“Entrai pela porta estreita... porque estreita é a porta e apertado o caminho que conduz para a vida, e são poucos que conseguem encontrá-la.” Mateus 7: 13 e 14.
Há algumas semanas, tive o prazer de entrar pela primeira vez no Teatro Municipal de São Paulo. Foi uma das experiências mais emocionantes da minha vida, e certamente o lugar mais bonito em que pus os meus pés.
Fizemos um pequeno tour pelas dependências e escadarias do Teatro, e eu andava com passos solenes de quem está realizando um sonho. Quando enfim nos acomodamos nas cadeiras, esperando o início do espetáculo, eu me vi invadida de arte e beleza por todos os poros. Não sabia para onde olhar primeiro (e meu olhar detalhista não me permite ver sem reparar minuciosamente), permanecia extasiada, sorvendo a emoção que cada pequeno canto daquele lugar me transmitia, e me deixei ser levada pelas melodias de Bach e Villa-Lobos, o meu ser na profusão emocional de quem tem o sonho realizado.
Lembrei de como foi difícil manter esse sonho, num mundo onde já não há lugar para esse tipo de beleza. Meu gosto pelo clássico sempre me fez parecer um dinossauro ET no meu meio, mas se isso não era cultivado por nenhum estímulo das pessoas (antes, muitas vezes ridicularizado), por outro lado eu não cedia à tentação de ser igual para ser aceita. Seguia sozinha, às vezes meio sem norte e até hoje com muito a aprender sobre as artes que sempre amei... mas segui, e por isso hoje tenho histórias de sonhos realizados para contar.
Pode não ser fácil achar a porta de seus sonhos! Pode ser que ela não pareça tão atraente como você pensa que ela deveria ser! Pode ser que você veja centenas de pessoas passarem indiferentes por ela e ache que aquela é a porta errada, preferindo seguir a multidão! Pode ser que você desacredite e esqueça do seu sonho, entrando por uma porta, para somente depois de estar lá dentro, descobri que ali não é o seu lugar... mas não consiga se colocar na contramão para voltar! Pode ser que, por equivocar-se quanto ao seu verdadeiro sonho, você passe a perseguir a porta errada e nunca chegue a encontrar o que você realmente quer!
Aprendi uma lição sobre a porta dos meus sonhos na primeira vez que fui a um teatro: o Teatro Alberto Maranhão, em Natal. Vi numa chamada na TV que a orquestra sinfônica iniciaria uma série de apresentações gratuitas no Teatro, e logo me dei conta que não ia adiantar ficar esperando que alguém me acompanhasse até lá. Peguei o ônibus e cheguei quinze minutos antes da apresentação, mas as portas do Teatro estavam fechadas, e tive que esperar numa fila do lado de fora. Quando as portas principais se abriram, todos entraram de uma vez, e eu, sem saber para onde ir, resolvi segui um pequeno grupo que me pareceu já ter ido ali outras vezes... nem reparei que eles estavam vestidos bem mais elegantemente que eu; meu olhar se dirigia para cada detalhe daquele lugar lindo, que até então , era o mais bonito em que eu já havia posto os pés. E eu estava emocionada demais para prestar atenção a qualquer coisa que não fosse arte...
A fachada interna do Teatro me apareceu magnífica, cheia de portas e escadas. As pessoas entravam por lugares diferentes, tentei entrar pela porta principal mas um educado funcionário avisou-me que as cadeiras ali já estavam todas reservadas para as pessoas que tinham adquirido os ingressos antecipadamente. Então dirigi o olhar novamente até o pequeno grupo que subia lenta e distintamente por uma escada lateral. Segui-os, tentando fazer uma cara de quem sabia muito bem para onde estava indo. O grupo parou diante de uma porta e certa funcionária do Teatro abriu-a , sorridente. Eu, logo atrás, fiquei comovida com a recepção calorosa que era dada às pessoas ali naquele lindo Teatro!! E entrei com o elegante grupo pela porta, o qual só se deu conta da minha presença quando estava prestes a se acomodar em suas não menos elegantes cadeiras. A funcionária, com um sorriso já não tão espontâneo, olhou para mim e disse:
- Você deve estar enganada quanto ao seu camarote... este é o do deputado fulano e sua família... posso ajudá-la?
Fiquei tão azul quanto a deselegante blusa que estava usando e expliquei que me dirigi até ali porque “lá embaixo” todas as cadeiras estavam ocupadas. A moça sorriu para o deputado e sua família, que me olhavam de cima a baixo, pediu desculpas a eles e me disse:
- Venha, vou te acompanhar até a galeria...
E desde então tenho estado mais atenta na procura pela porta que me levará até o objetivo sonhado, mesmo que ela seja uma humilde e pouco atraente porta de galeria. Foi lá dentro que eu assisti, em pé, duas horas de sonho melódico.
A Bíblia nos fala de homens que, certo dia, também tiveram dificuldades em achar uma porta, e por não perceberem que estavam perseguindo a porta errada, acabaram por perder a própria vida e o sonho de Deus para eles.
Naquele dia em Sodoma haviam duas portas em evidência perante o Céu: a porta da casa de Ló e a porta de saída da cidade. Deus mandou dois anjos baterem à primeira, para conduzirem os justos pela segunda, a fim de que eles fossem salvos. No entanto não havia ali muitos interessados na porta de saída. Quando os homens daquela cidade se deram conta que haviam dois seres hospedados na casa de Ló, aquele estrangeiro metido que queria ser juiz de tudo, cercaram a casa do servo de Deus e puseram-se a ameaçá-lo, exigindo que lhes fossem entregues os anjos para que estes fossem abusados sexualmente. Ao arremeterem-se contra Ló, tentando arrombar a porta de sua casa, os anjos o protegeram levando-o para dentro, olharam um para o outro e conversaram mais ou menos assim:
“É o seguinte: esses homens há tempos perderam seus nobres sonhos de vista. Deixaram-se contaminar pelo pecado a tal ponto que abandonaram os objetivos de Deus para eles, e até mesmo os mais novos não têm forças para resistir, antes se deixam levar pelos pecados dos mais velhos. Agora todos eles tentam arrombar a porta da casa de Ló, quando a porta que lhes daria salvação é a da saída da cidade. Estando eles cegos para verem essa verdade, vamos cegá-los para que não encontrem também a porta da casa de Ló, que eles perseguem com malevolente insistência.” (Gênesis 19)
E assim, os homens de Sodoma se cansaram à procura da porta equivocada, deixando escapar a oportunidade de obterem a salvação. E isso porque já não acreditavam que valia a pena sonhar em ser bom, temente a Deus, justo. Era moda ser mau. Todo mundo era mau! Todo mundo que praticava a injustiça, a imoralidade, a abominação, a maldade, o pecado enfim, era visto como forte, vencedor, poderoso. Somente um homem conseguiu preservar o seu sonho de ser uma pessoa melhor, fiel, temente e justo, e Deus lhe conduziu até a porta que lhe trouxe a vida, a esperança da realização de seus sonhos.
Há hoje muitas portas espalhadas pelo mundo, cada uma nos chamando a entrar. Mas apenas uma está em evidência perante o Céu, e todos os nossos sonhos convergem para ela, se acreditarmos e lutarmos por estes sonhos, não nos deixando influenciar pelos sonhos torpes da multidão, que segue em direção a portas que não levarão ao nosso lugar sonhado. Como está a nossa busca hoje? Estaremos tal como os homens de Sodoma, esgotando nossa forças em busca da porta errada, para a nossa perdição? Ou estaremos atentos para a estreita, humilde e pouco atraente porta da Salvação, pela qual passa o mundo indiferente?
Nessa busca não precisamos seguir os grupos que nos parecem mais elegantes, mais poderosos, mais em moda. A única coisa que precisamos é não perder de vista nossos sonhos, e então a mão de Deus nos guiará até o nosso almejado lugar.
Uma semana feliz e iluminada!!
Lux Lunae
domingo, 17 de setembro de 2000
domingo, 10 de setembro de 2000
Enquanto eu achava que tinha perdido a lente
“Aconselho-te que de mim compres... colírio para ungires os teus olhos, a fim de que vejas”. Apocalipse 3: 18
A hora avançava pela noite fria e chuvosa. O despertador tocou e ao contrário da maioria das pessoas, ao ouvi-lo, me preparei para dormir. Como costumo perder a noção do tempo quando estou na frente do computador, essa é a forma mais eficaz de eu me lembrar que é hora de descansar...
Terminei de ler as últimas linhas de um sermão do Pe. Antônio Vieira – uma semana e meia sem internet foi suficiente para me permitir ler o primeiro tomo -, desliguei o computador, escovei os dentes e fui tirar a lente de contato. Puxei a pálpebra.... nada. Puxei mais uma vez, com um pouco mais de força...a lente não se moveu. Respirei fundo, pensei na bênção que é ter uma córnea antes de murmurar, e puxei mais uma vez, piscando fortemente várias vezes. A lente de contato pulou abrupta e serelepe do meu olho esquerdo, indo cair silenciosamente sobre algum lugar do carpete cinza, que em nada contrastava com a cor dela...
Antes que eu pudesse me baixar para tentar localizá-la pelo reflexo, as luzes se apagam. “Ai, ai , ai...de novo não...”, pensei. Eu estava no meio de um black-out, com nove graus de miopia e sem condições de procurar a lente: se me movesse um centímetro que fosse, poderia pisar em cima dela e reduzi-la a pedacinhos, como o fiz com a malfadada penúltima; se me baixasse e tentasse apalpar os arredores, a pequena coisinha poderia ser afastada ainda mais pela minha mão, ou que é pior, grudar na palma e ser transportada para um lugar em que eu nunca viria a achá-la. Certa vez ao fazer isso, a lente enganchou no meu cabelo, o que eu só descobri quando fui penteá-lo e a vi caindo singelamente no ralo da pia... outra vez, minha irmã fez o mesmo e encontrou a lente dela semanas depois, totalmente ressequida, dentro de um livro de José de Alencar – esta pelo menos se perdeu de- forma culta. Se conseguisse, num salto olímpico, alcançar minha cama, deixando para procurá-la no outro dia, poderia estar levando-a comigo em minha roupa e aumentar a possibilidade de perdê-la, ou se ela ficasse no carpete, um inseto ou rato poderia dar-lhe um fim definitivo durante a noite.
Pensando no que seria sobreviver em São Paulo com meu grau de visibilidade, preferi ficar em pé, esperando a energia voltar, a providenciar um cachorro guia e uma bengala. E para não deixar o sono vencer passei a meditar nas palavras que há pouco acabara de ler, exatamente sobre essa condição incômoda e angustiante: a falta de visão.
Pensei que o espírito Santo, como Oftalmologista PhD em visão teológica, poderia classificar a deficiência visual espiritual tal como a classificam os médicos humanos. E assim, teríamos a miopia, o astigmatismo e a hipermetropia espirituais, cada qual com suas peculiaridades, cada uma podendo levar à cegueira definitiva.
Como míope de família de míopes, tenho de reconhecer as vantagens de o ser. Machado de Assis já dizia: “os míopes enxergam onde as grandes vistas não chegam”. Hehehe. Mas um míope espiritual corre o sério risco de deixar passar a presença de Deus sem vê-la, por não ser capaz de olhar além. Deste mal padeceram os fariseus, que estavam em contato direto com Deus aqui na Terra, ouvindo-O, tocando nEle, comendo do pão que Ele fizera surgir milagrosamente, sentindo Seu cheiro, enfim, sentindo-O com todos os sentidos, menos com a visão. Olhavam para Jesus, mas não viam mais que um homem petulante, um subversivo, um louco que acabaria como o Batista. Eram tão míopes espiritualmente que não conseguiam enxergam além da sua justiça própria, e Jesus em suas pregações já sabia da dificuldade em atingir os corações daquele povo que olhava mas não via (Marcos 4:12). Seria bom meditarmos se temos permitido que nossa visão veja a atuação de Deus em nossas vidas, Seu chamado, Suas advertências, Sua presença. Ao entrarmos na igreja – e ao sairmos dela – bem que poderíamos focalizar nossos olhos espirituais no motivo de nossa crença. Nosso Oftalmologista de plantão está pronto a nos ajudar nesse sentido...
Há ainda o astigmatismo espiritual, que não consegue perceber com nitidez a imagem do Pai, antes a vê de maneira confusa, às vezes equivocada, nebulosa. E acaba vendo uma coisa por outra, não discernindo as coisas espirituais e fazendo má-interpretação delas. Foi por esse defeito visual que os apóstolos , na barca de Pedro, que cruzava o Mar de Tiberíades, derrotada da fúria dos ventos e quase soçobrada do peso das ondas, viram assombrados um fantasma , quando apareceu sobre elas Cristo caminhando a grandes passos a socorrê-la. (Mc. 6, 49) Ora, perguntamo-nos, como podem homens que tinham acabado de ver Cristo operando o milagre da multiplicação dos pães, tremerem como meninos assustados diante do mesmo Cristo? Bem, mais tenazmente deveríamos nos perguntar porque nós temos essa estranha tendência de não enxergarmos a Cristo quando Ele escolhe o meio que acha melhor para guiar nossas vidas, e esse meio contraria aquilo que nós julgamos o melhor, o mais lógico, o mais racional a ser feito. O Espírito Santo não distribui panfletos na rua nem insiste gritando com plaquinhas, mas seu consultório oftalmológico está sempre aberto quando nos dispomos a fazer um exame.
Por fim há a hipermetropia espiritual, que faz a alma doente não ver a presença de Deus embaixo do seu nariz. Este mal nos faz incapazes de enxergarmos o poder de Deus no momento em que Ele está atuando. Foi a hipermetropia espiritual que fez Geazi, o moço que acompanhava o profeta Eliseu, passar uma das situações mais desesperadoras de sua vida. Vendo-se a si e ao profeta completamente cercados pelo exército sírio, com tropas, cavalos e carros, o rapaz correu desesperado em busca do profeta e o encontrou sentado, calmamente, descascando uma laranjinha. Depois de contar ao profeta o motivo de seu pavor, e encher Eliseu até ele não aguentar mais, este orou: “Senhor, peço-te que lhe abras os olhos...” II Reis 6:17. E o que fez Geazi? Sentou, pegou uma laranjinha para descascar e ficou admirando o monte cheio de cavalos e carros de fogo da parte do Senhor, para protegê-los de qualquer mal. A tropa divina estava lá o tempo todo, assim como Deus está o tempo todo presenciando as nossas vidas. O defeito está nos nossos olhos que nem sempre conseguem ver essa presença atuando poderosamente em nosso favor.
A condição da nossa atual Igreja Laodiceana, explanada em Apocalipse 3: 14 – 22 é realmente preocupante pois somos sérios concorrentes a cegueira dupla. Ou seja, além da cegueira provocada pelos males acima mencionados, ainda podemos estar cegos para a nossa cegueira: falta a fé para ver a Deus e para ver a condição debilitada de nossa visão, estando assim nós, cegos duas vezes!
Você já deve ter percebido que a raiz de todos os males visuais aqui estão num desvio na retina da fé. E qual a solução? Pode-se recuperar a perfeita visão espiritual de duas maneiras: ou através de uma queda bem dolorosa, a que todo cego está fadado, tal como aconteceu a Saulo (Atos 9:80), ou então pelo poder milagroso do colírio do Espírito Santo, dado de graça àquele que tem convênio na botica da cruz. (Apoc. 3:18). Jesus é o Deus que tem poder “para abrir os olhos aos cegos” Isaías 42: 7, e assim como o fez quando esteve aqui na Terra, continua até hoje operando com o mesmo poder, clamando com a mesma voz: “olhai, para que possais ver.” Isaías 42:18 e atuando com o mesmo amor para com aqueles que pedem: “Senhor, abra os meus olhos para que eu veja...” Salmo 119:18.
Um feliz e iluminado tudo!!!
Lux Lunae
A hora avançava pela noite fria e chuvosa. O despertador tocou e ao contrário da maioria das pessoas, ao ouvi-lo, me preparei para dormir. Como costumo perder a noção do tempo quando estou na frente do computador, essa é a forma mais eficaz de eu me lembrar que é hora de descansar...
Terminei de ler as últimas linhas de um sermão do Pe. Antônio Vieira – uma semana e meia sem internet foi suficiente para me permitir ler o primeiro tomo -, desliguei o computador, escovei os dentes e fui tirar a lente de contato. Puxei a pálpebra.... nada. Puxei mais uma vez, com um pouco mais de força...a lente não se moveu. Respirei fundo, pensei na bênção que é ter uma córnea antes de murmurar, e puxei mais uma vez, piscando fortemente várias vezes. A lente de contato pulou abrupta e serelepe do meu olho esquerdo, indo cair silenciosamente sobre algum lugar do carpete cinza, que em nada contrastava com a cor dela...
Antes que eu pudesse me baixar para tentar localizá-la pelo reflexo, as luzes se apagam. “Ai, ai , ai...de novo não...”, pensei. Eu estava no meio de um black-out, com nove graus de miopia e sem condições de procurar a lente: se me movesse um centímetro que fosse, poderia pisar em cima dela e reduzi-la a pedacinhos, como o fiz com a malfadada penúltima; se me baixasse e tentasse apalpar os arredores, a pequena coisinha poderia ser afastada ainda mais pela minha mão, ou que é pior, grudar na palma e ser transportada para um lugar em que eu nunca viria a achá-la. Certa vez ao fazer isso, a lente enganchou no meu cabelo, o que eu só descobri quando fui penteá-lo e a vi caindo singelamente no ralo da pia... outra vez, minha irmã fez o mesmo e encontrou a lente dela semanas depois, totalmente ressequida, dentro de um livro de José de Alencar – esta pelo menos se perdeu de- forma culta. Se conseguisse, num salto olímpico, alcançar minha cama, deixando para procurá-la no outro dia, poderia estar levando-a comigo em minha roupa e aumentar a possibilidade de perdê-la, ou se ela ficasse no carpete, um inseto ou rato poderia dar-lhe um fim definitivo durante a noite.
Pensando no que seria sobreviver em São Paulo com meu grau de visibilidade, preferi ficar em pé, esperando a energia voltar, a providenciar um cachorro guia e uma bengala. E para não deixar o sono vencer passei a meditar nas palavras que há pouco acabara de ler, exatamente sobre essa condição incômoda e angustiante: a falta de visão.
Pensei que o espírito Santo, como Oftalmologista PhD em visão teológica, poderia classificar a deficiência visual espiritual tal como a classificam os médicos humanos. E assim, teríamos a miopia, o astigmatismo e a hipermetropia espirituais, cada qual com suas peculiaridades, cada uma podendo levar à cegueira definitiva.
