domingo, 11 de novembro de 2001

Composição para cordas

Uma das coisas que o interior dos banheiros femininos não permite aos homens perscrutar, é que toda mulher idealiza algo que não pode faltar em sua cerimônia de casamento. Um vestido com cauda de três metros, um bolo de dez andares, damas de honra vestidas de azul-turquesa, ou até (estas declarações são verídicas!), casais de padrinhos soltando pombinhas brancas na hora do beijo. Eu, que não perco um concerto nem pelo-amor-dos-seus-filhinhos, tenho apenas um desejo bizarro quanto ao meu himeneu: suportarei o cerimonial, transformando-o também num concerto. Dos males, o mais bonito! A única ostentação a que me dou direito é a de um belo quarteto de cordas tocando o melhor da música barroca e renascentista, naquela capelinha medieval que há tempos eu namoro.

Aceito críticas das mais românticas. Mas convenhamos, do jeito como a cerimônia religiosa vem se transformando em ostentação social, ninguém pode se espantar de ser recebido na porta da igreja por pajens distribuindo libretos de um concerto para casamento. Se meu íntimo amor pelo moço merece uma cerimônia pomposa, meu aberto amor pelas cordas, muito mais antigo, não merece menos que isso. O timbre dos instrumentos de corda sempre me fascinaram, e minha maior frustração é não tocar nenhum. Até tentei o piano por três meses, e agora, com a ajuda de um professor dedicado e paciente, me aventuro a aprender violão, visto que não se pode ter sido adolescente sem ter ao menos desejado tocar violão. Depois de dois meses de aulas, além de aprender a tocar com esmero o acorde de dó maior, observei algo com tamanha aplicação espiritual que desejo partilhar com vocês.

É difícil falar disso sabendo que este texto vai ser lido por alguns amigos físicos, mas eu quero me arriscar a falar sobre como se comportam as ondas sonoras quando as cordas vibram. Para não passar vergonha, me dei ao penoso trabalho de encarar meu "Os Fundamentos da Física, volume 2", de cujo capítulo sobre som, transcrevo esta pequena explicação: "Qualquer fonte sonora produz no ar vibrações que estimulam oscilação em corpos situados nas proximidades... pois a fonte progressivamente cede energia ao corpo". Significa na prática, que enquanto eu enrolava meu professor dedilhando seguidamente um grupo de cordas, observava que as outras também vibravam, devido ao deslocamento das ondas sonoras das primeiras, que propagando-se pelo ar, faziam oscilar todas as outras cordas, sem que meus incautos dedos as tivessem tocado. E aquela vibração se espalhava pelo violão e pelo meu corpo, transformando-me num grande acorde de dó. Amei mais o timbre daquelas cordas, quando percebi que não contentes em produzir seu belo som, me faziam sentí-lo e propagá-lo, como se alguém o tivesse tocado em mim.

Isso funciona mais ou menos assim: pôr-do-sol de uma bela sexta-feira, seu namorado enfadado de ouvir milhões de acordes de dó, toma o violão de suas mãos e começa a tocar o número 135 do hinário: "Guarda, vê se muito falta para o dia alvorecer...". Você ouve ele cantar com uma doçura tão reverente que não resiste e acompanha: "Alça a voz, alegremente, faz vibrar o próprio céu". Depois repara que um homem desconhecido parou em frente ao portão da sua casa, e da janela da sala você observa o semblante emocionado dele. Talvez ele não conheça a letra do hino, mas seu olhar se enche de um brilho terno: "Vê o Rei em glória infinda, vê o mar como um cristal!". Você sente uma atmosfera celeste ao redor, e sem fechar os olhos percebe que ao seu lado, anjos se juntam ao louvor: "Ouve as harpas, que harmonia! Ouve as hostes a cantar!". O violão dá o último acorde mas vocês dois e o homem, antes de ir embora, permanecem em silêncio por algum tempo, sentindo que o amor que foi cantado ali se propagou para além dos limites terrenos.

A primeira coisa a fazer é se colocar como instrumento nas mãos de Deus. Deixar que Ele transforme você em um cântico novo, tocando seu espírito bem e com júbilo (Salmo 33:3). Quando a sua vida começa a louvar a Deus em tudo o que você é e faz, o amor divino se propaga como onda sonora que faz oscilar e vibrar tudo ao seu redor. E o coração, esse músculo cordial, não pode passar imune ao estímulo.Pessoas que já haviam se habituado ao silêncio triste do desamor, sentirão umas velhas e empoeiradas cordas vibrarem no mesmo tom do amor que você propaga. Surpresas, elas verão acordes soando e sons acordando no sonido certo. Ainda inseguras, elas experimentarão assustadas a invasão das ondas transformadoras, tocando melodias talvez esquecidas. Mas o amor é uma composição para cordas de cuja influência não há quem fuja. Quando você se coloca como instrumento nas mãos de Deus, sua vida é tocada pelas mãos do Instrumentista e atrai muitas outras vidas para as mãos do Regente. E como espetáculo para o universo, Deus apresenta sua melhor performance : você in concert.

sábado, 27 de outubro de 2001

Sinfônica

Fazia sol, era domingo e estávamos juntos. Como há muito tempo a separação deles não permitia estarmos. Talvez fosse ajuda do cenário ao redor, que nem nos meus sonhos mais sublimes poderia ser tão perfeito: um parque cheio de verde puro e ar vivo, com os pássaros fazendo um delicioso fundo polifônico para o concerto da orquestra sinfônica.

