida: ela queria estar na Igreja. “Mas é apenas uma noite, você vai amanhã cedo”. Regineide subiu no ônibus, preparada para voltar. Pode ser que na hora ela tenha dito que aquilo era só uma coincidência, que ninguém podia se guiar por sonhos, e talvez até tenha feito algumas brincadeiras em torno do assunto. Eu faria isso. Talvez você também. A maioria das pessoas aprende, ainda criança, que a melhor maneira de espantar o medo do desconhecido é chamá-lo de misticismo e tratá-lo como um fantasia da imaginação humana. Mas a gente sempre esbarra com algo na Bíblia parecido com “pois não é contra carne e sangue que temos que lutar, mas sim contra os principados, contra as potestades, conta os príncipes do mundo destas trevas, contra as hostes espirituais da iniqüidade nas regiões celestes.” Efésios 6:12. Acho que Regineide teve muita fé em entrar naquele ônibus, e pensando bem, eu não conseguiria fazê-lo sem ao menos um leve tremor nas pernas.

Durante a viagem, de fato, ocorreu um grave acidente na estrada. Mas não com o ônibus em que Regineide ia com seu grupo. Este chegou a Natal são e salvo, sem nenhum arranhão. Comentando então sobre o “destino” diferente do sonho, o colega dela falou o seguinte: “Mas tudo ia mesmo, exatamente como no sonho, até a hora do pôr-do-sol. No meu sonho, você ia triste, sentada na cadeira com um ar desconsolado. As coisas na realidade começaram a ficar diferentes, quando você se levantou da cadeira e começou a cantar para gente as músicas que você costuma cantar no culto de pôr-do-sol da sua igreja. Daí em diante, tudo mudou, e como você vê, nada mais aconteceu segundo o que eu tinha sonhado!”. Nós todos do GEA estávamos emocionados com o testemunho dela, que nesse ponto também já não conseguia falar, com a voz embargada pelo choro contido. Nesse sábado, como todos os demais, nós terminamos cantando. E não obstante a tristeza pela ausência de dois dos nossos membros, terminamos cantando forte, com fé e poder.

Não é curioso como louvar a Deus parece combinar apenas com um coração alegre e exultante? Sim, sem dúvida é maravilhoso louvar a Deus assim, mas o louvor é também para quem está fraco, ansioso, derrotado, tentado e triste. Diria mais: o louvor é especialmente para quem está assim! Mas sejamos francos. É claro que na prática louvar a Deus quando as coisas vão mal é como seguir aquele bom hábito de beber muita água logo ao acordar e depois tomar um café da manhã bem generoso: espontaneamente não dá mesmo! Temos que ter uma boa motivação, ou do contrário nosso esforço não terá sentido.

Eu poderia citar uma porção de bons motivos para você louvar a Deus em todas as ocasiões, mesmo nas tristes. Mas a sua motivação tem que partir daí de dentro, de um genuíno desejo de agradecer a Ele, mesmo quando tudo leva a crer que sua derrota é certa. Isso significa: fé, que implica em poder para fazer as coisas mudarem. No caso de Israel em II Crônicas 20, a motivação era um exército inimigo bem a sua frente, em número assombrosamente maior, pronto a massacrá-los, cortá-los em pedacinhos, queimá-los e jogar as cinzas no rio Ganges. Estranhamente, o pequeno exército de Israel guardou suas espadas e pôs a sua frente um grupo de cantores dizendo: “Rendei graças ao Senhor, porque a sua misericórdia dura para sempre.” (II Cron. 20:20). Consegue se imaginar no lugar deles? Se já houve pessoas de fé na Bíblia, essas pessoas cantavam. Repare que, além de caminhar para um destino perigoso e temível, eles ainda tiveram que subir um monte, sem poder ver que, do outro lado, os próprios inimigos matavam-se uns aos outros. Sempre agradecendo, eles caminhavam sem ter noção do que os aguardava. E ao chegarem no alto do monte, não havia mais nenhum inimigo sobrevivente.

O recado é claro: louve ao Senhor com um coração agradecido.. Mesmo que o destino pareça amedrontador, é louvando que você demonstra fé em que Ele está agindo. E Ele está. Mesmo que, na subida do monte, você não consiga ver como Ele está fazendo isso. Há Alguém que vai muito à frente no teu caminho, preparando tudo para que você alcance a vitória. O que você tem que fazer, então, é louvar. E se a vida está em ruínas, se seus sonhos se frustraram, se suas conquistas foram tragadas, louve ainda mais forte, como se sua alma mesmo fosse um canto de louvor. Sua tarefa é continuar caminhando, e cantar com tanta fé que nem sinta seus pés doerem tanto. Os pés dEle doeram mais quando foram pregados na cruz.

Deus está entronizado nos louvores do seu povo (Salmo 22:3). É aí que Ele mora, então se quer encontrá-lo, não há melhor maneira que buscá-lo em adoração. Experimente, ao invés de parar no meio do caminho ou fugir pela tangente, continuar caminhando mesmo em meio ao vale da sombra da morte. Enquanto caminha, tente agradecer a Ele, mesmo que não tenha restado nenhum motivo a não ser a fé de que Ele vai à sua frente. Faça isso e sinta quanto poder é liberado quando você desvia seus olhos do objeto de seu medo, para o Objeto de sua fé. Meu querido amigo, acredite, é quando louvamos que as coisas realmente começam a mudar... e não seguem mais o curso daquilo que julgamos “o mais provável”, mas fluem de acordo com a realidade do amor dEle por nós. Confie um pouco mais! Habite com Ele no louvor. Começo, então, eu mesma, pedindo isso...

Comigo habita, ó Deus, a noite vem!
As trevas descem, eis, Senhor, convém
Que me socorra a Tua proteção!
Oh, vem fazer comigo habitação!

Vem revelar-Te a mim, Jesus, Senhor,
Divino Mestre, Rei, Consolador!
Meu Guia forte, amparo em tentação!
Oh, vem fazer comigo habitação!

Breve, Senhor, terei meu fim mortal;
É tão fugaz a vida terreal!
Tem tudo aqui mudança e corrupção,
Oh, vem fazer comigo habitação!

Se eu estiver nas trevas ou na luz,
Não há perigo, andando com Jesus;
A morte e a tumba não aterrarão!
Oh, vem fazer comigo habitação!

(Comigo Habita [Abide with me], hino 397 do Hinário Adventista do Sétimo Dia)

Uma semana iluminada,
Luciana

sábado, 24 de agosto de 2002

Decifre pessoas (e economize R$ 35)

O fenômeno aconteceu quando uma das estagiárias chegou com um livrinho verde embaixo do braço e o colocou na estante onde guardamos nosso material. Todo mundo que chegava e saía via o livro lá, verdinho, e por algum motivo, irresistivelmente magnético. Na mesma semana, já havia fila de espera para pegar o livro emprestado, todo mundo que o via queria ler. A explicação para tamanha atração estava no título: “Decifrar pessoas”. O livro de Jo-Ellan Dimitrius e Mark Mazzarella é um pequeno manual que ensina a descobrir as características das pessoas através da observação de seu comportamento, tom da voz, aparência (inclusive o corte de cabelo), entre outras “dicas” aprendidas em experiências práticas que a autora vivenciou acompanhando mais de seiscentos processos judiciais nos Estados Unidos.

Eu, que desde sempre me considero uma observadora apaixonada do ser humano, consegui furar a fila e dar uma folheada no livro. Não descobri ali nenhuma fórmula mágica, apenas alguns itens óbvios a serem analisados quando se quer, de fato, conhecer alguém. Se estou interessada em saber quem é Mauro Maurício, é normal que eu repare no modo como ele veste, fala e se comporta. Se ele dá uma gargalhada está alegre, se chora, está triste ou comovido. Se usa sempre terno preto, não acho que ele seja um indivíduo espalhafatoso, se engraxa os sapatos, é cuidadoso, e se sabe combinar bem as camisas com as gravatas e meias, adivinhe? Ele tem uma ótima esposa! Ao contrário do que o título do livro sugere, não há nenhum segredo para decifrar pessoas: trata-se da antiga arte de observar, aliada a um pouco de sensibilidade.

O que me chamou atenção mesmo, não foram as “dicas” da autora, mas a forma como o livro causou um interesse repentino nas pessoas. Parece que todos estão querendo urgentemente entender seu semelhante. Conviver tornou-se um jogo de individualismos, e desconhecemos cada vez menos as pessoas com quem lidamos. Os adolescentes passam um terço da vida se sentindo incompreendidos, e quando crescem é a vez deles não compreenderem. Os homens espalham aos quatro ventos que “ninguém entende as mulheres”, e as mulheres respondem que “quanto mais conhecem os homens, mais admiram os cachorros”. Depois homens e mulheres fazem uma trégua e têm filhos que, quando forem adolescentes, escreverão em seus diários: “ninguém me compreende!”. Tornamo-nos cada vez mais indecifráveis! O resultado disso é a deterioração dos relacionamentos, tão notória em nossos dias.

