domingo, 9 de julho de 2000

Passando uma chuva

"Porque somos estrangeiros diante de ti, e peregrinos como todos os nossos pais; como a sombra são os nossos dias sobre a terra, e sem ti não há esperança." I Cr 29:15

Esta semana cheguei a uma conclusão que precisei anotar para a posteridade: você só saberá o valor exato do seu lar quando, longe dele, ficar muito doente. Embora um tanto dramática, esta é uma verdade que descobri curtindo 41,5º C de febre em cima de uma cama, tendo a gripe por companhia e a tosse por som mais próximo do humano. Bem, pelo intróito desta mensagem você vê que eu fiquei deprimida mesmo, e quem mais poderia me socorrer com o condão do ânimo e do amor? Ela! A super mamãe!
Dona Lindalva, que não podia fazer nada além de me recomendar duas dúzias de remédios naturais, alopáticos e trocentas dezenas de recomendações, fez de suas palavras, mais uma vez, o antídoto ideal para eu me sentir muito bem. Oradora perfeita que é, começou falando da sua preocupação com a gripe porque lá em Natal tem chovido torrrencialmente há vários dias, e arrematou o início do sermão afirmando: "Embora eu saiba que a situação do clima aí seja a inversa, não esqueça que você está apenas passando um chuva por aí, mas enquanto ela passa, olhe ao redor e faça alguma coisa!" E então começou a contar a história de um certo senhor chamado Paulo, hoje muito idoso, pai de um amigo católico nosso que é coordenador do grupo que ela frequenta.
Este senhor , há muitos anos atrás, veio até SP com um amigo, provavelmente movido pela falta de opções empregatícias por lá. Assim que chegaram aqui, desceram do pau-de-arara debaixo de uma chuva muito forte. Eles não tinham para onde ir, então só lhes restava correr para o abrigo mais próximo, tentando equilibrar no meio da enxurrada, os corpos franzinos carregados de sacolas. Como todo nordestino de primeira viagem em SP, eles logo descobriram que suas roupas não eram suficientes para vencer o frio, e o único lugar ao abrigo do vento forte era a frente de uma casa onde estava sentada uma jovem senhora. Eles se aproximaram respeitosamente, e seo Paulo indagou àquela senhora que, mais de perto ele percebera estar grávida, se poderia ficar ali embaixo com o amigo até a chuva passar. Ela os olhou desconfiada e calculou que talvez demorasse até aquele temporal cessar, mas consentiu gentilmente e ainda lhes ofereceu um café. O ronco da barriga de seo Paulo respondeu alegremente ao convite enquanto ele, envergonhado, falou que aceitaria pois há dois dias não comia nada. A mulher entrou vagarosamente, segurando a imensa barriga e dentro em pouco trouxe pão e café para os dois homens que não cabiam em si de satisfação. Depois sentou novamente e só então seo Paulo reparou que ao lado dela havia um grande machado e uma pilha enorme de troncos de lenha para cortar. Incontinenti, ele perguntou se poderia cortar a lenha enquanto esperava a chuva passar e ela disse que ficaria muito grata pois seu marido estava viajando e ela não tinha mais nenhum graveto para se aquecer, e o carvão do fogão já estava quase todo virado em cinzas. Os moços arregaçaram as mangas e cortaram toda a pilha de lenha. Enquanto a chuva passava, eles também consertaram a cerca da varanda, as goteiras do telhado, os degraus da escada e arrumaram e limparam toda a frente da casa da mulher. Quando garoava e o sol já começava a aparecer por trás das nuvens, eles foram se despedir, mas a mulher insistiu para que eles esperassem até o seu marido chegar, e embora encabulados e um tanto temerosos, o cheiro de galinha assada para o jantar os convenceu a ficar um pouco mais.
Em pouco tempo o marido dela chegou e reparou imediatamente que as coisas estavam diferentes. A mulher , respondendo ao seu olhar indagador, falou dos dois homens "do norte" que a ajudaram com as coisas e pediu que ele os recompessasse de alguma forma. Seo Paulo quis ir embora dizendo que eles haviam feito tudo sem querer retribuição, mas o marido daquela senhora arranjou lugar, comida, emprego e roupas para eles, que ficaram em SP por mais um ano como empregados de confiança daquele homem, com total apoio e estrutura. O marido da mulher a quem ajudaram enquanto a chuva passava , era o vice-prefeito de uma cidade do interior de SP.
Com uma voz branda e penetrante, minha mãe fez a aplicação da história: "Sei que quando vem a chuva a vontade que dá é se esconder embaixo do cobertor e ficar olhando ela cair através dos vidros da janela, mas lembre-se que não é só a chuva que está de passagem, você também está! E todo tempo é precioso no lugar em que você está; aproveite-o, olhe ao redor, descubra o que tem de ser feito e faça bem-feito, não deixe que o frio ou a incerteza quanto ao clima te desanimem. Apenas faça o seu melhor e quando a chuva passar, todos vão Ter o sol e você ainda terá uma recompensa.
Todos sabemos que espiritualmente estamos na Terra passando uma chuva. O vento castiga, o frio incomoda, os pés doem e sofremos com a ânsia de encontrarmos descanso. Jesus nos oferece abrigo em Sua Palavra e Amor através do teto da Igreja, onde podemos ficar como peregrinos que se protegem das intempéries. Mas se olharmos ao redor veremos que há muito para ser feito, e que afinal, nossa tarefa é de reparadores de brechas e restauradores de veredas; enquanto a chuva passa precisamos arregaçar as mangas e fazer o que deve ser feito da melhor forma possível. E quando o temporal se for, virá o Sol da Justiça, que todo olho verá, mas que dará a recompensa ao justo que labutou enquanto O esperava.
Uma semana feliz e iluminada!!

Lux Lunae

domingo, 2 de julho de 2000

De Mal Com Deus

"Jesus, porém, disse: Deixai vir a mim os pequeninos, porque deles é o reino dos céus" Mateus 19:14