Como míope de família de míopes, tenho de reconhecer as vantagens de o ser. Machado de Assis já dizia: “os míopes enxergam onde as grandes vistas não chegam”. Hehehe. Mas um míope espiritual corre o sério risco de deixar passar a presença de Deus sem vê-la, por não ser capaz de olhar além. Deste mal padeceram os fariseus, que estavam em contato direto com Deus aqui na Terra, ouvindo-O, tocando nEle, comendo do pão que Ele fizera surgir milagrosamente, sentindo Seu cheiro, enfim, sentindo-O com todos os sentidos, menos com a visão. Olhavam para Jesus, mas não viam mais que um homem petulante, um subversivo, um louco que acabaria como o Batista. Eram tão míopes espiritualmente que não conseguiam enxergam além da sua justiça própria, e Jesus em suas pregações já sabia da dificuldade em atingir os corações daquele povo que olhava mas não via (Marcos 4:12). Seria bom meditarmos se temos permitido que nossa visão veja a atuação de Deus em nossas vidas, Seu chamado, Suas advertências, Sua presença. Ao entrarmos na igreja – e ao sairmos dela – bem que poderíamos focalizar nossos olhos espirituais no motivo de nossa crença. Nosso Oftalmologista de plantão está pronto a nos ajudar nesse sentido...
Há ainda o astigmatismo espiritual, que não consegue perceber com nitidez a imagem do Pai, antes a vê de maneira confusa, às vezes equivocada, nebulosa. E acaba vendo uma coisa por outra, não discernindo as coisas espirituais e fazendo má-interpretação delas. Foi por esse defeito visual que os apóstolos , na barca de Pedro, que cruzava o Mar de Tiberíades, derrotada da fúria dos ventos e quase soçobrada do peso das ondas, viram assombrados um fantasma , quando apareceu sobre elas Cristo caminhando a grandes passos a socorrê-la. (Mc. 6, 49) Ora, perguntamo-nos, como podem homens que tinham acabado de ver Cristo operando o milagre da multiplicação dos pães, tremerem como meninos assustados diante do mesmo Cristo? Bem, mais tenazmente deveríamos nos perguntar porque nós temos essa estranha tendência de não enxergarmos a Cristo quando Ele escolhe o meio que acha melhor para guiar nossas vidas, e esse meio contraria aquilo que nós julgamos o melhor, o mais lógico, o mais racional a ser feito. O Espírito Santo não distribui panfletos na rua nem insiste gritando com plaquinhas, mas seu consultório oftalmológico está sempre aberto quando nos dispomos a fazer um exame.
Por fim há a hipermetropia espiritual, que faz a alma doente não ver a presença de Deus embaixo do seu nariz. Este mal nos faz incapazes de enxergarmos o poder de Deus no momento em que Ele está atuando. Foi a hipermetropia espiritual que fez Geazi, o moço que acompanhava o profeta Eliseu, passar uma das situações mais desesperadoras de sua vida. Vendo-se a si e ao profeta completamente cercados pelo exército sírio, com tropas, cavalos e carros, o rapaz correu desesperado em busca do profeta e o encontrou sentado, calmamente, descascando uma laranjinha. Depois de contar ao profeta o motivo de seu pavor, e encher Eliseu até ele não aguentar mais, este orou: “Senhor, peço-te que lhe abras os olhos...” II Reis 6:17. E o que fez Geazi? Sentou, pegou uma laranjinha para descascar e ficou admirando o monte cheio de cavalos e carros de fogo da parte do Senhor, para protegê-los de qualquer mal. A tropa divina estava lá o tempo todo, assim como Deus está o tempo todo presenciando as nossas vidas. O defeito está nos nossos olhos que nem sempre conseguem ver essa presença atuando poderosamente em nosso favor.
A condição da nossa atual Igreja Laodiceana, explanada em Apocalipse 3: 14 – 22 é realmente preocupante pois somos sérios concorrentes a cegueira dupla. Ou seja, além da cegueira provocada pelos males acima mencionados, ainda podemos estar cegos para a nossa cegueira: falta a fé para ver a Deus e para ver a condição debilitada de nossa visão, estando assim nós, cegos duas vezes!
Você já deve ter percebido que a raiz de todos os males visuais aqui estão num desvio na retina da fé. E qual a solução? Pode-se recuperar a perfeita visão espiritual de duas maneiras: ou através de uma queda bem dolorosa, a que todo cego está fadado, tal como aconteceu a Saulo (Atos 9:80), ou então pelo poder milagroso do colírio do Espírito Santo, dado de graça àquele que tem convênio na botica da cruz. (Apoc. 3:18). Jesus é o Deus que tem poder “para abrir os olhos aos cegos” Isaías 42: 7, e assim como o fez quando esteve aqui na Terra, continua até hoje operando com o mesmo poder, clamando com a mesma voz: “olhai, para que possais ver.” Isaías 42:18 e atuando com o mesmo amor para com aqueles que pedem: “Senhor, abra os meus olhos para que eu veja...” Salmo 119:18.
Um feliz e iluminado tudo!!!
Lux Lunae
domingo, 3 de setembro de 2000
Proteção e posse: um dueto
"Porque a mim se apegou com amor, eu o livrarei; pô-lo-ei a salvo, porque conhece o meu nome" Salmo 91: 14
A segunda-feira, amanhã, trará rostos mais animados, pessoas mais sorridentes, conversas mais empolgadas... aproxima-se o feriadão!! 7 de Setembro é dia de comemorar, mesmo que não seja necessariamente a “Independência” do Brasil (comemorar-se-ía?). Para os que, como eu, ainda não traçaram planos de fuga para o próximo fim-de-semana prolongado, ou para os que pretendem apenas passar o máximo de tempo fazendo o mínimo possível, sugiro este passatempo:
JOGO DOS CINCO ERROS
O que há de errado nas cinco frases a seguir (excetuando-se alguma provável afronta gramatical)?
1. Senhor, protege-me durante a viagem.
2. Mamãe, proteja-me dos(as) namorados(as) que a senhora acha que me farão sofrer.
3. Meu amado marido, corra aqui!! Veja! Uma barata! Proteja-me!!
4. Minha amada esposa, proteja meu estômago: não use mais este azeite de dendê para cozinhar, tá bom?
5. Luciana, proteja seus livros das traças.
J Se a sua curiosidade não permitir esperar até o fim do feriadão, pode olhar a resposta a seguir.
Todas as frases contém o mesmo erro: são redundantes. O pedido de proteção é totalmente dispensável pois é dirigido a um ser que ama a coisa ou pessoa a ser protegida. Nestes casos, quem pede a proteção, quer mesmo ouvir a (re)afirmação deste amor.
Parece evidente, mas eu só vim reparar na prescindibilidade dessa redundância há algumas semana quando o carro de uma pessoa muito querida veio a sofrer pela segunda vez em pouco mais de um mês, sérias avarias. Um tanto quanto chateada, eu lhe sugeri que fizesse uma oração sempre antes de sair no carro! Ao que a mais que estimada pessoa me respondeu:
- E é Deus acaso um amuleto, como um pé-de-coelho ou uma fitinha de Nosso Senhor do Bomfim? Acaso Ele tem de ser lembrado de me proteger, só é acessível por uma oração ritualística que tem o objetivo de pedir a Ele a proteção que Ele já me dá como Ser que me ama? E se eu estiver pedindo algo que na verdade Ele quer permitir que aconteça por um motivo que só Ele sabe? Por que minha confiança nEle tem de estar condicionada a um ato meu, quando é pelos méritos do amor dEle que sou protegido?
Calei-me meditando nessas palavras e só pude vir a concordar. Entre os seres que se amam não se fala em proteção isolada, pois ela está contida no próprio amor, como consequência deste. Acontece que em nossa mente a proteção está muitíssimo associada à posse, assim, quando pedimos para ser protegidos por alguém que sabemos que nos ama, estamos apenas afirmando de alguma maneira que somos possuídos pelo amor àquela pessoa. Portanto o que realmente diz a oração de alguém que diz: “Senhor, protege-me durante a viagem” é “Senhor, lembra que Teu amor me possui, portanto cuida de mim!”, o que soa até ingênuo pois não precisamos lembrar a Deus disso, só queremos, no fundo, nos sentir mais seguros afirmando o que já sabemos.
Passei a me perguntar se eu não amadureceria muito mais se passasse simplesmente a confiar nEsta proteção divina e parasse de tentar dizer a Ele como deve me proteger. Pois na verdade quando dirijo a Ele um pedido específico sobre proteger-me, estou na verdade falando-Lhe do que EU acho que seja o melhor para mim. Mas a visão de Deus vai muito mais além, e o que eu mais temo que me aconteça, pode ser exatamente o que Ele quer permitir acontecer para que eu chegue mais perto dELe. E como um Pai que deixa o filho correr livre pelo parque, sem no entanto desviar o olhar de cima dele um segundo, Ele nos dá a liberdade de tomar decisões, que podem nos levar a grandes conquistas ou tombos homéricos. Em ambos os casos, Seus braços estarão sempre por perto, seja para partilhar a alegria de uma vitória ou chorar a dor de um fracasso. Como bom Pai e Pastor, Deus está muito mais interessado em nos orientar suficientemente para enfrentarmos as dificuldades, problemas e maldades do mundo e com isso moldarmos nosso caráter à semelhança do dEle, do que nos proteger em uma redoma feita por nossas próprias mãos.
Por fim, há ainda uma consequência bem interessantes do dueto proteção-posse.
Quando na relação com Deus deixou de haver amor, e agora só reina o legalismo, o ser não mais sente necessidade de ser protegido, mas de proteger a Deus. Isso por que se não há amor, nenhum ser se deixa possuir, antes desenvolve um inevitável desejo de poder. A pessoa que deixou de desejar ser possuída pelo amor de Deus, passa mais ou menos inconscientemente, a desejar possuir Deus. E isso ela faz se colocando no lugar de Deus: sentir-se como Deus satisfará seu desejo de poder. O sinal claro de uma pessoa que assumiu essa triste condição é a expressão da posse pela necessidade de “proteger Deus”. Passa a ser um exímio acusador de todos os irmãos que não se portam com a devida reverência, santidade, modéstia cristã, testemunho, mordomia, etc, etc... dá ares de calamidade a quebra de qualquer regra, praxe, detalhe litúrgico que seja, e está sempre a criticar a vida dos “pecadores” que teimam em afrontar a Deus com seus erros incorrigíveis, sem aperceberem-se que Deus não precisa ser protegido! E assim seguem os “protetores de Deus” , juizes poderosos, doutores em como possuir a essência divina da onipotência.
Numa frase, ao menos, eu concordo com Jung: “onde o amor domina não há desejo de poder. Onde o poder domina, falta amor. Um é a sombra do outro.” Que possamos ser dominados pelo amor, que se deixa possuir, que é protegido pela simples certeza de existir, que está seguro pela fé da sua força uma vez sentida. Que o amor impere por sobre o desejo de posse e que possamos confiar cada vez mais na sua força protetora, nos deixarmos levar, guiados pela força de suas muitas águas até a Fonte de todo amor.
Uma semana feliz e iluminada!
Lux Lunae
A segunda-feira, amanhã, trará rostos mais animados, pessoas mais sorridentes, conversas mais empolgadas... aproxima-se o feriadão!! 7 de Setembro é dia de comemorar, mesmo que não seja necessariamente a “Independência” do Brasil (comemorar-se-ía?). Para os que, como eu, ainda não traçaram planos de fuga para o próximo fim-de-semana prolongado, ou para os que pretendem apenas passar o máximo de tempo fazendo o mínimo possível, sugiro este passatempo:
JOGO DOS CINCO ERROS
O que há de errado nas cinco frases a seguir (excetuando-se alguma provável afronta gramatical)?
1. Senhor, protege-me durante a viagem.
2. Mamãe, proteja-me dos(as) namorados(as) que a senhora acha que me farão sofrer.
3. Meu amado marido, corra aqui!! Veja! Uma barata! Proteja-me!!
4. Minha amada esposa, proteja meu estômago: não use mais este azeite de dendê para cozinhar, tá bom?
5. Luciana, proteja seus livros das traças.
J Se a sua curiosidade não permitir esperar até o fim do feriadão, pode olhar a resposta a seguir.
Todas as frases contém o mesmo erro: são redundantes. O pedido de proteção é totalmente dispensável pois é dirigido a um ser que ama a coisa ou pessoa a ser protegida. Nestes casos, quem pede a proteção, quer mesmo ouvir a (re)afirmação deste amor.
Parece evidente, mas eu só vim reparar na prescindibilidade dessa redundância há algumas semana quando o carro de uma pessoa muito querida veio a sofrer pela segunda vez em pouco mais de um mês, sérias avarias. Um tanto quanto chateada, eu lhe sugeri que fizesse uma oração sempre antes de sair no carro! Ao que a mais que estimada pessoa me respondeu:
- E é Deus acaso um amuleto, como um pé-de-coelho ou uma fitinha de Nosso Senhor do Bomfim? Acaso Ele tem de ser lembrado de me proteger, só é acessível por uma oração ritualística que tem o objetivo de pedir a Ele a proteção que Ele já me dá como Ser que me ama? E se eu estiver pedindo algo que na verdade Ele quer permitir que aconteça por um motivo que só Ele sabe? Por que minha confiança nEle tem de estar condicionada a um ato meu, quando é pelos méritos do amor dEle que sou protegido?
Calei-me meditando nessas palavras e só pude vir a concordar. Entre os seres que se amam não se fala em proteção isolada, pois ela está contida no próprio amor, como consequência deste. Acontece que em nossa mente a proteção está muitíssimo associada à posse, assim, quando pedimos para ser protegidos por alguém que sabemos que nos ama, estamos apenas afirmando de alguma maneira que somos possuídos pelo amor àquela pessoa. Portanto o que realmente diz a oração de alguém que diz: “Senhor, protege-me durante a viagem” é “Senhor, lembra que Teu amor me possui, portanto cuida de mim!”, o que soa até ingênuo pois não precisamos lembrar a Deus disso, só queremos, no fundo, nos sentir mais seguros afirmando o que já sabemos.
Passei a me perguntar se eu não amadureceria muito mais se passasse simplesmente a confiar nEsta proteção divina e parasse de tentar dizer a Ele como deve me proteger. Pois na verdade quando dirijo a Ele um pedido específico sobre proteger-me, estou na verdade falando-Lhe do que EU acho que seja o melhor para mim. Mas a visão de Deus vai muito mais além, e o que eu mais temo que me aconteça, pode ser exatamente o que Ele quer permitir acontecer para que eu chegue mais perto dELe. E como um Pai que deixa o filho correr livre pelo parque, sem no entanto desviar o olhar de cima dele um segundo, Ele nos dá a liberdade de tomar decisões, que podem nos levar a grandes conquistas ou tombos homéricos. Em ambos os casos, Seus braços estarão sempre por perto, seja para partilhar a alegria de uma vitória ou chorar a dor de um fracasso. Como bom Pai e Pastor, Deus está muito mais interessado em nos orientar suficientemente para enfrentarmos as dificuldades, problemas e maldades do mundo e com isso moldarmos nosso caráter à semelhança do dEle, do que nos proteger em uma redoma feita por nossas próprias mãos.
Por fim, há ainda uma consequência bem interessantes do dueto proteção-posse.
Quando na relação com Deus deixou de haver amor, e agora só reina o legalismo, o ser não mais sente necessidade de ser protegido, mas de proteger a Deus. Isso por que se não há amor, nenhum ser se deixa possuir, antes desenvolve um inevitável desejo de poder. A pessoa que deixou de desejar ser possuída pelo amor de Deus, passa mais ou menos inconscientemente, a desejar possuir Deus. E isso ela faz se colocando no lugar de Deus: sentir-se como Deus satisfará seu desejo de poder. O sinal claro de uma pessoa que assumiu essa triste condição é a expressão da posse pela necessidade de “proteger Deus”. Passa a ser um exímio acusador de todos os irmãos que não se portam com a devida reverência, santidade, modéstia cristã, testemunho, mordomia, etc, etc... dá ares de calamidade a quebra de qualquer regra, praxe, detalhe litúrgico que seja, e está sempre a criticar a vida dos “pecadores” que teimam em afrontar a Deus com seus erros incorrigíveis, sem aperceberem-se que Deus não precisa ser protegido! E assim seguem os “protetores de Deus” , juizes poderosos, doutores em como possuir a essência divina da onipotência.
Numa frase, ao menos, eu concordo com Jung: “onde o amor domina não há desejo de poder. Onde o poder domina, falta amor. Um é a sombra do outro.” Que possamos ser dominados pelo amor, que se deixa possuir, que é protegido pela simples certeza de existir, que está seguro pela fé da sua força uma vez sentida. Que o amor impere por sobre o desejo de posse e que possamos confiar cada vez mais na sua força protetora, nos deixarmos levar, guiados pela força de suas muitas águas até a Fonte de todo amor.
Uma semana feliz e iluminada!
Lux Lunae
domingo, 27 de agosto de 2000
Um lugar seguro
“Elevo os olhos para os montes: de onde me virá o socorro? O meu socorro vem do Senhor, que fez o céu e a terra.” Salmos 121: 1, 2
Programa típico de paulista para sábado à noite: shopping. E lá estávamos os três sentados numa praça de alimentação de um shopping onde, surpreendentemente, havia vagas no estacionamento. Ainda que não seja o tipo se lugar onde eu me sinta muito bem, me satisfazia com o fato de ser ao menos um bom lugar para observar o comportamento das pessoas.
Na mesa ao lado um casal tentava manter um garotinho quieto, e ele por sua vez tratava de não deixar a comida quieta, fazendo-a voar alegremente pelos arredores. Mais à frente uma loja de decoração onde eu seria capaz de passar horas a fio, mostrava em sua vitrine um crucifixo de prata confeccionado no estilo art noveau, muito lindo. Do meu lado, meu namorado a quem eu acariciava a mão carinhosamente, na minha frente um de-li-ci-o-so beirute que eu degustava com prazer indescritível. E do outro lado da mesa, estava ele, a quem estimo mais do que o desejo de ser sua cunhada possa convencionar, pois desde algum tempo passei a admirá-lo por um conjunto de qualidades que o faz uma pessoa muito especial. Não sei o que deu neles, mas neste dia os dois estavam particularmente sensíveis, de defesas baixas e bem sentimentais. Eu sorria por dentro admirando o momento histórico e ouvia a conversa atentamente, quando o assunto pendeu para a confiança em Deus. Os olhos dele, do outro lado da mesa, adquiriram então um brilho fascinante, prendendo os meus, e sua expressão ganhou uma solenidade irradiante.