*Ai que vontade de comer feijão*

Ninguém pode negar que esse é um dos maiores problemas do século XXI: relações superficiais e pouco duradouras. Nos acostumamos a fast food, drive-in, instant mensseger, e também a relacionamentos práticos e rapidinhos (ainda vão inventar um nome em inglês pra isso). Nada muito envolvente (envolvimento dá trabalho), nada muito profundo (profundidade exige diálogo e tempo – que não temos), nada muito grande (para sempre é tempo demais a se investir numa pessoa).

Mas assim como acontece com as comidas congeladas, perdemos muito em sentir o sabor de algo realmente gostoso num relacionamento “enlatado”, tipo agite e use. Pode ser que um dia todos comam gelatinas verdes super-nutritivas e insípidas, como aquelas que os astronautas levam para o espaço. Nesse dia as pessoas poderão até ter aprendido a viver sozinhas e sem Deus. Mas eu, no alto dos meus noventa anos, vou continuar comprando feijão no mercado negro.

Talvez você também já tenha cansado de gelatina verde sem sabor. Quando me pergunto: “Por que estamos assim?”, nunca consigo ouvir como resposta um “porque queremos”. Essa distância entre nós mesmos, essa falta de entendimento entre pais, filhos, cônjuges, colegas de trabalho e torcedores de times rivais, essa incompreensão não parece ser uma opção que nos agrade. Ela é muito mais fruto de nossos medos e inseguranças. O resultado de nossas defesas, e a fantasia tola de achar que não se entregar dói menos que não ser feliz.

Nosso medo de não sermos aceitos é o que nos faz ceder a uma vida frustrante, e até se adaptar a ela como se isso fosse exatamente a coisa certa a fazer. Embora você sinta lá dentro, sobre o travesseiro onde você põe a cabeça todas as noites, uma vontade imensa de comer feijão.

Tornamos nossos relacionamentos mais confortáveis fazendo com que ele não mexam tanto conosco. Não nos incomodem a ponto de transformar o que somos. Homens, mulheres, temos medo. E um deles, é sermos descobertos e não aceitos. De sermos desmascarados e por isso, não mais amados. Relacionar-se plenamente custaria ter que se abrir e mostrar-se por inteiro, deixar-se observar, deixar-se decifrar, e isso nos faz tremer os joelhos. Nossa máscara é bem mais confortável. E um relacionamento superficial, se por um lado não nos satisfaz, por outro lado, não provoca sentimentos e reações que fujam ao nosso controle. Relacionamentos rapidinhos, descartáveis ou bocejantemente superficiais não borram a maquiagem. Nos contentamos em ser aceitos por aquilo que não somos... E suportamos o tédio, porque fugimos da perspectiva de dor. Embora não esqueçamos o gosto do feijão, até mesmo daquele que nunca provamos.

Esse apetite por ser inteiro não é em nada errado, é apenas a confissão da nossa humanidade: Deus nos fez para sermos felizes, plenos, não para sermos seres se escondendo.

*Baile de máscaras*

Esse é enfim o primeiro grande problema que nos fez distantes um do outro: o medo de sermos quem somos realmente. Há pessoas tão especializadas em ser o que os outros querem, que se lhe tirassem os paradigmas de beleza, poder e status, elas perderiam o motivo de viver: não saberiam quem são! Morreriam por acreditar que ninguém as amaria se elas não fossem exatamente como manda o modelo. Mas a tragédia de quem vive assim, é enxergar que nenhum de nós se encaixa perfeitamente em modelo nenhum. Sempre nos deparamos com falhas. E as escondemos. Todos nós.

Agora pense: Como as pessoas podem se entender, se elas não mostram ao outro quem são? Como podemos nos compreender se vivemos fugindo uns dos outros? Como decifrar pessoas num mundo onde as pessoas não se permitem decifrar? A resposta para o primeiro grande problema é lançar fora o medo. Se é tão difícil sermos amados pelo que somos de verdade, uma coisa é certa: essa é a única maneira de ser amado. Se você precisa usar uma máscara para ser aceito, a verdade é que sua máscara é amada e não você. E máscaras, amigo, existem às milhares. Você é único. E atrás dessa maquiagem, talvez esteja desperdiçando uma chance única de ser amado de verdade.

O segundo grande problema da nossa distância universal é que, acostumados que ficamos a esse baile de máscaras, já perdemos há muito o hábito de observar as pessoas. Ora, mas se todas parecem tão iguais! Como num desfile de moda. As pequenas variações de cor da pele e cabelo nas modelos que desfilam, não consegue tirar a impressão de uniformidade que elas formam, como se fossem todas o mesmo ser fabricado em série. Infelizmente essa busca pelo padrão universal não fica só nas passarelas. Já não nos preocupamos em sermos apenas, mas em sermos “daquele jeito”. Se dermos uma olhada ao redor veremos que Deus ama a diversidade, e pôs no mundo criaturas tão diferentes por um só motivo: a beleza também está na diferença, no contraste, na assimetria. Mas agora todo mundo se esforça para ser igual, usando o mesmo padrão global de ser humano perfeito... (ops! Plim, plim).

*Labirintos fascinantes*

Assim fica mais difícil conhecer as pessoas. Elas ficam parecendo uma grande massa de iguais. Mas eu acredito que ainda é possível ver algo especial se nos esforçarmos para ver além. Só temos que recuperar o gosto por observar. Reparar detalhes. Ou no caso dos homens, pelo menos tentar. O melhor modo de decifrar as pessoas ainda é contemplando-as. É incrível como, olhando para nosso semelhante, aprendemos muito sobre nós mesmos. Crescemos sobremaneira saindo do nosso próprio mundinho para ver a beleza particular de cada pessoa. E também seus defeitos, manias, necessidades. Veremos algumas coisas tristes, outras que nos causarão repulsa. Mas sempre haveremos de crescer. Veremos que a verdade não pertence somente ao nosso conjunto de frases feitas. Há um pouco mais de verdade no olhar de cada pessoa que nos cerca. Mas a gente tem que chegar lá, bem perto, para ver.

A resposta para o segundo grande problema é termos coragem para nos aproximar. Observar detidamente, com o mínimo de preconceito possível, e tentar apreender a profundidade, mesmo a não nítida, ou a de difícil acesso. Decifrar pessoas pode ser como entrar num labirinto, em que, à medida que você vai se aproximando do centro, as paredes vão ficando mais estreitas e salientes, com pontas agudas em que você poderá se machucar. Mas se conseguir chegar ao centro, terá uma visão tão bela que te impressionará a ponto de fazer você não querer mais sair dali. O centro do labirinto pode guardar o lugar onde você nasceu para ficar.

Quero crer que haveremos sempre de encontrar algo para observar além da máscara alheia. Algo que nos diz respeito, que vai mexer com nossas vidas (oh, não... não tem outra maneira mesmo!), e vai exigir de nós mesmos, atitudes de ser humano para ser humano, não mais de ser humano para objeto. Reaprendendo a observar pessoas, conseguiremos ser mais humanos, nem que isso parta do encontro de vazio com vazio.

*Descansando o olhar*

Para decifrar pessoas não basta querer saber os segredos de invadir. Tem que se ter consciência que, conhecer é também ser invadido, e que por isso exige muito mais do que a maioria de nós se sente capaz de dar. Mas o fato de eu estar dizendo tudo isso, é porque acredito que ainda somos capazes. Deus nos fez assim! Não nascemos para nada abaixo da plenitude. Se acostumar ao superficial é o que de pior podemos fazer a nós mesmos. Relacionamentos sólidos e profundos demandam grande energia e investimento, mas valem a pena. Fazem-nos conhecer não só as pessoas, mas a sensação ímpar de sermos satisfeitos em todos os níveis do ser, a alegria sublime de amar e sermos completamente amados. Lembra? Sabe o que é isso?

Neste início de semana, pense se já não é hora de rever seu modo de olhar e ser olhado. Peça a Deus o dom de observar, e a coragem de ser exatamente quem é. Pode ser que seus olhos às vezes fiquem cansados, ao ver tantas paisagens tristes, tantos lugares áridos onde a pupila não possa descansar. E ainda pode ser que, sendo quem você é, você perca algumas coisas, até algumas pessoas que não queiram o que há por detrás da sua máscara (não que você não seja especial, é que nem todo mundo aprecia Miró ou Van Gogh). Mas esteja certo que Cristo sempre te olhará com amor leal. E nEle você sempre achará lugar para contemplar e sorrir.

Uma semana iluminada,

Luciana

sábado, 17 de agosto de 2002

Montanhas

Você conhece, é um dos chavões cristãos mais propalados: “a fé remove montanhas”. A base bíblica para essa afirmação está em Marcos 11: 23, onde Jesus afirma: “Em verdade vos digo que qualquer que disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar; e não duvidar em seu coração, mas crer que se fará aquilo que diz, assim lhe será feito.” Descobri um novo sentido para essa crença, e gostaria de partilhar com vocês.