Sempre detestei despedidas por serem aquelas ocasiões em que nunca se sabe ao certo o que falar ou fazer. Mas a que mais me marcou em sua tristeza foi quando fui me despedir de uma prima minha de oito anos, pouco antes de eu vir para São Paulo.
Nossa admiração mútua sempre foi muito forte, e, enquanto ela projetou em mim o modelo da "gente grande" que ela quer ser, eu me orgulho da intrepidez e coragem com que ela defende seus sonhos e opiniões. Não estou bem certa do que ela vê em mim que a faça se sentir movida a me imitar, mas meu especial amor por ela cresceu do fato dela ter muito do que eu queria ser e já não consigo.
Assim, ela diz para todos que quer ter um quarto bagunçado da mesma maneira que o meu (!) e eu me declaro fã de sua impetuosidade com as palavras. Ela me pedia para que eu a ensinasse a usar a internet para que ela também passasse o domingo inteiro na frente do computador e eu suspiro querendo aprender como ela faz parecer tão fácil defender a justiça sem o menor medo ou pudor. Eu a convenci a suportar os estudos que ela tanto detesta a fim de se tornar uma boa veterinária e ela, sem saber, sempre me dava uma tremenda ajuda emocional e espiritual; eu contava meus problemas para ela e ela me dava uma análise clara e simples da situação.
Antes de eu vir ela insistiu muito para que eu ficasse e me ameaçou de todas as formas: desde entrar na minha mala até ficar de mal comigo. E como eu não cedi, ficou de mal mesmo, de modo que a última vez que vi seu rostinho, ele estava triste, choroso e com um bico "destamanho". O que fez aliviar o nó na garganta que eu fiquei diante desta visão foi a lembrança das vezes que eu mesma fiquei de mal com uma pessoa que eu amo muito: meu pai.
Eu era a "quebradeira oficial" de vasos, abajures louças, porcelanas, cristais, vidros e afins. Esta propensão para o desastre que me acompanha até hoje, me rendeu muitos castigos e, quando minha inquietude curiosa e desastrada ultrapassava todos os limites, meu pai providenciava "carões" e surras bem duros. Eu ficava com muita raiva e prometia a mim mesma que nunca mais falaria com ele, que estava de mal e lhe seria completamente indiferente, "pra ele ver o que é bom pra tosse". Acontece que o outro dia vinha e nós tínhamos por hábito recebe-lo todas as tardes ao portão, correndo e abraçando-o com força, e aí, tudo era folia e brincadeira até a hora do jantar. E nessas horas eu sempre esquecia que estava de mal com ele e corria com a mesma euforia em sua direção. Às vezes até lembrava, mas já estava abraçando-o, e então não adiantava mais... "Ah, mas ele é tão bom! Vou dar mais esta chance pra ele", eu pensava. E no máximo fazia um biquinho para ganhar mais dengo...
Depois de algum tempo, percebi que as crianças tem essa tendência natural para o perdão, porque elas não gostam de perder tempo com coisas tristes, e a sua lógica é que vale a pena deixar o amor prevalecer, mesmo que ela não consiga entender porque não pode fazer tudo que quer e ter tudo o que deseja. Acho bem provável que este seja um dos grandes motivos por que vale a pena ser uma criança espiritualmente. Depois de fazer minhas traquinagens, eu, por vezes, me aborreci por Deus permitir que eu sofresse as conseqüências delas, sem falar naquela birra infantil que nos leva a pensar que "se Deus me ama mesmo Ele bem que poderia me deixar fazer tudo o que quero sem pegar no meu pé depois". Então ficava de mal e me fechava para qualquer trégua. Mas sabem de uma coisa? É impossível ver um Deus sorrindo de braços abertos para mim logo depois de eu ter aprontado com Ele e continuar fazendo tipo. O melhor é reconhecer que eu errei e Ele tem sempre razão. O melhor, com certeza, é correr rapidinho para a paz reconfortante de Seus braços e aproveitar a alegria de ter um Pai assim tão bom.
Se você está em dúvida porque já esqueceu como é ser criança (cuidado: o primeiro sinal de que se está velho é esquecer as coisas; o segundo é...... não lembro!), vai por mim: dá uma chance pra Ele. E nem precisa fazer biquinho, porque Ele vai te amar com toda força de um Deus que é Amor. Basta que você se permita correr agora em Sua direção.
Ah! Recebi um pequeno cartão da minha prima esta semana. Ele diz assim: "Luciana, Quero te dizer que estou com saudade e queria lhe dar um abraço bem forte. Por último queria lhe dizer que te amo muito e também queria dizer que volte logo!"
Uma Semana Feliz e Iluminada

Lux Lunae

domingo, 25 de junho de 2000

Mais uma Definição de Amor

“Em Gibeão apareceu o Senhor a Salomão de noite em sonhos, e disse-lhe: Pede o que queres que eu te dê.” I Reis 3: 5

Amar é realizar sonhos.
E, muito embora eu concorde com o Machado de Assis quando ele diz que todas as definições de amor não valem um beijo, acho que esta em particular me tem um significado especial, por ser a conclusão de uma história não menos especial, contada pela minha avó. Acho inconcebível almoçar na casa da avó (minha ou de quem quer que seja) e não degustar como sobremesa uma boa história (às vezes com ares de estória), daquelas bem antigas, contadas de uma maneira... entre solene e misteriosa. Numa dessas oportunidades, na casa de minha avó Cecília, ouvi-a contar do seu casamento com meu avô Enéas (- "Deus o tenha", ela diria).
Meu avô tinha um espírito aventureiro, que o impedia de se fixar em qualquer lugar ou situação, sempre a buscar novos desafios, e não media esforços para atingir suas metas, mesmo tendo de enfrentar as mais ferinas oposições. Foi lavrador e comerciante, chegou a ser considerado um homem de posses, com uma vida estável e bem sucedida, mas parecia aborrecer incomensuravelmente a rotina, pois deixava tudo para trás e ia tentar algo diferente e novo em outro lugar. Minha avó sempre o acompanhou, junto com os 13 filhos (se não me falha a memória). Ela não dispunha do mesmo espírito aventureiro. Antes, tudo o que queria era que seu marido se aquietasse e tratasse de criar os filhos com ela, sossegadamente. Murmurava, reclamava, ameaçava, mas acabava sempre cedendo às empreitadas "destemperadas" do meu avô. Passou privações ao lado dele, chegou a dormir com a ninhada de filhos debaixo de uma árvore, morou em casa de taipa, passou fome e teve que esquecer muitos caprichos típicos de mulher. Minha mãe conta que o cardápio, em muitas épocas, a fazia saborear feijão branco cozido no sal, com um peixinho chamado traíra todos os dias e barro na sobremesa. Minha avó só viu "seo" Enéas se aquietar quando um câncer no pulmão o fez descansar, depois de uma longa história de vitórias e derrotas que deixaram um caráter lutador na minha família materna (aguçado pela herança genética, que faz "certas parentas" serem identificadas como "clones" dele).
Pensei no meu avô enquanto estou sentada numa praça que não sei o nome, em frente a uma escultura no mínimo bizarra, perto da Av. Nove de Julho. Lembrei que ele também teve o sonho de vir a São Paulo e essa foi a maior prova de amor que minha avó lhe deu; para permitir que ele realizasse mais esse sonho, suportou um ano de ausência do seu amado, e ainda teve de encontrar forças na solidão para crias os filhos, administrar os gastos e agüentar comentários maldosos. Parei para pensar em quantas pessoas me apoiaram para que eu também pudesse estar aqui, tentando decifrar essa escultura paulista e lutando por novos ideais. Algumas em especial se dispuseram a abnegar o que fosse preciso em prol do meu sonho , sem obter ressarcimento. Intrigada com esta capacidade de se dar para realizar sonhos, recorro mais uma vez à minha avó, lembrando da sua expressão de felicidade ao chegar no fim da história. E a explicação me vem numa frase musical: "Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade."
Somente o amor é capaz de tornar os sonhos reais, e quando esse amor é fruto de uma parceria, o sonho também se torna conjunto, a felicidade de o realizar é partilhada na mesma intensidade. Os objetivos, assim como as vidas, se fundem, e correm na mesma direção, sendo que o amor é a energia que faz as coisas acontecerem, que faz as abnegações não fazerem a menor falta, que faz os sacrifícios possíveis e até mesmo a dor ser encoberta pela felicidade de ver o sonho do outro acontecendo.
Penso agora em um Deus Pai com um grande sonho: criar uma humanidade para viver eternamente, plena de felicidade e paz. Imagino-o partilhando Seu sonho com o Filho e o Espírito Santo que, por possuírem o Amor Perfeito, formam a Unidade Perfeita, e consigo vislumbrar o gozo em criarem a projetarem tudo para que esse sonho acontecesse. Agora posso imaginar o pesar que tomou o coração do Pai quando o pecado ameaçou destruir Seu sonho, e a esperança que encheu o céu, quando Jesus, disposto a realizar o sonho do Pai - sonho Seu também, devido ao vínculo de amor - decidiu tornar-se homem de dores, ser maltratado e rejeitado na terra e morrer, abnegando Sua divindade e toda a honra e glória que Lhe são devidas.
Não é preciso muito esforço para lembrar de todos os sonhos que Jesus realizou para mim. E aqueles que eu não realizei foram os mesmos que eu sonhei só, "sonhos que se sonha só", mas todos que eu entrei em parceria com Ele e dividi, e partilhei, sem exceção, tornaram-se reais, como todo "sonho que se sonha junto".
Se você ainda não experimentou essa parceria, tente! Se você já sentiu o quanto ela é poderosa, faça como eu, reafirme hoje o desejo de estar sempre ao lado de Cristo, aquele que tem amor tão grande que é capaz de realizar todos os sonhos. Ah, e sonhe grande, bem alto mesmo, sem medo, pois estamos falando do Rei dos Reis e Deus Todo-Poderoso. Una seus ideais aos de Cristo, deixando que Ele dirija ao acontecimentos, e depois me fale se você conseguiu o que queria... A promessa é certa: "Pedi e dar-se-vos-á."
Estou certa que na Nova Jerusalém, onde o sonho de Deus vai ser uma realidade partilhada por todos os que O amam, nós teremos muitos almoços na casa dos meus avós, recheadas de histórias de amor: deles, minhas e suas.
Uma Semana Feliz e Iluminada!!

