domingo, 25 de março de 2001

Complexo de Gilliatt? (Victor Hugo)

Há alguns dias, dando minhas navegadas, encontrei um site que entre outras coisas interessantes, disponibiliza vários e-books (http://ebooks.imn.com.br/). Acho de uma tristeza desmedida ler livros no computador, devido à sensação lamentável de não ter o contato orgânico do folhear de páginas. Mas ainda assim, os títulos que encontrei no site eram tão bons que não resisti a fazer uns "downloads". Não me arrependi, e contrariando minhas inclinações, "devorei" em pouco tempo as 1406 páginas virtuais (pequenininhas) de "Os trabalhadores do mar", de Victor Hugo, traduzido por Machado de Assis.

Não dá para resumir um livro tão profundo e minucioso como este. O autor enriquece o enredo com detalhes dos costumes, pessoas, lugares, objetos e sentimentos, a ponto de nos sentirmos diante de uma tela de cinema, e ainda nos leva a refletir nas suas assertivas sobre o ser humano e a natureza. De modo que não é sem receio que eu me atrevo a comentar parte da narrativa, e dividir minhas impressões – mais poéticas que filosóficas - com vocês.

O personagem principal do livro é um homem chamado Gilliatt, pescador rude, porém nobre que mora na pequena ilha de Guernesey, numa típica aldeia normandia do século XIX. Ele é o único personagem que se mostra inteiramente assim: nobre. Todos os outros têm desde uma mácula até a podridão completa no caráter. No entanto, justamente por ser um homem bom e simples, Gilliatt é renegado à solidão. As pessoas, longe de estimá-lo, o desprezam, lhe são ásperas e o insultam chamando-no feiticeiro, feio, e todo um cortejo de adjetivos repulsivos, que era a forma de disfarçar o quanto o temiam. Ele, alheio a tudo isso, desde pequeno aprendeu a conviver com o preconceito e desprezo através do isolamento. Tornou-se um homem com aversão ao contato humano e fez da natureza seu refúgio.

Durante a narrativa, o que me impressionou é que todos os elementos sobre a face da Terra pareciam expulsar Gilliatt dela. Todos os homens aparecem maus, ignorantes, ou simplesmente ignóbeis, de espírito corrompido pelas paixões ou futilidades. Parece ser impossível haver lugar entre eles que Gilliatt possa se acomodar. A própria natureza, de onde ele tira o sustento e sua única companheira, por vezes submissa e domada, mostra uma face monstruosa quando decide investir contra ele e arrasar-lhe as forças, tentando por todos os meios acabar com sua vida e empreendimentos. Tudo conspira contra Gilliatt, e até mesmo o amor, que o faz enfrentar a fúria de todos esses elementos, acaba por abandoná-lo também. Gilliatt sai do enredo como alguém que ousou entrar na história errada. Ele não possuía lugar entre as coisas humanas, porque parecia bom demais para estar entre elas. Desistiu de tentar, e entrega-se por fim ao mar, contra quem houvera tão bravamente lutado.

Há muito que se extrair da leitura desse livro fascinante. Mesmo quem não é dado a demoradas reflexões, não tem como sair ileso às frases de efeito ou, ao menos, um pouco mais entendido de assuntos navais.

Mas o que eu quero abordar aqui é apenas um aspecto das minhas conclusões literárias: o forte senso de desajustamento que atinge aqueles que decidem ser bons. Não pela glória da virtude nem pela recompensa do feito, apenas pela decisão de imitar a Jesus Cristo.

Quando decidimos fazer a coisa certa, mais precisamente quando nos tornamos cristãos autênticos, sempre encontramos a oposição, o escárnio, a falta de incentivo, o desânimo, a descrença, o riso. Dá aquela sensação que tudo ao redor nos expulsa. A que se deve esse sentimento? Complexo de Gilliatt? Jesus previu que seus seguidores passariam perseguições, injúrias, mentiras, aflições para todos os gostos e desgostos (relembrar Mateus 5:11 e 12, João16:33 entre outros). A Bíblia está cheia de histórias assim vividas pelos servos do Senhor. Eu, você e todos que um dia decidiram ser cristãos, também as têm.

Já vi muitos fazendo grandes esforços para tentarem adequar o fato de estarem no mundo e não serem do mundo, mas as tentativas nesse aspecto sempre resultam vãs. Há também quem desista porque não suporta enfrentar a fúria de um mundo inteiro contra as suas fraquezas humanas. A pressão da maioria é discreta mas intensa! Talvez seja melhor encarar tudo ao redor como normal e sobreviver! É tão mais fácil ser apenas "humano"...

Mas eu continuo achando que não temos que nos adequar aqui, porque este não é nosso lugar. Nosso planeta está muito contaminado pela maldade, e isso faz com que Satanás o controle facilmente. Por isso não é para se espantar que tudo se arremeta contra quem ouse ser bom e acredite no amor. Não é para se admirar que as pessoas nos machuquem, que os planos sejam frustrados sem explicação, que as conquistas sejam tão árduas e as vitórias tão sofridas. Se nós desanimamos com coisas como esta, é porque esquecemos que é à Pátria Celestial que devemos nos adequar; lá se dará a vitória que nos interessa. Não deixe que os sofrimentos aqui te preocupem ao ponto de fazer-te triste, de te levarem a desistir como Gilliatt fez.

A sensação de estar alheio a este mundo deve ser encarada como um lembrete de que pertencemos a um mundo muito superior. E quando rirem e pisarem nos nossos valores, sonhos e crenças, olhemos para o sorriso promissor de Jesus que nos espera mais além...

sábado, 17 de março de 2001

Exibindo

Olá amigos iluminados!

Não é mentira, está lá, para quem quiser ver. Eu estava deitada numa rede, sorvendo em preguiçosos goles meus últimos dias de férias, e procurando alguma coisa para ler na "Veja" que não fosse propaganda nem matéria para "Caras", quando me deparo com a criatura. Esposa de um cirurgião plástico, a...(custa-me dizer com convicção) mulher exibia seus mais recentes atributos. Em dois anos ela implantou cabelo, colocou 225 ml de silicone nos seios, mais silicone nos lábios e panturrilhas, fez lipoescultura na cintura, abdome e culotes, clareou os dentes, fez plástica no queixo para fazer uma covinha, tomou injeções químicas na testa para "suavizar" rugas, tudo isso arrematado com unhas postiças de porcelana e lentes de contato verdes, para destacar a beleza da tez bronzeada - artificialmente, claro. Para os que ensaiam uma interjeição indignada, é bom levar em conta os interesses artísticos da mulher: ela quer posar na playboy e participar de uma novela na Globo.

Eu ainda investigava a foto insólita, quando minha prima pulou na rede e me assaltou com uma proposta bem anti-estética: "vamos brincar de contar cicatrizes??" Invenção dos dias tediosos, essa é uma brincadeira interessante mas difícil: você tem que apontar uma cicatriz que tenha no corpo e dizer exatamente onde ou como a adquiriu. Se não lembrar, perde.

- Eu começo! - disse ela - essa aqui foi minha gata Chiquita que fez.

- Tá. Essa aqui na coxa, foi um ferro de passar que caiu quando eu tinha 7 anos.

- Essa no pé, foi um caco de vidro.

- Hmmm... espere. Essa na cabeça, foi passando numa cerca de arame farpado, quando tinha a sua idade.

- Essa aqui no tornozelo ó, foi semana passada, na sela do cavalo que eu montei.

- Ah, não lembro mais. Não faça essa cara, você está trapaceando, todo dia consegue uma nova. Eu não lembro mais de todas que tenho...

- Ganheeeeeiii!! E nem falei dessa na perna, quando levei uma queda, essa na testa quando bati no tronco de uma árvore, essa do dedo, que foi um bicho de pé, e essa daqui - falou ela aboreando a glória suprema - essa enooorme, quando esfolei meu joelho numa xícara quebrada.

Que contraste enorme entre a criatura da revista e aquela que me sorria dentro da rede. A primeira, utilizou-se de todos os artifícios para esconder seus defeitos, para encobrir de modismos suas imperfeições. Não a condeno: para os objetivos que ela tem em mente, está no caminho certo. E minha prima, toda feliz do meu lado, tirava a alegria de mostrar justamente todas as imperfeições que possui no seu corpinho, apontando detalhada e enfaticamente cada cicatriz, ficando tanto mais alegre, quanto mais feia ela fosse. Compreendo-a perfeitamente: aquelas cicatrizes são importantes porque contam a história dela, são as lembranças das aventuras saboreadas.