Tudo bem que eu não poderia chamar o parque de "o mais belo", pelo simples fato dele ser o único parque daqui, mas isso não o faz menos belo. E enfim, era apenas um concerto popular, com forró tocado depois de uma valsa de Strauss, e um "New York, New York" evocando um terror impertinente a nossa atmosfera. Mas ainda assim era um concerto, em que eu e minha família - inteirinha, pai, mãe e filhas - estávamos unidos pela arte e por um nó na garganta, que a gente não desata, porque lá no fundo sabe que o amor às vezes é um choro que arde sem se ver, é nó que enforca e não se sente (perdão Camões!).

Eu tinha que estar entre os dois, para que a felicidade não parecesse tão completa. Ai de mim se ousasse sair do meio deles e fazê-los acabarem cedendo àquela evidentíssima vontade de abraçar dos seus braços. Olhei bem para meu pai, que perturbado, criticou o forró que a orquestra tocava "porque forró não fica bem tocado com instrumentos tão pesados". Eu sorri e continuei olhando. Ele olhou fixamente uma menina que corria, disse que estava lembrando de quando eu era do tamanho dela, e a danada da lágrima traiu seu olho fujão. Minha mãe estava mais linda aquela manhã. Exigiu apenas ir no banco de trás do carro, mas estava tão linda que o sorriso lhe saía fácil, fácil. Eu olhei bem para ela, e quando meu olhar já se distraía com um velhinho da platéia (aquela multidão lá na grama) que regia empolgadíssimo "O lago dos cisnes", ela me saiu com uma tirada que desafinou minha poesia e me pôs a rir:

- Parece o Titanic...

- O que mãe?? - eu disse depois de um minuto.

- Eles tocando... tão unidos... poderiam morrer tocando de tão unidos... como no Titanic.


Aí tudo se fez poesia novamente, porque eu sabia que lá dentro ela pensava em outro barco que afundara oito anos atrás. Mas sua família ali, unida por aquela música mágica que nos fazia despertar lembranças e sentimentos belos e esquecidos, resistia ao naufrágio do casamento, e estava, ao menos naquele momento, junta e unida como só a música poderia fazer, pelo poder de tocar nossas emoções.

Os textos bíblicos que se referem aos ministério dos músicos no Antigo Israel, sempre me causam arrepios "Spilberguianos"; aquela grandiosidade cênica retumbando em minha imaginação. Os livros das crônicas descrevem detalhes deste serviço, o qual era considerado de suma importância. Quando Davi dividiu os sacerdotes, e fez a separação entre os levitas que exerceriam este ministério, buscou ajuda dos capitães do exército israelita, pois sabia que a música, usada com estratégia e organização, tem um poder que sobrepuja a força militar, transcende o humano. Uma das ocasiões em que isso se demonstra está em II Crônicas 5: 13 e 14: "[os músicos] tocavam uniformemente as trombetas, e cantavam para fazerem ouvir uma só voz, louvando ao Senhor e dando-lhe graças. E quando levantavam a voz com trombetas, e címbalos, e outros instrumentos, e louvavam ao Senhor, dizendo: Porque ele é bom, porque a sua benignidade dura para sempre; então se encheu duma nuvem a casa, a saber, a casa do Senhor, se encheu de uma nuvem... porque a glória do Senhor encheu a casa de Deus". Tremendo, não?

Naquela época os playbacks, MIDIs e a cultura americana ainda não haviam dominado o mundo, portanto entendia-se que para ministrar na casa do Senhor fossem escolhidos apenas mestres em canto sacro e músicos tão comprometidos espiritualmente a ponto de profetizarem com seus instrumentos ( I Cron. 25: 1 e 7). Eles cantavam para invocar a glória de Deus, e a força que isso gerava era capaz de unir todo o povo de Israel na mais perfeita paz e harmonia.

Dá gosto ver o quanto Deus investia na música. Um exemplo, sem dúvida, a ser seguido por sua Igreja hoje. Mas uma pergunta perturbadora nos faz ir mais além: por que Deus se importava tanto com o serviço música em Israel, se Ele possuía junto de si coros de anjos que o louvam com perfeição? A resposta que mais me convence, transcende a música e o deleite que ela poderia causar no Todo-Poderoso. Deus investia e se preocupava tanto que o povo de Israel desenvolvesse a habilidade musical, porque Ele sabe do poder que a música tem para unir. Então o objetivo primeiro de Deus para seu povo era: unam-se. Era? Ainda é hoje. A mensagem é a mesma. Se infelizmente já não a encontramos jorrando da fonte da música, busquemo-la também em outras fontes, mas não deixemos de nos unir. A vitória será dada a um povo que esteja tão ocupado em unir-se para glorificar o nome de Deus, que o Senhor descerá sobre eles como nuvem de refrigério, proteção e paz.

Uma semana iluminada!


Luna

domingo, 21 de outubro de 2001

Pequenininha

Esta meditação vai ser pequenininha!

Nela só tem que caber um grão de mostarda.

Não importa que lá fora os supermercados tenham trocado o ringue dos preços pelo da megalomania arquitetônica, imitando os Shoppings, edifícios comerciais e Parques de Diversões. Hoje eu vou escrever pouco, mas arranjar um lugar para dizer que prefiro o Parque Dois Irmãos, que todo ano acampa ao lado da Igreja de São Sebastião, com o paradoxo de sua roda gigante pequenininha.