Lux Lunae

domingo, 18 de junho de 2000

Lembrando com pedras brancas

“Guarda-te para que não te esqueças do Senhor teu Deus... antes te lembrarás do Senhor teu Deu , que é Ele que te dá força para adquirires poder; para confirmar o Seu concerto, que jurou a teus pais ; como se vê neste dia” Deuteronômio 8: 11 e 18

Semana passada tive o prazer de degustar um gostoso e nutritivo almoço na casa da nossa amiga geana Pilocarpina, e logo após a refeição me deparei surpresa com algumas fotografias que a mãe dela tirou há uns quatro anos quando esteve a passeio em Natal. Cada paisagem que eu via me remetia às mais profundas lembranças, cada lugar que eu identificava era uma voz doce me contando a minha própria história. Uma das fotografias mostrava a praia de Areia Preta (cuja areia não é preta; certamente quem deu este nome ainda não havia visitado Santos) e num cantinho, o velho ponto de ônibus junto à casa em ruínas. Meu coração apertou mais forte diante deste quadro e todas as lembranças que ele me trouxe. Este ponto de ônibus era o último, portanto o mais afastado e o mais próximo à parte mais isolada e bonita da praia. À direita ficavam as ruínas de uma velha casa, e seu alicerce nos olhava com ares de imponência, como uma altiva senhora idosa cujo olhar soberbo é o último sinal de grandeza, negado pelo decrépito corpo. O alicerce terminava bem em frente a rochas escuras e pontiagudas onde as ondas vinham quebrar furiosamente. Ali, no cantinho do alicerce, olhando o mar bravio, duas mentes não menos bravias se encontravam às tardes num namoro filosófico. Hehehe, foi o termo mais próximo que eu encontrei para adjetivar meus encontros com Roberto. Eu tinha treze anos, ele, vinte e oito, mas estávamos unidos por uma criticidade aguda e por uma mania incurável de buscar o porquê a solução das coisas. É certo que chegávamos a bem poucas conclusões, mas divagávamos sobre todas as facetas da natureza humana, da sociedade, do sistema vigente. Eu estava acabando de descobrir o mundo ao meu redor , e tinha uma fome indevassável de estudar e entender. Assim, tudo era matéria-prima para nossas mentes artesãs; o homem era dissecado em nossas análises tão amadoras mas que julgávamos a verdadeira pedra filosofal. Lembrei do dia em que terminamos o namoro ( o mesmo dia em que decidi me batizar da IASD) e ele me deu uma pedrinha branca, cuja função, segundo ele, era ser o nosso memorial. E aí filosofamos pela última vez a respeito da memória. Ele me falou que ao olhar aquela pedra eu não deveria usar apenas minha memória passiva e lembrar de fatos isolados, como que abrindo um arquivo no computador, mas usar minha memória afetiva e asociar cada fato desse a um sentimento significativo, reviver cada lembrança não como parte do passado, mas com a certeza de um sentimento presente e por ser eterno (segudno ele), projetando-o e celebrando-o para o futuro. Depois desse dia aprendi a guardar pequenos memoriais de cada fato importante da minha vida, assim, consigo reviver o sentimento marcante com exatidão, apenas fechando os olhos e tocando uma flor seca, um guardanapo, um chaveiro, uma pedra, um limão, uma escova de dentes...
Ao nos criar, Deus sabia que certas experiências deixam marcas incisivas em nossa psique, marcas que são reativadas com o sentimento correspondente quando nos colocamos diante de algo que simbolize ou faça analogia a elas. Por isso providenciou para Seu povo uma série de memoriais que servissem de aliança entre Ele e os Seus. O pecado corrompeu também nossa memória, de modo que somente uma memória convertida é capaz de fazer lembrança das bênçãos de Deus como parte do presente e do futuro, celebrando-as como marcas indissolúveis de um amor infinito. Sabendo o quanto somos propensos a esquecer Suas dádivas e o significado delas em nossa vida, Deus utiliza com frequência o termo: “Lembra-te...”.
O povo hebreu é o maior exemplo disso. O hebreu cria e firmava sua fé não pela força d complexos argumentos racionais ou provas teológicas doutrinárias; sua convicção vinha da experiência com deus, a vivência das bênçãos divinas celebrada sempre e passada de geração à geração. “Lembra-te de todo caminho que o Senhor teu Deus te fez percorrer durante quarenta anos no deserto”. Dt 8:2. E o hebreu não apenas recordava, mas “fazia memória” de sua experiência, tornando os fatos objeto de culto e louvor, tornando-os parte do presente e certeza para o futuro, renovando o eventos no tempo , no significado e na eficácia. E o hebreu acreditava, porque seus olhos viram (Dt. 11:3 - 7), porque seus pais lhe contaram (Dt. 32:7), porque sua experiência com Deus era mais que lembrança passiva; era fonte de nova e constante bênção ( Dt 8). E a fé do hebreu crescia de forma extraordinária; uma fé simples mas eficaz cujo segredo de ser inabalável estava em ser uma fé pessoal , não teórica, mas “solidamente ancorada na vida, capaz de dar a Deus um nome e traços a ao Seu semblante”.
Nossa fé perde a força quando deixamos de fazer memória da nossa história com Deus, quando não damos o significado verdadeiro às grandes e pequenas alianças que Ele fez conosco. Percebi isso certo dia quando uma amiga minha me procurou angustiada, dizendo-se não estar mais apaixonada pelo seu marido, e por causa disso estava vendo a aliança do casamento se quebrar. Isto é um exemplo comum de memória enferma, que não lembra ou lembra apenas parcialmente dos fatos que conduziram à aliança, não interpreta o que recorda, não ama nem contempla as lembranças das provas de que o amor existe e está bem mais próximo que se imagina. Falei isso a ela e pedi que ela lembrasse de todas as qualidades do marido que a fizeram se apaixonar por ele, que as listasse num papel e que as lesse todos os dias , se esforçando por achar novas qualidades cada vez que as lesse. Que orasse agradecendo a Deus pelas qualidades do seu marido e todas as boas lembranças que ele lhe proporcionou, louvando ao Pai pelo homem que ela escolheu para ser seu companheiro. Faz algum tempo que perdi o contato com ela, mas da última vez que tive notícias dela eu mesma louvei a Deus por um caso a menos de adultério da Igreja.
Crescer na fé significa cada dia fazer memória da benevolência divina. Deus sabe tanto dessa nossa necessidade espiritual que nos deu um dia inteiro como memorial da criação e redenção, para ser dedicado exclusivamente à contemplação de Sua divindade. A escritora Ellen White, baseada em sua própria experiência espiritual, aconselha em um de seus escritos a reservarmos pelo menos uma hora diária para o exercício da contemplação do amor de Deus revelado por Sua Palavra. E também afirma com a convicção de uma fé pessoal , que “nada temos a temer quanto ao futuro a menos que nos esqueçamos o modo como Deus nos guiou no passado”. Isso é converter nossa memória a Deus. E quanto mais o tempo passar , mais seremos capazes de lembrar tudo , guardar na mente e coração tudo o que os nosso olhos viram e os ouvidos ouviram. A memória afetiva que carregamos conosco nos fará capazes de enfrentar qualquer circunstância da vida confiando que nosso Deus é Pai e Senhor, e ainda que o mundo nos rejeite, Ele será conosco.
Um dia, ao lado de Cristo no céu, nossas lembranças já não serão objeto de celebração, mas apenas peças de um quebra-cabeças que se revelará perfeitamente, e nós mesmo alcançaremos a memória restaurada com a qual uma vez fomos criados. Entenderemos então a dimensão da memória de um Deus que nos tem gravados nas palmas das mãos.
Hoje já não tenho a pedrinha branca que Roberto me deu, ainda que guarde a lembrança dele com carinho. Mas guardo comigo a fé em um Deus que nos prometeu por memorial de nossa vitória: “Ao que vencer... dar-lhe-ei uma pedra branca, e na pedra um novo nome escrito” (Apoc. 2:17), para levarmos conosco para sempre esta aliança de Seu amor eterno.
Uma semana feliz e iluminada!