Cada um exibe o atributo que traduz seu conceito de felicidade. A Bíblia fala de alguém que também gostava de contar e exibir cicatrizes. O apóstolo Paulo não perdia a oportunidade de enumerá-las detalhadamente: "essa foi nos açoites e varas dos judeus, essas nos naufrágios, essas num abismo, essas quando fui apedrejado, essas de ladrões, essas aqui no deserto, etc, etc" (II Coríntios 11: 24 - 28) e arrematava com orgulho: "...trago no meu corpo as marcas de Jesus" Gálatas 6: 17. O que explicava esse orgulho feliz de Paulo? Masoquismo?

Em outro lugar Paulo fala de uma carreira que nos está proposta: o caminho do cristianismo (Hebreus 12:1). Acontece que esta carreira é longa, o caminho pedregoso, e ele sabia que podemos até levar uns tombos, arranharmos o joelho da alma, levarmos um corte na testa do espírito. E daí? O importante é levantar, limpar o pó, pôr um band-aid bíblico e sorrir feliz.

Paulo não via suas feridas como machucado, mas como um atributo que mostrava por QUEM e PORQUÊ ele vivia. Suas cicatrizes, eram exibidas com aquele gostinho alegre que antecede a vitória. O motivo desse estranho senso estético é um Ser que, vivendo num lugar cheio de seres perfeitos em todas as dimensões, é o único que exibe feias cicatrizes. "E se alguém lhe perguntar: Que feridas são essas nas tuas mãos? Dirá ele: São as feridas com que fui ferido em casa dos meus amigos" (Zacarias 13:6). Não pense que Jesus dirá isso com tristeza. Ele apontará para a cicatriz, abrirá um sorriso largo de satisfação e pronunciará o seu nome. E o meu. E o nome de cada pessoa por quem ele deu a vida na cruz.

As nossas cicatrizes espirituais, querido (a) amigo (a), são a forma de lembrar para fazer valer essas cicatrizes de Jesus. Os arranhões que porventura adquirirmos por causa de nossa fé, são uma maneira demonstrar nosso "sim" ao sacrifício supremo dEle. Tenha certeza que a mão de Deus te acompanhará durante toda a carreira para te livrar do mal e te levantar nas quedas. Mas se você sair com cicatrizes das batalhas, sorria e se exiba. Você está levando no corpo os atributos de uma guerra cuja vitória se aproxima, as insígnias do exército divino, as marcas do Senhor Jesus.

Uma semana iluminada!

Luna

domingo, 11 de março de 2001

Surpresa

Oi amigos!
Alguns aqui já sabem que há algum tempo eu resolvi me meter a regente e formar um grupo vocal na pequena Igreja do Alecrim. Ao contrário da atual tendência para esse tipo de formação, temos por objetivo primeiro louvar a Deus e depois, promover o senso de agregação entre os jovens que participam dele, procurando também desenvolver técnicas de educação vocal e espiritual, para um louvor sadio. A proposta é interessantíssima, o trabalho é exaustivo.

Eu fiz uma campanha intensa de incentivo para que toda a igreja participasse, e o resultado esperado é que, a grande maioria do grupo é formado por leigos e inexperientes em música, pessoas que não sabem o que é uma clave do sol, ou que só cantavam no banheiro, que nunca seguraram um microfone nem jamais ouviram falar de técnicas de respiração, impostação ou dicção. Chamam o relaxamento de "ginástica" e fazem as caretas mais sórdidas para aprenderem a usar o diafragma corretamente.
Como vocês podem imaginar, os primeiros ensaios foram bastante, digamos... trabalhosos. Eles cometiam erros primários, alguns não conseguiam cantar em uníssono. Não que eu saiba lá grande coisa de música, sou uma amadora em todos os sentidos da palavra, mas confesso que por vezes beirei ao desespero, me contendo num sorriso e em doses cavalares de paciência e bom-humor. A vantagem - também esperada - é que eles não têm vícios de cantar errado por anos a fio, são humildes para aceitarem seus erros, não sentem necessidade de sobressair, e se aplicam com afinco aos exercícios e ensaios. Estão todos lá, pontuais, ativos, participando em tudo, desde as meditações bíblicas até as vocalizes.

E o que a princípio era quase um desespero, passou a ser um trabalho compensador. Depois de muito esforço conjunto, oração, treino e um clima de amizade e estímulo, conseguimos harmonizar razoavelmente a primeira música. Algum entendido em música que nos ouvisse poderia julgar o som hediondo, mas enquanto eu ouvia todas as vozes em seus lugares, soando firmes e se harmonizando, fui ao êxtase, quase beijei todo mundo de tanta felicidade.

Surgiu então o problema. Como eles não estão acostumados às luzes e microfones, são tímidos e inseguros se forem colocados perante um público. Quando sugeri que iríamos cantar na igreja em breve, alguns quase desmaiaram, outros já começaram a ter crises de garganta. Mas ficou dado o recado, e embora eu não contasse com o apoio da maioria, os adverti que a qualquer momento poderíamos cantar, pois era para isso que estávamos nos esforçando tanto.

Procurei uma oportunidade por algum tempo. Não queria fazer isso num culto porque eles ficariam muito nervosos e acabariam não cantando nada mesmo, além de correrem o risco de se sentirem humilhados devido a presença de muitas pessoas. Mas eis que uma irmã da igreja resolve fazer aniversário...

Eu estava lá, com uma coxinha numa mão e o playback dos ensaios na outra. Quando vi que todos do grupo já haviam chegado na casa da irmã, levantei. Dirigi-lhe uma pequena homenagem, li um texto bíblico condizente com o tema da música ensaiada e anunciei que o nosso grupo iria cantar naquele momento em homenagem ao natalício daquela pessoa tão especial.

Dava para ouvir o coração de alguns batendo em ritmo de escola de samba. Eles se entreolharam medrosos, visivelmente assustados, mas incapacitados de reagirem porque a irmã realmente nos é especial, e ficou tão comovida com a iniciativa que não deixou espaço para ninguém voltar atrás. Sem um pingo de piedade, pedi para que todos ficassem de pé, se ajuntassem e soltei o playback com a melodia conhecida. Eles precisavam dar esse passo, quebrar a barreira do medo, terem uma primeira experiência como cantores. E tinha de ser ali, onde quer cantassem bem ou horrivelmente, todos achariam sublime, porque não entendiam muito de música.
Amigo, eu bem que gostaria , mas esta não é uma história sobre os milagres que Deus é capaz de fazer, ou anjos que se juntam aos cantores para dar uma harmonia perfeita e celestial...

Um dos tenores tentava engolir os cinco salgadinhos que, nervoso, colocou na boca de uma vez só. A contralto à minha direita teve um acesso de tosse. A soprano mais segura acabara de beber um copão de guaraná borbulhante e não conseguia mais que miar as notas. As calças dos baixos balançavam convulsivamente no ar, e a luta para unir as vozes lembrava a batalha de Waterlloo...

Aceito todas as críticas das ONGs protetoras de cantores amadores. Também assinto na reprovação dos psicólogos, regentes, assistentes sociais, ouço as mais duras censuras de todos os cantores aqui. O fato é que, depois que saímos de lá e convencidos a me pouparem o pescoço, demos boas risadas e chegamos à conclusão que a segunda vez será bem melhor que a primeira. Pelo menos pior, vai ser impossível ser. E eles vão se dedicar mais ainda a fim de estarem prontos para cantarem a qualquer instante necessário. A lembrança deste fato vai deixá-los tão atentos quanto preparados.

Sabem, Jesus é um regente que decidiu nos fazer surpresa análoga. Ele poderia ter escolhido anjos perfeitos e poderosos para terminar a maior obra desde a criação: levar o evangelho a toda criatura, e anunciar que Ele está voltando em breve e quer salvar a todos. Mas ao invés disso escolheu a nós, pobres coristas limitados, cheios de defeitos, falhas e pecados. E prometeu que muito em breve se dará o dia glorioso em que nos apresentaremos face ao Universo, com essa obra terminada – quer por nossas mãos, quer não. Temos à nossa disposição tempo, material e estímulo suficientes para estarmos preparados para esse grande dia, mas será que temos dedicado esforço bastante para não sermos pegos completamente desafinados com a música divina? Quando o Rei e Regente do Universo vier, achará em mim uma voz melodiosa por proclamar as verdades do Reino, e segura por firmar-se na Rocha? Ou apenas um par de pernas tremendo por saber-se nota dissonante da Bíblia, desesperando em gritar para fugir da face do Cordeiro?