Semana passada minha mãe dirigiu-se até uma clínica para fazer exames de rotina, entre os quais estava incluída uma mamografia. Ela foi sem medo. Aos cinqüenta e um anos, nunca foi constatado nada de irregular. Na sala de espera, ela observava constrangida o desespero de outras mulheres. Uma delas estava voltando para fazer novo exame, porque o médico havia descoberto um nódulo suspeito em seu seio. E isso, para aquela mulher, significava algo de muito errado. Um câncer talvez. Por isso ela chorava e chorava, enquanto outra mulher tentava consolá-la. A última dizia à primeira:

- Tenha calma, as coisas não são tão trágicas assim. Veja o meu exemplo. Há alguns anos eu fiz um exame e os médicos encontraram um enorme nódulo no meu seio. Como era maligno, precisou ser retirado com urgência. Mas eu tive fé, e orei pedindo a Jesus que me curasse. Até aquele momento eu não conhecia o poder de Deus. Era uma mulher rica, bonita, realizada, bem casada, nunca havia precisado da ajuda de Deus. Mas quando precisei, Ele me atendeu, e antes de fazer a cirurgia, os médicos fizeram um novo exame onde constataram o desaparecimento inexplicável do nódulo.

Minha mãe ficou impressionada com o relato da mulher. Solidária a ela, e na intenção de reforçar seu testemunho, disse apenas:

- É, eu também conheço esse Deus vivo que te curou!

Fez o exame e foi embora. Na mesma semana, minha mãe descobriu que o exame acusou não só um, mas vários nódulos nos seus dois seios. Foi chamada para fazer novo exame, mais minucioso, e teve que enfrentar novamente a sala de espera, sem ninguém para consolá-la e com um medo terrível no coração. Na mente, a sua afirmação dita tão convictamente alguns dias atrás, parecia acusar-lhe: “Você realmente conhece esse Deus vivo? Então chegou a sua vez de ter fé.”

É tão fácil declararmos nossa fé quando nada nos atinge. Mas quando chega a hora de sermos provados? Até onde nossa fé sobrepuja o medo, a ansiedade, a dúvida? Minha mãe passou a semana orando. Nunca a vi tão temerosa. Falava sem parar no assunto, e seu semblante ficou visivelmente abatido. Descobri que nessas ocasiões, é até melhor não conversar sobre o assunto com outras mulheres, já que todas têm sempre uma experiência horrível e traumatizante para contar...

Um dia antes de ir ao médico fazer a biópsia, minha mãe apontava para o exame de ressonância magnética e dizia: “Veja só, Luciana. Um dos nódulos é enorme, há outros grandes também. Estou preparada para chegar lá amanhã e ter de ficar internada para uma cirurgia...” O nódulo maior tinha pouco mais de dois centímetros, mas na perspectiva dela aquilo era imenso. Tentávamos tranqüiliza-la dizendo que não era nada demais, que ela não podia antever nenhum diagnóstico. Mas foi Deus quem a fez ir ao exame pensado: “Eu, porém, confiarei no Senhor; esperarei no Deus da minha salvação. O meu Deus me ouvirá.” (Miquéias 7: 7)

Felizmente ao chegar no médico, este descobriu que a situação era mais simples do que ela imaginava. Os nódulos “enormes”, foram retirados rapidamente, através de uma pulsão, um procedimento relativamente simples, que usa apenas uma agulha para “esvaziar” os nódulos. Em seguida ela voltou para casa, e quando fui conversar com ela para saber como tudo havia se passado, ouvi exatamente essas palavras:

- Eu disse que tinha fé. Os nódulos foram minhas “montanhas”. Eu os via enormes, intransponíveis... mas Deus, em Seu amor, as transformou em montículos de barro. E eu aprendi como minha fé pode remover montanhas.

Qual é a sua montanha pessoal? Não importa que homens no passado tenham curado, ressuscitado, feito fogo descer do céu. Quando você se vê diante da sua montanha, é somente a sua fé que pode removê-la. Você realmente acredita nisso? Conhece verdadeiramente o Seu Deus? Ou apensa as histórias que te foram contadas, e pareceram sempre tão distantes? Milagre não é fazer um nódulo desaparecer, um câncer ser curado, um cego tornar a ver ou uma montanha lançar-se ao mar. Isso tudo é muito simples para Deus, muito pequeno. Milagre, é fazer você ver as coisas com o olhar dEle. Sem medo, sem desespero, com a certeza de que todas as coisas contribuem para o bem daquele que O amam. É abrir seus olhos, de modo que, conhecendo realmente por Quem você é amado, seus olhos se abram para uma realidade muito além do cume das montanhas. O milagre que Deus mais anseia realizar, o mais difícil, meu amigo, é fazer você crer. De todo o seu coração, vontade e entendimento. Quando conseguirmos ser curados espiritualmente da nossa pouca fé, nenhuma montanha nos parecerá ameaçadora. Porque Ele nos elevará acima das maiores alturas, para vermos muito mais que os simples temores humanos. “Os teus olhos verão o Rei na sua formosura, e verão a Terra que se estende em amplidão.” Isaías 33: 17

Que nesta nova semana, você receba o maior milagre de todos: saber em quem tem crido. (II Tim. 1:12)

Uma semana iluminada!

Luciana

sábado, 3 de agosto de 2002

O céu por um real

A cena era comovente. Meio-dia, a senhora indiferente, e ela explicando com voz de choro:

- Não, minha senhora, deixe eu ser clara... eu te-nho-que participar desse evento, entendeu?

- Senhorita, o que eu entendi bem é que você não fez a matrícula na semana passada, portanto não-po-de-ma-is participar desse evento. Não há mais vagas. Sinto muito.

- Não, a senhora não tem idéia do que eu sinto. Se eu perder a oportunidade de fazer um desses cursos de música barroca, eu posso ter um colapso nervoso. A senhora gostaria de abrir o jornal e ver que uma garota morreu de colapso nervoso porque não abriram uma vaga para ela? Meus pais poderiam processar a senhora - ameaçou a garota, insopitável.

- Pois bem, que processem - falou a senhora secamente, terminando de organizar uns papéis em cima da mesa.

- Olha - ela respirou fundo - desculpe, eu estou nervosa. Não quis ser grosseira. Sabe, eu amo música barroca. Sou completamente, perdidamente, doidamente apaixonada por música barroca. E aqui em Natal, nunca aconteceu um evento desse porte, especialmente voltado para esse tipo de música, e com professores de alta qualidade. Então, eu não posso ficar de fora se não nunca vou me recuperar desse trauma...

- Senhorita, se você ama tanto música barroca, por que não fez a inscrição semana passada?

- Mas eu já lhe disse! Eu não sabia que as inscrições eram até semana passada. Vi a propaganda, mas não reparei nas letras minúsculas que diziam o prazo de inscrição. Ontem eu vim aqui pensando ser uma das primeiras da fila, mas quando cheguei me informaram dessa catástrofe. Então resolvi vir aqui novamente, suplicar, implorar, pedir de joelhos se for o caso, para a senhora deixar eu participar.

- Não posso.

- Eu não acredito! Minha senhora, tudo bem, eu entenderia se a inscrição fosse de um valor maior, mas é apenas um real!! Um real!! Que diferença faz matricular alguém depois?? É apenas uma vaga a mais, ninguém vai reparar!

- De fato, esse valor é apenas simbólico. Não paga nem o lanche dos professores. Mas foi instituído para que os alunos se sentissem vinculados à responsabilidade de comparecer ao curso. Pagando essa taxa, eles demonstraram interesse real pelas matérias, o que a senhorita não fez.

- Mas... mas...

- Tenho que ir almoçar, com licença.

- Ouça-me, eu pago mais - dizia ela enquanto segurava o braço da senhora, que saía a passos largos em direção à porta - pago cinco reais, pago dez. Pago vinte, a senhora pode ficar com o restante. Espere um pouco!

- Por favor, me solte, se não eu chamo o segurança.

- Eu pago cinqüenta, cem reais... tá bom, eu pago duzentos, meu salário todinho!

A senhora parou, olhou a garota de cima a baixo e não pareceu nem um pouco sensibilizada com a quantia vultosa do suborno. Antes, a fulminou com um olhar que a fez ficar parada, sem reação. Depois continuou andando em direção a seu carro.

A garota começou a chorar. Estava desesperada e fazia questão de demostrar isso. Logo que se deu conta que sua última oportunidade de fazer o curso de música barroca estava indo embora, retomou os movimentos e correu em direção ao carro.

- Minha senhora, eu lhe imploro - ela soluçava - se a senhora não fizer minha matrícula eu vou acampar aqui na frente do Palácio da Cultura, e vou cantar todo o repertório de música barroca e renascentista que eu conheço, até alguém se sensibilizar com minha situação, ou até eu perder a voz!

- Faça um bom aquecimento vocal antes, disse a senhora dando partida no carro.

- Não, não vá embora... por favor...

Mas o carro já ia embora. A garota foi atrás, a princípio tentando segurar o carro, depois andando rápido, depois correndo com os sapatos altos nas mãos, jogando súplicas ao vento. Uma cena deplorável, coisa que ela só se deu conta depois que notou todo mundo da praça a olhando.

De alguma forma, esse episódio me fez pensar de novo em Deus, e no modo como se opera a nossa salvação. Quanto custa ser salvo? O apóstolo Paulo responde: "sendo justificados gratuitamente pela sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus" (Romanos 3: 24); "para o louvor da glória da sua graça, a qual nos deu gratuitamente no Amado" (Efésios 1:6).