Lux Lunae

domingo, 11 de junho de 2000

Olhos de pomba : uma meditação romântica e democrática

“Como és formosa, querida minha, como és formosa! Os teus olhos são como os das pombas...” Cantares 4:1

Por toda parte, corações, cupidos, rosas, propagandas em graúdas letras vermelhas falando de amor e de quanto custa mantê-lo... um clima cor-de-rosa paira por sobre a nuvem cinza que envolve São Paulo, não menos rosa em todas as demais cidades brasileiras menos cinza. É dia dos namorados e esta é uma daquelas ocasiões em que, quem está de fora, se sente mais por fora que nunca. Cada singelo coraçãozinho vermelho pode ser uma afronta aos sinceros sentimentos dos solteiros, descomprometidos e afins... ontem mesmo, já um tanto melancólica de tanto ouvir falar em “jantar dos namorados” patrocinados pelas igrejas, sugeri a uma amiga que se devia fazer paralelamente , a “festa do casaquinho”, para que essas desconsoladas almas abandonadas, ou não tão abençoadas, tivessem alguns momentos descontraídos, partilhando a tragédia grega da solidão com outros pouco agraciados que não têm nada mais que um casaco para se aquecer...:-)))
Mas como esta idéia ainda não é realidade, entremos também no clima da diáfana nuvem cor-de-rosa. Para tanto, nada melhor que começar pelo Cântico dos cânticos, que ainda é o mais belo hino de exaltação ao amor, embora perca cada vez mais atenção para a sua concorrente, a filosofia do Quântico dos quânticos, aquela que quantifica e racionaliza o amor entre os seres humanos, criando relacionamentos matematicamente quase perfeitos, não fosse o simples detalhe que, no amor um mais um nunca pode ser dois.
O versículo acima mencionado me chamou atenção por um detalhe biológico da analogia de Salomão. Ele comparou os olhos da sua amada aos olhos da pomba, e considerando que há na natureza outros olhos mais belos a que ele pudesse fazer referência, achei que poderia haver um significado mais profundo para a escolha justamente da pomba. Descobri depois de uma pequena pesquisa oftalmológica, que os olhos das pombas são unifocais, ou seja, têm a característica peculiar de olhar apenas um objeto de cada vez. Assim, ao contrário de nós que conseguimos focalizar várias pessoas enquanto passeamos abraçados carinhosamente a nossas bolsas pela praça da Sé, aquelas pombinhas que por lá trafegam só conseguem ver uma pessoa de cada vez.
Creio que neste sentido surge uma análise interessante sobre a amada de Salomão: tal como as pombas, ela teria olhos só para ele, e por ter escolhido repousar o olhar sobre seu amado, nenhum outro objeto ou pessoa teriam lugar no seu ângulo de visão. A romântica e sábia Sulamita tinha olhos de pomba porque era completamente fiel àquele nobre rapaz que apascentava entre os lírios, e tal qual o Deus a quem serviam, sua fidelidade era aquela que dura para sempre.
Quando o verdadeiro amor toca a existência humana, ele invade todos os espaços (mesmo que lentamente) e provoca uma resposta não menos total: amor dado em sua totalidade e recebido abertamente em sua totalidade não responderá parcial, limitada ou condicionalmente, mas reagirá por completo, quer em profundidade, quer no tempo. Há um filósofo chamado Raguin que escreveu: “somente o que é perpétuo pode manifestar uma profundidade íntima”, e ainda que hajam disparidades, problemas, ruídos de comunicação, e até mesmo distância e imperfeições adquiridas pela vida afora, o ser humano que ama se empenha para sempre. Se não investe num relacionamento para a eternidade, ele apenas se empresta e não permitirá que seu amor passe da adolescência. Chegar ao amor maduro não é apenas ter capacidade de se apaixonar, mas de permanecer no amor uma vez focalizado, deixá-lo crescer sem acrescentar frustrações, e isso implica numa consciência quanto às exigências desse amor; a capacidade de manifestá-lo, identificando as motivações para fazê-lo; responder equivalentemente a intensidade do afeto; apreender cada nova nuance na experiência de estar sendo amado até fazer desse amor o parâmetros de nossas atitudes e pensamentos, sem que para isso tenhamos deixado de ser nós mesmos, antes, tenhamos nos encontrado ainda mais, nos descoberto de forma mais completa. Neste estágio alcançaremos a fidelidade eterna. Chegou-se ao ponto em que o amor basta em si mesmo, o intelecto e a vontade se converteram ao amor; o primeiro reconhecendo o valor dele, a segunda, por seu caráter unifocal, dizendo não a todos os demais amores (principalmente aos próprios).
Tal como o livro do Cânticos dos cânticos, esta análise deve ser aplicada ao nosso relacionamento com Deus. Um coração convertido a Deus, será um coração apaixonado, que responde por inteiro ao amor supremo, terá uma vontade firme como torre (tal qual os seios da Sulamita, tipo da Igreja de Cristo) e uma mente criativa, inteiramente harmonizada com o Pai e crescendo em todos os níveis do seu ser, em direção a Ele. Interessante perceber que o amor em Deus só se perfaz quando entregamos a Ele fielmente, justamente aquilo que mais gostaríamos de ter somente para nós: o coração, a mente e a vontade.
Claro que este processo não se faz sem dificuldade... é um caminho longo, pedregoso e por vezes não espontâneo, sujeito a quedas , incertezas, saudades dos antigos amores, mas em tudo isso , se houver sinceridade conosco mesmos, haverá vitória, pois identificaremos os ídolos que nos separam ainda de Deus e com a ajuda do Espírito Santo, destruiremos passo a passo, um a um os seus altares, sempre fiéis ao amor que uma vez conhecemos. Deus por sua vez não é o deus do Quântico dos quânticos, e não precisa de fé em quantidade, mas em qualidade; Ele fez nosso coração, sabe do que é feito, e mede nosso amor e fidelidade com sua própria medida, que está longe de qualquer parâmetro humano e tem por fundamento Seu próprio amor e nossa entrega (leia-se, capacidade de recebê-lO).
Prosseguir em direção a esse amor, ser fiel a ele, investir nele sabendo que a qualquer tempo estaremos sendo correspondidos: isso é encontrar Cristo. E apaixonar-se por ele, como bem o descobriram os que já se apaixonaram de verdade, é às vezes chama ardente, desejo flamejante, às vezes brasa que se mantém acesa não obstante a chuva do pesar, ou ainda a nostalgia profunda de descobrir um amor intenso sem poder possui-lo totalmente de pronto...
Namorados ou descomprometidos: que neste dia cor-de-rosa - e em outros azuis ou acinzentados - o Senhor de todo amor possa nos olhar apaixonadamente e comparar nossos olhos aos da pomba.
Uma semana feliz, iluminada e cheia de amor pra dar!