Quero convidá-lo a, junto comigo, preparar-se com dedicação para tomar parte no coro celestial. É agora que devemos afinar nossas vidas de acordo com a música que Deus compôs para a humanidade, fugindo dos ritmos e dissonâncias que Satanás insiste em tentar inserir entre nós. A partitura é a Palavra de Deus. Unidos, orientando e confortando uns aos outros, ficará mais fácil conseguir a harmonia necessária. "Quando, pois vier o Filho do homem na sua glória, e todos os anjos com ele" (Mt25:31), nós nos uniremos a eles num perfeito louvor, em grandioso coro celestial.

Uma semana iluminada!

Luna

sábado, 3 de março de 2001

Biografia não-autorizada de um urubu

Seguindo a tradição milenar do calendário brasileiro, é passado o carnaval e começa oficialmente o ano. As férias se foram, deixando apenas a lembrança de umas boas histórias para contar; que eu, enfocando espiritualmente, me proponho a dividir com vocês.

A maior parte do meu ócio de verão foi passado na praia de Muriú, onde minha família possui uma pequena casa cercada por um paraíso tropical. Esse tipo de cenário costuma atrair os mais variados tipos de pentelhos de verão: cunhados, amigos do primário de quem você nem lembra mais, a vizinha do tio da namorada do amigo do seu primo em terceiro grau. Mas o que não esperávamos, é que um veranista muito mais bizarro nos viesse fazer companhia.

Aproveitando a onda atual de exaltação aos animais, que fez a secretária de defesa dos animais do Rio de Janeiro empregar um cão em cargo público de bastante reputação, e uma Universidade do Paraná emitir diplomas para uma cadelinha poodle e uma égua, resolvi também fazer minha homenagem. Quero registrar aqui uma biografia e dar meu viva à alimária!

Ele já chegou bastante bronzeado e recebeu o nome de Tiazinha. Segundo consta, era macho, mas não escapou à alcunha humilhante. Parece que o viram pela primeira vez, andando com as galinhas da minha tia, mas como todo bicho que chega a Muriú, acabou indo parar na nossa casa. As reações à chegada dele foram as mais diversas, mas todos estava unânimes numa coisa: o urubu era feio. Asqueroso. Tinha um olho torto e uma pata manca que o fazia ainda mais medonho, e seu bico parecia ter sido fabricado por um produtor de filme de terror trash. De alguma forma se afeiçoou ao nosso alpendre e insistia em passear por lá, assombrando os cachorros e traseuntes mais desavisados. Minha irmã mais nova, que a princípio morria de repugnância por ele, passou a lhe dar restos de comida, sobre os quais Tiazinha avançava com avidez, dando um nó no estômago dos que presenciavam o espetáculo.

Certo dia, um primo nosso levou o urubu para a Beira da Lagoa, e ninguém nunca mais o viu. Alguns desconfiam que ele foi morto, outros, como eu, preferem achar que agora Tiazinha voa pelos prados e campinas, com aquele vôo sublime que só os urubus têm. Quando em terra esses animais assustam, parecem-nos horríveis, nojentos, monstros comedores de carniça. Mas não há como ficar pasmo diante do belíssimo vôo deles, quando planam num balé majestoso pelos ares. Nisso eles são tão bons e bonitos quanto qualquer águia americana. Chego a achar até que os urubus deveriam viver sempre planando, lá em cima parece ser o lugar ideal para eles ficarem, não acha? Não é a opinião da minha irmã mais nova, que agora anseia a oportunidade de ter de novo um urubu de estimação.

Pois se afirmam que somos parente do macaco, e temos um tiquinho mais de genes que os vermes, eu lanço essa: nós temos algo em comum com os urubus.

Deus nos criou para as alturas. Quando os anjos nos vêem aqui na terra, acho que custam a acreditar que foi por essa raça medonha, horrível, desfigurada, que o Filho de Deus deu a vida. E se nós nos acostumarmos as coisas desse mundo, tranquilos em passear pela vida terrestre nos alimentando dos restos de prazer que ela tem a nos oferecer, não passaremos nunca de feios comedores de carniça espiritual. Porque tudo que há de bom aqui, é resto degradado por seis mil anos de pecado. Se nos conformarmos só com a felicidade que a humanidade busca na satisfação carnal, intelectual, social, financeira, espiritualmente seremos sempre a mais rasteira e repugnante criatura.

Mas experimente planar sobre tudo isso. Decida ir até o céu e você encontrará seu verdadeiro lugar. É buscando os objetivos mais elevados, os padrões celestiais, que nos transformaremos em lindo espetáculo a todo o universo. Alçaremos vôo belíssimo, que nos levará além de toda a pequenez dos limites humanos. Descobriremos nossa vocação para seres celestes, e mergulhando na atmosfera desse céu, ficaremos cada vez mais lindos, à medida em que chegarmos mais perto de Deus.