A salvação é gratuita, decorre da graça de Deus. Mas há algo que precisamos fazer, e é condição sine qua non para sermos salvos. Consiste em aceitarmos isso. Deixar que a salvação concedida gratuitamente por Cristo faça parte de nossa vida, demonstrar interesse para que ela se opere. Se me permitem a comparação, seria como dar um real a Deus e em troca receber toda as promessas celestiais que Ele tem para nós. Mas um real? É, não se engane se quiserem vender um terreno no Céu mais caro. Deus realmente não precisa de nosso dinheiro, nem do nosso um real (que é quase dinheiro), mas Ele precisa que demonstremos interesse pelo Seu maior presente. Afinal, não adianta Ele querer nos dar um Céu junto com Jesus , se o Céu junto com Jesus não está entre o que mais queremos.

E como demonstramos nosso interesse? Bem, como Deus ainda não abriu uma conta bancária aqui na Terra, Ele instituiu outra "moeda" simbólica: o nosso coração. Dando o nosso coração a Jesus, demonstramos querer muito estar ao Seu lado, e participar das boas-novas que Ele anunciou, das promessas que em breve irão se cumprir. Trata-se de um compromisso que assumimos quanto aos nossos sonhos de cristãos. Esse é o vínculo entre a salvação e o ser humano: o ato de entregar o ser a Cristo, por inteiro, demonstrando nosso interesse em estarmos para sempre com Ele. Não estou dizendo que o seu coração vale um real, nada disso! Mas entregá-lo a Deus pode ser tão fácil quanto desembolsar essa quantia módica, se você o fizer movido por amor. E conhecendo a esse Deus maravilhoso, não há como não amá-lO!

Sim, a salvação é gratuita, é dom de Deus. Mas exige de nossa parte um aceite indispensável, claro e total. Uma entrega tão profunda que seja visível aos olhos de todos os passantes. E creia, o amor que provém de Deus transpira por todos os poros, é notório e contagiante.

Que nesta nova semana você possa entregar-se mais uma vez a Jesus, e renovar com Ele o pacto da salvação. Isso fará sua semana muito mais feliz. Assim como a minha, que começa maravilhosa, especialmente depois que consegui me matricular num dos cursos de música barroca, justamente o de canto, que eu mais queria. Pois é, um dia depois do incidente com a senhora da história ai em cima, os organizadores abriram novos prazos, e eu consegui fazer minha inscrição. Mas é claro, eu tinha que fazer meu drama, hehehe.

Uma semana iluminada,

Luciana

sábado, 27 de julho de 2002

Num lance de fotografia (Os Miseráveis)

Fim-de-semana passado, assisti a um filme que já é meu preferido, apesar de só ter dado para eu repetir a fita cinco vezes. Trata-se de “Os Miseráveis” (Les Misérables), drama baseado no livro homônimo de Victor Hugo, que se tornou um romance clássico da literatura universal. Dirigido por Billy August e tendo no elenco Liam Neeson, Geoffrey Rush, Uma Thurman – e um gatinho chamado Hans Mathison (o Marius) – o filme consegue surpreender e envolver do começo ao fim da história, especialmente a quem não leu o livro ainda, de modo que é, com certeza, o filme mais fantástico que eu já vi (sempre chego a essas conclusões, dez anos depois que todo mundo já viu tudo).

O enredo se desenvolve em torno de Jean Valijean, condenado que passou vinte anos preso e realizando trabalhos forçados, tendo entre seus algozes, o guarda Javert. Durante a liberdade condicional, Valijean foge e recomeça sua vida em outra cidade, com nova identidade, e novos valores. Mas a vida faz com que reencontre Javert, agora como inspetor de polícia, que o reconhece e fica obcecado por desmascará-lo. Valijean consegue fugir de Javert várias vezes, e isso só instiga mais ódio no inspetor – um competente e irrepreensível funcionário, fiel cumpridor da lei.

A cena mais emocionante, no final do filme, mostra Jean Vilajean finalmente nas mãos de Javert. Capturado, sem qualquer escapatória, e preparado para o trágico destino que se lhe aponta, Vilejean está em pé na beira de um rio, com Javert apontando uma singela pistola que mais parece uma bazooca em miniatura bem embaixo do seu queixo, e sentenciando: “você não entende a importância da lei”. Por um momento a gente pensa: “Mas será que Javert não vai ter piedade de Jean Vilejean? Será que ele não vai ao menos deixar o coitado viver, nem que seja na prisão?” Então Javert diz com voz fria:

- Vou poupá-lo de uma vida na prisão, Jean Vilejean. É uma pena que as leis não me permitam ter piedade – e com a arma, fasta a cabeça de Jean em sua direção.

Nesse preciso momento, o foco da câmera lança mão de um recurso de fotografia fantástico. A cena é cortada, e em seguida focalizada novamente do alto de um canto esquerdo qualquer, mostrando os dois homens à distância, de costas, Javert com a arma apontada para o pescoço de Jean, olhando-o fixamente. Fundo musical de suspense. É por causa desse lance fotográfico – a cena mostrada de longe – que a gente, sem raciocinar, conclui imediatamente: “Pronto, o cara vai morrer. Atira logo, sô! Eu quero respirar!”. É como se a câmera se afastasse para não mostrar de perto os miolos de Jean voando e o corpo tombando sem cabeça no rio. Para não respingar sangue na lente. Reação análoga a que a gente tem diante de algo repugnante: desviamos o olhar para não ver a desgraça detalhadamente.

Mas essa reação não acontece somente ao observarmos uma cena da qual estamos alheios. Às vezes, assim que a gente se dá conta que errou, pensa logo que em seguida virá o pior. Fomos ensinados que o pecado é a transgressão da Lei, e que o salário do pecado é a morte. Você pecou, e quando todos foram embora, quando só resta você, Deus e seu travesseiro, a verdade lhe aparece como uma arma apontada para a sua cabeça. Você errou, deve pagar. A câmera de sua mente se afasta dessa cena constrangedora, como se você tivesse que fugir, como se não pudesse encarar que está prestes a ser sacrificado diante da presença do Deus Justiceiro. E prefere não ver o que sente no fundo do seu coração: que Ele está com a arma apontada para você. Ele é o Todo-Poderoso que você acabou de insultar, pode haver escapatória? Ele é o Dono da Lei que você passou a vida inteira quebrando e quebrando seguidamente. Ele é o Inspetor de quem você tentou fugir por todas as formas, e agora que você O sente do teu lado, agora que você está preso nas mãos dEle, o melhor é dirigir o olhar pra longe, pra um lugar qualquer onde você não possa ver detalhadamente o modo como Ele vai te punir pela tua lista quilométrica de pecados.

Você até que conseguiu passar um bom tempo de sua vida provando para todo mundo que poderia ser feliz, muito feliz, fingindo que não fez nada errado. Por vezes quase se convenceu que quem errou foram as pessoas, foram as circunstâncias, foi a tua igreja. Você foi uma vítima do meio. Então partiu para um lugar onde ninguém sabia do que você fez - ou não dava a mínima para isso – e recomeçou. Conseguiu pensar que agora tudo estava bem, mas... Ele é terrível. E acabou te pegando outra vez. Só Ele sabe de todo o teu passado, das coisas escondidas, das tuas mentiras e hipocrisias. Só ele enxerga além das tuas frágeis máscaras. É... parece que só resta desviar o olhar e torcer para não doer muito.

Mas não deixe que esse recurso de fotografia pegue você. Raciocine antes de concluir qualquer coisa. Sabe aquele versículo que fala sobre o preço do pecado, que há pouco te assaltou a memória tão vivamente? Se permita lembrar o versículo todo: “porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus nosso Senhor.” (Romanos 6:23) Lembrou? Há pessoas que passam a vida sem lembrar desse grande detalhe. Tecem todos os planos de fuga, e quando encontram Deus face-a-face (é, Ele não vai largar do teu pé tão fácil ), assinam a própria condenação simplesmente porque desviam seu olhar para longe da cena. Jamais se perdoam, precisam de paliativos para aliviar suas consciências, ou de remédios para entorpecê-las. Estão certas que para elas não há mais solução, nem há solução para este mundo, tudo está condenado a sofrer uma por uma as conseqüências do pecado.Com os olhos sempre voltados para um literal ponto de fuga no horizonte, desviam-se até o último momento de um encontro definitivo com Deus.

Mas perceba. Se você desviar seus olhos para os lados, nunca vai conseguir ver o perdão amoroso que emana dos olhos dEle. Se você desviar os olhos para cima, vai estar vendo o lugar aonde Ele quer te levar, porque teu lugar é no alto, junto do Altíssimo, e não nesse mundinho incompleto que você criou para sobreviver longe dEle, onde nenhuma alegria dura mais que a sua dor. Se desviar seus olhos para o chão, vai ver sangue ali – mas não se espante, não é o seu! É o sangue dEle, ainda escorrendo de Suas mãos que foram pregadas na cruz junto com todos os teus pecados.