Estranho esse ser humano, que só reverencia o que é maior que ele (ou o que lhe parece ser), dado a aclamar a grandeza (para esquecer sua pequenez?). Talvez por ter de conviver tanto tempo com as desvantagens de ser alta demais, eu aprendi a valorizar - com uma ponta e inveja - as coisas menores . Hoje já fiz as pazes com o salto alto, mas ainda tenho ganas de Pequeno Polegar: quero ver o que me dizem os detalhes de uma sementinha.

"...O Reino dos Céus é semelhante a um grão de mostarda..." (Mateus
13:31)

Como pode Jesus comparar algo tão grandioso como o Reino dos Céus com a menor partícula com potencial de vida que os judeus conheciam? Vocês já devem conhecer uma porção de aplicações, eu vou expor a que mais me fascina.

Não é só por ser mulher, mas acho que há uma importância fundamental nos detalhes, nas coisas que passam despercebidas. Isso também vale para nossa vida cristã. Faça uma análise franca, e você perceberá que é muito mais fácil dar a vida como um mártir, que fazer aquela abnegaçãozinha que insiste em nos separar do ideal cristão, "mas que afinal de contas ninguém faz mesmo"... é fácil vestir uma camiseta com nome de Jesus estampado em letras garrafais, mas o que dizer do que se estampa em nossas palavras, "ops, escapuliu, mas afinal de contas todo mundo fala"... Paulo já sabia (tá lá no velho e bom I Cor. 13), é fácil, no calor do heroísmo, gritar a própria fé e entregar o corpo para ser queimado (ou numa versão moderna, carbonizado num avião), mas e na hora de deixar vencer o silêncio absconso do amor? "Mas afinal, eu sou humano"...

Aí está o segredo do grão de mostarda: é nas coisas menores, nos pequenos detalhes, que se prova que não se é apenas humano, mas cidadão daquele Reino dos Céus, para onde cada ato, palavra e pensamento meu deve apontar.

Uma semana iluminada!

Luna

sexta-feira, 12 de outubro de 2001

Igreja do diabo x igreja do pobre-diabo

A melhor parte do domingo para mim, é quando minha mãe chega com o "jornalzinho" da missa. Sou leitora assídua dos textos que encerram esse periódico, tanto que suas reflexões inteligentes sempre me roubavam um terço da missa quando eu era católica.

O desta semana teve o título curioso de "A igreja do pobre diabo", e embora eu não tenha apreciado algumas colocações "quevedianas" do autor, ele me deixou refletindo numa perspectiva mais ampla de Romanos 7:9, onde o apóstolo Paulo expõe o velho dilema, que está para nós cristãos, como o ser-ou-não-ser para Hamlet: "Não faço o bem que quero, e sim o mal que não quero", eis a questão.

O texto começa falando de uma igreja que talvez meu amiguinho Paterson, lá de Manaus, deva conhecer. Trata-se da Capela do Pobre Diabo, construída em 1897, pela esposa de um comerciante, após a morte dele. Esse comerciante possuía um pequeno estabelecimento comercial com artigos a preços populares, onde chamava atenção uma tabuleta, escrita à mão, que dizia: "Ao Pobre Diabo" (modo comum de chamar os mendigos e pobres necessitados, antigamente). A expressão foi uma propaganda tão eficaz, que acabou por batizar o local sagrado, e hoje o governo do Amazonas declarou-o patrimônio histórico, aberto uma vez por ano à visitação, no dia de Santo Antônio (que originalmente era o homenageado, mas terminou à sombra do pobre diabo).

Antes que eu prosseguisse a leitura, me veio à mente a mesmíssima associação que o autor (Aldo Colombo) fez mais à frente: um conto de Machado de Assis chamado "A Igreja do Diabo", onde o mestre do Realismo disseca uma vez mais o ser humano e suas contradições. Neste conto, ele fala de uma suposta tentativa do Diabo de abrir sua própria Igreja, cansado de ser apenas oposição, figurinha de esquerda, eterno presidente de partido. Então o Tinhoso organizou culto e normas de comportamento, mandamentos exatamente opostos ao Decálogo, e inverteu todos os valores dos seus adeptos. Mas o que aconteceu? O Diabo acabou fechando o templo, porque descobriu que alguns dos seus mais fiéis seguidores, sorrateiramente, à noite, praticavam o bem. Uma virtudezinha acariciada, uma caridade por debaixo do pano...o Diabo acaba por desistir de lidar com a incoerência humana.

E aí está a verdade sobre o que queremos fazer: o bem. O apóstolo Paulo, que gasta vinte versículos do capítulo sete no livro de Romanos expondo o dilema entre o querer e o realizar, esparge luz nos trinta e nove versículos do capítulo oito, no mesmo livro, para nos dar a certeza de que nenhuma condenação há para aqueles que estão em Cristo Jesus. Ele enfatiza ainda, que somos filhos e herdeiros de Deus, feitos para a vida, redimidos por Seu amor. Quando falhamos Ele não nos castiga, mas concede Seu Espírito, pois fomos chamados para a glorificação (verso 30). Em seguida, Paulo, meu personagem bíblico favorito, conclui com um texto que também faz o livro de Romanos ser o meu favorito. Leia uma vez mais os versos 31 a 39 do capítulo oito. A mais bela afirmação bíblica da certeza do amor de Deus. Parafraseando-o: Que diremos, depois destas coisas? Somos bons. Nascemos com a semente da bondade em nosso coração, temos a vocação do bem, a predestinação da vitória, a nacionalidade celeste.