- Vou contar para você uma história que eu gosto de contar para aqueles que são capazes de entender o que é confiança em Deus. – disse ele , começando a narrativa- Eu estava morando no sul da Alemanha, um lugar lindo. Abria minha janela de manhã e via um imenso vale verde, cheio de flores, animais pastando, montanhas grandiosas no horizonte... uma paisagem como aquelas que só se vê em quadro do século passado. Certo dia, eu, que já vinha observando aquela cadeia de montanhas há algum tempo, decidi que iria explorá-las percorrendo as trilhas que levam até o pico da sétima montanha. Preparei-me, peguei o material necessário, fui com o carro até o início da trilha e comecei a aventura.
O garotinho da mesa ao lado acabara de fazer uma batatinha frita aterrissar perto do meu pé, mas eu já não lhe dava atenção; minha mente se direcionava para o que ele acabara de falar. “Previsível”, pensei. Já havia observado várias fotos dele e da sua família escalando rochas, montanhas, desbravando trilhas... enfim, não me tinha passado de largo o seu instinto de águia, que nasceu para as alturas. Seu gosto pela aventura nas montanhas é o mais fiel reflexo de sua personalidade: enfrentar os riscos pela ânsia de chegar, alçar vôos que o elevem para além dos limites ordinários, ampliar a visão de sua capacidade pela conquista de novas paisagens. Dei a última mordida no Beirute, que estranhamente perdeu seu sabor, reparei mais uma vez no crucifixo de prata, acariciei mais intensamente a mão de meu namorado, mas continuava presa aos seus olhos, agora cheios de uma solenidade mais densa.
- Quando eu iniciei o percurso o céu estava de um azul encantador e o sol banhava toda a paisagem em redor. O caminho era difícil, pedregoso, por vezes íngreme, mas eu continuava num ritmo compassado e meu espírito elevava-se também à medida que eu subia. Foi quando, tendo acabado de subir a quinta montanha, olho para trás e vejo uma cena aterradora: nuvens escuras e ameaçadoras formaram-se muito rapidamente enquanto eu escalava, e eu sabia que pela forma com que se punham, muito provavelmente eu enfrentaria uma tempestade. Mas uma tempestade, ali, naquele lugar arriscado e vazio? Parei um instante e orei: “Senhor, houve um servo Teu, o qual também atendia por meu nome, que um dia pediu que a chuva não caísse sobre a terra durante sete anos. Eu não Te peço que o faças nem por sete anos nem mesmo por sete horas, apenas Te peço que me leves para um lugar seguro.” Prossegui a caminhada e subi sem muita apreensão as duas últimas montanhas. Chegando ao cume da imponente sétima montanha, me dirigi até os pés de uma cruz de madeira que estava fincada sobre as rochas. Atrás da cruz, dentro de uma lata e enrolado dentro de um plástico, estava um caderno onde se registra o nome de todos que por ali passam. Escrevi meu nome, devolvi o caderno à lata e o guardei aos pés da cruz. O céu veio abaixo!
Esta sua última frase foi dita com a força de uma lembrança viva e de uma emoção ainda mais viva. Estremeci ligeiramente, e instintivamente olhei pela última vez para o crucifixo de prata na vitrine da loja. Meus olhos prenderam-se total e definitivamente aos dele, onde o brilho dera lugar ao que não consigo descrever com outro termo, senão os olhos de ressaca descritos por Machado de Assis: “com uma força que arrastava para dentro como a vaga que se retira da praia nos dias de ressaca”. Minha mão prendeu-se à mão de meu namorado e eu permaneci segura a ela enquanto ele continuava.
- A chuva e o vento forte que se precipitou sobre a montanha não me permitiu ir muito longe ou escolher cuidadosamente um lugar. Sentei-me numa rocha próxima, ao lado de um pequeno arbusto, abri um guarda-chuva para proteger-me da água gelada e contemplei a fúria daquele espetáculo. Sentado onde estava , contemplava logo por trás do pequeno arbusto, um enorme precipício... a neve costuma abrir fendas na rocha daquelas montanhas, cortando-as de cima a baixo e formando estes precipícios de altura vertiginosa. Mas não era só a altura a que eu me sentia sujeito a cair que me aterrorizava, todos a natureza parecia compelida a me assombrar. O vento era violentamente impelido contra o precipício, fazendo com que a chuva viesse de baixo para cima e arremessasse elementos indistinguíveis sobre mim... do outro lado, eu via as rochas da montanhas rolarem montanha abaixo, soltas pela força da tempestade, e eu aguardava desesperado a hora em que uma delas me jogaria contra o precipício. Meu rosto contorceu-se de revolta e durante meia hora eu levantei minha voz em brado indignado contra Deus: “Eu não te pedi nenhum grande milagre, apenas que me conduzisses para um lugar seguro! Apenas isso! Sei que és capaz de muito mais, mas não atendesses a uma simples oração que seria capaz de salvar-me a vida!!! Esta tempestade não fará diferença depois que passar, mas e a minha vida? Faz ela alguma diferença para Ti? Importa alguma coisa para Ti que eu viva? Onde estás que não me vês, antes me ignoras no momento em que mais preciso de Ti?” E assim continuei, exaltadamente, até que a chuva passou...
Respirei. Minha memória levou-me até o clamor de Davi: "Rejeita o Senhor para sempre? Cessou perpetuamente Sua graça? Esqueceu-se Deus de ser benigno?"(Salmo 77).
Pude ainda sentir a mão de meu namorado roçar levemente sobre a minha antes de desligar-me de todas as sensações e deixar-me absorver pelos olhos dele que agora continuavam a me prender por uma doçura sacra e sublime.
- Foi somente depois da tempestade que pude analisar e perceber melhor a situação em que eu me encontrava. A calma contrastava com a desordem do lugar, em seus sinais de grandiosa turbulência. Constrangido, cheguei a uma conclusão: Deus atendera minha oração, Ele me levara até um lugar seguro. Reparei que a rocha onde eu me assentara era de fato o melhor lugar para abrigar-se ali, pois estava em um ângulo em que de forma alguma seria atingida pelas outras rochas que rolavam do alto da montanha, e o pequeno arbusto que estava ao meu lado era na verdade forte como uma muralha de aço, pois a vegetação daquele lugar desenvolve uma resistência natural ao vento, que os faz extremamente rígidos e inamovíveis. Ainda que eu me atirasse sobre o precipício, aquele arbusto estava de tal modo colocado que eu ficaria seguramente preso a ele. Dirigi nova oração a Deus, pedindo-lhe perdão por minha falta de fé, por minha visão limitada e meu desespero que me impedira de ver Sua providência... mas ainda estava muito emocionado pelo medo. As trilhas poderiam estar muito danificadas e o terrenos estava sujeito a avalanches. Confessei-me fraco e pela primeira vez em minha vida pedi a Ele um sinal de que poderia voltar seguro para casa: “Senhor Misericordioso, eu só descerei a montanha se Tu me deres um sinal e fizeres com que essas nuvens dêem lugar aos raios do sol.” Esperei mais meia hora e vi um raio de sol penetrar os densos cúmulos indo incidir sobre uma montanha ao longe. Insisti: “Senhor, para mim este ainda não é o sinal, me mostra de maneira mais clara que Tu estás comigo!”. No mesmo momento, as nuvens abriram-se em cima de mim e um feixe luminoso do sol atingiu-me diretamente, como se os olhos de Deus enfocassem o meu ser. “Agora sim, Pai, eu irei seguro”.
Neste ponto nossos olhos estavam tão cúmplices que eu senti-me banhar nas lágrimas que começaram a brotar naquele olhar. Emocionei-me especialmente por identificar aquela experiência com a minha própria caminhada cristã. Como é duro, íngreme e pedregoso o caminho que leva até a cruz no alto da montanha! Mas prosseguimos, sem desanimar, confiantes, mesmo que às vezes essa confiança esteja depositada sobre nossos próprios méritos. É porém quando sentimos a glória de termos chegado no cume da montanha, no auge de nossa estabilidade religiosa, quando achamos que não temos nada mais a aprender porque já estamos seguros de que nossa fé está estabelecida, concluída, conquistada (e registrada no livro de membros da Igreja), vem a tempestade... que agonizante é sentir que tudo ao redor desaba e se abala frente a nossa inerte impotência! Que humilhante é reconhecer que ainda há um longo caminho a ser percorrido e nossa fé e segurança não estão protegidas por nossa auto-suficiência! Quão desesperados ficamos ao percebermos que não conseguimos sentir Deus tão perto quanto gostaríamos - e poderíamos ter aprendido a sentir... mas Ele está ali para nos dar a segurança de que precisamos e fazer-se conhecer como Senhor de nossa existência, como Rei Protetor de nosso caminho. Ele está bem perto para provar-nos que Ele não abandona seus filhos, antes lhes está provendo um lugar seguro na tribulação, e a vitória, que é dada ao que deposita a confiança em Suas mãos.
É... meus princípios anti-capitalistas que silenciem, mas foi num shopping que eu ouvi ser proferido, com poder, o testemunho mais forte que já ouvi.
Uma semana Feliz e iluminada!
Lux Lunae
Ps.: experimentei revisar o texto ao mesmo tempo que ouvia ária de baixo “For behold darkness shall cover the earth”, do “Messias” de Haendel, que já estava mesmo na minha cabeça enquanto eu escrevia o final do texto... gente, só posso dizer que foi uma das coisas mais emocionantes que já senti. Vai como sugestão.
Programa típico de paulista para sábado à noite: shopping. E lá estávamos os três sentados numa praça de alimentação de um shopping onde, surpreendentemente, havia vagas no estacionamento. Ainda que não seja o tipo se lugar onde eu me sinta muito bem, me satisfazia com o fato de ser ao menos um bom lugar para observar o comportamento das pessoas.
Na mesa ao lado um casal tentava manter um garotinho quieto, e ele por sua vez tratava de não deixar a comida quieta, fazendo-a voar alegremente pelos arredores. Mais à frente uma loja de decoração onde eu seria capaz de passar horas a fio, mostrava em sua vitrine um crucifixo de prata confeccionado no estilo art noveau, muito lindo. Do meu lado, meu namorado a quem eu acariciava a mão carinhosamente, na minha frente um de-li-ci-o-so beirute que eu degustava com prazer indescritível. E do outro lado da mesa, estava ele, a quem estimo mais do que o desejo de ser sua cunhada possa convencionar, pois desde algum tempo passei a admirá-lo por um conjunto de qualidades que o faz uma pessoa muito especial. Não sei o que deu neles, mas neste dia os dois estavam particularmente sensíveis, de defesas baixas e bem sentimentais. Eu sorria por dentro admirando o momento histórico e ouvia a conversa atentamente, quando o assunto pendeu para a confiança em Deus. Os olhos dele, do outro lado da mesa, adquiriram então um brilho fascinante, prendendo os meus, e sua expressão ganhou uma solenidade irradiante.
- Vou contar para você uma história que eu gosto de contar para aqueles que são capazes de entender o que é confiança em Deus. – disse ele , começando a narrativa- Eu estava morando no sul da Alemanha, um lugar lindo. Abria minha janela de manhã e via um imenso vale verde, cheio de flores, animais pastando, montanhas grandiosas no horizonte... uma paisagem como aquelas que só se vê em quadro do século passado. Certo dia, eu, que já vinha observando aquela cadeia de montanhas há algum tempo, decidi que iria explorá-las percorrendo as trilhas que levam até o pico da sétima montanha. Preparei-me, peguei o material necessário, fui com o carro até o início da trilha e comecei a aventura.
O garotinho da mesa ao lado acabara de fazer uma batatinha frita aterrissar perto do meu pé, mas eu já não lhe dava atenção; minha mente se direcionava para o que ele acabara de falar. “Previsível”, pensei. Já havia observado várias fotos dele e da sua família escalando rochas, montanhas, desbravando trilhas... enfim, não me tinha passado de largo o seu instinto de águia, que nasceu para as alturas. Seu gosto pela aventura nas montanhas é o mais fiel reflexo de sua personalidade: enfrentar os riscos pela ânsia de chegar, alçar vôos que o elevem para além dos limites ordinários, ampliar a visão de sua capacidade pela conquista de novas paisagens. Dei a última mordida no Beirute, que estranhamente perdeu seu sabor, reparei mais uma vez no crucifixo de prata, acariciei mais intensamente a mão de meu namorado, mas continuava presa aos seus olhos, agora cheios de uma solenidade mais densa.
- Quando eu iniciei o percurso o céu estava de um azul encantador e o sol banhava toda a paisagem em redor. O caminho era difícil, pedregoso, por vezes íngreme, mas eu continuava num ritmo compassado e meu espírito elevava-se também à medida que eu subia. Foi quando, tendo acabado de subir a quinta montanha, olho para trás e vejo uma cena aterradora: nuvens escuras e ameaçadoras formaram-se muito rapidamente enquanto eu escalava, e eu sabia que pela forma com que se punham, muito provavelmente eu enfrentaria uma tempestade. Mas uma tempestade, ali, naquele lugar arriscado e vazio? Parei um instante e orei: “Senhor, houve um servo Teu, o qual também atendia por meu nome, que um dia pediu que a chuva não caísse sobre a terra durante sete anos. Eu não Te peço que o faças nem por sete anos nem mesmo por sete horas, apenas Te peço que me leves para um lugar seguro.” Prossegui a caminhada e subi sem muita apreensão as duas últimas montanhas. Chegando ao cume da imponente sétima montanha, me dirigi até os pés de uma cruz de madeira que estava fincada sobre as rochas. Atrás da cruz, dentro de uma lata e enrolado dentro de um plástico, estava um caderno onde se registra o nome de todos que por ali passam. Escrevi meu nome, devolvi o caderno à lata e o guardei aos pés da cruz. O céu veio abaixo!
Esta sua última frase foi dita com a força de uma lembrança viva e de uma emoção ainda mais viva. Estremeci ligeiramente, e instintivamente olhei pela última vez para o crucifixo de prata na vitrine da loja. Meus olhos prenderam-se total e definitivamente aos dele, onde o brilho dera lugar ao que não consigo descrever com outro termo, senão os olhos de ressaca descritos por Machado de Assis: “com uma força que arrastava para dentro como a vaga que se retira da praia nos dias de ressaca”. Minha mão prendeu-se à mão de meu namorado e eu permaneci segura a ela enquanto ele continuava.
- A chuva e o vento forte que se precipitou sobre a montanha não me permitiu ir muito longe ou escolher cuidadosamente um lugar. Sentei-me numa rocha próxima, ao lado de um pequeno arbusto, abri um guarda-chuva para proteger-me da água gelada e contemplei a fúria daquele espetáculo. Sentado onde estava , contemplava logo por trás do pequeno arbusto, um enorme precipício... a neve costuma abrir fendas na rocha daquelas montanhas, cortando-as de cima a baixo e formando estes precipícios de altura vertiginosa. Mas não era só a altura a que eu me sentia sujeito a cair que me aterrorizava, todos a natureza parecia compelida a me assombrar. O vento era violentamente impelido contra o precipício, fazendo com que a chuva viesse de baixo para cima e arremessasse elementos indistinguíveis sobre mim... do outro lado, eu via as rochas da montanhas rolarem montanha abaixo, soltas pela força da tempestade, e eu aguardava desesperado a hora em que uma delas me jogaria contra o precipício. Meu rosto contorceu-se de revolta e durante meia hora eu levantei minha voz em brado indignado contra Deus: “Eu não te pedi nenhum grande milagre, apenas que me conduzisses para um lugar seguro! Apenas isso! Sei que és capaz de muito mais, mas não atendesses a uma simples oração que seria capaz de salvar-me a vida!!! Esta tempestade não fará diferença depois que passar, mas e a minha vida? Faz ela alguma diferença para Ti? Importa alguma coisa para Ti que eu viva? Onde estás que não me vês, antes me ignoras no momento em que mais preciso de Ti?” E assim continuei, exaltadamente, até que a chuva passou...
Respirei. Minha memória levou-me até o clamor de Davi: "Rejeita o Senhor para sempre? Cessou perpetuamente Sua graça? Esqueceu-se Deus de ser benigno?"(Salmo 77).
Pude ainda sentir a mão de meu namorado roçar levemente sobre a minha antes de desligar-me de todas as sensações e deixar-me absorver pelos olhos dele que agora continuavam a me prender por uma doçura sacra e sublime.
- Foi somente depois da tempestade que pude analisar e perceber melhor a situação em que eu me encontrava. A calma contrastava com a desordem do lugar, em seus sinais de grandiosa turbulência. Constrangido, cheguei a uma conclusão: Deus atendera minha oração, Ele me levara até um lugar seguro. Reparei que a rocha onde eu me assentara era de fato o melhor lugar para abrigar-se ali, pois estava em um ângulo em que de forma alguma seria atingida pelas outras rochas que rolavam do alto da montanha, e o pequeno arbusto que estava ao meu lado era na verdade forte como uma muralha de aço, pois a vegetação daquele lugar desenvolve uma resistência natural ao vento, que os faz extremamente rígidos e inamovíveis. Ainda que eu me atirasse sobre o precipício, aquele arbusto estava de tal modo colocado que eu ficaria seguramente preso a ele. Dirigi nova oração a Deus, pedindo-lhe perdão por minha falta de fé, por minha visão limitada e meu desespero que me impedira de ver Sua providência... mas ainda estava muito emocionado pelo medo. As trilhas poderiam estar muito danificadas e o terrenos estava sujeito a avalanches. Confessei-me fraco e pela primeira vez em minha vida pedi a Ele um sinal de que poderia voltar seguro para casa: “Senhor Misericordioso, eu só descerei a montanha se Tu me deres um sinal e fizeres com que essas nuvens dêem lugar aos raios do sol.” Esperei mais meia hora e vi um raio de sol penetrar os densos cúmulos indo incidir sobre uma montanha ao longe. Insisti: “Senhor, para mim este ainda não é o sinal, me mostra de maneira mais clara que Tu estás comigo!”. No mesmo momento, as nuvens abriram-se em cima de mim e um feixe luminoso do sol atingiu-me diretamente, como se os olhos de Deus enfocassem o meu ser. “Agora sim, Pai, eu irei seguro”.