Ninguém tem que carregar o preço daquilo que Ele já pagou com a vida. Você pode até ouvir algumas pessoas dizendo que, por causa do teu erro, você vai ter que amargar uma vida inteira de conseqüências desastrosas. Mas o meu Deus, é aquele que não tem prazer na dor de Seus filhos, e mesmo quando eles erram, Ele dá um jeitinho de fazer com que não paguem por todos os erros. Ora, quem conseguiria efetuar tal pagamento? Que seria de nós se Deus não amenizasse as conseqüências de nossas más decisões, e planejasse os mais variados atalhos para voltarmos seguros para o nosso lugar? Se as coisas estão ruins, acredite, elas vão ficar melhores daqui a pouco. Se as coisas parecem estar indo muito bem, ufa! Isso só prova que Ele já encontrou um jeito de te manter resguardado, até você voltar. Então, volte logo, porque nenhum lugar longe dEle é seguro para sempre.

Mas antes de tudo, lance um olhar sincero, próximo, direto para os Olhos de Jesus. Você vai descobrir ali, que a graça dEle é maior que a Lei, maior que a acusação que você lança sobre si mesmo, maior que o julgamento que os outros fazem dos teus erros, e bem maior que a força do pecado. “Porque o amor é forte como a morte”, e a morte já aconteceu lá no Calvário para que você tivesse vida. Não apenas uma vida de fugas e alegrias fugazes. Falo de vida em abundância. De paz, não como o mundo a dá (João 14:27).

Uma semana iluminada,

Luciana

Ps.: E quanto a Jean Valijean, o que aconteceu? Ora, claro que eu não vou dizer, assista o filme!!

sábado, 20 de julho de 2002

Para Mônica

Olá amiga.

Escrevo a você, porque o Direito é essa Ilha da Fantasia, e você sabe. Escrevo-te também porque mesmo não tendo assistindo a defesa da sua tese de mestrado, sei que você se saiu muitíssimo bem. Talvez por isso, sempre que alguém se refere a Direito Penal eu lembro de você. Talvez também por isso eu tenha lembrado de você naquela noite.
Era por volta das vinte e duas horas. Eu e um amigo estávamos no ônibus, osolhos ardendo um pouco de sono, as línguas pesadas impedindo qualquer diálogo. O dia tinha consumido todas as nossas energias, agora queríamos simplesmente chegar em nossas casas. No interior do ônibus, as mesmas caras de sempre: alguns estudantes que acabaram de sair da aula, um casal estranho sentado à nossa frente, conversando sobre a economia no mundo globalizado, um rapaz ao lado, de camisa xadrez. As coisas só ficaram esquisitas quando o ônibus descreveu uma curva para entrar no bairro das Rocas, um dos maispobres da cidade, mas que está no itinerário de quase todos os coletivos daqui.
Uma barreira policial apareceu, e nossos olhos os vasculhavam, querendo saber do que se tratava. A princípio pensei ser só mais uma blitz da polícia rodoviária ou coisa assim. Mas pouco depois do ônibus parar, uma policial militar, muito distinta e educadamente, entrou no ônibus, olhou-nos fixamente por alguns segundos e começou a falar num tom cordial e firme:- Boa noite, senhoras e senhores. Nós estamos realizando um procedimento de rotina para a melhor segurança dos cidadãos.
"Segurança? Campanha educativa a essa hora?", eu pensei. "Rotina? Isso nuncaaconteceu aqui antes!", pensou meu amigo.
- Por isso queremos pedir que as senhoras abram suas bolsas e os senhores ponham-se de pé para uma revista que será feita pelos policiais.
Enquanto falava, vários homens armados entraram no ônibus pela porta de trás e passaram a revistar os cavalheiros que, automática e abobalhadamente, se punham de pé, e a olhar com o máximo de discrição as bolsas escancaradas das damas boquiabertas.
- Obrigada, tenham uma boa noite.
O homem de camisa xadrez demorou um pouco para tornar a sentar. Um coro de estudantes excitados com a novidade respondeu: "Boa noite!", e eufóricos, deram tchauzinhos para os policiais enquanto o ônibus continuava seu caminho.
Meus olhos ainda ardiam de sono, mas minha língua, de repente, começou a tagarelar. Meu amigo fazia força para compreender aqueles termos técnicos de Direito ditos entre o barulho alto do motor do ônibus e das risadinhas dos estudantes espevitados. Eu falava, ao mesmo tempo em que recordava, todas aquelas coisas que nós duas aprendemos nos bancos da faculdade. Você sabe, a tal presunção de inocência. Sei que isso tem uma dezena de desdobramentos, mas eu queria me deter no mais elementar.
Disseram-nos que esse princípio estava garantido pela Constituição Federal, nossa Lei Magna, que governa todas as demais leis no país. Explicaram que se tratava de um direito que todo cidadão tem, o jus libertatis, que apesar do latim, a gente logo desconfiou ser o velho direito à liberdade. Disseram que por esse princípio, ninguém pode ser acusado de crime algum, a não ser por uma sentença definitiva, decorrente de um julgamento justo. Você deve lembrar melhor que eu. Falaram que o Direito existe para dar ao homemgarantias, nesse caso, a garantia de que ele não será privado da sua liberdade nem da sua prerrogativa de bom cidadão, cumpridor de seus deveres, só porque alguém não foi com a cara dele. E a gente saiu da aula acreditando que o Estado jamais ousaria violar a Lei Maior, e nos punir por algo que não fizemos. Que nossa inocência estava garantida, e quem a questionasse teria que provar isso em juízo. Que mesmo que fôssemos acusadas de um crime e as evidências não estivessem ao nosso favor, receberíamos durante o processocriminal, um tratamento digno, tratamento de um cidadão respeitável e honesto. Que se durante esse processo houvesse alguma dúvida, o juiz decidiria em nosso favor: "in dubio pro reo", falou o professor sempre ávido de latim. Arremataram citando a Declaração Universal dos Direitos Humanos e o Pacto de São José da Costa Rica. Enfim, minha amiga, saímos da aula deslumbradas com nosso Estado de Direito, que defende os seus com justiça e equidade.
Mas ao pegarmos o ônibus a fim de irmos para casa, lá estava o adesivo amarelinho dizendo: "Sorria! Você está sendo filmado". E quando quisemos entrar no banco, tivemos que depositar nossas chaves e celulares naquela caixinha de acrílico. Uma ou outra vez esquecemos uma sombrinha dentro da bolsa e passamos por aquele constrangimento de ficarmos presas na porta travada, com todos os olhares em nossa direção insinuando algo que preferimos ignorar. Quando fomos gastar nosso primeiro salário, comprando aquele móvel em prestações, pediram documentos que a gente nem sabia que existia, comprovante de renda e carteirinha de vacinação. Ligaram para nossos amigos para saber se éramos confiáveis, perguntando até se faltávamos às aulas de educação física no colégio. Ouvimos histórias engraçadas de amigos que tiveram as roupas íntimas expostas em alfândegas, e nenhum deles ousou mencionar o Pacto de São José da Costa Rica. No estágio obrigatório do nosso curso, ouvimos histórias bem mais horripilantes de cidadãos, que deveriam estar protegidos pela Lei Magna, mas encontravam-se presos em cadeias públicas e delegacias, sofrendo todo tipo de violência física, mental e moral, apesar de não terem sido ainda condenados, ou de já terem pagado a pena que lhes cabia.
Bem, até aí já desconfiávamos de que alguma coisa estava errada, e talvez não tivessem avisado nada aos nossos professores. Na verdade nos acostumamos a conviver na sociedade sendo tratadas como criminosas, por adesivos amarelinhos, portas de bancos, e o pessoal das alfândegas e financeiras. Dissemos a nós mesmas que era o preço por nossa segurança. Lamentamos a situação dos milhares de presos em situação irregular. Mas minha amiga, precisei passar pela experiência naquela blitz policial, para ter noção de quão utópicas são nossas teorias sobre presunção de inocência, garantias, direitos do cidadão, liberdade e - uma coisa de que não falaram no curso – respeito.
Por mais bela que seja a Constituição, somos considerados todos criminosos até que provemos o contrário. E contra isso, nada pode o nosso Direito, pouco vale a nossa Justiça. Não importa se nos acusam ou não de um delito específico, reina a desconfiança universal de que somos infratores. E se não o somos, temos o potencial de o ser, é o que dizem os desivos nas lojas e provadores: "nossa mercadoria está protegida eletronicamente contra qualquer tentativa de você nos roubar, é você mesmo aí com essa cara de inocente, seufingido. Pensa que eu não sei que você matou aquela aula na terceira série? Pensa que eu não vi você cortando aquele sinal vermelho? E aquela grana que pegou emprestado do teu amigo, seu inadimplente, pensa que eu não sei?". Não adianta muito achar seu crime pequeno: "quem mente, rouba, e quem rouba, mata", diz o ditado popular.
Sabe, amiga Mônica, é por isso que me conforta tanto a Pessoa da Justiça em Jesus Cristo, em detrimento do nosso mesquinho senso de justiça. Somente no sangue de Cordeiro de Deus há a verdadeira presunção de inocência amparando a cada um de nós. Contra o poder redentor desse sangue não subsiste nenhuma acusação. Por mais que, nesse caso, tenhamos verdadeiramente cometido o delito, e o Inimigo aponte com fúria para nossos pecados, Jesus nos concede a graça de alvejarmos nossas vestes em Seu sangue, e assim sermoscompletamente justificados. Porque ele nos amou enquanto ainda éramos culpados. No momento em que aceitamos o sacrifício da cruz e o poder da tumba vazia em nossas vidas, nossos pecados são apagados e somos considerados inocentes perante o Universo. Ele já carregou os sofrimentos e culpas que nos pertenciam. Fomos reconciliados com o Pai, que agora ao olhar para nós, não enxerga mais nossas transgressões, mas vê os traços do SeuFilho Jesus em nossos rostos. "Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu, ou, antes, ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós... Agora, pois, já não há nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus." (Romanos 8: 33, 34, 1)
Quanto ao mais, Cristo já deixou todos os sinais de que estamos seguros em Seu amor, que somos cidadãos do Céu, e a ninguém debaixo deste Céu, foi dada autoridade para acusar os filhos de Deus, desrespeitá-los, nem tratá-los abaixo do padrão principesco com o qual merecem ser tratados. Nem anjos, nem poderes, nem eu mesma ou qualquer outra criatura podem escapar a essa norma que Deus pôs sobre o meu e o teu viver. Quem o fizer prestará contas a Deus, por violar a Lei Magna que nos rege: a Lei do Amor Infinito dEle pelo serhumano.Pelo princípio da presunção da inocência - o verdadeiro - Cristo nos concede o direito à liberdade, e o dever de amar. Livres e felizes, você sabe: exatamente a condição para que fomos criados.