Mas e aquele detalhe do "fazer o mal que não quero", onde fica? Afinal, não é ilusório e até mesmo pretensioso achar-se bom, e no momento seguinte trair-se com um pensamento mau ou um gesto profano? De fato! Sem que queiramos, às vezes somos capazes de atos tão repugnantes, pecados repetidamente malignos, o que nos resta? Ah, amigo meu, tome esta verdade como quem recebe um beijo a testa: nos resta a Igreja do pobre diabo!

O pobre diabo é aquele que se reconhece assim, um coitado, miserável dentro da sua humanidade, mas um filho de Deus elevado à glória magnífica quando em Jesus Cristo. Há quem viva procurando a Igreja de Deus aqui na Terra, e entra nos maiores templos, nas choupanas úmidas, nas igrejas de bancos macios e corações ásperos, nos recintos onde mãos ásperas se estendem oferecendo calor suave... mas não encontram a tal Igreja. Há quem passe a vida inteira procurando em muitas igrejas, há quem busque por anos em uma só, uns morrem perscrutando doutrinas, uns até se cansam pelo caminho, mas há quem, por fim, reconheça que a Igreja de Deus é a Igreja de pobres diabos, que entre o querer e o realizar plantaram a Videira Verdadeira, de cujos frutos se alimentam, em cuja sombra descansam tranquilos, aguardando o Agricultor que os levará a conhecer uma certa árvore da vida. (João 15:1-8; Apocalipse 22:2)

Embora o pecado ainda nos atormente, nós somos do Bem. A luta é dura, como duro é carregar o fardo da imperfeição. Por vezes isso pode fazer com que a Igreja de Deus pareça quase uma utopia. Mas basta olharmos para nós mesmos, e para tantos outros que como nós estão buscando chegar lá, para reconhecermos um povo sendo conduzido na direção certa, e cujo olhar se distingue por ter paz.

Ainda não é aqui que a Igreja de Deus reunirá o que há de melhor. A começar por mim, ela é formada de pobres diabos necessitados da graça de Deus. Mas a cruz de Cristo não foi deixada para fulgurar no templo dos que julgam ter alcançado glória e justiça aqui: para mim a cruz é como aquela tabuleta do comerciante, infundindo nos que se reconhecem necessitados, a esperança de conseguir um pouco mais. E quer saber? Me anima saber que esta Igreja do pobre diabo, unida, tem poder para vencer o Diabo, e tudo que dele vier – as portas do inferno não prevalecerão contra ela! (Mateus 16:18)

domingo, 7 de outubro de 2001

Só um cheirinho

Bleka chegou aqui toda orelhas e barriga. Eu não resisti aquela bolinha disforme miando desesperadamente atrás de mim, a pata manca, súplices olhos azuis. Como eu nunca fui chegada a gatos, tratei de avisar – para alívio de minha mãe – que ela ficaria em nossa casa só enquanto suas feridas saravam. Fizemos uma tala na pata, demos remédio para livrar aquela barriga enorme dos vermes, cuidamos das feridas que sobressaiam entre o pêlo ralo. Ela foi ficando saudável, foi ficando forte, foi ficando... ficando... e está conosco até hoje. Como é pretinha (aportuguesamos e afeminamos o Black) e sua feiúra não inspirou nenhum nome mais mimoso, ela ficou sendo Bleka, quase uma interjeição de horror, heheheheh

Minha irmã mais velha é quem cuida dela, pois eu ainda não consegui gostar de gatos. A nobre amiga Viviam há de discordar veementemente, mas eu acho esses bichos esnobes, interesseiros, frios, e a minha em particular é muito arredia. Minha irmã a defende como se isso fosse mera cisma minha. Mas a gata é feia e esquisita sim. Acredite, eu até gosto dela. Mas não dá para achar normal uma gata que gosta de comer mamão, fica admirando quase hipnotizada minhas árias de ópera (prefere as sopranos), tem fascinação por sacos plásticos, dentro dos quais é capaz de ficar horas, e sente um prazer mórbido em cravar as unhas nas minhas meias-calças novinhas. Como se não bastasse, Bleka tem uma curiosa mania, de ficar roçando em nossas pernas, miando e olhando esfomeada para nossa comida, mas quando nos rendemos e entregamos um pedacinho da comida, ela simplesmente cheira, cheira, cheira... e vai embora! Não dá uma mordidinha sequer. Pode ser um bife ou um peixe suculento, ela cheira e sai satisfeita. Lembrei disso agora, que ela me fez dar um precioso pedaço do meu chocolate, e ele jaz no chão, intacto, após algumas cheiradas esnobes.

Eu não consigo compreender como Bleka é capaz de se satisfazer apenas cheirando os alimentos. Mas isso me fez pensar em como nós a imitamos, quando o assunto é alimentar-se do Pão da Vida.

É comum ouvirmos orações pedindo "mais fé", como a de Eliseu: "Peço-te que haja sobre mim porção dobrada de teu Espírito" (II Reis 2:9), e nós mesmos as fazemos, pois não há nada mais precioso para um cristão hodierno, que fé para enfrentar este mundo louco. Jesus sabe tanto da fome espiritual do homem, que fez a si mesmo alimento, perpetuando sua entrega sacrificial no pão e no vinho, a fim de que nosso ser O celebre como o Pão que desceu dos céus para saciar-nos. E diariamente, Deus se faz alimento através de pessoas, situações, oportunidades, que nos são dadas como meio de nutrir nosso espírito e aumentar nossa fé. Mas será que sabemos discerní-lO?