Neste ponto nossos olhos estavam tão cúmplices que eu senti-me banhar nas lágrimas que começaram a brotar naquele olhar. Emocionei-me especialmente por identificar aquela experiência com a minha própria caminhada cristã. Como é duro, íngreme e pedregoso o caminho que leva até a cruz no alto da montanha! Mas prosseguimos, sem desanimar, confiantes, mesmo que às vezes essa confiança esteja depositada sobre nossos próprios méritos. É porém quando sentimos a glória de termos chegado no cume da montanha, no auge de nossa estabilidade religiosa, quando achamos que não temos nada mais a aprender porque já estamos seguros de que nossa fé está estabelecida, concluída, conquistada (e registrada no livro de membros da Igreja), vem a tempestade... que agonizante é sentir que tudo ao redor desaba e se abala frente a nossa inerte impotência! Que humilhante é reconhecer que ainda há um longo caminho a ser percorrido e nossa fé e segurança não estão protegidas por nossa auto-suficiência! Quão desesperados ficamos ao percebermos que não conseguimos sentir Deus tão perto quanto gostaríamos - e poderíamos ter aprendido a sentir... mas Ele está ali para nos dar a segurança de que precisamos e fazer-se conhecer como Senhor de nossa existência, como Rei Protetor de nosso caminho. Ele está bem perto para provar-nos que Ele não abandona seus filhos, antes lhes está provendo um lugar seguro na tribulação, e a vitória, que é dada ao que deposita a confiança em Suas mãos.
É... meus princípios anti-capitalistas que silenciem, mas foi num shopping que eu ouvi ser proferido, com poder, o testemunho mais forte que já ouvi.
Uma semana Feliz e iluminada!
Lux Lunae
Ps.: experimentei revisar o texto ao mesmo tempo que ouvia ária de baixo “For behold darkness shall cover the earth”, do “Messias” de Haendel, que já estava mesmo na minha cabeça enquanto eu escrevia o final do texto... gente, só posso dizer que foi uma das coisas mais emocionantes que já senti. Vai como sugestão.
domingo, 20 de agosto de 2000
Magnetismo enigmático
“E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim.” Jo. 12:32
Então a temida pergunta veio, em Arial Black, fonte 16:
PQ????
Ai, ai, ai... naum faça isso comigo... vc sabe como eu me inquieto diante de “porquês” , ainda mais quando eles dizem respeito ao ser humano...
Lux, entaum me ajude...me ajude a entender isso! Naum eh justo!
Ateh agora soh encontrei uma explicaçaum: estou velha, velha e feia, e com a crise mundial de homens no real sentido da palavra, eu virei mercadoria obsoleta, de terceira maum... e em breve de terceira idade :-((((
...pf, naum diga q vc aprendeu esse dramatismo de mim...:-)
amiga... naum tou brincando! Lembra daquela ilustrçaum q uma vez vc me contou? Qd eu tava c o Rick eu estava na fase do “muitos seraum chamados e poucos escolhidos”, agora estou na fase do “o q vier ateh mim, de modo algum o lançarei fora...” e ainda assim naum aparece uma alma caridosa q me note!
calma lindinha.. quem sabe vc naum encontra um varaum q esteja na fase do “vinde a mim todas vos q estais cansadas e oprimidas” hehehehe deixe de ser taum trágica! Q livro vc anda lendo? Noite na taverna? Cruzes! Vc eh muito linda, inteligente, e capaz de ter qualquer homem q quiser, sua boba.
muito engraçadinha, continue zombando do meu drama...naum fuja do assunto, sra. Desvendadora de pqs... me explique: passsei dois anos namorando o Rick e durante esse tempo os homens viviam me paquerando. Na faculdade, na igreja, no trabalho, eu ficava quietinha na minha, mas parecia que tinha um imã q atraía eles... recusei trilhões de pedidos p sair, joguei fora convites p lugares maravilhosos, esnobei elogios, declarações de amor... eagora, seis meses depois de ter terminado o namoro como Rick parece que ninguém mais quer saber de mim. Pq as pessoas soh parecem olhar p gente qdo estamos comprometidos???
Pq vc naum tenta uma reconciliaçaum com o Rick? Ele gostava tanto de vc! Foi vc q se empolgou demais como assédio, achando q era a rainha da cocada preta e desprezou o q ele sentia por vc, achando q poderia aproveitar um pouquinho de cada um dos seus fãs...
puxa, sua sinceridade me assusta... mas foi isso mesmo.. o problema eh q agora nem o Rick me quer mais :’’-((
Esta conversa se estendeu noite adentro na telinha preta do ICQ. Minha deprimida amiga, quando permitiu cessar suas lamúrias, juntou-se a mim na procura de saber o que havia de errado. Fisicamente ela é muito atraente, é uma pessoa culta, simpática, cristã e uma série de adjetivos que não justificam essa solidão. Chegamos a uma conclusão interessantíssima que não apenas explica o motivo dela só atrair admiradores quando está comprometida (algo que eu já ouvi muita gente além dela questionar), como também nos remete uma importante lição espiritual.
Você já reparou bem nos olhos de uma pessoa que está amando? Já percebeu como essas pessoas costumam estar com a auto-estima lá em cima e consequentemente procuram se vestir melhor, cuidam mais da aparência física, sorriem com mais freqüência, estão sempre entusiasmadas e ficam mais carinhosas, sensíveis e compreensivas? Uma pessoa que se descobre amando de verdade não desanima fácil, e se o faz não se deixa abater por completo porque sabe que tem uma fonte de amor que lhe suprirá as energias, alguém que de quem vai receber cuidado, carinho e um monte de coisas boas que vão lhe “recarregar as baterias” para enfrentar o que quer que seja. Você nunca verá uma pessoa que ama encarando as coisas de maneira negativa, pois seu consciente e inconsciente, seu corpo, seus gestos e palavras são tomados por uma involuntária expressão de felicidade e completude. Sua paz não é minada porque há sempre o farol do ser amado apontando como luz fulgurante no horizonte...
Por outro lado, uma pessoa que não ama alguém, ou que enfrenta sérios problemas no relacionamento pela ausência do amor em uma das partes (ou em ambas), terá uma inevitável postura de tristeza. Uma pessoa que não tem o toque inefável deste sentimento supremo em sua vida, acaba por encarar as coisas de maneira fria, amarga, negativa. Não raro passa a transmitir aos poucos que se dispõem a ouvi-lo quilos e quilos de fel, lamentações, tormentosas mágoas, lacrimosas concepções sobre o mundo, os homens ou mulheres, sobre si mesmo. Quando não é dado a se abrir facilmente, se isola dentro de si mesmo, desenvolve um egoísmo rígido, uma atitude inexpugnável diante dos sentimentos, e transmite aos que lhe cercam uma aparência de insensibilidade e inacessibilidade. Em ambos os casos, a reação natural das pessoas é de repulsa, senão vejamos: qual das personalidades lhe parece uma boa companhia, a do parágrafo anterior ou a deste parágrafo?
Está então explicado o magnetismo enigmático que flui dos seres que estão amando. O amor atrai as pessoas, sua influência é como aroma suave que inebria aqueles que entram em contato com ele. Vivemos em mundo de pessoas sequiosas por sentir o amor, que trazem dentro de si a busca por algo nobre, verdadeiro, algo que lhes dê alívio, conforto, que mude suas vidas no sentido de uma felicidade satisfatória. Quando as pessoas percebem que há um ser que provavelmente descobriu o caminho, elas vão imediatamente procurar estar junto desta pessoa para vir a ter as mesmas características que emanam dela. Por sua vez, a pessoa que está atraindo sente que o faz, sente que estão se aproximando dela e sua tendência é dar amor aos que a buscam, pois este não é um sentimento egoísta que se guarde. Detalhe: esta série de matéria férrea que circunda o campo magnético do amor não é só pessoas, mas projetos, investimentos, tudo aquilo que por influência do amor passou a crescer também, coisas que chamaremos de “pequenos amores”. O único perigo está em ocupar-se em suprir o amor de todos que se lhe pedem, e esquecer da fonte do amor... esquecer a pessoa que tornou esse sentimento capaz e deslumbrar-se com o fato de ser um imã tão poderoso... se isso acontecer, virá a traição: convencida que esta atração é produto de si mesma, a pessoa requererá os méritos por isso e para receber tudo que têm a lhe oferecer, passará a envolver-se e doar-se aos “pequenos amores”, numa intensidade que acabará por afastá-la em definitivo da fonte do amor. O resultado é triste: acaba o amor, pois não há mais fonte que o renove, a atração exercida, consequentemente, acaba também, e os que antes buscavam aquele ser, agora o deixam porque sentem que ele não tem mais nada a oferecer, portanto não merece receber mais nada também, os projetos envolventes que iam tão bem vão lentamente perdendo a rentabilidade e a importância. E aí vem a solidão e a amargura de não ter um amor nem mais nada por que valha a pena lutar.
Não é difícil encontrarmos uma aplicação espiritual para esta situação. Você, como eu, provavelmente sabe bem que a expressão de um cristão que vive o seu primeiro amor com Deus é fascinante. E ambos sabemos que atração fantástica acabamos por exercer nas pessoas que entram em contato conosco, como tudo em que nos empenhamos parece sair muito bem, como num instante surgem cargos na igreja, pessoas não cristãs se aproximam de nós, pessoas da igreja passam a nos devotar admiração, nossa é tudo tão .. envolvente! Por isso mesmo não podemos esquecer de manter constante contato coma fonte de nosso amor, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. O fato de atrairmos “pequenos amores” e o distribuirmos abundantemente não pode fazer com que o nosso amor com Deus seja menos total, único e central.
O amor desperta energias e reservas afetivas, as quais, se não fosse por ele, permaneceriam inutilizadas. São elas que abrem, depois, à pessoa, possibilidades insuspeitas de uma atração magnética , forte e frutuosa com os “pequenos amores”. Sendo assim, lembremos: é possível amar diversas coisas e pessoas ao mesmo tempo, mas só é possível devotar paixão fiel a uma, a quem se busca constantemente como fonte de toda a capacidade de amar. Que esta seja nossa história de relacionamento com Deus, para o qual Jesus, cheio de amor, um dia nos atraiu.
Uma semana feliz e iluminada!
Lux Lunae
Então a temida pergunta veio, em Arial Black, fonte 16:
Ateh agora soh encontrei uma explicaçaum: estou velha, velha e feia, e com a crise mundial de homens no real sentido da palavra, eu virei mercadoria obsoleta, de terceira maum... e em breve de terceira idade :-((((
Esta conversa se estendeu noite adentro na telinha preta do ICQ. Minha deprimida amiga, quando permitiu cessar suas lamúrias, juntou-se a mim na procura de saber o que havia de errado. Fisicamente ela é muito atraente, é uma pessoa culta, simpática, cristã e uma série de adjetivos que não justificam essa solidão. Chegamos a uma conclusão interessantíssima que não apenas explica o motivo dela só atrair admiradores quando está comprometida (algo que eu já ouvi muita gente além dela questionar), como também nos remete uma importante lição espiritual.
Você já reparou bem nos olhos de uma pessoa que está amando? Já percebeu como essas pessoas costumam estar com a auto-estima lá em cima e consequentemente procuram se vestir melhor, cuidam mais da aparência física, sorriem com mais freqüência, estão sempre entusiasmadas e ficam mais carinhosas, sensíveis e compreensivas? Uma pessoa que se descobre amando de verdade não desanima fácil, e se o faz não se deixa abater por completo porque sabe que tem uma fonte de amor que lhe suprirá as energias, alguém que de quem vai receber cuidado, carinho e um monte de coisas boas que vão lhe “recarregar as baterias” para enfrentar o que quer que seja. Você nunca verá uma pessoa que ama encarando as coisas de maneira negativa, pois seu consciente e inconsciente, seu corpo, seus gestos e palavras são tomados por uma involuntária expressão de felicidade e completude. Sua paz não é minada porque há sempre o farol do ser amado apontando como luz fulgurante no horizonte...
Por outro lado, uma pessoa que não ama alguém, ou que enfrenta sérios problemas no relacionamento pela ausência do amor em uma das partes (ou em ambas), terá uma inevitável postura de tristeza. Uma pessoa que não tem o toque inefável deste sentimento supremo em sua vida, acaba por encarar as coisas de maneira fria, amarga, negativa. Não raro passa a transmitir aos poucos que se dispõem a ouvi-lo quilos e quilos de fel, lamentações, tormentosas mágoas, lacrimosas concepções sobre o mundo, os homens ou mulheres, sobre si mesmo. Quando não é dado a se abrir facilmente, se isola dentro de si mesmo, desenvolve um egoísmo rígido, uma atitude inexpugnável diante dos sentimentos, e transmite aos que lhe cercam uma aparência de insensibilidade e inacessibilidade. Em ambos os casos, a reação natural das pessoas é de repulsa, senão vejamos: qual das personalidades lhe parece uma boa companhia, a do parágrafo anterior ou a deste parágrafo?
Está então explicado o magnetismo enigmático que flui dos seres que estão amando. O amor atrai as pessoas, sua influência é como aroma suave que inebria aqueles que entram em contato com ele. Vivemos em mundo de pessoas sequiosas por sentir o amor, que trazem dentro de si a busca por algo nobre, verdadeiro, algo que lhes dê alívio, conforto, que mude suas vidas no sentido de uma felicidade satisfatória. Quando as pessoas percebem que há um ser que provavelmente descobriu o caminho, elas vão imediatamente procurar estar junto desta pessoa para vir a ter as mesmas características que emanam dela. Por sua vez, a pessoa que está atraindo sente que o faz, sente que estão se aproximando dela e sua tendência é dar amor aos que a buscam, pois este não é um sentimento egoísta que se guarde. Detalhe: esta série de matéria férrea que circunda o campo magnético do amor não é só pessoas, mas projetos, investimentos, tudo aquilo que por influência do amor passou a crescer também, coisas que chamaremos de “pequenos amores”. O único perigo está em ocupar-se em suprir o amor de todos que se lhe pedem, e esquecer da fonte do amor... esquecer a pessoa que tornou esse sentimento capaz e deslumbrar-se com o fato de ser um imã tão poderoso... se isso acontecer, virá a traição: convencida que esta atração é produto de si mesma, a pessoa requererá os méritos por isso e para receber tudo que têm a lhe oferecer, passará a envolver-se e doar-se aos “pequenos amores”, numa intensidade que acabará por afastá-la em definitivo da fonte do amor. O resultado é triste: acaba o amor, pois não há mais fonte que o renove, a atração exercida, consequentemente, acaba também, e os que antes buscavam aquele ser, agora o deixam porque sentem que ele não tem mais nada a oferecer, portanto não merece receber mais nada também, os projetos envolventes que iam tão bem vão lentamente perdendo a rentabilidade e a importância. E aí vem a solidão e a amargura de não ter um amor nem mais nada por que valha a pena lutar.
Não é difícil encontrarmos uma aplicação espiritual para esta situação. Você, como eu, provavelmente sabe bem que a expressão de um cristão que vive o seu primeiro amor com Deus é fascinante. E ambos sabemos que atração fantástica acabamos por exercer nas pessoas que entram em contato conosco, como tudo em que nos empenhamos parece sair muito bem, como num instante surgem cargos na igreja, pessoas não cristãs se aproximam de nós, pessoas da igreja passam a nos devotar admiração, nossa é tudo tão .. envolvente! Por isso mesmo não podemos esquecer de manter constante contato coma fonte de nosso amor, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. O fato de atrairmos “pequenos amores” e o distribuirmos abundantemente não pode fazer com que o nosso amor com Deus seja menos total, único e central.
O amor desperta energias e reservas afetivas, as quais, se não fosse por ele, permaneceriam inutilizadas. São elas que abrem, depois, à pessoa, possibilidades insuspeitas de uma atração magnética , forte e frutuosa com os “pequenos amores”. Sendo assim, lembremos: é possível amar diversas coisas e pessoas ao mesmo tempo, mas só é possível devotar paixão fiel a uma, a quem se busca constantemente como fonte de toda a capacidade de amar. Que esta seja nossa história de relacionamento com Deus, para o qual Jesus, cheio de amor, um dia nos atraiu.
Uma semana feliz e iluminada!
Lux Lunae
domingo, 13 de agosto de 2000
O paradoxo do insubstituível
“A alma farta pisa o favo de mel, mas à alma faminta todo amargo é doce” Prov. 27:7
Você pega o ônibus lotado às sete da manhã e alguém resolve pisar no seu pé, bem em cima daquela unha encravada. A dor parece subir pela garganta, passar pelas cordas vocais e querer sair numa explosão verbal nada delicada, mas você trava o impulso e retribui com um sorriso amarelo o “desculpa...” do desastrado. O celular toca e você o atende rapidamente para esquecer da dor que ainda lateja no dedo atingido. Chega ao trabalho e cumprimenta a todos com um sorriso entusiástico, mesmo aqueles a quem você é totalmente indiferente ou outros que você suporta com desprazer. Seu chefe o chama para uma pequena conversa e você sofre cada segundo da presença dele, que descarrega toneladas de cobranças, pressões , prazos, exigências em cima de você, mas seu sorriso está sempre lá, e todos os seus gestos são do mais fiel assentimento. Felizmente o celular toca mais uma vez e você tem um pretexto para encerrar a conversa. Seus colegas o chamam para almoçar num restaurante que acabou de ser inaugurado e você aceita: quase não consegue disfarçar a palidez na hora que vem a conta, mas assina o cheque sorrindo, afinal, a comida valeu a pena e foi bom estar com a turma. Voltando para o trabalho, você é chamado pelo chefe novamente que lhe dá uma advertência por você ter esquecido de apresentar um relatório, ao que você se desfaz em rogos, desculpas, perdões e promessas de que tudo será reparado e esse fato nunca mais acontecerá. Fica muito chateado consigo mesmo, e durante o caminho de volta no ônibus lotado, vai o tempo todo se culpando.
Enfim, chega em casa. Hora de tirar a máscara. Você dirige toda a sua atenção para três vontades: banho, comida, cama. Se é solteiro, procurará fugir das reclamações da mãe, que parece sempre encontrar defeito em tudo que você faz. Fica na defensiva... quando ela puxa conversa, você pensa numa saída; já suportou muito problema por hoje,não está nem um pouco a fim de pensar nas complicações que ela inventa. Então corta a conversa, dizendo bem sério que ela sempre consegue adivinhar o pior momento de lhe falar: ligou uma vez em pleno ônibus lotado, outra vez conseguiu atrapalhar uma importante reunião com o chefe, e agora não percebe o quanto você está cansado e chateado com seus próprios problemas, que não são poucos. Você não tinha intenção de magoá-la, mas acabou fazendo... enquanto ela sai de cara feia, você pensa que depois ela esquece e vai ficar bem... pelo menos você conseguiu um pouco de descanso. Seus irmãos perguntam se você comprou ou pagou algo que estava sob sua responsabilidade... “ih! Esqueci!”. Decide comprar um remédio para memória, mas não perde a chance rebater as reclamações deles e vocês acabam discutindo feio, as acusações e ironias se intensificam e no fim todos estão chateados. Você decide ir dormir, sem se preocupar em como eles estão se sentindo, afinal eles vão estar sempre ali e amanhã parecerá que nada aconteceu. Além disso, você tem coisas mais importantes para lembrar e com que gastar seu dinheiro... se você é casado, a esposa toma o papel da mãe e os filhos ficam no lugar dos irmãos.