domingo, 19 de novembro de 2000

Out

“Na tua presença, Senhor, estão os meus desejos todos...” Salmo 38: 9

Depois de seis meses de turismo na “Terra da Fumaça” (título carinhoso dado a São Paulo por meu amigo Marcão), chegou enfim o dia de fazer o que realmente vim fazer aqui: a prova para tentar transferir meu curso da UFRN para a USP. Como todos os dias solenes, especiais e esperados, foi um dia completamente normal, com o sol seguindo rotineiramente sua trajetória. Eu me dirigi para o local das provas, tranquila, estando pronta a deixar a vontade de Deus me guiar e certa de que “o coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa vem dos lábios do Senhor” Provérbios 16:1.
Ao contrário de mim, os outros candidatos transpiravam ansiedade por todos os poros, e eu me divertia olhando o modo espantoso como o único membro deles que conseguia se mover - a boca - aliviava a tensão: os que não mastigavam quilos de guloseimas, devoravam lápis (estes em quantidade suficiente para fazer umas duas mil provas subjetivas), ou roíam avidamente as unhas, mordiam borrachas, rezavam e assobiavam, alguns fazendo tudo isso ao mesmo tempo.
Essa atmosfera bélica me fez lembrar o vestibular de 1996, meu primeiro, que prestei para Engenharia Têxtil (embora descobrisse um semestre depois da matrícula que não “prestava” para a área de exatas). A primeira prova foi no sábado, e ficou estabelecido que os adventistas ficariam confinados num local específico, desde as sete da manhã até às dezoito horas, quando lhes seriam entregues as provas. Porém, por um problema de comunicação, nem todos foram avisados de onde seria esse local. Eu fui uma das contempladas...
Faltando cerca de vinte minutos para o início da prova, cheguei à sala onde julgava que seria minha prova, e fui informada que eu deveria me dirigir para o local onde os “sabatistas” ficariam confinados. O detalhe é que ninguém sabia informar onde era esse local, que só descobri depois de uns dez telefonemas e algumas lágrimas desesperadas. Mas como chegar lá? Novamente, ninguém sabia informar. Uma fiscal mais caridosa se ofereceu para procurar conosco pela Cidade Universitária, mas demos voltas e mais voltas sem conseguir achar o destino. Eu já não chorava: entrei em estado catatônico imaginando um longo ano de cursinho. Mas exatamente às sete horas, avistamos o prédio do confinamento: buzina desesperada, clamores desesperados, pernas desesperadas, e a porta do prédio se fechando bem atrás de mim, no segundo posterior a minha entrada.
Desabei num choro compulsivo de alívio, e uma hora depois ainda me agarrava à cadeira para me certificar que tinha mesmo conseguido chegar, que não tinha ficado de fora do evento mais importante da minha vida estudantil...
Ficar de fora não é nada agradável. A minha infância toda sofri com isso porque sou da geração “do meio”, portanto era enxotada das rodas de conversas e risadinhas das primas grandes por ser boba demais, e expulsa das brincadeiras dos primos pequenos por levar vantagem em ser maior que eles. Portanto sei bem como é chato as sensação de não conseguir estar entre os demais, no lugar almejado, em que as coisas importantes acontecem. Qual ser humano gosta de se sentir out, sem participar do mundo ao redor nem ter sua vida inserida numa realidade que deseja mas só os outros participam?
Jesus insistiu sobre esse “ficar de fora”, contando parábolas que retrataram bem como isso é triste. Em Lucas 16: 19, ele falou de um rico que desprezou a vida inteira o mendigo Lázaro, para só depois se dar conta que, não obstante sua aparente religiosidade, ficara de fora das bênçãos divinas. Em Mateus, no capítulo 13, versículo 47, ele conta dos peixes que, já bem seguros nas redes dos pescadores, ficaram fora da pesca, sendo jogados fora por não serem de boa qualidade. No capítulo 25 nos diz de cinco virgens que se embonecaram para a festa de casamento mais esperada e concorrida do ano, mas cochilaram sem lembrar de comprar mais óleo para suas lâmpadas, com as quais iluminariam a procissão do casamento, como era o costume. Tiveram de sair para comprar mais óleo e ao voltar, a festa já havia começado e elas ficaram de fora... um pouco mais adiante, no verso 33, Cristo fala da separação entre ovelhas e cabritos, estes últimos , sendo comunicados que foram condenados a ficar de fora do aprisco do Bom Pastor. E no capítulo 22 de Mateus, Jesus fala de um penetra que queria tanto estar dentro da festa mas não se preparou para a solenidade da ocasião, e não só ficou de fora como foi expulso debaixo de pancada.
Todos esses ficaram a chorar e ranger os dentes, por perderem o lugar entre os demais. Cada parábola explica um motivo para isso: o rico confiou demais na própria justiça, os peixes achavam que só pelo fato de estarem no meio dos outros seriam considerados tão bons quanto deveriam ser, as cinco virgens néscias aguardavam o noivo sem se prepararem para o evento, os cabritos sustentavam o título de cristãos sem jamais se darem conta das necessidades dos seus semelhantes, para amá-los como a si próprios, e o penetra do casamento não atentou que sua condição destoava com o lugar em que desejava estar. Não é preciso fazer muito esforço para perceber uma aplicação espiritual bem visível para todo nós, que como cristãos queremos alcançar o Reino que Ele nos prometeu.
Mas Jesus sempre vai além: ele não dá só o diagnóstico, mas prescreve o remédio. É por isso que a Bíblia também está cheia de relatos de gente que não se conformou em ficar de fora. Que o diga Zaqueu, que tinha todos os motivos para fugir dAquele que podia ver cada um dos seus vários pecados, mas a despeito disso não se conformou (nem com sua impossibilidade física) e chegou ao ridículo de subir numa árvore para ver o Mestre. Tem também o cego Bartimeu, lutando contra a multidão que tentava fazê-lo calar e gritando bem alto por misericórdia, para não ficar de fora de obter a bênção desejada (Marcos 10:46). O mesmo fez a mulher com um fluxo de sangue que lhe consumia, a qual não se conformou em ficar de fora da vida em abundância que prometia o Messias, e desafiando a palavra de todos que a desenganaram, agarrou firme no manto de Jesus e obteve o seu quinhão (Mateus 9:20). E eu não poderia deixar de citar o paralítico, que já passara tanto tempo sofrendo em sua incapacidade, era tão desprezível em face dos homens e tão impotente para chegar a Jesus, coitado... coitado nada! Ele venceu a auto-piedade, conseguiu ajuda e – bem atípico para um paralítico - destelhou até uma casa para não ficar de fora do lugar onde estava o Filho do Homem!
Para quem sabe exatamente onde quer chegar e caminha preparado nessa direção, nunca faltará a recompensa, nunca haverá a sensação de ficar de fora. Deus prepara para nós caminhos que nos levarão a lugares especiais, onde encontraremos a tão sonhada felicidade. Aqui mesmo na Terra já podemos ter um antegozo do Céu, deixando-nos guiar suave e confiantemente para onde Ele nos quer levar. Não vale a pena se conformar em ficar de fora, porque o que quer que nos prenda lá não justifica perder o que nos espera nos planos de Deus. Não é vantagem se acostumar à mediocridade do lado de fora: é só lutando que tomaremos posse do nosso verdadeiro lugar, mesmo que ele nos pareça distante em nossa visão encoberta de lágrimas, dúvidas ou medo. É lá dentro, pertinho dEle que devemos estar.

Uma semana feliz e iluminada!

Lux Lunae

domingo, 12 de novembro de 2000

Atenção às nuvenzinhas!