Muitas vezes, este alimento passa ignorado: não estamos sensíveis para reconhecê-lo nas pessoas, paisagens e acontecimentos ao nosso redor. Outras vezes, simplesmente o recusamos porque seu aroma nos parece acre, e não nos agrada alimentar nosso espírito fazendo-o passar por provações e algum sofrimento; preferimos ver amargura onde Deus colocou alimento. Mas o mais triste é quando Deus prepara-nos um banquete e nós nos abstemos dele porque já nos satisfizemos com outros "lanchinhos" no caminho. Os cultos, os louvores, a própria
Bíblia já não são degustados com prazer. Mas o laodiceano segue, ostentando o ventre proeminente, o qual por não se alimentar da Vida, se torna morada de vermes.

Pior que a fome descrita pelo profeta Oséias (4:6), de quem "perece por falta de conhecimento", é a sensação enganosa de saciedade que nos impede de provarmos o verdadeiro sabor da nossa religião. É sobreviver sentido um cheirinho de Deus, que com o tempo vai deixando de excitar nossas papilas gustativas, ou seja, já não sentimos "água na boca" pelas coisas espirituais. E quando se troca uma experiência profunda com Deus, para resumí-lo a uma sensação olfativa, o cristianismo não sobrevive e o espírito adoece – isso diante de uma mesa farta.

Espero que nesta semana estejamos dispostos a reconhecer em cada detalhe de nossas vidas, a presença do nosso Deus pronto a alimentar nossa fé. E ao nos aproximarmos do alimento que Ele nos prepara, não nos acheguemos com cheirinhos descomprometidos, mas com apetite prazeroso. Honremos o Deus "que dá alimento a toda a carne, porque a sua benignidade dura para sempre" (Salmo 136: 25). Alimentados pelas coisas celestes, nenhum mal nos tentará o paladar.

sábado, 29 de setembro de 2001

Muda!

"E a ira muda? E o asco mudo? E o desespero mudo?
E as palavras de fé que nunca foram ditas?
E as confissões de amor que morrem na garganta?"
(Inania verba - Olavo Bilac)


Há os que conseguem ser sempre impessoais, domar forma e dobrar o sentimento, escrever como quem faz origami. Mas se até o ícone do Parnasianismo, escola literária que reverenciava a forma em detrimento do conteúdo, se o grande Olavo Bilac deixou vazar o poema do qual extraí o trecho acima - Palavra morta, em latim - onde descreve a agonia do sentimento querendo se materializar na palavra "impotente e escrava", então amigos, eu peço licença para escrever uma vez mais com o coração.

Quem me acompanha semanalmente sabe que prefiro a idéia leve, com perfume, graça e luz, que eu associo ao onipresente amor de Deus a toda vida ao meu redor. Mas às vezes, e isso se torna cada vez mais constante, tenho a impressão que escrever assim está difícil. Eu até poderia falar "origamicamente" de crenças e convenções, sobre o que devemos ou não fazer. Mas não estaria sendo eu mesma se aqui não coubesse, com urgência e sinceridade, o bom e velho ser humano.

Esse intróito atípico, é a tentativa de justificar o que se segue neste texto, que hoje vai como história, torcendo para não deixar de ser meditação. O motivo pelo qual o receio já adentra o terceiro parágrafo, é que não é uma história minha, nem tem um final feliz, este último uma teimosa exigência romântica para eu gostar de um filme ou de um e-mail. Esta história, eu lamento, é triste, e ainda assim sobreviveu a todas as minhas tentativas de não contá-la. Por isso deixo de lado todos os vinte e cinco inícios de meditação que tentavam mudar de assunto, e me rendo ao quarto parágrafo, onde eu tento amenizar a tristeza da história fazendo-a breve. Deixo a vocês a conclusão e peço apenas que avaliem, uma vez mais, o que realmente vale a pena na vida e na religião.

Quando a vi saindo pela última vez da igreja, ela chorava, muda. Outros saíram antes dela, nenhum escondendo um sorriso tão poderoso quanto o dela, mas todos pelo mesmo motivo. A igreja era pequena, e não demorou a sentirmos falta da presença deles. Até este momento, meu mal estar era só um presságio: certifiquei-me que a porta da frente estava aberta e a de trás bem fechada, não encontrei nenhuma mancha sobre a cortina azul atrás do púlpito e reparei que até as lâmpadas foram trocadas, tornando o ambiente amplamente iluminado. Mas ainda havia frio, a sensação estranha de algo sujo sob os pés ou diante dos olhos, mas escondido em alguma sombra não visível. Eles continuavam saindo, e quando eu percebi eu também estava lá fora, perguntando em voz audível o que estava acontecendo ali ("E a ira muda? E o asco mudo? E o desespero mudo?").

A igreja morrendo e bastou que ela me contasse o seu motivo para todos os outros virem a tona. Me chamou atenção isso ser sussurrado, como a confissão de um pecado, como se fosse extremamente perigoso querer ser amado, supinamente equivocado ser humano, a ponto de ser filho de Deus, e desejar o calor de um Espírito lá distante, em Atos 2. O choro mudo. Mas Senhor, tu sabes (eu muitas vezes não), ela fala! Ela sente... e costumava sorrir.