Lux Lunae

domingo, 4 de junho de 2000

Andando com ela por luz e trevas

“Vós porém sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus. A fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.” I Pe. 2: 9

Ela caminhava tranquila por aquela estrada.
De vez em quando parava fechando os olhos, para sentir melhor o frescor matinal ou olhar mais de perto uma flor nova ou um animal curioso que tornavam ainda mais agradável a sua jornada. Pessoas com semblantes iluminados passavam por ela e a maioria a saudava com um sorriso caloroso... algumas pareciam tristes, outras cansadas, mas estavam juntas, na mesma direção, com o mesmo semblante brilhante, não raro abraçados uns nos outros
Passando por uma gruta, ela ouve vozes estranhas vindas lá de dentro e se sente estranhamente atraída a se aproximar. Enquanto ela adentra a caverna, sente uma sensação indescritível de poder: se sente capaz de explorar o desconhecido e pode , sozinha, e munida com sua auto-suficiência, assimilar esta nova e atrativa paisagem, se dando conta de como é prazerosa a segurança de descobrir os próprios limites. Nem repara que passada a belíssima entrada da caverna, o ambiente vai ficando mais e mais sombrio. Quando se dá conta, já está completamente envolvida... a luz atrás de si continua a chamar numa penumbra mais e mais fraca a cada passo que ela dá em direção contrária, e as vozes hipnóticas que a chamam ficam cada vez mais intensas... ela sente seus sentidos confundidos, ate descobrir, desolada, que no meio das trevas palpáveis já não há como discernir cores, nem ver sorrisos ou apreciar o que é belo; nem mesmo o certo e o errado ou a direção a seguir podem ser discernidas com clareza. O cansaço vem, mas não se pode confiar nos abraços dos corpos que perambulam por ali, desesperados, desiludidos ou eufóricos na própria degradação. Corpos cujos rostos estão encobertos pela negritude, e que já não buscam sentimentos, mas apenas sensações, não mais amor, mas apenas alívio ou um momento de distração da própria dor.
Há uma saída, ela sente isso, mas também sabe que esta saída fica cada vez mais distante enquanto seus pés sangram no solo áspero e seu corpo sofre rente às paredes de rochas frias e agudas. A esperança agora é que as imagens do que foi visto sob a luz daquele caminho uma vez abandonado, alimentem o desejo de voltar até que venha uma mão forte e poderosa que lhe guie
Erramos diariamente por driblar a consciência, por tapar os olhos à luz da chama do Espírito Santo. É triste ver que os homens valorosos como os reformadores, lutaram com a vida para que tenhamos direito ao livre uso da consciência e ela hoje em dia seja tão pouco usada. Que tenham lutado tanto e tão corajosamente para termos a Bíblia em nossas mãos e nós a leiamos tão pouco, preferindo muitas vezes as hipnóticas vozes da escuridão que a voz mansa e suave da Palavra de Deus.
"Consola-te" exclamou Latimer a seu companheiro de martírio, quando as chamas estavam a ponto de fazer silenciar-lhes a voz; "acenderemos neste dia na Inglaterra uma luz que, pela graça de Deus, espero, jamais se apagará." (O Grande Conflito pág. 247). E no entanto a pergunta do mártir Tyndale, ainda que usada em outro contexto até oposto, continua ainda válida: "Deve a igreja ter menos luz ao meio-dia do que à aurora?" Naquele tempo os homens, apesar de terem pouca luz como fora determinado para seu tempo, ERAM luz, a ponto de flamejarem como tochas vivas! Hoje, cada profecia cumprida é um holofote sobre o mundo, e estudando a Palavra de Deus nos damos conta de quanta luz nos foi revelada e emana em feixes densos sobre aqueles que não se escondem na gruta do próprio eu, na caverna do Príncipe deste mundo... mas insistimos em ser velas. Velas que apagam ao soprar um vento mais forte. Precisamos ser fogueiras, que, quanto mais forte sopre o vento, tanto maior seja a chama a arder.
A caverna escura onde se adentra em busca de uma falsa segurança, e de novas paisagens sobre as quais os sentidos não têm força (ainda que só depois se descubra isso) será a mesma que estará sobre os que dirão "caí sobre nós" quando for manifesta a luz do rosto que todo olho verá.
Hoje é o tempo de andarmos na luz para a qual uma vez fomos chamados. Prosseguir no caminho e refletir a luz que incide sobre nós.

Uma semana feliz e muitíssimo iluminada!!

Lux Lunae

domingo, 28 de maio de 2000

importante x essencial

"Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem, quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais que o mantimento, e o corpo mais do que o vestido? ... Olhai para as aves do céu... olhai para os lírios do campo..." Mateus 6: 25, 26,28