Uma semana iluminada,

Luciana

sábado, 13 de julho de 2002

Amor-perfeito

Domingo

Tem que ser um pouco romântico e muito doido para concordar comigo. Mas ele concordou. Estávamos caminhando aqui perto de casa, quando ele viu uma roseira e cismou de arrancar uma rosa para mim. Protestei que não era correto, arrancar a pobrezinha só porque ela era bonita, não senhor, que mania má essa de se apossar de tudo que é bonito: rosa, peixe, passarinho, pele de urso. Viva e deixe viver!
Ele não engoliu muito meu discurso de militante do Greenpeace, mas concordou.
Mais tarde, lá vem ele de novo. Já que não podia arrancar uma flor e me dar, plantaríamos uma. Era até mais econômico: toda vez que eu olhasse para ela, lembraria do nosso amor. Achei tão bonitinha a idéia, que topei. Fomos comprar as sementes. Crisântemos, margaridas, cravos vermelhos... mas o que melhor nos representaria?
“Amor-perfeito”, decidimos.

Segunda-feira

De repente me dei conta que nunca plantei nada antes. Fui até o mercado comprar alguns acessórios: adubo, fertilizante, pazinha de jardinagem. O mais difícil – que tempos esses! – foi encontrar a terra. Ninguém mais tem quintal nem jardim, tive que traficar a terra de um vaso da repartição onde trabalho. Não foi muito confortável fazer isso.
Enquanto remexia a terra, encontrei uma minhoca. Bichinho simpático. Batizei-a de Clotilde.
Depois que plantei as sementes, percebi que não tinha lido as instruções no verso do envelope em que elas vieram. Mas o que pode haver de tão difícil em plantar uma florzinha? Minha mãe falou que quando eu fosse regar não encharcasse a terra. Eu estou usando um borrifador de água, desses de cabeleireiro. Deve servir. Já começo a achar que a idéia dele não foi tão bonitinha: isso dá mais trabalho que eu imaginei!

Sábado

Hoje aconteceu uma coisa horrível.
Eu estava desconfiada que tinha alguma coisa dando errado. Já faz quase uma semana que plantei as sementes e até agora não nasceu nada! Resolvi mexer um pouco mais a terra, e descobri que embaixo da superfície ela estava completamente seca. O borrifador não a encharcava, mas também não regava como devia!
O pior de tudo foi encontrar Clotilde, coitada, morta e esturricada.
Amanhã vou comprar um regador.

Terça-feira.

Que alegria! Nasceu o primeiro brotinho! É lindo, verdinho, tem uma folha alongada que prenuncia uma planta maravilhosa. Nasceram também duas ervas daninhas. Feias, uma haste fininha e descorada, e duas folhinhas insignificantes. Arranquei-as na hora.

Sexta-feira

Estou preocupada. O brotinho continua crescendo com a mesma beleza e viço, mas têm nascido muitas ervas daninhas! Todo dia nascem uma ou duas, mas eu arranco a todas, não deixo nenhuma. Vou pôr mais fertilizante para ver se nascem mais brotinhos.

Um mês depois

Preocupado com o fato de não ter nascido ainda nenhuma flor, ele foi até uma floricultura e comprou um arranjo de amores-perfeitos para eu comparar com o nosso. Foi quando constatei o fato lamentável! Arranquei todos os brotos de amor-perfeito e deixei que crescesse a erva daninha!
Fiquei tão arrasada que escrevi este “Pequeno Manual Para Fazer Nascer o Amor-Perfeito”. É literatura essencial para jardineiros de primeira viagem, casais em qualquer estágio de relacionamento, e cristãos interessados em praticar os ensinos de Jesus.

1. Leias as instruções – É preciso bem mais que alguns acessórios para fazer florescer um amor-perfeito. Você tem que aprender de quem já sabe tudo sobre ele, não pode confiar só na sua intuição. E o melhor manual que já inventaram chama-se Bíblia, mais especificamente um capítulo só sobre o amor-perfeito: I Coríntios 13. Consulte-o sempre!

2. Alimente profundamente – Preste muita atenção na terra, no substrato onde você quer que cresça o seu amor-perfeito. É firme o bastante para que as raízes estejam seguras e ao mesmo tempo arejado o suficiente para que elas se nutram devidamente? Recorrendo ao nosso manual, encontramos a experiência importantíssima de quem já aprendeu a semear: a terra tem que estar livre de pássaros importunos que comem as sementes (empenho em estudar a Palavra, entendê-la e praticá-la para que o Maligno não a leve de nós), não pode ser solo rochoso (persistência, ânimo e fé para resistir às angústias), e nem pode ter espinhos que as sufoquem (as fascinações dos outros amores deste mundo impedem que o amor-perfeito floresça) (Mateus 13: 1 – 8; 19 - 23). Tem que ser terra boa! E lembre que abaixo da superfície também existe terra sedenta. Deixe que a água da vida, Jesus Cristo (João 4:14), atinja profundamente o coração. Para quê ficarmos só na superfície, borrifando nosso cristianismo com gotas de religião, quando temos a fonte do amor de Deus à nossa disposição? Vamos a essa fonte todos os dias, alimentar nossas sementes, ou elas não terão como nascer na terra seca, debaixo de uma religião superficial. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

3. Não passe por cima de ninguém – Não saia por aí matando Clotildes. Existem outros seres vivos ao redor do seu amor-perfeito. Preste atenção neles, respeite-os, e aos seus sentimentos: ele podem ajudar muito se você souber amá-los também. Em nosso relacionamento a dois, seja com o próximo, seja com Deus, há sempre espaço para amar outras pessoas e nos alimentarmos desse amor. O amor-perfeito nunca nascerá onde houver egoísmo, individualismo, egocentrismo. Ele florescerá sem ter que fazer mal aos outros. Crescerá sem machucar ninguém.

4. Cuidado com o julgamento precipitado – Não elimine uma chance de nascer o amor-perfeito. Pode ser que aos seus olhos ele pareça feio, sem graça, insignificante no início. E você se pergunte: “mas o que isto tem a me oferecer?”. Cautela! O amor-perfeito quase sempre leva muito tempo para crescer, para mostrar sua beleza completa. Se você decidir arrancar tudo que não lhe seja aprazível aos sentidos, pode ser que acabe deixando crescer só ervas daninhas! E sua terra não foi feita para qualquer coisa não. Você vai gastar tempo e desperdiçar alimento com ervas daninhas? Paixões mundanas, aventuras pecaminosas, prazeres fáceis, crescem rápido e parecem tão lindos, mas depois que criam raiz, não deixam espaço para o amor-perfeito nascer. E só mais tarde você reconhece, tristinho, tristinho, que pouco valor eles têm...

Uma semana feliz e iluminada,

Luciana

quarta-feira, 10 de julho de 2002

Saudade!

Hoje, enquanto o ócio me conduzia àquele navegar impreciso pela internet, encontrei o site do Milton. Embora seja um site pessoal, ele fez uma seleção bem interessante e diversificada de temas, com boas atualizações (infelizmente o site saiu do ar).