Ela sugeriu que as cadeiras fossem postas em círculo no sábado de manhã, para que todos pudessem conversar olhando no rosto um do outro, enquanto debatiam acerca de cristianismo. Antes sua idéia tivesse sido rechaçada, rechaçaram a ela, que ousou ter idéias assim tão... . Idéias, pessoas, gente que não sabe amar o amor da Bíblia devia ao menos se ocupar de ler Platão, para saber a diferença na hora de rechaçar. Vamos brincar de fazer o que o Mestre mandou, enquanto eles não entendem seu Manual nem lêem Platão.

As cadeiras ficaram geometricamente enfileiradas, umas atrás das outras, no sábado de manhã, para que não se vissem os rostos tristes (que falta, o sorriso poderoso dela), enquanto debatiam acerca de cristianismo. As cadeiras milimetricamente enfileiradas. E vazias.

Luna.

segunda-feira, 24 de setembro de 2001

Sentimentalidades

Quando ele chegou de verdade, eu estava abrindo as janelas do meu quarto, tomada de uma estranha necessidade que há tempos não sentia. Só então reparei que aquela manhã, como todas as outras, tinha uma luz alegre e ventilada, que agora eu queria muito em minha epiderme meio azul, de se esforçar para reter um frio incerto, e nunca meu.

Diante do encontro com o verdadeiro, foi fácil reparar na beleza aguda das tardes. O sol das dezesseis horas, cujos raios tornam todas as pessoas muito belas, encobrindo termos biológicos que ele deixa escapar soltos, sem saber da minha desnecessidade de argumentos para tomar suco de beterraba no café-da-manhã, se isso prolongar a sensação de beleza súbita e indizível que os termos biológicos não conseguem conceituar.

Gosto especialmente das noites, quando me misturo às rosas dele, e ouço comovida seus sonhos e crenças, expostos tão firmemente como e fazia há exatos dois anos atrás, aquele olhar sentimental sobre um mundo ainda desconhecido, que faz a gente se assustar tão sinceramente com o que não seja estritamente bom e justo. É quando eu
vejo exatamente o que fui, e o abraço mais forte, desejando que nadadisso se perca com muita dor. Mais ou menos como os pais abraçam os filhos adolescentes.

Aí ele viu uma luz no céu, que parecia uma estrela cadente "vou fazer um pedido" (sem pensar na verdade amorfa e vazia dos meteoros), quando percebeu que a estrela tinha uma trajetória invertida, e subia rapidamente, ele com o pedido penso diante do que não poderia ser uma estrela ascendente.

– Uma nave espacial? Eu sorri.

– Um anjo. Que estrela iria tão rápido da Terra ao Céu? Ele, convicto.

E um riso objetivo calou-se, apaixonado, para preferir a verdade mais bonita, posto que a vida aqui já é suficientemente curta e triste (meu riso aprendeu a ser objetivo, mas ainda não deixou de ser poeta).

E o que tem você com estas sentimentalidades?

Espero que ao menos o olhar mais acertado. E não discuto cientificismos: você sempre pode escolher ver o melhor nas pessoas e nas coisas ao seu redor. Depois de vasta observação, concluí que a verdade sempre está a 5 [8.55π + (0.67)²] graus além do óbvio. E não existe nada tão certo que não possa escapar de ser absolutamente triste, sem graça ou indiferente. Balões meteorológicos, pessoas que lhe causam mágoa e dor, situações frustrantes ou ansiedades insolúveis podem mostrar a sua face surpreendente, se você decidir acreditar que isso pode ser visto de outra maneira – apesar das suas evidências – como algo bom. Não se trata de fugir pelo atalho da fantasia, mas conter seu passo apressado e seguir pelo caminho mais bonito, que é sempre o melhor jeito de chegar lá. E você vai chegar; como vai estar no fim do caminho é que vai fazer toda a diferença.

Há quem sem ache muito superior e inteligente por ser capaz de ver as desgraças da humanidade. E afia a criticidade na lâmina do pessimismo, para cortar as orelhas da sua realidade¹. Ora, isso é fácil e eu também o fazia aos treze anos. Permitindo-se crescer, chega-se a conclusão que não basta conhecer, mas "conhecer como também sou conhecido" (I Cor 13: 12). E se Deus escolheu ver em mim algo que valesse a vida do Seu Filho, eu, que sei da minha precariedade, decido ver Seu Filho em tudo e todos ao meu redor. Isso é mais que bom, é preciso. Num mundo com tantos mísseis anti-aéreos, ter paz é escolher ver hostes de anjos velando por nossas cabeças, quando eles começarem a disparar...

Uma semana iluminada.
Luna

¹ A expressão "cortar as orelhas" tem o sentido de "tornar feio". A História nos mostra algumas civilizações afeitas a "enfeiar" pessoas, decepando suas cartilagens.

segunda-feira, 17 de setembro de 2001

Embalos da terça de manhã

Enquanto eu via o World Trade Center desabando diante de um mundo de olhos incrédulos, pensamentos confusos se apresentavam no trapézio da minha mente. Nomes, pessoas, lugares, objetos, passando fugidios e indefinidos. Estranho, mas as grandes comoções nos fazem checar a nossa própria existência com ânsia neurótica, certificar-se de que tudo ainda está onde deveria estar: o teto sobre a cabeça, a cabeça, os membros, a família e os amigos. Então salve a televisão, o telefone e o modem, que me dão a certeza de que eu e os que amo estão longe o bastante – embora ao vivo, bem vivos, viva a via satélite.