É certo que, felizmente, existem pessoas que fazem exceção a esses acontecimentos, mas via de regra nós nos encaixamos neste modo de agir. O que faz nosso comportamento ser de um jeito com as pessoas que não conhecemos e de outro, oposto , com aquelas que estão bem próximas a nós? Por que as que significam mais em nossa vida são normalmente tratadas de forma mais rude, e acabam recebendo toda a descarga de tensão que acumulamos ao engolir os aborrecimentos das pessoas por quem não sentimos nada de especial? O que nos faz sentir tão livres para magoar a quem amamos com frequência, enquanto parecemos amordaçados na hora de reagir à injustiças de quem não nos tem nenhum sentimento profundo? Por que será que a mínima indelicadeza dos familiares, cônjuges, ou amigos com quem temos mais intimidade nos parece motivo para uma catástrofe indizível, enquanto grandes e pequenas ofensas dos indivíduos com quem travamos relação superficial são suportadas com um agonizante sorriso no rosto? A resposta para tudo isso está numa única assertiva: o amor insubstituível nos assegura que ele sempre estará lá.
Intimamente sabemos que as pessoas com quem nos relacionamos há mais tempo, com as quais partilhamos nossa intimidade e verdade estão seguramente “presas” a nós. Não precisamos conquistá-las, não há motivo para preocupação quanto ao mantê-las junto a nós: estas pessoas conhecem o que há de pior em nós e ainda assim nos aceitam plenamente, nos amam verdadeiramente e sempre nos perdoam. Sabemos que se as magoarmos, ferirmos, isso não será suficiente para diminuir o sentimento delas por nós, que excede qualquer entendimento (muito embora pouco nos preocupemos em entender o amor com que somos amados). E o que leva essas pessoas a ter um amor tão incondicional não é nenhuma tendência masoquista: elas estão sempre ao nosso lado porque nós somos INSUBTITUÍVEIS para elas, elas nos perdoam tão facilmente pois a felicidade de nossa presença supera nossa capacidade de fazê-las sofrer, elas passam além de nossos defeitos, não por causa do vínculo familiar ou do vínculo conjugal, mas pelo amor, que é o vínculo da perfeição(Col. 3:14).
Todos os outros relacionamentos são jogos de interesse em que não há segurança, apenas o cumprimento de um dever, seja ele a subordinação, a educação, a praxe. Forçamo-nos para que não apareça nossa face real, mas aquilo que queremos que as pessoas pensem de nós, até que consigamos conquistar nosso objetivo com, ou através daquela pessoa. E é assim que um namorado compreensivo e gentil pode se transformar num marido autoritário e bruto, que uma namorada doce e virtuosa pode se tornar uma esposa insolente, caprichosa e indiferente, ou ainda é assim que se explica como uma mesma pessoa pode parecer ao mundo ter qualidades que somem quando deveriam ser exercitadas justamente com os que lhe têm mais afeto. De outro modo, como se explicaria o fato de que somos capazes de varar madrugadas ouvindo e dando a maior força com os problemas e lamúrias de um amigo com quem não convivemos intimamente, mas nos impacientamos quando os que nos amam partilham sua tristeza conosco e não raro os abandonamos a sua própria capacidade de reagir, como se aquilo não tivesse nada a ver conosco? Ou, questiono-me, nos relacionamentos em que nos sentimos seguros, ostentamos veementemente a bandeira da liberdade de sermos e fazermos o que for de nossa vontade, mas engolimos quietinhos toda cobrança e imposição quando isso se nos apresenta como preço de nossas conquistas? O valor que demostramos pelo superficial por vezes supera o que demonstramos por essas pessoas, a quem só descobrimos a importância exata quando vimos a perdê-las...
Pensemos agora verticalmente. O amor com que Deus nos ama é extremamente pessoal, porque somos para Ele criaturas insubstituíveis. Quem ainda não sentiu Esse amor, regozija ao descobri-lo; quem já o provou sabe a maneira específica com que Ele se manifesta na vida do que crê. Aquele que já desvendou o real caráter do amor de Deus, que já foi perdoado e sentiu o amparo e proteção dEste Deus que, não importa quão sujos e pecadores somos, continua a nos amar fortemente...aquele que tem na sua vida o testemunho destas coisas, sabe em todo o seu ser, a todo tempo, que está seguro nas asas deste amor pelo insubstituível. Mas - infeliz paradoxo – são justamente os que já sentiram este amor, que tendem a não cultivá-lo como ele merece. Ora, sabendo-se que Deus é eterna misericórdia, que é onipresente e nunca falha quando nós falhamos, nos enchemos de uma segurança perigosa que pode nos levar para longe deste amor: o amor de Deus está sempre lá, Ele não vai perder-me de vista , então está tudo bem, não importa o que eu faça ou deixe de fazer. O que não nos apercebemos é que o amor só toca o que está na sua esfera de alcance, e embora ele exista latente no seio de quem ama, o ser amado ausente, distante e que se afasta voluntariamente mais e mais do amor, terá apenas a sua lembrança, mas não mais a sua atuação. E então virá a dor de ficar de fora de algo que parecia tão certo que nem precisava ser buscado.
Valorizemos o amor de quem nos considera insubstituíveis. O mínimo que pode acontecer é nos tornarmos menos egoístas e crescermos mais eficazmente com a experiência de amar. O auge será descobrirmos a felicidade completa, atingida quando decidimos colocar este amor acima do que não vale a pena (e isto inclui nosso eu). O máximo que irá acontecer... bem, nós temos uma eternidade inteira para descobrir...
Uma semana feliz e iluminada!
Lux Lunae
Você pega o ônibus lotado às sete da manhã e alguém resolve pisar no seu pé, bem em cima daquela unha encravada. A dor parece subir pela garganta, passar pelas cordas vocais e querer sair numa explosão verbal nada delicada, mas você trava o impulso e retribui com um sorriso amarelo o “desculpa...” do desastrado. O celular toca e você o atende rapidamente para esquecer da dor que ainda lateja no dedo atingido. Chega ao trabalho e cumprimenta a todos com um sorriso entusiástico, mesmo aqueles a quem você é totalmente indiferente ou outros que você suporta com desprazer. Seu chefe o chama para uma pequena conversa e você sofre cada segundo da presença dele, que descarrega toneladas de cobranças, pressões , prazos, exigências em cima de você, mas seu sorriso está sempre lá, e todos os seus gestos são do mais fiel assentimento. Felizmente o celular toca mais uma vez e você tem um pretexto para encerrar a conversa. Seus colegas o chamam para almoçar num restaurante que acabou de ser inaugurado e você aceita: quase não consegue disfarçar a palidez na hora que vem a conta, mas assina o cheque sorrindo, afinal, a comida valeu a pena e foi bom estar com a turma. Voltando para o trabalho, você é chamado pelo chefe novamente que lhe dá uma advertência por você ter esquecido de apresentar um relatório, ao que você se desfaz em rogos, desculpas, perdões e promessas de que tudo será reparado e esse fato nunca mais acontecerá. Fica muito chateado consigo mesmo, e durante o caminho de volta no ônibus lotado, vai o tempo todo se culpando.
Enfim, chega em casa. Hora de tirar a máscara. Você dirige toda a sua atenção para três vontades: banho, comida, cama. Se é solteiro, procurará fugir das reclamações da mãe, que parece sempre encontrar defeito em tudo que você faz. Fica na defensiva... quando ela puxa conversa, você pensa numa saída; já suportou muito problema por hoje,não está nem um pouco a fim de pensar nas complicações que ela inventa. Então corta a conversa, dizendo bem sério que ela sempre consegue adivinhar o pior momento de lhe falar: ligou uma vez em pleno ônibus lotado, outra vez conseguiu atrapalhar uma importante reunião com o chefe, e agora não percebe o quanto você está cansado e chateado com seus próprios problemas, que não são poucos. Você não tinha intenção de magoá-la, mas acabou fazendo... enquanto ela sai de cara feia, você pensa que depois ela esquece e vai ficar bem... pelo menos você conseguiu um pouco de descanso. Seus irmãos perguntam se você comprou ou pagou algo que estava sob sua responsabilidade... “ih! Esqueci!”. Decide comprar um remédio para memória, mas não perde a chance rebater as reclamações deles e vocês acabam discutindo feio, as acusações e ironias se intensificam e no fim todos estão chateados. Você decide ir dormir, sem se preocupar em como eles estão se sentindo, afinal eles vão estar sempre ali e amanhã parecerá que nada aconteceu. Além disso, você tem coisas mais importantes para lembrar e com que gastar seu dinheiro... se você é casado, a esposa toma o papel da mãe e os filhos ficam no lugar dos irmãos.
É certo que, felizmente, existem pessoas que fazem exceção a esses acontecimentos, mas via de regra nós nos encaixamos neste modo de agir. O que faz nosso comportamento ser de um jeito com as pessoas que não conhecemos e de outro, oposto , com aquelas que estão bem próximas a nós? Por que as que significam mais em nossa vida são normalmente tratadas de forma mais rude, e acabam recebendo toda a descarga de tensão que acumulamos ao engolir os aborrecimentos das pessoas por quem não sentimos nada de especial? O que nos faz sentir tão livres para magoar a quem amamos com frequência, enquanto parecemos amordaçados na hora de reagir à injustiças de quem não nos tem nenhum sentimento profundo? Por que será que a mínima indelicadeza dos familiares, cônjuges, ou amigos com quem temos mais intimidade nos parece motivo para uma catástrofe indizível, enquanto grandes e pequenas ofensas dos indivíduos com quem travamos relação superficial são suportadas com um agonizante sorriso no rosto? A resposta para tudo isso está numa única assertiva: o amor insubstituível nos assegura que ele sempre estará lá.
Intimamente sabemos que as pessoas com quem nos relacionamos há mais tempo, com as quais partilhamos nossa intimidade e verdade estão seguramente “presas” a nós. Não precisamos conquistá-las, não há motivo para preocupação quanto ao mantê-las junto a nós: estas pessoas conhecem o que há de pior em nós e ainda assim nos aceitam plenamente, nos amam verdadeiramente e sempre nos perdoam. Sabemos que se as magoarmos, ferirmos, isso não será suficiente para diminuir o sentimento delas por nós, que excede qualquer entendimento (muito embora pouco nos preocupemos em entender o amor com que somos amados). E o que leva essas pessoas a ter um amor tão incondicional não é nenhuma tendência masoquista: elas estão sempre ao nosso lado porque nós somos INSUBTITUÍVEIS para elas, elas nos perdoam tão facilmente pois a felicidade de nossa presença supera nossa capacidade de fazê-las sofrer, elas passam além de nossos defeitos, não por causa do vínculo familiar ou do vínculo conjugal, mas pelo amor, que é o vínculo da perfeição(Col. 3:14).
Todos os outros relacionamentos são jogos de interesse em que não há segurança, apenas o cumprimento de um dever, seja ele a subordinação, a educação, a praxe. Forçamo-nos para que não apareça nossa face real, mas aquilo que queremos que as pessoas pensem de nós, até que consigamos conquistar nosso objetivo com, ou através daquela pessoa. E é assim que um namorado compreensivo e gentil pode se transformar num marido autoritário e bruto, que uma namorada doce e virtuosa pode se tornar uma esposa insolente, caprichosa e indiferente, ou ainda é assim que se explica como uma mesma pessoa pode parecer ao mundo ter qualidades que somem quando deveriam ser exercitadas justamente com os que lhe têm mais afeto. De outro modo, como se explicaria o fato de que somos capazes de varar madrugadas ouvindo e dando a maior força com os problemas e lamúrias de um amigo com quem não convivemos intimamente, mas nos impacientamos quando os que nos amam partilham sua tristeza conosco e não raro os abandonamos a sua própria capacidade de reagir, como se aquilo não tivesse nada a ver conosco? Ou, questiono-me, nos relacionamentos em que nos sentimos seguros, ostentamos veementemente a bandeira da liberdade de sermos e fazermos o que for de nossa vontade, mas engolimos quietinhos toda cobrança e imposição quando isso se nos apresenta como preço de nossas conquistas? O valor que demostramos pelo superficial por vezes supera o que demonstramos por essas pessoas, a quem só descobrimos a importância exata quando vimos a perdê-las...
Pensemos agora verticalmente. O amor com que Deus nos ama é extremamente pessoal, porque somos para Ele criaturas insubstituíveis. Quem ainda não sentiu Esse amor, regozija ao descobri-lo; quem já o provou sabe a maneira específica com que Ele se manifesta na vida do que crê. Aquele que já desvendou o real caráter do amor de Deus, que já foi perdoado e sentiu o amparo e proteção dEste Deus que, não importa quão sujos e pecadores somos, continua a nos amar fortemente...aquele que tem na sua vida o testemunho destas coisas, sabe em todo o seu ser, a todo tempo, que está seguro nas asas deste amor pelo insubstituível. Mas - infeliz paradoxo – são justamente os que já sentiram este amor, que tendem a não cultivá-lo como ele merece. Ora, sabendo-se que Deus é eterna misericórdia, que é onipresente e nunca falha quando nós falhamos, nos enchemos de uma segurança perigosa que pode nos levar para longe deste amor: o amor de Deus está sempre lá, Ele não vai perder-me de vista , então está tudo bem, não importa o que eu faça ou deixe de fazer. O que não nos apercebemos é que o amor só toca o que está na sua esfera de alcance, e embora ele exista latente no seio de quem ama, o ser amado ausente, distante e que se afasta voluntariamente mais e mais do amor, terá apenas a sua lembrança, mas não mais a sua atuação. E então virá a dor de ficar de fora de algo que parecia tão certo que nem precisava ser buscado.
Valorizemos o amor de quem nos considera insubstituíveis. O mínimo que pode acontecer é nos tornarmos menos egoístas e crescermos mais eficazmente com a experiência de amar. O auge será descobrirmos a felicidade completa, atingida quando decidimos colocar este amor acima do que não vale a pena (e isto inclui nosso eu). O máximo que irá acontecer... bem, nós temos uma eternidade inteira para descobrir...
Uma semana feliz e iluminada!
Lux Lunae
domingo, 6 de agosto de 2000
Dos rótulos
“Senhor, tu me sondas e me conheces.” Salmo 139:1
Dez meses de uma feliz amizade e chegamos à conclusão que o namoro seria uma ótima opção para nos tornar ainda mais felizes. Como estávamos enfrentando uma série de barreiras, esta decisão foi cautelosa e um pouquinho demorada, até estarmos seguros que o alicerce estava bem firme... . Durante este tempo de “preparação do terreno”, por algumas vezes ele me perguntou se tal situação – estar ciente de meus sentimentos e dos dele e não poder expressá-los publicamente – não me incomodava. Eu respondia sempre que o importante eram exatamente os nossos sentimentos, e não o rótulo que nos descreveria frente às pessoas. No dia em que, finalmente, sentimos que havia chegado a hora de assumir o namoro oficialmente, eu demonstrei tamanha alegria, euforia e felicidade que ele me perguntou: “Será mesmo que os rótulos não são importantes?...”. Na hora fiquei tão encabulada que respondi qualquer coisa com ares de desculpa esfarrapada, mas hoje, repensando o episódio, acho que lhe responderia: “rótulos não são ruins, desde que não enganem quanto ao conteúdo!”, e minha felicidade traduzia justamente o saber que no nosso caso, o rótulo ainda era insuficiente para descrever a qualidade do conteúdo, hehehe.
Relembrei este episódio enquanto me dirigia para o primeiro dia no meu primeiro emprego (na verdade, quase isso.. um estágio) aqui em São Paulo. Eu percebi que meu andar estava diferente, mais firme, minha postura mais confiante, olhei-me no espelho e me achei até mais bonita e a explicação para isso era óbvia: agora eu tinha uma função... um rótulo! Passei a meditar na importância que as pessoas dão aos rótulos, como se fossem eles, e não elas próprias, que demonstrassem sua capacidade como seres humanos.
Lembrei de um fato constrangedor acontecido em certa escola sabatina. O professor perguntava à classe, o emprego de cada membro, com o fim de fazer uma analogia entre a diversidade de funções e a diversidade de dons. Certa senhora no entanto, permaneceu calada quando chegou a sua vez, e era visível como estava incomodada, constrangida, perturbada. Depois de alguns instantes, o professor, com muita habilidade e gentileza, descobriu que ela era uma dona-de-casa...o fato de não ter o rótulo de um emprego em meio a uma classe cheia de professores, engenheiros, pastores, contadores, secretários, etc, abateu visivelmente aquela mulher, ainda que várias pessoas lhe dissessem que ser dona-de-casa é uma bonita e importante função. Esse incidente por sua vez, me fez lembrar de outra certa dona-de-casa, a senhora Brown, que ao também ser perguntada sobre o que fazia da vida, respondeu satisfeita: “Exploro o desconhecido”. A diferença marcante entre as duas mulheres está que a última renova sua satisfação, no ato de descobrir novas facetas sobre sua capacidade, está livre para ir além dos limites. A primeira é dependente de uma função para revelar sua capacidade, para sentir que existe, para afirmar-se, enfim, tornou-se escrava dos rótulos pois se apoia neles para mostrar sua personalidade.
Mas afinal, quais as causas e consequências da dependência de funções rotulatórias? Analise comigo a vida de Tribufólio Cunegundes.