“E olhei, e eis uma nuvem ...” Apocalipse 14:14

Depois de sofrer durante cinco meses o inverno de São Paulo (desesperador para quem tinha como conceito de “frio de rachar” a temperatura de vinte graus centígrados), estou, finalmente, tendo o prazer de sentir o meu saudoso sol. Relembrando no calor da pele, minha condição de filha da terra Natal, a colônia morena sentada no litoral brasileiro. Forte dos Reis Magos seu brinco de estrela, ondas de Ponta Negra seu leve vestido branco, moça risonha e indolente, que embora parceira fiel de traquinagens do vento, ostenta o título nupcial de Cidade do Sol.
Tomada por esse saudosismo que ataca os poetas nordestinos longe de casa, resolvi desenterrar algumas peças do meu guarda-roupa que não via há muito tempo, e sair para comemorar a ressurreição das minhas glândulas sudoríparas. Encontrei um vestido claro, leve e florido, o qual combinava perfeitamente com as sandálias carentes de pés há meses, e com o tempo lá fora. Abri a porta de minha casa, respirei fundo a brisa morna e olhei para o céu de azul-vivo-e-vivificador. Vi lá ao longe, uma pequena nuvem negra, quase imperceptível e lembrei-me das recomendações da minha amiga Lucy antes de eu vir para São Paulo: “mesmo que o dia esteja super ensolarado, leve sempre uma sombrinha e um casaquinho na bolsa”, mas convenci-me de que aquela nuvenzinha não era nada no meio do oceano de luz que estava aberto diante de mim. E lá fui eu andando tranquila e feliz.
Uma hora depois eu voltava para casa, o vestido encharcado gotejando água sobre as tiras descoladas das sandálias, que eu arrastava sofregamente contra a correnteza de lama que descia a ladeira da minha rua. Mal conseguia enxergar onde pisava porque o vento forte arremessava a chuva contra mim, e os trovões e raios completavam a cena dantesca. Chegando em casa, ainda mais saudosa do sol de Natal, me perguntava por que eu não dera ouvidos ao conselho da Lucy e subestimei o poder daquela nuvenzinha negra.
- Deveria ter lembrado da história de Elias! – falou um amigo meu, mal conseguindo conter as risadas ao se deparar com aquela criatura desfigurada, parecendo ter sobrevivido a uma enchente.
Deveria mesmo!
Elias orara a Deus para que não chovesse sobre a terra, pois Seu povo havia esquecido completamente dEle, e agora trilhava os caminhos da iniquidade e da apostasia. E durante três anos e seis meses, nem uma gota sequer se precipitou sobre o solo. Mas Elias convidou o povo a se humilhar e tornar para o Senhor, confessando seus pecados e reconhecendo o Deus de seus pais como o Deus vivo. Os profetas de Baal foram eliminados e agora a maldição do Céu devia ser retirada e renovadas as bênçãos temporais de vida.
A terra ainda estava mais ressequida que nunca, mas Elias disse ao rei Acabe: “Pode ficar tranquilo que eu já posso ouvir ruído de abundante chuva” e vai ver até lhe recomendou andar com um casaquinho e uma sombrinha. Depois, Elias subiu ao Monte Carmelo e lá orou fervorosamente confiando que, o mesmo Deus que havia mandado a estiagem ,tinha prometido abundância de chuvas como recompensa do reto proceder, e agora Elias esperava pelo derramamento prometido. Por sete vezes ele mandou seu ajudante ir olhar se havia algum sinal no céu de que Deus ouvira suas orações, e na sétima recebeu a resposta: “Eis que se levanta do mar uma nuvem pequena como a palma da mão do homem” (I Reis 18: 44). O profeta poderia ter pensado que só uma nuvenzinha não queria dizer nada, mas pela fé contemplou nela uma abundância de chuva. Antes mesmo de ver o pequeno sinal no céu, ele tinha certeza que Deus agiria, e clamou em oração pelo que já esperava confiantemente. Que fé! E Elias “era homem sujeito às mesmas paixões que nós” (Tiago 5:17), a diferença é que ele acreditava num Deus cuja palavra é eterna e cumpre cada promessa com fidelidade.
Muitas vezes nos encontramos no deserto de nossa desesperança, morrendo de sede de justiça, amor e paz, mas esquecemos que ele prometeu saciar-nos (Mateus 5:6). Deixamos nossos problemas nos prostrar e nossos sonhos jazem tão ressequidos quanto a terra em que nossos pés machucados estão. Mas não nos apossamos das promessas que Cristo deu para cada problema humano, e que estão registradas na Bíblia, justamente para que não esqueçamos de crer nelas. Experimente apenas lembrar, e se a ferida dói tanto e tanto que você já não consegue nem pensar... abra a carta de Deus para você e leia! Elas estão lá!
É importante esquecer tudo o que o ser humano lhe ensinou sobre promessas. Vivemos num mundo de promessas quebradas e desde cedo aprendemos que boa parte do que os seres humanos nos prometem não passam de mentiras, ou alimento de ilusões. Eu bem sei disso! Tudo começou com a serpente lá no Édem, prometendo que Eva viveria para sempre. Depois minha professora me garantiu que Papai Noel deixaria um presente embaixo da cama e tudo que eu vi foram minhas sandálias. Veio então minha madrinha, que me deixou desde o cinco anos até hoje esperando uma boneca de presente. E seguiram-se a série de decepções: as juras de amor eterno do primeiro namorado, o pagamento do salário atrasado no primeiro emprego, a amizade que não resistiu à primeira prova, a plataforma política do candidato a quem dei meu primeiro voto, tantas outras que você também deve conhecer bem. E aí acontece uma coisa interessante. Sempre que uma nova promessa surge, tendemos a reagir a ela segundo nossa história de decepções com todas as promessas não cumpridas. E de repente até as promessas de Deus podem nos parecer sem força... mas é exatamente isso que o nosso arquinimigo quer. Porque se duvidarmos das promessas de Deus, fechamos as portas para que elas se cumpram em nossas vidas.
Por isso creia. E mesmo que o coração teime, que a razão questione, que há muito tempo você esteja esperando uma gota de bênção para refrescar sua angústia, e o sol castigue sem que você sinta o menor prenúncio da resposta divina, creia na promessa que Deus reservou para você. E em seguida dê mais uma olhadinha no céu. Talvez perceba uma pequena nuvenzinha lá ao longe, e veja ela crescer proporcionalmente a sua fé e se derramar copiosamente sobre você.
Se mantermos o hábito de erguer o olhar do caminho desértico e o lançarmos com fé ao céu, nunca perderemos de vista os sinais de que Deus está bem perto e agirá no tempo certo. Não duvide das promessas e continue olhando para cima. É de lá que virá a solução e, muito em breve, o cumprimento da mais bela das promessas. A escritora Ellen White, não era meteorologista, mas sabia bem o significado de vigiar o céu. Uma das visões que o Espírito Santo permitiu que ela tivesse, me comove muito e gostaria de concluir partilhando-a com vocês:
“Surge logo no Oriente uma pequena nuvem negra, aproximadamente da metade do tamanho da mão de um homem. É a nuvem que rodeia o Salvador, e que, a distância, parece estar envolta em trevas. O povo de Deus sabe ser esse o sinal do Filho do homem. Em solene silêncio fitam-na enquanto se aproxima da Terra, mais e mais brilhante e gloriosa, até se tornar grande nuvem branca, mostrando na base uma glória semelhante ao fogo consumidor e encimada pelo arco-íris do concerto. Jesus, na nuvem, avança como poderoso vencedor.(...) Com antífonas de melodia celestial, os santos anjos, em vasta e inumerável multidão, acompanham-nO em Seu avanço. Aproximando-se ainda mais a nuvem viva, todos os olhos contemplam o Príncipe da vida. Nenhuma coroa de espinhos agora desfigura a sagrada cabeça, mas um diadema de glória repousa sobre a santa fronte. O semblante divino irradia o fulgor deslumbrante do Sol meridiano. “E no vestido e na Sua coxa tem escrito este nome: Rei dos reis e Senhor dos senhores.” Apoc. 19:16. Os justos clamam, a tremer: “Quem poderá subsistir?” Silencia o cântico dos anjos, e há um tempo de terrível silêncio. Ouve-se, então, a voz de Jesus, dizendo: “A Minha graça te basta.” Ilumina-se a face dos justos, e a alegria enche todos os corações.”
Uma semana feliz e iluminada!

Lux Lunae

domingo, 5 de novembro de 2000

Sei de um lugar de paz

“Sei de um lugar de paz, longe de toda dor,
Aonde vou a luz buscar.
Entre a vegetação, prostrado em oração,
A Deus entrego o meu pesar.
Bem cedo de manhã, ou no cair do sol,
Eu deixo lá o meu temor;
E deste bom lugar eu saio pra enfrentar
A vida com muito mais amor”
(Lugar de Paz – Hino 413 do Hinário Adventista)

Sempre encontrei paz nas coisas brandas. A felicidade não se me revela na explosão, no tumulto do êxtase nem na perda dos sentidos, como muitos a entendem. Felicidade, para mim, sempre teve ares de calmaria, plácida e segura, mãos dadas ao equilíbrio, irmã da paz.
E quando lembro dos momentos em que vivi o amor na sua mais profunda expressão, vejo-o suave e tépido, chamando por minha entrega com mansidão sobremaneira persuasiva, inquestionável. Vejo a mim recebendo-o com pureza; na confiança que sobrepuja o medo, na consciência que dá sentido às sensações, na escolha ética que substitui o impulso do instinto, na razão que corrobora o sentimento, na certeza que vence a defesa, no carinho em detrimento da carícia, na renúncia que toma o lugar da auto-satisfação, na liberdade que convence de um único caminho, e sempre, na paz de uma calma celestial.
Penso que Deus tem os mais preciosos sentimentos, tais como o amor e a felicidade, bem como a Sua própria presença , guardados para o ser humano que os procura na contemplação da paz, daquele que necessariamente aguça todos os sentidos, esquecendo-se de si mesmo para encontrar-se em seu verdadeiro lugar. Os tesouros são entregues aos que se entregam completa e confiantemente à missão de os buscar, e para os achar há que, necessariamente, ir até onde eles estão. Os tesouros que Deus reservou para serem sentidos por nós estão escondidos num lugar de paz, onde a verdade das coisas humanas se revelam.
Onde é esse lugar? Pode ser no templo de oração, pode ser o ônibus na volta do trabalho, pode ainda ser no quintal da sua da sua casa, na beira da praia, no alto da montanha, no leito da doença, no banco do seu carro, esperando a esfiha na lanchonete, num abraço carinhoso da pessoa amada, pode até mesmo ser exatamente aí no lugar em que você está. O lugar de paz é aquele em que você pára e se dá conta que pode ter tudo aquilo que Deus sempre sonhou para você. E mais: esse lugar é quase sempre confundido com o fim, porque é diante dele que chegamos quando sentimos já não haver nada em nós, que nossos planos falharam e o que construímos com nossas mãos não nos deu o que queríamos.
Certo dia, se aperceberam disso os seguidores de Jesus de Nazaré.
A tarde caía silenciosa e uma atmosfera deprimente enchia todos os espaços. Reunidos dentro de uma casa trancada à sete chaves, os discípulos sentiam que havia chegado o fim. Tantos planos para o Reino de que o Mestre falara! Tantos sonhos de um novo Israel sob o comando dEle! Tanto poder que Ele demonstrara, convencendo-os que seria capaz disso! E agora... ele jazia num sepulcro. Aconteceu tudo tão rápido! Pedro até que tentou evitar que aquilo acontecesse, se dispondo a enfrentar quem fosse para manter o Mestre junto de si. Mas Jesus o repreendera e partiu para nunca mais voltar... de que adiantara terem abandonado o lar e partido para o desconhecido para viverem com esforço, privação, perseguição e abnegação, com tanta coragem e sofrimento? Relembravam cada momento sem conseguir assimilar aquela perda não planejada. Os momentos bons passados ao lado de Cristo, os milagres, a autoridade dada para vencer o mundo, os ensinos preciosos que rememoravam com carinho e que levariam por toda a vida... mas agora... agora estava tudo terminado. O que fazer? Esquecer tudo aquilo e voltar à antiga vida? Impossível! Conviver com Jesus mudou todos os padrões daqueles homens, que já não viam a Deus, ao mundo e às pessoas com os mesmos olhos e anseios de antes. Tinham chegado muito perto da felicidade, e qualquer coisa abaixo disso lhes figuraria a mais tediosa frustração.
Mas “veio Jesus e pôs-se no meio deles” (João 20: 19), e aquele lugar mudou. Em Sua primeira aparição aos discípulos, depois de ressurgido, o Salvador a eles Se dirigiu com as palavras: “ Paz seja convosco”, então “abriu-lhes o entendimento para compreenderem” (Lucas 24:45) e os discípulos encontraram ali, onde antes habitava o medo, a ansiedade e a angústia, um lugar de paz. De repente tudo lhes pareceu claro aos seus olhos, porque simplesmente pararam de olhar para si mesmos e viram o que Deus tinha planejado para eles. Viram, e aguçaram os sentidos para tocar na condição que lhes estava reservada terem, se houvessem, desde o início, permitido o Espírito Santo falar mais alto aos seus corações. Desapontados consigo mesmos, identificaram seus próprios erros, reconheceram onde falharam, sentiram seus corações tão quebrantados que seus olhares eram um pedido de perdão. E o que parecia ser o fim tornou-se o início de uma nova e abençoada caminhada.
Jamais tornariam a ter aquele contato íntimo que o Salvador entreteve com eles por três anos, mas agora tinham descoberto o tesouro: entenderam o amor de Jesus, tomaram noção do Seu significado em suas vidas, e descobriram que, nesse período de convívio, fora lhes dado a perceber a grandeza da felicidade que lhes estava reservada, bem como concedidas graciosamente todas as chaves para chegar até ela. Uma transformação profunda ocorreu naquelas almas, e eles saíram daquele lugar de paz, prontos para enfrentarem a vida com muito mais amor, segurança, equilíbrio, maturidade, verdade, esperança e, é claro, a mais sublime e inexpugnável paz.
Não havia mais a ânsia apaixonada e cega dos próprios desejos, porque ela nunca deveria ter existido. Nem nunca mais existiria, depois da visão reveladora sobre a Pessoa do Amor, porque os discípulos encontraram a Verdade de Deus e de si mesmos na calma introspectiva e renovadora daquele bom lugar...
Deixe Jesus entrar agora e faça desse lugar, o seu lugar de paz. Olhe bem e perceberá que, no muro que lhe parece pôr fim ao caminho há uma porta. Ele diz: “Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a Minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo.” Convide-o a ficar contigo. E prove, para nunca mais esquecer, seu ser existindo através dos sentidos de Deus.
Um sábado feliz e iluminado.