Uma das sessões interessantes, é seu blog. Ora, quem pode resistir a uma olhadela num diário, mesmo que virtual? Entre curiosas fórmulas químicas e listas de verbos em inglês, encontrei uma pequena mensagem direcionada a sua esposa, Cristiane. Linhas do mais depurado amor. Enxerto aqui um trechinho que mais me chamou atenção:

“Chego em casa, são 23 horas, venho da escola. Ao abrir a porta, minha esposa (Cris...) fala lá do quarto: "Saudade!".
O que é saudade? Com sete anos de casamento, mais quatro e meio de namoro, são onze anos e meio. Dos sete anos de casamento, aproximadamente cinco trabalhamos juntos, ou seja, ficamos juntos 24 horas por dia. Neste dia, 29 de abril de 2002, havíamos feito compras às 18:00 h. Havíamos ficado apenas 5 horas separados, chego em casa e ouço: "saudade!".
Já deitado, o sono me fugiu, e comecei a pensar que a saudade não é caracterizada apenas por "tempo e espaço", há um sentimento envolvido. Vontade de estar perto, de compartilhar, de dividir e de somar. Quando a ouvi, tive um senso de valor próprio: "sou amado!", "alguém pensa em mim, sempre!". E esse sentimento expresso em uma só palavra, num momento "meio-dormindo", sem razão considerável ou discutível, demonstra o verdadeiro amor! Sincero, sem intenções paralelas.
Saudade! Uma só palavra, mas que disse tudo. Disse que os 7 anos de convivência até aqui, são apenas um ensaio dos longos anos que passaremos juntos, felizes!
Euamoestamulher, muitíssimo!!”

Sorrio pensando: olha a preocupação do Milton em plena madrugada de segunda-feira. Enquanto todos os debates na TV profetizam uma “crise dos sete anos” para os casais, ele os comemora como se acabasse de descrever seu primeiro encontro. Enquanto alguns psicólogos sugerem soluções vazias para a tal crise, como os casais conviverem menos tempo juntos, morarem em casas separadas, ou se verem só à noite para não enjoarem da cara um do outro, ele nos conta de uma saudade grande e sincera que nasceu em apenas cinco horas de distância. E qual a resposta pra isso Milton? Você formulou a sua, falou de um sentimento. Acho que a resposta está nas reticências carinhosas que você colocou lá na primeira linha, depois do nome da Cris. Está também na sua última frase, escrita toda junta, sem espaço para respirar, esbaforido de felicidade. A resposta está no próprio amor, Milton!

Pois é, o amor, ele de novo. Que crise que nada, “fundamental é mesmo o amor”, o vínculo da perfeição (Col. 3:14). O problema é que as pessoas estão desaprendendo que tal vínculo existe para tornar o que era parte, um único todo. O amor une; nada mais simples.

A gente pode sentir falta de um monte de coisas fora de nós mesmos: lugares, pessoas, comidas, presidentes ou carnavais. Mas saudade, saudade assim como a da Cris, só sente quem ama a ponto de ser um. Ela não sente falta de um acessório ou anexo, mas de parte dela mesma, o Milton, que com ela é um único ser. A ausência dele não é menos percebida do que a que ela sentiria de um membro do próprio corpo.

Não é só romantismo da minha parte. Todos os dias, pessoas menos românticas percebem isso. O ruim, é que geralmente só notam a importância da pessoa amada quando ela não está mais lá. Não é sempre assim? Quantas vezes hoje você prestou atenção no seu nariz? Ele é um membro do seu corpo. Importantíssimo. Mas você nem percebe, a menos que o perca...

Ah, mas a gente sempre acha que as pessoas vão estar lá, com uma espécie de amor autótrofo, que se alimenta só de si mesmo. Já é tão difícil carregar os nossos próprios problemas, que preferimos adiar a saudade e pensar: “é claro que os verei outra vez.” Há quem vá mais longe, e pense simplesmente “ora, eu não preciso deles”. Mas experimente viver sem o seu nariz. Imagine-se com uma grande bochecha adicional no lugar de suas narinas. A princípio seria bem difícil conseguir respirar assim, mas com um esforço muito, muito grande, talvez você consiga se adaptar. Depois de se submeter a um período incômodo em que você descobre que a boca não serve para respirar o tempo todo, depois de desenvolver técnicas complexas, sempre acreditando piamente na desnecessidade do nariz, você conseguirá respirar pelas orelhas. Que tal? Impressionante, não? Só tem um detalhe: você terá se descaracterizado como ser humano completo, não refletirá mais a imagem de Deus. Será o homo bochechus.

Bem, a metáfora é ruim, mas acho que você entendeu o recado. Sem que haja amor nos vinculando à perfeição, tudo volta a ser parte, a ser só, daquela solidão que Adão suplicou a Deus escapar. A distância – emocional e espiritual – quebra o vínculo. Mas quando amamos, estamos irremediavelmente unidos, não dá para viver sem, para encarar a ausência como algo aceitável, natural. Por isso a definição do Chico Buarque: “Saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu.” Mesmo a morte, a pior forma de separação, que temos de engolir, não é algo natural e aceitável, tanto que Jesus sacrificou a si mesmo a fim de termos vida em abundância, de readquirirmos o direito de nunca mais nos separarmos uns dos outros. Estar longe de quem se ama é tão natural quanto ter uma bochecha no lugar do nariz, baby. A diferença é que seu nariz não vai ficar cada vez mais fora do seu alcance se você esquecer de demonstrar que o ama (na dúvida, nada impede de fazer isso por ele agora mesmo. Só dê uma olhadinha em volta se for tentar beijá-lo, para não chamar muita atenção...)

Para estar junto assim, nem é preciso ser gêmeo siamês. Há como se estar junto, mesmo que não se veja a pessoa amada há cinqüenta anos. Como? Sentindo saudade. Mas saudade mesmo, não aquele sentimento covarde que se esquiva da própria necessidade de amar. Falo de uma saudade recheada de esperança, vontade doida de estar junto e sempre que possível, comunicação, troca, união. Na vida cristã, chamamos essa saudade de fé. É ela quem nos faz esperar, há dois mil anos pelo Amado, e nos move a buscar todas as formas de nos comunicarmos com Ele enquanto o dia da Vinda não chega... Essa fé-saudade é a base de toda nossa esperança como cristãos. Você sente saudade de Jesus?

Há pessoas que pedem: “Dá-me mais fé!”, mas isso é tão estranho quanto pedir a alguém que se ama, para sentir ais saudade. A fé, como a saudade, aumenta conforme o grau de intimidade entre as pessoas. Mais fé é resultado de um relacionamento mais chegado com Deus.

Na definição do Milton, saudade é essa vontade de estar perto, de compartilhar, é uma faceta do próprio amor. É o amor esperando, mas ainda vivo, ativo e presente acima de qualquer ausência. Não deixemos que as pessoas que amamos adivinhem o quanto elas são importantes para nós, o quanto nós as amamos com todasasletrasjuntas e bem audíveis.

Há quanto tempo você não expressa sua saudade, e não faz um carinho nas pessoas que você quer que estejam ao teu lado para sempre? Custa parecer um pouco bobo para ser um bocado feliz? Ainda que custe, eu garanto, vale a pena. Vai lá, e se não for compensador você acerta comigo depois. Mantenha o vínculo da perfeição, sinta e expresse sua saudade. E aqui também entra o Teu Deus. Que tal começar a semana dizendo o quanto você O ama e não vê a hora de O abraçar?

Luciana Dantas Teixeira
(escrito em 03/05/2002)

domingo, 7 de julho de 2002

A Ressurreição segundo Mahler

Quando a ouvi pela primeira vez, estava em São Paulo, escutando a FM Cultura no banco de trás do carro de um grande amigo meu. Acostumada que era em ouvir apenas obras barrocas e clássicas, curtinhas e sem predomínio de expressões emotivas, não tive estrutura para aguentar o peso daquela música me invadindo. No fim do primeiro movimento eu já estava profundamente emocionada com a sua força. Mais tarde, quando a ouvi por inteiro, minha paixão tornou-se completa. 

Uma das mais belas sinfonias de Gustav Mahler é, sem dúvida, a Segunda, denominada "Ressureição". Mahler, músico dado a composições grandiosas, conseguiu dar a essa sinfonia um tamanho descomunal, tanto em se tratando da mensagem como da execução da música. Para ter noção dessa grandeza, junte aí um conjunto enorme de instrumentos de cordas, com mais 70 instrumentos diversos, alguns deles fora do palco, incluindo dois sinos, e um coro de vozes imenso – a ideia era essa!

Os três primeiros movimentos da Segunda Sinfonia são todos instrumentais, e de acordo com indicação do próprio Mahler, o primeiro deles lança uma pergunta: "Com que finalidade viveu você?", a qual será respondida somente ao fim. A dúvida alterna momentos de uma atmosfera dramática, tensa, com passagens singelas e suaves. Quem já não meditou sobre esse tema alguma vez? 

"Por que amamos se vamos morrer? 
Por que morrer se amamos? 
Por que falta sentido 
No sentido de viver, amar, morrer?" 

 Já perguntava Drummond. 

No penúltimo movimento, aparece uma voz doce, um solo de contralto, cantando a "Luz primordial", onde o tema da dúvida se desenvolve. Mahler deixa entrever um ser humano em conflito, que vem de uma vida de sofrimentos e necessidades, querendo se manter no caminho de Deus, mas sendo constantemente tentado a se desviar dele. Seria tão melhor estar no Céu, ao invés de viver as amarguras da vida terrena... é tão cansativo travar essa luta constante, contra a carne, a injustiça e os anjos maus. Sua convicção, porém, não vacila, e repete contrito: "Eu sou de Deus e para Deus devo retornar.” 