Tribufólio era um jovem, cristão novo, adventista convicto, tímido porém muito dado a realização do bem pelos outros. A profissão de Tribufólio... bem, digamos que ele era um olhador de nuvens sem responsabilidade meteorológica. Embora introvertido, ele gostava de lidar pessoalmente com as pessoas, seu problema estava apenas em encarar grandes grupos. Sabia dar estudos bíblicos e conduzir facilmente as pessoas a tomar decisões, pois era um observador detalhista das necessidades de seus estudantes. Também sabia cozinhar e quando ia preparar sua comida sempre fazia algo para oferecer aos vizinhos, que lhe tinham grande estima e respeito. Os que o conheciam o olhavam como um rapaz prestativo, íntegro, sensível às dores alheias, discreto e digno de confiança. Mas Tribufólio não estava satisfeito. Ele no fundo sabia que era inteligente e possuía muitas qualidades, mas ninguém parecia valorizá-lo por isso! Ele se sentia só mais alguém na multidão, sem nada de concreto que pudesse mostrar às pessoas o quanto ele era especial. Começou então por realizar um projeto profissional: se tornar um advogado, para que todos pudessem reconhecer seu valor na ajuda às causas alheias, dos desfavorecidos e necessitados. Fez, ou melhor, sofreu um curso de oratória e passou a dedicar-se a aprender técnicas que o fizessem expressar com eloquência sua idéias. Suando em bagas, pediu ao ancião uma oportunidade para pregar, num culto de quarta-feira de cinzas em que metade da igreja estava num acampamento e a outra metade não era a mais assídua... enquanto isso estagiava num escritório de advocacia para pegar todas as manhas da profissão, e por vezes , decepcionado, constatava que seria um pouco difícil manter seu ideal de justiça e integridade para ajudar as pessoas... Em poucos anos, Tribufólio se tornou o “doutor Cunegundes”, ancião da sua igreja e um advogado especializado em Direito Internacional, trabalhando em uma poderosa empresa do bloco Mercosul, afinal, ajudar as pessoas seria afundar no Direito das massas que em nada compensa. Como ancião cheio de problemas administrativos para resolver, não tinha mais tempo para dar estudos bíblicos, muito embora mantivesse, como alívio de consciência, sua pasta de sermões sempre atualizada. Estava consciente que não pregava tão bem quanto fazia o evangelismo pessoal, mas muitas pessoas o cumprimentavam dizendo que seus sermões era inspirados... o que Tribufólio não atentava é que ele fazia tais sermões exatamente com o intuito de agradar aos ouvidos dos que o cumprimentavam... ele necessitava desses elogios para se sentir valorizado. Triste nominalismo a que se reduziu o antigo cristianismo de Tribufólio... agora ele mantinha em dia o bonito quadro com o número de pessoas batizadas; quadro que ele mesmo escolhera combinando com a decoração da igreja, pessoas que estavam com todas as fichas batismais devidamente organizadas, preenchidas e arquivadas... e que não eram, nem sequer uma, fruto da influência dele. Como bem-sucedido homem de negócios, ele contratou uma cozinheira muito boa, mas não lembrava mais de dividir as delícias culinárias que degustava. Reformou e ampliou a casa e colocou um eficiente sistema de segurança em todos os muros – agora bem mais altos. Certo dia percebeu que esquecera o nome dos vizinhos, mas não se perturbou pois provavelmente não teria mesmo oportunidade para falar-lhes. Os que o conheciam bem agora, eram seus colegas de trabalho, que lhe cumprimentavam por sua competência profissional, sua imparcialidade, sua racionalidade e frieza para lidar com as situações propostas... o “doutor Cunegundes” sorria-lhes satisfeito, mas de vez em quando, sozinho no seu mega-escritório, sentia saudades do que já não era: um homem íntegro, prestativo, sensível e digno de confiança. Agora ele tinha os rótulos que havia sonhado... e uma úlcera no estômago.
O drama de Tribufólio se repete cotidianamente entre nós. Pessoas como ele estão sujeitas a pior condenação a que poderiam se impor: a escravidão do rótulo. Tais indivíduos vestem o rótulo como uma pele de que não podem se livrar, e que necessitam para serem supridos emocionalmente pela valorização alheia, já que não aprenderam a se auto-valorizar ou a discernir os valores mais importantes. Buscarão com ansiedade desproporcional o resultado excelente em tudo que fizerem, dando excessiva importância à situação em que o eu se exibe, afinal, é a valorização alheia que garantirá seu valor como pessoa. Se não conseguem se sobressair, sentem-se inúteis... no caso de Tribufólio, sendo um homem tímido, ele expressa sua depressão com frases de auto-compaixão, lamentos e afastamento da situação. Se fosse um tipo colérico, agrediria a situação, com palavras de orgulho, auto-afirmação, ou descarregando em cima dos outros. Tais pessoas acabarão por tonar-se pouco criativas e adequar-se ao que os outros esperam delas, entregando suas vidas e paz ao julgamento dos outros, como que lhes mendigando estima. Com o tempo, deixarão de explorar suas próprias qualidades, para desenvolver aquelas qualidades mais cotadas, mais evidentes, mais em moda, acabando por renunciar parte de si mesmo, senão a melhor parte...
Acho que não há muito que ser comentado a respeito desse insidioso mal. Felizmente temos um Deus que não mede nosso caráter pela quantidade de resultados concretos que fazemos, que não nos julga pelo consenso social, que nos identifica como almas filhas , e não pela função, profissão, nome, títulos, posições ou qualquer outro rótulo que venhamos a ter. Como muitos discípulos ao longo do tempo, talvez tenhamos até de sacrificar alguns rótulos bem quistos, em prol dos interesses do Reino...
Chegando ao escritório de advocacia, toco a campanhia mas é um som mais forte que ouço ressoar dentro de mim. E ele diz: “rótulos não são ruins desde que não enganem quanto ao conteúdo!”. Pois nada engana Aquele que nos sonda e nos conhece.
Uma semana feliz e iluminada!!
Lux Lunae
Dez meses de uma feliz amizade e chegamos à conclusão que o namoro seria uma ótima opção para nos tornar ainda mais felizes. Como estávamos enfrentando uma série de barreiras, esta decisão foi cautelosa e um pouquinho demorada, até estarmos seguros que o alicerce estava bem firme... . Durante este tempo de “preparação do terreno”, por algumas vezes ele me perguntou se tal situação – estar ciente de meus sentimentos e dos dele e não poder expressá-los publicamente – não me incomodava. Eu respondia sempre que o importante eram exatamente os nossos sentimentos, e não o rótulo que nos descreveria frente às pessoas. No dia em que, finalmente, sentimos que havia chegado a hora de assumir o namoro oficialmente, eu demonstrei tamanha alegria, euforia e felicidade que ele me perguntou: “Será mesmo que os rótulos não são importantes?...”. Na hora fiquei tão encabulada que respondi qualquer coisa com ares de desculpa esfarrapada, mas hoje, repensando o episódio, acho que lhe responderia: “rótulos não são ruins, desde que não enganem quanto ao conteúdo!”, e minha felicidade traduzia justamente o saber que no nosso caso, o rótulo ainda era insuficiente para descrever a qualidade do conteúdo, hehehe.
Relembrei este episódio enquanto me dirigia para o primeiro dia no meu primeiro emprego (na verdade, quase isso.. um estágio) aqui em São Paulo. Eu percebi que meu andar estava diferente, mais firme, minha postura mais confiante, olhei-me no espelho e me achei até mais bonita e a explicação para isso era óbvia: agora eu tinha uma função... um rótulo! Passei a meditar na importância que as pessoas dão aos rótulos, como se fossem eles, e não elas próprias, que demonstrassem sua capacidade como seres humanos.
Lembrei de um fato constrangedor acontecido em certa escola sabatina. O professor perguntava à classe, o emprego de cada membro, com o fim de fazer uma analogia entre a diversidade de funções e a diversidade de dons. Certa senhora no entanto, permaneceu calada quando chegou a sua vez, e era visível como estava incomodada, constrangida, perturbada. Depois de alguns instantes, o professor, com muita habilidade e gentileza, descobriu que ela era uma dona-de-casa...o fato de não ter o rótulo de um emprego em meio a uma classe cheia de professores, engenheiros, pastores, contadores, secretários, etc, abateu visivelmente aquela mulher, ainda que várias pessoas lhe dissessem que ser dona-de-casa é uma bonita e importante função. Esse incidente por sua vez, me fez lembrar de outra certa dona-de-casa, a senhora Brown, que ao também ser perguntada sobre o que fazia da vida, respondeu satisfeita: “Exploro o desconhecido”. A diferença marcante entre as duas mulheres está que a última renova sua satisfação, no ato de descobrir novas facetas sobre sua capacidade, está livre para ir além dos limites. A primeira é dependente de uma função para revelar sua capacidade, para sentir que existe, para afirmar-se, enfim, tornou-se escrava dos rótulos pois se apoia neles para mostrar sua personalidade.
Mas afinal, quais as causas e consequências da dependência de funções rotulatórias? Analise comigo a vida de Tribufólio Cunegundes.
Tribufólio era um jovem, cristão novo, adventista convicto, tímido porém muito dado a realização do bem pelos outros. A profissão de Tribufólio... bem, digamos que ele era um olhador de nuvens sem responsabilidade meteorológica. Embora introvertido, ele gostava de lidar pessoalmente com as pessoas, seu problema estava apenas em encarar grandes grupos. Sabia dar estudos bíblicos e conduzir facilmente as pessoas a tomar decisões, pois era um observador detalhista das necessidades de seus estudantes. Também sabia cozinhar e quando ia preparar sua comida sempre fazia algo para oferecer aos vizinhos, que lhe tinham grande estima e respeito. Os que o conheciam o olhavam como um rapaz prestativo, íntegro, sensível às dores alheias, discreto e digno de confiança. Mas Tribufólio não estava satisfeito. Ele no fundo sabia que era inteligente e possuía muitas qualidades, mas ninguém parecia valorizá-lo por isso! Ele se sentia só mais alguém na multidão, sem nada de concreto que pudesse mostrar às pessoas o quanto ele era especial. Começou então por realizar um projeto profissional: se tornar um advogado, para que todos pudessem reconhecer seu valor na ajuda às causas alheias, dos desfavorecidos e necessitados. Fez, ou melhor, sofreu um curso de oratória e passou a dedicar-se a aprender técnicas que o fizessem expressar com eloquência sua idéias. Suando em bagas, pediu ao ancião uma oportunidade para pregar, num culto de quarta-feira de cinzas em que metade da igreja estava num acampamento e a outra metade não era a mais assídua... enquanto isso estagiava num escritório de advocacia para pegar todas as manhas da profissão, e por vezes , decepcionado, constatava que seria um pouco difícil manter seu ideal de justiça e integridade para ajudar as pessoas... Em poucos anos, Tribufólio se tornou o “doutor Cunegundes”, ancião da sua igreja e um advogado especializado em Direito Internacional, trabalhando em uma poderosa empresa do bloco Mercosul, afinal, ajudar as pessoas seria afundar no Direito das massas que em nada compensa. Como ancião cheio de problemas administrativos para resolver, não tinha mais tempo para dar estudos bíblicos, muito embora mantivesse, como alívio de consciência, sua pasta de sermões sempre atualizada. Estava consciente que não pregava tão bem quanto fazia o evangelismo pessoal, mas muitas pessoas o cumprimentavam dizendo que seus sermões era inspirados... o que Tribufólio não atentava é que ele fazia tais sermões exatamente com o intuito de agradar aos ouvidos dos que o cumprimentavam... ele necessitava desses elogios para se sentir valorizado. Triste nominalismo a que se reduziu o antigo cristianismo de Tribufólio... agora ele mantinha em dia o bonito quadro com o número de pessoas batizadas; quadro que ele mesmo escolhera combinando com a decoração da igreja, pessoas que estavam com todas as fichas batismais devidamente organizadas, preenchidas e arquivadas... e que não eram, nem sequer uma, fruto da influência dele. Como bem-sucedido homem de negócios, ele contratou uma cozinheira muito boa, mas não lembrava mais de dividir as delícias culinárias que degustava. Reformou e ampliou a casa e colocou um eficiente sistema de segurança em todos os muros – agora bem mais altos. Certo dia percebeu que esquecera o nome dos vizinhos, mas não se perturbou pois provavelmente não teria mesmo oportunidade para falar-lhes. Os que o conheciam bem agora, eram seus colegas de trabalho, que lhe cumprimentavam por sua competência profissional, sua imparcialidade, sua racionalidade e frieza para lidar com as situações propostas... o “doutor Cunegundes” sorria-lhes satisfeito, mas de vez em quando, sozinho no seu mega-escritório, sentia saudades do que já não era: um homem íntegro, prestativo, sensível e digno de confiança. Agora ele tinha os rótulos que havia sonhado... e uma úlcera no estômago.
O drama de Tribufólio se repete cotidianamente entre nós. Pessoas como ele estão sujeitas a pior condenação a que poderiam se impor: a escravidão do rótulo. Tais indivíduos vestem o rótulo como uma pele de que não podem se livrar, e que necessitam para serem supridos emocionalmente pela valorização alheia, já que não aprenderam a se auto-valorizar ou a discernir os valores mais importantes. Buscarão com ansiedade desproporcional o resultado excelente em tudo que fizerem, dando excessiva importância à situação em que o eu se exibe, afinal, é a valorização alheia que garantirá seu valor como pessoa. Se não conseguem se sobressair, sentem-se inúteis... no caso de Tribufólio, sendo um homem tímido, ele expressa sua depressão com frases de auto-compaixão, lamentos e afastamento da situação. Se fosse um tipo colérico, agrediria a situação, com palavras de orgulho, auto-afirmação, ou descarregando em cima dos outros. Tais pessoas acabarão por tonar-se pouco criativas e adequar-se ao que os outros esperam delas, entregando suas vidas e paz ao julgamento dos outros, como que lhes mendigando estima. Com o tempo, deixarão de explorar suas próprias qualidades, para desenvolver aquelas qualidades mais cotadas, mais evidentes, mais em moda, acabando por renunciar parte de si mesmo, senão a melhor parte...
Acho que não há muito que ser comentado a respeito desse insidioso mal. Felizmente temos um Deus que não mede nosso caráter pela quantidade de resultados concretos que fazemos, que não nos julga pelo consenso social, que nos identifica como almas filhas , e não pela função, profissão, nome, títulos, posições ou qualquer outro rótulo que venhamos a ter. Como muitos discípulos ao longo do tempo, talvez tenhamos até de sacrificar alguns rótulos bem quistos, em prol dos interesses do Reino...
Chegando ao escritório de advocacia, toco a campanhia mas é um som mais forte que ouço ressoar dentro de mim. E ele diz: “rótulos não são ruins desde que não enganem quanto ao conteúdo!”. Pois nada engana Aquele que nos sonda e nos conhece.
Uma semana feliz e iluminada!!
Lux Lunae
domingo, 30 de julho de 2000
Confiar e Esperar
“...Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor...” I Cor. 13:12
Esta semana tive o prazer de degustar a leitura de mais um livro velhinho e fascinante. E como toda leitura realmente prazerosa, esta foi também despretensiosa e sem nenhum interesse específico, sendo que me trouxe ao final, importantes e fortes impressões. Trata-se do livro “O Conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas, um clássico da literatura juvenil (do tempo que literatura juvenil virava clássico). A trama é envolvente, e discorre sobre um jovem que é privado de todos os seus sonhos e esperanças estando prestes a realizá-los, passando de forma injusta e cruel, a ruminar sua desgraça num presídio de segurança máxima. Porém, depois de uma longa espera, a vida lhe deu a oportunidade de mudar o jogo e fazer justiça contra os que o traíram e atraiçoaram. Este jovem, que depois de provar o fel do cárcere e da traição, teria todos os motivos para tornar-se insensível, soberbo, frio, mas justamente por conhecer o significado de sua dor, termina a história com uma frase louvável: “Toda sabedoria humana se resume nestas duas palavras: confiar e esperar!”
Meditando sobre esta afirmação cheguei a conclusão que estas são, de fato, coisas muito difíceis de praticar hoje em dia, daí ser árduo o caminho que leva à sabedoria. Satanás também sabe de nossa fragilidade nesses pontos, pois conhece bem esta raça que desespera ao invés de esperar e aprende a trair ao invés de confiar. Esta raça cheias de extremos que necessita do equilíbrio em Cristo Jesus... falo de extremos porque, ordinariamente, nossas emoções costumam fazer nossas certezas mudarem abruptamente quando postas em prova. Vejamos alguns exemplos disso.
Já que estamos falando de condes, citemos um não tão feliz como o primeiro. No filme “Drácula por Bran Stocker”, temos uma curiosa ilustração na história de como o guerreiro Drácon vira o conde vampirão. O conde sai para guerrear numa Cruzada e deixa sua bela esposa no castelo, pedindo que ela o espere, pois em breve ele voltaria vitorioso. De fato, ele venceu a batalha, mas alguns inimigos sobreviventes enviaram uma carta falsa à doce condessa dizendo que seu marido havia tombado em batalha. A mulher, ao invés de confiar e esperar no que seu amado dissera, desesperou-se e se jogou no rio que cercava seu castelo, encontrando a morte eterna. Embora hoje eu esteja cheia de ilustrações fictícias, acho que não é difícil identificarmos tal atitude em muitos de nós no dia-a-dia. Tudo bem que nem todos se jogam no rio mais próximo – o Tietê por exemplo, mata o desejo do suicida antes que ele se mate, afinal ele não quer correr o risco de escapar fedendo... mas muitos são os que, desesperados, recorrem ao álcool, às drogas, à promiscuidade, ou simplesmente desistem de viver, se atolando na depressão, tornam-se pessoas desanimadas, negativas, invejosas, incapazes de sorrir para o futuro com alegria ou de olhar para o lado bom das coisas. Quantos, pior ainda, desistem de Deus, da sua religião, e prosseguem abatidas e vazias, mesmo que disfarçadas pela capa do nominalismo cristão... Desistir de esperar é desesperar, e entregar-se à derrota própria.
Um episódio que também traz significante ilustração, o qual me chamou atenção por ser vida real rotulada com as mãos da literatura, aconteceu hoje, quando eu vinha do estágio num ônibus. Um rapaz em pé, um pouco mais a minha frente, ostentava na camiseta negra, letras graúdas com parte do lúgubre poema de Augusto dos Anjos:
“...Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.”
Olhando a expressão e o olhar daquele rapaz, não pude deixar de sentir um calafrio me percorrer a espinha. Sua manifestação explícita traduz o que a princípio é a dor da perda da inocência, mas transforma-se num maligno instinto de sobrevivência: por desacreditar na confiança, aprende-se a trair, e a regra é encarar a todos como inimigos em potencial, que neste exato momento podem estar buscando um modo de fazer você sofrer. É muito mais difícil confiar, conservando os valores e as crenças puras, é terrivelmente mais doloroso optar pelo amor e pelo perdão. Tão calejados estão nossos corações, que a saída mais fácil e atraente é ceder à necessidade de também ser fera... um coração ferino estará sempre alerta contra a falsidade de toda demonstração de afeto, se sentirá sempre vitorioso por apedrejar a mão que afaga antes que esta o faça de tolo. E trocará o perigoso prazer de um beijo (por certo traiçoeiro) pela satisfação de um escarro na boca que, como aconteceu tantas vezes, está prestes a lhe trair. Podem até haver inocentes, mas estes são olhados com simplórias criaturas que devem ser doutrinadas a sobreviver na selva, o mais rápido possível.