Lux Lunae

domingo, 29 de outubro de 2000

Deixa ir a ti...

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu...” João 3:16

Esta semana foi uma das mais duras desde que cheguei em São Paulo. Devido a uma mudança não programada de casa, eu me cansei muito, física e emocionalmente (não tenho grande facilidade em lidar com mudanças bruscas de quaisquer tipos), e resolvi passar numa livraria cristã para procurar um livro interessante que me ocupasse a mente e animasse o coração. Divórcio... como amar seu marido...aprenda a criar seus filhos...o sexo são... testemunhos de sobreviventes de guerra...vícios: como combatê-los... comida assassina...puxa! Mas que deprimente está o nosso mundo! Resolvi recorrer à boa e velha Bíblia que fala de um tema leve e ao mesmo tempo poderoso para dar a solução de todos os problemas: o amor de Deus. E como já há muito escrito sobre como sobreviver ao desamor, eu resolvi escrever sobre coisas mais simples, tentando descobrir como viver o amor.
Decidi falar sobre peixinhos. Mais precisamente os peixinhos da Lagoa de Muriú, lá no RN. Minha família tem um pequeno sítio nesta cidade praiana. À quinze minutos da casa fica a praia mais bonita do mundo, à vinte minutos uma lagoa magnífica entre dunas de beleza estonteante, e à cinco minutos, uma grande lagoa da qual praticamente apenas a família usufrui, por possuir os terrenos da margem. Tive o privilégio de passar bons momentos de minha infância nesse pequeno paraíso, junto com primos, tios e avós.
Na lagoa mais próxima à nossa casa, costumava brincar por horas com os peixinhos, que chamávamos “piabas”. Bastava ficar quieta um pouquinho e eles começavam a se aproximar, às dezenas, centenas, incontáveis, nadando ao redor e de vez em quando arriscando uma mordiscada de leve, como suaves beijinhos. Mas um único movimento na direção deles e... adeus! Todos iam embora em segundos! Algumas vezes fazíamos apostas para ver quem conseguia pegar um deles... no meio daquele cardume imenso parecia fácil, mas nunca ninguém, nem adulto nem criança conseguiu, dada a rapidez e reflexo dos pequeninos. E o jeito era usar truques... pegávamos um pano grande, enchíamos de farinha de mandioca e o afundávamos levemente na água. Os peixinhos avançavam sobre o banquete, e aí era fácil pegá-los; bastava levantar rapidamente o pano, encurralando-os. Na hora a sensação era maravilhosa: “consegui te pegar!! Vou cuidar de você ter sempre seus beijinhos!!”. Depois os colocávamos em um vasilhame com água da lagoa e em poucas horas... estavam todos mortos! Por isso, aprendi bem cedo que era melhor ficar esticada como um jacaré na beira da lagoa, recebendo os beijos dos peixinhos, deixando apenas eles virem até mim, sem nenhuma pretensão de posse, recebendo seus carinhos aquáticos sem fazer absolutamente nada para convencê-los a ficarem sob meu controle.
Foi difícil aprender a ser assim com os peixinhos, e ainda é com os homens e com Deus! Porque somos ensinados a amar com trocas. Para eu merecer o amor de alguém tenho que dar-lhe algo de muito especial, e então a pessoa terá que me dar algo muito especial também! Logo em seguida, estaremos presos pelo laço do amor, o que significa que, para a vida inteira, possuirei o doce favor do meu ser amado. Certo? Errado.
O amor pressupõe trocas, mas resumi-lo apenas a trocas, é torná-lo interesseiro e egoísta, é querer determinar o que e o quanto o outro tem a lhe dar, quando você poderia simplesmente receber e não se preocupar em buscar mais. O amor, sem dúvida é capaz de doar tudo de si, mas jamais irá cobrar que o outro o faça na mesma intensidade, para que possa sentir-se correspondido. É muito mais eficaz, numa relação de amor, dar sem interesse e sem cobrança, parar de querer encaixar o outro nos moldes do teu conceito de “dar amor”, e deixar ir a você o que ele tem para te dar.
Quando a gente aprende a amar, antes de tudo, aceitando, sem toma-lá-dá-cá-assim-do-jeito-que-eu-quero, o amor começa a fazer muito mais sentido. Aproveita-se tudo que se tem ao invés de ficar se lamentando o que não tem. Não se criam expectativas quanto ao futuro porque o presente está sendo construído com o aproveitamento feliz de cada momento. Cada nova conquista é motivo para festa e não para ansiedade. Cada passo em direção ao outro flui naturalmente, as trocas acontecem num ambiente de respeito e sinceridade, e ninguém se fere. Há gente, no entanto, que não concebe amor sem dor, uma dor profunda no peito, uma forma prazerosa de morrer aos poucos, uma ferida que, ao contrário da de Camões, dói e se sente vividamente... isso pode até encontrar apoio em alguma corrente poética ultraromântica, mas não é o conceito bíblico de amor. Outro tanto se especializa em prestar gentis favores para cobrar o preço em seguida: dou uma mãozinha ao amigo e ele me dá três pés, faço um agrado sexual ao namorado e ele será eternamente meu, me torno um cristão "administrativamente-correto" e recebo o respeito ( e outras "cositas más") da liderança e irmãos da Igreja. Isso basta! Pelo menos como substituto made in Paraguay do amor...
Amor abençoado, produtivo e forte é o amor dado de graça. Aquele que tudo sofre, sem amargura; tudo crê, sem precisar ser cego; tudo espera, sem ansiedade; tudo suporta porque se sabe vitorioso. Tal qual o amor de Jesus por mim e você. Amor de tal maneira grande, que se deu, para que todo que nele crê, não pereça, mas tenha a vida eterna...
Por isso, esse conceito de amor-troca não funciona com Deus (e funciona com alguém?). Há quem passe a vida preocupado em “barganhar” com Ele: “Deus, veja como sou bonzinho! Fiz tantas coisas certas, cumpri a Tua Lei e as dos homens à risca, e até as regrinhas mais intrincadas da Igreja, então o Senhor tem que me amar muito, não é mesmo? Sou ou não Seu filho preferido, fala a verdade!?”
Então eu penso nAquele olhar que há dois mil anos atrás buscava com amor infinito os olhos dos pecadores. Penso nEsse olhar poderoso buscando os olhos da prostituta que nesse momento chora, no preso marginalizado que agora clama, no jovem viciado que perdeu a vontade de viver... quanto amor dado de graça! Penso nos olhos de Jesus, buscando os meus olhos, os quais jamais poderiam encará-lO sem se encherem de lágrimas e vergonha. Este Jesus olharia o homem bonzinho, o qual eleva as mãos cheias de obras em Sua direção. O cheiro de justiça-própria incomoda o Filho de Deus, mas Ele se aproxima, abraça o pobre homem e diz: “Filho, você quer trocar isso por meu amor? Desculpe, eu não posso fazê-lo, porque isso é muito pouco, mal vale o meu perdão... meu amor por você é tão grande que a única coisa que você pode fazer para possuí-lo é dar a si mesmo a mim. E isso não é uma troca, é a simples aceitação do que já foi comprado para você...”
Amor divino é assim; se dá e sabe receber. Já aprendeu há muito tempo que o valioso não é possuir, controlar, arrancar, exigir, manobrar, violar para conseguir ser correspondido. E recebe o outro, com seu melhor e pior, com o que tem. O poder transformador do amor virá em seguida imputando a Sua Justiça... com todas as coisas sendo suavemente acrescentadas...
Um sábado feliz e iluminado!!