Tem coisas que a mãe sempre faz mais gostoso. Comida de mãe é sempre a mais gostosa, abraço de mãe é sempre o mais caloroso, e da minha em particular, eu acrescentaria que a ela pertence o cheiro e a voz mais gostosos. Ontem à noite, sorvendo a calma segura da voz dela, eu me emocionei com uma historia que ela contou sobre a distinção entre coisas essenciais e coisas importantes. Ela contou que certa mulher procurou um padre (histórias de mãe católica sempre têm um padre) a fim de obter a solução para ajudar seu marido a recuperar a felicidade na vida. Acontece que ele, o marido, ao chegar a sexta-feira, chegava em casa cansado de todos os afazeres semanais e só queria saber de dormir. No sábado, após longas horas de sono que se estendiam até mais do meio-dia a fim de recuperar-lhe as forças físicas, ele começava a pensar em como faria para resolver os problemas pendentes que houvera deixado no trabalho. E se punha a arquitetar e planejar e buscar soluções, enquanto, angustiado por concluí-lo, se isolava da família a fim de obter maior concentração. Em vão eram as tentativas da esposa para fazê-lo sair e desfrutar da companhia dela e dos filhos. As preocupações dele se estendiam pelo domingo inteiro até que, na segunda-feira, sentada sozinha na sala de estar meia hora após o marido ter saído, ela ouvia o telefone tocar. Era ele: "querida... que saudade de você! Como te amo, como gostaria de estar com você agora..."
Difícil para esta esposa tentar explicar o porquê de seu marido ter a certeza que a amava e apreciava sua presença, mas não saber priorizar essa presença quando tinha a oportunidade de tê-la.
Minha mãe, que nada tem com Freud, explica: "É que às vezes trocamos as coisas essenciais pelas coisas importantes". As coisas essenciais, que tem a ver com a vida, o amor e Deus, não podem ser adiadas, esquecidas ou suplantadas pela coisa mais importante que não seja essencial. Acho que deveríamos parar de vez em quando para reavaliar nossa escala de valores, pensar sobre o que é realmente essencial e até que ponto estamos priorizando isto em nossas vidas.
Comentei há pouco tempo com certo amigo, de uma oportunidade em que pude perceber essa distinção fortemente. Eu trouxe apenas 2 malas para SP, mas as arrumei cerca de dez vezes até decidir o conteúdo que veio a chegar aqui... Fiz questão que fossem apenas duas para que eu trouxesse apenas o essencial (e isso é mais que filosofia prática, é economia com excesso de bagagem...). E cada vez que eu as arrumava, descobria a quantidade desproporcionalmente menor de coisas essenciais comparadas às que me eram apenas muito importantes. Descobri que poderia viver sem meus ursinhos de pelúcia, sem meus CDs, sem um monte de roupas, sem meu computador (poucos criam nisso) e até - supremo sacrifício - sem meus livros (nisto nem eu mesma cria). Por outro lado, reparei que ainda que eu esvaziasse as malas, não conseguiria colocar dentro delas as amizades verdadeiras e profundas que levei anos para conquistar, os lugares da minha cidade por onde passei, vivi, amei, o amor nas briguinhas e carinhos diários da minha família, nem coisas simples e gostosas como o abraço, a comida e o cheiro da minha mãe. Descobri que não precisava de malas; eu as trago dentro de mim .
Hoje, cada dia meu me pede para reconhecer e valorizar a nova essência que há para ser incorporada à minha vida. E eu agradeço ao Pai por esta consciência que me faz vivê-la de forma intensa. Não é bom perder algo essencial para reconhecer quantas coisas importantes você poderia ter deixado para depois, a fim de viver o que realmente importa... agora mesmo, olhando o pôr-do-sol aqui da praça da Bíblia no IAE, chego a conclusão que este cenário é um espetáculo muito mais essencial que os concertos da Sinfônica do RN que eu julgava tão importantes; foi sentando aqui para apreciá-lo que pensei na minha mãe e assimilei que o importante nem sempre é o que importa.
Sei de algo essencial que podemos fazer neste momento. Há uma voz mansa e suave nos chamando, que consegue ser mais gostosa e reconfortante que a da minha mãe. A começar por ouvir esta voz, descubramos e vivamos agora, tudo que for essência, e todo o resto pode esperar. No meio desta sociedade superficial, escutemos a nota encoberta pelo burburinho de coisas importantes.... escutemos a nota suave mas cálida, que toca profundamente a alma enquanto soa aos que permitem-se ouvi-la: "Vinde, e vede..."Jo 1:39
Lutemos por ser, prioritariamente, o que vier de Deus, da vida e do amor.

Uma semana feliz e iluminada!!

Lux Lunae

domingo, 21 de maio de 2000

Uma publicidade divina...

"Porque já é manifesto que vós sois a carta de Cristo, ministrada por nós,e escrita, não com tinta, mas, com o Espírito de Deus vivo, não em tábuas d epedra, nas tábuas d ecarne do coração." II Cor 3:3

Para mim que tenho um prazer imensurável em descobrir e conhecer, a vida está sendo uma festa constante... Andando pelas ruas desta cidade, onde "grande" é adjetivo ordinário e ainda assim incapaz de mensurar, vou me detendo nos detalhes das ruas, pessoas, casas, cores e sons, que me invadem os sentidos. É difícil não estampar no rosto a expressão entusiasmada dessa alegria sinestésica de novas sensações, estados, paisagens.
Hoje, enquanto voltava do supermercado, reparei num casebre ainda meio informe num terreno aqui no Parque Fernanda. A casinha cor-de-cimento tinha sua tonalidade triste cortada por uma pitoresca faixa com letras graúdas escritas em azul: "Agradeço a São Expedito pela graça alcançada". O riso foi imediato, não de crítica ou soberba teológica, mas um riso satisfeito de admiração. Que idéia genial, que maneira mais inteligente de mostrar gratidão! O estudante distraído que por ali passar, a dona-de-casa atarefada, o senhor de idade entediado, o operário cansado ou desanimado, o motorista nervoso, a criança agitada, o jovem sem expectativa ou num devaneio de expectativas perigosas, o advogado, o poeta ou o traficante, o ser humano feliz, desesperado, desumanizado, confuso ou convicto de suas certezas e incertezas, não podem passar por ali sem pensar que outro ser humano proclama abertamente a felicidade de ter uma graça alcançada. Impossível passar por ali sem de, alguma forma, por mais sui generis que seja, pensar em Deus.
Pensei em Jesus caminhando numa manhã de segunda-feira pelas ruas de Jerusalém... pensei em seus olhos profundos passeando por essas ruas, e casas, pessoas, cores e sons. Imaginei esses olhos entrando na essência de cada pequena coisa que formava a realidade ao seu redor, prescrutando o que havia escrito nela. A natureza usava seu esplendor para falar-Lhe: "Agradeço-te, Ó Cristo, pela graça alcançada de estares entre nós". E cada pequena criança Lhe falava num sorriso: "Agradeço-te Cristo, pela graça de em Ti estar o motivo de eu poder ter vida". Os olhos do ancião sussurravam com gravidade: "Agradeço-te, Ó Cristo, pela graça da esperança de em Ti ter vida eterna e em abundância". E mesmo na alma mais corroída pelo pecado, Cristo conseguia ver uma oração falando da graça salvadora ou clamando por Seu poder transformador. Posso imaginar o sorriso iluminado do Deus que nunca perdeu a fé no ser humano, do momento que abnegou Seu lar celestial e Sua realidade divina, até o momento em que, entre escárnios dos seres a quem amou, agonizava a morrer na cruz.
Um bom-dia de um velhinho de cor, muito sorridente, mas que eu nunca houvera visto, me faz voltar ao Parque Fernanda. Lembro de quantas histórias sobre violência, assalto, estupro, atropelamento e todo tipo de comportamento anti-social eu ouvi desde desde que decidi vir para São Paulo. E embora saiba que esta realidade é o que desfila caótica e cotidianamente na frente de nossos olhos, de maneira que ao nosso modo de viver, cabe seguir à risca o fado (e fardo) de sermos homens desalentados de temor, ainda acho que há mais felicidade em ver pelos olhos de Cristo.
Talvez sua rotina já não tenha tantas coisas para descobrir como a minha, mas é certo haver um mundo imenso para redescobrir, nessa mesma rotina, olhando através dos olhos de Jesus. E é fantástico aprender a ler as coisas, fatos e pessoas, mais a fundo, vendo o que há de bom escrito em sua essência. "o mundo embora caído não é só tristeza e dor. Há rosas sobre os espinhos e os cardos estão cobertos de flores" (Ellen White, Caminho a Cristo, pág. 9, citação de memória e sujeita a pequenas falhas :-))).
Os próprios seres humanos, criados à imagem e semelhança de Deus, carregam em si, não obstante séculos de corrupção pecaminosa, traços dEsse Deus. E ainda que nunca venhamos a ter aqui um vislumbre fiel do espírito dos seres que nos cercam, pudemos ao menos buscar transformar nosso nervo óptico à Semelhança do dAquele Verbo feito carne. Sabe o que é curioso? Quanto mais perto chegarmos dessa visão, mais conseguiremos expressar nós mesmo, em tudo que somos, uma prece de agradecimento e louvor, como se letras escritas pela Graça, crescessem se tornando mais e mais visíveis aos olhos de todos os passantes... seremos então a mais eficaz propaganda divina: cartas, faixas, outdoors de Deus...
Uma semana feliz e iluminada!