Essa é a primeira faceta de uma ressurreição, que por vezes passa despercebida: a morte do velho homem, e a ressurreição de uma nova criatura em Cristo Jesus . Estar longe do caminho que conduz a Deus, é estar de certo modo, morto, posto que perece qualquer esperança para além desta vida fugaz. Quando nascemos de novo, já não nos conformamos em viver aqui só para comer, beber, apaixonar-se e morrer. É para isso que vivemos nesta terra? Somente lutas e sofrimentos salpicados por pequenos momentos de alegria, apenas ilusões, perdas e pálidas esperanças? Depois de satisfazer esta carne, o que nos resta? 

 Não, descobrimos um sentido maior, mais elevado, para o qual caminhamos, ainda que em luta constante contra nossa natureza, que teima em se apegar às coisas vãs desta vida. A pergunta permanece suspensa: Qual a razão de estarmos aqui? O solo de contralto termina com uma única certeza: Deus iluminará o caminho daqueles que decidirem segui-lO. 

Então começa o último movimento, o mais longo de uma sinfonia até então. Aqui, Mahler explora a força de todos os elementos musicais para expressar as passagens bíblicas que vão da volta de Jesus à ressurreição dos salvos. Quem já leu os últimos capítulos do "Grande Conflito"[1], ou já deu ao menos uma espiada no Apocalipse, pode imaginar o que Mahler conseguiu – e como conseguiu! – traduzir musicalmente. Nenhum filme de Hollywood conseguiria passar uma ideia tão real do juízo final como Mahler o faz através desse movimento. E de sobra, ele coloca aquele coral imenso para nos falar de uma das mais poéticas visões da Ressurreição, através dos versos de Friedich Klopstock. 

 Os versos são teologicamente perfeitos. A ressurreição dos justos é representada como está em Apocalipse 14:14-16; a ceifa, onde aqueles que morreram justificados em Cristo, ressurgirão, assim como a semente que morre, depois de um curto sono, torna à vida no mesmo lugar em que foi semeada, agora em aparência de glória. 

 E o homem angustiado, chega ao fim de suas dúvidas: “Você não nasceu em vão. Você não viveu e sofreu em vão.” A Ressurreição é a resposta a todos os sofrimentos que foram suportados e vencidos. “Oh, sofrimento todo-poderoso, agora eu escapei de você, Oh, morte sempre vitoriosa, agora você foi vencida!”. 

Aquele que deixou morrer o velho homem e confiou na “Luz primordial”, vencerá o mundo e a própria morte. De repente tudo parece claro, como a própria luz que emana do trono de Deus. Todas as renúncias que foram feitas, todas as dolorosas decisões em favor do bem, todos os pecados a que se resistiu mesmo que atormentassem a carne, toda fidelidade guardada a Deus a despeito de nossa dor, agora parecem tão pouco. O crente repete a si mesmo em júbilo: “Acredite, meu coração, acredite! Você não perdeu nada! Você receberá tudo que amou e desejou”. 

Não é lindo isso? Os que amaram os pecados e desejaram só as coisas deste mundo, terão aqui seus prazeres, e também seu fim. Mas os que passaram suas vidas amando e desejando estar junto de Jesus, receberão no final a recompensa suprema: o próprio Cristo. “Com as asas que eu ganhei, no ardor do amor, eu voarei para a luz que nenhum olho jamais viu.” E, por fim, o próprio Mahler conclui: “A dor que você levou, levará você a Deus.” Amém! Choro todas as vezes que ouço a música dizer isso outra vez.

Que a contemplação de uma Nova Terra, onde “não haverá nem luto, nem pranto, nem dor”, onde “nunca mais haverá qualquer maldição”, onde veremos Jesus face a face (Apocalipse 21: 4, 22: 3, 4), possa nos impressionar uma vez mais no início desta semana. E que a “Luz Primordial” dê força à nossa fé, e sentido a nossa breve existência neste mundo. 

 Uma semana iluminada, 

 Luciana 

  [1] WHITE, Ellen G. O Grande Conflito. São Paulo: CASA Publicadora, 2000. Capítulo “O livramento dos justos” e seguintes.

domingo, 30 de junho de 2002

Ladrões de Luz

“Na primeira noite
Eles aproximam-se e colhem uma flor do nosso jardim
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem
Pisam nossas flores, matam nosso cão.
E não dizemos nada.
Até que, um dia,
O mais frágil deles entra sozinho em nossa casa,
Rouba-nos a luz, e , conhecendo nosso medo,
Arranca-nos a voz da garganta!
E já não podemos dizer mais nada.”

(`No caminho com Maiakóvski´, de Eduardo Alves da Costa)

A boa notícia veio por telefone, quando eu ainda estava morando em São Paulo. Minha mãe, numa de suas intermináveis reformas e construções, decidiu fazer uma suíte para mim no primeiro andar, e guarnecê-la com uma ampla varanda voltada para o nascente. Antes que eu decidisse, ela já planejava minha volta e alardeava a recepção. As mães sempre sabem convencer: pouco tempo depois eu estava de volta à Natal, entre outras causas, por ceder ao apelo de quem soube expressar uma saudade convicta.

A varanda passou logo a ser o melhor lugar da casa. A visão de um horizonte entrecortado de colinas verdes, e uma rede balançando na brisa formidável eram os maiores atrativos para passar horas ali, na mais diligente intenção de fazer nada. O que não nos apercebemos é que toda aquela amplitude estava aberta a outros visitantes que não fossem gatos, pássaros e borboletas. E foi assim que, certa noite, um ladrão entrou em nossa varanda. Como o quarto possui grades nas janelas, e um portão com dois cadeados veda o acesso ao mesmo, não restaram muitos objetos ao alcance dele. Só percebi essa insigne visita quando, dois dias depois, fui acender a luz da varanda e a lâmpada não estava mais lá! Constatei também que a rede não mais balançava ao vento.

Depois disso providenciamos todo um aparato de segurança para prevenir futuras visitas de tal natureza. Não que a rede fosse exatamente um primor do nosso artesanato, nem que a lâmpada fosse mais especial que qualquer lâmpada econômica de 15W. Mas aquele furto nos mostrou que estávamos vulneráveis, e que se acaso o ladrão voltasse, certamente viria preparado para tentar ir além e levar muito mais.

Esse fato me lembrou o ladrão de luz mencionado no poema de Eduardo Alves da Costa. Perceba que, nesse poema, o roubo foi feito “pelo mais frágil deles”, o que se aproveitou da negligência e descaso da vítima frente a outros pequenos atos prejudiciais. Começou colhendo uma flor, e que mal poderia haver nisso? Depois prosseguiu avançando de maneira cada vez mais destrutiva, até que sua vítima estivesse completamente imobilizada, sem condições de dizer nada.

Com o pecado não é diferente. Alguns deles nos parecem tão inofensivos quanto ladrões de luz. Cedemos a eles achando que nenhum grande mal pode haver em fazê-lo, e vamos ficando vulneráveis a ataques maiores e mais profundos, que acabarão por levar o bem mais precioso: nossa salvação.

Começam colhendo uma flor: uma pequena exceção aos princípios divinos, que pode acontecer debaixo daquelas frases típicas: “é só uma vez”, “errar é humano”, “não seja tão rígido consigo mesmo, você merece!”. Mas o pecado que colhe uma flor, em breve irá pisar muitas outras, esmagar sob os pés cada um de nossos valores, e por fim desfigurar o jardim, que é o nosso caráter.

E depois? Matam nosso cão. Sem valores firmes não há vigilância, nem tampouco fidelidade: nossa alma fica aberta, incapaz de discernir entre certo e errado, sendo invadida pelo mal sem reconhecê-lo. Nesse ponto já é bem difícil reagir, mas ainda podemos fazê-lo até que ele roube nossa luz. Aquele pecado “inofensivo” que colheu a primeira flor, vai se esgueirar até a fonte de luz de nossa alma para apagá-la. E isso significa apagar nossa comunhão com Deus, roubar a nossa vontade de estar em contato com a Sua Palavra. A Bíblia, lâmpada do nosso caminho, passa a ser rejeitada reiteradamente como o mais insalubre dos alimentos, no máximo, procurada por obrigação.

É então que as trevas dominam o espírito. Satanás conhecerá nossos medos, e usará deles para limitar nosso arbítrio: isso é estar debaixo do jugo do pecado. Preso. E se não buscarmos a misericórdia divina enquanto ela se deixa achar, chegará o tempo em que não adiantará mais clamar por ela: a voz nos terá sido arrancada da garganta, fechada a porta da graça, tomada a salvação. “E já não podemos dizer nada”.

Felizmente o Espírito Santo insiste com amor em nosso favor, onde quer que estejamos. Mas não é prudente esperar a morte ou o juízo para ouvir a Sua voz (Hebreus 4:7). Melhor é manter guarda constante sobre a propriedade espiritual que, como cristãos, nos propusemos a construir (e não raro construímos com tanto esforço). Segurança efetiva é um esforço conjunto da proteção de Deus, e de olhos vigilantes sobre pecados que colhem nossas flores e roubam nossa luz.

Uma semana feliz e iluminada,

Luciana Dantas Teixeira