Como seres pecadores mas que ainda carregam traços de semelhança com Deus, trazemos lá no fundo o desejo de crer na confiança que nasce do amor, mas o medo da decepção a qual está espreitando em cada esquina do caminho estreito que leva à felicidade, nos faz recuar. Abandonando a confiança estamos mais tristes, porém, nos sentimos mais protegidos em nossa auto-suficiência. Desistir de confiar é aprender a trair, e se entregar à derrota alheia.
Felizmente o maior Literata de todos os tempos, que também é Conde e cujo condado nada mais é que o Universo, nos deixou em seus ensinos a certeza de que toda a Felicidade humana se resume em duas atitudes: confiar e esperar nEle. Eu creio nEste Deus que cumpre suas promessas de amor e justiça, e leio claramente na Bíblia que os covardes não terão parte no Novo Lar Perfeito que nos aguarda. Para ser capaz de continuar esperando e confiando em meio a este mundo, é preciso ter muita coragem. A vitória, no entanto, está reservada a estes homens, “homens que não se comprem nem se vendam, homens que no íntimo da alma sejam verdadeiros e honestos, homens cuja consciência seja tão fiel como a bússola o é ao pólo, homens que permaneçam firmes pelo que é reto, ainda que caiam os céus”. (Ellen G. White, Educação, pág. 57)
Os que não desistem de esperar, contemplam hoje, em parte, a salvação, a qual verão brevemente, face a face (Salmo 62:1). Os que esperam são os que deixaram seu amor falar mais alto que as injustiças, traições, maldades e mentiras dos inimigos, suas vidas refletem a paz e segurança de estarem firmados neste amor supremo, suas faces revelam que desde já eles são vitoriosos. Os que não desistem de confiar, são os que não se contaminaram com os corações ferinos, antes, seguem o Cordeiro para onde quer que Ele for (Apocalipse 14: 4). Os que confiam são os bem-aventurados que hoje choram, mas são mansos, misericordiosos, limpos de coração e pacificadores; eles serão consolados, herdarão a Terra e verão ao seu Pai, tendo saciadas a sua fome e sede de justiça. Os que confiam e esperam vencerão o mundo por permanecerem no amor.
Uma semana feliz e iluminada!
Lux Lunae
Esta semana tive o prazer de degustar a leitura de mais um livro velhinho e fascinante. E como toda leitura realmente prazerosa, esta foi também despretensiosa e sem nenhum interesse específico, sendo que me trouxe ao final, importantes e fortes impressões. Trata-se do livro “O Conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas, um clássico da literatura juvenil (do tempo que literatura juvenil virava clássico). A trama é envolvente, e discorre sobre um jovem que é privado de todos os seus sonhos e esperanças estando prestes a realizá-los, passando de forma injusta e cruel, a ruminar sua desgraça num presídio de segurança máxima. Porém, depois de uma longa espera, a vida lhe deu a oportunidade de mudar o jogo e fazer justiça contra os que o traíram e atraiçoaram. Este jovem, que depois de provar o fel do cárcere e da traição, teria todos os motivos para tornar-se insensível, soberbo, frio, mas justamente por conhecer o significado de sua dor, termina a história com uma frase louvável: “Toda sabedoria humana se resume nestas duas palavras: confiar e esperar!”
Meditando sobre esta afirmação cheguei a conclusão que estas são, de fato, coisas muito difíceis de praticar hoje em dia, daí ser árduo o caminho que leva à sabedoria. Satanás também sabe de nossa fragilidade nesses pontos, pois conhece bem esta raça que desespera ao invés de esperar e aprende a trair ao invés de confiar. Esta raça cheias de extremos que necessita do equilíbrio em Cristo Jesus... falo de extremos porque, ordinariamente, nossas emoções costumam fazer nossas certezas mudarem abruptamente quando postas em prova. Vejamos alguns exemplos disso.
Já que estamos falando de condes, citemos um não tão feliz como o primeiro. No filme “Drácula por Bran Stocker”, temos uma curiosa ilustração na história de como o guerreiro Drácon vira o conde vampirão. O conde sai para guerrear numa Cruzada e deixa sua bela esposa no castelo, pedindo que ela o espere, pois em breve ele voltaria vitorioso. De fato, ele venceu a batalha, mas alguns inimigos sobreviventes enviaram uma carta falsa à doce condessa dizendo que seu marido havia tombado em batalha. A mulher, ao invés de confiar e esperar no que seu amado dissera, desesperou-se e se jogou no rio que cercava seu castelo, encontrando a morte eterna. Embora hoje eu esteja cheia de ilustrações fictícias, acho que não é difícil identificarmos tal atitude em muitos de nós no dia-a-dia. Tudo bem que nem todos se jogam no rio mais próximo – o Tietê por exemplo, mata o desejo do suicida antes que ele se mate, afinal ele não quer correr o risco de escapar fedendo... mas muitos são os que, desesperados, recorrem ao álcool, às drogas, à promiscuidade, ou simplesmente desistem de viver, se atolando na depressão, tornam-se pessoas desanimadas, negativas, invejosas, incapazes de sorrir para o futuro com alegria ou de olhar para o lado bom das coisas. Quantos, pior ainda, desistem de Deus, da sua religião, e prosseguem abatidas e vazias, mesmo que disfarçadas pela capa do nominalismo cristão... Desistir de esperar é desesperar, e entregar-se à derrota própria.
Um episódio que também traz significante ilustração, o qual me chamou atenção por ser vida real rotulada com as mãos da literatura, aconteceu hoje, quando eu vinha do estágio num ônibus. Um rapaz em pé, um pouco mais a minha frente, ostentava na camiseta negra, letras graúdas com parte do lúgubre poema de Augusto dos Anjos:
“...Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.”
Olhando a expressão e o olhar daquele rapaz, não pude deixar de sentir um calafrio me percorrer a espinha. Sua manifestação explícita traduz o que a princípio é a dor da perda da inocência, mas transforma-se num maligno instinto de sobrevivência: por desacreditar na confiança, aprende-se a trair, e a regra é encarar a todos como inimigos em potencial, que neste exato momento podem estar buscando um modo de fazer você sofrer. É muito mais difícil confiar, conservando os valores e as crenças puras, é terrivelmente mais doloroso optar pelo amor e pelo perdão. Tão calejados estão nossos corações, que a saída mais fácil e atraente é ceder à necessidade de também ser fera... um coração ferino estará sempre alerta contra a falsidade de toda demonstração de afeto, se sentirá sempre vitorioso por apedrejar a mão que afaga antes que esta o faça de tolo. E trocará o perigoso prazer de um beijo (por certo traiçoeiro) pela satisfação de um escarro na boca que, como aconteceu tantas vezes, está prestes a lhe trair. Podem até haver inocentes, mas estes são olhados com simplórias criaturas que devem ser doutrinadas a sobreviver na selva, o mais rápido possível.
Como seres pecadores mas que ainda carregam traços de semelhança com Deus, trazemos lá no fundo o desejo de crer na confiança que nasce do amor, mas o medo da decepção a qual está espreitando em cada esquina do caminho estreito que leva à felicidade, nos faz recuar. Abandonando a confiança estamos mais tristes, porém, nos sentimos mais protegidos em nossa auto-suficiência. Desistir de confiar é aprender a trair, e se entregar à derrota alheia.
Felizmente o maior Literata de todos os tempos, que também é Conde e cujo condado nada mais é que o Universo, nos deixou em seus ensinos a certeza de que toda a Felicidade humana se resume em duas atitudes: confiar e esperar nEle. Eu creio nEste Deus que cumpre suas promessas de amor e justiça, e leio claramente na Bíblia que os covardes não terão parte no Novo Lar Perfeito que nos aguarda. Para ser capaz de continuar esperando e confiando em meio a este mundo, é preciso ter muita coragem. A vitória, no entanto, está reservada a estes homens, “homens que não se comprem nem se vendam, homens que no íntimo da alma sejam verdadeiros e honestos, homens cuja consciência seja tão fiel como a bússola o é ao pólo, homens que permaneçam firmes pelo que é reto, ainda que caiam os céus”. (Ellen G. White, Educação, pág. 57)
Os que não desistem de esperar, contemplam hoje, em parte, a salvação, a qual verão brevemente, face a face (Salmo 62:1). Os que esperam são os que deixaram seu amor falar mais alto que as injustiças, traições, maldades e mentiras dos inimigos, suas vidas refletem a paz e segurança de estarem firmados neste amor supremo, suas faces revelam que desde já eles são vitoriosos. Os que não desistem de confiar, são os que não se contaminaram com os corações ferinos, antes, seguem o Cordeiro para onde quer que Ele for (Apocalipse 14: 4). Os que confiam são os bem-aventurados que hoje choram, mas são mansos, misericordiosos, limpos de coração e pacificadores; eles serão consolados, herdarão a Terra e verão ao seu Pai, tendo saciadas a sua fome e sede de justiça. Os que confiam e esperam vencerão o mundo por permanecerem no amor.
Uma semana feliz e iluminada!
Lux Lunae
domingo, 23 de julho de 2000
Quando alguém muda os seus planos
"Conceda-te conforme ao teu coração, e cumpra todo o teu plano". Salmo 20:4
Resolvi preparar uma surpresa para a minha avó paterna e telefonei para ela hoje. Foi muito gostoso falar com ela apesar das lágrimas mútuas, em compensação ouvi suas reclamações acaloradas pois, devido aquela característica de despedidas não me apetecerem, eu fui embora sem dizer para ela, ainda que tenha passado o último fim-de-semana em Natal na casa dela.
Foi, aliás, um dia muito gostoso, literalmente, principalmente à hora do almoço... e como pede todo almoço em casa de avó, sugeri que ela nos contasse uma velha história, perguntei como ela tinha conhecido meu avô (que já descansa). Ela então começou uma narrativa que prendeu a atenção de todos que estavam na cozinha, e quem passava, ficava para ouvir, de modo que a família toda se apertou para acompanhar a narração recheada de gargalhadas e alguns nós na garganta... uma tragi-comédia que colocaria qualquer novela do SBT no chinelo.
Minha avó, quando adolescente, se apaixonou perdidamente por um rapaz que morava em seu bairro, o qual caiu de quatro pelos encantos da menina. Mais uma linda história de amor, não fosse a existência da tia Elisa.
Tia Elisa era uma amiga da minha avó na época, e irmã do meu avô. Ela morreu com mais de noventa anos, solteirinha da silva, depois de um histórico de maldades de fazer inveja ao curriculo da madastra da Branca de Neve. Quando tia Elisa soube da paixão avassaladora de minha avó, resolveu jogar areia nela e começou seus planos maquiavélicos. Descobriu que o rapaz era motorista de táxi e foi até a mãe de minha avó e delatou tudo, enfatizando que "motorista é uma raça que não presta" e "ele só quer se aproveitar da Maria". Não deu outra. A minha bisa proibiu o namoro. Mas isso não os impediu de se encontrarem às escondidas... Tia Elisa então, tentou algo mais pesado: chantageou a empregada da casa da minha avó para fazê-la inventar a confissão de que tinha andado fazendo "sem-vergonhices" com o namorado da minha avó. E ainda forjou um flagra. Quando o pobre rapaz chegou, num domingo, do quartel onde prestava serviço militar, minha tia o procurou dizendo que vó Maria mandaria um recado para ele pela empregada, e marcou hora e lugar. Ela então correu à casa de vovó, enquanto a empregada ía ao encontro dele para simular o "affair", e, nervosamente, convidou minha avó a flagrar a suposta traição. Quando a empregada avistou minha avó, agarrou o namorado dela, que a empurrou, mas já era tarde: tia Elisa já havia convencido-a que ele era um canalha imprestável que vinha traindo-a há muito tempo. Mas como o rapaz ainda a procurasse (em vão) constantemente, para tentar explicar-se , minha querida tia armou o golpe de misericórida.
Ela começou a sugestionar o meu avô ,irmão ela, a namorar minha avó, e ele, vocês devem imaginar, achou a idéia agradável. Tia Elisa então, chamou minha avó para visitá-la e combinou com meu avô para esperá-la à porta e puxar conversa com ela para dar início à paquera. Depois correu ao ponto de táxi onde o ex-namorado de minha avó ficava, e disse-lhe que ele parasse de ser besta e ir atrás da Maria porque ela já estava namorando o Gaspar (meu vô), há muito tempo, desde quando ela ainda se encontrava com o motorista. E como ele, raivoso, afirmasse que ela estava mentindo, ela o levou até a sua casa, onde flagrou meu avô conversando com minha avó , enquanto tentava tocar-lhe os cabelos. O pobre taxista, agora desiludido, ficou pálido e se aproximou da minha avó dizendo-lhe duras palavras, e depois disso nunca mais a procurou. Ela só veio entender o que aconteceu, anos mais tarde, quando a própria tia Elisa, contou-lhe tudo.
E meu avô acabou casando com minha vozinha, mas não antes da nossa cara vilã convencê-lo a raptá-la, inventando uma mentira sobre a mãe dela querer levá-la embora para Recife, somente para difamar a minha avó, visto que "casar fugida" naquela época era uma das maiores vergonhas e desgostos que se podia dar aos pais. Bem, os últimos anos da tia Elisa foram cheios de sofrimentos (na verdade acho que todos foram), mas foi minha avó que cuidou dela até sua morte, e parece que não guardou mágoas de toda injustiça que passou por causa da minha tia bruxinha. Mas perder um grande amor e o respeito da sociedade só porque alguém resolveu mudar os planos, não deve ser fácil de perdoar.
Penso que para Deus também não deve ter sido nada agradável ver Seus planos de felicidade para a humanidade, serem mudados por causa da inveja, orgulho e maldade de um ser que Ele mesmo criou, e O servia frente a frente, todo o tempo. O pior é que este ser se especializou em ser o "estraga-prazer" dos planos para a vida de todos os filhos de Deus.
Satanás se diverte inventando artimanhas para acabar com a real felicidade de cada um de nós , e seus planos são inteligentes e bem-traçados, com a experiência de um estrategista milenar, de modo que muitas vezes caimos em suas armadilhas sem nem desconfiarmos de que lado está a verdade. E como foi com minha avó, só depois de algum tempo, quando já não há nada a ser feito, é que descobrimos desolados que fomos enganados, ludibriados, manipulados até, e acabamos por perder tudo que estava originalmente planejado sem que tivéssemos culpa consciente disso.
Eu e você, no entanto, contamos com um trunfo que minha avó não tinha: Alguém não só sabe como é a própria verdade e quer nos proteger das maldades de nosso arqui-inimigo. O Deus em que nós cremos, é Aquele que conseguiu driblar as risadas de satisfação de Satanás quando ele levou o pecado a Adão, com um plano perfeito de salvação. Aquele que transformou o gozo de alegria de Satanás, ao ver Cristo pregado morto na cruz, em angústia mortal, quando deu ao Seu Filho a vitória sobre a morte e a sepultura. Aquele que é capaz de nos tomar no meio da situação mais deprimente, no poço mais fundo, da mais escura rua sem saída, do deserto mais árido e da selva mais densa, e tomando-nos em Seus braços, conduzir-nos ao caminho verdejante das águas de descanso. Um Deus-Pastor que tem prazer em carregar suas ovelhas em Seus braços, junto ao peito, enquanto mansamente sussurra: "descanse do seu labor, sua luta árdua, sua decepção e de todo esse medo e insegurança que agora toma conta de você. Deixe que eu leve seus fardos e simplesmente se deixe guiar...". (Isaías 40:11, Mateus 11:28). Com um Deus assim, o que temer? O que fazer se não tomar Seu suave jugo e aprender da mansidão e humildade que emanam do Seu coração? (Mateus11:29).
Quando alguém muda os seus planos, o melhor é permitir que Deus entre com os planos dELe. Jesus, mais que ninguém, conhece a tristeza da frustração; Ele foi homem como eu e você. Em Sua eterna perfeição, Ele consegue transformar toda essa frustração em gozo de vitória. Ainda que tenhamos sido nós a abandonar Seu plano inicial de felicidade total, ou tenhamos sido enganados pelas artimanhas deletérias do Maligno ou simplesmente estejamos cegos para ver que os nossos planos não são os dELe, há algo de muito maior e melhor logo atrás do Monte para onde Ele quer nos levar; há felicidade real, num conceito que nossas limitadas mentes jamais poderão conceber, nem em uma pálida idéia.(Isaias 64:4)
Minha avó, com seu riso largo ao fim da sua triste história, me ensinou algo importantíssimo: mudança de planos não significa derrota. E cá para nós, se minha avó não tivesse casado com meu avô e passado por tantas coisas que lhe acrescentaram uma sabedoria enorme, eu não teria a bênção da sua presença e exemplo! E ela não teria uma neta coruja que lhe amasse tanto quanto eu, hehehe.
Somos todos mais que vencedores por meio dAquele que nos amou, e os planos para as vidas dos filhos do Grande Deus Todo-Poderoso são histórias de um povo que desde a antiguidade nasceu como raça eleita para a vitória, histórias com muitos enredos, caminhos que se cruzam, se afastam dando voltas e se bifurcam brusca ou sutilmente... mas acima de tudo vidas com o mesmo fim: o cumprimento do Plano maior que jamais será frustrado, do qual força inimiga nenhuma nos afastará, o Plano da Salvação Gloriosa em Cristo Jesus.
Uma Semana Feliz e Iluminada!
Lux Lunae
Resolvi preparar uma surpresa para a minha avó paterna e telefonei para ela hoje. Foi muito gostoso falar com ela apesar das lágrimas mútuas, em compensação ouvi suas reclamações acaloradas pois, devido aquela característica de despedidas não me apetecerem, eu fui embora sem dizer para ela, ainda que tenha passado o último fim-de-semana em Natal na casa dela.
Foi, aliás, um dia muito gostoso, literalmente, principalmente à hora do almoço... e como pede todo almoço em casa de avó, sugeri que ela nos contasse uma velha história, perguntei como ela tinha conhecido meu avô (que já descansa). Ela então começou uma narrativa que prendeu a atenção de todos que estavam na cozinha, e quem passava, ficava para ouvir, de modo que a família toda se apertou para acompanhar a narração recheada de gargalhadas e alguns nós na garganta... uma tragi-comédia que colocaria qualquer novela do SBT no chinelo.