Lux Lunae

domingo, 14 de maio de 2000

Dicas Agrícolas do Espírito Santo

"Pois fostes regenerado, não de semente corruptível mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente" I Pe 1:23

Ontem à tarde vi pela primeira vez um pé de mexerica, lá na casa da Miriam. Aliás, nunca vi tanta mexerica junta, nem qdo ía 'a feira com mãe (neste caso, para comprar " laranja cravo" , como nós chamamos lá). Depois de passar horas e horas cortando e cortando e cortando mexericas para fazer suco, olhando aquelas sementinhas, fiquei pensando em algo que eu já havia reparado há algum tempo... Cada novo fruto que nasce já traz dentro de si uma ou mais sementes. É impossível que, em sua formação, juntamente com a polpa não se forme tb a semente.
Também é impossível que o cristão não nasça no reino de Deus como missionário. A semente da verdade "nasce" com ele no batismo. E lugar de semente é o vento, nas mãos de Deus, sendo levada para onde Ele quer semear. É assim que saímos pelo meio do mundo espalhando as sementes das Boas-Novas do Evangelho. Não importa se a(s) semente(s) que tenho nas mãos são poucas ou muitas, se é uma só, como a do abacate (será que chamam assim aqui tb??). Se são pequenininhas como a do tomate, se são delicadas como as da maçã, ou qse imperceptíveis como as da mostarda. Todas são sementes, todas têm o potencial de fazer nascer, todas devem ser lançadas.
Nosso Deus é um artista que ama a diversidade, em cores, formas, texturas e tb talentos... Lançadas as sementes, deve-se confiar em Deus. Primeiro a semente finge-se de morta, mas isso é apenas sinal que ela está germinando. Minha palavra ou testemunho expresso das mais diversas formas, ao atingir um coração fértil (e isso já não é preocupação ou responsabilidade da semente, mas do de um phd em engenharia agrícola espiritual chamado Dr. Espírito Santo), vai ser só a semente que logo vai morrer para dar lugar a uma nova planta: a fé nova desse coração tocado por Deus. E aí caberá ao Dr. Espírito Santo cuidar de tudo o que precisa alimentar esta plantinha. Inclusive me usar para isso tb.
Hoje é tempo de semear, embora saibamos que a colheita ainda não se fez pq adiamos a cada dia esta atitude. O pé de laranja-cravo, aliás, de mexerica, da Miriam tem uma história interessante. Ele não foi plantado no quintal dela através de muda ou enxerto. O pai dela plantou a sementinha e agora, mesmo depois de ter falecido, ela sente que ele deixou algo de muito bom dele com ela (e eu concordo!) e já disse que no sítio que eles compraram há pouco, vai ter muitos pés de mexerica plantados com as sementes daquela árvore, que ela já sabe ser uma ótima produtora de frutos saborosos.
Que nesta semana que se inicia, lembremos de jogar nossas sementes ao vento com a ajuda do nosso Mestre Agricultor. E que esta semente germine e se perpetue em muitas almas que haverão de conhecer a glória da Eternidade. Assim, será muito comum esta pequena cena no céu:
- Ei! Psiiu!
- Oi!!! É comigo? (nos primeiros dias da eternidade não vai dar para conhecer todo mundo, raciocinando humanamente heheheh)
- Tá lembrado de mim? Foi você que apertou minha mão e me deu um sorriso muito carinhoso naquele sábado de manhã lá naquela igrejinha, lembra? Por sentir amor ali, comecei a frequentar a igreja e conheci Jesus, de forma que hoje estou aqui! Obrigada!
Uma semana feliz e iluminada!

Lux Lunae

domingo, 7 de maio de 2000

Êxodo: conversão mental

"Então, naquela mesma noite, [o Faraó] chamou a Moisés e a Arão e lhes disse: Levantai-vos, saí do meio do meu povo, assim vós como os filhos de Israel; ide, servi ao Senhor, como tendes dito." Êxodo 12:31