Lux Lunae

domingo, 22 de outubro de 2000

Gostinho de Deus

“Eu sou a videira verdadeira...” João 15: 1

A tarde do sábado passado foi uma das mais agradáveis que já tive. A manhã já tinha providenciado que o espírito estivesse leve, depois de assistir um culto de poesias e músicas sacras realizado pelo coral ACASP. A mente estava em harmonia com a brandura do dia claro e fresco, e o corpo satisfeito por um almoço que foi um verdadeiro gozo gastronômico. Além disso, eu ainda tinha a companhia do ser amado procurando comigo o lugar mais bonito das redondezas para fazer sesta e festa.
Encontramos uma pracinha linda, pequena mas alegre e aconchegante. O lugar perfeito para aquela “contemplação da natureza sem responsabilidade botânica”, só para admirar a criatividade Divina.
Pombas embaixo de uma enorme seringueira, bem-te-vis no tronco de uma árvore altaneira, passarinhos azuis brincando numa pitangueira... espere! Uma pitangueira! Dá para acreditar numa pitangueira carregada de frutos no meio de São Paulo? Mas ainda havia a apoteose: uma amoreira!! Eu nunca havia provado uma pitanga também, mas à amora acrescentava-se o desejo que sempre tive de sentir seu sabor de verdade. Elas sempre me pareceram tão suculentas nas embalagens de balas e doces! Colhemos as frutinhas com avidez. Que frutinhas lindas! Que cor fascinante! que formato admirável! que gosto... gosto...hann...estranho!!! Não era o gosto das balas e doces, era absolutamente diferente do que meu paladar tinha convencionado a chamar “gosto de amoras”. Contei isso para o meu namorado, que replicou com sua tese do gosto das cores: “o que você tinha provado não era o gosto da amora, mas um gosto vermelhinho. Esses gostos artificiais são assim: dão nomes de frutas a gostos que na verdade nem chegam perto do original, são apenas gostos vermelhinhos, amarelinhos, verdinhos...”
Isso me fez lembrar um outro lugar lindo, para onde eu gostaria que você olhasse agora. Também há árvores diversas e frutíferas ornamentando o local, e treze homens caminham por ali lentamente. Um vai à frente falando suave e mansamente, mas Suas palavras envolvem a cada um dos que O ouvem, como uma brisa refrigerando a alma. A lua esparge sua clara luz, revelhando-Lhes uma florescente videira, para onde Aquele homem de voz poderosa aponta e diz: “Eu sou a videira verdadeira...”
Embaixo dessa videira encontraremos descanso, segurança, proteção e alimento. Seus frutos pendem dos ramos para saciar nossa fome de amor e justiça, para nos dar forças e revigorar o ser cansado das lutas, derrotas e decepções. Basta estender a mão e sentir seu delicioso sabor.
Há no mundo ao redor todas as tentativas possíveis de enganar o paladar, com gostos artificiais que imitam sem jamais chegarem perto do sabor de paz que tem os frutos da Videira. Há até mesmo árvores se proclamando videiras e oferecendo o doce e enganoso fruto, com promessas e prazeres fáceis e tentadores. Como produtos artificiais, seu objetivo é enganar e viciar o paladar. Mas quem escolhe a Videira Verdadeira, terá alimento e nutrição para nunca mais sentir fome outra vez.
Há vida em abundância no gostinho de Deus. Mas esse é um gosto que nosso paladar espiritual tem de se acostumar a conhecer e buscar com discernimento. Existem muitos frutos cheios de corante e sabor artificial prontos para nos ludibriar e levar-nos à desnutrição do espírito.
E cuidados redrobados! Esta semana li uma coisa interessante sobre a língua: quando comemos algo excessivamente doce, as papilas gustativas, responsáveis pela detectação dos sabores, ficam entupidas pela glicose, e qualquer outro alimento que você provar a seguir parecerá sem gosto. Experimente comer um quindim e tomar um suco depois.
Com nossa espiritualidade não é diferente. Se nos acostumamos demais aos sabores adocicados e artificiais do mundo, chegará o tempo em que não mais perceberemos qual o verdadeiro gostinho de Deus, e poderemos rejeitar os frutos da videira por acharmos que eles ficaram, de repente, muito insípidos ao nosso paladar...
Seja o Cristo vivo nossa vida e sustento em cada momento de nossas vidas, e como fez Daniel, resistamos ao banquete dos ímpios. É acostumando o paladar às coisas do céu, que tomaremos lugar na promessa: “Bem aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro”. Apocalipese 19: 9
Uma semana feliz e iluminada...

Lux Lunae

domingo, 15 de outubro de 2000

Diante do mar

“Então me mostrou o mar da água da vida, brilhante como cristal, que sai do trono de Deus e do Cordeiro” Apoc. 22:1