Minha avó, quando adolescente, se apaixonou perdidamente por um rapaz que morava em seu bairro, o qual caiu de quatro pelos encantos da menina. Mais uma linda história de amor, não fosse a existência da tia Elisa.
Tia Elisa era uma amiga da minha avó na época, e irmã do meu avô. Ela morreu com mais de noventa anos, solteirinha da silva, depois de um histórico de maldades de fazer inveja ao curriculo da madastra da Branca de Neve. Quando tia Elisa soube da paixão avassaladora de minha avó, resolveu jogar areia nela e começou seus planos maquiavélicos. Descobriu que o rapaz era motorista de táxi e foi até a mãe de minha avó e delatou tudo, enfatizando que "motorista é uma raça que não presta" e "ele só quer se aproveitar da Maria". Não deu outra. A minha bisa proibiu o namoro. Mas isso não os impediu de se encontrarem às escondidas... Tia Elisa então, tentou algo mais pesado: chantageou a empregada da casa da minha avó para fazê-la inventar a confissão de que tinha andado fazendo "sem-vergonhices" com o namorado da minha avó. E ainda forjou um flagra. Quando o pobre rapaz chegou, num domingo, do quartel onde prestava serviço militar, minha tia o procurou dizendo que vó Maria mandaria um recado para ele pela empregada, e marcou hora e lugar. Ela então correu à casa de vovó, enquanto a empregada ía ao encontro dele para simular o "affair", e, nervosamente, convidou minha avó a flagrar a suposta traição. Quando a empregada avistou minha avó, agarrou o namorado dela, que a empurrou, mas já era tarde: tia Elisa já havia convencido-a que ele era um canalha imprestável que vinha traindo-a há muito tempo. Mas como o rapaz ainda a procurasse (em vão) constantemente, para tentar explicar-se , minha querida tia armou o golpe de misericórida.
Ela começou a sugestionar o meu avô ,irmão ela, a namorar minha avó, e ele, vocês devem imaginar, achou a idéia agradável. Tia Elisa então, chamou minha avó para visitá-la e combinou com meu avô para esperá-la à porta e puxar conversa com ela para dar início à paquera. Depois correu ao ponto de táxi onde o ex-namorado de minha avó ficava, e disse-lhe que ele parasse de ser besta e ir atrás da Maria porque ela já estava namorando o Gaspar (meu vô), há muito tempo, desde quando ela ainda se encontrava com o motorista. E como ele, raivoso, afirmasse que ela estava mentindo, ela o levou até a sua casa, onde flagrou meu avô conversando com minha avó , enquanto tentava tocar-lhe os cabelos. O pobre taxista, agora desiludido, ficou pálido e se aproximou da minha avó dizendo-lhe duras palavras, e depois disso nunca mais a procurou. Ela só veio entender o que aconteceu, anos mais tarde, quando a própria tia Elisa, contou-lhe tudo.
E meu avô acabou casando com minha vozinha, mas não antes da nossa cara vilã convencê-lo a raptá-la, inventando uma mentira sobre a mãe dela querer levá-la embora para Recife, somente para difamar a minha avó, visto que "casar fugida" naquela época era uma das maiores vergonhas e desgostos que se podia dar aos pais. Bem, os últimos anos da tia Elisa foram cheios de sofrimentos (na verdade acho que todos foram), mas foi minha avó que cuidou dela até sua morte, e parece que não guardou mágoas de toda injustiça que passou por causa da minha tia bruxinha. Mas perder um grande amor e o respeito da sociedade só porque alguém resolveu mudar os planos, não deve ser fácil de perdoar.
Penso que para Deus também não deve ter sido nada agradável ver Seus planos de felicidade para a humanidade, serem mudados por causa da inveja, orgulho e maldade de um ser que Ele mesmo criou, e O servia frente a frente, todo o tempo. O pior é que este ser se especializou em ser o "estraga-prazer" dos planos para a vida de todos os filhos de Deus.
Satanás se diverte inventando artimanhas para acabar com a real felicidade de cada um de nós , e seus planos são inteligentes e bem-traçados, com a experiência de um estrategista milenar, de modo que muitas vezes caimos em suas armadilhas sem nem desconfiarmos de que lado está a verdade. E como foi com minha avó, só depois de algum tempo, quando já não há nada a ser feito, é que descobrimos desolados que fomos enganados, ludibriados, manipulados até, e acabamos por perder tudo que estava originalmente planejado sem que tivéssemos culpa consciente disso.
Eu e você, no entanto, contamos com um trunfo que minha avó não tinha: Alguém não só sabe como é a própria verdade e quer nos proteger das maldades de nosso arqui-inimigo. O Deus em que nós cremos, é Aquele que conseguiu driblar as risadas de satisfação de Satanás quando ele levou o pecado a Adão, com um plano perfeito de salvação. Aquele que transformou o gozo de alegria de Satanás, ao ver Cristo pregado morto na cruz, em angústia mortal, quando deu ao Seu Filho a vitória sobre a morte e a sepultura. Aquele que é capaz de nos tomar no meio da situação mais deprimente, no poço mais fundo, da mais escura rua sem saída, do deserto mais árido e da selva mais densa, e tomando-nos em Seus braços, conduzir-nos ao caminho verdejante das águas de descanso. Um Deus-Pastor que tem prazer em carregar suas ovelhas em Seus braços, junto ao peito, enquanto mansamente sussurra: "descanse do seu labor, sua luta árdua, sua decepção e de todo esse medo e insegurança que agora toma conta de você. Deixe que eu leve seus fardos e simplesmente se deixe guiar...". (Isaías 40:11, Mateus 11:28). Com um Deus assim, o que temer? O que fazer se não tomar Seu suave jugo e aprender da mansidão e humildade que emanam do Seu coração? (Mateus11:29).
Quando alguém muda os seus planos, o melhor é permitir que Deus entre com os planos dELe. Jesus, mais que ninguém, conhece a tristeza da frustração; Ele foi homem como eu e você. Em Sua eterna perfeição, Ele consegue transformar toda essa frustração em gozo de vitória. Ainda que tenhamos sido nós a abandonar Seu plano inicial de felicidade total, ou tenhamos sido enganados pelas artimanhas deletérias do Maligno ou simplesmente estejamos cegos para ver que os nossos planos não são os dELe, há algo de muito maior e melhor logo atrás do Monte para onde Ele quer nos levar; há felicidade real, num conceito que nossas limitadas mentes jamais poderão conceber, nem em uma pálida idéia.(Isaias 64:4)
Minha avó, com seu riso largo ao fim da sua triste história, me ensinou algo importantíssimo: mudança de planos não significa derrota. E cá para nós, se minha avó não tivesse casado com meu avô e passado por tantas coisas que lhe acrescentaram uma sabedoria enorme, eu não teria a bênção da sua presença e exemplo! E ela não teria uma neta coruja que lhe amasse tanto quanto eu, hehehe.
Somos todos mais que vencedores por meio dAquele que nos amou, e os planos para as vidas dos filhos do Grande Deus Todo-Poderoso são histórias de um povo que desde a antiguidade nasceu como raça eleita para a vitória, histórias com muitos enredos, caminhos que se cruzam, se afastam dando voltas e se bifurcam brusca ou sutilmente... mas acima de tudo vidas com o mesmo fim: o cumprimento do Plano maior que jamais será frustrado, do qual força inimiga nenhuma nos afastará, o Plano da Salvação Gloriosa em Cristo Jesus.
Uma Semana Feliz e Iluminada!
Lux Lunae
domingo, 16 de julho de 2000
O amor admirável
"Quando [o Senhor] vier para ser glorificado nos seus santos e ser admirado em todos os que creram..." II Ts 1:10
Depois de mais de seis meses sem acariciar a tecla de um piano tive o ímpeto e a oportunidade de sentar tranquilamente diante de um (i.e., sem observadores). Reuni minhas partituras mais queridas e me pus a dedilhar o instrumento.
O que me motivou a buscá-lo, eu sabia bem, era a vã tentativa de preencher minha mente para tentar esquecer um problema específico que me atordoou o dia inteiro, mas justamente tal problema me fazia incapaz de concentrar-me como deveria, de modo que eu divagava intermitantemente entre o pentagrama e ele. Quando enfim conseguia virar uma página, um bemol qualquer me lembrava a gravidade do problema, que ainda estava lá, por trás da clave de fá. A carta foi objetiva e a caligrafia denotava uma escrita nervosa e emocionada.
Uma amiga muito querida, que me acompanha desde que conheci Jesus, como uma verdadeira irmã, e que sempre me animava com seu sorriso constante, expunha, desolada, a ruína de seu casamento. E no seu caso não é apenas mais um casamento, mas o casamento que todos tinham por modelo. Lembrei da época em que se deu o matrimônio, aliás, eu mesma, noiva na época , quase caso também movida pelo clima de ansiedade que envolvia a todos e ao casal. Ambos eram cristãos atuantes, jovens cheios de planos e inteligentes. Agora se separam e ela me diz que o convívio estava impossível, que já não havia amor. O que houve de errado?
Me aborreci com a questão que me tomou o dia todo e voltei ao piano, mas a primeira nota era justamente um si bemol que me impediu de continuar com seu som de pergunta. Me veio então vivamente à memória a frase de um amigo pianista que conhecia muito bem minha admiração pelo instrumento e acompanhou meus primeiros passos. Ele dizia: "Não se centre na admiração que você tem pelo instrumento ou pelo que ele pode fazer, admire o que vocês podem fazer juntos, admire o que vocês são quando se unem, sob pena de uma desastrosa mediocridade". E agora eu tinha uma hipótese musical para a separação.
Lembrando com mais detalhes, percebi que a admiração mútua foi o que fez aquele casal se unir. Eles viam no outro o cônjuge ideal pela série de qualidades que apresentavam, mas juntos não eram ou faziam nada que pudessem admirar também; a união com o outro era apenas mais um modo de atrair mais admiração para si. Admirar e amar nem sempre são a mesma coisa.
É engraçado mas quando as pessoas vão justificar porque estão bem com seus cônjuges, elas começam a dar uma lista de virtudes das pessoas. O importante é saber até que ponto tais virtudes importam realmente para elas... por outro lado, um homem pode admirar a Sharon Stone, a Marta Suplicy e até a Carla Perez, mas amar profundamente a sua esposa, devotando-lhe admiração especial. Porque nenhuma outra mulher, com mais qualidades ou dotes físicos e/ou intelectuais desperta nele sentimentos, ações, vontades tão especialmente admiráveis, porque nenhuma outra conseguiu penetrar na sua vida e fazê-lo feliz. Então qualquer outra jamais a superará, ainda que acumule trilhões de adjetivos maravilhosos.
A nossa relação com Deus não é diferente. A história bíblica fala de um Cristo admirável, isso confessa o mais veemente ateu. A minha religião pode ser, doutrinária e teologicamente, admirável, mas a admiração que eu lhe tenho não é diferente da que tenho quando me deparo com inteligentíssimas filosofias temporais. O detalhe que fará minha religião e minha relação com Deus serem especiais está no quanto elas têm efeito sobre minha vida, meus sentimentos, ações e vontades. Cristo , como personagem isolado é apenas mais um vulto histórico, um profeta incrível e até um Deus poderoso, mas... e daí? Eu posso o admirar e estar alheia a ele, tanto quanto a Maomé. Mas Cristo em mim, isso sim, é algo de que realmente eu m e maravilho! Porque juntos, partilhando problemas e alegrias, dividindo vitórias e derrotas ou simplesmente vivendo a paz e a alegria de estarmos juntinhos um ao lado do outro, isso é assombrosamente bom. Ele então nem precisaria ser um afamado personagem, um filósofo e político fenomenal, nem um Deus capaz demover montanhas e acalmar tempestades; eu o amo porque Sua influência na minha vida é fundamental para eu ser feliz. Todos os grandes personagens bíblicos não foram grandes porque achavam Deus o máximo, mas porque a Sua relação com Esse Deus era o máximo. Houve há certo tempo um homem que admirou muito a Jesus. Ele o viu pela primeira vez enquanto Cristo pregava às multidões e ficou maravilhado com Seu carisma, Seu poder, Seu olhar penetrante, a forma como curava, a sabedoria que emanava em jorros do Mestre. Este homem foi chamado do meio da multidão para acompanhar Cristo de perto por três anos. Estou certa que durante este tempo, ele aprendeu a admirá-lO mais. E depois de andar, comer, conversar, receber carinho e ter tido amor como jamais ninguém o amou, este homem ainda não permitira que Jesus penetrasse no seu coração e na sua vida de forma plena, e não investiu na relação de amor que lhe estava proposta. Por isso, Judas não conseguiu que a sua relação com o Mestre se tornasse admirável, antes a fez infame com uma cruel traição. Amor de verdade só vem quando a pessoa a quem admiramos forma uma dupla admirável conosco. E se você deixar Jesus ser Seu parceiro, o mundo admirará a Ele em você! Que este seja nosso testemunho até o dia da glorificação.
Uma semana Feliz e Iluminada!
Lux Lunae
Depois de mais de seis meses sem acariciar a tecla de um piano tive o ímpeto e a oportunidade de sentar tranquilamente diante de um (i.e., sem observadores). Reuni minhas partituras mais queridas e me pus a dedilhar o instrumento.
O que me motivou a buscá-lo, eu sabia bem, era a vã tentativa de preencher minha mente para tentar esquecer um problema específico que me atordoou o dia inteiro, mas justamente tal problema me fazia incapaz de concentrar-me como deveria, de modo que eu divagava intermitantemente entre o pentagrama e ele. Quando enfim conseguia virar uma página, um bemol qualquer me lembrava a gravidade do problema, que ainda estava lá, por trás da clave de fá. A carta foi objetiva e a caligrafia denotava uma escrita nervosa e emocionada.
Uma amiga muito querida, que me acompanha desde que conheci Jesus, como uma verdadeira irmã, e que sempre me animava com seu sorriso constante, expunha, desolada, a ruína de seu casamento. E no seu caso não é apenas mais um casamento, mas o casamento que todos tinham por modelo. Lembrei da época em que se deu o matrimônio, aliás, eu mesma, noiva na época , quase caso também movida pelo clima de ansiedade que envolvia a todos e ao casal. Ambos eram cristãos atuantes, jovens cheios de planos e inteligentes. Agora se separam e ela me diz que o convívio estava impossível, que já não havia amor. O que houve de errado?
Me aborreci com a questão que me tomou o dia todo e voltei ao piano, mas a primeira nota era justamente um si bemol que me impediu de continuar com seu som de pergunta. Me veio então vivamente à memória a frase de um amigo pianista que conhecia muito bem minha admiração pelo instrumento e acompanhou meus primeiros passos. Ele dizia: "Não se centre na admiração que você tem pelo instrumento ou pelo que ele pode fazer, admire o que vocês podem fazer juntos, admire o que vocês são quando se unem, sob pena de uma desastrosa mediocridade". E agora eu tinha uma hipótese musical para a separação.
Lembrando com mais detalhes, percebi que a admiração mútua foi o que fez aquele casal se unir. Eles viam no outro o cônjuge ideal pela série de qualidades que apresentavam, mas juntos não eram ou faziam nada que pudessem admirar também; a união com o outro era apenas mais um modo de atrair mais admiração para si. Admirar e amar nem sempre são a mesma coisa.
É engraçado mas quando as pessoas vão justificar porque estão bem com seus cônjuges, elas começam a dar uma lista de virtudes das pessoas. O importante é saber até que ponto tais virtudes importam realmente para elas... por outro lado, um homem pode admirar a Sharon Stone, a Marta Suplicy e até a Carla Perez, mas amar profundamente a sua esposa, devotando-lhe admiração especial. Porque nenhuma outra mulher, com mais qualidades ou dotes físicos e/ou intelectuais desperta nele sentimentos, ações, vontades tão especialmente admiráveis, porque nenhuma outra conseguiu penetrar na sua vida e fazê-lo feliz. Então qualquer outra jamais a superará, ainda que acumule trilhões de adjetivos maravilhosos.
A nossa relação com Deus não é diferente. A história bíblica fala de um Cristo admirável, isso confessa o mais veemente ateu. A minha religião pode ser, doutrinária e teologicamente, admirável, mas a admiração que eu lhe tenho não é diferente da que tenho quando me deparo com inteligentíssimas filosofias temporais. O detalhe que fará minha religião e minha relação com Deus serem especiais está no quanto elas têm efeito sobre minha vida, meus sentimentos, ações e vontades. Cristo , como personagem isolado é apenas mais um vulto histórico, um profeta incrível e até um Deus poderoso, mas... e daí? Eu posso o admirar e estar alheia a ele, tanto quanto a Maomé. Mas Cristo em mim, isso sim, é algo de que realmente eu m e maravilho! Porque juntos, partilhando problemas e alegrias, dividindo vitórias e derrotas ou simplesmente vivendo a paz e a alegria de estarmos juntinhos um ao lado do outro, isso é assombrosamente bom. Ele então nem precisaria ser um afamado personagem, um filósofo e político fenomenal, nem um Deus capaz demover montanhas e acalmar tempestades; eu o amo porque Sua influência na minha vida é fundamental para eu ser feliz. Todos os grandes personagens bíblicos não foram grandes porque achavam Deus o máximo, mas porque a Sua relação com Esse Deus era o máximo. Houve há certo tempo um homem que admirou muito a Jesus. Ele o viu pela primeira vez enquanto Cristo pregava às multidões e ficou maravilhado com Seu carisma, Seu poder, Seu olhar penetrante, a forma como curava, a sabedoria que emanava em jorros do Mestre. Este homem foi chamado do meio da multidão para acompanhar Cristo de perto por três anos. Estou certa que durante este tempo, ele aprendeu a admirá-lO mais. E depois de andar, comer, conversar, receber carinho e ter tido amor como jamais ninguém o amou, este homem ainda não permitira que Jesus penetrasse no seu coração e na sua vida de forma plena, e não investiu na relação de amor que lhe estava proposta. Por isso, Judas não conseguiu que a sua relação com o Mestre se tornasse admirável, antes a fez infame com uma cruel traição. Amor de verdade só vem quando a pessoa a quem admiramos forma uma dupla admirável conosco. E se você deixar Jesus ser Seu parceiro, o mundo admirará a Ele em você! Que este seja nosso testemunho até o dia da glorificação.
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Lux Lunae
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