Merari acordou ouvindo aquela doce voz familiar:
-Merari! Acorde... você tem que partir agora...
De um salto ele se ergueu da cama e olhou para o rosto de Nefert onde escorriam algumas lágrimas num semblante cheio de dor. Ela pegou as mãos do garoto e, tentando controlar o pranto, lhe explicou o que ocorrera enquanto ele dormia. Todo o Egito estava assustado e pasmo, o próprio Faraó, conhecido por sua dureza e inflexibilidade, estava angustiado a tal ponto que cedera aos apelos de Moisés. Agora todos os primogênitos egípcios estavam mortos, e o povo se apressava em expulsar os hebreus dali, pois já não suportavam mais tantas pragas divinas subsequentes. Todos estavam com medo e aflitos, ansiosos por ver aquele povo que trouxera tanta maldição aos egípcios, longe o quanto antes. E terminou seu relato com a voz mais doce, dizendo:
- Vá meu menino... você e seu povo estão livres!
Merari estava atônito com tantas coisas ao mesmo tempo. Ele sabia que Moisés estava tentando convencer o Faraó a libertar o povo hebreu, e todos tinham esperança que Javé conseguisse vencer o Faraó, mas ele não estava preparado para acontecimentos tão rápidos assim. Merari nascera no Egito e sua mãe, uma hebréia consumida pelas adversidades daqueles dias de opressão, morrera de parto, deixando o menino órfão e o pai sem ter como cuidar dele. Foi quando apareceu Nefert, uma viúva egípcia sem filhos que convenceu ao pai a comprar o menino como servo mas tratar-lhe dignamente. E assim o fez. Durante todo o tempo que esteve na casa de Nefert, Merari cumpria suas obrigações de servo mas era tratado com carinho por ela, que lhe dava condições de vida muito superiores a da maioria dos meninos hebreus. Ele fez algumas amizades com meninos egípcios e Nefert tinha planos de que ele aprendesse a escrita egípcia. Mas apesar de todos os privilégios, o sangue de Merari era de um hebreu... e ele nunca se sentira completamente a vontade no meio dos egípcios, que não compreendiam suas crenças, seu Deus, suas metas. Nefert o respeitava nesse sentido, nunca tentou impôr sua religião ao menino, mas também não se permitia crer na religião monoteísta professada pelo povo dele. A muito custo ele conseguiu convencê-la a colocar o sangue do cordeiro na porta da casa dela no dia anterior, como Moisés ordenara. Merari sentia falta de conviver com seu povo, de vê-lo livre e ser livre para servirem ao Deus em que criam. Sentia falta da compreensão, da partilha, de unidade e integração que preenchessem sua vida espiritual. Queria poder ser livre para realizar seus sonhos como um hebreu, sem sentir que estava sendo desagradável ou incompreendido por sua senhora amiga Nefert e pelos egípcios que conviviam com ele. Orara muito a Deus pedindo uma oportunidade para isso, e quando soube que Moisés viera ao Egito com a missão de libertar o povo hebreu, não conseguia mais controlar a ansiedade por ir com ele e começar uma nova vida, sentindo a presença real de Deus e vivendo pelos cuidados e providência de Javé.
E agora Merari olhava Nefert com carinho ali, sentindo que ela estava sofrendo em ficar sozinha. Que ela não poderia ir com ele, mesmo que ele insistisse muito para que ela o acompanhasse... apesar dela ter um amor maternal pelo garoto, jamais conseguira entender e aceitar o sonho dele. O jovem hebreu se levantou ainda atordoado, e com a ajuda dela começou a pegar as suas coisas para a partida. Enquanto ía, rapidamente arrumando o que podia, olhava os objetos da casa com nostalgia: a mesa onde tantas vezes, depois de um longo dia trabalhando, Nefert havia lhe feito sentar para saborear as comidas que ela preparara com ternura, alguns brinquedos que ganhara dela ainda em sua infância e que conservava guardados carinhosamente, o jarro com flores que ainda ontem ele colhera para ela, em cada coisa havia uma lembrança de anos partilhados. Mas o tempo urgia e lá fora já se ouvia uma confusão de vozes humanas e barulho de animais em marcha. Não, ele não imaginara que seria assim tão rápido, que Deus agiria de forma tão maravilhosamente breve, e que não daria tempo nem de se despedir de todos os seus amigos egípcios e de enxugar as lágrimas de Nefert.
Merari se deu conta do que estava deixando para trás.. de todo o conforto, amizade, carinho, possibilidades que haviam para ele ali no Egito. Se deu conta que estava indo para o deserto sob a orientação de um homem que ele não conhecia, numa situação completamente imprevisível! O deserto não era apenas um lugar inóspito, mas com perigos imprevisíveis à espreita, ameaçando os viajantes inexperientes como ele, atraiçoando até
mesmo os que julgavam conhecê-lo mais. Além disso, os hebreus eram seu povo, mas Nefert era a sua família... e o Egito foi onde ele cresceu. Mesmo sabendo que , como hebreu, ele não poderia ser muita coisa ali, sua vida não era ruim, ele tinha tudo que precisava. Se ao menos Deus lhe tivesse dado mais tempo para se acomodar àquela situação, para assimilar tudo que estava acontecendo, as consequências que aquilo traria para a sua vida! No entanto, tempo era o que ele menos tinha... e agora era hora de deixar tudo para trás, tudo que construíra, que sonhara para realizar no Egito, os laços emocionais que o prendiam ali, e seguir confiando tão somente na promessa da liberdade e prosperidade que Deus prometera ao seu povo caso este confiasse nEle e fizesse a Sua vontade. "Que seja feita a vontade de Deus e não a minha!" foi o que pensou enquanto abraçava Nefert sem saber se algum dia tornaria a vê-la ou quanto tempo isso demoraria. Sem saber mais nada, a não ser que estava sendo guiado pela misericórdia divina.
Sabe amigos, eu sei exatamente como Merari se sentiu quando virou-se de costas para o lar onde cresceu e foi embora. Claro que ele tinha seu próprio contexto subjetivo, mas há sentimentos que os seres humanos sempre sentem num dado momento na vida. Há sempre uma hora em que precisamos recomeçar, mudar radicalmente, voltar à estaca zero. Isso no nosso lado afetivo, profissional , material ou espiritual, ou tudo ao mesmo tempo como foi o caso do nosso amigo hebreu. Perder a estabilidade, seja por um recomeço, mudança ou perda, é sempre uma experiência que envolve insegurança, receios e dúvidas, mesmo considerando a capacidade de cada um, individualmente, para lidar com isso.
No caso de nosso amiguinho aqui, tínhamos um jovem de fé e temente a Deus, que vivenciou a atuação deste Deus através do vários sinais dos quais Moisés foi canal naqueles dias. Seria o que hoje chamaríamos de um cristão convicto e verdadeiro, zeloso e fiel. Mas foi somente na experiência do Êxodo que Merari sentiu a totalidade da sua conversão, vindo a conhecer a conversão mental. O tipo de conversão a que Jesus se referia ao dizer: "Amarás o Senhor teu Deus... de todo o teu entendimento" Mateus 22:37.
Uma mente convertida é aquela que reconhece a necessidade de Deus acima do próprio Eu, e da fé acima da autosuficiência. Sabe, antes de qualquer coisa, raciocinar segundo uma confiança que provém da certeza que Deus está a controlar, e a partir disso permite que sua vida seja estruturada nos moldes divinos e não sob as próprias perspectivas. Isso influenciará de forma decisiva a maneira de encarar a vida e a si mesmo, de uma forma macro, micro ou laptop hehehe. Um cristão que passa pela conversão mental tem uma visão diferenciada do seu papel e do papel de Deus, consegue ver a atuação divina e descansar nessa visão, mesmo que ela seja a de uma pessoa querida chorando, da porta do seu lar ficando cada vez mais distante, do seu filho entrando numa sala de cirurgia, ou não saindo com vida dela, de uma marcha do deserto do desconhecido, de uma campo de batalha desolado onde você vê em tudo sinais de derrota, de um exército inimigo vindo em sua direção enquanto você canta, ou até mesmo dos soldados do seu exército abandonando o campo de batalha.
Merari, naquele dia, libertou-se não apenas da escravidão egípcia, mas de uma escravidão ainda mais algoz: a escravidão de si mesmo e de todas as coisas que o prendiam à impossibilidade de se entregar completamente a Deus. Livrou-se da tensão, ocupação e preocupação de depender de si mesmo, do desgaste enorme de força emocional e mental que vem da necessidade de achar garantias para si mesmo em coisas e pessoas, o tempo todo, para poder se sentir seguro (enquanto se julga estar sendo independente). Percebeu a liberdade no fato de não ter que se sentir "útil" e "importante", um "cara legal" em que Deus poderia confiar, pois o amor a Deus se perfaz justamente na capacidade de reconhecer as incapacidades, e permanecer tranquilo e sereno , coberto por Suas penas, seguro sob Suas asas, escudado por Sua Verdade (Salmo 91: 4).
Livre como na música da Sandy Patty: "You set me free, to fly, to soar to places I've not been before.. the boundaries of humanity cannot contain what You set free!"¹. Sentir a hora de estar sob as asas do Pai e a hora em que as próprias penas já cresceram, que o sangue de águia pulsa forte pedindo para alçar as alturas, cada músculo expressa a ânsia de quem nasceu para voar, e num frêmito se lança em vôo, enfrentando o risco das alturas, mas indo além das montanhas guiado pelo vôo do seu Pai.
Pode parecer poético, mas nem tente fazer com que a conversão mental seja racional... a entrega e o relacionamento com Deus a partir desta experiência assume um nível bem superior de racionalidade: a racionalidade divina, aquela, que a nossa visão não alcança e quando vislumbra, parece ver uma grande loucura ( I cor. 1:18, 2:14). Amar ao Senhor de toda a mente: buscá-lo através da doação de si mesmo, não se conformar com a mediocridade e a incompletude; ir além, até onde ele te fez capaz de ir, sentindo que você é um Filho de Deus em toda a sua totalidade.
Lançar fora a pretensão de querer saber tudo e o medo de não entender nada. Não se conformar com o que Deus fez por nós, mas fazer disso um motivo a mais para anelar absolutamente tudo que Ele ainda quer fazer. E a partir disso, experimentar, lembrar, compreender, fazer hipóteses e discernir como homem espiritual... "e a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e as vossas mentes em Cristo Jesus." Filipenses 4:7
E sabem? Apesar deste frio na barriga, eu quero alçar vôo...literalmente!;-)
Uma semana feliz e iluminada!!!

Lux Lunae