Como vinte e cinco mil paulistanos, decidi passar o fim-de-semana no litoral, e me dirigi até a casa de um amigão no Guarujá. Fui na sexta-feira, um dia depois do feriado, para evitar o congestionamento gigantesco, mas confesso que meu coração ansiava pela visão majestosa do mar, sentir o cheiro da maresia, pisar a areia macia, respirar a brisa úmida. Quatro meses sem estar numa praia, longe do clima litorâneo que eu tanto amo e onde cresci... e eis que ele surge diante de mim. Enorme. Com a grandeza realçada pelas rochas altivas que formam a paisagem da serra.
Me senti cada vez menor...meu peito ía apertando à medida que eu chegava mais perto do mar, aquele aperto de “saudade matada” que a gente sente quando dá um abraço em alguém que ama e não vê há muito tempo. Geralmente, praia é encarada como sinônimo de alegria, diversão, agito. Eu porém sempre a encarei como pretexto para reflexão. E agora muito mais, já que aquela paisagem me envolveu numa atmosfera de saudosismo que “encharcou” todos os meus sentidos de água salgada –as minhas lágrimas traduzindo ondas de sentimentos.
Gente entusiasmada em mergulhar nas ondas. Inexplicável estusiasmo aquático. E eu mergulhava cada vez mais fundo em mim. Uma menina passa de biquíni vermelho. Deve ter cinco anos... brinca com a areia, e a simplicidade do que a vida significa para ela, naquele momento, me atrai. Lembrei de quando meu pai levava a mim e as minhas irmãs para a praia da Via Costeira em Natal, e foi lá que eu aprendi a primeira lição sobre perdas.
Certo domingo, depois de muito tempo brincando nas areias grossas e águas exibidas daquela praia, nos dirigimos até o carro para irmos embora. Eu, como a maioria das crianças, corri na frente, zombando das minhas irmãs que vinham atrás reclamando da areia quente. Quando atravessava a rua que me separava do carro, fui surpreendida pela freiada brusca de um outro carro que, lembro bem, ficou com o pára-choque a uns dois centímetros de mim. Meu pai observava tudo do outro lado da rua, e quando o motorista foi embora, ele e mais dois policiais que estavam perto correram , não acreditando que eu pudesse estar intacta, dada a velocidade com que o carro se arremeteu contra mim. Meu pai, nervoso como jamais o vi, me abraçou e chorou compulsivamente. Eu não dizia uma palavra... foi a primeira vez que vi meu pai chorar, e além do susto que passara a pouco, me assustava ainda mais com a dor que ele demonstrava. Depois de algum tempo ele recobrou a calma, entramos no carro e fomos embora. Ele foi o caminho inteiro brigando comigo, predizendo mil castigos, e de vez em quando olhava para trás, bem nos meus olhos, como que certificando-se de que eu realmente estava ali.
Até então eu nunca havia parado para pensar que algo poderia me separar do meu pai. E que caso isso acontecesse, ele iria sentir tamanha dor. Em minha mente, tudo era para sempre, e a coisa mais próxima que eu sentia de perda era a saudade quando ele demorava a chegar do trabalho... mas eu esperava com a certeza de que sempre haveria mais um abraço. Até aquele momento, eu nunca havia parado para pensar que talvez eu não pudesse voltar a vê-lo, e que meu abraço ficaria inerte nos braços, cada vez mais frios. Eu não me preocupava em ficar de mal dele, pois para mim sempre haveria o momento depois de dizer que eu o amava. E quando eu ficava com medo de morrer porque minha avó falou que o mundo ia se acabar, ou meu cérebro ia derreter porque a febre estava muito alta, eu não tinha dúvidas que tudo ficaria bem quando ele sentasse do meu lado, pusesse a mão sobre a minha cabeça e orasse por mim, me dando seu carinho e voz suaves até que eu dormisse. A partir daquele momento na praia, eu cresci um pouco mais na ciência do bem e do mal...
Depois vieram outras perdas.
Meu sagui, chamado Mikimo, meu cachorro Max, minha cadelinha Funny. Até que este ano eu perdi duas pessoas bem próximas, dois amigos que me deram a noção exata do que a morte significa para o coração humano. O primeiro foi o Jairo, e logo em seguida o Felipe Veras. Entendi, sem jamais aceitar, como dói a falta de alguém que amamos e como demoramos a valorizar com exatidão a importância da sua simples presença. O primeiro impulso é pensar que acabou, e que você também fracassou. A solidão atordoa como se a morte gargalhasse em nossos ouvidos. Aí, tudo fica mutilado, incompleto, impotente, tudo tem sabor de nunca mais, cheiro de desesperança, há tantas dúvidas que até o nosso caminho parece incrivelmente torto e desfigurado.
Minhas reflexões à beira-mar não foram em vão. Ao chegar em casa, recebo a notícia que o pai de uma grande amiga minha faleceu. Ele era meu vizinho, sempre silencioso e quase sempre incompreendido. Mas desde o primeiro momento surgiu uma empatia entre nós, uma cumplicidade que às vezes se traduzia em profundas conversas que tivemos umas três vezes, outras, apenas no respeito amigo em demonstrações mútuas. Meu coração ficou angustiado e resolvi ligar para casa... recebo a notícia que uma tia muito querida de toda a família faleceu esta manhã. Ela tinha lupus, mas por ser Testemunha de Jeová, se recusou a tomar sangue e teve assim seu sofrimento intensificado até descansar, com uma serenidade solene de quem se sente fiel e em paz com sua consciência. Eu parei alguns momentos para tentar digerir tantas perdas ao mesmo tempo e lancei novamente meu olhar ao mar, não mais o mar do litoral paulista, mas ao Mar da Galiléia.
Lá, um homem também vislumbra o mesmo horizonte. Há poucos dias, sofreu a perda irreparável de alguém que ama e sentiu todo o desespero típico de quem fica com a saudade de quem a morte leva. Sentiu-se impotente por não poder salvá-lo, e terrivelmente frustrado por não ter tido tempo de afirmar que o amava. Muito, muito mais que Ele pudesse imaginar. Ficou deprimido, sem saber qual rumo tomar, pois percebeu o quanto sua vida estava envolvida a daquEle Ser... como poderia continuar com aquela solidão? Que saudade enorme, que sensação de fracasso! Ele chegou que os planos foram por água abaixo, e que tudo acabou. E tudo ficou mutilado, incompleto, impotente, com sabor de nunca mais, cheiro de desesperança, e dúvidas deixando o caminho incrivelmente torto e desfigurado.
Mas sabe, Pedro olhava o Mar e sorria. Ele também estava diante de lembranças fortes... fora ali que Jesus acalmara a tempestade e seus corações cheios de terror, caminhando por cima das ondas para os livrar. “Ali fora a tempestade acalmada à Sua voz. Ao alcance da vista estava a praia em que mais de dez mil pessoas foram alimentadas com alguns pães e uns peixinhos. Não muito distante estava Cafarnaum, testemunha de tantos milagres. E ao espraiarem os discípulos o olhar por todo esse cenário, enchia-se-lhes a mente de palavras e atos do Salvador” ( O Desejado de Todas as Nações, pág. 809). Mas que incrível, as recordações não machucavam Pedro.
E ele também tinha que tocar a vida. Ele e os discípulos estavam necessitando de comida e roupa, tinham de trabalhar e continuar o labor apesar da grande perda. Pedro lançou-se ao Mar com seu barquinho e alguns discípulos e passou a noite jogando a rede em busca de peixes... com aquele semblante sorridente no rosto. E além de ainda nem ter se recuperado bem do desgaste emocional que sofrera, seu trabalho não rendia. Mas Pedro manteve o mesmo ânimo até o raiar do sol.
De longe, na praia, um Observador atento preparava pães e peixes. Era Jesus, e assim que os discípulos se deram conta disso, correram em Sua direção, Pedro com o sorriso explodindo em alegria transbordante. Seguindo a ordem do Mestre de lançar a rede do lado direito – o lado da fé nEle – trouxeram também a rede cheia de peixes, para que lembrassem que, mesmo que eles sentissem solidão ou medo, ainda que fragilizados pelo sentimento de perda, não deveriam jamais esquecer que o Salvador ressuscitado cuidaria deles ainda, provendo-lhes todas as necessidades desde que combinassem seus esforços aos de Jesus ao jogarem a rede.
E sabe o que fazia Pedro resistir tão bravamente à perda? É porque ele cria da ressurreição do Ser a quem esperava. Ele sabia que Jesus apenas foi e voltou como uma onda do mar, mas que chegaria o tempo em que Ele voltaria para nunca mais ir embora. E Pedro poderia reafirmar que O amava, não apenas três vezes, mas dez, cem, um milhão, sempre que sentisse vontade, pois o amado amigo estaria eternamente ao seu lado. Esta esperança viva fazia-o entender que “tragada foi a morte pela vitória” e nada mais poderia o abalar. (I Coríntios 15:54)
Hoje eu só tenho mais motivos para dizer que creio que Jesus vive, e porque Ele vive nós também viveremos. E como Pedro, eu espero por amigos a quem será dada a vitória sobre a morte. “Como Jesus ressurgiu dos mortos, assim hão de ressuscitar os que nEle dormem. Reconheceremos os nossos amigos, da mesma maneira que os discípulos de Jesus. Talvez hajam sido deformados, doentes, desfigurados nesta vida mortal, ressurgindo em plena saúde e formosura; no entanto no corpo glorificado, será perfeitamente mantida a identidade. Então conheceremos assim como também somos conhecidos. No rosto, glorioso da luz que irradia da face de Cristo, reconheceremos os traços daqueles que amamos.” (DTN, p. 804)
Sim, eu creio e espero ansiosa o breve dia em que, numa Terra sem dor nem morte, Jesus, eu e nossos amigos uniremos olhares e reflexões alegres ao horizonte de um mar eterno... o mar de cristal da água da vida, na Jerusalém Celeste.
Uma semana feliz e iluminada.

Lux Lunae