Não sei quanto tempo fiquei estarrecida diante da TV comendo meus biscoitos de aveia e mel, mas só depois de algumas horas percebi que aquela sensação estranha de quem não estava entendendo nada se devia em grande parte à minha irmã, que falava compulsivamente, competindo com os comentaristas e repórteres. Foi quando ofereci gentilmente que ela comesse o restante dos biscoitos, que pude ouvir certo repórter da CNN dizendo uma frase comovente: "os americanos estão sendo aconselhados pelos policiais a voltarem para suas casas e dizerem a família que está tudo bem". Era a mesma sensação que me afigurava: abraçar tudo que amo e confiar que está tudo bem.

Tudo bem? É. Mesmo que aviões estejam caindo sobre nossas cabeças, milhares de crianças inocentes estejam sendo mutiladas por bombas no oriente, e ainda me digam que uma onda gigante vai destruir meu amado litoral brasileiro ("e quem sabe então, o Rio será alguma cidade submersa...", profetizaria o Chico Buarque)? Bem, se você me ama e me disser que está tudo bem, eu vou confiar em você, vou ficar tranquila, segurarei calmamente sua mão rumo a uma loja de pranchas de surf.

O ser humano gosta de ser embalado, e se acostuma a isso desde o útero materno. Aqueles sons assustadores de coração batendo, pulmão inflando, ruídos digestivos e ainda aqueles indefinidos que vêm lá de fora, sem que saiba absolutamente o que está acontecendo. Talvez seja como descobrir-se preso, de olhos vendados, numa cabine telefônica no meio da avenida Paulista. É justamente aí que aprendemos que "o perfeito amor lança fora o medo" (I João 4:18), e nos sentimos seguros no calor do embalo materno, que nos garante: está tudo bem.

Quem nasceu para viver na loucura do presente século, ainda vai se deparar com muitas situações assustadoras. As profecias bíblicas não são muito animadoras nesse sentido, já que nos alertam para uma série de acontecimentos catastróficos, como não poderia deixar de ser num mundo que sofre as conseqüências do pecado. Mas a Bíblia também nos aponta um Pai que nos ama infinitamente, e que em momento algum deixará de expressar isso. Aqui na minha versão, contei trezentas e sessenta e cinco versículos onde aparece expressões com o sentido: "Não temais" (uma para cada dia do ano), e os que mais gosto é quando o próprio Jesus diz: "Não temais, sou Eu..."; você consegue ouvir nos últimos acontecimentos, Ele dizendo isso como alguém que está chegando? Deus embala o Seu povo ao longo da História. Quer nos abraçar e dizer: "tudo bem, ainda que as águas rujam e os montes se abalem" (Salmo 46). Nos mostra que estará conosco até o fim, e as presentes dores são apenas parte de um plano perfeito para extirpar o sofrimento da Terra.

Neste momento as pessoas estão procurando explicações e especulando profecias de toda natureza, para compreenderem o que se passa. Sugiro que estudemos mais as profecias, à luz da Bíblia e do Espírito de Profecia, como fonte de tranquilidade e paz, já que é para isso que Deus as proveu. Mas acima de tudo, reconheçamos que agora é tempo de desenvolvermos o perfeito amor. Aprendamos a lançar fora o nosso medo e o temor dos nossos semelhantes também. Não é preciso muito para isso... é só aprender a ser tão explícito como Deus. A maioria das pessoas é capaz de ler a Bíblia por si mesmas, mas nem sempre se consegue fazer isso quando se está com medo e confuso, portanto não espere que elas o façam. Abra as Escrituras diante das pessoas como quem embala. Fale as verdades dela como quem abraça. Leia-as como quem ama, e não se exime de dizer: está tudo bem. E creia nisso, porque assim disse o Senhor (Isaías 41:10).

sábado, 8 de setembro de 2001

Estado de Espírito

Tarde chuvosa, daquelas de cor cinza-tédio, um pilha imensa de papéis ao lado e eu repetindo o refrão de um musiquinha "praise" que saía do rádio, quebrando o silêncio gelado daquela sala, onde só os ácaros me faziam companhia. Quando reparei na letra da música, eu já a havia decorado e batucava alegremente no teclado. Era a coisa mais simplória que um ser humano semi-alfabetizado poderia compor. A tradução da letra dá mais ou menos: "Que alegria, que alegria inexprimível! Que paz, que paz interminável! Que amor, um amor puro e santo! Que alegria, que paz, que amor!", tudo isso numa repetição com ares de mantra, em três acordes tão pobrezinhos, coitados. Mas vou te contar, esta musiquinha diagnosticou com precisão o meu estado de Espírito naquele momento.

Pois é, Espírito com "E" maiúsculo, como deve ser quando falamos do Santo Espírito de Deus. Eu bem que gostaria de fazer uma meditação falando sobre isso, mas acabaria correndo o risco de parecer tão simplória quanto aquela musiquinha, sem que você soubesse nem de longe o que se passa no coração de alguém em perfeita sintonia com o Espírito Santo.

Penso em Davi compondo o salmo cento e cinqüenta, elevado ao mais sublime estado de Espírito. Os eruditos poetas do rei se entreolhando: "Tá, a gente já entendeu o recado, que coisa redundante!"; mas Davi naquele momento era todo alegria. Deus tem hostes de anjos celestiais com habilidade para louvá-lO na mais perfeita harmonia, Ele não precisa de nossa música, mas de corações transformados em hinos de louvor. Ele já conhece todos os mistérios do Universo, não precisa de nossa eloquência, mas recebe nossa mais singela expressão de gratidão e amor.

Não é minha intenção aqui falar sobre teologia da música: há gente muito mais gabaritada que eu para abordar o assunto. Nem quero levar a crer que aquela musiquinha teve o poder de elevar meu coração: meu coração naquele momento estava tão elevado, tão perto de Deus, que qualquer coisa que eu proferisse iria inevitavelmente na mesma direção. Assim, uma saudação àquela secretária que vive de mal humor, o atendimento àquele contribuinte que buscava uma informação, o semblante e a conversa dirigidos aos colegas de trabalho e estudo, e até uma musiquinha cantada no fim de uma tarde tediosa, tinham um só sentido: o Alto.

São sintomas de uma paixão celestial. Para mim, isto é estar em estado de Espírito. Ser grata, reconhecer a presença e atuação de Deus, espargir o amor que Ele emana sobre minha vida. Não é nenhum sentimento grandiloquente - embora grandioso - , e se perfaz justamente numa paz contínua e alegre, tão simples e serena quanto a fé pregada por um galileu chamado Cristo.

Desejo sinceramente que você comece esta semana desfrutando deste estado de sintonia inquebrantável. Estar com o pensamento e a emoção dirigidos ao que há de mais puro e santo: o amor de Deus. Isso faz bem para pele, para o cabelo, para a digestão, é o melhor cosmético (repare como as pessoas vão te achar bonito (a)), é ótimo para toda espécie de estresse, ansiedade ou preocupação, elimina qualquer pretexto para mal humor.

Seja você agora mesmo o mais agradável hino de adoração aos ouvidos de Deus. Nem que nos seus lábios só caiba um repertório sem pudor de chavões que diga: "Aleluia! Que alegria! Que paz! Que amor!"

Uma semana iluminada!

Luna

segunda-feira, 3 de setembro de 2001

Para gostar de graviola

Quanto a gente gosta de uma pessoa, assimila muito dela por "osmose de convivência". Acaba aprendendo a gostar de coisas que antes eram completamente estranhas ao nosso mundinho. Gostar de alguém nos faz reformular conceitos e sentir prazer em permitir-se exceções, até nos darmos conta que não éramos assim tão completos. Faz gostar também do que antes era sem graça, mas só porque não havíamos reparado muito bem, e confesse-se afinal, o sorriso desse alguém nos impede qualquer refutação. "Começamos a ver muito mais no mesmo que sempre vimos e jamais reparamos", diz Artur da Távola. Certa vez, um amigo me falou que foi assim que aprendeu a gostar de cachorros. Semana passada foi minha vez de aprender a gostar de graviola.

Nunca simpatizei com essa fruta. Morei por quinze anos numa casa em cujo quintal habitava um enorme pé de graviola, e hoje sei que veio dele a minha antipatia. Não sei exatamente quando, essa árvore foi atacada por uma praga de besouros que chamávamos "soldadinhos", os quais espalhavam suas larvas brancas e gosmentas por todo o caule e galhos do pé de graviola. E sempre que eu via uma graviola aberta em
minha frente, seu cheiro forte não me apetecia frente a imagem da polpa branca e gosmenta, tão semelhante às larvas dos "soldadinhos". Eu achava aquilo a coisa mais nojenta do mundo.

Mas uns olhos, um sorriso, um copo de suco de graviola, dois canudinhos e afagos estratégicos fazem a gente rever até traumas infantis. Enquanto eu redescobria o sabor da graviola, pensava no velho pé de graviola, que ao final de minhas divagações, se mostrou um motivo nobre – embora não tão doce quanto os argumentos do meu persuasor – para eu aprender a gostar da tal fruta gosmenta.

Lembrei que por causa daquela praga de "soldadinhos", minha mãe resolveu fazer uma poda drástica, e o pé de graviola perdeu folhas e galhos. Porém, pouco tempo depois, novas folhas cobriram-no. Nova poda foi feita, e seguida de muitas outras, cada vez mais violentas, até resumir a árvore a um tronco liso. Da última vez demorou mas...
ele renasceu de novo! E agora totalmente livre das larvas, exibindo graviolas graúdas, como se nada tivesse sofrido.

Pensando sobre esse potencial de regeneração, eu cheguei até o próprio homem, e conclui que fomos criados com uma porção generosa dele. Perdemos a vida eterna em Adão, ganhamos o dom da regeneração em Jesus Cristo. Sua ressurreição é a prova de que a humanidade tem em si a vocação para ser transformada, refeita em cada perda que o pecado reclama no espírito e coração de cada filho de Deus.

Vida, amor, justiça, paz, felicidade: não se pode falar em perda com relação a essas coisas, Deus as fez com a renovação latente. Mesmo que a dor pareça exigir a sensação de amputação, um olhar de fé vê o que foi arrancado ressurgir, em maior glória, como é a vitória de tudo aquilo que se pensava acabado, cuja força se subjuga. Quem pode mensurar a força e beleza da vida, do amor, da justiça e da
felicidade recriadas pelas mãos de Deus?

Me vi diante de uma linda verdade: não há nada nesta vida que possa nos ser tomado, sem que Deus nos devolva em completa renovação e superioridade. Uma crença, um sentimento ou um relacionamento são também obras da criação e recriação de Deus. Por isso não importa o tamanho do vazio ou a ilusão da ausência: entregue a Ele o que você julga perdido. Deus restaura tudo que reconhece como de Sua posse exclusiva. E não apenas concede a renovação, mas com ela, veios de sua Majestade, Exaltação e Eternidade.

Uma semana iluminada!

Luna